7 de outubro: as duas chamadas de Avi Gil a Netanyahu
Entre as duas chamadas que Avi Gil fez a Benjamin Netanyahu na manhã de 7 de outubro de 2023 passaram onze minutos. A primeira, situa-a Gil às 6h29, por uma linha não protegida, para acordar o primeiro-ministro e avisá-lo de que o Hamas lançara fogo em grande escala.
A segunda foi às 6h40, na linha segura, e nela disse a Netanyahu que estavam em guerra. Avi Gil era então secretário militar do primeiro-ministro. Deixou o exército em 2024 e quebrou o silêncio em 8 de outubro de 2026, em entrevistas ao Canal 12 e ao Israel Hayom.

Em janeiro de 2024, conta, uma estenógrafa do gabinete do primeiro-ministro disse-lhe que o chefe de gabinete, Tzachi Braverman, lhe mandara buscar a transcrição da chamada das 6h40 e mudar-lhe a hora para as 6h29. A funcionária, segundo Gil, explicou-lhe que não lhe era permitido mudá-la. Gil informou a procuradora-geral, Gali Baharav-Miara, com quem já falara nas primeiras semanas da guerra, ao reparar que pessoas próximas de Netanyahu reuniam material em quantidade desproporcionada. Perguntara-lhe então o que se podia e não podia fazer com as transcrições oficiais.
Braverman foi ouvido pela polícia em novembro de 2024 por suspeita de falsificação e fraude na alteração de registos.
Segundo uma notícia do The Jerusalem Post, publicada em 10 de outubro de 2026 e atualizada no dia seguinte, a investigação policial terminou e o processo aguarda uma decisão do Ministério Público sobre uma eventual acusação. O seu advogado sustenta que Braverman corrigiu um erro de registo. O gabinete do primeiro-ministro negou as suspeitas em 2024.
Ao reagir à entrevista de Avi Gil, o Likud falou de propaganda com motivação política contra Netanyahu.
Segundo Avi Gil, pôr as 6h29 na transcrição da chamada segura podia ter dois efeitos. Um seria mostrar Netanyahu a dar ordens desde o início do ataque. O outro seria sugerir que o que lhe foi dito na segunda chamada já era conhecido durante a primeira, o que daria força à tese de que lhe esconderam informação.
Avi Gil recusa a tese da traição. Diz que houve falhas e que o sistema falhou por completo. A cronologia que apresenta admite alertas que não subiram na hierarquia. Às 3h55, um assistente de informações recebeu um alerta para uma mensagem sobre movimentos suspeitos junto à fronteira de Gaza, classificados como rotineiros, e decidiu não acordar nem o primeiro-ministro nem o secretário militar. Gil só foi acordado às 6h12, por um telefonema do gabinete de Ronen Bar, então diretor do Shin Bet.
O Likud diz que o primeiro-ministro não recebeu nenhum aviso prévio do ataque e que, se tivesse sido informado em tempo real, tudo teria sido diferente. Gil diz que Netanyahu ouviu dos chefes dos serviços tudo o que se sabia, que as propostas de ataques dirigidos em Gaza foram recusadas e que Bar o avisou em julho de 2023, com o primeiro-ministro internado, da possibilidade de guerra. Gil distingue esses avisos de um alerta específico para o ataque de 7 de outubro, que diz não ter existido. Para Gil, a responsabilidade pelas falhas de 7 de outubro é de Netanyahu.
Avi Gil diz que só conhece este caso e que não sabe se houve outras alterações. Recomenda à futura comissão de inquérito e ao controlador do Estado, que já obteve transcrições, que não se fiem apenas nelas e exijam as gravações originais. Do documento que Netanyahu entregou ao controlador, disse que descreve só parte da verdade. Na entrevista integral, transmitida pelo Canal 12 na noite de 8 de outubro, Gil referiu tanto uma alteração como uma tentativa de alteração. No Israel Hayom, afirmou que Braverman escreveu a hora das 6h29 à mão na transcrição. O relato de Gil não constitui uma conclusão judicial sobre a existência de falsificação.
O que Avi Gil guardou nos cadernos
Antes de deixar o cargo, Avi Gil mandou digitalizar o conteúdo integral dos seus cadernos e guardá-lo num computador classificado da Direção de Informações Militares. Diz que o entregará a uma comissão de inquérito de Estado no dia em que ela for criada, juntamente com o seu testemunho. Já não acredita que venha a sê-lo. Esperou três anos e decidiu falar nas últimas semanas, depois de ver o que acontece quando não há inquérito, e apontou o incidente a bordo de um voo da flydubai a 30 de setembro de 2026.

Netanyahu recusa a comissão de Estado, cujos membros são nomeados pelo presidente do Supremo Tribunal, por entender que seria parcial contra o seu Governo, e defende uma comissão escolhida pelos deputados. A oposição prometeu boicotar uma comissão desse tipo.
Na decisão de 23 de setembro de 2026, proferida no processo 4889/24 e nos processos apensos, o Supremo Tribunal determinou a apresentação de uma atualização até 15 de janeiro de 2027. Esse prazo é posterior às eleições de 27 de outubro de 2026.
Fontes institucionais
Supremo Tribunal de Israel — decisão de 23 de setembro de 2026, processo 4889/24 e apensos: prazo para apresentação de uma atualização.
Lei das Comissões de Inquérito — artigos 1.º e 4.º, texto disponibilizado pelo Instituto Israelita para a Democracia: criação da comissão e nomeação dos seus membros.





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