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Pessoa, a IA e o problema de saber quem escreve

Segundo o relato que Fernando Pessoa faria em 1935, a 8 de março de 1914 aproximou-se de uma cómoda alta, no seu quarto em Lisboa. Levava dias a tentar inventar, para pregar uma partida ao amigo Mário de Sá-Carneiro, um poeta bucólico que pudesse apresentar como pessoa real. Não conseguira nada. Nesse dia, já desistira da ideia. Pegou numa folha de papel e começou a escrever de pé, como escrevia sempre que podia. Segundo contou, saíram trinta e tantos poemas seguidos, sem interrupção. Chamou-lhe, mais tarde, numa carta, o dia triunfal da sua vida — e disse que nunca poderia ter outro assim.


Não escreveu como Fernando Pessoa. Escreveu como alguém a quem deu, ali mesmo, o nome de Alberto Caeiro.

Rosto duplo em contraste de luz e sombra numa composição minimalista sobre Fernando Pessoa, autoria e inteligência artificial.
Pessoa, os heterónimos e a inteligência artificial: duas formas de enfrentar o problema de manter uma voz inteira.

Pessoa insistiria, anos depois, que não sabia bem definir o que lhe tinha acontecido nessa tarde — hesitava entre chamar-lhe inspiração ou um sintoma e falava da sua própria tendência para a despersonalização quase como um médico descreveria um paciente, admitindo a hipótese de ser aquilo a que chamava histeria ou histero-neurastenia. Na carta, formulava a dúvida em termos quase clínicos: não sabia se o que lhe permitia escrever daquela forma era um dom ou uma avaria. A histeria, no vocabulário médico da sua época, era quase sempre diagnóstico de mulher — a própria palavra vem do grego para útero. Um homem a suspeitar de si mesmo dessa condição, para explicar de onde lhe vinham vozes inteiras com biografia e temperamento próprios, admitia, por escrito, que a explicação mais disponível para o que lhe acontecia pertencia a uma categoria clínica historicamente associada às mulheres, embora já então discutida também em homens.


Feitos os poemas de Caeiro, Pessoa não parou. Pegou noutra folha e escreveu, também de um só fôlego, seis poemas assinados com o seu próprio nome — o regresso a si mesmo depois de ter sido, durante horas, outra pessoa por inteiro. Descobriu depois, mais devagar, um discípulo latente no "falso paganismo" do próprio Caeiro e deu-lhe o nome de Ricardo Reis. Em derivação oposta a essa, surgiu-lhe de repente um terceiro: sentado à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, saiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — um engenheiro naval formado em Glasgow, nascido em Tavira a uma hora que Pessoa dizia ter verificado depois num horóscopo, apaixonado pela velocidade das máquinas e pela violência do século que começava.


Álvaro de Campos continha uma segunda camada de invenção. Anos depois da Ode Triunfal, Pessoa escreveu ainda um poema — o Opiário — que fingia ser obra de um Campos anterior, de antes de conhecer Caeiro e cair sob a sua influência, sem qualquer traço ainda do mestre que o viria moldar. Era preciso inventar a fase da vida desse homem em que ele ainda não era, de todo, quem viria a ser — um exercício que o próprio Pessoa descreveu como particularmente difícil, pelo duplo esforço de despersonalização que exigia. Um heterónimo tinha um antes.


A leitura de Caeiro produz a impressão nítida de uma voz própria. É um poeta anti-metafísico que recusa interpretar o que vê e trata a simplicidade como a forma mais alta de pensamento — uma cosmovisão sustentada ao longo de dezenas de poemas, com uma biografia: nasceu em 1889, morreu tuberculoso em 1915, quase sem instrução. Um rio, para Caeiro, é só o rio; uma flor não simboliza nada além de si mesma; pensar sobre as coisas é já traí-las. A voz mantém uma consistência notável ao longo da obra que lhe foi atribuída. O que Caeiro aceitaria dizer e o que recusaria permanecem reconhecíveis — e é por isso que os outros heterónimos o chamam mestre.


Quando Caeiro "morreu", em 1915, dentro da mitologia que Pessoa manteve durante vinte anos, os discípulos continuaram a escrever sobre o mestre desaparecido — Ricardo Reis em textos críticos e Álvaro de Campos nas Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, cada um no seu registo. Reconheciam-se e respondiam umas às outras; sabiam quem tinha morrido e quem continuava vivo. Nenhum "auditor" precisou de lembrar a Campos que Caeiro já não estava entre eles.


Do outro lado do mundo, hoje, plataformas chinesas de ficção serializada para telemóvel — algumas delas propriedade de gigantes tecnológicos com milhares de milhões de dólares em receitas publicitárias e subscrições, que pagam aos autores conforme o número de leitores — enfrentam um problema que se parece, à superfície, com o de Pessoa. Autores usam ferramentas de inteligência artificial para gerar romances inteiros a partir de um esboço de enredo, com casos documentados de obtenção rápida de audiência e relatos de utilizadores que conseguiram ganhar dinheiro com histórias geradas por máquina. É um género de histórias — vinganças, artes marciais, amores impossíveis, saltos no tempo — que nasceu nos fóruns chineses dos anos noventa, feito para se ler aos pedaços, no ecrã de um telemóvel, muito antes de qualquer máquina escrever uma linha dele.


Uma dessas plataformas lançou um "assistente do autor" para ajudar quem escreve a preencher lacunas de pesquisa histórica ou científica sem interromper o ritmo da escrita. Noutra frente, um programador independente construiu um sistema com agentes de inteligência artificial distintos: um estabelece a arquitetura do enredo, outro escreve os capítulos e um terceiro revê o texto à procura de erros lógicos e de maneirismos repetidos em excesso. Segundo o seu criador, mais de cinquenta mil utilizadores já o descarregaram.


Em fóruns chineses, leitores partilham capturas de ecrã de instruções de inteligência artificial deixadas por engano a meio de um capítulo — o andaime da máquina, visível onde devia estar escondido. Outros dizem reconhecer a inteligência artificial por frases-tique que se repetem de romance para romance, do tipo "não é isto... é aquilo", como se fossem a assinatura de um único autor invisível, e não de milhares de contas diferentes. Uma plataforma impôs um limite diário de palavras a cada conta e, só num mês, recusou mais de cem mil submissões consideradas de fraca qualidade, incluindo obras assinaladas como geradas por máquina.


Por vezes, a máquina esquece onde as suas próprias personagens estão dentro da história que acabou de inventar.


Pessoa descreveu a irrupção inicial de Caeiro como um jorro quase contínuo, embora os manuscritos revelem correções e variantes. Caeiro raramente perde a lógica interna do "guardador de rebanhos" que constrói, enquanto a Ode Triunfal de Álvaro de Campos, escrita "sem interrupção nem emenda" à máquina de escrever, mantém a violência industrial que define os seus versos. Uma das vozes sabe, em todos os momentos, quem é e onde está; a outra, por vezes, não sabe.


Bernardo Soares, autor a quem Pessoa atribuiu o Livro do Desassossego, não era, dizia o próprio, um heterónimo completo. Chamou-lhe um "semi-heterónimo": nas suas próprias palavras, alguém que, "não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela", ele mesmo "menos o raciocínio e a afetividade". Soares não tem uma biografia tão desenvolvida como Caeiro, nem um ofício exótico como Campos; é um guarda-livros de Lisboa, quase indistinguível de Pessoa na superfície e, por isso, mais difícil de separar do autor que o escreveu. Entre "ser inteiramente outro" e "ser inteiramente eu", Pessoa deixou um espaço intermédio. A pergunta sobre onde termina Pessoa e começa Soares nunca teve resposta fechada, nem o próprio a deu.


Talvez a distinção entre voz coerente e voz incoerente não seja binária. Pode haver, também na escrita assistida por máquina, um espaço intermédio comparável ao de Soares, em que o autor humano fornece o suficiente da sua própria razão e emoção para que o resultado não seja nem plenamente seu nem plenamente alheio. Um autor que usa inteligência artificial apenas para expandir um esboço que já escreveu, corrigindo depois cada frase, ocupa esse espaço com mais legitimidade do que quem entrega o esboço a um sistema e publica o que sai sem tocar numa linha. O que os separa é quanto de si próprio cada um deixou por perto para responder pela personagem que a máquina, a meio do caminho, perdeu.


Pode dizer-se que Pessoa "não teria conseguido" fazer o que fez sem ser Pessoa — que o génio literário garante, sozinho, a coerência que uma ferramenta comercial, por definição, não pode oferecer. Um sistema com um agente "arquiteto", um agente "escritor" e um agente "auditor", porém, é desenhado para impedir a incoerência que os leitores denunciam. Pessoa não teve auditor nenhum. Teve, segundo a sua própria descrição, uma consciência dividida o suficiente para sustentar vozes heteronímicas profundamente diferenciadas, sem depender de um mecanismo externo de auditoria para as manter coerentes.


Num sistema composto por módulos separados — um a inventar a estrutura, outro a escrever a cena, um terceiro a auditar a lógica, o estilo e a continuidade —, o problema pode não ser a ausência de mecanismos de memória, que alguns destes sistemas já têm, mas a dificuldade de fazer convergir numa única voz todas essas camadas de controlo. O "auditor" de um desses sistemas, descreveu o seu criador, foi treinado sobretudo para apanhar erros lógicos e maneirismos de estilo repetidos em excesso — travessões a mais, seria o exemplo mais banal. Os mecanismos de continuidade das personagens ou de memória narrativa existem. As incoerências que os leitores detetam também.


Fernando Pessoa nunca resolveu, para si próprio, se aquilo que lhe aconteceu na cómoda alta era um dom ou um sintoma. Descreveu-o como uma espécie de êxtase cuja natureza não saberia definir — e, mesmo sem essa definição, o poema saiu com uma pessoa inteira lá dentro, capaz de responder por si do primeiro ao último verso.


Um século depois, do outro lado do mundo, alguém confia a uma máquina a escrita de um romance inteiro e também não sabe dizer, ao certo, quem o escreveu. Funcionou, ou não funcionou, consoante os leitores encontrassem ou não alguém coerente por trás das frases. A diferença entre os dois casos não está em nenhum dos dois ter uma resposta pronta para a pergunta sobre autoria. Está em qual dos dois, lido até ao fim, ainda parece ter alguém lá dentro a segurar a folha — de pé, como Pessoa dizia escrever sempre que podia, junto à cómoda alta que recordaria vinte anos depois ao contar o seu "dia triunfal".

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