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Amar os livros não é o mesmo que ler. Os filhos sabem.

O corredor estreito da Livraria Bertrand da Rua Garrett, em Lisboa, obriga quem entra a andar de lado para deixar passar quem sai. É uma das mais antigas livrarias do mundo ainda em funcionamento — o facto consta das paredes, numa placa discreta — e em certas tardes de outubro fica cheia de gente que parece ali estar por razões completamente diferentes.


Por que os filhos de pais leitores não lêem?


Há quem compre. Há quem folheie durante vinte minutos e saia de mãos vazias. Há quem entre simplesmente para estar naquele cheiro. E há, cada vez mais, gente que tira fotografias às lombadas sem abrir um único volume. A livraria como cenário. O livro como adereço.

Não é uma observação moralista. É um dado.


Imagem de capa do Atlantic Lisbon com composição austera: estante curta de livros fechados e um volume aberto sobre superfície escura, em ambiente silencioso e contemplativo.
Entre a reverência pelo livro e o hábito real de leitura há uma distância que as crianças aprendem a reconhecer muito cedo.

Existe uma distinção que os estudos sobre hábitos de leitura raramente formulam com clareza suficiente: a diferença entre amar livros e ler. As duas coisas não são a mesma. É possível ter uma relação intensa, quase devota, com o objeto-livro — a sua textura, o seu peso, a promessa das suas páginas — sem ter uma prática de leitura consistente. E é possível, também, o inverso: ler com regularidade sem nenhum fetichismo particular pelo artefacto.


A confusão entre as duas coisas tem consequências práticas, sobretudo quando se tenta perceber como é que os hábitos de leitura se formam — ou não se formam — numa criança.


O argumento mais comum diz que o ambiente doméstico decide quase tudo. Que uma casa com livros produz leitores. Que pais que lêem têm filhos que lêem.


Há investigação que apoia esta leitura, e ela não está errada. Mas está incompleta de uma forma específica que raramente se nomeia: o que se transmite, na maioria dos casos, não é o hábito de ler. É a posição social da leitura. A ideia de que livros são importantes. O gesto de os ter. A retórica da sua necessidade.


Isso é muito diferente de transmitir o prazer concreto, físico, quase viciante, de acabar um capítulo às duas da manhã porque não se consegue largar o livro.


Pense-se numa cena comum. Uma família de classe média urbana, escolarizada, com uma estante bem abastecida na sala. Os filhos crescem rodeados de livros. Ouvem, desde pequenos, que ler é fundamental. A escola reforça a mensagem. Os avós oferecem livros no Natal. Há uma biblioteca pública a dez minutos de casa que nunca foi visitada. Os pais, quando questionados, dizem que adoravam ler — usam o imperfeito com uma certa melancolia — mas que agora não têm tempo. O telemóvel está sempre à mão. A série está sempre a meio. O dia é sempre demasiado longo e demasiado curto ao mesmo tempo.


A criança observa — não o que lhe dizem, mas o que fazem.


A observação não pretende culpar ninguém. É apenas o que acontece.


As crianças aprendem comportamentos muito mais do que aprendem declarações. E quando o comportamento observado é — os livros ficam na estante, o ecrã fica na mão — a mensagem recebida não tem nada a ver com a mensagem enviada. A criança percebe, com a crueldade analítica que é específica da infância, que os adultos à sua volta acreditam que ler é importante da mesma forma que acreditam que fazer exercício é importante: com convicção sincera e prática irregular.


Existe uma ideia na economia comportamental — o nudge, a pequena empurra — que parte de uma observação banal: as pessoas não agem de acordo com as suas convicções. Agem de acordo com a fricção. Com o que é mais fácil, mais imediato, mais disponível no momento em que têm de escolher. Richard Thaler ganhou um Nobel por levar isso a sério.


Aplicado à leitura, o argumento tem uma consequência incómoda: não basta valorizar os livros. É preciso que os livros sejam o objeto de menor resistência no ambiente. Que estejam espalhados, acessíveis, normais. Que não sejam reservados a um território especial — a estante da sala, o quarto de estudo, a lista de presentes de aniversário — mas que apareçam na mesa de jantar, no quarto de banho, na mochila do carro, na mesa de cabeceira com um marcador a meio. O livro como objeto de uso, não de reverência.


A reverência é, possivelmente, um dos maiores obstáculos à leitura. Transforma o livro numa categoria moral. E ninguém quer passar o tempo livre a praticar uma atividade moral.


A leitura competia, durante séculos, com um número relativamente pequeno de alternativas. A conversa. O trabalho manual. O passeio. A carta. O jogo de cartas. Em cada uma dessas alternativas havia fricção — o jogo de cartas exigia companhia, a conversa exigia energia social, a carta exigia papel e tinteiro e tempo de resposta. O livro, nesse contexto, era muitas vezes o caminho de menor resistência para quem quisesse estar sozinho e ocupado ao mesmo tempo.


Esse contexto desapareceu. O telemóvel oferece o mesmo — solidão ocupada, estimulação imediata, possibilidade de pausa e retoma a qualquer momento — sem nenhuma das exigências do livro. Sem a necessidade de manter a atenção durante mais do que trinta segundos. Sem a obrigação de seguir um fio narrativo entre sessões. Sem o investimento inicial de entrar num mundo que ainda não se conhece.


Não é que as crianças de hoje sejam menos capazes de ler do que as de gerações anteriores. É que o custo de oportunidade da leitura aumentou de forma dramática. E ninguém fala honestamente sobre isso porque implicaria admitir que o problema não está nas crianças. Está nos adultos que lhes criaram o ambiente.


Existe uma geração — a que tem hoje entre trinta e cinco e cinquenta anos, grosso modo — que aprendeu a ler antes da internet e cresceu com a internet. Que tem uma relação com os livros formada num tempo em que eles eram o principal veículo de ficção e conhecimento disponível a baixo custo, e que vive agora num tempo em que essa função foi quase inteiramente substituída.


Esta geração continua a comprar livros. Continua a ter estantes. Continua a recomendar títulos e a oferecer volumes e a falar de leitura com uma certa saudade de si própria. Mas a verdade é que lê menos. Muito menos, provavelmente, do que imagina.


O resultado é uma espécie de dupla mensagem que as crianças recebem desde muito cedo: os livros são importantes — e os adultos que mais os valorizam são precisamente os que menos tempo passam a lê-los.


A dissonância não passa despercebida. Uma criança de oito anos não tem vocabulário para a articular, mas tem antenas suficientemente finas para a detetar. E o que deteta não é hipocrisia — os adultos são genuínos na sua convicção — mas incoerência. A incoerência que existe entre o valor declarado e o uso real.


A transmissão de um hábito funciona diferentemente da transmissão de um valor. Um valor pode ser ensinado, repetido, argumentado, reforçado por autoridade. Um hábito só se forma por modelagem — pela observação direta de alguém a fazer a coisa, com regularidade, como parte natural do quotidiano.


Um pai que vai à missa todos os domingos transmite o hábito da missa muito mais eficazmente do que um pai que explica a importância da fé sem nunca entrar numa igreja. Um pai que cozinha transmite o prazer de cozinhar de forma que nenhuma conversa sobre gastronomia consegue replicar.


A leitura não é diferente. A criança que vê o pai ou a mãe pegar num livro ao fim do dia, não como performance pedagógica mas como gesto natural de quem quer estar naquele lugar durante uma hora, recebe uma informação que nenhuma conversa sobre a importância da leitura consegue transmitir: que um adulto inteligente, ocupado, com muitas outras opções disponíveis, escolhe isto. Que isto é o que um adulto faz quando finalmente tem tempo para si.


Essa informação vale mais do que qualquer lista de leituras recomendadas.


Há um problema estrutural, contudo, que os argumentos sobre modelagem tendem a ignorar. A modelagem funciona quando o modelo é genuíno. Quando o adulto lê porque quer ler, não porque decidiu que vai ler na frente dos filhos para lhes dar bom exemplo.


A segunda situação — o adulto que força o hábito como estratégia parental — é detetável com a mesma precisão com que a criança deteta todas as outras formas de performance adulta. O teatro da virtude é sempre transparente para quem o observa de fora.


O que isto significa, na prática, é que a formação de leitores exige algo que nenhum guia parental consegue prescrever: que os pais gostem genuinamente de ler. Que a leitura seja, para eles, um prazer real e não um dever cultural. Que o livro que está na mesa de cabeceira esteja ali porque não conseguiram largar a história antes de adormecer, não porque decidiram que era importante ter um livro visível.


E é aqui que o argumento fecha sobre si próprio de uma forma desconfortável: se a transmissão do hábito depende da autenticidade do modelo, e se a geração de pais atuais tem uma relação com a leitura marcada pela dissonância entre o valor declarado e a prática real, então o problema não se resolve com mais estantes nem com mais recomendações de títulos adequados à idade. Resolve-se — se é que se resolve — quando os adultos voltam a ler por prazer próprio, sem agenda pedagógica, sem propósito de exemplo.


O que é uma conclusão estranha. Porque sugere que a melhor coisa que um pai pode fazer pela leitura dos filhos é, simplesmente, ler. Não para eles. Para si.


Em outubro passado, a Bertrand da Rua Garrett estava, numa tarde de quinta-feira, surpreendentemente cheia. Havia uma sessão de autógrafos que tinha terminado há pouco, e as pessoas que tinham comprado o livro saíam com ele debaixo do braço, a maioria sem o ter aberto. No corredor estreito, uma rapariga de talvez dez anos estava sentada no chão, encostada a uma prateleira de bolso, a ler. Não estava à espera de ninguém. Não estava a ser observada — ou não sabia que estava. Tinha os joelhos dobrados, o livro pousado neles, e uma expressão de ausência completa do lugar onde se encontrava.


Ninguém sabe o que a pôs ali. Se foi uma mãe que lia no sofá ou uma professora que lhe deu o livro certo na altura certa ou simplesmente o acidente de ter encontrado uma história que a entrou de forma que não conseguiu resistir. Essas coisas raramente se sabem. O que se sabe é o resultado: uma criança que escolheu, num lugar cheio de distrações, sentar-se no chão e desaparecer dentro de um livro.


O que a fez chegar ali é a pergunta que fica. E é uma pergunta que, quanto mais se estuda o assunto, menos tem resposta certa.


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