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O mercado político do ódio útil

6 de jun.
8 min de leitura

Atualizado: 19 de jun.

A política portuguesa não se tornou mais áspera apenas porque as pessoas discutem mais. Essa seria uma explicação demasiado arrumada: redes sociais, comentadores, frases agressivas no Parlamento, menos paciência, mais gritaria. Uma questão de modos, quase. Mas a mudança parece outra. A política começou a oferecer pertença através da rejeição. Já não chega dizer ao cidadão o que pode defender ou esperar. É preciso dizer-lhe contra quem se deve reconhecer.

Imagem editorial do Atlantic Lisbon com parede clara, zona escura e escada estreita, sugerindo tensão política e ressentimento social.
A política do ressentimento cresce onde a representação deixa zonas inteiras na sombra.

Durante muito tempo, mesmo quando falhava, a política prometia alguma coisa. Um partido dizia falar pelos trabalhadores, outro pelas classes médias, outro pelos pequenos empresários, outro pelos reformados, outro pelo interior. Havia sedes locais, jornais, sindicatos, cafés onde se discutia com excesso, mas também com alguma familiaridade. A política tinha corpos à sua volta. Gente que se conhecia, que se zangava, que voltava a encontrar-se.


Hoje, muita dessa matéria adelgaçou. Os partidos ficaram mais leves, as vidas mais instáveis, a governação mais difícil de traduzir numa melhoria que alguém consiga contar ao jantar. Quando a política deixa de produzir confiança por resultados, procura outra cola. A aversão é fácil de transportar.


A polarização afetiva nasce nesse chão já seco. Não é apenas discordar. Discordar é normal; uma democracia sem conflito seria uma repartição pública com eleições. A polarização afetiva começa quando a opinião do outro deixa de parecer errada e passa a parecer uma falha de carácter. O adversário já não é alguém com outra posição sobre impostos, imigração, escola, saúde, habitação ou apoios sociais. Passa a ser cúmplice, vendido, parasita, traidor, fanático, ingénuo, perigoso. A conversa muda de matéria. Já não pergunta apenas o que se defende. Pergunta que tipo de pessoa se é por defender aquilo.


A sondagem ICS/ISCTE/GfK para o Expresso e a SIC deu contorno medível a este clima. O dado sobre PSD e Chega diz mais do que parece. Os simpatizantes sociais-democratas avaliam o partido de André Ventura com cerca de 2,8 numa escala de 0 a 10. Não é só um número baixo. É uma pequena fenda entre o jogo parlamentar e a vida social. Pode haver votos coincidentes, negociações, aproximações de circunstância. Isso não significa que os eleitorados se sintam próximos. Uma direção partidária calcula. Um eleitor, muitas vezes, reage.


Essa diferença pesa. A política institucional gosta de fingir que tudo o que consegue negociar já está socialmente aceite. Não está. Por cima, os partidos podem aproximar-se. Por baixo, os eleitores continuam a ver fronteiras, desconfortos, repulsas. O Parlamento mexe-se por utilidade; a sociedade demora mais tempo a aceitar novas vizinhanças morais. Às vezes não aceita.


O Chega concentra, nessa sondagem, uma carga negativa muito própria. Cerca de 46% das descrições feitas aos seus simpatizantes têm tom negativo. O que está em causa já não é apenas rejeitar um programa, uma proposta fiscal, uma estratégia parlamentar ou um dirigente. É olhar para uma pertença partidária como se ela denunciasse uma disposição íntima. O voto passa a ser lido como sintoma. Quem escolhe aquele partido não escolheu apenas mal, aos olhos de muitos: revelou qualquer coisa.


Seria, ainda assim, demasiado cómodo imaginar que a desqualificação circula só num sentido. Os simpatizantes do Chega também usam, com frequência, linguagem negativa para falar dos apoiantes de outros partidos. Há uma espécie de espelho sujo. Cada campo olha para o outro e vê menos adversários do que impostores. O Chega é hoje o ponto de maior concentração simbólica desta rejeição, mas a linguagem da aversão já se soltou do seu ponto de origem. Espalhou-se. Começou a parecer uma fala comum.


Os números pedem algum cuidado. Portugal não está socialmente partido ao meio. Cerca de 16% dos inquiridos dizem evitar falar de política para não gerar conflitos; cerca de 23% admitem detestar pessoas com opiniões políticas opostas; só cerca de 3% dizem ter cortado relações pessoais por motivos políticos. Ainda há família, trabalho, vizinhança, café, escola, consultas, filas, elevadores, almoços de domingo. A vida comum continua a obrigar as pessoas a uma convivência que a política, deixada sozinha, talvez já tivesse destruído mais depressa.


Mas há uma mudança de ar. Certos temas entraram nas relações privadas como pequenos explosivos. Uma frase sobre imigração, apoios sociais, Chega, professores, sindicatos, juízes, impostos ou habitação pode alterar a temperatura de uma sala. O almoço continua, mas fica outro. Alguém muda de assunto. Alguém faz uma piada. Alguém baixa os olhos para o prato. Alguém guarda uma frase durante semanas.


A democracia perde muito antes do corte formal de relações. Perde quando o desacordo obriga cada um a proteger-se.


A pergunta difícil é saber por que razão esta linguagem encontra tanto material disponível. As redes sociais ampliam, claro. O algoritmo gosta do conflito porque o conflito prende o olhar. A frase que acusa viaja melhor do que a frase que distingue. A nuance não tem grande destino. A prudência faz fraca figura nas redes. Mas culpar apenas os algoritmos é uma forma contemporânea de absolver a política.


A raiva precisa de chão. E chão não falta. Há salários que não chegam. Casas que expulsam. Serviços públicos gastos. Carreiras que começam tarde e se interrompem cedo. Jovens presos numa adolescência económica que se prolonga para lá do razoável. Reformados que contam moedas. Pequenos empresários entalados numa sobrevivência que raramente parece heroica aos olhos de quem legisla. Há muito país cansado antes de haver país zangado.


Nada disto conduz automaticamente ao radicalismo. A frustração também pode gerar organização, solidariedade, exigência democrática, sindicatos mais fortes, associações de moradores, debates sérios sobre habitação, fiscalidade, produtividade, saúde, escola e território. Mas também pode ser desviada. E é mais simples desviá-la para um culpado próximo do que transformá-la numa conversa difícil sobre causas.


Não é o modelo económico, dizem-lhe. Não é a desigualdade territorial. Não é a fragilidade do Estado. Não é a captura de setores essenciais. Não é a precariedade como modo de administrar vidas. São eles. Os de cima, os de fora, os subsídio-dependentes, os corruptos, os imigrantes, os jornalistas, os juízes, os funcionários, os professores, os pobres errados. A lista muda com a conveniência da semana. O processo mantém-se.


O Chega percebeu esta disponibilidade antes de muitos adversários. Não inventou a frustração portuguesa; deu-lhe uma fala curta. Fala para quem se sente esquecido, enganado, diminuído ou simplesmente cansado de ouvir explicações longas para vidas que não melhoram. E oferece uma coisa poderosa: uma explicação sem grande custo intelectual e com recompensa moral imediata. A tua irritação não é apenas irritação; é lucidez. A tua raiva não é excesso; é prova de que viste o que os outros fingem não ver.


A eficácia desta linguagem não depende inteiramente da verdade factual das acusações. Depende da sua serventia emocional. Uma análise séria obriga a falar de produtividade, rendas, imigração laboral, demografia, financiamento dos serviços públicos, regulação, captura, salários, investimento, justiça fiscal, confiança institucional.


A acusação direta oferece outra coisa: rosto, culpa, castigo. A política tornou-se muito competente a arranjar rostos para problemas que não cabem num rosto.


A resposta moralizante falha frequentemente por isso. Chamar fascista a todo o eleitor do Chega pode dar alívio a quem já pensa assim, mas explica pouco e combate menos.


Há dirigentes, discursos e redes que devem ser descritos com dureza quando promovem xenofobia, autoritarismo, intimidação ou violência verbal. Mas isso não obriga a fingir que todo o eleitor radicalizado chegou ali por doutrina organizada. Muitos chegam por ressentimento, medo de desclassificação, humilhação antiga ou sensação de que ninguém lhes deu uma linguagem legítima para a perda. Explicar não é desculpar. É recusar enfrentar um fenómeno real com uma caricatura conveniente.


Também há uma objeção séria à crítica da polarização. Talvez o conflito revele vitalidade. Portugal viveu demasiado tempo numa espécie de consenso mole: alternância previsível, elites que se conheciam bem, promessas parecidas, cidadania intermitente, pouca responsabilização. O conflito pode romper anestesias. Pode expor privilégios. Pode obrigar a escolher. Uma política sem antagonismo corre o risco de se tornar gestão orçamental com cartazes eleitorais.


A diferença está no tipo de conflito. Há conflito que organiza interesses e conflito que fabrica inimigos. Um obriga a falar de salários, rendas, impostos, propriedade, investimento, escola, saúde, transportes, financiamento partidário, trabalho e poder. O outro prefere pureza, ameaça, decadência, traição, invasão, castigo, limpeza. O primeiro pode produzir negociação. O segundo produz dependência emocional de líderes que prometem restaurar uma ordem perdida sem dizer exatamente quem pagará a fatura.


A polarização que cresce em Portugal tem muitas vezes esta segunda característica. Em vez de clarificar conflitos sociais, baralha-os. O trabalhador pobre aprende a desconfiar do beneficiário de prestações. O jovem sem casa olha para o imigrante como concorrente direto. O contribuinte sente o Estado social como peso antes de o reconhecer como proteção. O pequeno empresário transforma a fiscalização no rosto inteiro do Estado. O interior vê Lisboa não como capital, mas como apropriação. A vítima encontra outra vítima e chama-lhe privilégio.


O ódio útil faz isso com eficácia: impede que pessoas com interesses materiais próximos se reconheçam como aliadas possíveis. Cada uma recebe um alvo mais perto, mais frágil e mais visível do que as forças que condicionam a sua vida.


A discussão sobre apoios sociais encaixa aqui com nitidez. A Prestação Social Única, apresentada pelo Governo como forma de agregar várias prestações não contributivas e simplificar o acesso, contém elementos que qualquer Estado social responsável deve saber discutir: critérios, verificação, cruzamento de dados, combate à fraude, avaliação anual, obrigações para beneficiários em idade ativa e com capacidade para trabalhar.


Não há Estado social robusto sem prestação de contas. Um sistema que não distingue situações, não corrige abusos e não se explica aos contribuintes perde legitimidade.


O problema começa quando a reforma social passa a ser apresentada como suspeita permanente. Reformar apoios com base em evidência, proporcionalidade e eficácia é uma coisa. Construir uma acusação pública contra os pobres é outra. Quando a conversa se reduz à oposição entre “quem trabalha” e “quem vive à custa”, a política social deixa de ser técnica. Torna-se disciplinar. O beneficiário deixa de aparecer como cidadão em situação vulnerável e passa a aparecer como potencial infrator. A pobreza deixa de ser condição social e começa a ser tratada como defeito moral sob vigilância.


O poder administrativo raramente precisa de gritar. Vive de formulários, critérios, obrigações, suspensões, cruzamentos, denúncias, prazos, exceções. Pode proteger com rigor ou humilhar com método. A diferença nem sempre está numa frase do diploma; muitas vezes está na cultura política que o envolve.


Se a reforma for apresentada como instrumento de justiça, eficácia e dignidade, pode reforçar confiança. Se for apresentada como caça ao abuso, transforma solidariedade fiscal em ressentimento fiscal. Depois, qualquer corte parecerá uma correção moral.


A esquerda tem aqui uma responsabilidade própria. Durante demasiado tempo respondeu a estas matérias com reflexos defensivos, como se admitir abusos, más execuções ou incentivos mal desenhados fosse conceder terreno ao adversário. Não é.


Um Estado social digno precisa de direitos e deveres, proteção e rigor, universalidade moral e controlo material. Quando a esquerda fala apenas de direitos e evita falar de deveres, entrega os deveres a quem os transforma em humilhação.


A direita moderada joga outro jogo perigoso. Quer recuperar autoridade sem parecer ressentida. Quer disputar eleitores radicalizados sem se confundir inteiramente com a direita radical. Quer endurecer a linguagem mantendo aparência institucional. Mas quando aceita o enquadramento moral do adversário, mesmo com melhor educação verbal, desloca o centro da conversa. A versão limpa raramente vence a versão original. Quem quer punição simbólica prefere ouvi-la sem verniz.


Portugal ainda conserva reservas. Os números não dizem que o país se partiu. Dizem que aprendeu uma linguagem mais áspera, mais desconfiada, mais pronta a classificar pessoas. Ainda se almoça com quem pensa diferente. Ainda se evita a discussão antes de cortar relações. Ainda há distância entre rejeição emocional e rutura social.


Mas a política já descobriu que o ódio é útil, barato e mobilizador. Descobriu que a frustração material pode ser convertida em identidade negativa. Descobriu que a suspeita pode passar das redes para os programas, dos programas para os diplomas, dos diplomas para os balcões.


O risco maior não está apenas no crescimento eleitoral de um partido, nem na agressividade parlamentar que se vê todos os dias. Está na normalização administrativa da suspeita. Quando políticas públicas começam a ser desenhadas menos para resolver problemas do que para satisfazer ressentimentos, a polarização deixa de ser ambiente. Passa a método de governo.


A pergunta, então, já não é apenas se os portugueses conseguem discordar sem se odiar. Essa é a pergunta educada, quase doméstica. A pergunta política é outra: quem ganha poder quando eles deixam de tentar?


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