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Correia da Serra Deixa a América
O baú já está fechado desde as sete da manhã, mas Correia voltou a abri-lo duas vezes — uma para tirar um lenço que afinal não precisava, outra sem razão nenhuma, só para ver se ainda cabia tudo. Fecha-o pela terceira vez. A fivela da esquerda não prende bem; nunca prendeu.
Jefferson vem ao encontro dele no caminho de cascalho, sem chapéu, como se tivesse saído a meio de qualquer coisa. Não fala logo. Olha para o baú amarrado ao carro, depois para Correia, e diz que o tempo e
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D. João VI: Um Rei Sozinho à Janela
A gordura escorria-lhe entre os dedos e ele lambia-a devagar, um dedo de cada vez, como quem repete um gesto que já não precisa de pensar. A coxa de galinha, roída até ao osso, estava pousada ao lado do prato.
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Pessoa, a IA e o problema de saber quem escreve
Fernando Pessoa criou vozes capazes de sustentar uma identidade inteira. Um século depois, sistemas de inteligência artificial escrevem romances em minutos — mas ainda tropeçam onde Pessoa parecia não tropeçar: na continuidade de uma voz.
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Portugal prometeu reparar 1497. A sinagoga pagou a fatura.
Em 2015, Portugal criou uma via de nacionalidade para reparar 1497. Abramovich usou-a primeiro. A sinagoga do Porto pagou a fatura.
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Os portões de Karaj
Um poeta que nunca fugiu, um cemitério com os portões fechados a cada julho, e cinco livros americanos que se esqueceram de perguntar o que significa ficar. Uma reflexão a partir de Lisboa sobre quem o Ocidente escolhe ouvir — e quem decide não ouvir.
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Portugal no vocabulário pessoal de Trump
Donald Trump disse que “adora Portugal” num vídeo divulgado pela embaixada norte-americana em Lisboa. Mas a mensagem revela mais do que simpatia: mostra uma diplomacia narrada através de escolhas pessoais, lealdades, estatuto e proximidade ao presidente americano.
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A China fecha os seus departamentos de línguas. É geopolítica.
Em maio de 2026, setenta universidades chinesas anunciaram cortes em línguas estrangeiras. Oito licenciaturas em japonês, cinco em alemão, cinco em tradução. O Ministério da Educação Chinês aprovava em simultâneo robótica, semicondutores e inteligência incorporada. A linguagem oficial falava em eficiência. A palavra que ficou por dizer foi poder.
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Ainda reconhecemos o carácter?
Numa sala de reuniões aparentemente banal, uma cadeira vazia desencadeia uma reflexão sobre uma palavra que permanece viva no discurso público, mas perdeu parte da sua força: carácter. Entre a política, a cultura e a vida quotidiana, este ensaio interroga a forma como a eficácia passou a valer mais do que a contenção, a visibilidade mais do que a reputação e porque continuamos a admirar certas virtudes mesmo quando já raramente as pedimos a quem exerce poder.
8 min de leitura


O mercado político do ódio útil
A política portuguesa aprendeu a transformar frustração material em identidade negativa. Entre o Chega, a polarização afetiva e a suspeita sobre os pobres, o ódio tornou-se um recurso útil: barato, mobilizador e administrável.
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Quando o boato se torna poder
Do café da esquina aos grupos de mensagens, o boato mudou de velocidade. Esta crónica observa como a inteligência narrativa pode ajudar a distinguir uma preocupação legítima de uma operação organizada para gerar medo, suspeita e dano.
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Maria do Rio e as pequenas coisas que governam Portugal
Maria do Rio parte de um café antigo, de uma torrada na chapa e de uma mulher que faz contas no autocarro para observar o país que raramente cabe nos discursos oficiais. Entre mercearias, escolas, vizinhos e gestos mínimos, a crónica mostra como Portugal continua a ser sustentado por decisões pequenas, invisíveis e profundamente humanas.
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Maria do Rio e a banca de flores que ainda sabe ouvir a praça
Maria do Rio entra na praça para comprar maçãs e acaba diante da banca da Amélia, onde flores, conversas e pequenos gestos revelam um país que ainda resiste na vida comum. Entre uma criança que leva cravos a uma professora triste e uma mulher que compra flores para pedir desculpa, a crónica mostra como uma praça pode guardar aquilo que a cidade apressada vai esquecendo.
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Portugal no raio-X: patriotismo, memória e a bandeira no tabuleiro
Uma pequena bandeira portuguesa, pousada no tabuleiro de segurança do Aeroporto Humberto Delgado, serve de entrada para um ensaio sobre patriotismo, memória histórica, império, guerra colonial, Abril, emigração e a tentação de transformar a pátria em instrumento de exclusão.
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Lisboa e os Rapazes que Atravessam a Cidade
Os adolescentes em bicicletas elétricas irritam Lisboa porque interrompem mais do que o trânsito. Expõem uma cidade arrumada para ser vista, mas cada vez menos disponível para quem cresceu nela. Entre perigo, gesto e pertença, a velocidade torna-se uma linguagem urbana.
6 min de leitura


O país que não recebia armas tornou-se fornecedor dos que as tinham
A mesma guerra que reduziu o armamento à Ucrânia criou-lhe um mercado que não depende dos Estados Unidos para existir. O país que não recebia Patriot suficientes tornou-se fornecedor dos países que os tinham. O drone é o produto. A relação com o Golfo é o investimento.
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O que significa celebrar o 25 de Abril hoje?
A liberdade não desaparece sempre por rutura. Pode tornar-se cenário.
O 25 de Abril mostra hoje uma democracia ainda formalmente sólida, mas menos segura do seu sentido comum.
7 min de leitura


Amar os livros não é o mesmo que ler. Os filhos sabem.
Existe uma distinção que os estudos sobre hábitos de leitura raramente formulam com clareza: a diferença entre amar os livros e ler. As duas coisas não são a mesma. O que se transmite, na maioria dos casos, não é o hábito de ler. É a posição social da leitura. A ideia de que livros são importantes. A retórica da sua necessidade. Isso é muito diferente de transmitir o prazer concreto, físico, quase viciante, de acabar um capítulo às duas da manhã porque não se consegue largar
7 min de leitura


Violência paterna: o que fica depois do medo
A mão do pai é maior do que o rosto do filho. Isso é um facto anatómico e é também a primeira coisa que o filho aprende sobre a diferença de tamanho entre os corpos — que essa diferença pode doer. O que a violência parental ensina não é uma lição sobre o bem e o mal. É uma lição sobre quem pode o quê — e sobre quem não pode ir a lado nenhum quando descobre.
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Violência doméstica em idosos: os 4.049 que o RASI não analisa
Em 2025, 4.049 pessoas com mais de 64 anos apresentaram queixa por violência doméstica em Portugal. O agressor é frequentemente um filho, um neto, um cuidador. A casa que devia ser abrigo na última fase da vida tornou-se o sítio do perigo — e o sistema de resposta não foi desenhado para esta porta de entrada.
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Violência doméstica em Portugal: 61% dos inquéritos arquivados em 2025
Em 2025, 23.836 inquéritos por violência doméstica foram arquivados em Portugal — 61% do total. No mesmo ano, os homicídios em contexto de violência doméstica subiram de 23 para 27 vítimas. A ligeira diminuição que o Estado apresenta como progresso pode ser apenas menos fé no sistema.
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