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Correia da Serra Deixa a América

O QUARTO DO ABADE


A cadeira de vime estala sempre no mesmo ponto, e Correia já sabe onde pousar o peso para que se cale. Aprendeu isso há três verões. Ou quatro. Perdeu a conta.


O calor sobe da terra vermelha de Monticello num bafo espesso que lhe cola a batina preta às omoplatas. Jefferson insistiu, à chegada, que a despisse. Correia disse que sim, obrigado, e não a despiu.


Cena de combate da Revolução Americana, com soldados avançando em formação e figuras a cavalo no campo de batalha.
A república que Correia da Serra conheceu nos Estados Unidos nascera poucas décadas antes da guerra de independência e continuava a construir a sua identidade política.

Tira os óculos, sopra sobre uma das lentes, limpa-a à manga. A haste direita está presa com um fio de cobre torcido duas vezes sobre si mesmo — partiu-se em Filadélfia, no inverno, e ele nunca arranjou tempo, ou coragem, para a mandar soldar a sério. Ajusta o fio. Volta a pôr os óculos. A haste desce um pouco, sempre um pouco, ao longo da tarde.


Jefferson está sentado à secretária ao fundo da sala, de costas meio voltadas, a dobrar uma carta que já dobrou três vezes. Fala sem levantar os olhos.


— Ainda há esperança de o Brasil ficar como está?


Correia olha para as próprias mãos.


— A orquídea que trouxe de Filadélfia não sobreviveu à viagem. As raízes apodreceram dentro do pano húmido que alguém enrolara mal, na caixa amolgada de um lado, algures num saco de correio que ficou dias ao sol antes de chegar.


Jefferson acena com a cabeça e volta à carta.


O pássaro entra pela janela sem pedir licença e pousa em cima das cartas por responder, na mesa ao fundo. É cinzento, com as pontas das asas brancas, e pisa o papel com passos curtos, as garras a arranhar a tinta ainda fresca de uma linha. Jefferson estende dois dedos, sem olhar, e o pássaro avança até eles, bica qualquer coisa que não está lá, recua.


— Ele gosta de si — diz Jefferson. — Fica mais perto quando você está na sala.


Correia não sabe se isto é verdade. Não pergunta como Jefferson sabe. Diz:


— Em Serpa havia um homem que ensinava pintarroxos a repetir os nomes dos filhos. Chamava-se... — pára. Não se lembra do nome do homem. Lembra-se do quintal, da poeira, do som.


Jefferson está a olhar para a janela, para o fim da tarde a espalhar-se sobre o pomar novo, e diz qualquer coisa sobre a colheita de macieiras deste ano, sobre um enxerto que não pegou, sobre o filho de um vizinho que partiu para o Ohio.


Correia sente a fome desde o meio-dia — recusou o prato de presunto ao almoço, por vergonha de comer sozinho enquanto os outros discutiam a colheita de tabaco, e agora o estômago ronca baixo, um som que ele abafa apertando o braço contra o corpo. Ninguém repara. Ou repararam e não disseram nada.


Tira do bolso do colete um pedaço de papel dobrado em quatro, já amarelecido nas dobras. É a etiqueta de um espécime que nunca acabou de escrever — o género está lá, a caligrafia firme, e depois o resto da linha em branco. Vira o papel. Volta a dobrá-lo. Guarda-o.


— O senhor devia escrever a Lisboa sobre o clima de cá — diz Jefferson, ainda de costas meias. — As suas observações sobre a chuva de junho seriam úteis à Academia.


— Escrevi. Em abril.


— E?


— Não sei se chegou.


O pássaro salta da mesa para o encosto da cadeira de Jefferson, depois para o chão, onde encontra uma migalha de qualquer coisa e a trabalha com o bico, virando-a, largando-a, apanhando-a outra vez.


Há um som de louça na cozinha, distante, e uma voz de mulher que não se percebe se está a cantar ou a repreender alguém. Correia pensa que devia perguntar por Martha, pela saúde dela, mas o momento para essa pergunta já passou há dois minutos e agora seria estranho voltar a ele. Fica calado.


A luz que entra pela janela já não é branca. É da cor de um cobre velho, e cai sobre a mesa, sobre as cartas por responder, até alcançar o pássaro, que agora está imóvel, com uma pata levantada, como quem hesitou a meio de um passo e se esqueceu de terminá-lo.


— Está calor — diz Correia, e arrepende-se de o ter dito assim que a frase sai, porque não é isso que queria dizer, e já não sabe bem o que queria dizer.


Jefferson levanta-se, devagar, com uma mão na secretária e outra nos rins, e diz que vai mandar trazer água fresca do poço, que ainda deve estar fria a esta hora. Sai da sala sem esperar resposta.


Correia fica sozinho com o pássaro.


Tira outra vez os óculos. Sopra sobre a lente. Limpa-a à manga, embora já não tenha nada para limpar. Ajusta o fio de cobre, que cede um pouco mais, e a haste fica torta de um jeito novo, diferente do de há uma hora. Põe os óculos. Olha para o papel dobrado que voltou a tirar do bolso sem se aperceber, e para a linha em branco depois do género latino, e pega na pena que está pousada ao lado do tinteiro de Jefferson, sem lhe pedir licença, e molha a ponta, e a tinta pinga uma vez sobre a mesa antes de ele conseguir escrever a primeira letra da segunda palavra, e o pássaro vira a cabeça para o som da gota a cair, e não faz mais nada.


Base histórica (nota editorial, não faz parte do conto): José Correia da Serra (1750-1823) foi ministro plenipotenciário de Portugal em Washington a partir de 1816 e amigo próximo de Thomas Jefferson, que o recebeu várias vezes em Monticello, onde existe ainda hoje uma divisão conhecida como "o quarto do Abade". Jefferson mantinha um sabiá-do-norte (mockingbird) domesticado que circulava livremente pela casa. Estes factos são documentados. A cena, o diálogo, os gestos e o pormenor interior de Correia são invenção literária — não citação, não biografia.


Imagem: - The New York Public Library

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