Lisboa e os Rapazes que Atravessam a Cidade
- Zé das Verdades Meias

- 18 de mai.
- 6 min de leitura
Os primeiros grupos aparecem quando a luz começa a sair das fachadas e ainda não é noite. Duas bicicletas eléctricas junto ao rio, uma trotineta na retaguarda, um telemóvel levantado para filmar a manobra. No Cais do Sodré, em Belém, na Almirante Reis ou no Martim Moniz, a cena repete-se com pequenas diferenças: um rapaz levanta a roda da frente, outro passa demasiado perto de uma esplanada, alguém grita, um carro trava, os turistas param antes de perceberem se aquilo é perigo, espetáculo ou apenas a cidade.
A cidade que já não lhes pertence.
Lisboa aprendeu depressa a irritar-se com estes grupos. Há velocidade a mais em sítios onde devia haver cuidado. Há exibicionismo. Há quedas, sustos, atropelamentos possíveis, uma irresponsabilidade que não desaparece só porque acontece sobre duas rodas. Um passeio não é uma pista. Uma passadeira não é um palco. Quem atravessa uma praça a rasar pessoas não está a defender a vida urbana; está, muitas vezes, a pôr outros em risco.

Mas a irritação parece maior do que o perigo de cada caso isolado. Há ali qualquer coisa que incomoda de outro modo. Talvez porque estes rapazes não cabem na Lisboa que a cidade passou anos a compor para si própria.
Lisboa foi sendo arrumada para ser vista. As ruas foram limpas, iluminadas, promovidas, convertidas em percursos de consumo e memória pronta. As fachadas ganharam importância cénica. Há zonas onde tudo parece preparado para fotografias tiradas por quem ficará quarenta e oito horas antes de partir com a impressão de ter tocado uma autenticidade já embalada quando chegou. A cidade sempre viveu de circulação, chegada, partida e mistura. Outra coisa é passar a comportar-se como produto sensível à avaliação permanente de quem a atravessa sem se comprometer com ela.
Nessa cidade, a espontaneidade torna-se incómoda. O improviso começa a parecer uma falha. O corpo que não se adapta ao percurso previsto passa a ser tratado como um problema de gestão.
Os cafés antigos desaparecem porque ocupam espaço pouco rentável. As mercearias tornam-se lojas neutras onde se vende uma ideia portátil de autenticidade portuguesa. Os bairros populares sobrevivem cada vez mais como a memória estética, não como um organismo social. Há ruas onde Lisboa parece ter sido traduzida para uma língua que todos compreendem e quase ninguém fala de nascença.
Os adolescentes em bicicletas eléctricas não interrompem apenas o trânsito. Interrompem essa composição.
Não se deslocam como turistas disciplinados, trabalhadores cansados ou moradores discretos que aprenderam a ocupar pouco espaço. Movem-se de forma excessiva, ruidosa, às vezes quase absurda. Fazem wheelies junto a eléctricos cheios, atravessam túneis em grupo, descem ruas estreitas filmando tudo para redes onde os vídeos desaparecem depressa. A cidade dura menos ali do que o gesto. Serve para provar passagem, velocidade, presença.
Há uma imagem que vale mais do que a explicação toda: o rapaz de pé nos pedais, corpo ligeiramente inclinado para trás, uma mão no guiador, a outra a equilibrar o telemóvel de quem o filma ao lado. Atrás dele, a montra de uma loja demasiado branca reflete o movimento como se a cidade estivesse a ver aquilo sem querer. A roda da frente fica suspensa uns segundos. Não há discurso. Há equilíbrio, ameaça, vaidade, pertença. O corpo sabe coisas antes da política.
Durante anos, as cidades europeias foram ensinadas a justificar cada metro de espaço através da sua função: circulação, segurança, produtividade, valorização imobiliária, eficiência turística, mobilidade sustentável, redução do ruído, experiência do visitante. O banco público deve permitir permanência, mas não demasiada. A praça deve ser viva, mas não descontrolada. A rua deve acolher diferença, desde que a diferença não atrapalhe a fotografia.
A juventude real raramente cabe nisso.
Lisboa gosta mais facilmente dos jovens quando eles vêm convertidos em imagem abstrata: estudantes Erasmus, festivais de Verão, campanhas municipais com skates, murais coloridos, laboratórios criativos. A juventude barulhenta, impaciente, mal vestida, contraditória, às vezes malcriada, quase sempre excessiva, continua a gerar desconforto. A cidade aceita-a melhor quando já chega transformada em evento, marca, público-alvo ou estatística.
Houve uma Lisboa que tolerava pequenas desordens quotidianas. Não era uma cidade melhor por definição, nem mais justa, nem mais pura. Era apenas menos vigiada pela própria imagem. Uma cadeira podia ficar tempo demais no passeio. Um rádio podia atravessar uma janela aberta. Uma conversa podia demorar na porta do café sem se transformar em “ocupação indevida do espaço”. Havia irritação, queixas, conflitos. Mas havia também a margem para comportamentos que não precisavam de justificação moral, estética ou económica.
Essa margem encolheu.
A cidade estava degradada, perdeu população durante anos, precisava de recuperação, investimento, segurança, transporte, cuidado. Não vale a pena fingir saudade de fachadas degradadas, casas vazias, comércio abandonado e ruas que a própria Lisboa parecia ter desistido de habitar. A regeneração trouxe vida, dinheiro, reparação, fachadas recuperadas, ruas menos abandonadas. Trouxe também uma disciplina escondida: menos abandono, menos improviso, menos excesso. A certa altura, certas zonas começaram a pertencer mais à versão oficial da cidade do que aos próprios habitantes.
Ainda há quem use Lisboa sem grande reverência, mas não do mesmo modo. O turista muito jovem ainda se perde antes de aprender a consumir património. O estafeta conhece a cidade pelas subidas, pelos buracos e pelo tempo morto à porta dos restaurantes. O imigrante recém-chegado não vê nostalgia nem postal; vê uma morada, trabalho, sobrevivência. Os adolescentes em bicicletas eléctricas pertencem a essa mesma família imperfeita: atravessam Lisboa como chão, não como cenário.
Talvez seja por isso que certos vídeos gravados no centro provoquem reações tão violentas. Não mostram apenas comportamentos irritantes. Mostram pessoas indiferentes à cidade cuidadosamente arrumada para ser vista. Gente que não parece grata por passar diante de fachadas recuperadas. Gente que não baixa a velocidade para respeitar a luz. Gente que usa a rua sem pedir licença ao retrato que Lisboa prefere dar de si.
Lisboa vende calma, luz, segurança emocional, autenticidade de postal. Parte disso é verdadeiro. A cidade tem ainda uma doçura física que muitas capitais perderam: uma luz que abranda as coisas, uma escala que resiste à brutalidade vertical, uma melancolia de pedra quente, um modo de deixar o rio ao fundo como se fosse uma explicação. Mas a mesma cidade tenta reduzir a fricção visível. O conflito tornou-se mau para o negócio. O excesso, desconfortável para o investimento. O barulho passou a parecer falha de administração.
A cidade que durante séculos viveu de chegada, mistura e pobreza quer agora parecer fácil.
Entretanto, uma geração inteira cresce dentro de rendas impossíveis, empregos frágeis, transportes cheios, bairros deslocados e promessas cada vez menos convincentes. Muitos destes adolescentes dificilmente viverão, em adultos, nos lugares onde aprenderam a circular. Talvez não tenham ainda linguagem para isso. Talvez nem pensem nesses termos.
Atravessam-na depressa, em grupo, filmando, testando limites, como se o movimento fosse a última forma disponível de pertença. Isto é meu porque passo aqui; isto não será meu porque nunca mo deixarão ficar.
Não defendem Lisboa. Também não acreditam muito nela.
Limitam-se a atravessá-la depressa.
A irritação adulta nasce muitas vezes daí. Não apenas do perigo das bicicletas, embora ele exista; não apenas da falta de civismo, que também existe; mas da recusa de participar na pose organizada da cidade europeia contemporânea. Não fingem encantamento. Não caminham devagar. Não consomem a rua com a reverência de quem comprou uma experiência. Passam por ela como quem ainda não aceitou que a cidade se tornou demasiado cara até para a sua própria desordem.
Durante alguns segundos, obrigam toda a gente a lembrar-se de que as cidades não são espaços de consumo harmonioso. O reformado que atravessa devagar, o turista que procura a próxima fotografia, o empregado que fuma antes de voltar à cozinha, o estafeta atrasado, o adolescente que levanta a roda da frente, o motorista irritado, o morador que já não reconhece a rua onde nasceu: todos disputam a mesma superfície estreita. A cidade não é a soma pacífica dessas presenças. É o atrito entre elas.
Lisboa está a entrar numa fase em que já não consegue controlar completamente a maneira como é usada, filmada, atravessada, interrompida. Nenhuma grande cidade permanece eternamente organizada à medida do olhar exterior. Mais cedo ou mais tarde aparecem grupos que voltam a tratá-la como território imperfeito, físico, disponível, mesmo quando esse gesto é perigoso, irritante ou injusto para quem apenas tenta atravessar a rua em paz.
Quando uma cidade só consegue responder à juventude com repressão, programação cultural ou publicidade institucional, alguma coisa falhou antes do primeiro wheelie.
Que cidade resta aos que não podem comprá-la, herdá-la, arrendá-la, gerir a sua imagem ou transformá-la em conteúdo rentável? Às vezes resta-lhes apenas estes movimentos. A velocidade. O gesto inútil. A manobra exibida diante de quem preferia uma rua tranquila.
Lisboa, que aprendeu a posar tão bem para quem chega, ainda não sabe o que fazer com quem passa por ela sem pedir licença.



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