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- Anne Carson: o Nobel de uma escrita entre géneros
Anne Carson recebeu o Prémio Nobel da Literatura de 2026, anunciado a 8 de outubro. A Academia Sueca distinguiu a inventividade da obra e o diálogo com a tradição clássica, através dos quais Carson criou novas formas para a literatura contemporânea. Poeta, ensaísta e tradutora canadiana, trabalha frequentemente com vários géneros dentro do mesmo livro. Nascida em Toronto em 1950, tem formação em estudos clássicos e desenvolveu uma carreira universitária a par da escrita. Doutorou-se em 1981 com uma investigação sobre o desejo, assunto que atravessa também a produção literária. O conhecimento do grego e do latim acompanha o trabalho de tradução e serve de base às suas próprias obras. Em Autobiography of Red: A Novel in Verse, publicado em 1998, Anne Carson recupera Gerião, figura da mitologia grega, a partir dos fragmentos do poeta Estesícoro. Na sua narrativa, Anne Gerião ganha uma vida contemporânea, marcada pelo desejo, pela diferença e pelas relações com os outros. O livro conserva a ligação ao texto antigo, mas constrói uma narrativa própria para além do episódio mitológico. Gerião, escultura cipriota em calcário da segunda metade do século VI a. C. The Metropolitan Museum of Art, coleção Cesnola. Domínio público (CC0). Em The Beauty of the Husband: A Fictional Essay in 29 Tangos, de 2001, acompanha uma relação conjugal atravessada pela beleza, pela infidelidade e pelo ciúme. A obra está organizada em vinte e nove tangos que combinam narrativa e poesia. Referências antigas convivem aqui com experiências próximas do leitor, como a atração, a traição e a vulnerabilidade. Publicado em 2010, Nox nasceu da morte do irmão da autora. É uma elegia que reúne escrita, fotografias e materiais de arquivo, apresentada numa longa folha dobrada em acordeão e guardada numa caixa. O leitor pode desdobrar o conjunto e acompanhar a sequência dos fragmentos. A edição reproduz em fac-símile a colagem original, que integra a escrita sobre a perda. O trabalho com fragmentos tem expressão distinta em If Not, Winter, de 2002, a sua tradução dos poemas de Safo. Carson conserva na página os sinais das lacunas existentes nos textos que chegaram até nós. As palavras sobreviventes aparecem acompanhadas por parênteses retos e pelos espaços deixados pelo que se perdeu, permitindo distinguir o que subsiste daquilo que já não é possível recuperar. Safo, litografia de Camille Corot, de 1871. The Metropolitan Museum of Art, Harris Brisbane Dick Fund, 1932. Domínio público (CC0). Em Norma Jeane Baker of Troy, de 2019, aproxima Helena de Troia de Marilyn Monroe, reunindo duas figuras associadas à beleza e à notoriedade em épocas muito diferentes. Em 2021, publicou com a artista Rosanna Bruno The Trojan Women: A Comic, uma recriação em banda desenhada da tragédia de Eurípides. Marilyn Monroe numa atuação para militares na Coreia, em 1954. Departamento de Defesa dos EUA, via Wikimedia Commons. Domínio público. Para conhecer Anne Carson, o ponto de entrada pode ser o desejo em Autobiography of Red, a relação conjugal em The Beauty of the Husband ou a perda familiar em Nox. Cada livro oferece uma experiência de leitura diferente. Anne Carson: fontes e leituras relacionadas Anne Carson — New Directions Leia também no Atlantic Lisbon: Pessoa, a IA e o problema de saber quem escreve Autoria e inteligência artificial: de Pessoa aos tribunais
- Operação Hermes: o carrossel do IVA sob investigação
Na quarta-feira, 7 de outubro, centenas de inspetores da PJ e da Autoridade Tributária e militares da GNR saíram para a rua numa operação da Procuradoria Europeia. No fim do dia, a PJ contabilizava 39 detidos em Portugal, suspeitos de associação criminosa, fraude fiscal e branqueamento, num caso de carrossel do IVA que terá lesado o Estado português em mais de 150 milhões de euros. A operação chamou-se Hermes. A Procuradoria Europeia contabilizou mais de 300 buscas em oito países: Portugal, Espanha, Áustria, França, Alemanha, Itália, Malta e Países Baixos, e 62 detidos: 39 em Portugal, 20 em Espanha e três em Itália. Para o conjunto da União, estima um prejuízo de pelo menos 410 milhões de euros em IVA. Em Portugal, correm dois inquéritos, com prejuízos estimados em cerca de 125 milhões num e 30 milhões no outro. A Procuradoria descreve dois grupos criminosos distintos que colaboravam entre si, partilhando empresas, negócios e mercadorias, canalizando lucros através das sociedades um do outro e usando comunicações encriptadas para coordenar a ação. Os detidos são suspeitos, ainda não julgados. Bandeira europeia, em imagem de arquivo de 2005. Imagem ilustrativa da cooperação transfronteiriça. Fotografia: Robo Blazek — domínio público. Operação Hermes: como funciona o carrossel do IVA Em regra, quando uma empresa de um Estado-Membro vende bens a uma empresa de outro, cumpridas as condições legais das transações intracomunitárias, a venda é isenta de IVA no país de origem e o imposto é apurado no país de destino. É o que permite ao comércio europeu circular sem fronteiras fiscais. Uma empresa compra assim, sem IVA, revende cobrando o imposto ao cliente seguinte e desaparece sem o entregar ao Estado. A PJ chama-lhe missing trader. Mais adiante na cadeia, outra empresa deduz o IVA que pagou ou pede o reembolso, e o Estado devolve dinheiro que nunca recebeu. Telemóveis e outros dispositivos eletrónicos aparecem com frequência nestes processos. Telemóveis e dispositivos eletrónicos numa imagem ilustrativa; não são bens apreendidos na Operação Hermes. Fotografia: Gabriel Freytez / Pixnio — domínio público (CC0). Isolada, cada operação tem o aspeto de comércio corrente. A fraude aparece na soma. Essa soma só se vê olhando para vários países ao mesmo tempo, o que explica que a investigação seja conduzida por uma procuradoria europeia e não apenas por uma nacional. Operação Hermes: apreensões e recuperação de ativos A Procuradoria fala em mandados para apreender até 310 milhões de euros. A recuperação efetiva depende do que o processo vier a provar. Calculadora numa imagem ilustrativa do apuramento de valores financeiros. Fotografia: Pixel.la — domínio público (CC0). Da Operação Admiral à cooperação europeia Em novembro de 2022, a mesma Procuradoria apresentou a Operação Admiral como o maior carrossel de IVA já investigado na União, com um prejuízo estimado em 2,2 mil milhões de euros e origem numa empresa de venda de telemóveis e outros aparelhos eletrónicos em Coimbra, que a Autoridade Tributária começou a analisar em 2021. Executar no mesmo dia mais de 300 buscas e 62 detenções em oito países, sob a coordenação da Procuradoria Europeia e com a colaboração da Europol, exige uma preparação e uma cooperação que não são evidentes para quem vê de fora. Em Portugal, essa execução coube à PJ, à Autoridade Tributária e à GNR. Se a prova resistirá em tribunal, só o processo dirá. Leia também no Atlantic Lisbon Portugal, perdão presidencial e confiança na justiça Europa: a carroça avança, mas ninguém segura as rédeas
- Portugal emprega imigrantes, mas desperdiça qualificações
Em 2025, a taxa de emprego dos residentes nascidos fora da União Europeia atingiu 75,6%, acima dos 73,4% registados entre os naturais do país. O indicador coloca Portugal entre os cinco Estados-membros com maior participação laboral desta população. Ao mesmo tempo, 52,3% dos imigrantes licenciados provenientes de países exteriores à UE desempenham funções para as quais possuem qualificações superiores às exigidas. Entre os portugueses, a proporção é de 14,1%. A média europeia para os imigrantes considerados situa-se em 41,4%. Os números pertencem ao estudo Emprego de imigrantes: Portugal no contexto europeu, do Observatório das Migrações. Ter emprego não significa utilizar as qualificações A taxa de emprego refere-se a residentes nascidos fora da UE; o indicador de sobrequalificação incide sobre imigrantes licenciados provenientes de países terceiros. Não são exatamente a mesma população, mas permitem identificar uma característica do mercado de trabalho português: absorve trabalhadores estrangeiros sem garantir o aproveitamento das suas competências. Ter emprego não significa utilizar as qualificações A taxa de emprego mede quantas pessoas trabalham numa determinada população. Uma pessoa com formação superior pode estar empregada num estabelecimento comercial, num armazém ou numa empresa de distribuição e conta como trabalhadora para essa estatística. Para avaliar o aproveitamento de qualificações, é preciso saber que funções desempenha. O mercado português oferece ocupação a muitos imigrantes, e uma parte significativa dos licenciados acaba por aceitar funções que não exigem o seu nível de formação. As formações obtidas em países diferentes podem exigir reconhecimento, adaptação ou cumprimento de requisitos profissionais específicos, e pode não existir procura suficiente para determinadas especializações. Mesmo com essas condicionantes, uma taxa de 52,3%, superior à média europeia, justifica investigar que dificuldades impedem a correspondência entre formação e trabalho. Trabalho num armazém de Walter Reed, Bethesda, EUA, em 2023. Fotografia ilustrativa; não retrata os imigrantes do estudo. Crédito: Ricardo J. Reyes / DVIDS — domínio público. Fonte. O primeiro emprego pode condicionar os seguintes Quem chega precisa frequentemente de assegurar um rendimento antes de concluir procedimentos para exercer a sua profissão. A renda, a alimentação e outras despesas não ficam suspensas enquanto o reconhecimento de qualificações demora. Aceitar um emprego disponível, mesmo que não corresponda à formação, pode ser economicamente necessário. Quando essa solução inicial se prolonga por meses ou anos, o tempo para tratar de documentos, frequentar formação complementar ou procurar oportunidades qualificadas fica condicionado pelo trabalho que já exerce. A estabilidade de um rendimento imediato coexiste com a perda de oportunidades profissionais. Alguns mudam deliberadamente de atividade ou valorizam condições de trabalho diferentes das associadas à profissão de origem. Os dados agregados não permitem identificar razões individuais, mas a combinação entre a necessidade imediata de rendimento e a demora no reconhecimento constitui um mecanismo plausível para parte do fenómeno. A decisão tomada à chegada influencia a integração durante muito mais tempo. Lisboa e o estuário do Tejo, vistos da Estação Espacial Internacional em 13 de agosto de 2010. Crédito: NASA/JSC, ISS024-E-11807 — domínio público. Fonte. O reconhecimento não é um procedimento único Em Portugal, o reconhecimento de graus e diplomas estrangeiros envolve a Direção-Geral do Ensino Superior e instituições de ensino superior, de acordo com o regime aplicável. Obter esse reconhecimento académico não significa adquirir autorização para exercer uma profissão regulamentada. Nessas atividades, existem exigências adicionais determinadas pelas entidades profissionais competentes, particularmente visíveis em áreas como a saúde e a engenharia. Um profissional pode ter formação superior e experiência no país de origem e continuar impedido de exercer determinadas funções até cumprir requisitos portugueses, incluindo exigências linguísticas e profissionais. A existência de regras não é, por si só, uma anomalia. Profissões com responsabilidades técnicas, clínicas ou de segurança exigem verificação de competências. A questão é se os procedimentos cumprem essa finalidade sem introduzir atrasos ou custos desnecessários. Os requisitos variam conforme a profissão, a formação obtida e os acordos entre países; por isso, não existe um único prazo ou custo que descreva todos. A dispersão de etapas e entidades dificulta a previsibilidade do percurso. O custo de provar aquilo que já se aprendeu Um enfermeiro formado fora da União Europeia pode ter de passar por avaliação curricular e verificação de requisitos de formação para o reconhecimento académico, e ainda cumprir condições definidas pela entidade competente para o exercício profissional. O processo envolve despesas com documentos, traduções, certificações e procedimentos. Num dos exemplos analisados, o custo total aproximou-se de dois mil euros. Não é uma tarifa universal; depende das exigências concretas, mas mostra como os custos administrativos pesam para quem chega com recursos limitados, enquanto assegura a subsistência e espera pela conclusão das etapas. A existência de qualificações anteriores não elimina a necessidade de comprovação. Um sistema de reconhecimento deve distinguir a verificação necessária da repetição de procedimentos que não acrescentam informação relevante. Quando a demora é excessiva, o país continua a necessitar de profissionais qualificados enquanto pessoas com formação nessas áreas trabalham noutras atividades. Isso não demonstra que todos reúnam imediatamente condições para exercer, mas mostra que a eficácia do reconhecimento tem consequências para o aproveitamento da formação disponível. A procura de trabalhadores pouco qualificados explica apenas parte do problema A agricultura, a hotelaria, a restauração e determinados serviços concentram uma parte importante do emprego estrangeiro em Portugal, com necessidades próprias de recrutamento e oportunidades de entrada. O problema surge quando a disponibilidade de vagas nesses setores passa a determinar o percurso de trabalhadores com formação para outras atividades. Uma economia pode precisar simultaneamente de trabalhadores agrícolas, empregados de restauração, enfermeiros e engenheiros. Satisfazer uma necessidade não resolve automaticamente as restantes. Se os canais de entrada e os mecanismos de integração conduzirem predominantemente às atividades com maior procura imediata, o mercado absorve trabalhadores sem aproveitar toda a diversidade das suas competências. Não existe necessariamente uma vaga qualificada para cada licenciado; o número de postos, a localização e as especializações continuam decisivos. A política de imigração e a política de qualificações não devem funcionar como assuntos independentes. A entrada pode responder a necessidades urgentes de mão de obra; a integração exige também mecanismos que identifiquem e utilizem competências. A sobrequalificação não é exclusiva dos imigrantes Em Portugal, 14,1% dos trabalhadores portugueses abrangidos pelo indicador desempenham funções abaixo do seu nível de qualificação. Há pessoas que mudam de área, aceitam empregos diferentes dos pretendidos ou não encontram oportunidades compatíveis com os estudos realizados. Entre os imigrantes licenciados provenientes de países terceiros, a taxa de 52,3% é quase quatro vezes superior. Uma diferença desta ordem sugere que, além das dificuldades gerais do mercado de trabalho, existem obstáculos específicos. O reconhecimento de diplomas, os requisitos das profissões regulamentadas e as condições de chegada merecem avaliação. Os dados não permitem quantificar o contributo de cada fator nem demonstram que a eliminação de um procedimento administrativo faria desaparecer a sobrequalificação. Tornam difícil sustentar que a diferença se explica apenas pelas características gerais do mercado português. Emprego elevado e contratos temporários A elevada participação dos imigrantes no mercado de trabalho não significa vínculos estáveis. A informação divulgada aponta para uma proporção próxima de um terço de trabalhadores imigrantes com contratos temporários. Uma pessoa pode estar empregada, exercer funções abaixo das suas qualificações e manter uma relação laboral de duração limitada. São fenómenos diferentes, e não se pode presumir que coincidam nos mesmos trabalhadores sem dados que o demonstrem. A coexistência no retrato estatístico mostra que a taxa de emprego isoladamente não descreve as condições de integração. Para compreender essa integração, seria necessário considerar remunerações, estabilidade contratual, progressão, reconhecimento de competências e correspondência entre formação e funções. A taxa de emprego continua a ser um indicador importante. Uma economia pode apresentar resultados favoráveis na incorporação de trabalhadores e continuar a enfrentar dificuldades na utilização das qualificações. O que poderia mudar antes da chegada O Observatório das Migrações defende medidas que aproximem o reconhecimento de qualificações do processo de entrada, com mecanismos mais céleres para profissionais qualificados, parcerias com países de origem e melhor aproveitamento de estudantes internacionais que concluem formação em Portugal. A lógica é reduzir o intervalo entre a chegada e a possibilidade de exercer uma profissão compatível com as competências, sem eliminar necessariamente todas as verificações. Em determinadas atividades, a verificação continua indispensável. Antecipar etapas evita que o trabalhador descubra apenas depois de chegar que documentos são necessários, quanto custará e quanto tempo pode demorar. A previsibilidade tem valor económico para planear a mudança e para as entidades empregadoras compreenderem quando poderão contar com determinado trabalhador. Para o Estado, pode facilitar a articulação entre as necessidades profissionais identificadas e os canais de entrada. A eficácia teria de ser avaliada. O objetivo deve ser reduzir obstáculos desnecessários sem dispensar verificações que protegem a qualidade e a segurança. O talento que já está no país O debate concentra-se frequentemente no número de entradas e na capacidade de absorção. Os dados mostram que essa abordagem é insuficiente para avaliar o contributo económico. Portugal apresenta uma taxa de emprego elevada entre residentes nascidos fora da UE. Mais de metade dos imigrantes licenciados provenientes de países terceiros exerce funções abaixo das suas qualificações. Um resultado mostra a capacidade de integração laboral; o outro revela limites na utilização da formação. Uma economia que emprega profissionais qualificados em funções que não exigem a sua formação deixa por aproveitar conhecimentos e experiência. Isso não permite calcular automaticamente a perda de produtividade, mas identifica uma oportunidade de melhoria. Nem todas as pessoas devem exercer a profissão correspondente ao diploma; a liberdade de escolha profissional continua essencial. A questão está em garantir que essa escolha não é condicionada desnecessariamente por procedimentos excessivamente demorados ou difíceis de compreender. O problema não parece ser apenas encontrar trabalho para quem chega. É também permitir que quem já encontrou trabalho possa, quando reúne condições, exercer uma atividade correspondente às competências que trouxe. Uma taxa de emprego elevada é um resultado importante. Não deve servir para ocultar a utilização incompleta das qualificações. O desafio seguinte é deixar de tratar a formação que já está no país como um recurso que só poderá ser reconhecido depois de ultrapassada uma longa sequência de obstáculos. Base documental: estudo Emprego de imigrantes: Portugal no contexto europeu, do Observatório das Migrações, divulgado em outubro de 2026. Os indicadores de emprego e de sobrequalificação referem-se a universos estatísticos distintos e não devem ser confundidos. Consultar o estudo.
- Negros na Argentina: a categoria que mudou entre 1838 e 1887
Em 1838, o recenseamento municipal de Buenos Aires contou 62 957 habitantes, dos quais 14 928 foram registados como afrodescendentes, 23,7% do total. Em 1887, o recenseamento seguinte contou 425 370 habitantes e 8 005 afrodescendentes, menos de 2%. Em cinquenta anos, a população total multiplicou-se por quase sete e a categoria baixou cerca de 46% em números absolutos. A diferença costuma ser lida como destino de pessoas e explicada pela dimensão do tráfico, pelas guerras ou pela imigração. O que as fontes permitem afirmar sobre os negros na Argentina é mais estreito. Mostram uma categoria de registo que encolheu, e a distância entre isso e o desaparecimento de seis ou sete mil pessoas é onde está a discussão historiográfica. Negros na Argentina e o tráfico no Rio da Prata Circula a explicação de que a Argentina foi um destino secundário do tráfico atlântico, com uma pecuária que dispensava braços escravizados. Se a pecuária dispensava ou não, as fontes consultadas não resolvem. Mostram que a mão de obra africana estava noutros sítios. Entre 1587 e 1640, cerca de 30 mil africanos desembarcaram em Buenos Aires em navios portugueses, e antes de 1645 os escravos chegaram a valer dois terços de tudo o que o porto importava, segundo Alex Borucki, historiador da Universidade da Califórnia em Irvine. O interior também não era um vazio demográfico. O censo de 1778 aponta mais de metade de população de origem africana em Catamarca com 74%, Tucumán com 64% e Santiago del Estero com 54%, e 44% na cidade de Córdoba. Para Buenos Aires, as compilações divergem: Erika Edwards, que reproduz valores de Ricardo Rodríguez Molas, dá 24%; Omer Freixa, que cita Daniel Picotti, fala em cerca de 40%. As cifras dependem do território e da fonte, e não foram aqui confrontadas com o censo original. A direção é a mesma em todas. «Vendedora de tortas», litografia de César Hipólito Bacle, cerca de 1833. A presença dos negros na Argentina também ficou registada nas representações dos ofícios urbanos. Fonte: Archivo General de la Nación Argentina, via Wikimedia Commons. Domínio público. Quanto ao volume total, Borucki estima que, entre 1585 e 1835, tenham chegado ao Rio da Prata cerca de 200 mil africanos escravizados, 90 mil diretamente de África e os restantes por via do Brasil. A base das viagens transatlânticas só contém as primeiras. A das viagens intra-americanas regista 52 400 cativos vindos do Brasil, e Borucki calcula mais 47 400 entrados por Colónia do Sacramento que não constam de nenhuma das duas. O período de maior afluxo foi de 1777 a 1812, com perto de 70 mil. Quem se fica pela primeira base obtém, portanto, um número inferior ao que a investigação especializada considera provável. Em 1808, a fragata portuguesa Luisa entrou em Montevideu com 230 cativos, depois de embarcar 337 em Moçambique, e as autoridades sanitárias mandaram desembarcá-los fora da cidade, no Caserío de los Negros, onde se faziam as quarentenas. Parte dos cativos seguia dali para Buenos Aires, Mendoza, os Andes, Valparaíso e Lima. O encarregado da carga do navio americano Tyre, Stephen Dexter, anotou em 1801 que cerca de três mil negros por ano eram assim encaminhados de Buenos Aires para o Peru. Borucki julga o valor provavelmente excessivo, mas aceita um fluxo de pelo menos 1500 a 2000. A dimensão do tráfico dá uma ordem de grandeza das chegadas e nada diz sobre quantos ficaram. Guerra, epidemia e memória Perante a quebra, duas explicações ficaram na memória: a Guerra do Paraguai, de 1865 a 1870, e a epidemia de febre amarela de 1871. Em 2005, o Washington Post descrevia-as como as duas hipóteses que o mito popular oferecia. Segundo o resumo que Freixa faz de George Reid Andrews, o historiador que mais estudou o tema, nenhuma das duas tem apoio estatístico direto. Da guerra constam apenas dois batalhões de combatentes afro-argentinos, sem listas da sua composição. Dos óbitos de 1871 com raça indicada, só 268 em 17 729 foram de afro-argentinos. O mesmo resumo acrescenta que as estatísticas de casamentos e de óbitos posteriores a 1871 mostram uma quebra absoluta, pelo que a epidemia pode ter pesado mais do que aqueles números sugerem. Nem a hipótese está provada nem está afastada. «Un episodio de la fiebre amarilla en Buenos Aires», de Juan Manuel Blanes, 1871. A pintura evoca a epidemia, mas não estabelece o seu impacto demográfico sobre os negros na Argentina. Fonte: Museo Nacional de Artes Visuales, Montevideu, via Wikimedia Commons. Domínio público. María Remedios del Valle, nascida em Buenos Aires por volta de 1766, juntou-se ao Exército do Norte em julho de 1810 com o marido e os filhos, e Belgrano deu-lhe o título de capitã. A Junta de Representantes de Buenos Aires concedeu-lhe em 1828 uma pensão de 30 pesos mensais, com efeitos desde março de 1827. Morreu em 1847, e a lei 26 852, de 2013, fixou o dia 8 de novembro, a data tradicionalmente dada para a sua morte, como Dia Nacional dos Afro-argentinos e da Cultura Afro. Casos individuais como o dela não dão, porém, a dimensão do conjunto. As palavras que mudaram os registos Em Buenos Aires, pouco depois da independência, passou a usar-se "trigueño", cor de trigo, em listas de presos, de funcionários municipais e de recrutas do exército. Aplicava-se a mulatos e mestiços de pele clara, mas também a europeus morenos, sicilianos, andaluzes e portugueses, segundo Edwards. Uma pessoa registada como trigueña saía da categoria negra sem que ninguém precisasse de afirmar que era branca. A este deslocamento da população negra para categorias mais claras, por mistura racial somada à ambiguidade das palavras dos registos, Andrews deu o nome de "lightening", aclaramento. Edwards seguiu indivíduos nos recenseamentos de Córdoba. Josefa Rodríguez, escrava negra em 1813, aparece como parda livre em 1822. O censo da cidade de 1840 já não tinha categoria racial. Em Córdoba, conclui a historiadora, a população foi aclarada antes de ser branqueada. Em 1895, 52% dos habitantes da cidade de Buenos Aires tinham nascido no estrangeiro, e no país inteiro eram 25,4%, mais de um milhão em quase quatro milhões. Alberdi e Sarmiento tinham pedido imigrantes para povoar e governar, e os intelectuais da época olhavam para a Europa como modelo. Em 1905, a revista Caras y Caretas descrevia a população negra como uma raça que perdia na mistura a sua cor primitiva. Lia o fenómeno como diluição, e não como extinção. Antigo Hotel de Inmigrantes, em Retiro, Buenos Aires, 1880. A imigração alterou a composição da população e o peso percentual dos negros na Argentina. Fotógrafo não identificado. Fonte: Archivo General de la Nación Argentina, via Wikimedia Commons. Domínio público. A imigração, porém, explica a queda da percentagem e não a do número absoluto. Entre 1838 e 1887 a categoria perdeu cerca de 6 900 registos, e isso só se explica por mortalidade, por emigração ou por reclassificação. Para a reclassificação há práticas documentadas, as de Buenos Aires e as de Córdoba. A sua dimensão não se conhece, e não está estabelecido que "afrodescendentes" em 1838 e em 1887 designe o mesmo conjunto de pessoas. Freixa vai mais longe do que Andrews e vê no processo uma estratégia deliberada das elites para tornar invisível a presença negra. Para a intenção, os textos que apresenta são sobretudo de intelectuais, e mostram uma preferência, não um método. Menciona também práticas de extermínio sem as documentar. A leitura demográfica, que privilegia a imigração e a mistura, dispensa a intenção e, como se viu, não chega para a queda do número absoluto. O que contam os censos atuais Em 2010, o recenseamento nacional incluiu pela primeira vez uma pergunta sobre afrodescendência, numa amostra de lares, e contou 149 493 pessoas, 0,37% da população. Em 2022, a pergunta passou ao questionário geral e 302 936 pessoas declararam-se afrodescendentes ou com antepassados negros ou africanos. O critério passou a ser a resposta de quem é recenseado e inclui a ascendência, uma formulação que as categorias de 1838 e 1887 não tinham, até onde as fontes consultadas permitem dizer. Por isso, estes números não são comparáveis com os daquelas datas. Negros na Argentina: ilustração editorial sobre os registos censitários de 1838 e 1887. Imagem criada para o Atlantic Lisbon.
- Quem é Abdulmalik al-Houthi, o líder invisível dos Huthis
Ninguém vê Abdulmalik al-Houthi em público há anos. Não há fotografias recentes fora das gravações divulgadas pelo movimento, nem confirmação independente do lugar onde vive. Quem o estuda à distância suspeita de que se encontra algures numa rede de túneis e grutas nas montanhas de Saada, a província do norte do Iémen onde nasceu e onde o movimento tem as suas raízes. Como Abdulmalik al-Houthi transformou os Huthis Esta semana, as decisões tomadas sob o seu comando voltaram a atingir as instalações petrolíferas sauditas, a navegação no mar Vermelho e o estreito de Bab al-Mandeb. A escalada contribuiu para levar o petróleo aos níveis mais elevados desde meados de maio. Uma fragata da Marinha Real Saudita e um contratorpedeiro dos EUA fazem vigilância no estreito de Bab al-Mandeb — a mesma passagem que os Huthis usam hoje para pressionar a Arábia Saudita e a navegação internacional. Fotografia: Marinha dos EUA (MC3 Louis Thompson Staats IV / DVIDS), 20 de novembro de 2020. Domínio público. Mohammed al-Basha, fundador da consultora de risco Basha Report, descreve uma transformação. Al-Houthi comunica através de longas mensagens em vídeo, gravadas sem que se saiba onde nem quando. Segundo al-Basha, tornou-se um «megalómano», cada vez mais isolado do exterior, mas «acredita genuinamente que vai libertar a Palestina». O movimento foi fundado pelo irmão, Hussein al-Houthi, nos anos 90, a partir de uma leitura radical do zaidismo, o ramo do xiismo predominante no norte do Iémen. A sua doutrina era profundamente antiamericana, anti-israelita e pró-palestiniana. Durante anos, os Huthis foram tratados pelos países vizinhos e por muitos analistas como uma força tribal de alcance limitado. Eram combatentes das montanhas, mal instruídos, reconhecíveis pelas roupas tradicionais e pelas sandálias usadas em vez de botas militares. Abdulmalik al-Houthi lidera os Huthis sem aparecer em público. A sua estratégia condiciona a Arábia Saudita, o mar Vermelho e o preço do petróleo. Hussein morreu às mãos das forças do Estado, em 2004. Abdulmalik recebeu então o comando de uma insurreição perseguida e com poucos meios. Ao longo das duas décadas seguintes, transformou-a numa força disciplinada, endurecida em combate e ideologicamente coesa. Combateu o regime de Ali Abdullah Saleh em várias guerras. Durante a Primavera Árabe de 2011, os Huthis aproximaram-se dos manifestantes e de grupos da oposição que procuravam afastar Saleh. Durante algum tempo, foram vistos por parte dessa oposição como defensores de uma população cansada de esperar por mudanças políticas. Em 2015, uma coligação árabe liderada pela Arábia Saudita interveio no Iémen para repor o governo deposto. Riade receava que o Irão ganhasse um aliado junto à sua fronteira meridional. A guerra acabou por aproximar Teerão dos Huthis, que passaram a receber treino, armas e tecnologia iranianos. Um antigo diplomata chamou-lhe uma «profecia autorrealizada», porque a relação com o Irão ainda estava a formar-se quando começou a intervenção. A Arábia Saudita ficou presa numa guerra dispendiosa, marcada por anos de bombardeamentos e pela resistência dos Huthis. Depois do ataque do Hamas a Israel, em outubro de 2023, o movimento intensificou as operações. Disparou mísseis e drones contra Israel e atacou navios no mar Vermelho, alegando agir em solidariedade com os palestinianos. Os Estados Unidos e Israel responderam com bombardeamentos, sem conseguirem forçar o fim dos ataques. Donald Trump classificou o grupo como organização terrorista. Mais tarde, elogiou publicamente a sua «bravura» e a capacidade de «resistir ao castigo», quando os Estados Unidos suspenderam a campanha de bombardeamentos. Em julho, al-Houthi reacendeu a guerra com a Arábia Saudita. Os Huthis bloquearam portos do reino e atacaram petroleiros sauditas. Na semana passada, lançaram vagas quase diárias de mísseis e drones contra as instalações petrolíferas, avançaram ao longo da costa iemenita do mar Vermelho e aumentaram a pressão sobre o estreito de Bab al-Mandeb, uma das principais passagens marítimas do comércio mundial. O grupo de ataque do porta-aviões USS Dwight D. Eisenhower atravessa o estreito de Bab al-Mandeb, uma das principais vias marítimas do comércio mundial e alvo direto da pressão militar de Abdulmalik al-Houthi. Fotografia: Marinha dos EUA (MC Neo B. Greene III / DVIDS), 12 de julho de 2016. Domínio público. A ofensiva reforçou a posição de al-Houthi no chamado eixo da resistência apoiado pelo Irão. Analistas iemenitas que acompanham o movimento sustentam, contudo, que ele não recebe ordens de Teerão. Os ataques servem também objetivos internos. Os Huthis procuram obrigar Riade a aceitar um acordo para a guerra nos seus próprios termos, numa altura em que aumenta a pressão económica no norte do Iémen, território sob o seu controlo. Exigem concessões sauditas e procuram transformar a capacidade de atingir a navegação e as instalações petrolíferas numa vantagem negocial. «É absolutamente movido por uma agenda interna, porque os Huthis querem acabar a guerra nos seus próprios termos», afirmou um antigo diplomata. O mesmo diplomata considera que al-Houthi tem «uma noção bastante clara da sua vantagem, militar e política». Essa avaliação acompanha a descrição de um dirigente cada vez mais isolado, que governa sem exposição pública e comunica através de gravações produzidas pelo próprio movimento. Não se sabe onde Abdulmalik al-Houthi vive nem em que condições toma as decisões. Conhecem-se os seus efeitos: ataques no mar Vermelho, pressão militar sobre a Arábia Saudita, perturbações no Bab al-Mandeb e oscilações no preço do petróleo. #AbdulmalikAlHouthi #Huthis #Iémen #MarVermelho #ArábiaSaudita #BabAlMandeb #Geopolítica #MédioOriente #Petróleo #AtlanticLisbon
- O que falta provar à internet quântica europeia
No final de setembro, a Quantum Internet Alliance anunciou ter recebido 47,5 milhões de euros da Comissão Europeia para uma segunda fase de investigação e desenvolvimento, com duração de 42 meses. É quase o dobro da primeira fase. A primeira decorreu entre outubro de 2022 e março de 2026, também ao longo de três anos e meio, e a Comissão indicava em 2023 um financiamento de 24 milhões de euros. A aliança é dirigida por Stephanie Wehner. O objetivo anunciado para estes 42 meses de desenvolvimento da internet quântica europeia é demonstrar ligações quânticas de longa distância com repetidores. O comunicado fala em demonstrar que duas redes quânticas de escala metropolitana podem ser interligadas por uma ligação de fibra de longa distância, com recurso a repetidores quânticos. Não indica a extensão dessa ligação. Região de diamante com elevada concentração de centros de azoto-lacuna, observada por microscopia de fluorescência. Imagem de investigação sobre materiais, não do protótipo da QIA. Crédito: Lillian B. Hughes e colaboradores, 2023. CC BY 4.0. Licença Internet quântica europeia: a exigência dos 500 quilómetros A segunda fase é a segunda convenção específica, SGA2, da parceria-quadro "Building the Quantum Internet", a que a QIA pertence. O concurso que a Comissão abriu para essa convenção fixava seis resultados esperados das propostas. Entre eles, distribuição de entrelaçamento a distâncias iguais ou superiores a 500 quilómetros, com repetidores quânticos, e um protótipo, em condições de laboratório, de uma rede de fibra de longa distância com repetidores capaz de ligar redes metropolitanas, com demonstração de interoperabilidade entre abordagens e de escalabilidade da arquitetura. Pedia também uma demonstração de software e de pilha de rede independentes da plataforma, a funcionar numa rede com pelo menos dois nós de computação quântica com memórias quânticas e resistente a formas conhecidas de ciberataque. Os dois últimos resultados eram a integração de aplicações de rede quântica, como a partilha de chaves secretas e a computação quântica distribuída ou cega, em infraestruturas de rede clássicas, e a demonstração de casos de uso em ambiente real. O texto fixava o grau de maturidade: as atividades deviam começar nos níveis 4 a 5 e chegar aos níveis 6 a 7 no fim do projeto. São resultados esperados das propostas. Não são compromissos assumidos pela QIA nem resultados obtidos. A participação estava limitada a entidades estabelecidas nos Estados-membros, na Islândia, na Noruega e em Israel. Excluía as controladas, direta ou indiretamente, por países não elegíveis. A justificação é evitar a dependência tecnológica de uma fonte fora da União. O âmbito pedia também que se maximizasse o contributo para o crescimento económico, a soberania tecnológica e a autonomia estratégica. Três nós no laboratório, 50 quilómetros de fibra Em 2021, a QuTech, parceira da QIA, reportou a primeira rede quântica multinó. Três processadores quânticos, baseados em centros de azoto-lacuna em diamante, a alguma distância uns dos outros dentro do mesmo edifício. Numa das demonstrações, dois dos nós ficaram ligados por entrelaçamento sem ligação física direta, através do nó intermédio. Os investigadores descreveram esta operação como equivalente à operação básica de um repetidor. Centro de azoto-lacuna numa lente de imersão sólida, configuração usada em experiências de entrelaçamento quântico. Crédito: David A. Hopper, Henry J. Shulevitz e Lee C. Bassett, 2018. CC BY 4.0. Licença Em maio de 2023, Benjamin Lanyon, da Universidade de Innsbruck, transferiu informação ao longo de 50 quilómetros de fibra ótica com princípios da física quântica, no âmbito da mesma iniciativa, segundo a revista Horizon da Comissão Europeia. Lanyon considerou então que o resultado tornava plausível uma rede à escala de uma grande cidade, ficando as distâncias entre cidades como etapa seguinte. O registo europeu da primeira fase fixava como objetivo uma ligação de longa distância superior a 500 quilómetros e indicava que o protótipo operaria sobre fibra ótica padrão. Em 2022, uma equipa de Delft de que faz parte Wehner simulou um repetidor entre Delft e Eindhoven com dados da rede de fibra real e as localizações possíveis para o equipamento. Segundo os autores, os cenários idealizados distorcem as exigências de hardware, sobretudo quanto à coerência das memórias e à recolha de fotões. Um laser de 532 nanómetros permite controlar centros de azoto-lacuna em diamante no laboratório de Gavin Morley. Fotografia ilustrativa da investigação em tecnologias quânticas. Crédito: Gavin Morley, 2016. CC BY-SA 4.0. Licença Um protótipo completo e programável O comunicado da segunda fase diz que o objetivo é combinar as tecnologias da primeira num protótipo completo e programável, capaz de executar aplicações de rede quântica. O programa dá também os primeiros passos para uma Quantum Internet Initiative, que o comunicado associa à passagem de tecnologias de laboratório a aplicações reais, com preparação de instalações-piloto e de infraestrutura de acesso aberto para investigadores, programadores e empresas. A QIA afirma que tecnologias desenvolvidas no programa já chegaram a produtos e que surgem startups no seu ecossistema. Quanto ao hardware, o concurso pedia que os componentes fossem desenvolvidos com as plataformas identificadas como mais promissoras segundo critérios objetivos. Os autores do estudo de Delft de 2022 notavam que a escolha da plataforma mais promissora continuava a ser objeto de disputa. Mesa ótica com uma câmara de vácuo onde um feixe infravermelho faz levitar um nanodiamante. A experiência não representa uma rede quântica da QIA. Crédito: Gavin Morley, 2016. CC BY-SA 4.0. Licença O horizonte de 2029 e os dados por esclarecer Quanto ao calendário, a Horizon escrevia em 2023 que uma internet quântica poderia existir para aplicações especializadas já em 2029. Os especialistas citados evitavam prever quando haveria uma versão para uso generalizado, e Wehner classificou a pergunta como muito difícil. O anúncio de 2026 não acrescenta data para esse horizonte. Fixa apenas a duração de 42 meses para o protótipo. Quanto à posição da Europa, Wehner afirma que o continente continua na vanguarda mundial da internet quântica e que o protótipo pode vir a ser o primeiro do género no mundo. Diz ainda que a segunda fase cria tecnologia que não existe em lado nenhum. O texto da Horizon de 2023 referia que Estados Unidos e China também tinham avançado em computação e em internet quânticas. O comunicado da QIA não compara o seu projeto com os desses países. O comunicado é mais curto do que o concurso. Não indica a distância da ligação. Não indica o número de nós. Não indica a resistência a ciberataques. Quais dos resultados esperados pela Comissão o projeto financiado assume é uma informação que o comunicado não dá. Capa: ilustração conceptual de um diamante e de um feixe de luz, criada com inteligência artificial para o Atlantic Lisbon. Não representa equipamento real da QIA. Fonte: comunicado da Quantum Internet Alliance
- Ultradireita em Espanha: quem decidirá o governo?
Em Espanha, a disputa pelo poder deixou de depender exclusivamente da capacidade dos dois maiores partidos para conquistar eleitores. O Partido Popular e o PSOE continuam a dominar a competição eleitoral, mas nenhum tem garantias de conseguir governar sem negociar com outras forças. A posição do Vox tornou-se particularmente importante para a direita. O partido de Santiago Abascal procura transformar a influência eleitoral em capacidade de decisão sobre a composição e o programa do futuro governo. Para o PP, a questão não é apenas ultrapassar os socialistas nas próximas legislativas. É saber que concessões estará disposto a fazer para alcançar a maioria parlamentar com o apoio da ultradireita em Espanha. Isso envolve a orientação da política de imigração, as relações entre Madrid e as comunidades autónomas, os direitos sociais e a posição espanhola em diferentes debates europeus. A entrada do Congresso dos Deputados, em Madrid, fotografada em setembro de 2026. Ganhar as eleições não garante os votos necessários à investidura. Fotografia: Zarateman. Domínio público, CC0 1.0. Ganhar as eleições não significa conseguir governar O sistema parlamentar espanhol exige que o candidato a primeiro-ministro obtenha apoio suficiente no Congresso dos Deputados. Na primeira votação de investidura, é necessária uma maioria absoluta de 176 deputados, num total de 350. Se essa maioria não for alcançada, a segunda votação permite a eleição por maioria simples, desde que os votos favoráveis ultrapassem os contrários. Nas eleições de julho de 2023, o PP foi o partido mais votado e conquistou o maior número de deputados. Alberto Núñez Feijóo não conseguiu, porém, reunir os apoios necessários para formar governo. Pedro Sánchez permaneceu no poder depois de construir uma maioria de investidura com forças situadas à esquerda e partidos nacionalistas e independentistas. A vitória eleitoral não equivaleu à capacidade de formar governo. A mesma dificuldade poderá repetir-se nas próximas legislativas, sobretudo se o Congresso continuar dividido entre vários blocos. Em França, a disputa sobre o orçamento francês mostra também como a fragmentação parlamentar pode limitar a ação de um governo. Santiago Abascal, líder do Vox, em Aínsa, em janeiro de 2026. O peso parlamentar do partido poderá condicionar um acordo com o PP. Fotografia: Vox España, recorte de retrato. Domínio público, CC0 1.0. A ultradireita em Espanha influencia as escolhas do PP Durante décadas, o PP reuniu diferentes sensibilidades conservadoras, liberais e nacionalistas espanholas. A consolidação de uma força à sua direita introduziu um concorrente capaz de disputar eleitores e condicionar alianças. O Vox defende uma conceção centralizadora do Estado, políticas mais restritivas de imigração e a revisão de medidas relacionadas com a igualdade de género e a memória histórica. Estas posições distinguem-no do PP em matérias relevantes, embora existam áreas de convergência, nomeadamente na crítica ao Governo socialista e na defesa de determinadas políticas económicas e de segurança. A relação combina concorrência e dependência. O PP procura conquistar eleitores suficientes para governar sem ficar subordinado às exigências do Vox. O partido de Abascal tem interesse em demonstrar que uma eventual maioria de direita não poderá dispensar a sua participação ou o seu apoio. Quanto mais próximos forem os resultados dos grandes blocos, maior poderá ser o peso negocial de um partido com representação relativamente menor. As eleições antecipadas mudaram o calendário A decisão de Pedro Sánchez de convocar legislativas antecipadas para 29 de novembro de 2026 transformou a disputa sobre a sobrevivência do Governo numa campanha eleitoral com consequências imediatas. A convocação ocorreu depois de o executivo não conseguir fazer aprovar medidas destinadas a responder à crise da habitação. A escassez de casas acessíveis, o aumento das rendas e a contestação social passaram a ocupar uma posição central na disputa. Para Sánchez, a antecipação representa uma tentativa de recuperar a iniciativa política. Para o PP e o Vox, oferece a possibilidade de converter a vantagem registada nas sondagens em maioria parlamentar. A campanha coloca duas questões diferentes: que partido deverá liderar o próximo Governo e que forças serão necessárias para lhe assegurar uma maioria. Alberto Núñez Feijóo, líder do Partido Popular, fotografado em maio de 2025. A projeção analisada deixa o PP abaixo da maioria absoluta. Fotografia: Partido Popular. Domínio público, CC0 1.0. As sondagens apontam para uma maioria de direita A média de sondagens divulgada pela RTVE atribui 137 deputados ao PP e 65 ao Vox. A soma permitiria ultrapassar a maioria absoluta, embora o PP continuasse longe de poder governar sozinho. As projeções apontam igualmente para o enfraquecimento dos socialistas e das forças à sua esquerda. A evolução eleitoral da ultradireita em Espanha é particularmente relevante. O Vox conquistou 33 deputados em 2023. A projeção de 65 lugares representaria uma quase duplicação da presença parlamentar. Uma maioria aritmética não determina a composição do executivo. Feijóo poderá procurar um acordo de apoio parlamentar sem integrar ministros do Vox, enquanto Abascal poderá exigir participação governativa em troca de apoio. O resultado dependerá da dimensão da vitória e da força relativa dos dois partidos. Acampamento contra os despejos e pelo direito à habitação na Puerta del Sol, Madrid, em 28 de setembro de 2026. A habitação ganhou relevo na disputa eleitoral. Fotografia: Zarateman. Domínio público, CC0 1.0. A habitação tornou-se uma questão decisiva A crise da habitação introduziu uma dimensão social numa campanha dominada também por imigração, segurança e integridade política. A dificuldade de acesso afeta especialmente jovens, famílias com rendimentos intermédios e residentes nos principais centros urbanos. O Governo socialista defende maior intervenção pública, incluindo medidas de proteção dos arrendatários e restrições a determinadas práticas especulativas. O PP privilegia o aumento da construção, a disponibilização de terrenos e a redução de obstáculos administrativos. As diferenças traduzem duas interpretações sobre as causas da crise e os instrumentos necessários para a resolver. A questão poderá influenciar eleitores que não se identificam de forma estável com nenhum dos grandes blocos. O preço político de uma coligação A entrada do Vox num governo nacional representaria uma alteração significativa na política espanhola. A ultradireita em Espanha deixaria de exercer influência apenas através da oposição ou de acordos parlamentares e passaria a participar diretamente na definição e execução de políticas públicas. Para o PP, a possibilidade envolve vantagens e riscos. Uma coligação permitiria formar um executivo com maioria absoluta, mas obrigaria a negociar áreas sensíveis do programa governativo. Para o Vox, a participação no Governo ofereceria acesso direto ao poder, mas implicaria assumir responsabilidades por decisões económicas e administrativas que poderiam contrariar as expectativas dos seus eleitores. A experiência de acordos entre os dois partidos em comunidades autónomas demonstrou que a convergência eleitoral não elimina divergências na governação. À escala nacional, decisões sobre orçamento, relações europeias e política externa exigem compromissos mais amplos. O hemiciclo do Parlamento Europeu em Estrasburgo, durante um debate em setembro de 2018. Uma mudança de governo em Madrid também teria consequências europeias. Fotografia: Hann Lans. Domínio público, CC0 1.0. A Espanha perante uma escolha europeia Uma eventual mudança de Governo teria consequências para a posição espanhola na União Europeia. O PP pertence à família do Partido Popular Europeu. O Vox integra uma corrente nacionalista e eurocética mais crítica de determinadas políticas comunitárias. Divergências poderão surgir em matérias como imigração, transição energética, política agrícola e integração europeia. Isso não significa que uma coligação conduza automaticamente a uma rutura com Bruxelas. Espanha mantém compromissos económicos, institucionais e financeiros que qualquer governo terá de considerar. A influência do Vox dependerá das responsabilidades que assumir e da capacidade do PP para estabelecer limites ao programa conjunto. A questão espanhola insere-se numa transformação política europeia mais ampla: partidos conservadores tradicionais enfrentam a possibilidade de depender eleitoralmente de forças situadas à sua direita. As respostas variam entre países. Em alguns casos, foram formadas coligações. Noutros, optou-se por acordos parlamentares ou pela manutenção de barreiras políticas. Uma maioria possível, um governo ainda por definir As eleições de 29 de novembro poderão encerrar o atual ciclo governativo de Pedro Sánchez. As sondagens colocam o PP em posição favorável, mas não dispensam a votação nem resolvem antecipadamente as negociações posteriores. A principal incerteza já não se limita à possibilidade de a direita conquistar uma maioria. Inclui a forma como essa maioria será utilizada. Feijóo terá de decidir até onde poderá negociar com o Vox sem comprometer a identidade política do PP. Abascal terá de escolher entre exigir participação governativa e preservar a liberdade de atuação que a oposição proporciona. Os eleitores decidirão a distribuição dos lugares. A composição do Governo dependerá também das escolhas que os partidos fizerem depois de conhecidos os resultados. Espanha poderá sair das eleições com uma maioria parlamentar mais clara do que aquela que sustentou o executivo de Sánchez. Isso não significa que desapareçam as tensões entre os partidos que a constituírem. O peso da ultradireita em Espanha no próximo Governo será medido não apenas pelo número de deputados que conquistar, mas pelas decisões que conseguir determinar. Fontes: La Moncloa: convocação eleitoral de 5 de outubro de 2026. Consultar a fonte (lamoncloa.gob.es) RTVE: média de sondagens publicada em 7 de outubro de 2026. Consultar a fonte (rtve.es) Decreto de convocação: Real Decreto 806/2026, de 5 de outubro. Consultar o documento oficial (PDF) Constituição espanhola: artigo 99, regras da investidura. Consultar o texto oficial no BOE
- Até onde pode ir a aproximação entre Índia e China?
Nova Deli procura abrir espaço ao investimento chinês em alguns setores, enquanto mantém uma disputa fronteiriça com Pequim. Ambos enfrentam dificuldades com Washington, depois de anos em que a preocupação com a China aproximou a Índia dos Estados Unidos. A Índia depende de produtos chineses para desenvolver parte da sua indústria. Ao mesmo tempo, restringiu a entrada de empresas e investimento da China depois do confronto fronteiriço de 2020, em que morreram militares dos dois países. Nova Deli procura agora facilitar algumas formas de cooperação económica com o vizinho. Depois dos confrontos, dezenas de aplicações chinesas foram proibidas, incluindo o TikTok. A entrada de investimento ficou fortemente limitada e as empresas chinesas já instaladas passaram a enfrentar maior fiscalização. A Índia continuou, porém, a comprar à China bens e componentes utilizados pela sua indústria e pelo setor farmacêutico. Nova Deli indicou que facilitaria a aquisição de participações minoritárias por entidades chinesas em setores como a produção de eletrónica e a energia solar. Pretende favorecer associações com empresas indianas. A fronteira continua em disputa, apesar do avanço nas negociações em 2024. A abertura económica tem condições Até onde pode ir a aproximação entre Índia e China? Uma empresa indiana pode comprar componentes chineses sem que o fornecedor participe no seu capital. A abertura anunciada permite ir além dessa relação comercial: admite que entidades chinesas adquiram participações em empresas na Índia, dentro dos setores e das condições definidos pelas autoridades. A opção por participações minoritárias delimita a presença dos investidores. Não corresponde a uma autorização geral para investir em qualquer atividade, nem implica, por si, entregar-lhes o controlo das empresas. Nova Deli procura obter tecnologia e conhecimentos que ajudem a desenvolver a produção indiana. Para isso, as empresas terão de encontrar parceiros e negociar as atividades a realizar em conjunto. A autorização de investimento abre essa possibilidade; os anúncios ainda não esclarecem que tecnologia será disponibilizada ou que capacidades ficarão nas empresas indianas. A Índia utiliza bens e componentes chineses na sua produção. As associações empresariais poderão mudar a forma dessa relação, consoante o que vierem a produzir dentro do país e os conhecimentos que disponibilizarem aos parceiros indianos. As regras variam também com a atividade. Facilitar investimento em eletrónica ou energia solar não revoga automaticamente a proibição de uma aplicação digital. O conflito fronteiriço permanece Índia e China entraram em guerra em 1962 e tiveram vários confrontos fronteiriços desde então. As mortes de militares em 2020 agravaram a disputa e foram seguidas pelas restrições indianas à presença económica chinesa. Em 2024, Índia e China avançaram nas negociações fronteiriças, depois de anos de deterioração das relações. A disputa territorial permanece. Pequim mantém também uma relação estreita com o Paquistão, adversário da Índia. Os dois países competem no oceano Índico. Estas questões continuam a condicionar os contactos entre os governos, mesmo quando há interesse em admitir investimento ou aumentar a cooperação industrial. Nova Deli pode autorizar uma participação chinesa numa empresa e manter as suas objeções em matéria de segurança. Os contactos diplomáticos permitem negociar os assuntos em disputa, mas os compromissos terão de ser definidos para cada um deles. Na fronteira, o avanço de 2024 é o passo concreto conhecido neste percurso. Donald Trump e Xi Jinping no G20, em 8 de julho de 2017. As relações de Índia e China com Washington fazem parte do contexto da aproximação entre os dois vizinhos. Fotografia de arquivo: Shealah Craighead / Casa Branca. Domínio público, utilização gratuita. As dificuldades com Washington As tarifas de Donald Trump atingiram tanto a Índia como a China. No caso indiano, a deterioração dos contactos com Washington incluiu divergências sobre as compras de petróleo russo. A Índia vinha a aproximar-se dos Estados Unidos, em parte devido ao interesse comum em contrariar a China. Passou a enfrentar dificuldades com esse parceiro ao mesmo tempo que recuperava contactos com Pequim. Narendra Modi e Donald Trump numa reunião na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, em 24 de setembro de 2019. Os contactos entre Nova Deli e Washington antecedem a atual aproximação entre Índia e China. Fotografia de arquivo: Shealah Craighead / Casa Branca. Domínio público, utilização gratuita. As tarifas alteram as condições de acesso ao mercado americano. As divergências sobre o petróleo russo envolvem escolhas da política externa indiana. Os dois problemas pesam na relação com Washington, mas nenhum resolve os desacordos de Nova Deli com o vizinho chinês. Modi deslocou-se à China para um fórum regional em que participou também Vladimir Putin. Índia e China integram igualmente os BRICS, grupo a que pertencem a Rússia e o Irão. Os encontros permitem manter contactos e anunciar cooperação entre países que continuam a ter disputas bilaterais. Para Nova Deli e Pequim, essa participação coexiste com as negociações diretas sobre a fronteira e com as decisões de cada governo sobre o acesso ao seu mercado. O que pode mudar entre Índia e China A Índia anunciou uma abertura delimitada ao investimento chinês. O seu alcance dependerá dos setores abrangidos, das participações autorizadas e das associações que as empresas conseguirem concretizar. A cooperação industrial poderá avançar nessas condições, mesmo enquanto os governos continuam a negociar questões de segurança. Nas empresas indianas que venham a receber investimento, será possível avaliar o que passa a ser produzido e que tecnologia os parceiros chineses disponibilizam. São resultados que o anúncio de uma abertura ainda não permite conhecer. Na fronteira, os compromissos exigem um entendimento entre os Estados. O progresso das negociações de 2024 e a abertura a participações minoritárias pertencem ao mesmo período de recuperação dos contactos, mas têm aplicação em áreas diferentes. Os dois governos terão de decidir o que conseguem executar em cada uma delas, com os restantes conflitos ainda por resolver. Capa: bandeiras da Índia e da China, símbolos de domínio público. Composição gráfica para o Atlantic Lisbon disponibilizada sob CC0, utilização gratuita. A aproximação entre Índia e China envolve comércio, investimento e negociações fronteiriças.
- Inteligência artificial: quem financia e quem arrisca?
As grandes empresas tecnológicas estão a investir milhares de milhões de dólares em centros de dados, processadores e capacidade de computação. Parte desse dinheiro circula entre fornecedores, investidores e clientes do mesmo setor. A expansão pode criar um mercado extraordinário, mas também torna mais difícil perceber onde termina a procura efetiva e começa a procura financiada pelos próprios participantes. Uma empresa tecnológica investe num laboratório de inteligência artificial. O laboratório utiliza o capital recebido para contratar capacidade de computação. O fornecedor dessa capacidade compra processadores e constrói centros de dados. A empresa que fabricou os processadores pode, por sua vez, participar no financiamento de outros laboratórios que necessitam dos seus produtos. A inteligência artificial mobiliza milhares de milhões para centros de dados e processadores. Quem financia esta expansão e quem assume o risco quando as receitas ainda não cobrem os custos? Cada operação pode ter justificação comercial. O investimento permite desenvolver tecnologia, os contratos garantem capacidade de processamento e os fabricantes recebem encomendas. O problema surge quando o crescimento das receitas de uma empresa depende, em parte, do financiamento que outra empresa do mesmo circuito disponibiliza. As vendas não são fictícias. Uma parcela da procura pode estar a ser sustentada por capital antecipado, e não pelos rendimentos que os serviços de inteligência artificial já conseguem gerar junto dos utilizadores finais. A distinção tornou-se importante numa indústria que precisa de construir infraestruturas dispendiosas antes de conhecer a dimensão e a rentabilidade do mercado que pretende servir. A relação entre investidores e clientes não é novidade na indústria tecnológica. Um fabricante pode financiar um comprador para facilitar a aquisição dos seus equipamentos. Uma empresa pode investir num parceiro estratégico e, simultaneamente, vender-lhe serviços. Um operador de infraestruturas pode celebrar contratos de longo prazo para obter financiamento bancário. Na inteligência artificial, a dimensão dos investimentos e a concentração dos fornecedores tornam essas relações especialmente relevantes. A Microsoft estabeleceu uma relação financeira e comercial profunda com a OpenAI. A Amazon investiu na Anthropic e fornece-lhe serviços de computação. A Google mantém relações comerciais e financeiras com empresas que desenvolvem modelos concorrentes. A Nvidia, principal fornecedora de processadores usados no treino de muitos modelos avançados, também participa no financiamento de empresas do setor. As relações não são idênticas. Algumas envolvem participações no capital, outras incluem compromissos de utilização de infraestrutura, acordos de fornecimento ou condições comerciais específicas. Também não é correto tratar todos os contratos como financiamento circular. Para determinar a natureza económica de cada operação, é necessário conhecer os fluxos financeiros efetivos, as obrigações contratuais e a forma como as receitas são reconhecidas. Ainda assim, a sobreposição de papéis é evidente: investidores podem ser fornecedores, fornecedores podem financiar clientes e clientes podem assumir compromissos de compra que sustentam novos investimentos. O supercomputador Frontier, no Laboratório Nacional de Oak Ridge, ilustra a escala física da computação avançada. Fotografia: Carlos Jones/ORNL, Departamento de Energia dos EUA. Domínio público. Inteligência artificial: centros de dados antes das receitas A inteligência artificial generativa exige infraestruturas físicas. Os modelos mais avançados utilizam grandes quantidades de capacidade de processamento durante o desenvolvimento. Depois de concluído o treino, continuam a consumir recursos sempre que respondem a pedidos ou executam operações. O crescimento da utilização obriga a disponibilizar servidores, processadores, memória, sistemas de refrigeração e ligações de comunicação. É necessário ainda assegurar eletricidade suficiente para alimentar os equipamentos. Parte importante destas despesas é realizada antes de os serviços produzirem receitas capazes de compensar o investimento. O operador de um centro de dados pode construir instalações para responder a contratos de utilização futura. O fabricante de processadores recebe encomendas destinadas a equipar essas instalações. Os investidores financiam a expansão na expectativa de que a procura continue a aumentar. Se essa procura se concretizar, a infraestrutura pode gerar receitas durante vários anos. Se crescer mais lentamente do que o previsto, parte da capacidade pode ficar subutilizada. Há também o risco de os equipamentos perderem valor económico mais depressa do que as instalações que os acolhem. Um edifício pode continuar operacional durante décadas, enquanto os processadores usados no seu interior podem tornar-se menos competitivos em poucos anos. A diferença entre a vida útil da infraestrutura e o ritmo de evolução tecnológica influencia o retorno. Construir capacidade não equivale a criar um negócio rentável. A infraestrutura precisa de ser utilizada a preços que permitam recuperar os custos. As receitas de uns são despesas de outros Quando uma empresa de inteligência artificial contrata serviços de computação, o pagamento representa receita para o fornecedor e despesa para o cliente. O crescimento das vendas do fornecedor não demonstra, por si só, que o cliente esteja a gerar rendimentos suficientes para suportar essa despesa. Imagine um laboratório que recebe financiamento de investidores e utiliza uma parte significativa do capital para contratar servidores. O operador dos servidores regista receitas. O fabricante dos equipamentos recebe encomendas. Os resultados comerciais destas duas empresas podem melhorar. O laboratório, contudo, pode continuar a apresentar prejuízos enquanto procura clientes para os seus serviços. As três situações podem coexistir durante bastante tempo. O problema económico não está necessariamente na existência de prejuízos. Muitas empresas investem durante anos antes de alcançar a rentabilidade. A questão é saber se o crescimento futuro permitirá recuperar o capital utilizado e remunerar adequadamente o risco assumido. Na inteligência artificial, essa avaliação é dificultada pela velocidade das alterações tecnológicas e comerciais. Os preços cobrados pela utilização dos modelos podem diminuir à medida que surgem alternativas mais eficientes. Ao mesmo tempo, a expansão da procura pode aumentar o número de operações realizadas. Uma redução do preço unitário não implica necessariamente uma quebra de receitas, mas pode obrigar as empresas a processar um volume muito superior de pedidos para alcançar as margens esperadas. É possível que o mercado cresça rapidamente sem que todos os fornecedores consigam obter lucros. O caso Microsoft: investimento e faturação na mesma relação A Microsoft fornece um exemplo concreto da sobreposição entre investimento e atividade comercial. No relatório anual relativo ao exercício terminado em junho de 2026, a empresa declarou uma participação de aproximadamente 25% na OpenAI, considerando a conversão dos instrumentos de capital relevantes. Indicou ainda compromissos de financiamento de 13 mil milhões de dólares, dos quais 11,9 mil milhões já tinham sido disponibilizados. No mesmo exercício, reconheceu 24,1 mil milhões de dólares de receitas provenientes dos acordos comerciais com a OpenAI, incluindo pagamentos relacionados com a partilha de receitas. No final de junho, tinha seis mil milhões de dólares a receber da empresa. Comissão de Valores Mobiliários Estes números permitem observar duas relações distintas. A Microsoft participa no capital da OpenAI e recebe receitas provenientes das atividades comerciais desenvolvidas entre ambas. Não permitem, contudo, concluir que o dinheiro investido tenha sido diretamente utilizado para pagar serviços à própria Microsoft. Essa conclusão exigiria informação adicional sobre a utilização dos fundos e os movimentos financeiros entre as empresas. A relação comercial também mudou. Em abril de 2026, as duas empresas anunciaram uma revisão contratual. A Microsoft manteve-se como principal parceira de computação em nuvem da OpenAI, mas esta passou a dispor de maior liberdade para disponibilizar produtos através de outros fornecedores. O acordo conservou pagamentos de partilha de receitas da OpenAI à Microsoft até 2030, sujeitos a um limite global. The Official Microsoft Blog A dimensão financeira da parceria torna-a importante para ambas. Para a Microsoft, a OpenAI é simultaneamente um investimento e uma fonte de receitas. Para a OpenAI, a Microsoft representa um fornecedor de infraestrutura e um acionista relevante. O risco de uma das empresas não cumprir as expectativas comerciais pode, por isso, afetar a outra através de mais de uma relação financeira. Um processador Nvidia Grace Hopper nas instalações de computação da NASA, em Ames. A aquisição de equipamentos é uma das despesas centrais da expansão da inteligência artificial. Fotografia: Don Story/NASA Ames. Domínio público nos EUA; utilização editorial gratuita. A Nvidia quer financiar quem compra os seus processadores A Nvidia apresentou uma proposta ainda mais explícita de associação entre financiamento e aquisição de infraestrutura. Em setembro de 2025, anunciou com a OpenAI uma parceria destinada a desenvolver pelo menos dez gigawatts de capacidade de computação baseada nos seus sistemas. Para apoiar o projeto, a fabricante declarou a intenção de investir até 100 mil milhões de dólares na OpenAI, de forma progressiva e associada à instalação da capacidade prevista. O anúncio foi apresentado como uma declaração de intenções. O valor máximo não correspondia, portanto, a um investimento integralmente realizado nem a uma obrigação de desembolso imediato. NVIDIA A dimensão do projeto revela a dificuldade de financiar a infraestrutura necessária. Numa apresentação a investidores, a Nvidia estimou que cada gigawatt de capacidade poderia exigir entre 50 mil milhões e 60 mil milhões de dólares de investimento total. A própria fabricante reconheceu que a OpenAI precisaria de reinvestir receitas futuras ou obter financiamento adicional para suportar a expansão. NVIDIA O interesse comercial da Nvidia é evidente: quanto mais capacidade for construída com os seus sistemas, maior pode ser a procura dos seus equipamentos. Para a OpenAI, o financiamento e a colaboração tecnológica podem facilitar o acesso a recursos necessários para desenvolver e disponibilizar os seus modelos. A questão para os investidores é diferente. Precisam de determinar se o capital disponibilizado permitirá criar procura economicamente sustentável ou se parte importante das encomendas continuará dependente de novas rondas de financiamento. O investimento pode revelar-se rentável se a utilização dos serviços crescer suficientemente. Mas o financiamento do comprador pelo fornecedor aumenta a importância de compreender a origem e a sustentabilidade da procura. A dívida acrescenta outra camada de risco A construção de centros de dados está a atrair investidores que tradicionalmente financiavam imóveis, infraestruturas e grandes projetos industriais. Os contratos de utilização futura podem servir de base à obtenção de crédito. Uma empresa que tenha garantido um cliente para vários anos consegue apresentar aos financiadores uma previsão de receitas associada à infraestrutura. Mas o contrato não elimina o risco. O cliente pode enfrentar dificuldades financeiras, renegociar condições ou reduzir a necessidade de capacidade adicional. O operador pode encontrar atrasos na construção, aumentos de custos ou obstáculos no fornecimento de eletricidade. A empresa australiana Firmus tornou-se um exemplo das dificuldades de financiamento. A operadora de centros de dados, apoiada pela Nvidia e por outros investidores, abandonou os planos para uma entrada em bolsa com a qual pretendia angariar cinco mil milhões de dólares. Optou por procurar financiamento privado, num contexto de preocupação dos investidores com o endividamento, a avaliação e a execução dos projetos previstos. Entre os fatores analisados encontravam-se uma dívida próxima de 30 mil milhões de dólares e a reduzida experiência operacional na exploração de centros de dados para inteligência artificial. Reuters A desistência de uma operação bolsista não demonstra que o negócio seja inviável. Mostra que a disponibilidade de financiamento pode mudar quando os investidores passam a exigir provas mais sólidas de capacidade de execução e de geração de receitas. O custo do dinheiro também importa. Quando as taxas de juro aumentam, os projetos financiados por dívida precisam de produzir receitas superiores para manter a mesma rentabilidade. Investimentos com períodos de recuperação longos tornam-se especialmente sensíveis a essa alteração. Segundo estimativas do Morgan Stanley divulgadas pela Reuters, a infraestrutura de inteligência artificial poderá necessitar de 1,5 biliões de dólares de financiamento externo até 2028. Trata-se de uma projeção, mas a sua dimensão mostra quanto capital adicional pode ser necessário. Reuters Linhas de transporte de eletricidade nos Estados Unidos. A capacidade das redes condiciona a entrada em funcionamento de novos centros de dados. Fotografia: Bob Wick/Bureau of Land Management, disponibilizada pelo USGS. Domínio público. A eletricidade pode limitar a expansão O financiamento não resolve todas as dificuldades da construção de centros de dados. Uma instalação pode dispor de capital, equipamentos e clientes sem conseguir obter a ligação elétrica necessária para entrar em funcionamento. Nos Estados Unidos, o crescimento da procura de eletricidade pelos centros de dados está a obrigar operadores de redes e empresas tecnológicas a estudar formas de gerir o consumo. Uma das possibilidades consiste em reduzir temporariamente a utilização de determinados equipamentos durante períodos de maior pressão sobre a rede. Segundo dados reunidos pela Reuters, o consumo elétrico dos centros de dados norte-americanos poderá ultrapassar quatro vezes o nível registado em 2024 até ao final da década, num cenário de expansão elevada. A dimensão exata dependerá da evolução da procura e da eficiência dos sistemas. Reuters A questão energética tem consequências financeiras. Um centro de dados que entre em funcionamento mais tarde do que o previsto pode começar a gerar receitas depois da data inicialmente calculada. Entretanto, continuam as despesas com financiamento, construção e equipamentos. O aumento do custo da eletricidade também pode reduzir as margens dos operadores. A disponibilidade de energia tornou-se, assim, um dos fatores que determinam onde a infraestrutura pode ser construída e a que preço poderá funcionar. A expansão depende de decisões tomadas fora da indústria dos modelos: investimentos em redes elétricas, licenciamento, produção de energia e planeamento territorial. A rentabilidade ainda não acompanha todos os investimentos O crescimento das receitas de inteligência artificial é real, mas distribui-se de maneira desigual. As empresas que fornecem equipamentos podem beneficiar imediatamente da construção de infraestrutura. Os operadores de computação recebem pagamentos pela capacidade disponibilizada. Os laboratórios que desenvolvem modelos precisam de transformar essa capacidade em serviços vendidos a preços suficientes para cobrir os custos. A Anthropic ilustra esta diferença. De acordo com dados financeiros analisados pela Reuters, a empresa registou 4,6 mil milhões de dólares de receitas em 2025, enquanto as despesas com computação e infraestrutura atingiram 7,3 mil milhões. O prejuízo operacional foi de aproximadamente 8,06 mil milhões de dólares. Reuters A comparação entre receitas e despesas mostra a dificuldade de alcançar a rentabilidade numa fase de expansão acelerada. Não significa que a empresa esteja condenada a apresentar prejuízos. Os custos unitários podem diminuir, a utilização pode aumentar e novos serviços podem criar fontes adicionais de rendimento. Também não significa que o crescimento das receitas resolva necessariamente o problema. Se cada novo cliente exigir investimentos elevados em capacidade de processamento, a expansão comercial pode continuar a consumir capital. A Microsoft, a Alphabet, a Amazon, a Meta e a Oracle enfrentam uma questão relacionada, embora disponham de negócios estabelecidos e fontes de financiamento diferentes. Uma análise da Reuters, baseada em estimativas financeiras, apontou para a possibilidade de o investimento agregado destas empresas ultrapassar o fluxo de caixa livre em 2027. A Oracle apresentava uma exposição particularmente elevada, com despesas de capital equivalentes a 174% do fluxo de caixa operacional no exercício de 2026. Reuters O investimento pode ser suportável para uma empresa com receitas diversificadas e acesso a financiamento, mas reduz os recursos disponíveis para outras utilizações e aumenta a necessidade de demonstrar resultados futuros. Uma bolha não se identifica apenas pelo montante investido O volume de dinheiro aplicado em inteligência artificial levou a comparações com outros períodos de expansão tecnológica. A construção dos caminhos de ferro, das redes de telecomunicações e da infraestrutura da Internet também exigiu grandes investimentos antecipados. Em alguns casos, os ativos continuaram úteis mesmo quando as empresas que os financiaram sofreram perdas. Uma tecnologia pode transformar a economia sem proporcionar lucros a todos os seus primeiros investidores. A existência de centros de dados que continuam a funcionar não garante que os seus proprietários tenham recuperado o capital investido. A utilização crescente de inteligência artificial não assegura que todos os laboratórios consigam cobrar preços suficientes para suportar as despesas. Também não se pode concluir que exista uma bolha financeira apenas porque os investimentos são elevados ou porque determinadas empresas apresentam prejuízos. Para avaliar a sustentabilidade do setor, importa conhecer a proporção das receitas que resulta de clientes independentes, a utilização efetiva da infraestrutura, as condições dos contratos de longo prazo e o peso da dívida. É igualmente necessário distinguir compromissos anunciados de despesas realizadas. Um projeto de investimento de 100 mil milhões de dólares pode representar uma intenção condicionada à execução de várias fases. Não equivale a 100 mil milhões já gastos. Confundir estas grandezas pode ampliar artificialmente tanto a perceção do crescimento como a dimensão dos riscos. O teste decisivo será a procura independente A inteligência artificial já possui clientes, produtos comerciais e aplicações que produzem resultados úteis. A questão financeira não consiste em saber se existe procura, mas se ela poderá crescer o suficiente para remunerar os investimentos previstos. O mercado será mais fácil de avaliar quando uma parcela maior das receitas dos fornecedores de infraestrutura puder ser associada à utilização efetiva dos serviços por empresas e consumidores, sem depender continuamente de capital fornecido pelos próprios participantes do setor. Isso não exige o desaparecimento das parcerias estratégicas. Exige compreender quanto valor económico é produzido fora delas. Uma empresa que investe num laboratório e lhe vende equipamentos pode desenvolver uma relação comercial legítima e rentável. O risco aumenta quando o financiamento de novas encomendas se torna indispensável para sustentar receitas anteriores. A construção de infraestrutura continuará a exigir capital, mesmo que a procura cresça. O que pode mudar é a capacidade dos operadores para financiar essa expansão através dos rendimentos da própria atividade. Até lá, o setor continuará exposto a uma dificuldade de avaliação: receitas de uma empresa podem representar despesas financiadas por investidores de outra, enquanto o retorno económico final permanece por demonstrar. A inteligência artificial pode justificar uma transformação profunda da infraestrutura tecnológica mundial. Mas o êxito da tecnologia e o êxito financeiro dos investimentos não são a mesma coisa. O dinheiro que circula entre fabricantes, laboratórios e operadores de centros de dados terá, em algum momento, de encontrar uma fonte de remuneração suficientemente ampla fora desse circuito. É aí que se decidirá quanto da expansão atual corresponde a um mercado sustentável e quanto depende da disponibilidade permanente de novo capital.
- Vida ou economia: o que a fórmula escondeu em 2020
A pandemia pôs o emprego, o rendimento e a saúde sob pressão. A fórmula «vida ou economia» escondia quem pagava cada decisão e os meios que os governos tinham para reduzir esses custos. Para quem recebia à tarefa ou vendia o suficiente para pagar as despesas do dia, ficar em casa podia significar ficar sem dinheiro para comer. Continuar a trabalhar trazia o risco de infeção, também para as pessoas com quem vivia. Em 2020, esta dificuldade era real. A expressão «vida ou economia» fazia-a parecer uma escolha com duas respostas possíveis: aceitar o contágio ou aceitar a perda de rendimento. Mas havia decisões entre uma coisa e outra. Pagar um apoio, proteger um posto de trabalho, adaptar um local de atendimento ou garantir condições para cumprir o isolamento alterava aquilo que uma pessoa podia fazer. Esses meios tinham custos e limites. Ficavam fora de uma discussão que começasse e acabasse na escolha entre salvar vidas e salvar a economia. Um aviso de encerramento nos Estados Unidos, em 2020. Para muitos negócios, as restrições interromperam as receitas enquanto as despesas continuavam. Fotografia: Bruce Dupree / Alabama Extension. CC0 — domínio público. Vida ou economia - Quem podia aceitar o risco Em abril de 2020, o vice-governador do Texas, Dan Patrick, defendeu a reabertura da economia numa entrevista à Fox News. Disse haver coisas mais importantes do que viver e invocou a necessidade de salvar o país para os filhos e os netos. A frase atribuía ao futuro da comunidade um valor pelo qual se poderia aceitar um risco pessoal. Uma pessoa pode aceitar esse risco para si. A reabertura, porém, abrangia trabalhadores, clientes e familiares que podiam ter outras condições de saúde e outra margem para escolher. Um empregado precisava do salário; alguém com poupanças podia adiar uma compra ou continuar em casa. A decisão política não recolhia apenas a disponibilidade de quem se declarava pronto a correr riscos. A referência aos filhos e aos netos também não resolvia a discussão sobre os resultados da reabertura. Era preciso saber que atividades se pretendia retomar, com que proteção e com que efeito previsível no contágio. Um argumento sobre o valor do sacrifício não fornecia essas respostas. No Brasil, Jair Bolsonaro insistiu na fome como consequência das restrições. Em 14 de maio de 2020, criticou as medidas de governadores e autarcas e defendeu a retoma das atividades económicas. A perda de rendimento dava força ao argumento num país onde muitos trabalhadores dependiam de atividades informais. Para uma família que tinha perdido a receita da semana, pedir que ficasse em casa exigia uma resposta sobre a comida, a renda e as contas. Faltava saber quanto dessa perda podia ser compensado, durante quanto tempo e se o dinheiro chegaria a quem dele precisava. Vida ou economia - O auxílio mudava as opções O Brasil criou o Auxílio Emergencial através da Lei n.º 13.982, de 2 de abril de 2020. O apoio inicial de 600 reais mensais, previsto por três meses, destinava-se a pessoas que cumprissem condições de rendimento e de situação profissional, incluindo trabalhadores informais. Não era um rendimento básico universal. A proposta inicial do ministro da Economia, Paulo Guedes, apontava para 200 reais. O Congresso aprovou o valor de 600 reais e Bolsonaro sancionou a lei. Esta sequência permite discutir a dimensão do apoio que o Governo pretendia oferecer. Não basta para afirmar que o presidente se opôs a qualquer auxílio. A aplicação do Auxílio Emergencial, fotografada em abril de 2020. O programa introduziu uma transferência de rendimento na discussão sobre as restrições. Fotografia: Leonardo Sá / Agência Senado. CC BY 2.0. O pagamento podia permitir a alguém recusar uma tarefa, comprar alimentos ou cumprir um período de isolamento. Para avaliar o que conseguiu fazer, era necessário conhecer o montante recebido, a composição do agregado, os atrasos e as pessoas que ficaram de fora. A existência do programa não prova que todas as famílias tenham passado a poder ficar em casa. Mostra que a falta de rendimento podia ser objeto de uma decisão pública. Apresentar a fome como consequência inevitável de qualquer restrição deixava por discutir o apoio disponível e a escolha de o aumentar ou limitar. Também os custos de fechar uma atividade variavam com a duração e com a ajuda concedida. Vida ou economia - Deixar o vírus circular A ideia de alcançar «imunidade de grupo» através da circulação do vírus colocava outra questão. Propunha que um número suficientemente elevado de infeções acabasse por reduzir a transmissão. A sua avaliação exigia conhecer a proteção adquirida, a duração dessa proteção e o número de pessoas que adoeceriam entretanto. A imunidade de grupo não é uma expressão reservada à vacinação. Designa a proteção indireta que pode surgir quando uma parcela suficiente da população tem imunidade, adquirida por vacina ou por infeção anterior. A Organização Mundial da Saúde explicava esta distinção em 2020 e rejeitava a tentativa de alcançar essa proteção deixando a covid-19 propagar-se: o caminho implicava doença e mortes evitáveis, com incertezas sobre a imunidade e o limiar necessário. Representação do SARS-CoV-2. Trata-se de uma ilustração científica, não de uma fotografia microscópica. Ilustração: Alissa Eckert e Dan Higgins / CDC. Domínio público; disponibilizada pelo USGS. A gravidade da infeção, a capacidade hospitalar e a possibilidade de proteger as pessoas mais vulneráveis faziam parte dessa avaliação. Invocar uma proteção futura não permitia dispensar a contagem das consequências do percurso até lá. As três intervenções pediam respostas diferentes. Patrick falava do risco que considerava aceitável em nome do país. Bolsonaro usava a perda de rendimento para defender a reabertura. A proposta de deixar o vírus circular prometia um efeito sobre a transmissão. Reunidas sob «vida ou economia», pareciam disputar a mesma escolha. A partir de Lisboa, uma discussão sobre o custo das restrições precisava igualmente de descer aos rendimentos, aos apoios e às condições de trabalho. Para quem podia trabalhar em casa, o problema era diferente do de quem precisava de atender clientes ou deslocar-se todos os dias. Não se podia deduzir a capacidade de cumprir uma medida apenas da concordância com ela. Em 2020, decidir sobre uma restrição exigia perguntar que risco se procurava reduzir, quem perderia rendimento e como seria compensado. Decidir reabrir exigia explicar a proteção de quem voltaria ao trabalho e as consequências previsíveis para os serviços de saúde. A fórmula não dizia quanto dinheiro chegaria à família que tinha deixado de receber nem em que condições o trabalhador teria de regressar.
- Apartamento em Lisboa: vista mar e vizinhos
Apartamento em Lisboa - A vista mar existe, desde que o cliente aceite vê-la com o vizinho ao ombro. O gato já mora na varanda e ainda não pagou a caução. Apartamento em Lisboa, com vista para o mar e vizinhos incluídos. Banda desenhada do Atlantic Lisbon.
- Pastel de nata em Lisboa: o novo monumento
Pastel de nata em Lisboa - O pastel de nata já tem pedestal, praça e fila de telemóveis, só lhe falta a bica. A senhora do lenço, que passa ali há cinquenta anos, ainda procura o balcão. Pastel de nata em Lisboa, agora com pedestal. Banda desenhada do Atlantic Lisbon.











