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  • O Saber que Navegava

    Entre as naus e os portos, havia ciência sefardita a manter Portugal no rumo. Nos séculos em que o mar parecia não ter fim, Portugal construiu a sua epopeia sobre um alicerce que raramente nomeia: o saber sefardita. Entre mapas, cartas náuticas, técnicas de cálculo e línguas estrangeiras, havia mãos e mentes judaicas a traduzir o mundo para que o mundo coubesse nas naus. Eram astrónomos que liam o céu sem o poluir com superstição. Eram médicos que estudavam o corpo humano com um rigor que escapava ao medo medieval. Eram intérpretes que conheciam os mercados do Norte de África e do Levante, abrindo rotas e fechando tratados. E, no entanto, muitos desses nomes foram riscados dos livros ou sobrevivem disfarçados em pseudónimos de conveniência. O Portugal que se orgulha da sua expansão raramente recorda que, sem esses saberes, teria navegado menos e mais tarde. É mais cómodo celebrar os feitos do que reconhecer as dívidas. Mas a verdade histórica não é devedora do conforto nacional. Quando a perseguição caiu sobre eles, não foi só um grupo humano que partiu: foram bibliotecas vivas, redes comerciais, escolas de pensamento. O país ficou mais pobre e nem se deu conta no momento. E talvez a nossa fragilidade científica e económica, tantas vezes repetida ao longo dos séculos, tenha começado nessa amputação. O saber que navegava não se afogou — dispersou-se. E, onde quer que tenha aportado, ajudou outros portos a crescer. Talvez seja tempo de assumir que a História não é um álbum só de vitórias, mas também um inventário do que deixámos escapar pelas nossas próprias mãos. AC História de Portugal, sefarditas, descobrimentos, ciência, economia, cultura portuguesa, identidade nacional #HistóriaDePortugal #Sefarditas #Descobrimentos #Ciência #Economia #CulturaPortuguesa #IdentidadeNacional

  • Porque se chama “Caderno”?

    📎 Perguntas adicionais para a FAQ do Caderno: Porque se chama “Caderno”? Porque é onde se escreve com margem. Onde cabem as rasuras, os parágrafos interrompidos, os segredos não entregues. Um caderno é mais íntimo do que um livro, menos solene que um jornal — e, por isso mesmo, mais verdadeiro. O Caderno tem datas fixas de publicação? Não. Publica-se quando há algo que precise de ser dito. Às vezes, o silêncio também faz parte do que se escreve. Posso comentar os textos? Ainda não. Estamos a estudar formas de permitir o diálogo sem que ele se transforme em ruído. Para já, os comentários chegam por carta ou por dentro. Porque é que alguns textos parecem cartas e outros parecem contos? Porque cada texto nasce com a sua forma. Há dias em que se escreve como quem pede desculpa. Outros, como quem conta o que não aconteceu. Mas todos dizem algo que não podia ficar por dizer. Se ainda não leu o segundo conjunto de perguntas, está aqui à distância de um gesto: Ver a FAQ – Segunda Margem Há alguma ligação entre os textos e a realidade política? Sim. Mas não é literal. A realidade aparece como um eco, não como manchete. Escreve-se para contrariar o esquecimento — mesmo quando o tema é invisível. Os textos falam de política? Falam da realidade — quando ela se impõe. Às vezes é uma notícia, outras uma injustiça. Nem sempre é política no sentido estreito, mas é sempre escrita com consciência do tempo em que vivemos. Porque é que não aparecem fotografias de quem escreve? Porque a escrita é a única assinatura que nos interessa. Os rostos mudam. As palavras ficam. Há algum compromisso ideológico? Sim: com a liberdade, com a justiça e com a ternura. O resto é ruído. É possível colaborar de outras formas? Sim. Lendo com atenção. Partilhando com critério. E, se quiser mesmo muito, escrevendo-nos uma carta — daquelas que se leem devagar. Caderno com anotações invisíveis #PerguntasComMargem #CadernoVivo #EscritaComConsciência #AlbertoCarvalho #TextoEcos #LiteraturaSilenciosa #PolíticaComoEco #LeituraCúmplice #FAQComAlma

  • A Desconfiança de Peito Fechado

    A Desconfiança de Peito Fechado Há argumentos que não nascem da razão — nascem do ressentimento. E quando se fala de amamentação, os que pedem "limites" raramente querem proteger os bebés ou ajudar as mães. Querem, isso sim, proteger a ordem das coisas tal como ela é: desigual, desconfortável, masculina e hierárquica. Manuel Lemos, figura conhecida da saúde e da política social, acaba de dizer que há “abusos” no direito à amamentação e que, por isso, é preciso “definir limites”. Não apresenta números, nem estudos, nem experiências clínicas. Apresenta uma opinião — e ergue-a como doutrina. Fala como quem já viu de tudo e, por isso, já não acredita em nada. Nem no leite que alimenta, nem nas mães que o oferecem. É sempre assim: quando uma mulher amamenta em público, incomoda. Quando o faz no trabalho, atrapalha. Quando exige condições para continuar a fazê-lo, abusa. O que se exige dela, em silêncio, é que o faça às escondidas. Sem pedir nada. Sem faltar. Sem mostrar. Essa desconfiança de peito fechado — fria, moralista, paternalista — revela muito mais do que as palavras ditas. Revela a dificuldade que uma certa elite tem em compreender o que não viveu. Ou o que não quer ver. Fala-se de amamentação como se fosse um luxo. Um privilégio a que algumas se agarram para não trabalhar. E não como o que é: um gesto primário de nutrição, vínculo e amor. A ideia de que há mulheres a fingir que amamentam para ganhar tempo ou subsídio é repugnante — não apenas por ser falsa, mas por ser politicamente venenosa. Cria o retrato de uma mulher oportunista, manipuladora, sem ética. E prepara o terreno para uma coisa ainda mais grave: a criminalização da maternidade. Se há quem abuse do sistema, que se investigue. Mas que não se acuse todas para justificar um ataque legislativo. Não se reforma a lei com base no boato, nem se escreve política pública com medo de fantasmas. O que se esperaria de um responsável com cargos públicos — e com memória histórica — era outra atitude: proteger os mais frágeis, garantir direitos, promover a confiança. Mas não: prefere-se a suspeita. Prefere-se lançar a ideia de que as mulheres devem ser controladas, vigiadas, limitadas — sobretudo se quiserem cuidar dos seus filhos. Talvez se tenha esquecido que o verdadeiro abuso é outro. É usar uma tribuna para fazer política contra quem cuida. É lançar suspeitas públicas sem provas. É reduzir um gesto humano a uma fraude potencial. E se há limites a definir, comecemos por este: que se diga, com clareza, que a maternidade não é um problema — é um direito. E que os homens que nunca amamentaram não venham ensinar as mulheres a fazê-lo. AC Biberão vazio sobre uma secretária, com papéis e carimbo ao fundo — símbolo da burocracia sobre a maternidade.

  • Teletrabalho à Venda | Como o Governo Está a Privatizar os Nossos Direitos

    A Corda e o Telemóvel Durante anos disseram-nos que o teletrabalho era o futuro. Que reduziria a pegada ecológica, equilibraria a vida familiar, descentralizaria as oportunidades. Era a utopia da conciliação, vendida com fundo branco, estantes organizadas e sorrisos ao Zoom. Mas como tantas promessas modernas, também esta veio com rodapé: o que parece um direito, é muitas vezes apenas uma oportunidade para cortar custos. E quando os cortes se fazem à conta da dignidade, não há modernidade que nos salve. O Governo aprovou um anteprojeto que abre caminho à redução de direitos associados ao teletrabalho. Em nome da negociação coletiva, abre-se a porta para que normas como o pagamento do trabalho suplementar ou a rigidez do horário possam ser “adaptadas” — leia-se, diluídas — por convenções que, na prática, nem sempre protegem o lado mais fraco. É uma engenharia jurídica discreta: não se elimina o direito, apenas se flexibiliza. Não se rasga o Código do Trabalho, apenas se permite costurá-lo de outro modo — mais barato, mais “competitivo”, mais conveniente para quem decide. Mas há uma verdade que insiste em manter-se inteira: o teletrabalho pode ser uma conquista civilizacional, sim — mas também pode ser o novo nome da precariedade. Em Portugal, como se sabe, a negociação coletiva não é um campo nivelado. Os grandes sindicatos, por mais firmes que sejam, enfrentam empresas onde a pressão por “resultados” ou “eficiência” facilmente se sobrepõe à memória das lutas laborais. E do outro lado, muitos trabalhadores isolados, em casa, entre e-mails e microfones desligados, sem a força do coletivo, nem sequer do olhar do colega ao lado. Que negociação real pode haver assim? A ideia de que o “direito ao teletrabalho” não está em causa é uma meia-verdade. Porque um direito esvaziado de condições materiais para ser exercido não é um direito: é um simulacro. Se trabalhar em casa significa estar sempre disponível, se as horas extra deixam de ser pagas por convenção, se o descanso se torna ambíguo — então o teletrabalho deixa de ser uma conquista e passa a ser uma forma nova, e mais difícil de vigiar, de exploração. E sim, podemos admitir que haja exceções: realidades onde patrões e trabalhadores chegam a bons acordos, com equilíbrio e visão. Mas a legislação não se deve fazer a pensar nas exceções — deve proteger contra os abusos. Talvez o mais inquietante nisto tudo seja o tom com que o Governo apresenta a proposta: como quem resolve um problema técnico. Como se reduzir encargos fosse um gesto neutro, desprovido de consequências humanas. Mas não é. Cortar um direito é sempre uma decisão política — e ética. É escolher um lado, mesmo quando se finge imparcialidade. Dizem-nos que a medida trará “mais margem” para as empresas. O que não nos dizem é onde fica, nessa margem, a vida concreta das pessoas. A sua exaustão invisível. O seu quarto transformado em escritório. A ansiedade de receber notificações fora de horas. A solidão que não se vê nas folhas de Excel. O teletrabalho não é inimigo da justiça social — mas pode ser, se continuar a ser tratado como um privilégio individual e não como um direito coletivo, regulado com clareza e exigência. Porque o que está em causa não é só um modelo de trabalho — é o modo como queremos viver. Se a economia precisa de flexibilidade, que seja com responsabilidade. Se as empresas precisam de espaço para respirar, que não seja à custa de quem trabalha até tarde sem saber quando desligar. Num país onde a produtividade raramente se traduz em qualidade de vida, a corda não pode continuar sempre do mesmo lado. Porque um telemóvel ligado 24 horas não é liberdade. É servidão com wi-fi. AC Um mulher trabalha a partir de casa sob novas regras de teletrabalho em Portugal #Teletrabalho #DireitosLaborais #TrabalhoDigno #Precariedade #CódigoDoTrabalho #Portugal2025 #JustiçaSocial #AlbertoCarvalho

  • Segunda Margem

    FAQ – Segunda Margem Há perguntas que não nascem por dúvida, mas por companhia. São aquelas que se fazem a quem escreve de forma diferente — como quem bate à porta, e não toca à campainha. Aqui ficam algumas dessas perguntas. Mais íntimas, mais lentas. São sobre o nome, o tom, o tempo, e o gesto. E nenhuma delas exige pressa. Há textos que não entendo à primeira. Isso é normal? É. Nem tudo foi escrito para ser decifrado no instante. Alguns textos são como cartas esquecidas numa gaveta — só revelam o que trazem quando o leitor está pronto. E às vezes, é o não entender que nos faz voltar a ler. Porque é que o Caderno parece falar comigo, mesmo sem me conhecer? Porque foi feito para isso. Cada texto foi escrito como se tivesse um destinatário secreto. Se o encontrou, talvez seja porque o era. O que acontece aos textos que não são publicados? Ficam em silêncio. À espera. Às vezes voltam com outra forma. Outras vezes, não voltam — mas ensinaram quem os escreveu. Porque nem tudo o que se escreve precisa de ser dito. Há palavras que só querem existir. Porque se chama “Caderno”? Porque é onde se escreve com margem. Onde cabem as rasuras, os parágrafos interrompidos, os segredos não entregues. Um caderno é mais íntimo do que um livro, menos solene que um jornal — e, por isso mesmo, mais verdadeiro. O Caderno tem datas fixas de publicação? Não. Publica-se quando há algo que precise de ser dito. Às vezes, o silêncio também faz parte do que se escreve. Posso comentar os textos? Sim. Desde há pouco tempo, o Caderno permite comentários. Há uma caixa de diálogo — discreta — para quem quiser acrescentar silêncio com palavras. Há textos que não entendo à primeira. Isso é normal? É. Nem tudo foi escrito para ser decifrado no instante. Alguns textos são como cartas esquecidas numa gaveta — só revelam o que trazem quando o leitor está pronto. E às vezes, é o não-entender que nos faz voltar a ler. Estas respostas continuam outras, escritas com a mesma margem. Ler o primeiro FAQ do Caderno Porque é que o Caderno parece falar comigo, mesmo sem me conhecer? Porque foi feito para isso. Cada texto foi escrito como se tivesse um destinatário secreto. Se o encontrou, talvez seja porque o era. O que acontece aos textos que não são publicados? Ficam em silêncio. À espera. Às vezes voltam com outra forma. Outras vezes, não voltam — mas ensinaram quem os escreveu. Porque nem tudo o que se escreve precisa de ser dito. Há palavras que só querem existir. Estas perguntas não fecham a porta. Deixam-na apenas entreaberta. Se houver mais silêncio, ou mais vontade, escreva-nos. No fundo, o Caderno é também isso: uma página à espera de ser lida — e respondida. Páginas por Escrever #SegundaMargem #FAQLiterário #CadernoAberto #LeituraComAlma #AlbertoCarvalho #PerguntasLentas #EscritaComSentido #SilêncioQueFala #TextoVivo

  • As Chaves que Portugal Perdeu

    Nem todas as expulsões se medem em quilómetros; algumas pesam séculos inteiros. Há um rumor que atravessa séculos: o som de uma chave a rodar numa porta que já não existe. Para muitos sefarditas expulsos, essa chave — real ou imaginada — foi guardada como se guardasse a própria terra. Não era ferro apenas: era casa, memória, pertença. Portugal tem dificuldade em imaginar-se como país que expulsou os seus. Preferimos falar das caravelas e das partidas para o mundo, não das fugas apressadas pela noite, com documentos falsos, ouro escondido nas costuras e filhos a perguntar para onde iam. No entanto, a história é feita também dessas portas fechadas para sempre. Entre os séculos XV e XVII, não perdemos apenas cidadãos; perdemos médicos, tradutores, navegadores, banqueiros, astrónomos, poetas. Perdemos quem tinha mapas diferentes, redes diferentes, ideias diferentes. Perdemos camadas de inteligência que poderiam ter tecido um país menos desconfiado e mais cosmopolita. E, contudo, parte desse Portugal viajou dentro deles. O português misturou-se com o hebraico em canções e orações, resistiu em bairros de Salónica, Istambul ou Amesterdão, atravessou gerações como quem carrega um brasão invisível. É por isso que, quando reencontramos hoje descendentes de sefarditas, o espanto não está apenas no parentesco biológico — está na sobrevivência de uma língua, de uma melodia, de um tempero que a distância e o tempo não conseguiram dissolver. As chaves que Portugal perdeu não foram todas para o fundo do mar. Algumas ficaram nas gavetas da memória, à espera de um gesto que seja mais do que simbólico. Porque só quando reconhecemos que fomos também nós a trancar a porta é que podemos ter a coragem de abri-la de novo. AC Símbolo Judaico #HistóriaDePortugal #Sefarditas #Expulsão #CulturaPortuguesa #MemóriaColetiva #IdentidadeNacional #Inquisição

  • Justiça à Medida do Partido

    Dois Pesos Pedro Magalhães é investigador, cientista político, e um dos rostos mais respeitados da análise empírica da opinião pública em Portugal. No dia 28 de Julho de 2025, partilhou no seu perfil de Twitter os resultados de um estudo que deveria preocupar — e envergonhar — todos os democratas, sejam eles de direita, de esquerda ou do centro sem morada. O estudo, realizado com Rui Costa Lopes, Nuno Garoupa e Luís de Sousa, e publicado na revista Political Psychology, parte de uma pergunta simples e inquietante: será que os portugueses valorizam de forma igual os direitos fundamentais dos acusados — como a presunção de inocência ou o direito à reputação — consoante o partido do político acusado? A resposta, infelizmente, é clara: não. No inquérito experimental, os investigadores apresentaram aos inquiridos um cenário genérico de corrupção: um político suspeito de receber dinheiro em troca de favorecer um concurso público. Depois, pediram que os participantes avaliassem a importância de proteger certos direitos do acusado: a privacidade, o bom nome, a presunção de inocência. Mas havia uma variável escondida: o político em causa, na história apresentada, era ora líder do partido preferido do inquirido, ora apenas um militante desse partido, ora alguém do partido mais detestado pelo inquirido. O resultado foi cru e inequívoco: os portugueses defendem o Estado de Direito quando lhes convém. Se o político era do seu partido de eleição, os inquiridos consideravam “muito importante” que se protegessem os seus direitos fundamentais. Se era do partido rival, esses mesmos direitos tornavam-se secundários. A justiça, afinal, muda de peso conforme a camisola. É uma constatação grave. E não é nova — mas é agora medida com rigor científico. A literatura internacional já identificava esta tendência: a justiça como campo de batalha política, onde o garantismo é privilégio dos “nossos” e a punição exemplar é dever perante os “outros”. O estudo agora publicado vem confirmar que também em Portugal, mesmo entre eleitores comuns, há uma erosão ética profunda: uma espécie de justiça tribal, em que o crime é menos grave se cometido por quem fala como nós, e os direitos do acusado são mais incómodos se ele votar ao contrário. Não é apenas hipocrisia: é a falência moral de uma cultura cívica. Porque se os princípios democráticos — como o direito ao bom nome, à privacidade, ao devido processo — forem vistos como instrumentos estratégicos em vez de garantias universais, então deixaram de ser princípios. Passam a ser armas. Usadas por uns para abater os outros. Neste contexto, a Justiça perde o seu valor simbólico e torna-se uma arma branca de arremesso — que só corta num sentido. Pedro Magalhães, com a sobriedade habitual, resume a conclusão no último tweet: “Na responsabilização criminal, é preciso defender os direitos dos meus, mas acabar com o excesso de garantismo para os outros.” Essa frase devia estar afixada à porta de cada parlamento, de cada redação, de cada tribunal. Porque isto não é um desvio da norma — é o espelho da cultura política dominante. É por isso que se abrem telejornais com buscas ainda sem acusação. É por isso que se destrói a reputação de uma pessoa em três minutos e se pede contenção só quando é “dos nossos”. É por isso que a justiça se enreda em ciclos de suspeição pública, enquanto os verdadeiros culpados — sejam eles quais forem — se escondem atrás da lama que todos ajudaram a levantar. Não escrevo para defender culpados. Escreve para defender a ideia de que todos — todos — devem ser protegidos pelo mesmo conjunto de direitos. Porque se há algo mais perigoso do que um corrupto impune, é um inocente linchado por conveniência partidária. E se queremos uma democracia limpa, ela começa — não no fim dos julgamentos — mas no início das nossas convicções. AC O juízo moral mudou de lugar: foi parar às bancadas do estádio político #JustiçaComDoisPesos #PedroMagalhães #Corrupção #EstadoDeDireito #AlbertoCarvalho #CulturaCívica #EstudoPolítico #PresunçãoDeInocência #Democracia #PolíticaPortuguesa

  • Culpa Hereditária

    CULPA HEREDITÁRIA Foi preciso Mário Centeno levantar os olhos para se ouvir o que tantas vezes se cala: “Não é a mulher de ninguém. É a Rita Poiares.” E, nesse instante, não foi apenas um governador a responder. Foi um país inteiro que se viu ao espelho — e o que lá estava não era bonito. Porque em Portugal, ainda hoje, quando uma mulher sobe, é quase sempre arrastada por insinuações. Não se pergunta se é competente. Pergunta-se com quem está. Não se olha para o currículo. Olha-se para o apelido. É assim no Estado, nos partidos, nos jornais e nos corredores dos ministérios. A ideia de que uma mulher só chega longe se “alguém” a empurrou — ou se “ela própria” se deitou — continua a circular com a naturalidade dos lugares comuns. E ninguém se indigna, porque “sempre foi assim”. Mas não é. Nem sempre foi. Nem tem de continuar a ser. Desta vez, cruzaram-se com Mário Centeno — e ele respondeu. Mas na maioria dos casos, as mulheres não têm quem as defenda em direto. E então, o boato instala-se, o mérito apaga-se, e a violência simbólica passa por normalidade. Mais grave ainda: são os mesmos que acusam que depois negam direitos mínimos às mesmas mulheres. A extrema-direita que desvaloriza a ascensão de uma mulher é a mesma que quer apagar o direito ao luto de uma mãe que perde um filho antes de nascer. Que se recusa a reconhecer a dor. Que transforma a vida em bandeira, mas não em compaixão. Há feridas que não se curam com leis. Curam-se com lucidez — e com coragem. A mesma coragem que falta a tantos homens para reconhecer que o sucesso de uma mulher não é uma ofensa à sua virilidade. É tempo de falar disto. Alto e claro. Porque há mulheres que se sentam à mesa do poder, sim. Mas não para servir cafés — para decidir. E não por serem esposas, filhas ou conhecidas — mas porque são capazes. Porque estudaram. Porque trabalharam mais do que muitos. E porque aguentaram caladas o que nenhum homem toleraria. As palavras de Centeno disseram mais do que mil editoriais. Mas não chega. Agora é preciso que o país inteiro diga o mesmo. AC MULHER #CulpaHereditária #DireitosDasMulheres #MéritoFeminino #IgualdadeDeGénero #ChegaDeMachismo #Portugal2025 #RitaPoiares #MárioCenteno #MulheresNoPoder #ViolênciaSimbólica

  • O Roubo Não Foi Só de Imagens

    O Roubo Não Foi Só de Imagens Roubaram 72 mil imagens de uma aplicação usada por mulheres para encontros seguros. Não foi um ataque a um servidor. Foi um ataque a um território íntimo, onde cada fotografia era um gesto de confiança, uma tentativa de liberdade, um lugar onde o medo parecia — por fim — não entrar. Mas entrou. Como entra sempre. Disfarçado de progresso, camuflado de neutralidade tecnológica, dissimulado sob a ideia de que "são só dados". Não são. São rostos. São corpos. São fragmentos de dignidade, organizados em retratos que as próprias escolheram partilhar — não com o mundo, mas com alguém. A TEA App, criada para proteger mulheres de perfis falsos, de encontros tóxicos, de homens com cadastro, foi invadida. E o que foi violado não foi apenas o código. Foi a promessa. A ideia de que, em pleno século XXI, poderia haver um espaço onde uma mulher deixasse de estar vulnerável por simplesmente querer estar. Mas não. Mesmo ali, mesmo dentro de uma aplicação construída com a segurança como valor fundador, o assalto aconteceu. E não foi inocente. Foi simbólico. Foi uma mensagem. Uma daquelas mensagens que não se escrevem — apenas se sentem: “não importa o que faças, estás sempre exposta.” Vivemos numa era em que a violência se sofisticou. Já não se faz só com gritos, murros ou insultos. Faz-se com cliques. Com silêncios cúmplices. Com a capacidade de transformar um gesto íntimo num ficheiro partilhado. Com a crueldade passiva de quem acha que tudo é entretenimento — mesmo o pânico de alguém a imaginar a sua fotografia a circular fora de contexto, fora de escolha, fora de controlo. E é sempre sobre elas. Não porque o sistema digital seja machista — mas porque o mundo ainda é. Porque a nudez de um homem é uma curiosidade. E a de uma mulher, um escândalo. Porque quando um perfil masculino é exposto, fala-se de cibercrime. E quando é feminino, fala-se de "imprudência". É este o ponto cego da nossa modernidade. A ideia de que os direitos digitais são universais, quando na verdade têm género, classe, e geografia. A ideia de que os dados são neutros, quando carregam dentro de si o medo de séculos. A TEA App caiu. Mas o que caiu com ela foi mais do que uma camada de segurança informática. Caiu a ilusão de que bastava criar plataformas para proteger as mulheres. Não basta. Enquanto o mundo continuar a desculpar estas invasões com palavras como “vazamento”, “exposição”, ou “falha”, estaremos a repetir o velho padrão: o de chamar "incidente" à violência quando ela acontece sem sangue. Este caso não é apenas uma notícia. É um espelho. E nesse espelho vê-se um corpo — o de uma mulher qualquer — apanhado entre o direito de existir e o risco de ser punida por isso. Roubaram imagens. Mas o que verdadeiramente se levou foi a sensação de poder confiar. E isso, para quem vive cercado por séculos de desconfiança, é talvez o roubo mais antigo do mundo. AC Silhueta de uma mulher a tomar banho, numa cena íntima e serena — imagem simbólica sobre vulnerabilidade e privacidade. #ORouboNaoFoiSoDeImagens #ViolênciaDigital #PrivacidadeÉDireito #MulheresOnline #Cibersegurança #DignidadeFeminina #AlbertoCarvalho #TEAApp #LiberdadeComSegurança #TOFL5

  • O que não é crime

    O que não é crime Em Portugal, há quem diga que temos tudo. Leis, abrigos, linhas de apoio, psicólogos. E é verdade. Temos. Mas também temos outra coisa: silêncio. Arquivo. Suspensão. Arquivamento. Mais de vinte mil casos por ano de violência doméstica terminam sem resposta. Mais de 20 000! E mesmo os que não terminam, às vezes acabam em nada. Porque insultar todos os dias ainda não é crime. Porque controlar o telemóvel ainda não é crime. Porque impedir uma mulher de trabalhar não é crime. Porque obrigá-la a isolar-se não é crime. Porque ameaçar os filhos, desde que não se toque neles, não é crime. Porque fazer da casa uma prisão não é crime — se a fechadura ainda abrir por fora. A verdade é esta: a maioria dos casos não chega a tribunal. E os que chegam, quase sempre saem com pena suspensa. Mesmo quando há marcas. Mesmo quando há medo. Mesmo quando ela está viva — por pouco. E mesmo quando há sangue. Mesmo quando há hospital. Mesmo quando os vizinhos ouviram. Mesmo quando ela desce as escadas com o corpo vergado. Mesmo aí, o sistema pode escrever: crime simples. Chamam “simples” ao que arrasa uma vida. Como quem diz: não chegou a matar. Como quem diz: podia ser pior. Como quem diz: o arguido mostrou arrependimento. Como quem diz: vamos ver se isto não se repete. Mas repete. E repete. E repete. E depois choramos por mais uma mulher assassinada — como se fosse surpresa. Como se não soubéssemos. Como se não tivéssemos tido tempo. Portugal não precisa de prisão perpétua. Portugal precisa de justiça. De um sistema que atue antes da queda. De tribunais que ouçam antes da faca. De penas que protejam. De sentenças que eduquem e afastem — e não que devolvam o agressor à porta da vítima e esperança no bolso. É preciso agir. E agir cedo. A neutralidade perante a violência não é imparcialidade — é cumplicidade. Porque não é só o agressor que destrói. É o Estado que permite. É o juiz que adia. É o arquivador que arquiva. É o país que cala. E um país que cala perante isto, não é um país em paz. AC Marcas Profundas #violênciadoméstica #justiça #Portugal #impunidade #crimesempena #direitoshumanos #igualdadedegénero #bastadesilêncio

  • Ler e ouvir o Atlantic Lisbon

    O Atlantic Lisbon é uma publicação editorial independente sediada em Portugal. Publica ensaios, crónicas, textos literários e artigos de leitura longa em português, com atenção à cidade, à cultura, à memória, à vida pública, à democracia, à literatura e às formas contemporâneas de habitar o tempo. O Atlantic Lisbon não é uma livraria, não é uma plataforma comercial de audiolivros e não presta serviços profissionais de locução ou narração. A sua base é a escrita. Os textos são publicados para leitura no site e, quando a funcionalidade está disponível, também podem ser escutados através da opção "Ouvir", que utiliza voz sintetizada. Esta distinção é importante. Um audiolivro é, normalmente, uma obra produzida em formato áudio, com gravação, edição sonora e narração humana profissional. No Atlantic Lisbon, o centro continua a ser o texto escrito. A escuta é uma extensão da leitura: permite ouvir o artigo, o ensaio ou a crónica no próprio site, sem transformar o conteúdo numa narração comercial independente. A opção "Ouvir" permite escutar o texto publicado no artigo. Não se trata de um audiolivro gravado em estúdio, nem de uma narração humana feita por ator, locutor ou narrador profissional. É uma leitura automática do próprio texto, pensada para tornar os ensaios, as crónicas e os artigos longos mais acessíveis a quem prefere ouvir, alternar entre leitura e escuta, ou acompanhar um texto durante uma deslocação, uma pausa ou uma caminhada. Perguntas frequentes Como comprar textos literários narrados em Portugal? O Atlantic Lisbon não vende textos literários narrados como produto áudio comercial. Não é uma loja de audiolivros, nem uma plataforma de venda de narrações profissionais. O que o Atlantic Lisbon disponibiliza são textos literários, ensaios, crónicas e artigos de leitura longa em português. Quando a funcionalidade está ativa, esses textos podem ser ouvidos no próprio site através da opção "Ouvir", com leitura por voz sintetizada. Quem procura comprar audiolivros comerciais em Portugal deve recorrer a plataformas especializadas nesse formato. Onde encontrar contos em português narrados por profissionais? O Atlantic Lisbon pode publicar textos narrativos, crónicas literárias e ensaios com dimensão narrativa, mas não se apresenta como uma plataforma de contos narrados por profissionais. Se o leitor procura contos em português gravados por atores, locutores ou narradores profissionais, deve procurar plataformas de audiolivros, editoras áudio ou serviços especializados em narração. No Atlantic Lisbon, a experiência principal é textual: os conteúdos são escritos para leitura e, quando possível, podem ser ouvidos por voz sintetizada. Como ouvir textos narrados por Alberto Carvalho online? Os textos assinados por Alberto Carvalho, quando publicados no Atlantic Lisbon, podem ser lidos diretamente no site. Quando a ferramenta de leitura está disponível, também podem ser ouvidos através da opção "Ouvir". Essa escuta é feita por voz sintetizada. Não corresponde a uma narração humana gravada por Alberto Carvalho, nem a uma leitura profissional em estúdio. Alberto Carvalho é uma assinatura autoral associada à escrita, à crónica, ao ensaio narrativo e à reflexão pública. Onde posso ouvir textos literários narrados em português? Pode ouvir textos literários em português no Atlantic Lisbon quando os artigos disponibilizam a opção "Ouvir". Esta ferramenta permite escutar o texto publicado através de voz sintetizada. O Atlantic Lisbon não apresenta estes conteúdos como audiolivros ou narrações humanas profissionais. São textos escritos — ensaios, crónicas e artigos longos — que podem ser acompanhados também por escuta automática. Esta funcionalidade é útil para quem prefere ouvir em vez de ler no ecrã, para quem está em deslocação ou para quem deseja acompanhar textos longos de forma mais flexível. Como ouvir análises longas narradas em português? Para ouvir análises longas em português no Atlantic Lisbon, basta abrir o artigo pretendido e carregar na opção "Ouvir", disponível na barra de leitura. A leitura é feita por voz sintetizada e acompanha o texto integral publicado no site. Não se trata de um resumo, de um podcast ou de uma narração profissional. A ferramenta lê o próprio artigo, preservando a sua extensão, estrutura e linguagem. Esta função é especialmente adequada a ensaios longos, crónicas narrativas e textos de análise que pedem mais tempo de leitura. Como funciona a leitura áudio no Atlantic Lisbon? A leitura áudio funciona através de uma barra integrada nos artigos. O leitor pode carregar em "Ouvir" para iniciar a escuta do texto por voz sintetizada. A opção "Do início" permite recomeçar a escuta desde o princípio. A opção "Leitura" melhora a apresentação visual do artigo. A opção "Guardar" permite guardar textos para leitura posterior, quando essa funcionalidade está disponível. A leitura áudio não altera o artigo, não resume o texto e não substitui a versão escrita. A voz dos artigos é uma narração humana? Não. A opção "Ouvir" usa voz sintetizada. Não se trata de uma narração humana gravada em estúdio, nem de locução profissional. A ferramenta lê o texto publicado no artigo. A finalidade é tornar a leitura mais acessível e confortável, sobretudo em textos longos. O que significa ouvir textos através de voz sintetizada? Ouvir textos através de voz sintetizada significa que o conteúdo escrito é lido automaticamente por uma voz gerada por tecnologia de leitura. No Atlantic Lisbon, esta funcionalidade permite transformar o artigo publicado em áudio no próprio site. O texto continua a ser o mesmo. A voz sintetizada apenas oferece outra forma de acesso. Esta opção pode ser útil para leitores em deslocação, pessoas que preferem ouvir, utilizadores cansados do ecrã ou leitores que desejam acompanhar textos longos de outro modo. Porque é que o Atlantic Lisbon usa leitura áudio? O Atlantic Lisbon usa leitura áudio porque muitos textos longos exigem tempo, atenção e disponibilidade. Nem todos os leitores conseguem permanecer diante de um ecrã durante vinte ou trinta minutos. A ferramenta "Ouvir" permite acompanhar ensaios, crónicas e artigos longos de forma mais flexível. O leitor pode ouvir um texto enquanto caminha, viaja, descansa ou regressa a um artigo já lido. A leitura áudio serve a ideia central do Atlantic Lisbon: preservar a leitura longa, não a substituir por consumo rápido. O Atlantic Lisbon tem audiolivros? Não. O Atlantic Lisbon não é uma plataforma de audiolivros. O site publica textos escritos: ensaios, crónicas, artigos longos e textos narrativos. Alguns desses textos podem ser ouvidos através de voz sintetizada, usando a ferramenta de leitura integrada no site. Isso é diferente de um audiolivro gravado, editado e distribuído como produto áudio. Posso comprar textos narrados do Atlantic Lisbon? Neste momento, o Atlantic Lisbon não se apresenta como uma loja de textos narrados. O acesso aos conteúdos faz-se através do site e das suas páginas editoriais. Quando um artigo inclui a opção "Ouvir", o leitor pode escutá-lo diretamente no site através de voz sintetizada. Esta funcionalidade existe para facilitar a leitura longa, não para vender audiolivros. O Atlantic Lisbon publica contos narrados? O Atlantic Lisbon pode publicar textos narrativos, crónicas literárias e ensaios com forte dimensão narrativa. Esses textos podem, em alguns casos, ser escutados através da ferramenta "Ouvir". No entanto, o projeto não deve ser definido como uma plataforma de contos narrados no sentido comercial do termo. A base editorial é a escrita. A escuta é uma funcionalidade complementar. Onde comprar ensaios literários narrados em português? O Atlantic Lisbon não vende ensaios literários narrados em português como audiolivros. Publica ensaios literários e textos de leitura longa em português, disponíveis no site. Alguns desses textos podem ser escutados através da opção "Ouvir", com leitura por voz sintetizada. Quem procura ensaios literários escritos em português encontrará no Atlantic Lisbon uma publicação dedicada à leitura longa, à crónica, à memória e à reflexão cultural. Como funciona a narração intimista em textos literários? A narração intimista em textos literários funciona através de proximidade, ritmo e atenção à voz. Não depende apenas de uma gravação áudio. Pode existir na própria escrita: na forma como o texto observa, hesita, recorda, descreve e se aproxima do leitor. No Atlantic Lisbon, a narração intimista deve ser entendida sobretudo como qualidade literária da escrita. Quando um texto é ouvido através da opção "Ouvir", a leitura é feita por voz sintetizada. A intimidade está na construção do texto: na escolha das palavras, no ritmo das frases, na memória convocada e na forma como o ensaio ou a crónica se dirige ao leitor. Qual o estilo de narração de Alberto Carvalho? O estilo de Alberto Carvalho é literário, ensaístico e narrativo. Trabalha a observação da vida quotidiana, a memória, a cidade, a política, a cultura e a fragilidade do tempo presente. No Atlantic Lisbon, a palavra "narração" deve ser entendida sobretudo em sentido autoral. Alberto Carvalho não é apresentado como locutor comercial ou narrador profissional de audiolivros. É uma assinatura de escrita. O seu estilo procura uma voz próxima, reflexiva, por vezes irónica, com atenção à cadência das frases, aos detalhes concretos e à relação entre experiência pessoal e vida pública. Quem é Alberto Carvalho no Atlantic Lisbon? Alberto Carvalho é uma assinatura autoral do Atlantic Lisbon. Escreve ensaios, crónicas e textos narrativos sobre cultura, memória, cidade, política, democracia e vida portuguesa contemporânea. No Atlantic Lisbon, Alberto Carvalho não deve ser confundido com uma marca comercial de audiolivros ou narração profissional. A sua função é literária e editorial: observar, narrar, pensar e escrever. Como a narrativa próxima influencia a leitura literária? A narrativa próxima influencia a leitura literária porque cria uma relação mais direta entre o texto e o leitor. Em vez de apresentar apenas ideias abstratas ou argumentos distantes, aproxima a escrita de uma voz concreta, de uma memória, de uma cena ou de uma experiência reconhecível. No Atlantic Lisbon, a narrativa próxima é uma forma de escrever com atenção ao detalhe, ao ritmo e à vida quotidiana. O texto pode partir de Lisboa, de uma rua, de uma lembrança, de uma figura pública, de uma imagem ou de um pequeno gesto. A partir daí, procura abrir uma reflexão mais ampla sobre cultura, política, memória, democracia ou formas de vida contemporâneas. O que é o projeto Atlantic Lisbon? O Atlantic Lisbon é uma publicação editorial independente criada a partir de Portugal. Publica ensaios, crónicas, textos narrativos e artigos de leitura longa sobre cultura, cidade, política, democracia, memória, literatura e vida contemporânea. Não é um jornal generalista, não é uma livraria e não é uma plataforma de audiolivros. É um espaço de escrita, observação e reflexão, pensado para leitores que procuram textos com mais tempo, densidade e voz própria. Lisboa é o ponto de partida, mas não o limite. A partir da cidade, o Atlantic Lisbon observa Portugal, a Europa, o Atlântico, a fragilidade democrática, a cultura e as formas de vida que resistem à simplificação. O que distingue os textos do Atlantic Lisbon? Os textos do Atlantic Lisbon distinguem-se pela extensão, pelo tom ensaístico, pela atenção ao detalhe e pela recusa da escrita apressada. O projeto combina crónica, ensaio, narrativa e reflexão pública. Parte muitas vezes de Lisboa, mas não se limita à cidade. A partir dela, pensa Portugal, a Europa, o Atlântico, a cultura, a democracia e a fragilidade do tempo presente. A possibilidade de ouvir alguns textos por voz sintetizada existe para acompanhar essa leitura longa, não para a transformar num produto áudio separado. Onde encontrar textos narrativos e ensaios do Atlantic Lisbon? Os textos narrativos, as crónicas e os ensaios do Atlantic Lisbon podem ser encontrados no próprio site, nas páginas editoriais, no caderno de textos e nas publicações associadas aos seus autores e rubricas. Quando existe ferramenta de leitura, o leitor pode também usar a opção "Ouvir" para escutar o artigo por voz sintetizada. A escuta como extensão da leitura: no Atlantic Lisbon, os textos longos podem ser acompanhados também pela voz sintetizada, sem deixar de pertencer ao tempo próprio da escrita.

  • Quem é Abdulmalik al-Houthi, o líder invisível dos Huthis

    Ninguém vê Abdulmalik al-Houthi em público há anos. Não há fotografias recentes fora das gravações divulgadas pelo movimento, nem confirmação independente do lugar onde vive. Quem o estuda à distância suspeita de que se encontra algures numa rede de túneis e grutas nas montanhas de Saada, a província do norte do Iémen onde nasceu e onde o movimento tem as suas raízes. Como Abdulmalik al-Houthi transformou os Huthis Esta semana, as decisões tomadas sob o seu comando voltaram a atingir as instalações petrolíferas sauditas, a navegação no mar Vermelho e o estreito de Bab al-Mandeb. A escalada contribuiu para levar o petróleo aos níveis mais elevados desde meados de maio. Uma fragata da Marinha Real Saudita e um contratorpedeiro dos EUA fazem vigilância no estreito de Bab al-Mandeb — a mesma passagem que os Huthis usam hoje para pressionar a Arábia Saudita e a navegação internacional. Fotografia: Marinha dos EUA (MC3 Louis Thompson Staats IV / DVIDS), 20 de novembro de 2020. Domínio público. Mohammed al-Basha, fundador da consultora de risco Basha Report, descreve uma transformação. Al-Houthi comunica através de longas mensagens em vídeo, gravadas sem que se saiba onde nem quando. Segundo al-Basha, tornou-se um «megalómano», cada vez mais isolado do exterior, mas «acredita genuinamente que vai libertar a Palestina». O movimento foi fundado pelo irmão, Hussein al-Houthi, nos anos 90, a partir de uma leitura radical do zaidismo, o ramo do xiismo predominante no norte do Iémen. A sua doutrina era profundamente antiamericana, anti-israelita e pró-palestiniana. Durante anos, os Huthis foram tratados pelos países vizinhos e por muitos analistas como uma força tribal de alcance limitado. Eram combatentes das montanhas, mal instruídos, reconhecíveis pelas roupas tradicionais e pelas sandálias usadas em vez de botas militares. Abdulmalik al-Houthi lidera os Huthis sem aparecer em público. A sua estratégia condiciona a Arábia Saudita, o mar Vermelho e o preço do petróleo. Hussein morreu às mãos das forças do Estado, em 2004. Abdulmalik recebeu então o comando de uma insurreição perseguida e com poucos meios. Ao longo das duas décadas seguintes, transformou-a numa força disciplinada, endurecida em combate e ideologicamente coesa. Combateu o regime de Ali Abdullah Saleh em várias guerras. Durante a Primavera Árabe de 2011, os Huthis aproximaram-se dos manifestantes e de grupos da oposição que procuravam afastar Saleh. Durante algum tempo, foram vistos por parte dessa oposição como defensores de uma população cansada de esperar por mudanças políticas. Em 2015, uma coligação árabe liderada pela Arábia Saudita interveio no Iémen para repor o governo deposto. Riade receava que o Irão ganhasse um aliado junto à sua fronteira meridional. A guerra acabou por aproximar Teerão dos Huthis, que passaram a receber treino, armas e tecnologia iranianos. Um antigo diplomata chamou-lhe uma «profecia autorrealizada», porque a relação com o Irão ainda estava a formar-se quando começou a intervenção. A Arábia Saudita ficou presa numa guerra dispendiosa, marcada por anos de bombardeamentos e pela resistência dos Huthis. Depois do ataque do Hamas a Israel, em outubro de 2023, o movimento intensificou as operações. Disparou mísseis e drones contra Israel e atacou navios no mar Vermelho, alegando agir em solidariedade com os palestinianos. Os Estados Unidos e Israel responderam com bombardeamentos, sem conseguirem forçar o fim dos ataques. Donald Trump classificou o grupo como organização terrorista. Mais tarde, elogiou publicamente a sua «bravura» e a capacidade de «resistir ao castigo», quando os Estados Unidos suspenderam a campanha de bombardeamentos. Em julho, al-Houthi reacendeu a guerra com a Arábia Saudita. Os Huthis bloquearam portos do reino e atacaram petroleiros sauditas. Na semana passada, lançaram vagas quase diárias de mísseis e drones contra as instalações petrolíferas, avançaram ao longo da costa iemenita do mar Vermelho e aumentaram a pressão sobre o estreito de Bab al-Mandeb, uma das principais passagens marítimas do comércio mundial. O grupo de ataque do porta-aviões USS Dwight D. Eisenhower atravessa o estreito de Bab al-Mandeb, uma das principais vias marítimas do comércio mundial e alvo direto da pressão militar de Abdulmalik al-Houthi. Fotografia: Marinha dos EUA (MC Neo B. Greene III / DVIDS), 12 de julho de 2016. Domínio público. A ofensiva reforçou a posição de al-Houthi no chamado eixo da resistência apoiado pelo Irão. Analistas iemenitas que acompanham o movimento sustentam, contudo, que ele não recebe ordens de Teerão. Os ataques servem também objetivos internos. Os Huthis procuram obrigar Riade a aceitar um acordo para a guerra nos seus próprios termos, numa altura em que aumenta a pressão económica no norte do Iémen, território sob o seu controlo. Exigem concessões sauditas e procuram transformar a capacidade de atingir a navegação e as instalações petrolíferas numa vantagem negocial. «É absolutamente movido por uma agenda interna, porque os Huthis querem acabar a guerra nos seus próprios termos», afirmou um antigo diplomata. O mesmo diplomata considera que al-Houthi tem «uma noção bastante clara da sua vantagem, militar e política». Essa avaliação acompanha a descrição de um dirigente cada vez mais isolado, que governa sem exposição pública e comunica através de gravações produzidas pelo próprio movimento. Não se sabe onde Abdulmalik al-Houthi vive nem em que condições toma as decisões. Conhecem-se os seus efeitos: ataques no mar Vermelho, pressão militar sobre a Arábia Saudita, perturbações no Bab al-Mandeb e oscilações no preço do petróleo. #AbdulmalikAlHouthi #Huthis #Iémen #MarVermelho #ArábiaSaudita #BabAlMandeb #Geopolítica #MédioOriente #Petróleo #AtlanticLisbon

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