top of page

Liberdade sem vínculo é só isolamento

21 de set.
3 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Nos jornais submetidos à censura do Estado Novo ficava o carimbo. A página chegava ao leitor depois de ter passado por outras mãos, encarregadas de decidir o que podia permanecer nela. Quem escrevia conhecia essa presença antes de começar. Fora das redações, também se aprendia a medir as palavras e as companhias. Uma conversa de café, se reunisse pessoas suficientes ou despertasse a atenção errada, podia adquirir um significado político que nenhum dos presentes lhe dera.


Meio século depois de 1974, a história portuguesa da liberdade tem uma lição sobre vínculo que a época atual, obcecada por manter tudo em aberto, arrisca esquecer.


A vigilância atingia a possibilidade de associação. Estar com outros, organizar uma reunião ou criar um grupo implicava avaliar quem observava, quem poderia denunciar e que interpretação seria feita. Esse cálculo entrou nos hábitos de uma geração.


capa retrato/vertical, sem rosto, discreta — nó marítimo em corda envelhecida, fotografado de perto, sem qualquer figura humana; textura granulada, fundo escuro
Meio século depois de 1974, a história portuguesa da liberdade tem uma lição sobre vínculo que a época atual, obcecada por manter tudo em aberto, arrisca esquecer.

Depois de abril de 1974, as ruas, as sedes dos partidos, os sindicatos e as comissões de moradores encheram-se. Havia filas à porta de organizações recém-legalizadas e reuniões em lugares onde, pouco antes, a simples presença de certas pessoas bastaria para levantar suspeitas. Muitos portugueses experimentaram a liberdade através dessas ligações públicas, assumidas diante dos outros.


Hoje, a palavra adquiriu também outro sentido. Ser livre pode significar conservar opções, evitar compromissos duradouros e não ficar preso a uma pessoa, a um lugar ou a uma causa. Esta conceção tem uma história. Depende de condições materiais e sociais que permitem imaginar a autonomia individual sem a proteção de uma comunidade estável.


O Estado Novo também exaltava os vínculos. Deus, Pátria e Família eram apresentados como fundamentos da ordem política e moral. Não se perguntava a cada pessoa se queria pertencer, nem em que termos. A liberdade de associação recuperada com a revolução alterou precisamente isso: tornou possível decidir com quem criar uma organização, defender um interesse comum ou partilhar uma causa. O vínculo deixou de depender apenas da autoridade que o definia.


Manifestante nas comemorações do 25 de Abril de 2018 na Avenida da Liberdade, em Lisboa.
Comemoração do 25 de Abril em Lisboa, 2018. Fotografia: Pedro Ribeiro Simões / Wikimedia Commons. Licença CC BY 2.0. Imagem sem alterações.

Fernando Pessoa atribuiu a cada heterónimo uma biografia, uma métrica, uma filosofia e, em alguns casos, datas de nascimento e de morte. Alberto Caeiro permaneceu dentro de uma visão do mundo reconhecível. Ricardo Reis conservou uma disciplina formal própria. Álvaro de Campos mudou de tom e de intensidade sem perder a voz que o distinguia.


A pluralidade pessoana exigiu limites muito precisos. Cada nova identidade precisava de consistência suficiente para escrever sem se confundir com as restantes. As possibilidades multiplicaram-se dentro de formas às quais Pessoa permaneceu ligado durante anos.


Os portugueses que emigraram procuravam escapar à fome, à guerra colonial, à vigilância ou a um destino decidido por outros. Em Paris, no Luxemburgo, na Venezuela ou em Newark, muitos reconstruíram depressa redes semelhantes às que tinham deixado. Fundaram casas regionais, frequentaram paróquias, organizaram ranchos folclóricos e fizeram dos cafés lugares de encontro regular. Homens que talvez nunca tivessem criado uma associação na aldeia de origem passaram décadas a jogar à sueca, à mesma mesa, todas as sextas-feiras.


Essas organizações ajudavam a encontrar trabalho, casa e companhia. Também permitiam falar português, celebrar festas conhecidas e educar os filhos entre duas pertenças. Partir abria possibilidades, mas a vida no destino precisava de relações que lhe dessem alguma continuidade.


Meio século depois da revolução, o compromisso é muitas vezes apresentado como um risco. A mobilidade tornou-se uma condição da ambição para muitos jovens: sair de Lisboa, sair de Portugal, aceitar um contrato provisório, mudar de casa e manter disponível a hipótese da próxima partida. Em numerosos casos, trata-se de uma liberdade real, conquistada com esforço, ou da única resposta possível à precariedade.


Fernando Pessoa de chapéu e óculos, numa fotografia antiga a preto e branco.
Fernando Pessoa, por volta de 1914. Autor desconhecido / Wikimedia Commons. Identificada como imagem de domínio público.

Outras experiências ficam mais difíceis de distinguir. Uma pessoa pode adiar todos os vínculos porque assim o escolheu ou porque nunca encontrou condições para os formar. Pode conservar as portas abertas e descobrir, mais tarde, que nenhuma delas conduz a um lugar onde seja esperada. A diferença nem sempre é visível enquanto as mudanças ainda parecem provisórias.


Os carimbos desapareceram das páginas dos jornais com o fim da censura prévia. Ficaram as fotografias das ruas portuguesas em 1974 e 1975, ocupadas por pessoas que se reuniam sem esconder o nome, o partido, o sindicato ou a comissão a que pertenciam. Muitas tinham recuperado, havia pouco, a possibilidade de estar ali.



Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page