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Quando o boato se torna poder

O boato também se senta à mesa


Há dias, no café da esquina, ouvi uma mulher dizer que já não acreditava em nada. Disse-o enquanto mexia o açúcar no galão, com aquela tristeza prática de quem ainda tem contas para pagar e roupa por estender. A empregada, que conhece metade do bairro pelo nome e a outra metade pela maneira como pede a bica, não respondeu logo. Limpou o balcão, endireitou duas chávenas, olhou para a televisão sem som presa no canto da parede e disse apenas:


— Pois. Mas há coisas que chegam depressa demais para serem verdadeiras.


A frase ficou ali, entre o balcão e a porta.


Talvez aquela mulher soubesse, sem lhe chamar assim, aquilo que algumas empresas, alguns governos e alguns especialistas começam agora a chamar inteligência narrativa. Nome comprido, desses que aparecem em relatórios e reuniões onde ninguém diz simplesmente “boato”. Serve para perceber de onde vem uma história, quem a pôs a andar e quando deixa de ser conversa para começar a fazer estragos.


Imagem editorial abstrata com círculos concêntricos numa superfície calma, simbolizando a propagação silenciosa de um boato.
Um pequeno rumor pode começar como ondulação discreta e transformar-se, depressa, numa força capaz de alterar decisões, medos e perceções públicas

Dantes, o boato demorava. Ia da mercearia para a farmácia, apanhava boleia no prédio, perdia-se um bocado no cabeleireiro e voltava diferente. Era falso muitas vezes, injusto quase sempre, mas tinha pernas humanas. Hoje, pode sair de uma máquina, passar por dezenas de contas falsas e aparecer-nos com uma voz que jurávamos conhecer. Quando damos por ele, já se instalou na cabeça de quem tem medo, na decisão de quem hesita, na vida de quem não sabe como se defender.


Isto não vive apenas nas campanhas políticas, nos jornais ou nos telemóveis dos adolescentes. A mentira organizada suja, mas não fica só a sujar. Empurra. Mete pressa onde era preciso cautela. Põe suspeita em coisas banais. Faz alguém levantar dinheiro, recusar um tratamento, deixar uma marca na prateleira, desconfiar de um dirigente, de um médico, de uma vizinha, de uma instituição inteira.


Basta um banco ser dado como frágil numa mensagem de telemóvel para alguém começar a pensar se deve levantar dinheiro. Basta um vídeo bem falsificado, com a cara certa e a voz certa, para a indignação chegar antes da confirmação. E, pelo meio, há pessoas que hesitam, outras que recuam, outras que passam a repetir frases que nem sabem de onde vieram.


No mercado, a senhora das maçãs não precisava de teoria nenhuma. Quando uma peça vem tocada, ela afasta-a logo. Sabe o que acontece ao resto. Com certas histórias passa-se qualquer coisa parecida. Chegam com uma mancha pequena, quase invisível, e daí a nada já ninguém quer comprar a caixa.


Ainda olhamos muito para o barulho. Quantas pessoas falaram? Quantos comentários houve? A palavra subiu ou desceu? A emoção era favorável ou hostil? Ajuda, claro. É como ouvir a rua da janela. Mas a rua, vista da janela, engana. Às vezes parece cheia e são só quatro pessoas aos gritos. Outras vezes está calada e já toda a gente decidiu qualquer coisa por dentro.


Por isso, não chega contar vozes. É preciso perceber se a conversa nasceu de uma preocupação legítima ou se foi empurrada. Se é gente verdadeira a protestar ou bonecos digitais a fingir multidão. Se a indignação apareceu porque havia razão para ela ou porque alguém escolheu a hora, deu corda ao mecanismo e ficou a ver.


Esta fronteira é difícil. Quem chama ataque a qualquer protesto deixa de ouvir. Quem chama opinião pública a qualquer campanha organizada deixa-se levar. A inteligência narrativa devia servir para distinguir, não para calar. Não para transformar a crítica em ameaça. Não para pôr a vida democrática debaixo de uma campânula de vigilância. Serve, ou devia servir, para reconhecer quando uma história está a ser montada para ferir, enganar ou produzir dano.


Na praça, dir-se-ia de forma mais simples: saber quem começou a conversa e porque é que ela chegou tão depressa a toda a gente.


Isto não interessa apenas a gabinetes de crise. Interessa ao balcão do banco, quando alguém pergunta se o dinheiro está seguro. Interessa à sala de espera do hospital, quando um doente chega assustado por uma coisa que viu no telemóvel. Interessa à escola, quando os pais entram num grupo de mensagens e, em meia hora, já há uma certeza sem factos. Interessa também aos tribunais, porque há processos que hoje decorrem em dois lugares ao mesmo tempo: lá dentro, onde existem regras, e cá fora, onde uma multidão sem rosto vai formando sentença.


E interessa-nos, claro. Porque vivemos dentro desta água. Aquilo em que muita gente passa a acreditar muda votos, compras, medos, relações. Muda até a maneira como olhamos para o vizinho. Quando a mentira fica muito tempo no ar, já ninguém sabe bem onde começou. Fica encostada às coisas, como cheiro a fritos numa cozinha pequena.


A mulher do café tinha razão. Há coisas que chegam depressa demais para serem verdadeiras. Mas também há verdades que chegam tarde, já sem força para desmanchar o que ficou colado.


Antes de partilhar, talvez bastasse uma demora pequena. Quem ganha com isto? Porque apareceu agora? E porque é que tanta gente, de repente, escreve a mesma frase? Não é uma ciência perfeita. Às vezes, a vida pública é só confusa, zangada, mal explicada. Mas há confusões que parecem espontâneas e não são. Há indignações que chegam já vestidas para a fotografia. Há medos que entram no telemóvel com a pressa de quem tem dono.


Responder só depois do estrago é pouco. Nessa altura, a conversa já fez caminho. Alguém perdeu confiança, alguém ficou marcado, alguém mudou de decisão, alguém deixou de ouvir o que precisava de ouvir. E depois há a parte mais difícil: voltar atrás sem parecer desculpa, reparar sem parecer propaganda, explicar sem ser tarde demais.


Mas convém não perder o lado humano desta questão. A inteligência narrativa não deve servir para desconfiar de toda a gente. Pelo contrário: deve ajudar a proteger a conversa verdadeira. A conversa imperfeita, zangada, legítima, popular, contraditória. Aquela que nasce no café, no autocarro, na fila do centro de saúde, no grupo de pais da escola, na reunião de condomínio onde alguém se levanta para dizer que a luz da entrada continua avariada.


Também não se pode meter tudo no mesmo saco. Há críticas que incomodam porque são justas. Há protestos desarrumados que são apenas protestos. Há exageros populares que não têm por trás uma central de operações. O povo tem direito à queixa, à dúvida, ao protesto, até ao disparate de boca cheia. Uma sociedade saudável não é a que fala pouco. É a que ainda sabe distinguir uma voz de uma máquina, uma mágoa de uma operação, uma denúncia de uma armadilha.


A palavra “desafio” talvez seja grande demais para a mesa pequena do café. Mas anda por ali qualquer coisa parecida. Não criar um mundo onde ninguém acredita em nada. Isso seria entregar a vitória à mentira. Criar, antes, uma prudência mais comum, mais caseira. Uma educação do ouvido. Desconfiar da frase que vem pronta demais, da indignação que parece já trazer instruções, do medo que nos pede logo para carregar em partilhar.


No fim, volto ao café. A mulher pagou o galão, guardou o troco numa bolsinha preta e saiu para a rua com o casaco apertado. A televisão continuava sem som. Lá fora, passava um autocarro cheio de gente cansada, cada pessoa com o seu ecrã, a sua notícia, a sua pressa, o seu pequeno mundo iluminado na mão.


A empregada recolheu a chávena e disse, já sem olhar para mim:


— Antigamente, para espalhar uma mentira, ainda era preciso ter lata. Agora basta ter rede.


Depois empilhou os pires e chamou “amor” a um cliente que entrava todos os dias à mesma hora.

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