D. João VI: Um Rei Sozinho à Janela
- Alberto Carvalho - Narrador
- há 21 horas
- 9 min de leitura
D. João VI
A gordura escorria-lhe entre os dedos e ele lambia-a devagar, um dedo de cada vez, como quem repete um gesto que já não precisa de pensar. A coxa de galinha, roída até ao osso, estava pousada ao lado do prato, e as unhas ficavam-lhe de um amarelo escuro que o criado, na manhã seguinte, havia de limpar sem dizer nada, como sempre fazia.
Era noite fechada e o calor não tinha descido com o sol. Lá longe, em Lisboa, a esta hora talvez já chovesse — aqui não chovia nunca à hora certa. A noite no Rio era só uma continuação mais escura do dia, cheia de insetos a bater no vidro e de aves que não dormiam quando deviam dormir, lá fora, nas gaiolas grandes que ele mandara construir e de que já quase não se lembrava de ter pedido.
Comia assim, com as mãos, só quando ficava sozinho. De dia, à mesa comprida, com os pratos de prata que tinham feito a viagem inteira dentro de caixas forradas a feltro, comia com talher, devagar, de olhos postos num ponto vago à frente, porque de dia havia sempre alguém a olhar. Nessa manhã tinha sido um bispo, vindo de Salvador com um rosário e uma petição que demorou quarenta minutos a ler, e D. João tinha ficado de pé o tempo todo, a peruca a apertar-lhe as têmporas, o suor a descer-lhe por dentro da casaca sem que nada no rosto o denunciasse. Carlota estivera sentada num banco lateral, mais perto da janela, e ele sentira, sem precisar de olhar, o modo como ela olhava para o bispo sem pestanejar.
De noite, Custódio trazia-lhe o tabuleiro sem perguntar, punha-o na mesinha junto à janela e retirava-se para o canto, de pé, como fazia há vinte anos, e D. João comia com as mãos, devagar, sem ninguém a corrigir-lhe os cotovelos ou o ritmo da mastigação, e por uns minutos o mundo tinha o tamanho exato de um prato.
Custódio tinha vindo de Queluz, ainda rapaz, no ano em que D. João fizera doze anos, e já não trocavam duas frases onde bastava uma. Ficava no canto, com as mãos cruzadas à frente do corpo, e só falava quando havia mesmo alguma coisa para dizer — o que, tratando-se de Custódio, queria dizer quase nunca. Nos vinte e tantos anos que se seguiram, tinha visto o rapaz gordo e assustado de outros tempos ficar mais velho e mais calado, e nunca dissera nada sobre isso, nem então nem agora.
Esta noite falou.
— Chegou um recado de Buenos Aires, Senhor.
D. João não parou de comer. Levou outro pedaço à boca, mastigou-o com o mesmo cuidado de sempre, e só depois de engolir é que perguntou, sem levantar os olhos do prato:
— Recado para quem.
— Para a Rainha, Senhor. Veio por mão de um capitão espanhol. Diz-se na cozinha que...
— Não quero saber o que se diz na cozinha.
Custódio calou-se. D. João continuou a comer, e por um instante o único som no quarto foi o dos seus próprios dentes e, lá fora, uma coruja qualquer que respondia a outra.
Não era a primeira vez. Havia meses — talvez já um ano — que as cartas de Buenos Aires chegavam com uma regularidade que ninguém explicava em voz alta, embora todos na casa soubessem mais ou menos do que se tratava. Carlota tinha partidários do outro lado do oceano. Havia um nome dela a correr em folhetos que ele fingia não ter lido. E havia, sobretudo, uma ambição que ela nunca se dava ao trabalho de esconder atrás de boas maneiras — ao contrário dele. Ela queria ser regente de um território que não era este, governado por gente que não era esta. Ele próprio já nem se lembrava da última vez que quisera alguma coisa com aquela firmeza toda.
Tinham-nos casado quando ela tinha dez anos e ele pouco mais de dezassete, por procuração, em Madrid, sem que nenhum dos dois tivesse posto os olhos no outro antes da assinatura. Lembrava-se, sem dor, porque a dor já lá não estava havia muito — ficara só o facto, seco, do dia em que finalmente a viu em carne e osso, em Lisboa, já os dois mais crescidos, e do modo como ela o observou de cima a baixo, sem pressa, com uma curiosidade fria, e nada mais. Ele tinha sorrido, porque era o que se fazia, e ela não tinha sorrido de volta, e ele lembrava-se de ter pensado, na altura, que talvez isso mudasse com o tempo. Tinha mudado, de facto. Tinha piorado.
Chupou o osso. Era um gesto que fazia desde pequeno, em Queluz, quando a mãe ainda vivia e ninguém achava estranho um infante comer galinha com as mãos, sentado no chão de um corredor, escondido das visitas. Ninguém pensaria, a vê-lo agora — cinquenta e tantos anos, o corpo pesado, o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves inteiro a pesar-lhe nos ombros do mesmo jeito que a casaca de gala lhe apertava debaixo dos braços — que era ainda o mesmo gesto, a mesma fome que não era bem fome, era outra coisa a que ele nunca dera nome.
Lá fora, uma ave gritou, e outra respondeu, e por um instante o pátio encheu-se daquele alvoroço que os bichos faziam sempre que alguma coisa mudava no ar — um cheiro, uma pressão. D. João levantou a cabeça, ouviu, e havia nele, mesmo sem saber ainda que a trovoada se preparava, uma espécie de reconhecimento antigo, uma tensão nos ombros que lhe vinha sempre antes de saber porquê.
Tinha medo de trovoadas desde menino. Era coisa sabida na corte, dita em surdina, motivo de troça bem escondida atrás de reverências — o rei que se escondia debaixo das mesas quando o céu rugia, o rei que mandava fechar todas as portadas ao primeiro relâmpago e ficava sentado no chão, entre dois móveis, até passar. Ninguém falava nisso à frente dele. Só falavam de outras coisas — do tempo, da ceia.
Voltou a comer. Custódio, no canto, não se tinha mexido, mas havia qualquer coisa na sua imobilidade que não era bem a imobilidade do costume — como se estivesse a decidir se dizia mais alguma coisa, e a decidir, ao mesmo tempo, que não.
— Trouxeste a carta ou só o recado?
— Só o recado, Senhor. A carta está com Sua Majestade.
D. João concordou, como se aquilo resolvesse alguma coisa, e talvez resolvesse: não ter a carta na mão era não ter de decidir se a lia. Podia continuar, por mais uma noite, a saber só pela metade — era a única maneira de saber que ainda suportava, havia anos. Sabia o bastante para não poder dizer depois que ninguém o avisara. Preferia não saber o resto.
Havia, além disso, um segundo papel, dobrado, que Custódio ainda não tinha mencionado e que D. João já tinha visto assomar por baixo do tabuleiro. Uma letra que reconhecia — a do filho mais velho, de Vila Rica ou de onde quer que andasse agora, sempre a percorrer o interior como quem foge de qualquer coisa que ainda não tinha nome próprio. Não perguntou por ela. Custódio também não a ofereceu. Ficaram os dois, por um momento, a fingir que aquele papel dobrado não estava ali, coisa que já sabiam fazer bem os dois, de tanto praticarem.
Partiu mais um pedaço de carne. A gordura, já fria, colava-se-lhe aos dedos de um jeito diferente, mais espesso, e ele ficou a olhar para isso mais tempo do que era preciso.
Pensou — não chegava a ser pensamento, era mais uma imagem que lhe atravessou o corpo sem pedir licença — num quarto em Queluz, no inverno, com a chuva a bater no vidro de um jeito que aqui nunca batia, e ele, ainda rapaz, deitado no chão do corredor com o irmão mais velho, os dois a ouvir a chuva e a fingir que não tinham medo de nada, porque o pai estava algures na casa e um infante não podia ter medo à frente do pai, mesmo que o pai não estivesse a ver. Lembrava-se do frio da pedra através da roupa. Lembrava-se de gostar daquele frio, sem saber bem porquê.
Lembrava-se também, com menos nitidez, de uma outra chuva, mais tarde, na noite em que souberam que os franceses vinham a caminho de Lisboa e que teriam de partir antes de o exército chegar aos portões — a correria pelos corredores, os baús meio cheios, a mãe já então doente e confusa, a repetir perguntas a que ninguém respondia, e ele, já homem, já regente, de pé no cais debaixo de água que lhe entrava pela gola dentro, a decidir, pela primeira vez na vida, uma coisa que ninguém mais podia decidir por ele. Tinha decidido bem, diziam agora os que escreviam sobre isso. Ele lembrava-se sobretudo do frio, e de como, mesmo nessa noite, tinha sentido mais vontade de se sentar no chão do cais e ficar ali do que de subir para o navio.
Aqui não havia esse frio. Aqui havia só isto — o calor parado, o suor por baixo da camisa mesmo de noite, as aves inquietas, Custódio de pé no canto, tão parado que era fácil esquecer que ali estava um homem.
— Ainda aqui estás — disse, não como pergunta.
— Sim, Senhor.
— Podias ter ido.
— Podia, Senhor.
Não foi. Nunca ia, até D. João dizer que podia dormir, e mesmo essa ordem, ao longo dos anos, se tinha tornado uma formalidade que os dois cumpriam sem acreditar bem nela — uma espécie de reverência mútua a um tempo em que as ordens ainda queriam dizer alguma coisa.
O ar mudou primeiro. D. João sentiu-o antes de ouvir fosse o que fosse — uma pressão nova contra as têmporas, o mesmo aperto que a peruca lhe dava de manhã mas sem peruca nenhuma, só o ar a engrossar-se, e lá fora as aves calaram-se todas ao mesmo tempo, o que era pior do que gritarem, e depois um relâmpago cortou o céu ao longe, mudo ainda, uma luz sem som, e ele contou, sem querer contar, os segundos até ao trovão, do mesmo modo que contava desde os oito anos, à espera de saber a que distância estava a coisa que temia.
O trovão veio mais perto do que esperava.
D. João não se mexeu logo. Ficou com o pedaço de carne a meio caminho da boca, os olhos fixos na janela escura. O corpo velho sabia o que costumava fazer quando o céu rugia assim. Havia nele, porém, qualquer coisa mais cansada, mais recente, que já não tinha a certeza se valia a pena.
O segundo trovão foi mais perto ainda, e desta vez o vidro tremeu de facto, um tremor curto que ele sentiu nos dentes.
Ele pousou a carne.
Levantou-se devagar — o corpo pesado a protestar contra a cadeira, contra os anos, contra o calor — e Custódio, pela primeira vez naquela noite, deu um passo à frente, como quem se prepara para ajudar num gesto que já conhece de cor: fechar as portadas, puxar a cadeira para o canto mais afastado das janelas, sentar-se ali com o rei até passar a tempestade, os dois em silêncio, como tantas outras vezes ao longo de vinte anos.
D. João fez um sinal com a mão, quase distraído, que Custódio interpretou como sendo para ficar onde estava.
Foi até à janela.
Abriu-a.
O ar que entrou era espesso, cheirava a terra molhada antes mesmo de a chuva começar, e por baixo desse cheiro havia outro, mais fundo, que ele não saberia dizer se vinha do jardim ou de dentro de si — um cheiro de coisa prestes a mudar e já sem forma de o impedir.
A chuva começou de repente, sem aviso gradual, como faz nos trópicos — não pinga, cai. Molhou-lhe a manga antes de ele ter tempo de decidir se ia recuar.
Não recuou.
Ficou ali, à janela aberta, com a coxa de galinha ainda na outra mão, e deixou que a chuva lhe batesse na cara e no peito da camisa. O trovão veio outra vez, mais um relâmpago que lhe iluminou as mãos gordurosas erguidas contra a escuridão do jardim, e ele não fechou os olhos, não se encolheu, não fez nenhum dos gestos que fazia a vida inteira quando o céu se comportava assim.
Atrás dele, ouviu Custódio mover-se — um passo, talvez dois — e depois parar.
D. João ficou ali o tempo que a primeira fúria da chuva demorou a assentar num ritmo mais parelho. Sentia a água a escorrer-lhe pela nuca, a molhar-lhe o colarinho, a misturar-se com a gordura que ainda tinha nos dedos e que agora escorria também, mais diluída, pelo pulso abaixo, sem que ele fizesse nenhum gesto para a limpar.
Não estava a pensar em Carlota, nem na carta de Buenos Aires que continuava por ler. O papel dobrado do filho continuava também onde estava, debaixo do tabuleiro. Nem sequer lhe ocorria que aquilo fosse coragem — não era. Sabia isso com uma clareza que não costumava ter sobre si próprio. Era só que, por uma noite, decidira não se esconder do que não podia impedir.
A galinha, na mão erguida contra a chuva, começou a perder a forma, a ficar mole, a escorregar-lhe entre os dedos como tinha escorregado a gordura no início da noite. Ele não a largou.
Ficou ali até a chuva lhe encharcar a camisa por completo, até já não conseguir distinguir, nas próprias mãos, o que era chuva e o que era gordura, e deixou de tentar.
Atrás dele, Custódio esperava, de pé, no canto, como sempre esperara, e não disse nada, e a chuva continuou a cair sobre um homem que segurava, contra o peito molhado, o que restava de um osso.
