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Os portões de Karaj

Em julho de 2018, dezoito anos depois de Ahmad Shamlou ter morrido, um punhado de admiradores tentou depositar flores no seu túmulo, num cemitério à saída de Teerão. As forças de segurança chegaram primeiro. Fecharam os portões. Cinco pessoas foram detidas, duas delas ligadas à Associação de Escritores do Irão. Não houve confronto, nem discurso, nem bandeira erguida — só um cadeado, e um grupo de pessoas paradas do lado de fora de um cemitério, impedidas de colocar flores num túmulo que já tinha trinta e cinco anos.

Ilustração de um portão fechado com cadeado, sobre fundo escuro, capa do ensaio "Os portões de Karaj" do Atlantic Lisbon
Os portões continuam fechados. Ilustração original para o ensaio "Os portões de Karaj", Atlantic Lisbon.

Shamlou é, para a maior parte dos iranianos, o maior poeta do seu século. Não morreu no exílio, nem em fuga. Viveu quase sempre dentro do país que o queria calado. Saiu uma vez, em 1977, durante um ano, em protesto contra o Xá — voltou assim que a revolução começou a ganhar forma, entusiasmado, para logo se desiludir com o que via nascer no lugar da monarquia que ajudara a combater. A partir de 1980, viveu de forma cada vez mais recolhida, sem nunca deixar o país, com obra proibida ora por um regime, ora pelo seguinte. Morreu em 2000, em casa, em Karaj. No funeral, milhares de pessoas encheram as ruas de Teerão.


A lista que ninguém questiona


A coluna em causa — cinco livros, escolhidos por um crítico americano, para quem quiser "compreender o Irão" — segue uma lógica que, à primeira vista, parece impecável. Começa com Richard Frye e a sua história clássica da Pérsia pré-islâmica, atravessa Amir Taheri sobre Khomeini, Ryszard Kapuściński sobre a queda do Xá, um estudo académico sobre as raízes eleitorais iranianas, e fecha com a banda desenhada autobiográfica de Marjane Satrapi sobre a infância sob a revolução.


Frye era um orientalista americano, professor em Harvard, que estudava a Pérsia como quem estuda uma civilização morta — com rigor, com amor, mas de fora. Taheri tinha sido diretor de um jornal iraniano antes da queda do Xá, e escreveu o seu retrato de Khomeini já exilado, em Paris. Kapuściński era um repórter polaco de passagem, no país o tempo suficiente para captar a textura de uma sociedade a desfazer-se, e depois foi-se embora, como fazem os repórteres. Satrapi escreveu a sua infância iraniana já instalada em França, adulta, a olhar para trás através da distância que faz da memória uma coisa suportável.


Portugal já fez este exercício, só que ao contrário


Depois de 1974, a memória oficial da resistência ao Estado Novo organizou-se maioritariamente à volta de quem tinha saído — os exilados de Paris e Argel, os quadros do PCP em Moscovo, os que tinham fugido para a guerrilha ou para a clandestinidade internacional. É uma memória justa, construída sobre sofrimento real. Mas essa mesma memória, durante décadas, teve dificuldade em encontrar linguagem para outra figura, mais ambígua e mais comum: a de quem ficou, não colaborou, não se calou por completo, e também não fugiu.


Miguel Torga é o exemplo mais citado. Médico em Coimbra, escritor que recusou publicamente a Ordem de Santiago da Espada que o próprio Salazar lhe quis atribuir, preso brevemente em 1940 por atividade oposicionista, Torga passou a ditadura inteira em Portugal, a escrever um diário que ia sendo publicado em volumes sucessivos, com cortes da censura em alguns deles, sem nunca deixar o país nem aderir à luta armada nem entrar nos aparelhos clandestinos dos partidos. Alguém que ficou, escreveu o que podia dentro dos limites que ia empurrando, e pagou o preço de não ter uma história fácil de contar depois.


Em Portugal, a memória do exílio tornou-se dominante, e só décadas depois se começou a fazer justiça, com mais cuidado, à figura de quem ficou. No Irão, a memória canonizada pelo Ocidente é quase exclusivamente a de quem partiu.


Porque é que o exílio é mais fácil de ler


A razão prática é de acesso. Quem sai de um país fechado pode falar livremente, pode ser entrevistado sem risco, pode escrever sem medo de represálias contra si ou contra a família que ficou.


A razão menos confortável é outra: o exilado conta uma história que o leitor ocidental já sabe como ler. É a história da fuga, da perda, da nostalgia, do recomeço — um arco narrativo familiar, quase sempre com um herói legível e um regime vilão sem ambiguidade. Quem ficou conta uma história mais difícil de arrumar: a de alguém que negociou, todos os dias, durante décadas, os limites exatos do que podia dizer sem desaparecer, que colaborou nalgumas coisas pequenas para poder resistir nas grandes. Shamlou não é uma história simples. É por isso que não está em nenhuma lista.


O que se perde quando só se lê quem saiu


Quem só lê os livros de quem saiu aprende uma coisa real sobre a revolução iraniana — a violência, o sequestro do movimento popular por uma teocracia, o custo sobre as mulheres —, mas não aprende quase nada sobre a mecânica quotidiana de como se vive, durante décadas, dentro de um sistema que não se pode mudar nem se pode abandonar. Não aprende como se negoceia a censura linha a linha, como se decide o que se publica e o que se guarda numa gaveta durante vinte anos.


Satrapi, apesar de escrever já de fora, é a exceção parcial nesta lista — a sua infância aconteceu dentro do país, mesmo que a idade adulta e a escrita tenham acontecido depois de sair.


Os portões continuam fechados


As mesmas forças que fecham hoje os portões do cemitério de Karaj, todos os anos, no aniversário da morte de Shamlou, são as que garantem que a próxima geração de vozes que ficaram dentro do Irão continuará a ter mais dificuldade em chegar aos leitores ocidentais do que qualquer exilado com acesso a um editor em Nova Iorque ou em Paris. Mais fácil entrevistar quem já saiu, mais seguro publicar quem já não corre risco, mais legível uma história de fuga do que uma história de permanência ambígua.


As listas que o Ocidente compõe para "compreender" países como o Irão são, quase sempre, honestas nos factos e cegas na seleção — e essa cegueira não é sobre o Irão, é sobre nós. Os portões de Karaj continuam fechados todos os anos, em julho, e continuarão fechados o ano que vem.

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