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Ensaio
Textos de interpretação longa. Nascem muitas vezes de um facto concreto, mas ultrapassam-no pela reflexão, pela linguagem e pela leitura moral, política ou cultural do que acontece.


O Médico que Viu o Próprio Corpo no Chão
Durante quarenta anos, José Morales certificou mortes. Depois de perder os sentidos, afirmou ter observado o próprio corpo inerte entre um móvel e a parede. O episódio deixa por esclarecer a distância entre a memória de quem o viveu e aquilo que a medicina consegue demonstrar.
8 min de leitura


A Crimeia Está às Escuras e Quase Ninguém na Rússia Sabe
Uma mulher risca um fósforo na escuridão, três vezes antes de pegar. A chama, pequena, ilumina só as mãos e a mesa da cozinha, não o resto da casa. Já sabe de cor onde fica a vela, sabe quantos passos há até à porta sem precisar de ver, e sabe também, com a mesma naturalidade prática, que esta noite vai ser outra vez assim.
8 min de leitura


A Varíola Não Nasceu Assassina
O avô ergueu a manga da camisa até ao ombro e mostrou a marca ao neto. Era um círculo pequeno, com a pele ligeiramente deprimida e mais clara à volta, como se uma moeda quente tivesse sido pressionada contra o braço décadas antes e a pele nunca tivesse esquecido a forma.
7 min de leitura


Wiriyamu e Gaza: o mesmo vocabulário, décadas depois
Uma bomba de novecentos quilos mata num raio de 365 metros; uma mais pequena, até vinte metros. Entre estes dois números cabe uma guerra completa em Gaza, decidida sempre em fracções pequenas de mais para exigir uma decisão sobre o todo. Meio século antes, em Wiriyamu, Portugal tinha o seu próprio vocabulário técnico para o mesmo problema.
6 min de leitura


Duas Visitas a um Homem Distante
Voltei hoje a São Vicente de Fora para o cumprimentar. Não sei bem que palavra usar para o que ali se faz. Não é bem oração. Também não é bem visita de cortesia.
3 min de leitura


Portugal Não É Um País Pequeno
Em 1934, um mapa de propaganda garantia que Portugal não era um país pequeno. Em 1960, um monumento continuou a dizer o mesmo, já sem grande coisa por trás. Um ensaio sobre as palavras que sobrevivem ao que um dia nomearam; e o que se faz com elas depois disso.
4 min de leitura


Robert D. Kaplan: o perigo de governar com 30% da informação
Robert D. Kaplan parte de uma ideia incómoda: os dirigentes decidem quando ainda lhes falta a maior parte da informação. Entre o medo, a memória histórica e os limites das instituições, o erro pode nascer de razões reconhecíveis — e continuar a ter consequências irreversíveis.
10 min de leitura


A instituição que queimou os seus próprios radicais
A 7 de maio de 1318, quatro frades foram queimados em Marselha por recusarem reconhecer que os seus superiores tinham autoridade para os dispensar da pobreza que o fundador da sua ordem lhes tinha deixado como regra de vida. A instituição que os condenou não estava a trair essa regra por acaso — estava a descobrir, da forma mais dura possível, que nenhuma organização pode durar séculos sustentando, como doutrina, que não deve possuir nada.
8 min de leitura


Portugal prometeu reparar 1497. A sinagoga pagou a fatura.
Em 2015, Portugal criou uma via de nacionalidade para reparar 1497. Abramovich usou-a primeiro. A sinagoga do Porto pagou a fatura.
9 min de leitura


Os portões de Karaj
Um poeta que nunca fugiu, um cemitério com os portões fechados a cada julho, e cinco livros americanos que se esqueceram de perguntar o que significa ficar. Uma reflexão a partir de Lisboa sobre quem o Ocidente escolhe ouvir — e quem decide não ouvir.
4 min de leitura


Ainda reconhecemos o carácter?
Numa sala de reuniões aparentemente banal, uma cadeira vazia desencadeia uma reflexão sobre uma palavra que permanece viva no discurso público, mas perdeu parte da sua força: carácter. Entre a política, a cultura e a vida quotidiana, este ensaio interroga a forma como a eficácia passou a valer mais do que a contenção, a visibilidade mais do que a reputação e porque continuamos a admirar certas virtudes mesmo quando já raramente as pedimos a quem exerce poder.
8 min de leitura


A história depois da autoridade
A internet e a inteligência artificial mudaram a forma como o passado circula. A história deixou de depender apenas de arquivos, universidades e livros, passando a disputar atenção com memes, vídeos, suspeitas e narrativas identitárias.
7 min de leitura


O Mundial e o medo antes da viagem
Num café de bairro, uma frase sobre o México basta para mostrar como uma narrativa pode viajar mais depressa do que os factos. Entre futebol, medo, turismo e redes digitais, o Mundial de 2026 revela que os grandes eventos também se disputam nas histórias que chegam antes das pessoas.
6 min de leitura


Leão XIV e a humanidade que delegámos à IA
A partir de Magnifica Humanitas, Alberto Carvalho observa a inteligência artificial como a máquina das nossas delegações: tarefas, linguagem, atenção, juízo e cuidado. Um ensaio sobre o que ainda recusaremos entregar a sistemas sem corpo, memória ou responsabilidade moral.
11 min de leitura


O que um aliado não diz
Num edifício em Kiryat Gat há dois andares que nunca se falam. Um para trabalhar juntos. Outro para guardar segredos. O edifício foi construído assim de propósito. Toda a gente sabe que existe o outro andar. Ninguém fala nisso.
5 min de leitura


Netanyahu e o Desmantelamento da Democracia Israelita
Na manhã de 26 de março, dois jactos descolaram de Telavive para os Emirados. Os registos de voo confirmavam a viagem. O governo israelita anunciou-a. Os Emirados desmentiram-na. O antigo porta-voz de Netanyahu descreveu-a com entusiasmo. As três versões coexistiam. É nesse espaço — entre o que se faz e o que se reconhece — que Netanyahu tem governado: na diplomacia secreta, na erosão judicial, numa guerra que serve para mais de um fim.
6 min de leitura


Lisboa e os Rapazes que Atravessam a Cidade
Os adolescentes em bicicletas elétricas irritam Lisboa porque interrompem mais do que o trânsito. Expõem uma cidade arrumada para ser vista, mas cada vez menos disponível para quem cresceu nela. Entre perigo, gesto e pertença, a velocidade torna-se uma linguagem urbana.
6 min de leitura


Musk, SpaceX e a zona cinzenta da IA
A SpaceX tornou-se o centro financeiro menos visível do ecossistema empresarial de Elon Musk. Entre empréstimos internos, ligações à Tesla, ao X e à xAI, emerge uma zona cinzenta onde ambição tecnológica, capital privado e poder empresarial se tornam difíceis de separar.
7 min de leitura


A base secreta no Iraque e a guerra contra o Irão
O relato sobre uma instalação clandestina israelita expõe a logística da guerra aérea contra o Irão e a fragilidade da soberania iraquiana.
7 min de leitura


Guerra do Irão: 32 milhões sem voz em Islamabade
O nitrato de amónia viaja por navio. Quando o Estreito fecha, a estação agrícola perde-se. O PNUD estima que até trinta e dois milhões de pessoas possam cair na pobreza. Nenhuma delas tem assento em Islamabade. Esse custo não tem linha nos acordos que forem assinados.
5 min de leitura
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