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- Ben Sasse entre Trump e o cancro do pâncreas
Às 15h39 de 13 de fevereiro de 2021, o Senado dos Estados Unidos concluiu o segundo julgamento político de Donald Trump. Foram 57 votos pela condenação por incitamento à insurreição e 43 pela absolvição. Como era necessária uma maioria de dois terços, o antigo presidente foi absolvido. Ben Sasse, senador republicano pelo Nebraska, votou pela condenação. Sasse manteve-se no Partido Republicano e continuou a defender as posições conservadoras. Perante o ataque ao Capitólio de 6 de janeiro, recusou subordinar o voto à disciplina partidária. Foi um dos episódios mais conhecidos dos seus oito anos no Senado, embora a relação que manteve com Trump tenha sido menos linear. Ben Sasse, antigo senador republicano do Nebraska e crítico de Donald Trump, vive com cancro do pâncreas metastático e está a receber o tratamento experimental daraxonrasib. Eleito em 2014, Sasse tomou posse em janeiro de 2015, foi reeleito em 2020 e deixou o cargo em janeiro de 2023. Defendia o governo limitado, uma leitura exigente da autoridade constitucional, posições sociais conservadoras e firmeza na política externa. Integrava a direita republicana. Sasse apoiou grande parte da agenda legislativa do partido durante a presidência de Trump. A divergência entre os dois não correspondia à habitual separação entre moderados e conservadores. Questionava a subordinação das regras e das instituições às conveniências pessoais do presidente, mas votava favoravelmente quando concordava com as políticas da Casa Branca. Não adotou o programa dos adversários de Trump nem procurou construir uma identidade bipartidária. Apoiou as medidas fiscais e nomeações judiciais defendidas pela Administração enquanto contestava a conduta do presidente. O conflito incidia sobretudo sobre o exercício do cargo e os limites que, na sua leitura, um dirigente republicano continuava obrigado a respeitar. Em 2016, Trump ainda disputava a nomeação republicana quando Sasse anunciou que não o apoiaria. Criticava a relação do candidato com a Constituição, a forma como tratava os adversários e uma política cada vez mais concentrada na figura do líder. A posição deu-lhe projeção nacional, sem o transformar num republicano centrista. A crítica vinha de dentro do conservadorismo e pretendia separar a doutrina do movimento criado em redor de Trump. Durante a presidência, Trump consolidou o controlo sobre o partido. Sasse continuou a intervir contra o presidente em assuntos que considerava incompatíveis com a tradição republicana. Criticou a proximidade de Trump com dirigentes autoritários e o tom das suas publicações nas redes sociais. As divergências raramente produziram uma rutura nas votações sobre a agenda conservadora, razão pela qual os seus críticos consideravam a oposição sobretudo retórica. As divergências públicas com Trump expunham os eleitos republicanos a acusações de deslealdade. Sasse apoiava as medidas que considerava conservadoras e denunciava condutas que julgava impróprias do cargo. Para os adversários de Trump, era uma dissidência insuficiente; os apoiantes do presidente não lhe perdoavam as críticas. Em 2020, Sasse votou pela absolvição de Trump no primeiro processo de destituição. No mesmo ano, voltou a apresentar-se aos eleitores do Nebraska e foi reeleito. As críticas a Trump não o tinham tornado eleitoralmente inviável num estado republicano. O segundo mandato começou quando o apoio ao presidente ganhava peso na definição de quem pertencia ao espaço político do partido. A reeleição ocorreu antes do conflito face ao resultado presidencial. Sasse apresentara-se novamente como conservador e obtivera dos eleitores mais seis anos no Senado; a oposição a Trump não correspondia a uma mudança de programa. Quando reconheceu a vitória de Biden, fê-lo a partir da mesma posição republicana com que concorrera. Era isso que tornava o confronto incómodo para o partido: não podia ser explicado por uma aproximação aos democratas. Até às eleições de 2020, Sasse criticava publicamente Trump e, em muitas votações, acompanhava a maioria republicana. A tentativa de reverter a vitória de Biden alterou o objeto da divergência. Estava agora em causa a validade de votos certificados pelos estados, não uma medida da Administração que o senador pudesse aprovar ou rejeitar. Depois das eleições presidenciais de novembro de 2020, a divergência deixou de incidir apenas sobre comportamentos, linguagem ou decisões governativas. Joe Biden venceu, e Trump procurou desacreditar o resultado com alegações de fraude que não sustentou de modo credível. Sasse reconheceu a vitória de Biden e criticou os colegas republicanos que pretendiam contestar no Congresso os votos do Colégio Eleitoral. Uma das críticas foi dirigida ao senador Josh Hawley, do Missouri, que anunciara a intenção de se opor à certificação. Sasse considerava que o Congresso não podia substituir os resultados apurados pelos estados porque o candidato derrotado recusava aceitá-los. O ataque de 6 de janeiro ocorreu enquanto o Congresso certificava o resultado. A entrada forçada de apoiantes de Trump no Capitólio interrompeu os trabalhos, obrigou à retirada de legisladores e levou a confrontos com os agentes policiais. Sasse responsabilizou politicamente Trump e alargou a crítica à direção do Partido Republicano. Num ensaio publicado na revista The Atlantic, escreveu que alguns dirigentes tinham tolerado teorias da conspiração para conservar o apoio de quem acreditava nelas, na expectativa de obter vantagem eleitoral sem responder pelas consequências. No argumento de Sasse, Trump beneficiara de um ambiente partidário no qual candidatos, consultores, meios de comunicação e titulares de cargos eletivos evitavam contrariar alegações populares com receio de perder votos, financiamento ou atenção mediática. A certificação do Colégio Eleitoral obrigou os senadores a assumir uma posição formal. Já não bastava classificar as declarações do presidente como exageros ou provocações. Tinham de aceitar os votos certificados pelos estados ou tentar rejeitá-los sem provas capazes de alterar o resultado. Sasse votou pela certificação. O Congresso reunia-se para contar votos que os estados já tinham certificado. A objeção anunciada por Hawley e apoiada por outros republicanos não apresentava elementos que permitissem inverter a vitória de Biden. Sasse podia continuar a discordar dos democratas sobre impostos, tribunais ou política externa; nenhuma dessas divergências lhe dava fundamento para tratar o resultado eleitoral como inválido. Depois da invasão do Capitólio, essa mesma questão passou para o julgamento político de Trump. Depois do ataque, a Câmara dos Representantes acusou Trump de incitamento à insurreição. A contagem oficial do Senado registou sete republicanos entre os 57 votos pela condenação. Sasse estava nesse grupo. Os sete votos republicanos não chegaram para atingir a maioria de dois terços, embora tenham impedido uma divisão inteiramente partidária. Sasse votara pela absolvição no primeiro julgamento, por considerar que a remoção de Trump não se justificava. No segundo, entendeu que a atuação ligada ao 6 de janeiro merecia condenação. Quase todo o seu programa político continuava a separá-lo dos democratas. O voto de fevereiro de 2021 não apagou esse percurso nem o converteu num adversário ideológico de Trump. Significou que, perante a tentativa de impedir a certificação eleitoral e a violência no Capitólio, Sasse não aceitou proteger o líder do partido através da absolvição. Organizações republicanas no Nebraska censuraram-no ou procuraram fazê-lo, e muitos apoiantes de Trump passaram a tratá-lo como traidor. Sasse continuou a criticar a aproximação do partido às teorias da conspiração, sem formar uma corrente capaz de alterar a direção republicana. As críticas públicas raramente impediram o funcionamento da Administração ou a aprovação da respetiva agenda. Durante boa parte do mandato, condenou a conduta de Trump e votou com ele. Rompeu na votação sobre a responsabilidade de Trump pelo 6 de janeiro. Sasse deixou o Senado em 2023, quando os republicanos já se tinham aproximado novamente de Trump. O voto de 13 de fevereiro permaneceu no registo oficial entre os sete votos republicanos pela condenação. Um diagnóstico e uma resposta fora da média Em 23 de dezembro de 2025, Sasse anunciou que tinha cancro do pâncreas metastático em estádio IV. Tinha 53 anos e classificou o diagnóstico como terminal. Segundo explicaria mais tarde, os médicos deram-lhe inicialmente uma previsão de três a quatro meses de vida. No estádio IV, o tumor já se disseminou para além do pâncreas. As informações clínicas divulgadas por Sasse indicam que a doença atingiu vários órgãos, entre eles o fígado e os pulmões. A remoção cirúrgica do tumor primário deixa geralmente de constituir uma opção com intenção curativa quando existem metástases noutros locais. Sasse entrou num ensaio clínico com daraxonrasib, antes identificado como RMC-6236. O medicamento, administrado por via oral, atua sobre as proteínas RAS em estado ativo. Alterações nesta família de proteínas favorecem o crescimento de muitos tumores e aparecem com especial frequência no adenocarcinoma ductal, a forma mais comum de cancro do pâncreas. O RAS foi durante décadas um alvo difícil para o desenvolvimento de medicamentos. Participa em sinais essenciais no interior da célula, e as formas alteradas da proteína nem sempre permitem uma ligação eficaz. O daraxonrasib procura bloquear várias formas ativas de RAS e interromper o sinal que favorece a multiplicação das células tumorais. Sasse recebeu o medicamento como tratamento de primeira linha, num ensaio de fase inicial. Os dados clínicos mais robustos disponíveis dizem respeito a uma situação diferente, a de doentes com cancro metastático já submetidos a tratamento. Em abril de 2026, Sasse comunicou uma diminuição de 76% no volume dos tumores. Três meses depois, após cerca de seis meses e meio de tratamento, disse que a redução ultrapassava 80%. Referiu ainda uma descida muito acentuada de um marcador tumoral no sangue e um ligeiro crescimento de alguns nódulos pulmonares. Os números foram fornecidos pelo próprio Sasse. A redução não corresponde a uma remissão e o diagnóstico continua a ser de doença metastática. Também não se sabe durante quanto tempo o efeito poderá manter-se. Em agosto de 2026, cerca de oito meses depois do diagnóstico, Sasse está vivo e ultrapassou a previsão inicial. O tratamento produziu uma resposta clinicamente relevante, mas até agora não há fundamento para falar em cura ou para considerar ultrapassado o prognóstico associado à doença. Em abril, foram conhecidos os resultados do ensaio de fase III RASolute 302. O estudo incluiu 500 pessoas com adenocarcinoma ductal do pâncreas metastático que já tinham sido tratadas. Receberam daraxonrasib uma vez por dia ou uma das opções de quimioterapia selecionadas pelos investigadores. Segundo os resultados publicados no New England Journal of Medicine, a sobrevivência global mediana entre os doentes com mutações RAS G12 foi de 13,2 meses com daraxonrasib e de 6,6 meses com quimioterapia. Durante o período analisado, o risco de morte foi 60% inferior no grupo que recebeu o novo medicamento. Também houve benefício na sobrevivência sem progressão. A mediana não estabelece um prazo para cada doente. Metade dos participantes viveu mais do que o valor apurado no respetivo grupo e a outra metade viveu menos. Nem todos responderam ao tratamento. Foram observados efeitos adversos, sobretudo cutâneos e gastrointestinais, e alguns participantes tiveram de interromper ou reduzir a dose. O ensaio de fase III estudou o medicamento depois de tratamentos anteriores. Sasse recebeu-o em primeira linha e num protocolo distinto, pelo que não é possível comparar diretamente o seu caso com a população do RASolute 302. Em maio, a FDA permitiu a abertura de um programa de acesso alargado para doentes elegíveis com cancro metastático previamente tratado. Em julho, aceitou para avaliação o pedido de autorização apresentado pela Revolution Medicines. A Agência Europeia de Medicamentos iniciou uma avaliação faseada. Em agosto de 2026, o daraxonrasib continua experimental. Está disponível em ensaios clínicos e, nos Estados Unidos, através do programa de acesso alargado para determinados doentes. As autoridades reguladoras ainda avaliam a eficácia, a segurança, o fabrico e a relação entre benefícios e riscos. O programa SEER do Instituto Nacional do Cancro dos Estados Unidos estima 67 530 novos diagnósticos e 52 740 mortes em 2026. O cancro do pâncreas representa 3,2% dos novos casos de cancro e 8,4% das mortes por doença oncológica. É a terceira causa de morte por cancro nos Estados Unidos. Considerando todos os estádios, a sobrevivência relativa a cinco anos é de 13,7%, com base nos diagnósticos efetuados entre 2016 e 2022. Nos tumores localizados, chega a 43,6%. Desce para 17% nos casos regionais e para 3,4% quando existe disseminação à distância, a categoria estatística mais próxima da doença metastática de Sasse. Em 51% dos casos, já existem metástases à distância no momento do diagnóstico. Apenas 15% dos casos são detetados enquanto o tumor permanece localizado, quando a cirurgia ainda poderá ser considerada. Em muitos doentes, os sinais mais claros surgem depois dessa fase. A idade de Sasse também foge ao padrão mais frequente. O SEER indica uma mediana de 71 anos no diagnóstico; 6,8% dos novos casos ocorrem entre os 45 e os 54 anos. Estas estatísticas reúnem pessoas diagnosticadas em anos anteriores, com condições clínicas, características tumorais e respostas ao tratamento diferentes. O próprio SEER alerta que não servem para prever com exatidão a evolução de um doente. A limitação torna-se ainda mais evidente quando há acesso a uma terapêutica que não fazia parte da prática clínica durante o período usado no cálculo. A resposta de Sasse não altera a taxa de sobrevivência de 3,4% observada na população com doença à distância. Mostra o que aconteceu até agora a uma pessoa tratada com um medicamento experimental. A sua vida prolongou-se. Para saber se o daraxonrasib mudará de forma duradoura o prognóstico de outros doentes, serão necessários mais dados e acompanhamento prolongado e uma adesão de doentes portugueses a estes ensaios. A deteção tardia está relacionada com a biologia da doença e com a localização do órgão. O pâncreas encontra-se numa zona profunda do abdómen, próximo do estômago, do intestino, do fígado e das vias biliares. Um tumor pode crescer sem causar sintomas percetíveis; quando surgem, estes confundem-se com doenças bastante mais comuns. O Instituto Nacional do Cancro refere a icterícia, visível no tom amarelado da pele e dos olhos, as fezes claras, a urina escura, a dor na parte superior ou média do abdómen com possível irradiação para as costas, a perda de peso sem explicação, a falta de apetite e o cansaço. Como estes sintomas podem ter muitas outras causas, a presença de um deles não confirma cancro. A persistência ou a combinação dos sinais deve ser avaliada por um médico. Não há rastreio de rotina recomendado para adultos assintomáticos da população geral. A U.S. Preventive Services Task Force concluiu que os testes disponíveis não demonstraram benefício suficiente e podem originar falsos positivos, exames invasivos e tratamentos desnecessários. Também não existe um biomarcador validado com precisão adequada para a deteção precoce em toda a população. A recomendação não abrange pessoas com síndromes genéticas hereditárias ou forte incidência familiar, consideradas de risco elevado. Nestes grupos, a vigilância pode ser feita em centros especializados, por vezes com ressonância magnética ou ecoendoscopia. É um acompanhamento dirigido, diferente de um programa universal. O tabagismo, o excesso de peso, a diabetes e a pancreatite crónica estão associados a risco acrescido. O mesmo sucede com a história familiar de cancro do pâncreas e algumas alterações hereditárias. Entre elas encontram-se síndromes relacionadas com mutações BRCA1 e BRCA2, mais conhecidas pela associação aos cancros da mama e do ovário. A presença de um destes fatores não permite identificar a causa num doente concreto. Há pessoas expostas que nunca desenvolvem a doença e pessoas diagnosticadas sem risco conhecido. No caso de Sasse, a informação pública não permite associar o cancro a qualquer comportamento, antecedente clínico ou mutação. O último dado clínico divulgado continua a ser a redução tumoral superior a 80%. Sasse ultrapassou a expectativa inicial de três a quatro meses e permanece em tratamento, com doença metastática. Tradução automática pelo Google. Em caso de dúvida, prevalece o original em português. #BenSasse #CancroDoPancreas #Daraxonrasib #DonaldTrump #6DeJaneiro #PoliticaAmericana #Saude #InvestigacaoClinica #AtlanticLisbon
- Montenegro quer decidir o tamanho das notícias
Luís Montenegro estava num púlpito partidário quando escolheu a palavra «censura». Não falava de um discurso proibido, de uma notícia retirada ou de jornalistas impedidos de trabalhar. Falava do lugar que as decisões do Governo ocupam nos jornais e nas televisões. Na sua descrição, a comunicação social empurra as «grandes coisas» para «notas de rodapé» e entrega o espaço principal aos incidentes. O objeto da queixa não era o silêncio. Era a paginação. Na Festa do Pontal, Luís Montenegro chamou «censura moderna» ao relevo dado pela comunicação social aos incidentes em detrimento das medidas do Governo. Esta diferença muda o discurso por completo. O primeiro-ministro não acusou os media de esconderem factos no sentido habitual da palavra. Acusou-os de atribuírem aos factos um tamanho diferente daquele que o Governo lhes atribui. A medida considerada decisiva pelo Executivo aparece abaixo da polémica. O resultado anunciado disputa espaço com a falha que exige explicação. A notícia existe, mas não está onde Montenegro entende que deveria estar. Foi a essa perda de controlo sobre o relevo da informação que chamou «censura moderna». A frase foi dita no Pontal, perante uma audiência partidária. Montenegro não estava a apresentar uma reclamação dirigida a um diretor de jornal, nem a pedir a correção de uma falsidade concreta. Falava para pessoas dispostas a ouvi-lo e oferecia-lhes uma explicação para a distância entre o país descrito pelo Governo e o país que encontram quando acompanham as notícias. Se os resultados governativos não dominam a conversa pública, a culpa estará no filtro. Se uma dificuldade ocupa o primeiro plano, será porque alguém diminuiu aquilo que verdadeiramente conta. O discurso fornece assim uma chave para ler as notícias futuras: quando a cobertura for desfavorável, não resultará apenas de uma escolha editorial discutível; estará a esconder a realidade. É uma acusação poderosa porque chega ao leitor antes da notícia. A absolvição vem incluída Todo o Governo tenta organizar a realidade. Dos números disponíveis, escolhe os que permitem contar uma história de progresso. Uma obra anunciada pode passar a resumir o rumo de um mandato. Quando a mensagem chega ao público, os factos já trazem o lugar que o Executivo lhes reservou. O jornalismo começa por retirar essa legenda. Perante uma obra anunciada, procura o que foi executado. Uma política apresentada como benefício obriga a saber quem ficou de fora. Por vezes, a verificação confirma a dimensão que o Governo anunciara. Noutras, encontra pouco para lá do comunicado. Montenegro chama às falhas «pequenas coisas que, porventura, não corram tão bem». A formulação é cómoda porque o caso chega classificado antes de ser examinado. O Governo conserva a dimensão dos seus resultados e reduz o problema à escala de um episódio. Um caso não nasce pequeno por ser inconveniente. Pode morrer no próprio dia ou conduzir a uma decisão mal explicada, a uma responsabilidade que ninguém quer assumir, a uma falha que se repete longe das câmaras. Só depois de investigado se saberá. Tratá-lo antecipadamente como questões menores é pedir ao jornalismo que aceite a conclusão antes de fazer a pergunta. As medidas chamadas grandes precisam do mesmo exame. O alcance só começa a perceber-se quando a decisão sai do púlpito, encontra os seus destinatários e deixa ver o problema que ficou por resolver. O tamanho de uma política não vem impresso no comunicado. Com a fórmula do Pontal, qualquer cobertura pode dar razão a Montenegro. O destaque das falhas confirma, aos olhos dos seus apoiantes, que existe um filtro. Quando as medidas do Governo dominam as notícias, os factos terão finalmente conseguido impor-se. A acusação deixa de precisar de um ato concreto de censura. Basta olhar para a primeira página e discordar do tamanho das letras. O discurso de Montenegro não era para os jornalistas Os jornalistas eram o alvo, mas não eram o público mais importante daquela passagem. Montenegro não precisava de os convencer de que trabalham mal. Precisava de preparar os seus ouvintes para desvalorizarem antecipadamente a informação adversa. Não lhes pediu que deixassem de acreditar nas notícias. Ensinou-os a desconfiar da proporção. Uma investigação pode estar factualmente correta e, ainda assim, ser desvalorizada porque ocupou o espaço que o Governo reservara para as suas medidas. Já não é necessário responder ao conteúdo. Discute-se o incómodo que o provocou. Para um Executivo sob pressão, este desconto é útil. As dificuldades permanecem, mas perdem autoridade política. As controvérsias entram na série das distrações e a insistência dos jornalistas passa a parecer uma obsessão. Quanto maior for a cobertura, mais fácil será dizer que as realizações voltaram a ser atiradas para a margem. A expressão «notas de rodapé» revela, por isso, mais do que uma irritação. Montenegro escolheu uma imagem editorial. Há um texto principal, onde deveria estar a obra do Governo, e um espaço inferior para o que não merece interromper a leitura. Na página que imaginou, os jornalistas trocaram tudo. Promoveram o acessório e encolheram o essencial. Falta decidir quem tem o direito de paginar. Se esse direito pertencer ao Governo, a independência editorial torna-se decorativa. Os jornalistas continuam livres para escrever, mas dentro da escala fornecida pelo poder: a falha pode ser investigada, contanto que não cresça o suficiente para perturbar o anúncio. Montenegro não formulou esta exigência. Apresentou-a como senso comum: o país devia falar mais do que corre bem e menos do que corre mal. Parece um pedido de equilíbrio. Na prática, entrega ao Governo a definição prévia do que merece ser grande. A crítica que ficou por provar Há razões sérias para criticar a comunicação social. O conflito rápido vence demasiadas vezes a explicação demorada. Uma frase áspera circula melhor do que a execução gradual de uma política. Há assuntos acompanhados durante horas e abandonados antes de produzirem qualquer resposta. Esse modo de cobrir a realidade deforma o país que pretende mostrar. Montenegro podia ter entrado por aí. Bastava identificar uma medida ignorada e demonstrar que o seu alcance justificava outro tratamento. Teria então um caso concreto ao qual os media precisariam de responder. Não o fez. A acusação ficou sem objeto verificável. Não indicou uma informação omitida nem explicou como mediu o desequilíbrio. «Censura moderna» entrou no discurso como conclusão de um processo que nunca foi apresentado. Também o Governo participa no sistema de que se queixa. Não espera passivamente que os jornalistas descubram as suas medidas. Tem assessores, canais institucionais e acesso permanente ao espaço público. Decide quando anuncia e com que enquadramento. Pode falar diretamente aos cidadãos sem enfrentar uma pergunta que altere o assunto preparado. Nada disso é ilegítimo. Torna-se problemático quando o poder controla a mensagem nos seus próprios canais e acusa os intermediários de censura por fazerem aquilo que a comunicação oficial evita: escolher outra pergunta. O escrutínio começa precisamente aí. Um jornalista obriga o Governo a sair do tema que escolheu e a responder pelo facto que deixou fora da apresentação. Se apenas for considerada justa a cobertura que preserva a ordem do discurso oficial, essas perguntas continuam a existir, mas já chegam ao público sob suspeita. Da maledicência à capa Montenegro pediu menos «maledicência» e criticou quem trata como um «frete» o reconhecimento do que o Governo faz bem. Aqui, o conflito deixa de ser apenas editorial. «Maledicência» não identifica um erro nem a omissão de contexto. A palavra atribui aos jornalistas uma vontade de falar mal. O trabalho deixa de ser avaliado; a intenção passa a estar sob suspeita. Uma acusação sobre o método jornalístico pode ser testada. A suspeita de que os jornalistas pretendem diminuir o Governo ou o país não oferece essa possibilidade. Qualquer notícia incómoda pode tornar-se mais um sintoma da hostilidade atribuída a quem a publicou. É neste ponto que os resultados económicos começam a carregar um significado nacional. As medidas apresentadas pelo Executivo deixam de ser apenas matéria sujeita a confirmação e tornam-se sinais de confiança em Portugal. A crítica não é declarada antipatriótica. Fica, porém, suficientemente perto dessa ideia para que a suspeita faça o resto. Esta linguagem não censura os jornalistas. Afirmá-lo seria repetir o abuso da palavra que se critica. Prepara uma audiência para avaliar a notícia não pela prova que contém, mas pelo lugar que ocupa numa narrativa de hostilidade. O facto já não chega sozinho. A desconfiança está à espera dele. O primeiro-ministro tem razão quando diz que uma sociedade alimentada apenas por escândalo perde a capacidade de reconhecer mudanças reais. Quando o jornalismo abandona um assunto antes de verificar o resultado, o retrato do país fica preso à primeira crise. Mas essa falha não transfere para o Governo a escolha da capa. Para tornar verificável a sua crítica, Montenegro teria de identificar a realização diminuída e demonstrar a desproporção. Foi esse passo que ficou por dar. «Censura moderna» permite dispensá-lo. Retira a acusação do terreno da prova e instala-a no da perceção. A discordância do primeiro-ministro sobre a ordem dos assuntos passa a ser suficiente. Foi isso que aconteceu no Pontal. Montenegro não reclamou apenas o direito de explicar a obra do Governo. Reclamou autoridade para definir a proporção entre essa obra e as falhas com que os outros a confrontam. Quer governar e conservar uma palavra sobre a edição da página onde será julgado. Escolheu a imagem da nota de rodapé. É provável que volte a servir-lhe. Sempre que um problema subir ao título, poderá apontar para baixo e lembrar a realização que, segundo ele, ficou esquecida. Não para mostrar o que foi censurado, mas o que o Governo desejava ver em letras maiores. #LuisMontenegro #Jornalismo #ComunicacaoSocial #LiberdadeDeImprensa #Portugal #AtlanticLisbon
- A Fórmula Michelle Bolsonaro Chegou a Sintra
Em 1549, seis padres jesuítas desembarcaram na baía de Todos os Santos, na comitiva do primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Sousa. Vinham por incumbência da Coroa portuguesa, ao abrigo do padroado, o acordo com Roma que dava ao rei de Portugal autoridade para nomear bispos, fundar dioceses e financiar missões nas terras que ia descobrindo, em troca de as evangelizar em nome da Igreja. Manuel da Nóbrega chefiava o grupo. Nas cartas que os jesuítas trocavam com Lisboa nesses anos, as populações que ainda não tinham sido convertidas apareciam descritas com a fórmula da época: gente sem fé, sem lei, sem rei. O Atlântico, então, só corria num sentido: levava padres, catecismos, sacramentos e a autoridade de uma Coroa que se pensava incumbida de estender ao Novo Mundo aquilo que já possuía em casa. Quatrocentos e setenta e sete anos depois, a 11 de julho de 2026, uma deputada federal brasileira chamada Priscila Costa subiu a um palco no Palácio Valenças, em Sintra, para discursar perante um auditório de mulheres portuguesas. Priscila Costa é aliada de Flávio Bolsonaro; foi convidada para o pré-lançamento de um movimento chamado Mulheres Conservadoras, fundado pela evangélica Rebeca Batista, com Rita Matias, deputada do Chega, a fazer de mestre de cerimónias. O objetivo declarado, segundo a fundadora, é responder a um feminismo que já não representaria a maioria das mulheres. Os princípios invocados dizem-se de matriz judaico-cristã: dignidade humana, família, responsabilidade, liberdade. Ninguém, garantiram os organizadores, pretende alterar a laicidade do Estado. Não é preciso subscrever nenhuma das duas cenas, nem a de Nóbrega nem a de Rebeca Batista, para reparar no que as separa e, de forma mais interessante, no que as liga. O que as separa é óbvio: uma é conversão religiosa em terra alheia; a outra, mobilização eleitoral em casa. O que as liga é a direção. Em 1549, o Atlântico levava. Em 2026, o Atlântico trouxe. Do Brasil para Sintra, uma fórmula político-religiosa atravessa o Atlântico e encontra em Portugal uma escala muito menor do que a que a fez crescer. A inversão não é só de propaganda política; é também, literalmente, religiosa. Um inquérito da Aliança Evangélica Portuguesa a 509 dirigentes de igrejas, publicado em 2025, apurou que 65% das congregações evangélicas fundadas em Portugal desde 2020 têm à frente um missionário brasileiro. Não é uma metáfora conveniente para abrir um ensaio: é um dado administrativo, contável, com sede e responsável fiscal. O país que Portugal evangelizou à força de padroado, jesuítas e naus está hoje a mandar de volta os seus próprios missionários. Só que desta vez ninguém os manda; eles vêm, encontram um mercado religioso em contração e um público disponível, e fundam uma igreja. E atrás da igreja, por vezes, vem também a política, porque uma coisa que o pentecostalismo brasileiro aperfeiçoou nas últimas três décadas, com um rigor de engenharia que a Igreja Católica portuguesa nunca precisou de ter, foi a arte de transformar o púlpito em voto organizado. O embaraço começa no tamanho. O que se trouxe para Sintra foi pensado para países onde os evangélicos pesam nas urnas de outro modo. No Brasil, rondam hoje os 27% da população; nos Estados Unidos, onde a Assembleia de Deus e as suas congéneres aperfeiçoaram a mobilização de fiéis por via do púlpito, a fatia anda perto dos 23%. Em Portugal, segundo os Censos de 2021, os protestantes evangélicos não chegam a 2% da população residente com mais de quinze anos, pouco mais de 186 mil pessoas, num universo em que 80% continua a dizer-se católico, ainda que pratique cada vez menos. Os especialistas que estudam o fenómeno são taxativos: um voto religioso só produz efeito eleitoral mensurável a partir de uma base de 15 a 20% do eleitorado. Portugal está a um oitavo dessa fasquia. Isto devia bastar para arquivar o assunto como uma curiosidade de importação cultural sem consequência prática. E, no entanto, ali estava uma deputada federal brasileira a discursar num palácio em Sintra, e ali estava o Chega, não simpatizantes difusos, mas várias das suas deputadas, com uma delas a fazer de anfitriã, a emprestar palco e nome a um movimento que, pelos números, não devia interessar a ninguém que faça contas antes de fazer política. A pergunta que interessa não é «porque é que isto não vai funcionar», que é óbvia; é «para que serve, então, montar em Portugal uma operação que não pode funcionar pela razão que a fez funcionar noutro lado». A igreja evangélica, em Portugal, pode não estar a ser cortejada como bloco eleitoral, mas aproveitada como rede: pastores que já falam a uma comunidade, salas que já enchem, grupos de WhatsApp que já circulam, cultos que já produzem presença, disciplina e fotografia. Não é preciso que 15% do país seja evangélico para que uma congregação de duzentas pessoas seja, num sábado à tarde, o local mais eficiente de Portugal para produzir duzentas fotografias de gente animada a bater palmas a uma candidata. O alvo declarado, «as mulheres evangélicas», também permite falar para fora da igreja. Fala-se ao segmento pequeno e organizado para, através dele, emitir um sinal maior e mais difuso, dirigido a mulheres católicas praticantes, a mulheres sem prática religiosa mas de sensibilidade conservadora, a todas as que reconhecem no vocabulário, família, dignidade, responsabilidade, uma linguagem que já não ouvem no espaço público dito de esquerda. O léxico «judaico-cristão», note-se, é deliberadamente maior do que «evangélico»: é uma bandeira que qualquer cristão praticante, catedral ou capela, pode hastear sem se sentir a jogar fora de casa. Mas talvez ninguém esteja a apostar no presente. Os mesmos dados da Aliança Evangélica mostram 88% das igrejas inquiridas a crescer desde 2003, 73% com mais gente nos cultos do que há cinco anos e 70% com planos de abrir nova congregação até 2030, sobretudo na Grande Lisboa, em Aveiro e no Porto. Mais de metade dos novos convertidos, sublinhe-se, já não são brasileiros: nasceram em Portugal. Se a curva se mantiver, os 2% de hoje não serão os 2% de 2040. Montar agora esta rede de pastores, influenciadoras, salas cheias e vocabulário partilhado com o Chega pode ser menos uma campanha do que uma antecipação: abrir a estrada antes de haver tráfego suficiente para a justificar. Também não é acidental que a peça central seja uma mulher. E aqui talvez valha a pena recuar de novo ao Brasil, não à igreja, mas à campanha de 2022. Michelle Bolsonaro, até então uma figura discreta ao lado do marido, tornou-se nesse ano a face pública de um esforço deliberado para recuperar um eleitorado feminino que a imagem de Jair Bolsonaro afugentava. A politóloga Graziella Testa explicou-o sem rodeios: Michelle não competia com o marido, complementava-o. Onde ele era, aos olhos de muitas eleitoras, agressivo e católico de exibição, ela era evangélica praticante, de discurso suave, e prometia levar «a presença do Senhor Jesus» ao governo. A lição atravessou o Atlântico: o líder duro precisa de um rosto que fale a linguagem do cuidado, e essa linguagem, no imaginário conservador contemporâneo, fala-se melhor em registo religioso do que em registo político. Com Rita Matias, o Chega parece ensaiar a mesma distribuição de papéis: a deputada do partido que, num evento assim, assume o lugar de anfitriã e não de convidada. A comparação com Michelle Bolsonaro talvez não resista a um exame demorado. Michelle falava a um Brasil onde ser evangélica já era, por si, pertencer a uma comunidade organizada de dezenas de milhões de pessoas; Rita Matias fala a um Portugal onde essa comunidade ainda cabe num bairro médio de Lisboa. Mas o gesto é reconhecível, e talvez seja isso, mais do que a demografia, o que interessa observar: partidos que constroem uma ala dura à volta de um homem descobrem, quase sempre, que precisam também de construir uma ala afetiva em torno de uma mulher. Não para dividir o poder, mas para entregar a outra pessoa o cuidado que a liderança não quer oferecer. Nada disto seria motivo de comentário assinalável, aliás, se acontecesse num país sem memória recente de outra coisa. Portugal tem-na. Há uma geração inteira que ainda se lembra, ou herdou de perto a memória, de um Estado em que a Concordata de 1940 fazia da Igreja Católica um pilar de legitimação do regime, em que «Deus, Pátria e Família» não era um slogan de campanha mas moldura ideológica de facto. A Constituição de 1976 ergueu, com cuidado deliberado, um muro entre os partidos e as igrejas, o mesmo muro que os organizadores do movimento de Sintra invocam para jurar que não o querem derrubar, ao mesmo tempo que colocam várias deputadas do mesmo partido a organizar, no mesmo palco, um evento com uma igreja específica ao fundo. É essa a memória, mais do que os 186 mil evangélicos dos Censos, que explica por que motivo um acontecimento demograficamente irrelevante gerou, em poucas semanas, mais páginas de comentário do que qualquer congresso de partido produziria pela sua substância. Lisboa não reage aos números; reage ao eco. Voltemos à baía de Todos os Santos. Os jesuítas que ali desembarcaram em 1549 tinham a seu favor aquilo que falta a qualquer missão inversa hoje possível: um continente que a Coroa considerava vazio de instituições próprias, moldável à medida da fé que se lhe quisesse impor. O Portugal de 2026 não é essa margem. Tem uma Constituição, tem uma memória do que custou escrevê-la, e tem, sobretudo, um número. Dois por cento não é uma nação a converter; é uma fração a organizar. A pergunta em aberto, que nenhum discurso em Sintra resolveu, é se uma política pensada para milhões de fiéis consegue, à força de paciência, púlpito e fotografia, produzir efeito num país onde continuará, por muitos anos, a falar a uma minoria, ou se aquilo a que se assiste é sobretudo uma tentativa de fingir um tamanho que ainda não existe, na esperança de que o gesto, repetido vezes suficientes, acabe por fabricar a realidade que hoje apenas ensaia. O Atlântico, desta vez, não está a inverter uma fé. Está a testar se uma importação brasileira sobrevive à aritmética portuguesa. #MichelleBolsonaro #Chega #Sintra #Bolsonarismo #Evangélicos #PortugalBrasil #AtlanticLisbon
- O fármaco que venceu o puzzle do pâncreas
Em 2021, o MD Anderson descrevia o cancro do pâncreas como um puzzle a resolver mutação a mutação. Cinco anos depois, o fármaco que quase duplicou a sobrevivência dos doentes nasceu precisamente da decisão de deixar de escolher a peça. A 13 de abril de 2026, o New England Journal of Medicine publicou os resultados do ensaio de fase III RASolute 302: doentes com cancro do pâncreas metastático, já tratados com pelo menos uma linha de quimioterapia, viveram uma mediana de 13,2 meses com daraxonrasib, contra 6,7 meses com quimioterapia convencional. O risco de morte caiu 60%. O investigador principal chamou-lhe um avanço "claro e altamente significativo". Não é uma linguagem que a oncologia use com facilidade para uma doença que, noutras frases do mesmo campo, continua a ser descrita como das mais letais que existem. O resultado é animador. O incómodo está no tipo de avanço que ele não confirma. O daraxonrasib não foi desenhado para a mutação do doente. Funciona porque não escolhe uma só mutação. Um puzzle com peças em falta Uma peça deixou de ser procurada isoladamente: o avanço do daraxonrasib está em bloquear a família RAS como um conjunto. Em 2021, questionado sobre o futuro da investigação sobre KRAS, um oncologista do MD Anderson descrevia o problema em termos que qualquer leitor reconheceria: a proteína tinha de ser "dividida em subconjuntos", como G12C, G12D ou G12R, e cada subconjunto tratado com o seu próprio composto. "É como um puzzle", dizia. "Podemos dividir todas estas mutações em cancros individuais, que são visados com agentes diferentes." A frase descrevia com rigor o estado da arte da altura: a oncologia de precisão prometia isso mesmo, uma chave para cada fechadura. As chaves começaram a ser fabricadas. O problema é que nenhuma chegou para abrir a porta por si. O sotorasib, o primeiro inibidor a atingir uma mutação de KRAS até então considerada indomável, mostrou em doentes com cancro do pâncreas G12C uma taxa de resposta de 21%, uma sobrevivência livre de progressão de quatro meses e uma sobrevivência global de 6,9 meses. A MD Anderson, que conduziu o ensaio, descreveu-os como dados "animadores". Eram-no, num sentido estrito: a doença respondia a um medicamento dirigido a uma mutação até há pouco tempo tida por impossível de bloquear. Mas G12C é a mais rara das mutações de KRAS no pâncreas: a peça do puzzle que menos doentes possuem. Para a mutação mais comum, G12D, o MD Anderson lançou os iExosomas: nanopartículas carregadas com siRNA desenhado para silenciar especificamente essa variante, financiadas pelo Pancreatic Cancer Moon Shot da própria instituição. Os resultados da fase I, publicados em 2025, confirmaram segurança total, sem toxicidade limitante da dose mesmo na dose mais elevada, e uma resposta imunitária real: mais células T CD8+ dentro do tumor, supressão da via de sinalização de KRAS, queda do ADN tumoral circulante em vários doentes. E, ainda assim, treze doentes tratados, a maioria com doença estável durante alguns ciclos, e depois "todos menos um" a progredir com novas lesões. A tecnologia funcionava. A doença, no fim, também. Duas razões para o puzzle não fechar O padrão repete-se por razões que já não são apenas técnicas. Começa pela aritmética. Um inibidor desenhado para G12C só serve doentes com G12C, uma fração de uma fração dentro de uma doença em que a mutação mais frequente, G12D, aparece em cerca de 35% dos casos, e as restantes se dividem por G12V, G12R e variantes mais raras. Construir um medicamento por mutação significa aceitar, à partida, que a maioria dos doentes de hoje não vai beneficiar do medicamento de hoje. Vai ter de esperar pela próxima peça, se ela chegar a ser fabricada. Depois vem a biologia, mais difícil de contornar: a resistência. Quando um fármaco bloqueia uma única variante de KRAS, o tumor tem outras vias por onde reativar a mesma sinalização: outros membros da família RAS, outras mutações compensatórias. Bloquear a fechadura não impede a casa de ter outra porta. Os inibidores pan-RAS, como o daraxonrasib, respondem às duas razões ao mesmo tempo, precisamente por recusarem a lógica da correspondência exata. Bloqueiam KRAS, HRAS e NRAS em conjunto, sejam quais forem as mutações presentes, e o ensaio RASolute 302 incluiu doentes com G12D, G12V, G12R e até tumores sem mutação de RAS identificada. Em vez de procurar a peça certa, tentam impedir que o tabuleiro continue a jogar contra o doente. A mesma voz, cinco anos depois Os comunicados de imprensa não se detêm neste ponto, mas ele é parte da história: o oncologista do MD Anderson que, em 2021, descrevia o KRAS como um puzzle a resolver peça a peça é, em 2026, uma das vozes mais citadas a propósito do daraxonrasib, o fármaco que, no essencial, abandonou essa metáfora. A mesma pessoa que ajudou a construir a linguagem da precisão assinou também, sem contradição aparente, o momento em que essa linguagem deixou de ser a que explicava o avanço real. O trabalho anterior não perde valor por causa disso. O sotorasib e os iExosomas não foram becos sem saída: foram a prova de que KRAS podia, de facto, deixar de ser "indomável", uma palavra que a própria oncologia usava sem ironia há uma década. Mas a história que a investigação contava sobre si própria, subconjunto a subconjunto, chave a chave, não foi a história que produziu o resultado que agora se cita como "sem precedentes". Foi preciso deixar de escolher a peça para fechar o puzzle. Entre o resultado publicado no New England Journal of Medicine e o medicamento disponível numa farmácia hospitalar há ainda uma distância, esperemos que muito curta mas real, que os comunicados de imprensa tendem a apagar. Essa distância deve ficar visível: é a diferença entre um resultado publicado e um tratamento que ainda não chegou ao doente. #AtlanticLisbon #CancroDoPâncreas #KRAS #Daraxonrasib #Oncologia #MedicinaPersonalizada
- Regulares em Tudo, Exceto no Sexo
Em 2018, a Grande Loja Unida de Inglaterra publicou uma orientação sobre os maçons transgénero que merece ser lida devagar. Um irmão que, depois de iniciado, deixa de ser homem, escreveu a Grande Loja, não deixa de ser maçon. A instituição que recusa iniciar mulheres aceita manter nas suas fileiras alguém que já não é homem, desde que o tenha sido quando entrou. A orientação fixa a condição exigida no momento da admissão; o que acontece depois não desfaz a iniciação. A pergunta habitual: porque é que a maçonaria regular exclui as mulheres? A admissão de mulheres continua a separar as principais tradições maçónicas, embora a história mostre que essa fronteira não foi sempre entendida da mesma maneira. Já vem enviesada pela resposta que espera receber: uma essência, um carácter, uma incapacidade atribuída ao género. É precisamente essa acusação que a própria tradição maçónica sempre recusou. Um dos poucos pontos em que as fontes internas insistem, desde o século XVIII, é este: a mulher não é excluída «por a considerarmos indigna ou infiel», mas por uma questão de herança de ofício. Um ofício, não um carácter A proibição explícita aparece pela primeira vez em 1723, nas Constituições de James Anderson: os admitidos numa loja devem ser «homens bons e verdadeiros [...] nenhum servo, nenhuma mulher». A justificação que a tradição especulativa oferece não é moral; é laboral. A maçonaria operativa, a dos canteiros medievais, só aceitava «homens sãos e robustos, na posse de todos os seus membros», capazes do esforço físico do ofício da pedra. A maçonaria especulativa, ao herdar o ritual do ofício, herdou também o requisito de admissão. A mesma Europa produziu, porém, a partir desse ofício, outras tradições. A tradição que ficou de fora da história da tradição Enquanto Londres codificava a exclusão, a França construía, com a mesma lentidão institucional que qualquer costume antigo exige, uma prática paralela. As "loges d’adoption" nasceram nos anos 1740 para acolher esposas e parentes de maçons em graus próprios; em 1774, o Grande Oriente de França já reconhecia quatro desses graus. A prática sobreviveu à Revolução e, em 1805, teve como presidente a própria Imperatriz Josefina: antes de o Grande Oriente a marginalizar, em 1808, por a considerar incompatível com a sua constituição. Quando o século XIX começou a fixar por escrito aquilo a que hoje se chama «os landmarks antigos da maçonaria», já havia meio século de prática ritual feminina reconhecida por uma das mais antigas obediências europeias. Um marco sem mapa A própria doutrina dos landmarks não é tão antiga quanto o nome sugere. O termo vem de uma imagem bíblica: não remover o marco antigo que os pais colocaram, mas nenhuma obediência produziu alguma vez uma lista fechada e universalmente aceite daquilo que esses marcos protegem. A enumeração é a de Albert Mackey, publicada em 1858: vinte e cinco pontos, entre os quais a exigência de que o candidato seja homem. Meio século depois, Roscoe Pound reduziu essa lista a sete. Entre esses sete estava ainda a exigência de que o maçon fosse homem, livre e maior de idade. Em meados do século XX, a Comissão de Informação para o Reconhecimento da Conferência de Grão-Mestres da América do Norte usou três critérios para avaliar o reconhecimento de uma grande loja: a crença em Deus, a presença de um Livro da Lei Sagrada e a proibição de discutir religião e política dentro da loja. A exigência masculina não figurava entre eles. Continuava, no entanto, entre os sete landmarks de Pound. A comissão estabelecia uma norma de reconhecimento entre obediências; não substituía as listas anteriores. A condição masculina aparece, assim, em algumas formulações e não noutras. As listas de landmarks e os critérios de reconhecimento coexistem sem formar uma doutrina única. Cada obediência decide quais dessas formulações conserva. A porta que ninguém pediu para abrir A resposta das mulheres a esse hábito também não é recente, nem foi pedida como favor. Maria Deraismes, iniciada em 1882 numa loja ligada ao Grande Oriente de França e alvo de escândalo por isso, passou a década seguinte a trabalhar com Georges Martin para construir algo que não dependesse da tolerância de ninguém. A 4 de abril de 1893, dezasseis mulheres, já elevadas aos três graus simbólicos, fundaram em Paris a Grande Loja Simbólica Escocesa de França, Le Droit Humain, a primeira obediência mista, autónoma e autogovernada da história maçónica moderna. Conta hoje cerca de trinta e quatro mil membros em mais de setenta países. Em Inglaterra, o mesmo impulso deu origem, por caminhos próprios, à Honourable Fraternity of Ancient Freemasons e à Order of Women Freemasons, ambas nascidas nas primeiras décadas do século XX. Em França, o que restava das antigas loges d’adoption reagrupou-se, entre 1936 e 1952, na Grande Loja Feminina de França. Estas obediências organizaram-se fora da Grande Loja Unida de Inglaterra e sem depender do seu reconhecimento. Um «quase» com um século de idade Em 1999, a Grande Loja Unida de Inglaterra declarou que a Order of Women Freemasons e a Honourable Fraternity eram regulares na prática, tanto quanto lhe era possível verificar, exceto no que respeitava à admissão de mulheres. Admitiu também que podiam ser consideradas parte da maçonaria quando se falasse da instituição em geral. Não as reconheceu formalmente e manteve a proibição de visita. Segundo a sua própria declaração, a diferença relevante estava nos membros admitidos, não nas práticas das lojas. Em 2024, as três organizações declararam que seguem as mesmas regras e regulamentos, colaboram entre si e partilham as instalações. A Order of Women Freemasons e a Honourable Fraternity disseram não pretender abandonar a sua composição exclusivamente feminina e apoiar que a Grande Loja Unida de Inglaterra continue exclusivamente masculina. A declaração não estabeleceu o reconhecimento nem a visitação entre as lojas. A UGLE conserva, dentro do sistema de regularidade que representa, o poder de decidir que obediências reconhece para as suas relações internacionais. Um maçon admitido como homem mantém a qualidade maçónica depois de deixar de o ser. Uma mulher que se apresente como mulher continua impedida de entrar. A primeira situação não exige que a regra de admissão seja alterada; a segunda exige. Uma soleira em Lisboa A Grande Loja Feminina de Portugal tornou-se independente a 29 de março de 1997. As primeiras quatro mulheres portuguesas da futura obediência tinham sido iniciadas em França em 1982. A primeira loja portuguesa, Unidade e Mátria, instalou-se em Lisboa no ano seguinte. Quando chegou o momento da independência, havia já quatro lojas. A cerimónia de fundação teve lugar no Palácio Maçónico do Grande Oriente Lusitano e foi presidida por Veneráveis Mestres francesas. O Grande Oriente apoiava a maçonaria feminina, mas não admitia mulheres nas suas próprias lojas. O Grande Oriente Lusitano a votar, por dois terços, aquilo que dizia ser um landmark há 223 anos A 31 de maio de 2025, a Grande Dieta do Grande Oriente Lusitano aprovou, por maioria superior a dois terços, a admissão de mulheres. A decisão passou a permitir as lojas masculinas, femininas e mistas dentro da obediência.
- Oscar de la Renta, ou a beleza como forma de presença
Flores, cor, tule, saias amplas, mangas leves. A moda de Oscar de la Renta nunca teve vergonha do prazer. Também por isso parece, à primeira vista, fácil de compreender. A armadilha está aí: chamar-lhe apenas beleza, como se o trabalho acabasse na superfície. O que vinha depois era mais interessante. A roupa dava a certas mulheres uma maneira de entrar no mundo sem se encolherem perante o olhar dos outros. Primeiras-damas, atrizes, anfitriãs, noivas, mulheres de sociedade: todas expostas de modos diferentes, todas obrigadas a negociar a mesma coisa elementar, ser vistas sem ficarem menores por serem vistas. A elegância, em Oscar de la Renta, não terminava no vestido: começava quando alguém o levava para a vida. Há uma suspeita moderna sobre a beleza. Para ser levada a sério, parece muitas vezes obrigada a tornar-se austera, defensiva, quase invisível. De la Renta vinha de outra convicção. A beleza não precisava de se desculpar. Podia agradar, podia ter cor, podia ser decorativa. O limite era outro: não ser oca. Em mãos fracas, o decorativo serve para cobrir a ausência de pensamento. Em de la Renta, servia para dar forma social a uma pessoa. O vestido não devia vencer a mulher. Devia deixá-la chegar inteira. A elegância como hospitalidade Há criadores que impõem uma visão ao corpo. De la Renta parecia preferir outra operação: criar um lugar onde o corpo pudesse habitar sem hostilidade. Talvez seja por isso que tantas das suas roupas continuam a parecer menos datadas do que a época que as produziu. Não dependiam apenas do choque, da rutura ou do manifesto. Dependiam de proporção, movimento, cor e entendimento da ocasião. Um vestido de de la Renta quase nunca se entende fora da ocasião para que foi imaginado. A moda não acontece inteiramente no ateliê nem na passerelle. Acontece quando a peça entra na vida: no jantar, na posse, na gala, no casamento, no retrato oficial, na fotografia que será vista por milhões. A roupa não termina quando é acabada. Termina quando alguém a veste. A sua distinção entre passerelle e moda diz muito sobre isto. A passerelle podia ser espetáculo; a moda só começava quando uma mulher vestia a peça. A diferença parece simples. Separava, porém, a roupa enquanto objeto da roupa enquanto relação. De la Renta trabalhou sobretudo nesse segundo mundo. O contrário da nostalgia De la Renta podia ter ficado preso à imagem de um mundo antigo: jantares, salões, primeiras-damas, editoras temidas, mulheres treinadas para ocupar uma sala. Seria uma leitura cómoda. E insuficiente. Durante uma parte importante do século XX, a elegância pública passava por círculos relativamente fechados: a alta sociedade, a política institucional, as revistas, os comités, as galas, as grandes casas. De la Renta conhecia esse idioma por dentro. Vestiu primeiras-damas e mulheres da elite norte-americana com uma naturalidade que vinha menos da submissão ao poder do que da compreensão dos seus rituais. Esse mundo não acabou de um dia para o outro. Perdeu, porém, o monopólio da visibilidade. A passadeira vermelha começou a fazer, para uma audiência global, aquilo que os salões faziam para círculos restritos. A atriz fotografada nos Óscares passou a concentrar estatuto, desejo, consumo e comentário público. Mais tarde, as imagens deixaram de depender apenas das revistas e passaram a circular em velocidade própria. De la Renta não tratou essa mudança como decadência. Leu-a. Adaptou-se. Continuou reconhecível sem se tornar peça de museu. A continuidade estava menos nos lugares do que no problema que ele voltava a resolver: que roupa permite a uma mulher aparecer ali sem ser engolida pelo cenário? Essa pergunta não pertence apenas às primeiras-damas nem às atrizes. Também explica o poder discreto de um vestido de noiva. O vestido em público O “vestido bonito” foi uma das suas fórmulas mais conhecidas. A frase pode parecer uma forma de modéstia, talvez até de ligeireza. Mas, aplicada à sua obra, tem uma consequência mais séria. Um vestido bonito nunca é apenas bonito quando surge no lugar certo, sobre a pessoa certa, no momento certo. Um vestido pode fazer trabalho público. Suaviza uma imagem, impõe distância, protege quem está demasiado exposto. Às vezes, dá cerimónia a um corpo que já não tem descanso do olhar. Foi por isso que de la Renta serviu tão bem primeiras-damas e atrizes. Umas representavam instituições; outras representavam desejo e imaginação coletiva. Em ambos os casos, a roupa precisava de fazer uma coisa delicada: chamar a atenção sem parecer que implorava por ela. O seu trabalho não era minimalista, mas sabia conter-se. Não era tímido, mas raramente parecia desesperado. Não negava o ornamento, mas obrigava-o a servir uma presença. Os vestidos podiam ser exuberantes; não pareciam querer vencer a mulher que os usava. Uma vida treinada para entrar em salas Oscar Arístides de la Renta nasceu em Santo Domingo, em 1932, e saiu jovem para Madrid para estudar arte. O pai preferia outro destino. Ele escolheu outro mundo. Os perfis e entrevistas que fixaram a sua juventude espanhola insistem num ponto revelador: antes de dominar completamente o ofício, de la Renta já compreendia a encenação da presença. Madrid deu-lhe cafés, flamenco, noite, roupa feita por medida, uma educação do olhar. Não foi apenas formação artística. Foi aprendizagem social. Mais tarde, passaria por Balenciaga, Lanvin, Elizabeth Arden e pela Seventh Avenue. Há histórias repetidas sobre essa ascensão, algumas contadas pelo próprio, que mostram não apenas ambição, mas uma espécie de audácia prática. De la Renta parecia saber entrar primeiro e justificar depois a entrada. A coragem não estava em fingir que já sabia tudo. Estava em aprender depressa o suficiente para não desperdiçar a porta aberta. Havia talento, claro. Mas havia também velocidade, encanto, disciplina, sentido de oportunidade e uma compreensão quase física dos códigos sociais. Ele sabia o que uma sala esperava antes de a sala o dizer. O luxo sem crueldade Há uma forma de luxo que humilha. Faz sentir que a beleza pertence a quem pode pagar por ela e que todos os outros devem apenas observá-la de fora. De la Renta movia-se entre elites, dinheiro e poder, mas a sua moda raramente parecia cruel. Era luxuosa, sim, mas não cínica. Refinada, mas não gelada. Social, mas não morta. Talvez por isso a ideia de hospitalidade volte sempre que se pensa nele. Nas casas da República Dominicana, descritas em perfis da época, surgem convidados, família, cães, música, conversas, jogos de dominó, varandas e uma noção de prazer partilhado. Esses elementos biográficos interessam menos como cenário de privilégio do que como extensão de uma sensibilidade. A roupa de de la Renta também tinha portas abertas. Não obrigava uma mulher a parecer severa para ser levada a sério. Não lhe retirava cor em troca de autoridade. O encanto, para ele, não era uma deficiência. Isto pode ser visto como conservador. Em parte, era. Mas havia ali outra coisa: fidelidade a uma experiência humana elementar. Há alegria em vestir-se para uma ocasião. Há dignidade em querer aparecer bem. Há inteligência numa beleza que não se transforma em agressão. O que fica de um vestido A memória de um criador de moda é instável. Os vestidos envelhecem, os corpos mudam, as fotografias perdem contexto, os nomes que pareciam eternos tornam-se notas de rodapé. A pergunta, então, é o que resta quando a ocasião passou. No caso de Oscar de la Renta, resta uma lição sobre a relação entre beleza e vida pública. Ele mostrou que a elegância não é apenas bom gosto, nem apenas dinheiro, nem apenas técnica. É uma forma de mediação entre uma pessoa e o olhar dos outros. Essa mediação pode ser frívola, manipuladora ou vazia. Mas também pode fazer uma coisa mais rara: ajudar alguém a ocupar o seu lugar com mais nitidez. Transformar a exposição em presença. Fazer da roupa não uma máscara, mas uma companhia. Talvez seja por isso que o seu nome continue a convocar mais do que uma marca. O que fica é mais concreto: uma mulher à entrada de uma sala, o tecido a mover-se, o olhar dos outros já preparado. De la Renta sabia trabalhar esse segundo antes da aparição. Oscar de la Renta chamou-lhe, com aparente simplicidade, um vestido bonito. A memória permite hoje dizer mais. O vestido era bonito, sim. Mas o seu valor estava noutro ponto: não ficava no cabide, nem na fotografia oficial, nem no nome da etiqueta. Só começava verdadeiramente quando alguém o levava para a vida. #OscarDeLaRenta #AtlanticLisbon #Moda #Elegancia #AltaCostura #Memoria #Beleza #Estilo #DesignDeModa #Cultura
- Portugal Vigia Agressores. Não Sabe Quantos Reincidem
O Estado reconhece que uma mulher está em perigo. Identifica o agressor, impõe-lhe uma medida protetiva e declara, por decisão judicial, que ele não pode aproximar-se dela. Se essa mulher for assassinada pelo mesmo homem, já não é possível dizer que o perigo passou despercebido: a medida continuava em vigor quando ela foi morta. No Brasil, aconteceu pelo menos 148 vezes em 2025. Entre 1.127 feminicídios analisados em dezasseis estados, 13,1% das vítimas tinham uma medida protetiva de urgência em vigor no momento em que foram mortas. No Acre, encontrava-se nessa situação uma em cada quatro mulheres assassinadas; no Mato Grosso e em São Paulo, mais de uma em cada cinco. Não se trata de uma taxa de insucesso da Lei Maria da Penha. Seria necessário conhecer o universo das mulheres abrangidas por medidas protetivas e o que lhes aconteceu para calcular a eficácia dessas medidas. Os 13,1% referem-se às vítimas de feminicídio analisadas e incluem 148 mulheres que o Estado sabia que estavam em perigo. Portugal não conhece o número equivalente. O país aumentou de 513 para 1.655, em dez anos, o número de pulseiras eletrónicas associadas a processos de violência doméstica. Conhece o crescimento até à casa decimal: 222,61%. Sabe que estes casos representam 60% de toda a vigilância eletrónica existente. Mas não sabe quantos dos agressores monitorizados reincidiram. A ministra da Justiça admitiu-o em 2026 e prometeu um estudo. Portugal utilizava 1.655 pulseiras eletrónicas em processos de violência doméstica no final de 2025, mas ainda não conhecia a taxa de reincidência dos agressores monitorizados. Os dados disponíveis produzem, desde logo, um desequilíbrio. No Brasil, permitem localizar as mortes ocorridas quando a proteção já estava em vigor. Em Portugal, descrevem sobretudo a quantidade de aparelhos utilizados. A eficácia ainda não foi avaliada quanto à reincidência. Os dois países não produzem o mesmo tipo de resposta. Para perceber o que essa diferença esconde, é preciso começar pelas leis e pelo modo como cada uma passou da decisão para a proteção. A lei que nasceu de uma mulher que sobreviveu Em 1983, Maria da Penha Maia Fernandes dormia quando o marido lhe deu um tiro nas costas. Sobreviveu, mas ficou paraplégica. Semanas depois, ele tentou eletrocutá-la durante o banho. Passaram dezanove anos até que fosse preso. Em 1998, apoiada por organizações de direitos humanos, Maria da Penha apresentou queixa contra o Estado brasileiro à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. A Comissão concluiu que o Brasil fora «omisso, negligente e tolerante» perante a violência exercida contra as mulheres. A lei que recebeu o seu nome, promulgada a 7 de agosto de 2006, surgiu depois de uma mulher sobreviver ao marido, esperar quase duas décadas por justiça e levar a omissão do Estado a uma instância internacional. A Lei Maria da Penha fez mais do que agravar ou reorganizar crimes. Criou juizados especializados, delegacias da mulher, redes de apoio psicológico e jurídico e medidas protetivas de urgência que permitem afastar o agressor de casa. Em 2010, era citada pela ONU como uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à violência contra as mulheres. Entre os feminicídios analisados em 2025 estão, contudo, aqueles 148 casos. Não demonstram que a lei seja inútil nem que as medidas protetivas falhem em 13,1% das situações. Mostram o que aconteceu a uma parte das mulheres assassinadas depois de o perigo já ter sido reconhecido. A decisão do juiz não garante, sem execução e vigilância, que o agressor cumpra a distância imposta. O Brasil consegue identificar quantas dessas vítimas tinham proteção ativa, em que estados morreram e que proporção representam nos casos analisados. Portugal escolheu vigiar Portugal chegou ao problema por um caminho menos reconhecível. Não tem uma lei com o nome de uma vítima nem uma condenação internacional transformada em momento fundador. A violência doméstica tornou-se crime público pela Lei n.º 7/2000: o Ministério Público passou a poder avançar independentemente da vontade da vítima. Em 2007, a Lei n.º 59/2007 completou a autonomização do crime no artigo 152.º do Código Penal. Essa alteração ocorreu antes da promulgação da Lei Maria da Penha, embora sem a mesma projeção internacional. O agressor sujeito a vigilância transporta um dispositivo; a vítima pode receber outro. Se a distância imposta pelo tribunal for violada, o sistema emite um alerta. A aproximação pode ser detetada sem depender de uma nova denúncia da mulher. Havia 513 pulseiras ligadas à violência doméstica em 2016. No final de 2025, eram 1.655. Quase duas em cada três pulseiras eletrónicas utilizadas em Portugal estavam já associadas a este crime. O Brasil expôs 148 mortes ocorridas depois de a proteção ter sido decretada. Portugal expõe o crescimento das pulseiras, mas não o que aconteceu depois de terem sido ligadas. Um país enfrenta o número que encontrou; o outro continua protegido pelo número que ainda não procurou. A falha documentada pesa contra o Brasil. A falha que Portugal ainda não procurou medir não pesa, por enquanto, contra ninguém. É esse o privilégio: aquilo que não foi avaliado pode continuar a apresentar-se como se tivesse resultado. A conta que ficou por fazer Um estudo da Universidade Fernando Pessoa, relativo ao período entre 2016 e 2018, registou 3.286 feminicídios no Brasil e 70 em Portugal. A taxa brasileira foi de 1,04 por 100 mil mulheres; a portuguesa, de 0,43. A diferença é superior ao dobro. Os autores não a atribuem apenas às leis ou aos instrumentos de vigilância. Consideram também a desigualdade de género, o desemprego, o rendimento e o desenvolvimento humano. A violência letal é, em geral, muito superior no Brasil e não se circunscreve às mulheres nem às relações de intimidade. O estudo não permite isolar qualquer efeito da pulseira eletrónica portuguesa. Esse efeito exigiria acompanhar os agressores monitorizados, comparar comportamentos e saber o que acontece durante e depois da vigilância. Questionada em 2026, a ministra da Justiça admitiu que não conhecia a taxa de reincidência. Prometeu então um estudo. A instalação de uma pulseira demonstra que houve uma decisão judicial e que existem meios para executar a vigilância. O número de dispositivos mostra até onde o sistema foi alargado. Sem os dados sobre a reincidência, não permite saber quantos agressores voltaram a aproximar-se das vítimas nem comparar o seu comportamento com o dos agressores não monitorizados. O que os números ainda não mostram No Brasil, os 13,1% não abrangem todas as mulheres que receberam proteção. Partem dos feminicídios analisados em dezasseis estados e recuam até às medidas que estavam em vigor. Em Portugal, o percurso estatístico faz-se no outro sentido: começa nos dispositivos instalados, mas ainda não acompanha o que aconteceu depois. Para saber se as mulheres ficaram mais seguras, falta conhecer a reincidência dos agressores monitorizados e o que ocorreu durante e depois da vigilância. Foi para responder a essa questão que a ministra da Justiça anunciou o estudo. Uma pulseira instalada prova que o Estado agiu. Não prova que a mulher ficou protegida. Enquanto Portugal não souber o que aconteceu depois de cada dispositivo ter sido ligado, 1.655 dirá quantas vezes o sistema foi acionado — não quantas vezes a proteção chegou a tempo.
- A pergunta que os 250 anos dos EUA não querem responder
OPINIÃO · Poder · Estados Unidos · Aniversários, memória e ficção distópica · Alberto Carvalho Aos 250 anos, uma nação descobre que celebrar não é o mesmo que corrigir-se — e que a ansiedade que a história hesita em nomear já apareceu, há muito, na ficção Um aniversário nacional funciona como um pretexto social — talvez o único que uma sociedade se dá a si própria com regularidade — para confrontar os ideais com que se fundou com a realidade em que hoje vive. Quanto mais redondo o número, mais gente sente essa obrigação. A história sugere que os grandes marcos nacionais raramente correm em paz. Coincidem, com uma regularidade quase incómoda, com crises políticas, guerras, recessões e um ceticismo popular que os discursos oficiais preferem não mencionar. Tornam-se, por isso, palco tanto de celebração como de protesto — e essa tensão é, provavelmente, o sinal mais honesto de que a data ainda significa alguma coisa para quem a vive. Grandes aniversários nacionais deviam ser momentos de autocorreção. Cada vez mais, é a ficção distópica, não a história, que consegue nomear a ansiedade real do presente. Há um risco maior do que o protesto: a comemoração transformar-se em mercadoria — bandeiras em toalhas de mesa, o patriotismo embalado e vendido de volta ao cidadão como produto sazonal. Isso produz um cinismo previsível: a data transforma-se em campanha de vendas, e perde, pelo caminho, o convite à reflexão que a tornava relevante. Os grandes aniversários repetem, também, um padrão mais antigo e mais perigoso: celebrar o progresso técnico e territorial como se fosse, por si só, prova de justiça cumprida. Estradas, fábricas, fronteiras alargadas — tudo isso aconteceu, de facto, ao lado de fraturas sociais que continuaram abertas, e de grupos inteiros que ficaram de fora dos direitos que a própria celebração dizia garantir a todos. Por trás disto está uma questão de desenho institucional. Uma sociedade que se pretende democrática precisa de manter viva a capacidade de se corrigir a si própria — de rever as suas próprias regras fundamentais quando deixam de servir. Um bloqueio prolongado nessa capacidade transforma a ideia de regras democráticas vivas numa formalidade distante, sem correspondência na prática quotidiana. O bloqueio institucional tem, em geral, uma origem mais silenciosa: a erosão da capacidade cívica de dialogar, discutir e decidir em conjunto — a competência mais básica de qualquer democracia, e também a mais fácil de deixar atrofiar. Reconstruir essa competência, começando pela escala local, é uma condição prévia para qualquer tentativa séria de reescrever um pacto social ou constitucional. Uma reforma sem essa base deliberativa tende a ser imposta, e as reformas impostas raramente duram. A literatura distópica contemporânea faz, cada vez mais, um trabalho que a história ainda hesita em fazer com a mesma clareza. Mundos de vigilância biométrica governamental, de controlo de dados por corporações, de cidadãos declarados "não verificados" e por isso excluídos da própria cidadania — este género tornou-se o principal espaço onde essa ansiedade específica ganha nome e forma. O argumento contrário merece ser levado a sério mesmo quando incomoda: toda a geração encontra a sua distopia preferida, e toda a sociedade sobrevive, de alguma forma, ao seu próprio pessimismo cíclico. Aniversários anteriores também produziram profecias sombrias que o tempo acabou por desmentir. Vale a pena examinar, ainda assim, a escala a que essa ficção passou a soar mais precisa do que os relatos verificáveis sobre o presente — uma precisão que, há uma geração, teria soado como exagero de género. A coincidência literária revela algo sobre a capacidade coletiva de nomear o que se está a viver enquanto ainda está a acontecer — capacidade que nenhum livro, por si só, substitui. Tratar um aniversário nacional como celebração pura, sem abrir esse espaço de reconhecimento, desperdiça exatamente o instrumento que qualquer nação fundada na ideia de autocorreção deveria saber usar. A pergunta que um aniversário redondo devia obrigar a fazer é simples: porque é que essas ficções distópicas soam tão familiares — e ninguém, ainda, quer responder em voz alta.
- Robert D. Kaplan: o perigo de governar com 30% da informação
Governar com 30% da informação Numa conversa realizada em Lisboa, Robert D. Kaplan descreveu o momento em que um dirigente tem de agir antes de conhecer suficientemente os factos. A decisão pode ser razoável e deixar, ainda assim, um dano que nenhuma explicação posterior apaga. Aos catorze minutos da conversa na FLAD, Miguel Monjardino perguntou a Robert D. Kaplan por que razão a dimensão trágica da política tinha perdido espaço nas universidades, nos governos e no comentário público. Uma figura observa um mapa-mundo fragmentado, representação visual do risco de tomar decisões estratégicas com apenas 30% da informação disponível. Kaplan falou dos gregos. Usavam a palavra tragédia para situações diferentes daquilo a que hoje chamamos uma desgraça. Um acidente terrível, uma derrota militar ou a vitória do mal sobre o bem podiam trazer sofrimento; o conflito trágico começava quando duas escolhas defensáveis se excluíam. Um dirigente recebe várias opções. Cada uma protege alguma coisa que merece ser protegida. A escolha de uma delas condena outra parte do problema a ficar sem resposta. Kaplan acrescentou uma dificuldade: a decisão chega quando ainda falta a maior parte da informação. Usou uma percentagem. Quem governa, disse, pode ter de decidir com apenas «30% das provas». Aos 40%, a oportunidade de alterar o resultado talvez já tenha desaparecido. A conta é impossível de fazer. Nenhum chefe de governo sabe que reuniu exatamente 30% do conhecimento necessário para mobilizar tropas, aceitar um acordo ou responder a uma crise. A imagem tem até qualquer coisa de demasiado arrumado para descrever decisões tomadas com base em relatórios contraditórios, previsões frágeis e informação produzida por instituições que também defendem interesses próprios. Ainda assim, a percentagem fixa uma diferença que tende a desaparecer depois dos acontecimentos. O decisor age com uma parte dos factos. O historiador, o jornalista e o cidadão avaliam-no quando muitos dos restantes já chegaram. Os documentos tornam-se públicos. Conhecem-se conversas reservadas, avisos ignorados, estimativas certas e previsões que falharam. A sequência dos acontecimentos adquire uma ordem que raramente tinha no momento. Certas alternativas parecem evidentes porque sabemos onde conduziu a opção escolhida. Também os riscos que acabaram por não se concretizar desaparecem da memória. Quem estava no governo recebeu outra matéria. Havia informação incompleta, fontes com diferentes graus de credibilidade e avaliações incompatíveis sobre as consequências de agir. Por vezes, existia ainda o problema adicional de não saber se a informação estava incompleta por natureza ou porque alguém a filtrara antes de chegar ao topo. A incerteza pode ser usada como desculpa. Governantes ocultaram factos, ignoraram pareceres inconvenientes e apresentaram como inevitáveis decisões já tomadas por outras razões. Kaplan tratava de uma situação mais difícil de julgar: a informação disponível foi considerada, as alternativas foram discutidas e continuava a faltar uma resposta segura. Esperar não suspende o problema. Durante a espera, uma guerra prossegue, um adversário consolida uma posição ou uma oportunidade de negociação perde valor. O tempo acrescenta informação e também altera aquilo sobre que se decide. Em certas circunstâncias, o dado que permitiria escolher com maior segurança chega depois de a escolha ainda poder produzir efeito. Kaplan colocava aí a dimensão trágica. Uma decisão pode ser a mais defensável entre as disponíveis e continuar a impor sofrimento. O resultado favorável também não devolve aquilo que foi sacrificado para o alcançar. A política pública costuma esconder esta parte. Cada lado apresenta o valor que protege como se ele ocupasse sozinho o campo moral. Segurança, liberdade, paz, soberania, estabilidade: a escolha da palavra já distribui os papéis. Quem discorda passa a parecer indiferente ao valor anunciado. Na mesa de decisão, os valores aparecem misturados com custos. Proteger um aliado pode prolongar uma guerra. Recusar apoio pode acelerar uma derrota e entregar uma população ao vencedor. Uma intervenção evita um dano previsível e abre riscos que ainda não podem ser medidos. A contenção preserva vidas no imediato e pode tornar mais cara a resposta seguinte. A enumeração nunca fica completa. Também não oferece uma posição confortável de neutralidade. O dirigente terá de atribuir peso a perdas diferentes, suportadas por pessoas diferentes e em momentos diferentes. Kaplan não retirava dessa dificuldade uma equivalência moral entre todas as partes. Uma invasão continua a ser uma invasão. Quem se defende ocupa uma posição distinta de quem inicia a agressão. A tragédia surge nas decisões tomadas dentro dessa diferença: quanto arriscar, durante quanto tempo, com que limites e a que custo para quem não participa diretamente na escolha. A dúvida permanece mesmo quando a distinção entre agressor e vítima é clara. Saber quem começou uma guerra não determina automaticamente todas as decisões necessárias para lhe responder. Chamberlain ainda não conhecia o fim Monjardino perguntou-lhe como se prepara alguém para decidir sob pressão. Kaplan respondeu com o medo. Recomendou que fosse respeitado e mantido sob controlo. A ausência de medo favorece a temeridade; um dirigente convencido de que domina a situação pode ter apenas deixado de reconhecer aquilo que ignora. O medo em excesso estreita a decisão até restar um único objetivo: evitar a ameaça que parece mais próxima. Kaplan escolheu Neville Chamberlain como exemplo. Em 1938, o primeiro-ministro britânico aceitara, em Munique, um acordo que permitiu a Hitler anexar os Sudetas. O nome de Chamberlain ficou depois associado ao apaziguamento e à ilusão de que uma concessão conseguiria conter um agressor. A leitura posterior parte do conhecimento da guerra que começou em 1939 e dos crimes cometidos pelo regime nazi. Chamberlain decidia antes de essa sequência estar completa. Tinham passado vinte anos desde o fim da Primeira Guerra Mundial. O conflito matara milhões de pessoas e permanecia na experiência direta de dirigentes, famílias e comunidades europeias. Outra guerra não era uma abstração estratégica. Era o regresso possível a algo que ainda não fora absorvido. Kaplan considerou errada a decisão de Chamberlain. Procurou, porém, perceber a composição do erro. O primeiro-ministro britânico possuía razões reconhecíveis para temer um novo conflito continental. Atribuiu-lhes um peso que acabou por deformar a avaliação do perigo representado por Hitler. A diferença importa. Uma decisão desastrosa não exige sempre estupidez, cobardia ou má-fé. Pode nascer de uma leitura razoável de um risco real, levada longe demais. Munique tornou-se depois uma memória disponível para outros governantes. Passou a servir de aviso contra concessões e atrasos. A analogia ganhou tanta força que começou a produzir os seus próprios enganos. Adversários diferentes foram comparados com Hitler; tentativas de negociação passaram a ser descritas como capitulação antes de se saber o que poderiam obter. Chamberlain temia a repetição de 1914. Os seus sucessores passaram a temer a repetição de 1938. A história entrou nas decisões seguintes como conhecimento e como pressão. Nenhum dirigente consegue saber antecipadamente qual dessas duas funções dominará. Kaplan não apresentou um método para calcular a quantidade certa de medo. Falou de uma disposição: sentir o perigo com clareza suficiente para evitar a imprudência e conservar espaço mental para avaliar outros riscos. A fórmula permanece imprecisa porque a fronteira entre prudência e paralisia só se torna nítida depois do resultado. Talvez esta seja uma das fragilidades da resposta. A experiência histórica ensina que o medo pode conduzir ao erro; oferece menos ajuda no momento de saber se aquele medo específico está a proteger o dirigente de uma aventura ou a impedi-lo de agir a tempo. Uma paz construída por homens frios Quando lhe pediram recomendações de leitura, Kaplan mencionou A World Restored, o primeiro livro de Henry Kissinger. Escrito antes da carreira política que o tornaria uma das figuras mais discutidas da política externa americana, o estudo tratava da ordem europeia posterior às guerras napoleónicas. Kissinger concentrou-se em Metternich e Castlereagh. Kaplan descreveu-os como homens frios, pouco inclinados a imaginar que a paz nasceria de uma transformação moral das potências europeias. Trabalharam com rivalidades que não podiam eliminar e procuraram impedir que voltassem a destruir o continente. O sistema resultante assentou no equilíbrio e na contenção. Durou durante décadas, com guerras e crises que não chegaram a reproduzir a escala das campanhas napoleónicas. Esse êxito alterou a perceção europeia da própria estabilidade. Com o tempo, a paz pareceu menos dependente das instituições, dos compromissos e dos cálculos que a sustentavam. Uma geração habituada ao equilíbrio começou a tratá-lo como parte da ordem natural. Kaplan sugeriu que a Europa entrou na Primeira Guerra Mundial depois de perder parte da consciência da fragilidade daquilo que herdara. A tese merece alguma cautela. O século XIX europeu esteve longe de ser pacífico para todos, e o equilíbrio entre grandes potências conviveu com repressão, impérios e guerras fora do centro europeu. Ainda assim, a pergunta de Kaplan conserva utilidade: o que acontece a uma ordem quando os seus beneficiários deixam de reconhecer o trabalho necessário para a manter? A segunda recomendação foram os Federalist Papers, os textos escritos por James Madison, Alexander Hamilton e John Jay em defesa da Constituição dos Estados Unidos. Kaplan chamou pessimistas aos seus autores. Esperavam ambição, facções e abuso de poder. A arquitetura constitucional nasceu dessa expectativa. Os cargos seriam ocupados por pessoas sujeitas a interesses próprios; as maiorias poderiam exceder os seus limites; uma instituição tentaria aumentar o poder à custa das outras. A confiança na república dependia de mecanismos concebidos para suportar essas falhas. O sistema teria de funcionar também sob dirigentes medíocres e durante períodos de conflito intenso. Há uma ligação direta entre este pessimismo institucional e os «30% das provas». Um dirigente obrigado a decidir com informação incompleta pode errar mesmo quando age com seriedade. A divisão de poderes, a contestação política e a possibilidade de rever decisões limitam a extensão desse erro. Esses mecanismos também falham. Podem atrasar respostas necessárias, transformar a fiscalização em bloqueio e distribuir a responsabilidade até ninguém responder pelo resultado. Kaplan não explorou longamente esse lado da questão, embora ele complique a defesa institucional. A mesma resistência que impede uma decisão precipitada pode impedir uma decisão urgente. Uma ordem política precisa de conter o poder sem o tornar incapaz de agir. O equilíbrio varia consoante a crise, e as regras são aplicadas por pessoas que também interpretam os seus próprios interesses. O pessimismo dos fundadores oferece precauções; não oferece garantias. Putin sobre o mapa A conversa chegou à geografia através de The Revenge of Geography. Kaplan escrevera o livro porque considerava incompleta uma visão da política internacional concentrada quase inteiramente na vontade humana. Durante algum tempo, afirmou Kaplan, ganhou força a ideia de que a energia política, a superioridade moral e as escolhas corretas permitiriam ultrapassar os condicionamentos do território. O mapa parecia uma herança antiga que a tecnologia, a globalização e a capacidade de intervenção tinham tornado menos importante. Kaplan recuperou rios, montanhas, acessos ao mar, recursos, fronteiras e vizinhos. Cada um desses elementos altera os custos suportados por um Estado. Um país rodeado por planícies abertas organiza a defesa de maneira diferente de um território protegido por barreiras naturais. Uma potência marítima possui opções que faltam a um Estado sem litoral. Chamou a esses fatores o cenário. Sobre ele entram atores humanos com ambições, receios e ideias próprias. A metáfora de Shakespeare permitia-lhe conservar a geografia sem transformar o mapa num autor. A Rússia e a Ucrânia partilham uma fronteira extensa, sem uma grande barreira natural. As duas sociedades têm histórias interligadas e proximidades linguísticas e culturais, apesar de possuírem identidades políticas distintas. A geografia ajuda a compreender a importância atribuída à Ucrânia por sucessivos dirigentes russos. A invasão de fevereiro de 2022 precisou de uma decisão. Kaplan falou de Vladimir Putin como uma personagem colocada sobre aquele cenário. Durante a pandemia, o presidente russo viveu um período de maior isolamento, encontrou menos pessoas e recebeu informação através de um círculo mais estreito. Decidiu avançar convencido de que a Ucrânia seria conquistada rapidamente. Segundo Kaplan, parte da elite russa tinha razões fortes para evitar uma guerra com o Ocidente. Possuía investimentos, propriedades e ligações pessoais em países europeus. Esses interesses não impediram Putin de impor a sua avaliação. A geografia tornou a Ucrânia central para a perceção estratégica russa. Ficaram por decidir a natureza da ameaça, a urgência da resposta e a legitimidade dos meios usados. Putin respondeu a essas perguntas e errou também na previsão da resistência ucraniana e da duração da campanha. A referência aos «30%» torna-se mais incómoda neste ponto. Todos os dirigentes decidem com informação incompleta, incluindo quem inicia uma guerra de agressão. Reconhecer essa condição não reduz a responsabilidade. Mostra que a incerteza, por si só, nada diz sobre a qualidade moral ou estratégica de uma decisão. Putin podia desconhecer parte do que aconteceria e continuar responsável por ter escolhido a invasão. Chamberlain podia agir sob o trauma de uma guerra anterior e continuar responsável pelo acordo que assinou. A falta de conhecimento explica uma parte do processo; a decisão conserva autor, contexto e finalidade. Kaplan procura evitar o fatalismo geográfico. O mapa condiciona a ação e não determina a ordem dada por um governante numa data concreta. Entre o território e a política existem interpretações. Algumas tornam-se doutrina, outras servem interesses do regime e outras resultam de leituras sinceras que podem estar erradas. Essa zona intermédia é precisamente onde a análise se torna difícil. Atribuir tudo à personalidade de Putin ignora fatores que sobreviverão ao seu governo. Atribuir tudo à geografia transforma uma escolha política numa consequência inevitável do território. Nenhuma das explicações chega sozinha. Quando chegam os restantes factos A percentagem usada por Kaplan pode seduzir dirigentes inclinados para a ação. Quem se vê como alguém capaz de decidir com pouca informação também pode estar apenas a desprezar obstáculos, pareceres contrários e sinais de que a sua hipótese é fraca. A urgência favorece esse tipo de autoimagem. O chefe político apresenta-se como a única pessoa disposta a assumir a responsabilidade enquanto os restantes hesitam. A decisão rápida adquire valor próprio, independentemente da qualidade do processo que a produziu. Kaplan não defendeu decisões sem processo. A sua própria resposta apontava para a preparação histórica, a leitura, o conhecimento geográfico e a capacidade de gerir o medo. Tudo isso exige tempo, instituições e pessoas autorizadas a discordar. Os 70% em falta não podem ser preenchidos pela convicção. Continuam em falta. Num sistema democrático, a decisão tomada sob incerteza deveria deixar vestígios suficientes para ser examinada: os fundamentos usados, as alternativas consideradas, os riscos aceites e a informação descartada. Certas matérias permanecerão reservadas durante algum tempo, sobretudo em questões militares e de segurança. A reserva não elimina a necessidade de fiscalização. Também deve existir espaço para a correção. Uma decisão construída como prova definitiva da força do governante torna o recuo politicamente mais caro, mesmo quando os novos factos o recomendam. A retórica usada para obter apoio pode acabar por aprisionar quem a escolheu. As instituições enfrentam, assim, duas pressões contrárias. Precisam de permitir a ação antes de toda a informação estar disponível e impedir que a urgência transforme uma hipótese individual numa política irreversível. A solução muda de caso para caso e pode falhar dos dois lados. Kaplan deixou essa parte em aberto. A história ajuda a reconhecer padrões, o mapa impede certas fantasias e o medo bem gerido contém a imprudência. Nenhum desses recursos informa um dirigente de que atingiu o ponto exato em que deve agir. Resta a qualidade do processo e a disposição para rever a decisão quando chegam novos factos. Nessa altura, porém, a política já distribuiu custos. Há compromissos assumidos, pessoas afetadas e alternativas que deixaram de existir. Os restantes 70% entram numa situação diferente daquela sobre a qual a primeira decisão foi tomada. Nota editorial: Este ensaio parte da conversa pública entre Robert D. Kaplan e Miguel Monjardino, realizada na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, em Lisboa, a 15 de junho de 2023, no âmbito do ciclo Democracy: The Way Ahead. As citações foram traduzidas do inglês pelo Atlantic Lisbon a partir da gravação integral disponibilizada pela FLAD. O texto constitui uma interpretação ensaística autónoma das ideias discutidas nessa sessão.
- A China descobriu que precisa de consumidores
A China descobriu que precisa de consumidores Pequim fixou uma meta para as compras das famílias, mas o problema chinês não parece estar na falta de produtos. Está no dinheiro que permanece guardado, nas casas que perderam valor e na insegurança quanto aos rendimentos futuros. A China construiu fábricas. Agora precisa de consumidores Sessenta biliões de yuans em vendas a retalho até 2030. O número aparece no primeiro plano quinquenal chinês dedicado exclusivamente ao consumo. Em 2025, o total tinha sido de 50,1 biliões. A meta foi anunciada quando os dados do primeiro semestre já mostravam uma economia a avançar a velocidades diferentes. A indústria transformadora cresceu 5,5%. As vendas de bens a retalho aumentaram 1,1%. O investimento imobiliário caiu 18%. O produto interno bruto ainda cresceu 4,7% entre janeiro e junho. No segundo trimestre, porém, o ritmo desceu para 4,3%, o valor mais baixo desde o final de 2022. O investimento em ativos fixos recuou 5,7%. Na construção, a quebra foi de 4%. A produção industrial continuou a aumentar em junho. Os computadores, os equipamentos de comunicação e a maquinaria registaram crescimentos fortes. As fábricas chinesas não perderam a capacidade de produzir. Algumas continuam a instalar equipamento e a automatizar tarefas, mesmo quando reduzem novos projetos ou adiam a expansão física. O plano de consumo parte desta diferença entre uma economia industrial ainda capaz de aumentar a oferta e famílias que gastam com maior cautela. Inclui a saúde, o turismo, a cultura, o desporto, o apoio à infância e os cuidados a idosos. Prevê o desenvolvimento de serviços digitais, o estímulo às marcas chinesas e novos programas para bens duradouros. A lista é extensa porque o Governo procura vários tipos de procura ao mesmo tempo. Uma parte poderá ser criada através de descontos ou de incentivos à substituição de automóveis e eletrodomésticos. Outra dependerá de serviços cuja oferta ainda é escassa ou cujos custos são elevados. Há também referências ao rendimento das famílias e à proteção social, embora o plano não permita saber quanto dinheiro será reservado para essas áreas. Essa distribuição será decisiva. Um subsídio à compra produz resultados rápidos e fáceis de medir. Uma reforma das pensões demora mais, e o seu efeito sobre o comércio pode não surgir de imediato. O mesmo acontece com a cobertura de saúde, o apoio no desemprego ou a integração dos trabalhadores migrantes nos serviços públicos das cidades onde vivem. Durante décadas, Pequim não precisou de atribuir ao consumo um programa próprio. O investimento em infraestruturas, construção e indústria criava emprego e aumentava os rendimentos. A urbanização levava milhões de pessoas a comprar apartamentos e a equipá-los. O comércio crescia com a expansão do próprio modelo. A habitação ocupava uma posição central. Era uma casa, mas também a principal aplicação financeira de muitas famílias. Enquanto os preços subiam, o valor do imóvel compensava parte da insegurança associada às despesas futuras. Uma pensão modesta ou uma conta médica elevada pareciam menos ameaçadoras quando o apartamento continuava a valorizar. A China construiu fábricas. Agora precisa de consumidores O investimento imobiliário caiu 18% no primeiro semestre de 2026. A área dos projetos iniciados diminuiu 23,4%. A área dos edifícios concluídos recuou 23,7%. A crise dos promotores deixou obras interrompidas e empresas endividadas. Os governos locais perderam receitas provenientes da venda de terrenos. Para os proprietários, o efeito acumulou-se de maneira menos visível. O apartamento permaneceu no mesmo lugar, mas passou a ser mais difícil saber quanto valeria numa venda ou quanto tempo demoraria a encontrar comprador. Uma família pode manter o emprego, continuar a pagar o empréstimo e, ainda assim, reduzir as despesas. O receio não precisa de resultar de uma perda já concretizada. A possibilidade de o principal ativo valer menos do que se pensava chega para adiar uma compra que não seja urgente. Quase metade da poupança das famílias chinesas encontra-se aplicada em habitação. Uma parte adicional permanece em depósitos bancários. A escolha de aplicações seguras ganhou peso com a descida dos preços imobiliários e com expectativas mais cautelosas quanto aos rendimentos. Os gastos das famílias não desapareceram. No primeiro semestre, aumentaram em categorias como a alimentação, os transportes, o vestuário e vários serviços. Cresceram pouco para a dimensão do ajustamento que Pequim pretende fazer. Os programas de substituição de equipamentos têm utilidade neste contexto. Conseguem levar uma família a trocar um automóvel ou um frigorífico alguns meses antes do previsto. O efeito termina quando o apoio desaparece, caso os motivos que levaram essa família a poupar permaneçam intactos. As despesas médicas continuam a pesar. A cobertura das pensões varia. Milhões de trabalhadores migrantes vivem em cidades onde não beneficiam dos mesmos serviços concedidos aos residentes registados. O salário pode ser recebido no litoral industrial, enquanto parte da proteção social permanece ligada à província de origem. O Governo central pode anunciar uma melhoria destes sistemas, mas a execução depende, em grande medida, de administrações locais cuja situação financeira se deteriorou com a crise imobiliária. As receitas obtidas através dos terrenos permitiam financiar serviços e investimentos. A sua queda reduziu a margem para novas despesas precisamente quando Pequim pede aos governos locais que ajudem a sustentar o consumo. Há também uma diferença importante entre financiar uma fábrica e aumentar o rendimento disponível. No primeiro caso, o Estado conhece o destino do dinheiro. Sabe onde será construída a instalação e qual o setor beneficiado. Uma transferência para uma família pode acabar numa loja, mas pode também ficar no banco. Depois de uma crise imobiliária prolongada, poupar um rendimento adicional não seria uma resposta inesperada. As famílias precisariam primeiro de acreditar que a melhoria duraria. A China tem motivos para hesitar antes de retirar recursos à política industrial. O modelo produziu cadeias de abastecimento extensas, infraestruturas modernas e empresas capazes de competir em mercados nos quais o país dependia anteriormente de tecnologia estrangeira. Os veículos elétricos, as baterias, os painéis solares e os equipamentos de telecomunicações tornaram-se fontes de crescimento e instrumentos de autonomia económica. Muitos desses setores ainda beneficiam de crédito favorecido, apoio local e programas públicos. Uma redução brusca poderia agravar a dívida de algumas empresas e eliminar empregos em regiões que passaram a depender de determinadas indústrias. O plano de consumo acrescenta uma prioridade, mas não identifica claramente quais das anteriores receberão menos financiamento. Os números do investimento mostram essa dificuldade. A compra de equipamento aumentou 8,1% no primeiro semestre, apesar da queda de 5,7% no investimento em ativos fixos. As empresas continuaram a modernizar as linhas de produção, enquanto reduziam a construção e a instalação de novos espaços. A automatização responde ao envelhecimento da população e à diminuição futura da mão de obra. Permite aumentar a produtividade e competir em atividades de maior valor. Também reduz a quantidade de trabalhadores necessária para produzir o mesmo volume. Os empregos criados pela modernização não chegam necessariamente às pessoas que perderam funções industriais. A manutenção avançada, a engenharia e a programação requerem outras qualificações. Podem surgir noutra cidade ou apenas depois de um intervalo prolongado. A insegurança laboral não se reflete inteiramente na taxa de desemprego. Uma empresa pode manter os trabalhadores e congelar os salários. Outra reduz as contratações. Um projeto adiado significa empregos que nunca chegam a existir e rendimentos que não entram no comércio local. Entre janeiro e junho, o investimento não governamental caiu 8,5%, mais do que o indicador total. As empresas privadas, com acesso desigual ao crédito e menor proteção perante uma desaceleração, mostraram-se particularmente cautelosas. Essa prudência chega aos trabalhadores através das decisões de contratação e de remuneração. O plano pretende aumentar as despesas das famílias num momento em que parte dessas famílias observa empresas a contratar menos e fábricas a depender mais de máquinas. O consumo pode crescer sem um mercado laboral exuberante, mas será difícil torná-lo o principal motor da economia enquanto os rendimentos futuros permanecerem incertos. A procura estrangeira tem compensado parte dessa fraqueza. Em 2025, as exportações ajudaram a sustentar o crescimento, e o excedente da conta corrente terá atingido 3,3% do produto interno bruto. A inflação baixa, quando comparada com a dos parceiros comerciais, reforçou a competitividade dos produtos chineses. Cada empresa procura compradores onde os encontra. O efeito internacional surge quando milhares de fabricantes fazem o mesmo dentro de uma economia com a dimensão da China. As exportações beneficiam de vantagens que levaram décadas a construir. Os fornecedores estão próximos, os portos funcionam, a mão de obra acumulou conhecimento e a produção pode atingir volumes difíceis de reproduzir. O apoio público também faz parte desta estrutura, através do crédito, dos terrenos e das políticas locais. Reduzir toda a competitividade chinesa a subsídios seria inexato. Ignorar o papel do Estado também o seria. O resultado é uma capacidade industrial que continua a colocar produtos no exterior quando o mercado doméstico não os absorve. Os Estados Unidos e a União Europeia responderam com tarifas e investigações antissubsídios. Outros países receiam que os fabricantes chineses ocupem setores que tentam desenvolver internamente. Algumas medidas protegem empresas pouco eficientes. Outras procuram evitar que a concorrência elimine produtores locais antes de estes conseguirem ajustar os custos ou aumentar a escala. Pequim rejeita a expressão «excesso de capacidade» e aponta para a qualidade e o preço dos seus produtos. Em vários setores, as empresas chinesas possuem vantagens reais. A tensão comercial resulta precisamente da dificuldade de separar essa eficiência da fraqueza da procura interna e dos apoios que permitiram construir o atual volume de produção. Uma expansão do consumo dentro da China reduziria parte da pressão exportadora. As empresas venderiam mais no mercado doméstico. Os serviços poderiam absorver trabalhadores que já não encontram lugar nas indústrias automatizadas. O envelhecimento da população deverá aumentar a procura de cuidados de saúde e de assistência a idosos, áreas nas quais existe margem para criar emprego. O plano reserva espaço para esses serviços. Continuarão a competir por recursos com os semicondutores, a inteligência artificial, a energia e outros setores considerados essenciais para a autonomia tecnológica. Ainda não foi apresentado o modo como essa competição será resolvida nos orçamentos. A meta dos 60 biliões de yuans poderá ser alcançada através do crescimento nominal, da expansão dos serviços e de novos incentivos ao comércio. O valor total das vendas não mostrará, por si só, quanto mudou a distribuição do rendimento ou quanto diminuiu a necessidade de poupança preventiva. Essas alterações aparecerão noutros dados: no valor das pensões, na cobertura do desemprego, no peso das despesas médicas e no acesso dos trabalhadores migrantes aos serviços urbanos. Também aparecerão na recuperação do investimento privado e na estabilidade do mercado imobiliário. No primeiro semestre de 2026, a indústria transformadora cresceu 5,5%, as vendas de bens a retalho aumentaram 1,1% e o investimento imobiliário caiu 18%. O plano foi aprovado com estes números já conhecidos. Os próximos orçamentos dirão que parte do dinheiro público chegará efetivamente às famílias. Imagem: Nuno Alberto
- Portugal Não É Um País Pequeno
Sobre o intervalo entre a palavra e a coisa que ela um dia nomeou Atlantic Lisbon · Ensaio · Elian Morvane No topo do Padrão dos Descobrimentos, a proa de pedra aponta há sessenta e cinco anos para o rio, como se o Tejo ainda fosse caminho para algures. Henrique, o Navegador, vai à frente, o rosto virado para a água; atrás dele, em fila cerrada, os outros: reis, poetas, cartógrafos, um punhado de santos, todos de calcário claro, todos parados no gesto exato de partir. Nenhum chegou a lado nenhum desde 1960. E no entanto o monumento continua, todas as manhãs, a fazer o mesmo gesto: aponta e promete uma partida que já não vai a lugar nenhum. A costa atlântica portuguesa ao entardecer, numa capa da Atlantic Lisbon para o ensaio «Portugal não é um país pequeno» Foi erguido na véspera do ano em que a guerra começaria em Angola, e no ano anterior àquele em que a Índia tomaria Goa em poucos dias, quase sem disparar um tiro. Nenhum dos homens que decidiu esculpir aquela proa podia ignorar inteiramente o que se preparava: os relatórios já circulavam, as fronteiras já rangiam. Ainda assim, decidiu-se fixar em pedra definitiva o gesto de um império que, no discurso oficial, na moeda, nos manuais escolares, continuava completo. Vinte e seis anos antes disso, um mapa de propaganda do Estado Novo já tinha sobreposto o desenho de Angola e Moçambique ao continente europeu, para provar aos portugueses que o seu país "não era pequeno". O mapa exagerava por adição, colando território a território até parecer grande. O monumento faria, décadas mais tarde, algo mais grandioso: continuaria a apontar muito depois de já não haver navios a seguir a direção indicada. Isto não precisa de ser mentira, nem propaganda consciente. A coisa desfaz-se depressa, por vezes num fim-de-semana; a palavra continua, por inércia, por hábito, por falta de substituta, a ser dita exatamente da mesma maneira em que era dita quando ainda tinha para onde apontar. Todo o império atravessa este intervalo antes de o admitir. O português tem, para esse intervalo específico, uma palavra que nenhuma outra língua conseguiu traduzir sem a estragar a meio do caminho: saudade. A maior parte das definições erra por defeito quando a reduz a um sentimento privado, quase doméstico, como se fosse apenas mágoa por uma ausência qualquer, quando é mais do que isso. Saudade é o nome que se dá a um hábito completo de linguagem: à decisão de continuar a conjugar um verbo cujo sujeito já não está presente para o praticar. Não se tem saudade de uma coisa que ainda está lá; tem-se saudade do próprio intervalo entre a palavra que a nomeava e o lugar vazio que ela foi deixando para trás, devagar, sem aviso formal. Um país que perdeu um império em menos de quinze anos passou o século seguinte a cantá-lo em vez de o negar. Há uma casa de fado, numa rua estreita de Alfama, onde essa conjugação se ouve melhor do que em qualquer arquivo. A luz é sempre pouca, de propósito, quase de encomenda, e a voz, quando chega, chega sem pressa nenhuma de resolver o que está a dizer. A guitarra portuguesa insiste numa nota que a viola já abandonou; os dois instrumentos discutem, em surdina, a mesma desafinação: um já não está onde o outro ainda o procura. Ninguém, naquela sala, pede à cantadeira que traga de volta o que perdeu. Pede-se-lhe apenas que continue a cantá-lo bem, com a dor no sítio certo, porque cantar bem uma ausência é a única forma de posse que resta quando a posse verdadeira já não é possível. Não cura o intervalo; encontra, noite após noite, uma forma de habitar dentro dele. Este intervalo teve, por fim, uma data de encerramento parcial. Em 1974, uma revolução feita quase sem sangue devolveu a palavra "império" ao museu, e no ano seguinte perto de meio milhão de pessoas chegou a Lisboa vindo de territórios que, até há pouco, os manuais ainda chamavam Portugal. Os retornados trouxeram consigo a prova física de que a coisa tinha mesmo desaparecido: não era já um relatório secreto, era gente à porta, com malas, sem casa. Ainda assim, a palavra sobreviveu ao desmentido mais categórico que alguma vez lhe foi feito. Deixou de descrever um território para descrever uma falta, só que agora com uma data exata e meio milhão de rostos por trás dela. Do outro lado do Atlântico, uma guerra recente tem produzido a sua própria versão do mesmo intervalo: objetivos anunciados como cumpridos meses antes de o estarem, um fim declarado repetidamente antes de o conflito ter sequer decidido terminar, promessas feitas a um adversário e desfeitas poucas semanas depois com a mesma firmeza com que tinham sido feitas, sem que isso, aqui, sirva para julgar quem tem razão sobre o Irão, ou se a guerra foi certa ou errada. Uma palavra como vitória, pronunciada dezenas de vezes antes de o ser, começa a comportar-se exatamente como o império português se comportou durante a segunda metade do século passado: continua a falar-se dela num tempo que, aos poucos, deixou de a conter. Hoje, ao pé do Padrão, os turistas fotografam a proa de pedra sem saber, a maior parte deles, o que ela quis dizer, ou em que ano exato deixou de o poder dizer com verdade. Vendem-se, nas lojas em redor, réplicas de azulejo com caravelas, ímanes de frigorífico com a esfera armilar, postais onde Henrique continua, eternamente, virado para a água que já não vai buscar nada a lado nenhum. Ninguém ali finge que o império voltou; ninguém precisa de fingir isso, porque a palavra já não pesa o suficiente para exigir semelhante encenação. Foi absorvida por uma economia inteiramente diferente: a do souvenir, da fotografia, da nostalgia vendável a seis euros a peça. A próxima palavra (vitória, terminado, resolvido) fará provavelmente o mesmo percurso, do comunicado oficial ao íman de frigorífico, reaproveitada com o tempo para uma função mais pequena e mais vendável do que confessar em voz alta o vazio que a terá tornado órfã. É essa a pergunta que Lisboa, mais do que qualquer outra capital do Atlântico, já aprendeu de cor a fazer. E a cantar, três vezes por noite, numa sala às escuras onde ninguém pede que a palavra volte a ser verdadeira.
- Wiriyamu e Gaza: o mesmo vocabulário, décadas depois
Uma bomba de 900 quilos, um relatório com uma dúzia de "no entanto", e uma aldeia moçambicana com o mesmo nome de código burocrático que Israel usa hoje em Gaza: separados por cinquenta anos e a mesma linguagem. Uma composição editorial que contrapõe Wiriyamu e Gaza através da linguagem burocrática da guerra. O ensaio analisa como conceitos técnicos, decisões jurídicas e vocabulários administrativos moldam a forma como Estados justificam e gerem a violência contra populações civis ao longo de diferentes épocas. Em memorandos internos trocados no governo dos Estados Unidos, entre 2023 e 2024, os números eram precisos: uma bomba de novecentos quilos mata qualquer pessoa num raio de trezentos e sessenta e cinco metros; uma de duzentos e vinte e sete quilos mata até vinte metros e fere até quarenta e seis. Advogados discutiam se deviam continuar a vender as duas bombas a Israel, ou só a maior, ou só a menor. Decidiram vender a menor. A maior ficou, durante uns meses, retida num porto. A mais pequena das duas — a que mata "só" até vinte metros — tinha sido, até então, a maior bomba que os próprios Estados Unidos alguma vez tinham deixado cair sobre uma cidade, em Mosul, contra o Estado Islâmico. Em momento nenhum, ao longo deste processo, foi necessário decidir se a guerra em Gaza devia continuar. Tiveram de decidir sobre uma bomba de novecentos quilos versus uma de duzentos e vinte e sete. É uma decisão tomada por pessoas com nomes e cargos, com consequências reais. Só que é uma decisão pequena o suficiente para caber dentro de uma reunião de trinta minutos, e precisa o suficiente para nunca obrigar ninguém a olhar para a guerra completa de uma vez. No próprio dia do massacre de 7 de outubro de 2023, o exército israelita reviu as suas regras de empenhamento: oficiais de nível intermédio passaram a poder autorizar ataques com um risco de até vinte mortos civis para eliminar um único combatente raso do Hamas. Antes, o limite era cinco, ou dez em certos casos. Vinte é o resultado de um cálculo, feito por pessoas com formação militar e jurídica, sobre quanto vale, em corpos, uma vida de baixa patente do lado contrário. Inspetores israelitas mantinham uma lista, em permanente atualização, de bens de "uso duplo" proibidos de entrar em Gaza: fertilizante, que podia transformar-se num explosivo; varas de tenda, que podiam virar lanças; por vezes cilindros de oxigénio, aparelhos de raio-X, e até kits de parto — por causa das pequenas tesouras lá dentro. Um único artigo proibido, encontrado num camião, chegava para mandar de volta o camião inteiro, por mais inofensivo que fosse o resto da carga. O direito internacional humanitário tem uma palavra para isto: proporcionalidade; pesar o dano civil esperado contra a vantagem militar concreta de um ataque. Quem decide o que conta como vantagem militar "concreta" é sempre alguém. Um prédio de três andares pode ser, em teoria, um posto de observação do Hamas. Um hospital pode ter, nalguma cave, um combatente escondido. Advogados do Departamento de Estado americano, encarregados de avaliar se as armas dos EUA tinham sido usadas em violações do direito da guerra, debateram-se durante meses com uma pergunta parecida: o que conta como prova suficiente? A política oficial proibia transferir as armas "com maior probabilidade do que não" de serem usadas em crimes de guerra: um padrão desenhado para ser mais fácil de cumprir do que "prova definitiva". Mas, sem o tribunal para pesar as provas, ninguém no Departamento de Estado tinha autoridade para declarar essa probabilidade ultrapassada. Um antigo funcionário resumiu-o assim, a alguém que lho contou mais tarde: a subtileza da linguagem: "não temos prova definitiva, mas estamos muito preocupados" — era entendida, pelos responsáveis mais graduados, como querendo dizer, na prática, "está tudo bem". O relatório que devia resolver esta ambiguidade, entregue ao Congresso a 11 de maio de 2024, acabou por ser uma peça de contorcionismo verbal: as palavras "no entanto", "ainda assim" e "apesar de" aparecem cerca de uma dúzia de vezes ao longo de poucas páginas, cada uma delas a admitir um facto incómodo e a seguir a esvaziá-lo. O relatório reconhecia ser "razoável concluir" que as armas americanas tinham sido usadas de forma incompatível com as leis da guerra. Concluía, ainda assim, que a política oficial não tinha sido violada, porque a incompatibilidade não passava do limiar de prova que ninguém tinha autoridade para declarar ultrapassado. Um crime de guerra tecnicamente plausível e processualmente incalculável: a fórmula perfeita para nunca ter de decidir nada. Portugal, durante a guerra em Moçambique, Angola e Guiné, tinha o seu próprio vocabulário técnico para o mesmo problema: "operações de pacificação", "reordenamento populacional", "aldeamentos" — as aldeias fortificadas para onde populações inteiras eram deslocadas, por vezes à força, com a justificação de as proteger da guerrilha e de cortar o apoio logístico ao inimigo. Era um vocabulário de gestão. Nele cabia perfeitamente, em dezembro de 1972, o que aconteceu em Wiriyamu: uma operação contra uma população que se suspeitava de apoiar a guerrilha da FRELIMO, que terminou com várias centenas de civis mortos, incluindo crianças, numa aldeia da província de Tete. A notícia só chegou ao mundo através de um missionário católico britânico, o padre Adrian Hastings, que recolheu os testemunhos de sobreviventes e os levou ao Times de Londres. O jornal publicou a investigação em julho de 1973 — dias antes de o primeiro-ministro português, Marcelo Caetano, viajar a Londres para celebrar os seiscentos anos da Aliança Luso-Britânica, a mais antiga aliança diplomática ainda em vigor no mundo. O embaraço foi considerável. O governo britânico não cancelou a visita, nem suspendeu a aliança, nem impôs sanções: manteve o programa protocolar, deixou correr as perguntas incómodas da imprensa, e seguiu em frente. Portugal negou tudo durante meses. A guerra colonial só terminou quando o regime que a sustentava foi derrubado em Lisboa, em abril de 1974: não por pressão externa, mas por um golpe militar interno cujos oficiais estavam, eles próprios, exaustos de gerir uma contabilidade de mortos que já não fazia sentido a ninguém. Meio século depois, em setembro de 2024, uma revisão formal do governo trabalhista britânico sobre a conduta de Israel concluiu que havia um "risco claro" de armas britânicas serem usadas em violações do direito internacional; o secretário dos Negócios Estrangeiros anunciou, com "pesar", a suspensão de licenças de exportação. Afetou cerca de trinta licenças. Israel dependia do Reino Unido para uma fração mínima do seu armamento; a decisão foi, por desenho, quase inteiramente simbólica. Uma suspensão de licenças de exportação não é um massacre de aldeia: sugerir equivalência moral entre as duas coisas seria obsceno. Mas a arquitetura de resposta repete-se, perante provas de sofrimento civil em grande escala infligido por um aliado próximo. Os próprios responsáveis americanos, anos mais tarde, descreveram a sensação de estarem presos dentro desta precisão sem conseguirem sair dela. Um antigo conselheiro de segurança nacional falou de noites em claro a pensar no que podia ter sido feito de outra forma; disse que a Casa Branca vivia um ciclo de "progresso e recuo, progresso e recuo, vezes sem conta", e que deviam ter encontrado forma de sair desse vaivém. Nunca a encontraram. Cada vez que uma decisão mais dura chegava perto de ser tomada: suspender de vez as bombas maiores, cortar os embarques por completo, havia sempre um argumento técnico, jurídico ou tático, perfeitamente legítimo em si mesmo, que a adiava mais um pouco: um cessar-fogo que parecia próximo, um risco para os reféns, uma consequência sobre a região que ninguém conseguia calcular com confiança suficiente para agir. Um antigo funcionário do Conselho de Segurança Nacional resumiu o essencial, sem lhe chamar isso: para o Hamas e para Israel, disse, "o dano civil não foi um efeito colateral. Foi parte da estratégia." A frase aplica-se, com um ligeiro deslocamento, também a Washington e a Londres: ali, o dano civil foi o resíduo previsível de um sistema construído para nunca decidir, em bloco, se uma guerra devia continuar: só, em pequenas doses técnicas, quanto dela ainda cabia dentro da lei. Sabe-se, com precisão de metro, até onde uma bomba de duzentos e vinte e sete quilos mata. Ninguém, em nenhum documento citado nesta história, soube dizer, com a mesma precisão, a partir de que ponto deixar de agir se tornou, também, uma forma de matar. Fontes e documentação Este ensaio resulta da leitura cruzada de documentação oficial, relatórios governamentais, investigação jornalística e bibliografia histórica. Entre as principais fontes consultadas encontram-se os documentos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, do Governo do Reino Unido, investigações do The New Yorker, The New York Times, Reuters e The Times, bem como obras e estudos sobre a guerra colonial portuguesa e o massacre de Wiriyamu. #Wiriyamu #Gaza #DireitoInternacionalHumanitário #MemóriaColonial #CrimesDeGuerra











