Regulares em Tudo, Exceto no Sexo
Atualizado: 22 de ago.
Em 2018, a Grande Loja Unida de Inglaterra publicou uma orientação sobre os maçons transgénero que merece ser lida devagar. Um irmão que, depois de iniciado, deixa de ser homem, escreveu a Grande Loja, não deixa de ser maçon. A instituição que recusa iniciar mulheres aceita manter nas suas fileiras alguém que já não é homem, desde que o tenha sido quando entrou. A orientação fixa a condição exigida no momento da admissão; o que acontece depois não desfaz a iniciação.
A pergunta habitual: porque é que a maçonaria regular exclui as mulheres?
Já vem enviesada pela resposta que espera receber: uma essência, um carácter, uma incapacidade atribuída ao género. É precisamente essa acusação que a própria tradição maçónica sempre recusou. Um dos poucos pontos em que as fontes internas insistem, desde o século XVIII, é este: a mulher não é excluída «por a considerarmos indigna ou infiel», mas por uma questão de herança de ofício.
Um ofício, não um carácter
A proibição explícita aparece pela primeira vez em 1723, nas Constituições de James Anderson: os admitidos numa loja devem ser «homens bons e verdadeiros [...] nenhum servo, nenhuma mulher». A justificação que a tradição especulativa oferece não é moral; é laboral. A maçonaria operativa, a dos canteiros medievais, só aceitava «homens sãos e robustos, na posse de todos os seus membros», capazes do esforço físico do ofício da pedra. A maçonaria especulativa, ao herdar o ritual do ofício, herdou também o requisito de admissão. A mesma Europa produziu, porém, a partir desse ofício, outras tradições.
A tradição que ficou de fora da história da tradição
Enquanto Londres codificava a exclusão, a França construía, com a mesma lentidão institucional que qualquer costume antigo exige, uma prática paralela. As "loges d’adoption" nasceram nos anos 1740 para acolher esposas e parentes de maçons em graus próprios; em 1774, o Grande Oriente de França já reconhecia quatro desses graus.
A prática sobreviveu à Revolução e, em 1805, teve como presidente a própria Imperatriz Josefina: antes de o Grande Oriente a marginalizar, em 1808, por a considerar incompatível com a sua constituição. Quando o século XIX começou a fixar por escrito aquilo a que hoje se chama «os landmarks antigos da maçonaria», já havia meio século de prática ritual feminina reconhecida por uma das mais antigas obediências europeias.
Um marco sem mapa
A própria doutrina dos landmarks não é tão antiga quanto o nome sugere. O termo vem de uma imagem bíblica: não remover o marco antigo que os pais colocaram, mas nenhuma obediência produziu alguma vez uma lista fechada e universalmente aceite daquilo que esses marcos protegem. A enumeração é a de Albert Mackey, publicada em 1858: vinte e cinco pontos, entre os quais a exigência de que o candidato seja homem. Meio século depois, Roscoe Pound reduziu essa lista a sete. Entre esses sete estava ainda a exigência de que o maçon fosse homem, livre e maior de idade.
Em meados do século XX, a Comissão de Informação para o Reconhecimento da Conferência de Grão-Mestres da América do Norte usou três critérios para avaliar o reconhecimento de uma grande loja: a crença em Deus, a presença de um Livro da Lei Sagrada e a proibição de discutir religião e política dentro da loja. A exigência masculina não figurava entre eles. Continuava, no entanto, entre os sete landmarks de Pound. A comissão estabelecia uma norma de reconhecimento entre obediências; não substituía as listas anteriores.
A condição masculina aparece, assim, em algumas formulações e não noutras. As listas de landmarks e os critérios de reconhecimento coexistem sem formar uma doutrina única. Cada obediência decide quais dessas formulações conserva.
A porta que ninguém pediu para abrir
A resposta das mulheres a esse hábito também não é recente, nem foi pedida como favor. Maria Deraismes, iniciada em 1882 numa loja ligada ao Grande Oriente de França e alvo de escândalo por isso, passou a década seguinte a trabalhar com Georges Martin para construir algo que não dependesse da tolerância de ninguém. A 4 de abril de 1893, dezasseis mulheres, já elevadas aos três graus simbólicos, fundaram em Paris a Grande Loja Simbólica Escocesa de França, Le Droit Humain, a primeira obediência mista, autónoma e autogovernada da história maçónica moderna. Conta hoje cerca de trinta e quatro mil membros em mais de setenta países. Em Inglaterra, o mesmo impulso deu origem, por caminhos próprios, à Honourable Fraternity of Ancient Freemasons e à Order of Women Freemasons, ambas nascidas nas primeiras décadas do século XX. Em França, o que restava das antigas loges d’adoption reagrupou-se, entre 1936 e 1952, na Grande Loja Feminina de França.
Estas obediências organizaram-se fora da Grande Loja Unida de Inglaterra e sem depender do seu reconhecimento.
Um «quase» com um século de idade
Em 1999, a Grande Loja Unida de Inglaterra declarou que a Order of Women Freemasons e a Honourable Fraternity eram regulares na prática, tanto quanto lhe era possível verificar, exceto no que respeitava à admissão de mulheres. Admitiu também que podiam ser consideradas parte da maçonaria quando se falasse da instituição em geral. Não as reconheceu formalmente e manteve a proibição de visita. Segundo a sua própria declaração, a diferença relevante estava nos membros admitidos, não nas práticas das lojas.
Em 2024, as três organizações declararam que seguem as mesmas regras e regulamentos, colaboram entre si e partilham as instalações. A Order of Women Freemasons e a Honourable Fraternity disseram não pretender abandonar a sua composição exclusivamente feminina e apoiar que a Grande Loja Unida de Inglaterra continue exclusivamente masculina. A declaração não estabeleceu o reconhecimento nem a visitação entre as lojas.
A UGLE conserva, dentro do sistema de regularidade que representa, o poder de decidir que obediências reconhece para as suas relações internacionais. Um maçon admitido como homem mantém a qualidade maçónica depois de deixar de o ser. Uma mulher que se apresente como mulher continua impedida de entrar. A primeira situação não exige que a regra de admissão seja alterada; a segunda exige.
Uma soleira em Lisboa
A Grande Loja Feminina de Portugal tornou-se independente a 29 de março de 1997. As primeiras quatro mulheres portuguesas da futura obediência tinham sido iniciadas em França em 1982. A primeira loja portuguesa, Unidade e Mátria, instalou-se em Lisboa no ano seguinte. Quando chegou o momento da independência, havia já quatro lojas.
A cerimónia de fundação teve lugar no Palácio Maçónico do Grande Oriente Lusitano e foi presidida por Veneráveis Mestres francesas. O Grande Oriente apoiava a maçonaria feminina, mas não admitia mulheres nas suas próprias lojas.
O Grande Oriente Lusitano a votar, por dois terços, aquilo que dizia ser um landmark há 223 anos
A 31 de maio de 2025, a Grande Dieta do Grande Oriente Lusitano aprovou, por maioria superior a dois terços, a admissão de mulheres. A decisão passou a permitir as lojas masculinas, femininas e mistas dentro da obediência.





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