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EUA e China: cooperar na IA sem partilhar tecnologia

há 4 horas
5 min de leitura

Os dois países anunciaram um diálogo e um canal para incidentes. Comunicar sobre riscos, limitar determinadas utilizações e desenvolver tecnologia em conjunto são formas diferentes de cooperação.


Os Estados Unidos e a China acordaram criar um canal de comunicação para incidentes relacionados com a inteligência artificial. O anúncio surgiu no final da visita de Xi Jinping a Washington, em setembro de 2026, acompanhado de um compromisso para continuar o diálogo sobre riscos e benefícios da tecnologia.


A Casa Branca apresentou a iniciativa como um diálogo sobre «superinteligência», com novo intercâmbio previsto até novembro. O comunicado chinês utilizou a expressão inteligência artificial e indicou igualmente novembro para a próxima reunião. Ambos anunciaram a criação de um canal para incidentes.


Criar um meio de comunicação não equivale a partilhar modelos, dados de treino ou capacidade de computação. Também não estabelece, por si só, limites comuns ao desenvolvimento tecnológico.


EUA e China: O anúncio de um canal não prova que já funcione


Os comunicados de setembro confirmam o compromisso de estabelecer uma ligação bilateral. Não apresentam, porém, um protocolo detalhado sobre os acontecimentos que devem ser comunicados, os responsáveis por receber as mensagens ou os prazos de resposta.


Esses elementos determinam a utilidade prática do mecanismo.


Também importa o significado de «incidente». Uma falha técnica, uma utilização não autorizada e uma operação deliberada levantam problemas diferentes. O canal pode ajudar a trocar informação sobre o sucedido; a sua existência não determina automaticamente a causa nem a responsabilidade.


A comunicação pode coexistir com a concorrência


O diálogo bilateral não começou em 2026. Em maio de 2024, representantes dos dois países reuniram-se em Genebra para discutir os riscos e a governação da IA. A comunicação chinesa sobre o encontro registou a troca de posições e, simultaneamente, as objeções de Pequim às restrições norte-americanas no setor.


Esse encontro mostra que discutir segurança não pressupõe resolver os conflitos sobre acesso à tecnologia.


Do lado norte-americano, a política de promoção internacional da IA também identifica destinatários preferenciais. Ao apresentar o plano de ação de julho de 2025, a Casa Branca anunciou a intenção de apoiar a exportação de conjuntos de tecnologia norte-americana, incluindo equipamento, modelos, programas e aplicações, para amigos e aliados.


O canal anunciado não estabelece essa segunda forma de cooperação. O compromisso conhecido incide na comunicação, não num programa de desenvolvimento conjunto.



O precedente das decisões nucleares


Uma área de convergência já tinha sido identificada ao nível presidencial. Em novembro de 2024, Joe Biden e Xi Jinping afirmaram a necessidade de manter o controlo humano sobre a decisão de utilizar armas nucleares. O comunicado norte-americano acrescentou a importância de considerar cuidadosamente os riscos da IA no domínio militar.


Joe Biden e Xi Jinping reunidos com as suas delegações, frente a frente numa mesa, em Lima.
Joe Biden e Xi Jinping com as respetivas delegações, em Lima, a 16 de novembro de 2024. Imagem de arquivo do encontro em que foi afirmado o controlo humano da decisão de utilizar armas nucleares; não documenta a visita de 2026. Fotografia: Adam Schultz / Casa Branca. Domínio público nos EUA, obra do Governo federal. Uso editorial, sem implicar apoio da Casa Branca ao Atlantic Lisbon. Origem

O objeto desse compromisso é específico: a decisão de utilização.


Essa delimitação é importante. Um princípio sobre quem autoriza uma ação não resolve automaticamente todas as questões relativas à informação que chega ao decisor ou aos sistemas através dos quais a ordem é transmitida.


O compromisso fornece, contudo, um ponto de partida para discutir outras decisões de consequências estratégicas.


EUA e China: As propostas dos especialistas não são acordos dos governos


Em setembro de 2026, Melanie W. Sisson e Tianjiao Jiang publicaram propostas sobre controlo humano da IA militar. Participam num diálogo informal promovido pela Brookings Institution e pelo Centro de Segurança e Estratégia Internacional da Universidade Tsinghua.


Sisson propôs que a decisão de iniciar ciberataques contra sistemas nucleares de comando, controlo e comunicações, ou contra infraestruturas críticas, permanecesse humana. Jiang defendeu mecanismos adicionais, incluindo um canal militar específico para emergências associadas à IA. A publicação identifica essas recomendações como posições dos autores.


A distinção evita atribuir aos governos limites que estes ainda não anunciaram. Um diálogo informal permite desenvolver propostas, comparar conceitos e identificar problemas.


O trabalho sobre vocabulário ilustra essa função. Desde 2019, os especialistas envolvidos na iniciativa Brookings–Tsinghua têm procurado melhorar a precisão das discussões. Produziram glossários paralelos de termos relativos à IA e à segurança nacional, expressamente apresentados como contributos não oficiais.



Avaliar riscos também exige métodos comparáveis


Outra possibilidade de aproximação está na forma de medir capacidades e riscos. Um estudo apresentado em 2025, baseado em mais de 40 documentos de política pública e governação empresarial dos dois países, identificou convergências em matérias como transparência algorítmica e fiabilidade dos sistemas.


Mesmo com uma pergunta comum, os testes não produzem uma garantia universal de segurança. Numa avaliação de modelos publicada em 2025, o organismo norte-americano de normalização e tecnologia, o NIST, advertiu que as medições abrangiam domínios específicos e podiam não se generalizar a outras tarefas.


Placa de entrada do National Institute of Standards and Technology, no campus de Gaithersburg, com árvores e cabos ao fundo.
Entrada do campus do NIST em Gaithersburg, nos Estados Unidos. Imagem de contexto institucional; data da fotografia não indicada na página de origem. Fotografia: R. Eskalis / NIST. Domínio público nos EUA, obra do Governo federal. A utilização não implica apoio do NIST ao Atlantic Lisbon. Origem · Condições de utilização

Por isso, comparar resultados exige conhecer as condições da avaliação e aquilo que foi efetivamente medido. Uma classificação agregada pode ocultar diferenças entre tarefas, ambientes e recursos disponíveis.


A cooperação sobre métodos pode ser discutida sem implicar a entrega de todos os componentes de um modelo. Mas o grau de acesso necessário depende daquilo que se pretende verificar.


Do entendimento político ao procedimento


Os EUA e a China também participaram na Declaração de Bletchley de 2023, que reconheceu riscos graves dos sistemas avançados e defendeu cooperação internacional na sua identificação e gestão. Esse entendimento estabeleceu princípios partilhados; não criou uma entidade bilateral com poder para autorizar modelos ou investigar cada incidente.


Os compromissos conhecidos pertencem, portanto, a planos distintos. Bletchley fornece uma base multilateral de reconhecimento dos riscos. O entendimento de 2024 identifica uma decisão que deve permanecer humana. O anúncio de setembro de 2026 acrescenta um diálogo e a intenção de estabelecer comunicação sobre incidentes.



O passo seguinte é tornar essa comunicação utilizável: definir o que a desencadeia, quem responde e que informação pode ser transmitida.


Fontes institucionais



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