Maria do Rio e a banca de flores que ainda sabe ouvir a praça
- Maria do Rio - Narradora

- há 6 dias
- 5 min de leitura
A banca das flores ficava logo à entrada da praça, naquele sítio onde toda a gente passa depressa e, mesmo assim, abranda. Não sei se por causa das cores, se por causa do cheiro húmido dos caules, se por aquela mania antiga de acharmos que uma flor ainda melhora uma casa. Uma jarra com cravos numa cozinha pobre faz mais pela dignidade de um domingo do que muitos discursos bem vestidos sobre a vida das pessoas.
Eu ia só comprar maçãs.
É sempre assim que começam as pequenas derrotas de uma manhã: “vou só comprar maçãs”, “vou só ver”, “não me demoro”. Depois a praça abre-se, chama por nós sem saber o nosso nome, e, quando damos por ela, estamos a conversar com uma senhora que vende flores como quem conhece a estação certa de cada tristeza.
Uma crónica sobre flores, cuidado e a vida comum das praças portuguesas.
Chamava-se Amélia, mas quase ninguém lhe chamava Amélia. Para uns era “a menina das flores”, com aquela ternura portuguesa que não pergunta a idade a ninguém. Para outros era “ó florista”, dito à pressa, porque há pessoas que transformam profissões em campainhas. Ela respondia a tudo. Não por submissão. Por prática. Quem trabalha numa praça aprende a escolher onde gasta a paciência.

Tinha as mãos pequenas, firmes, muito gastas de água fria. Cortava caules com uma tesoura antiga, prendia ramos com fio verde e escolhia flores como se estivesse a arrumar uma frase difícil. Ao lado, havia uma banca de queijos. Mais adiante, peixe. Depois, fruta. A praça inteira tinha uma ordem que os centros comerciais nunca conseguiram imitar: primeiro o cheiro, depois a fome, depois a conversa.
— Hoje não leva nada? — perguntou-me ela, antes de eu ter tempo de fingir inocência.
Disse-lhe que ia só ver.
A Amélia sorriu.
— Só ver é o que dizem as pessoas antes de levarem alguma coisa que não estavam a pensar comprar.
A praça sabe mais de nós do que julgamos. Uma senhora discute o preço das cerejas como se estivesse em causa uma fronteira nacional e, dois minutos depois, pergunta pela neta da vendedora. Um homem resmunga contra o peixe, compra-o na mesma e ainda pede que lhe guardem as cabeças para a sopa. Numa banca compra-se salsa; noutra, deixa-se uma notícia.
A Amélia pegou num ramo de gérberas. Vermelhas, amarelas, laranja. Cores sem vergonha.
— Estas aguentam bem — disse. — Desde que a pessoa não se esqueça delas.
Pareceu-me uma frase sobre flores. Talvez fosse só isso. Há frases que não têm culpa de nos apanhar distraídos.
Enquanto me explicava a água, o corte oblíquo dos caules e o sítio onde não convém pôr a jarra, apareceu um rapaz com uma mochila maior do que as costas. Devia ter dez anos, talvez onze. Trazia uma moeda na mão e uma urgência na cara.
— Tem uma flor barata?
A Amélia baixou-se um pouco. Não fez aquela voz ridícula que alguns adultos inventam para falar com crianças. Limitou-se a ficar mais perto.
— Barata para quem?
O miúdo olhou para a moeda, depois para as flores.
— Para mim.
A mulher dos queijos riu-se, sem maldade. A praça também se riu um bocadinho, daquela forma espalhada que não tem dono.
— É para a tua mãe? — perguntou a Amélia.
— Para a professora. Ela hoje chorou.
A frase ficou ali. A senhora do peixe continuou a pesar robalos, alguém escolhia batatas com uma seriedade de ministro, a máquina do café ao fundo soltou vapor. Durante dois ou três segundos, a praça pareceu falar mais baixo.
A Amélia não perguntou porquê. Fez bem. Há dores que as crianças trazem na mão e que não pedem interrogatório. Pedem só um embrulho possível.
Escolheu um cravo branco, depois outro encarnado. Juntou uma folha verde, enrolou tudo num papel simples e prendeu com fita.
— Levas dois.
O rapaz abriu muito os olhos.
— Mas só tenho isto.
— Então pagas um. O outro vai por conta da praça.
Ninguém votou a proposta, mas ficou aprovada. A senhora dos queijos fingiu que estava muito ocupada com uma faca. O homem das batatas tossiu. Eu continuei a olhar para as gérberas, sem saber muito bem que cara se faz quando uma coisa pequena nos desarruma.
O miúdo saiu com os cravos como quem leva uma missão séria. Caminhava devagar, talvez para não estragar o ramo, talvez porque percebeu que há gestos que não devem chegar depressa demais ao fim.
A Amélia voltou às flores.
— Há professores que mereciam um jardim inteiro — disse.
Depois, olhou para a banca dos queijos e acrescentou:
— Outros, pronto, uma ervinha já chegava.
A gargalhada começou nos queijos e foi bater às couves. Foi uma gargalhada limpa, sem maldade, daquelas que tiram humidade ao ar. A praça precisava dela. Eu também.
Comprei as gérberas, claro. Não por necessidade. Ninguém precisa de gérberas. É essa a sua pequena afronta. Há coisas sem utilidade imediata que tornam a vida menos castigo: flores, livros, bancos ao sol, conversas que não resolvem nada, uma criança que leva cravos a uma professora triste. Tudo muito pouco produtivo, portanto suspeito.
Enquanto a Amélia embrulhava o ramo, entrou uma mulher apressada, telemóvel encostado ao ouvido, casaco aberto, cara de quem já tinha perdido a manhã antes das dez. Pediu “qualquer coisa bonita, mas rápida”.
A frase devia ir para uma parede.
Queremos tudo assim: bonito, mas rápido. Afeto sem demora. Cuidado sem pausa. Cidade sem bancos. Escola sem escuta. Política sem vizinhos. Democracia sem praça.
A Amélia escolheu rosas pequenas, margaridas, dois ramos de verde.
— É para levar a alguém ou para pedir desculpa?
A mulher tapou o telemóvel com a mão.
— Nota-se assim tanto?
— Minha senhora, nesta banca nota-se tudo. Só não se diz tudo.
Ali estava uma parte do país que não entra nas atas. Uma mulher a pedir desculpa com flores porque talvez já não soubesse pedir de outra maneira. Um rapaz a levar cravos a uma professora que chorou. Uma florista a vender ramos e a distribuir pequenas absolvições, sem recibo nem proclamação.
Saí da praça com as gérberas encostadas ao peito. No caminho, reparei que muita gente olhava para o ramo. Não para mim, felizmente. Para as flores. As pessoas olham para flores com uma licença íntima, como se lhes fosse permitido desejar, por um segundo, que aquelas cores fossem para elas.
Talvez as bancas de flores resistam por isso. Não vendem apenas flores. Vendem interrupções. Metem cor onde a cidade pôs pressa. Fazem perguntas sem ponto de interrogação: há quanto tempo não leva nada a alguém? Há quanto tempo não leva nada para si? Há quanto tempo aceita viver só com o necessário?
Em casa, pus as gérberas numa jarra torta. Ficaram bonitas, apesar de mim. Durante a tarde, sempre que passava por elas, lembrava-me do rapaz, da professora, da Amélia, da mulher do telemóvel, da gargalhada que saltou dos queijos para as couves.
Uma praça talvez seja isto: um lugar onde o país ainda não desistiu completamente de se olhar nos olhos.
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