A China fecha os seus departamentos de línguas. É geopolítica.
- Aurelian Draven

- há 14 minutos
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A língua como fronteira do mundo
Ao Manyun* lecciona suaíli há mais de vinte anos na Universidade de Comunicação da China, em Pequim. O curso chama-se "Teoria e Prática da Tradução do Suaíli" e existe há seis décadas — mais velho do que a maioria dos seus alunos, mais velho do que muitas das alianças diplomáticas que justificaram a sua criação. Nos últimos semestres, os estudantes começaram a chegar com uma pergunta que ela não esperava tão cedo: para que serve isto, se a máquina traduz em segundos?
A China não está a adaptar o ensino das línguas — está a substituí-lo por máquinas que traduzem sem habitar.
Manyun não os mandou embora. Redesenhou o curso. O objetivo, disse ela num jornal estatal, já não é ensinar a traduzir — é ensinar a dirigir e a avaliar tradutores de IA em tarefas de tradução complexa. Em trinta palavras, uma disciplina de sessenta anos dobrou o joelho.
Em maio de 2026, um inquérito acompanhou setenta universidades chinesas que anunciaram alterações aos seus programas. O padrão era inequívoco: oito licenciaturas em japonês eliminadas, cinco em alemão, cinco em estudos de tradução. Em simultâneo, o Ministério da Educação aprovava nove universidades para oferecer licenciaturas em "inteligência incorporada" — o termo técnico para sistemas físicos autónomos, robôs humanoides, máquinas que atuam no mundo sem intervenção humana direta. Aprovava também programas em "economia de baixa altitude", semicondutores e engenharia de terras raras.
A linguagem das decisões era a linguagem da eficiência. Campos saturados. Mercado de trabalho em mutação. Excesso de capacidade instalada. Nenhuma das justificações mencionava a palavra que estava em causa: poder.
Durante décadas, os departamentos de línguas estrangeiras foram máquinas de produzir mediadores — pessoas que não apenas convertiam palavras, mas que carregavam dentro de si uma estrutura cognitiva formada por outra língua, outro sistema de imagens, outra maneira de dividir o real. Uma pessoa que fala alemão fluentemente não é um chinês que sabe alemão. É alguém que aprendeu a pensar, durante uma fração do tempo, como pensa alguém criado em alemão. A IA elimina a vulnerabilidade que isso implica. Mas elimina também a força.
Traduzir é converter. Interpretar é habitar. Uma máquina pode fazer a primeira com uma fidelidade que nenhum humano alguma vez atingirá na velocidade. A segunda pressupõe que o intérprete entrou em algum momento pelo outro lado — que viveu, mesmo que fugazmente, dentro da lógica do outro, com os seus pressupostos não ditos, as suas omissões reveladoras, as suas formas de não dizer o que se diz.
Os diplomatas sabem isto.
Os jornalistas que trabalham em países estrangeiros sabem isto.
Não é o vocabulário que trouxeram de volta — é a capacidade de perceber quando algo que parece simples na superfície carrega, por baixo, uma estrutura de sentido que não se transfere diretamente. A capacidade de reconhecer o que a máquina não vai assinalar porque não sabe que aquilo é estranho.
Ao reduzir sistematicamente a formação de pessoas capazes de habitar linguisticamente o exterior, o Estado chinês está a fazer uma escolha sobre o tipo de relação que quer ter com o mundo que não fala chinês. Uma relação mediada por máquinas é mais rápida, mais barata, mais escalável, mais controlável. É também mais opaca — não para o exterior, mas para o interior. Porque uma máquina não traz de volta o que não foi programada para reconhecer como relevante.
A professora de Syracuse que o inquérito cita formula o risco com prudência académica: alguns campos podem ser desvalorizados antes de a sua importância de longo prazo ser compreendida. Mas a formulação pressupõe que a importância existe independentemente da decisão — que está algures à espera de ser reconhecida. O que acontece com capacidades que não são apenas desvalorizadas, mas ativamente não reproduzidas durante uma geração?
Uma língua que deixa de ser ensinada não fica adormecida. As pessoas que a sabiam envelhecem. Os departamentos fecham. A cadeia de transmissão parte-se. E quando o Estado quiser voltar a ter pessoas que percebam o interior de outra cultura, não as encontra — porque o mercado que as deveria ter produzido foi declarado obsoleto vinte anos antes.
Aconteceu em vários países ocidentais com o árabe, o persa, o mandarim — línguas que eram "menores" até deixarem de o ser, momento em que se descobriu que formar um especialista demora quinze anos e que a necessidade é imediata. A diferença, no caso chinês, é que não é um departamento que fecha por falta de alunos. É uma política nacional que elimina oito licenciaturas em japonês ao mesmo tempo.
O argumento de que a IA torna as humanidades mais valiosas tem os seus defensores onde se esperaria encontrá-los: o CEO da Nvidia afirma que uma licenciatura em inglês pode ser a mais valiosa na era da IA; o diretor operacional da BlackRock diz que a empresa coloca ênfase crescente em licenciados em história e humanidades. Mas o argumento aplica-se a quem trabalha em inglês, dentro de estruturas ocidentais, em contextos onde a IA já é infraestrutura invisível.
Não responde à pergunta sobre o que acontece a quem precisa de ser a ponte. E ignora uma ironia: se a IA tornou o inglês na linguagem universal da computação, as culturas que não pensam em inglês precisam mais do que nunca de pessoas que o compreendam de dentro — não como utilizadoras de ferramentas de tradução, mas como habitantes temporárias de um sistema de pensamento. A alternativa é usar a IA para aceder ao inglês como se acede a uma base de dados: eficaz para extração, cega para a nuance.
Um curso que antes formava pessoas capazes de pensar em suaíli, de ler literatura suaíli, de perceber a lógica interna das sociedades que falam suaíli — esse curso foi transformado num curso que forma pessoas capazes de supervisionar uma máquina que faz isso.
O resultado superficial pode parecer semelhante: há ainda uma pessoa no processo, há ainda competência humana envolvida. Mas a competência mudou de natureza. Passou de habitação para auditoria.
A habitação produz diplomatas, intérpretes, académicos, negociadores — pessoas que sabem quando a máquina está errada não porque leram o relatório de erros, mas porque alguma coisa soa falso. A auditoria produz gestores de sistemas que são muito bons a verificar o output mas que não têm, por definição, acesso ao que o output pode estar a perder.
O paradoxo é que esta reconfiguração acontece precisamente quando a China mais precisaria de mediadores humanos.
A competição tecnológica com os Estados Unidos intensificou-se ao ponto de tornar o diálogo técnico difícil. As negociações sobre semicondutores, IA, acesso a mercados e padrões tecnológicos globais desenvolvem-se todas num terreno onde a compreensão do outro lado não é uma vantagem académica, é uma necessidade operacional.
A explicação mais benigna é um desfasamento temporal: as decisões foram tomadas com base em dados de mercado de trabalho de curto prazo, e a consequência de longo prazo não foi calculada. A menos benigna — e não menos plausível — é que a mediação humana com o exterior é vista, por alguma fração do aparelho decisório, não como um ativo mas como um risco. Pessoas que habitam o interior de outra cultura tendem a desenvolver opiniões sobre essa cultura que não são facilmente controláveis. Uma máquina que traduz não desenvolve opiniões.
Manyun diz que o objetivo já não é ensinar a traduzir — é cultivar competências para dirigir e avaliar tradutores de IA em tarefas complexas. Mas há uma palavra que desapareceu entre a versão antiga do curso e a nova: habitar. Ninguém dirige e avalia algo que habita. Habitar é perder-se, por um tempo, na lógica do outro — e voltar com algo que não se consegue nomear completamente, mas que transforma a maneira como se percebe o próprio lado.
Daqui a vinte anos, quando alguém precisar de perceber o interior de uma situação que nenhuma máquina assinalou como problemática — porque a máquina não sabia que aquilo era estranho — essa pessoa terá de existir. A pergunta é onde foi formada.
*Ao é o apelido — um apelido chinês, monossilábico, perfeitamente normal.




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