O que um aliado não diz
- Aurelian Draven

- 28 de mai.
- 5 min de leitura
Atualizado: 8 de jun.
Num edifício em Kiryat Gat, no sul de Israel, há dois andares que nunca se falam. No piso de baixo, militares e diplomatas americanos e israelenses trabalham lado a lado — coordenam cessar-fogos, gerem corredores humanitários, partilham mapas e horários e nomes de contacto. No piso de cima, cada delegação tem o seu próprio espaço fechado, onde os assuntos verdadeiramente sensíveis são tratados longe dos aliados que estão a dois lances de escada. O edifício foi construído assim de propósito. Toda a gente sabe que existe o outro andar. Ninguém fala nisso.
Não o aperto de mão nas câmaras, nem o comunicado conjunto, nem a retórica de "parceiros indispensáveis" que os porta-vozes repetem até esvaziarem as palavras de qualquer sentido. Aquele edifício partido ao meio é o retrato mais honesto de uma aliança que existe. Quando os Estados se odeiam, ao menos são diretos.
A notícia que percorreu Washington na primeira semana de junho de 2026 foi apresentada como um escândalo: a Agência de Informações de Defesa americana elevara o nível de ameaça de contraespionagem israelense ao patamar máximo, "crítico", acima do de qualquer outro aliado e acima do de alguns adversários declarados. Havia relatórios de que o Shin Bet tentara instalar um dispositivo de escuta num veículo do Serviço Secreto. De que oficiais israelenses foram apanhados a colocar equipamento de vigilância na própria sede da agência. De que Steve Witkoff, o negociador de Trump para o acordo com o Irão, estava a ser escutado pelos serviços do país com quem os Estados Unidos estão a combater lado a lado numa guerra.
Toda a gente sabia que isto acontecia. O que não se esperava era que viesse a público com este grau de detalhe.
A arquitetura do segredo partilhado
Existe uma categoria de segredo que não é bem um segredo. Toda a gente o conhece, ninguém o enuncia, e a sua não-enunciação é parte da arquitetura do sistema. Os Estados Unidos espiam os seus aliados. Os aliados espiam os Estados Unidos. Isto é sabido, tolerado, e ocasionalmente confirmado quando algum documento vaza ou alguma operação corre mal — e depois volta a ser não-dito, porque a alternativa seria ter de fazer algo a respeito.
Em 2013, os documentos de Snowden revelaram que a NSA interceptara as comunicações de Angela Merkel durante anos. Houve indignação pública, reuniões diplomáticas, declarações severas. A aliança retomou o seu curso porque a alternativa era impensável para qualquer dos lados. O que ficou não foi uma mudança de comportamento. Foi a confirmação tácita de que a ficção da confiança mútua é demasiado útil para ser abandonada por algo tão inconveniente como a verdade.
Israel não descobriu nada que os outros não façam. Descobriu que estava a fazê-lo de forma demasiado visível, num momento demasiado delicado.
O que Israel precisava de saber
O que Israel queria saber era simples: até onde está Trump disposto a ir nas negociações com o Irão? Existe um ponto em que Washington aceita um acordo que deixe o regime teocrático intacto? Quando Witkoff diz uma coisa em público e outra em privado — qual é a real?
Estas perguntas não têm resposta nas declarações oficiais. Têm resposta nas conversas que os negociadores têm nos seus telemóveis pessoais, nos aviões privados, nos quartos de hotel em capitais estrangeiras — os lugares onde os altos funcionários da administração Trump tendiam a tratar de assuntos de segurança nacional. A vulnerabilidade não era técnica. Era comportamental. Era a consequência de pessoas que se sentem suficientemente poderosas para dispensar os protocolos que existem para proteger pessoas exatamente como elas. A mesma arrogância que os tornava alvos fáceis levava-os a acreditar que a aliança com Israel dispensava vigilância.
Dois objetivos, uma palavra
Netanyahu e Trump partilhavam um objetivo declarado: degradar as capacidades militares do Irão. Mas a palavra "degradar" contém um universo de ambiguidade. Para Trump, significava criar condições para negociar — forçar Teerão à mesa, extrair concessões, assinar qualquer coisa que pudesse ser vendida como vitória. Para Netanyahu, significava a eliminação da capacidade iraniana de ameaçar Israel, o enfraquecimento ou derrube do regime, a destruição de um inimigo existencial que nenhum papel assinado em Washington tornaria inofensivo.
O que Israel queria interceptar não era segredo de Estado no sentido clássico. Era a margem de negociação real — o espaço entre o que Trump dizia que aceitaria e o que realmente aceitaria se fosse pressionado. Qualquer negociador experiente chama a isto informação essencial. Só se chama espionagem quando é o aliado a fazê-lo.
O que ficou de 2021
Em 2021, oficiais da informação militar israelense foram apanhados a instalar dispositivos de escuta na sede da própria agência americana. Não numa embaixada. Não num hotel. Na sede da agência.
A cooperação militar entre os dois países atingiu níveis históricos nos anos seguintes. Houve, presumivelmente, uma conversa. Houve, provavelmente, alguma forma de protesto formal. E depois a aliança continuou, porque as alternativas eram piores para ambos os lados. Israel sabia que podia ir até ali.
O andar privado
As alianças duram não porque os aliados confiam uns nos outros, mas porque cada um calcula que a alternativa é pior. A confiança é a história que se conta sobre esse cálculo.
Um aliado é alguém com quem os interesses se sobrepõem suficientemente para tornarem vantajosa a cooperação — não alguém cujas prioridades são as tuas. Quando esse cálculo muda, quando os objetivos divergem e as margens de negociação se estreitam, a espionagem é a forma de continuar a trabalhar com dados reais em vez de declarações públicas.
A performance pública de indignação que todos os lados encenam quando uma operação vem à tona não tem memória: em dois anos a cooperação volta ao nível anterior, e o incidente foi absorvido pela burocracia da aliança como mais um dado a gerir.
O edifício de Kiryat Gat não é uma metáfora. É literalmente o que foi construído: um lugar onde a aliança acontece e onde os segredos são guardados, no mesmo prédio, a dois lances de escada. Alguém tomou essa decisão arquitetónica, e ambos os lados aceitaram-na sem contestação, porque ambos sabem que precisam do andar privado tanto quanto precisam do andar partilhado. O que os dispositivos de escuta israelenses tentavam era aceder ao andar que não era o seu. A diferença para o edifício é de método.
Uma aliança baseada em transparência total — em que cada lado partilha as suas posições reais, as suas linhas vermelhas reais, as suas margens de cedência reais — nunca existiu na história das relações entre os Estados. O andar privado não é uma falha do sistema. É o sistema.
Aurelian Draven




Comentários