Dois funerais recusados: há uma nova linha contra os maçons?
- Alberto Carvalho

- há 4 dias
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Atualizado: há 3 dias
Segundo relatos da imprensa local, na manhã de 8 de agosto, o féretro de Mario Tarducci permaneceu no exterior da Igreja de San Marco Evangelista, em Camporosso. As exéquias que deveriam realizar-se dentro da igreja tinham sido impedidas pelo bispo de Ventimiglia-Sanremo, Antonio Suetta. O pároco recitou algumas preces no adro e, depois das orações, o filho do falecido pronunciou algumas palavras diante das pessoas que ali se encontravam.
Duas dioceses italianas recusam exéquias católicas a maçons
Tarducci, de 73 anos, tinha sido venerável mestre da loja Mimosa n.º 985, em Bordighera. A diocese soube da sua filiação maçónica quando o funeral já estava organizado, através da imprensa local e das participações de falecimento afixadas publicamente. O comunicado publicado pela Diocese de Ventimiglia-Sanremo informa que Suetta falou com o pároco e com a família e procurou obter instruções de autoridades eclesiásticas superiores. Não as recebeu no tempo disponível.
A decisão acabou por ser tomada com base num caso ocorrido poucas horas antes, em Roma. O comunicado afirma que Suetta seguiu as mesmas indicações dadas pelo cardeal Baldassare Reina, vigário-geral da Diocese de Roma, e invocou o cânone 1184 do Código de Direito Canónico para impedir as exéquias. Segundo o jornal Il Secolo XIX, a intervenção ocorreu quando a cerimónia estava a começar. A diocese não descreve esse momento no seu comunicado.
O funeral romano estava marcado para 7 de agosto, na Basílica de Santa Maria in Montesanto, em Piazza del Popolo, conhecida como Chiesa degli Artisti. O falecido era Bruno Battisti D’Amario, guitarrista, compositor e professor. Trabalhou com Ennio Morricone, tocou em bandas sonoras de filmes de Sergio Leone e ensinou em vários conservatórios italianos.
A sua posição no Grande Oriente d’Italia fora divulgada pela própria organização. A ANSA identificou-o como fundador de uma loja romana e autor do hino oficial do Grande Oriente. O anúncio de morte publicado no portal maçónico também referia essa filiação e os cargos que desempenhara.
O bispo Antonio Staglianò, reitor da basílica e presidente da Pontifícia Academia de Teologia, disse à ANSA que a Secretaria de Estado o alertara para o caso e lhe enviara um artigo do Grande Oriente d’Italia. Não há um comunicado da Secretaria de Estado que confirme o contacto. A informação disponível provém do relato de Staglianò.
Depois de receber o alerta, o reitor contactou Reina e pediu que o serviço jurídico lhe enviasse uma declaração sobre a impossibilidade de realizar as exéquias. O cardeal determinou que o funeral eclesiástico não se realizasse e indicou as condições em que poderia ser recitada uma oração breve. A família reuniu-se com um sacerdote, sem vestes litúrgicas, para confiar o falecido à misericórdia de Deus.
Reina é o vigário-geral de Sua Santidade para a Diocese de Roma e exerce o governo pastoral da diocese em nome do Papa, seu bispo. Segundo esse relato, a ordem para impedir as exéquias partiu de Reina. A Secretaria de Estado enviou o artigo que desencadeou a consulta. O vicariato não publicou a fundamentação jurídica da decisão.
No dia seguinte, Suetta usou o caso romano como referência depois de não ter conseguido obter instruções superiores. O comunicado de Ventimiglia-Sanremo estabelece esta relação, mas não refere qualquer contacto direto entre os dois prelados. As fontes públicas também não documentam uma coordenação pela Santa Sé. A Conferência Episcopal Italiana e o Dicastério para a Doutrina da Fé não publicaram orientações específicas sobre os dois funerais.
O cânone 1184, citado pela Diocese de Ventimiglia-Sanremo, não contém qualquer referência à maçonaria. Na ausência de sinais de arrependimento antes da morte, determina a recusa de exéquias eclesiásticas aos apóstatas, hereges e cismáticos notórios; às pessoas que escolheram a cremação por razões contrárias à fé cristã; e aos restantes pecadores manifestos, quando as exéquias não possam ser concedidas sem escândalo público entre os fiéis. Se houver dúvidas, a decisão cabe ao ordinário do lugar.
A diocese não indicou em que categoria enquadrou Tarducci. O n.º 3, relativo aos pecadores manifestos, é a leitura mais provável, atendendo aos factos divulgados, mas não corresponde a uma fundamentação publicada por Suetta. O comunicado também não informa se foram apurados sinais de arrependimento ou que elementos da vida religiosa do falecido foram considerados.
A filiação maçónica não aparece no cânone como causa autónoma para recusar um funeral. A autoridade eclesiástica tem de enquadrar a situação numa das categorias previstas e verificar a existência de sinais de arrependimento. Se aplicar o n.º 3, terá de considerar manifesta a situação de pecado e entender que a concessão das exéquias provocaria escândalo público entre os fiéis.
A posição doutrinal da Igreja sobre a maçonaria encontra-se noutros documentos. A declaração da Congregação para a Doutrina da Fé de 1983 manteve proibida a filiação em associações maçónicas. Considerou os seus princípios inconciliáveis com a doutrina católica e declarou que os fiéis que lhes pertençam se encontram em estado de pecado grave e não podem receber a comunhão.
Em novembro de 2023, durante o pontificado de Francisco, o Dicastério para a Doutrina da Fé reafirmou essa proibição. O esclarecimento refere os católicos formal e conscientemente inscritos em lojas que tenham abraçado os princípios maçónicos. Nem o documento de 1983 nem o de 2023 determina a recusa automática das exéquias em todos os casos. Também não declara automaticamente excomungados todos os católicos maçons.
Em Roma e Camporosso, as autoridades diocesanas entenderam que a filiação conhecida impedia os funerais marcados. Em agosto de 2022, a Arquidiocese de Fermo chegou a outra decisão depois de uma participação de falecimento ter apresentado um homem como ligado à maçonaria. O arcebispo ouviu a família e avaliou a conduta do falecido nos seus últimos meses.
A explicação divulgada pela cúria de Fermo afirma que a notoriedade da pertença não ficou suficientemente estabelecida. O funeral realizou-se numa paróquia de Civitanova. A autoridade diocesana não deu como provado o elemento que, quatro anos mais tarde, Roma e Ventimiglia-Sanremo consideraram público nos casos de D’Amario e Tarducci.
Outro anúncio, de janeiro de 2025, permite apenas uma comparação incompleta. O Grande Oriente d’Italia comunicou a morte de Lucio d’Oriano, seu Grande Orador Adjunto, e marcou o funeral para a Igreja de San Gennaro, em Pozzuoli. A condição maçónica constava do anúncio. Não foi encontrada qualquer notícia de uma intervenção diocesana, mas também não existe confirmação independente de que a cerimónia se tenha realizado como previsto.
As decisões de Roma e Camporosso foram tomadas durante o pontificado de Leão XIV. Até 12 de agosto, não se conhecia qualquer intervenção pública do Papa sobre esses casos ou sobre um eventual aperto da disciplina funerária aplicável a maçons. A função exercida por Reina na Diocese de Roma não permite atribuir a decisão a uma ordem pessoal do pontífice sem informação que o demonstre.
Em junho, a Conferência Episcopal Nórdica tinha convertido as normas da Igreja sobre a maçonaria em instruções pastorais dirigidas aos párocos. Não é conhecida qualquer ligação institucional entre essa carta e as decisões italianas. Em Camporosso, a referência expressamente identificada pela diocese foi o funeral impedido em Roma no dia anterior.
O Grande Oriente d’Italia reagiu à decisão sobre Tarducci através do seu grão-mestre, Antonio Seminario. Num texto publicado em 9 de agosto, Seminario reconheceu o direito da Igreja Católica a aplicar as suas regras, mas afirmou que a norma deveria ter sido acompanhada pela piedade. Disse ainda que a organização continuaria a procurar o diálogo com o mundo católico.
A Diocese de Ventimiglia-Sanremo anunciou que publicaria uma nota jurídico-pastoral sobre as exéquias eclesiásticas. Até ao fecho deste artigo, em 12 de agosto, essa nota ainda não se encontrava disponível. Sem ela, a fundamentação pública da decisão sobre Tarducci continua limitada à referência genérica ao cânone 1184, incluída no comunicado de 8 de agosto.
Ilustração: Atlantic Lisbon /IA




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