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Quando a Igreja volta a fechar a porta à Maçonaria

Bruno Battisti D’Amario tinha 88 anos quando morreu, a 5 de agosto de 2026. A família preparou o funeral na Basílica de Santa Maria in Montesanto, na Piazza del Popolo, em Roma. A igreja é conhecida como a Igreja dos Artistas, uma escolha que fazia sentido para um guitarrista e professor que trabalhara durante anos com Ennio Morricone. A celebração, porém, não se realizou como estava prevista.


Quando uma fronteira volta a ser visível


Entrada de igreja com grande portal de pedra e porta vermelha fechada.
A incompatibilidade entre a Igreja Católica e a Maçonaria mantém-se há décadas, mas decisões recentes voltaram a tornar visíveis as suas consequências práticas. Fotografia: Stephanie Klepacki.

O Grande Oriente d’Italia anunciou a morte de D’Amario e tornou pública uma parte da sua biografia que a família, segundo foi posteriormente relatado, não comunicara quando pediu as exéquias. D’Amario tinha ocupado cargos relevantes na Maçonaria italiana. Fora conselheiro da Ordem, presidira por duas vezes à estrutura dos veneráveis mestres do Lácio, fundara a loja romana Giuseppe Leti e compusera o hino oficial do Grande Oriente. Numa publicação maçónica de 2010, era apresentado como um mestre da coluna de harmonia e com uma vida maçónica.


Conhecida essa filiação, o caso chegou ao cardeal Baldassare Reina, vigário-geral para a Diocese de Roma. A missa de exéquias foi recusada.


Pouco depois, ocorreu outro caso, desta vez na Diocese de Ventimiglia-Sanremo. Mario Tarducci, ligado à loja Mimosa de Bordighera, também não recebeu as exéquias católicas previstas. A sua presença na Maçonaria não era recente: documentos do Grande Oriente d’Italia registavam-no como venerável mestre da Mimosa em 2005 e, anos depois, entre os representantes da loja numa iniciativa de apoio a pessoas com deficiência.


A doutrina usada para sustentar as decisões deste género existia muito antes dos dois funerais. O que aconteceu em Itália coincidiu, contudo, com outra decisão recente da Igreja: poucas semanas antes, uma conferência episcopal europeia tinha enviado aos seus padres instruções concretas sobre católicos maçons.


A Conferência Episcopal Nórdica publicou-as em 29 de junho de 2026. O documento resultara de uma questão levada a Roma no ano anterior.


Entre 1 e 5 de setembro de 2025, já durante o pontificado de Leão XIV, os bispos reuniram-se com os superiores e responsáveis do Dicastério para a Doutrina da Fé. Queriam saber se as formas de Maçonaria praticadas nos países nórdicos, designadamente as associadas ao chamado rito sueco, poderiam justificar uma exceção à posição geral da Igreja. Na carta enviada aos párocos no ano seguinte, escreveram que a resposta tinha sido negativa.


A partir daí, estabeleceram o que deveria acontecer nos casos concretos. Um católico ligado à Maçonaria deve ser encorajado a abandoná-la. Enquanto conservar essa filiação, deve abster-se da comunhão e fica impedido de receber os outros sacramentos. Quem pretenda ser batizado na Igreja Católica, ou nela entrar em plena comunhão, sendo já cristão batizado, terá primeiro de deixar a Maçonaria. As instituições católicas não devem celebrar acordos de colaboração com maçons ou lojas maçónicas nem utilizar imóveis pertencentes a essas organizações.


Quando o novo Código de Direito Canónico entrou em vigor, em 1983, deixou de mencionar expressamente as associações maçónicas, ao contrário do código de 1917. A alteração suscitou dúvidas. A então Congregação para a Doutrina da Fé publicou, em novembro desse ano, uma declaração segundo a qual o juízo negativo da Igreja permanecia inalterado.


Em novembro de 2023, o Dicastério voltou ao assunto na sequência de uma consulta proveniente das Filipinas. Francisco era ainda Papa. A incompatibilidade foi reafirmada.


Em 2025, os bispos nórdicos perguntaram outra coisa: se a situação local permitia uma exceção. A carta de 2026 regista que não permitia.


Não há, até agora, elementos suficientes para atribuir a Leão XIV uma campanha pessoal contra a Maçonaria. A declaração de 1983 antecede-o em mais de quatro décadas e o esclarecimento de 2023 pertence ao pontificado de Francisco. A consulta nórdica, porém, ocorreu já sob Leão XIV e teve consequências pastorais publicadas menos de um ano depois.


Um católico dos países nórdicos que mantenha a filiação maçónica dispõe agora de instruções episcopais expressas sobre as consequências sacramentais. As instituições católicas receberam igualmente regras sobre acordos e utilização de propriedades. Em Itália, duas famílias que tinham preparado funerais católicos viram as celebrações impedidas depois de conhecida a pertença maçónica dos falecidos.


A exceção que os bispos quiseram esclarecer


A dúvida nórdica tinha antecedentes próprios. A Maçonaria não se desenvolveu de forma idêntica em toda a Europa, e algumas tradições escandinavas possuem características religiosas que levaram católicos e maçons a questionar se os fundamentos da antiga condenação se lhes aplicariam nos mesmos termos.


Os bispos levaram essa questão ao Dicastério.


A carta de junho de 2026 não se ficou pela resposta recebida. Diz aos párocos o que fazer quando um fiel maçon se aproxima dos sacramentos, quando alguém pretende entrar na Igreja ou quando uma instituição católica pondera colaborar com uma organização maçónica.


Entre 1974 e 1980, representantes católicos e maçons na Alemanha tinham participado num processo de diálogo que incluiu o exame de posições e rituais maçónicos. Os bispos alemães concluíram, no final, que as divergências impediam a pertença simultânea às duas instituições. A carta nórdica recupera esse trabalho ao apresentar os fundamentos da posição que manda aplicar.


Em maio de 2025, poucos dias depois da eleição de Leão XIV, o Grande Oriente d’Italia publicou uma saudação ao novo Papa. Apresentou os maçons como construtores de pontes de paz e manifestou a esperança de que também houvesse espaço para eles entre as pontes de diálogo evocadas no início do pontificado.


Em agosto do ano seguinte, a pertença maçónica de D’Amario e Tarducci pesou diretamente nas decisões tomadas sobre os respetivos funerais.


O que significa recusar um funeral


Para a Igreja Católica, um funeral religioso tem conteúdo próprio e está sujeito às suas regras. Não corresponde apenas à disponibilização de uma igreja, de um sacerdote e de uma cerimónia pedida pela família.


Os familiares vivem o mesmo momento de outra maneira. Depois da morte, decisões práticas misturam-se com hábitos religiosos e memória familiar. Se uma celebração já preparada deixa de poder realizar-se por causa de uma pertença mantida pelo falecido, a consequência chega a pessoas que não tomaram essa decisão.


Nos casos italianos, a documentação disponível não apontava para contactos ocasionais com a Maçonaria. D’Amario e Tarducci tinham exercido funções identificáveis em estruturas maçónicas.


Uma diocese que tivesse perante si uma suspeita, uma filiação remota ou informação não confirmada enfrentaria uma situação diferente.


Também não decorre destes dois episódios que qualquer católico com passado maçónico receba necessariamente o mesmo tratamento. As exéquias envolvem disciplina canónica e apreciação do caso concreto. Aqui sabemos apenas o que aconteceu nestas duas dioceses.


Nos países nórdicos, a carta atua antes de surgir qualquer funeral ou outro caso público. Enquanto permanecer maçon, o fiel deve abster-se da comunhão e dos restantes sacramentos. Se quiser entrar na Igreja, terá de abandonar previamente a organização. Há igualmente instruções para as relações entre instituições.


Um pároco pode encontrar estas disposições quando alguém lhe pede um sacramento ou quando uma colaboração local envolve uma loja.


Duas pertenças na mesma biografia


Uma pessoa pode considerar-se simultaneamente católica e maçónica durante décadas. Pode participar em ritos religiosos, manter hábitos familiares católicos e exercer funções numa loja.


A Igreja considera essas pertenças incompatíveis, ainda que a própria biografia do fiel as tenha mantido lado a lado.


As orientações nórdicas obrigam a resolver essa situação. Quem quiser regressar ao acesso normal aos sacramentos terá de abandonar a Maçonaria.


A posição decorre da maneira como a Igreja entende a pertença religiosa e os compromissos que considera inconciliáveis com ela.


A Maçonaria europeia desenvolveu outra relação com a diversidade confessional, embora as várias obediências e ritos não sejam idênticos. Essa variedade foi uma das razões para os bispos nórdicos perguntarem se a disciplina geral admitia uma solução diferente no seu território.


Roma não reconheceu essa exceção.


Para os fiéis abrangidos, a consequência é bastante concreta: manter a filiação maçónica impede o acesso normal aos sacramentos.


Uma disputa antiga numa Europa diferente


A relação entre a Igreja Católica e a Maçonaria formou-se num contexto marcado pela secularização, pelo anticlericalismo, pelas disputas políticas e pelos conflitos sobre o lugar público da Igreja.


Muito desse passado já não ocupa a vida quotidiana da maioria dos europeus.


A Maçonaria perdeu parte do peso político e simbólico que teve no século XIX e em partes do século XX. A Igreja, por sua vez, atua hoje em sociedades mais secularizadas, onde muitos cidadãos desconhecem as regras internas que regem a pertença católica.


Uma declaração de 1983 pode permanecer válida durante décadas sem entrar na experiência de grande parte dos fiéis. Quando um bispo tem de decidir sobre um sacramento ou um funeral, a mesma regra deixa de estar apenas num arquivo doutrinal.


Os casos de 2026 não demonstram uma aplicação mais frequente em toda a Igreja. Para saber isso, seria necessário conhecer as decisões tomadas ao longo do tempo em dioceses diferentes, muitas das quais nunca chegam ao espaço público.


Em setembro de 2025, os bispos nórdicos procuraram uma resposta em Roma. Em junho de 2026, publicaram instruções. Em agosto, duas dioceses italianas recusaram exéquias católicas a homens com funções conhecidas na Maçonaria.


Há ainda outro fator. Hoje, uma decisão tomada numa paróquia ou diocese pode circular internacionalmente em poucas horas. As próprias organizações maçónicas mantêm arquivos, comunicados e publicações acessíveis ao público. Situações que antes poderiam permanecer locais passam depressa para uma discussão europeia.


Com os elementos disponíveis, não é possível medir se estamos perante mais decisões deste género ou apenas perante decisões que se tornaram mais visíveis.


O novo pontificado


A consulta nórdica ocorreu quatro meses depois da eleição de Leão XIV. As orientações foram publicadas durante o primeiro ano do pontificado.


A doutrina aplicada pelo Dicastério não nasceu então. Tinha sido reafirmada durante Francisco e assenta numa declaração de 1983. Também não foi identificado, até agora, um documento de Leão XIV que determine uma campanha específica contra a Maçonaria.


Os bispos nórdicos, contudo, fizeram a consulta já no novo pontificado e não obtiveram a exceção que procuravam.


A partir dessa resposta, publicaram regras pastorais aplicáveis nos seus territórios. Poucas semanas depois, os dois funerais italianos mostraram outra consequência possível da incompatibilidade.


Ainda não há base documental suficiente para saber se estes acontecimentos fazem parte de uma mudança mais ampla na prática pastoral.


Francisco era Papa quando o Dicastério reafirmou a posição em 2023. Leão XIV era Papa quando a consulta nórdica recebeu resposta e quando os bispos publicaram as instruções de 2026.


Se vierem a surgir outros casos, será possível perceber melhor se a prática está a mudar ou se estes acontecimentos permanecerão episódios dispersos.


O espaço que desapareceu


A Igreja afirma que a dignidade é inerente a cada ser humano e não depende da sua condição social, cultural, política ou religiosa. É um princípio que não contém exceções para os maçons.


A incompatibilidade entre a fé católica e a Maçonaria pertence à doutrina da Igreja; a dignidade da pessoa, segundo a própria Igreja, permanece intacta. É entre estas duas afirmações que os acontecimentos de 2026 deixam a questão por resolver.


Ilustração: Stephanie Klepacki / IA



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