Maria do Rio e as pequenas coisas que governam Portugal
- Maria do Rio - Narradora

- há 6 dias
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Entro num café antigo, desses que já não tentam parecer novos. O balcão está gasto no sítio onde as mãos pousam, o vidro do expositor tem riscos que ninguém limpa, as chávenas alinham-se como se tivessem sobrevivido a muitas manhãs iguais. Peço um café e uma torrada. O empregado serve-me com a pressa de quem já repetiu aquele gesto mais vezes do que gostaria. Não me olha nos olhos. Talvez não seja má educação. Talvez seja apenas cansaço, essa forma portuguesa de continuar em pé sem fazer alarde.
Uma crónica sobre cafés, autocarros e a vida real por trás dos discursos.
O pão estala na chapa. O café chega com a espuma curta. Ninguém faz discurso sobre o país, e ainda bem. Há dias em que Portugal se percebe melhor no som de uma torrada do que numa tarde inteira de debate parlamentar.
Dizem-nos que somos governados por ministros, leis, orçamentos, programas, estratégias. Em parte, somos. Mas há outra governação, mais miúda e mais decisiva, que quase nunca aparece. A senhora da mercearia arredonda a conta para evitar as moedas de dois cêntimos. O motorista do autocarro espera mais dez segundos por alguém que vem a correr com a mochila aberta. O funcionário da escola inventa uma solução porque o computador bloqueou outra vez. Ninguém lhes chama poder. Às vezes é isso que são: pequenas decisões que impedem a vida de se partir onde já vinha rachada.
O discurso público raramente sabe falar disto sem parecer condescendente. Prefere palavras largas: crescimento, competitividade, reformas estruturais, produtividade, modernização. Palavras úteis, talvez necessárias, mas que chegam à mesa sem cheiro a sopa, sem contas por pagar, sem uma criança a perguntar se amanhã há dinheiro para a visita de estudo. Enchem a boca de quem as pronuncia. Não enchem necessariamente a panela de quem as ouve.
O país não é uma empresa, embora haja quem insista nessa fantasia. Também não somos acionistas de uma prosperidade prometida em apresentações limpas. Somos, muitas vezes, clientes de balcão, utentes de senha, passageiros de pé, pais a fazer contas, filhos a fingir que não reparam no aperto dos pais. Pagamos, esperamos, agradecemos, reclamamos pouco, rimo-nos quando já não convém chorar.
Assusta-me ver a política afastar-se desse rés-do-chão, como quem sobe escadas e se esquece de voltar. Lá em baixo ficam os salários mínimos, as contas feitas ao cêntimo no supermercado, as discussões à porta da escola, a gente que não tem tempo para esperar. Lá em cima, longe do barulho da rua, desenham-se planos estratégicos. Entre um andar e outro, há mais do que distância. Há uma falha de escuta.
Lembro-me de uma mulher no autocarro. Tinha as mãos cheias de sacos e fazia contas em voz alta, talvez sem dar por isso: “o peixe deu oito euros, o pão três, a fruta quatro e meio… já não dá para o fiambre.” Não havia ali metáfora nenhuma. Havia só uma pessoa a tentar fazer caber a semana dentro de sacos demasiado pequenos. Mesmo assim, naquela aritmética cansada, estava uma parte da economia nacional que raramente chega aos gráficos. Não precisava de comentário. Precisava de ouvido.
Eu também não ouvi como devia. Saí antes da paragem dela e levei comigo aquele remorso discreto que às vezes nos acompanha depois de uma cena banal. Não fiz nada de errado, dir-se-á. Pois não. Mas há omissões pequenas que se parecem demasiado com o modo como um país inteiro aprende a desviar os olhos.
Quando os políticos dizem que “o país está melhor” ou “o país está pior”, fico sempre à espera de saber para quem. Melhor para uns, pior para outros, igual para muitos: cansado, suspenso, à espera que o mês acabe sem acabar primeiro o dinheiro. A realidade raramente cabe numa frase de cartaz. Também não cabe no pessimismo automático dos que já desistiram de distinguir. Vive nesse intervalo difícil onde uma boa notícia estatística pode coincidir com uma má semana doméstica.
As pequenas coisas não precisam de grande defesa. Aparecem como são. A criança pergunta se há lanche amanhã. Alguém aceita trabalhar mais duas horas sem contrato porque precisa de pagar o gás. Uma pessoa adia uma consulta porque a prioridade, naquele mês, foi outra. A praça, o mercado, a fila do centro de saúde, o autocarro das sete da manhã: há lugares onde o país deixa de posar para a fotografia.
Talvez a nossa democracia se sinta frágil por isto. Há o país dos decretos e o país dos gestos. Um escreve no Diário da República. O outro escreve-se nas costas cansadas de quem segura tudo sem ter sido eleito para nada. Às vezes encontram-se. Muitas vezes, não.
Alguns chamarão a isto pessimismo. Não me ofende. Há um pessimismo que nasce da atenção, não da desistência. O otimismo dos slogans é que me parece mais perigoso: promete futuro a quem está aflito no presente e depois estranha que a esperança se torne azeda. Prefiro olhar para quem não tem tempo para grandes discursos. Talvez seja aí, nessas pessoas que continuam sem palco, que ainda mora alguma forma de esperança.
Portugal resiste porque improvisa. Não apenas graças ao Estado, nem apenas apesar dele. Resiste nessa zona confusa onde a instituição falha e alguém segura a ponta. A mercearia arredonda a conta. O vizinho empresta o martelo. O motorista espera. A funcionária resolve. A professora compra material do próprio bolso. A avó estica a reforma para que o neto não sinta tanto a falta. Sem estes gestos, muita coisa já teria caído.
Quem não entende isto não entende grande coisa de nós.
A política gosta de se apresentar como gestão do futuro. O povo, esse nome gasto mas ainda indispensável, sabe que a política é quase sempre gestão do presente. O futuro não paga a conta da luz. Não enche o frigorífico. Não acalma a criança que chora porque não tem o mesmo lanche do colega. O futuro é uma promessa; o presente tem corpo, fome, horário, renda, febre, transporte, fila.
Dirão que é assim em todo o lado. Talvez. Mas em Portugal temos uma arte particular de disfarçar. Disfarçamos a falta com humor, a pobreza com dignidade, a solidão com ditados, o medo com uma piada à porta do café. Isso torna-nos resistentes. Também nos torna cansados. Uma pessoa não passa a vida inteira a fingir que não dói sem pagar alguma coisa por dentro.
Quando finalmente se fala, muitas vezes já se falou tarde. Quando alguém protesta, o estrago já fez casa. Quando alguém desiste, nem sempre há mão que o traga de volta. O silêncio social raramente começa no grande silêncio. Começa na pequena frase que não se disse, na pergunta que não se fez, no vizinho que parecia bem, na mulher do autocarro que continuou as contas sozinha.
Escrevo por causa dessas coisas. Não para lhes dar uma grandeza que não pediram, mas para não as deixar desaparecer tão depressa. A conversa de café, o gesto no autocarro, a conta arredondada, o pão na chapa, o empregado que não olha nos olhos porque talvez já tenha olhado demais nesse dia. A memória das pequenas coisas é menos vistosa do que as promessas grandes, mas dura mais. Fica colada aos dedos, à mesa, ao saco das compras, ao caminho de casa.
Se alguém, daqui a muitos anos, quiser saber quem éramos, talvez não baste procurar nos decretos, nas estatísticas ou nas frases oficiais. Terá de procurar também no pão a estalar na chapa, na mulher que fazia contas em voz alta, no vizinho que emprestou o martelo, na mercearia que arredondou a conta, no autocarro que esperou mais dez segundos. Naquilo que quase ninguém fotografou, mas muita gente viveu.
Há coisas pequenas que não governam por decreto. Governam porque, sem elas, a vida deixaria de aguentar.




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