A Pessoa Acaba Onde o Corpo Termina?
- Alberto Carvalho

- há 7 dias
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Na ilusão da mão de borracha, o toque sentido numa mão escondida pode ser atribuído ao objeto colocado diante dos olhos.
Este ensaio integra O Limite do Eu, um dossiê da Atlantic Lisbon sobre o corpo, a consciência e a morte.
A Pessoa Acaba Onde o Corpo Termina?

O investigador aproxima uma lâmina da mão pousada sobre a mesa. A pessoa sentada à sua frente sabe que aquela mão foi fabricada. Viu-a antes de a experiência começar. O braço verdadeiro continua escondido atrás de uma divisória.
Durante alguns minutos, dois pincéis moveram-se ao mesmo tempo: um sobre a mão verdadeira, fora do campo visual, e outro sobre a mão de borracha. A pessoa via as cerdas percorrerem os dedos artificiais e sentia o toque na própria pele. A coincidência começou a alterar o lugar onde a sensação parecia ocorrer.
Alguns participantes passam a sentir a mão de borracha como parte do corpo. Continuam a reconhecer o objeto e recordam onde colocaram o braço. Quando surge uma ameaça, podem reagir como se a mão artificial precisasse de proteção.
O estudo clássico publicado em 1998 chamou-lhe ilusão da mão de borracha. Os participantes observavam o objeto a ser tocado enquanto sentiam um estímulo correspondente na mão escondida. Quando lhes pediam que indicassem a posição da mão verdadeira, muitos apontavam para um lugar deslocado na direção da mão artificial. (doi.org)
Outros investigadores introduziram posteriormente uma agulha ou uma lâmina. A ameaça dirigida ao objeto provocou respostas relacionadas com a ansiedade e com a perceção do estado interno do organismo. A reação tendia a ser mais intensa entre os participantes que sentiam uma maior sensação de pertença à mão de borracha. (pmc.ncbi.nlm.nih.gov)
A experiência depende de condições precisas. Os pincéis têm de se mover em sincronia. A mão artificial deve possuir uma forma plausível, estar orientada de modo compatível com o braço escondido e ocupar uma posição que o cérebro consiga integrar.
Um objeto sem aparência corporal ou colocado numa orientação impossível é incorporado com maior dificuldade. A intensidade da ilusão diminui quando o toque visto e o toque sentido deixam de coincidir. A experiência anterior do organismo limita aquilo que pode ser reconhecido como parte dele. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
A pessoa identifica corretamente os elementos presentes no laboratório. Sabe que a mão verdadeira está atrás da divisória e que o objeto sobre a mesa não possui sensibilidade. A resposta à ameaça ocorre enquanto esse conhecimento permanece disponível.
Agarramos um copo sem confirmar previamente que a mão nos pertence. A posição dos dedos, a força usada e a distância até ao objeto são integradas durante o gesto.
Os olhos acompanham o movimento. Os músculos e as articulações informam sobre a posição. O toque confirma o contacto. O sistema vestibular participa na orientação da cabeça e no equilíbrio. A ação produz, na maior parte das vezes, o resultado esperado.
Na experiência, o toque ocorre na mão escondida enquanto a visão o localiza no objeto sobre a mesa. A sincronização permite que os dois sinais sejam reunidos temporariamente numa representação corporal alterada.
Uma criança estabelece estas correspondências antes de conseguir descrevê-las. Move uma mão, vê o movimento e encontra repetidamente uma relação entre a intenção, a posição e o resultado. O processo continua enquanto aprende a sentar-se, caminhar, alcançar objetos e evitar obstáculos.
Mais tarde, a coordenação raramente exige atenção. Um copo é alcançado sem que a pessoa precise de acompanhar conscientemente todas as etapas do movimento. A dor interrompe essa facilidade.
Um problema no joelho transforma o ato de se levantar numa sequência de escolhas sobre o peso, a flexão e o apoio. A pessoa começa a antecipar degraus, distâncias e o tempo que conseguirá permanecer de pé. Na fala quotidiana, o membro surge como algo que impõe limites: «o joelho não deixa», «as costas não aguentam», «a mão já não obedece».
Quando a doença se prolonga, certos trajetos tornam-se difíceis. O cansaço aparece mais cedo. O apetite, o sono ou a força deixam de acompanhar os hábitos e os projetos que a pessoa conservou.
O rosto refletido pode introduzir outra diferença. A pessoa reconhece-o e, por vezes, estranha a idade que nele aparece. A imagem interior e o corpo visível avançam a ritmos diferentes.
Dizemos «o meu corpo» com a mesma estrutura usada em «a minha casa» ou «o meu casaco». A gramática coloca um possuidor diante daquilo que possui.
Esse proprietário não se deixa localizar fora do organismo. A memória depende do cérebro. A voz que pronuncia o nome nasce no corpo. Os olhos reconhecem lugares e pessoas; as mãos executam decisões. Até uma ideia de interioridade separada é pensada através de processos corporais.
Durante a dor ou a doença, falamos do corpo como algo que começou a impor condições. Dizemos que falhou, deixou de acompanhar ou obrigou a mudar de vida.
Também o vemos como um objeto. As mãos e as pernas aparecem no campo visual. Tocamos o rosto e reconhecemo-nos em fotografias. O organismo ocupa o lugar de onde parte a perspetiva e surge dentro dela.
Nunca vemos diretamente o próprio rosto. Conhecemo-lo através de espelhos, fotografias e reações de outras pessoas. A imagem refletida está invertida. A fotografia foi captada a partir de um ponto que os próprios olhos não podem ocupar.
Apesar dessa mediação, reconhecemos aquela face como nossa e integramos nela alterações que não acompanhámos de momento a momento.
Em experiências com vídeo e realidade virtual, alguns participantes observaram uma representação de si próprios a partir de uma posição exterior enquanto recebiam estímulos táteis sincronizados. Em certas condições, a figura vista começou a atrair a sensação de identidade e a localização indicada pelos participantes alterou-se. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
A identificação com um determinado corpo, o lugar onde alguém sente estar e o ponto visual a partir do qual observa o espaço costumam coincidir. A realidade virtual permite introduzir pequenas discordâncias entre estas componentes.
As deslocações relatadas são limitadas. Os participantes mantêm a identificação geral com o corpo e regressam à localização habitual depois da estimulação. Durante a experiência, alguns situam-se ligeiramente fora da posição física real.
O cérebro recebe a imagem de um corpo observado a partir do exterior e estímulos sentidos no organismo. A sincronização influencia a figura com que a pessoa se identifica e o lugar onde julga encontrar-se.
Um condutor aprende a calcular a largura do automóvel quando atravessa um espaço estreito. O utilizador de uma bengala recebe informações sobre o chão através da extremidade do objeto. Um músico executa movimentos precisos sem dirigir a atenção para cada contacto com o instrumento.
O automóvel, a bengala e o instrumento entram no cálculo da ação. Participam na forma como o corpo mede distâncias, superfícies e movimentos.
Uma peça fabricada pode substituir parte de um membro e passar a integrar gestos quotidianos. A prótese participa na maneira como a pessoa se move, trabalha e se apresenta aos outros. A resposta aos movimentos intencionais e o uso repetido alteram gradualmente o lugar que ocupa na experiência.
Uma mão de borracha sentida durante alguns minutos não reproduz a continuidade de uma mão que cresceu com a pessoa. Com a mão verdadeira, a pessoa aprendeu movimentos, sofreu lesões, ganhou força e perdeu-a. Pode conservar cicatrizes cuja história faz parte da biografia.
A prótese também adquire marcas de uso e participa na formação de novos hábitos. O objeto inicial entra numa continuidade corporal sem se transformar em tecido vivo.
Quando alguém diz «eu», a palavra inclui a voz, a aparência, os gestos aprendidos e os sinais pelos quais é reconhecido. Inclui relações, lembranças, compromissos e projetos que não correspondem a um órgão isolado.
A memória liga acontecimentos vividos por um organismo que mudou fisicamente. O rosto envelhece, o peso varia, as células são substituídas e partes podem ser removidas. A pessoa continua a reconhecer episódios anteriores como pertencentes à sua vida.
Uma família pode continuar a reconhecer a face e a voz de alguém que já não identifica nomes, relações ou episódios partilhados. A aparência mantém-se reconhecível, enquanto a reciprocidade que sustentava aquelas relações começa a desaparecer.
As memórias dependem de condições orgânicas para serem conservadas e recuperadas. Dependem ainda das relações em que foram formadas e nas quais continuam a ter significado.
O corpo, a memória e o reconhecimento pelos outros podem mudar a ritmos diferentes. Nenhum deles fornece, isoladamente, uma definição completa da pessoa.
José Morales descreveu uma separação abrupta. Depois de perder os sentidos, recordou-se de observar o próprio corpo num canto da divisão. Reconheceu-o como seu e situou o ponto de vista noutro lugar.
O episódio foi analisado em [O Médico que Viu o Próprio Corpo no Chão], primeiro ensaio deste dossiê.
O primeiro ensaio deste dossiê examinou os limites clínicos do relato. A entrevista não contém registos que permitam determinar o que aconteceu ao organismo durante a perda de consciência ou identificar o mecanismo que produziu a perspetiva extracorporal.
Dentro da recordação, Morales continuava a falar a partir de um «eu» que identificava aquele corpo como «meu». A relação de pertença permaneceu, embora o observador já não se situasse no organismo visto no chão.
Os fenómenos autoscópicos e as experiências laboratoriais mostram que o cérebro pode produzir perspetivas nas quais o próprio corpo surge como objeto exterior. Esta possibilidade não permite reconstruir o episódio de Morales. Indica apenas que a localização sentida pode afastar-se da posição física.
Nos sonhos, uma pessoa pode correr, cair ou tocar objetos enquanto permanece deitada. O espaço vivido não precisa de corresponder à posição dos membros nem ao quarto onde o corpo se encontra.
Ao acordar, os olhos abrem-se a partir da cabeça pousada na almofada. As mãos aparecem no lugar esperado e o quarto substitui o espaço sonhado. A reorganização é rápida e raramente deixa uma dúvida duradoura sobre a posição do corpo.
Numa experiência autoscópica, a memória da discordância pode permanecer e adquirir outro significado.
Uma experiência produzida num laboratório não responde ao que acontece durante uma paragem cardíaca. Essa questão pertence ao terreno clínico examinado em [O Que Acontece à Consciência Quando o Coração Para?].
A pele separa os tecidos do meio exterior. A ação pode prolongar-se através de um instrumento, de uma bengala ou de uma prótese. Em laboratório, a localização sentida pode deslocar-se alguns centímetros sem que o organismo mude de lugar.
Uma fotografia conserva uma imagem sem possuir a experiência da pessoa fotografada. Alguém próximo guarda memórias partilhadas sem ocupar a consciência do outro. Uma ferramenta prolonga o movimento sem sentir a superfície que toca.
A dor, o equilíbrio, a fome, o cansaço e a temperatura são vividos no organismo. É também através dele que uma pessoa atua sobre aquilo que a rodeia.
O medo acelera o coração e modifica a respiração. A vergonha aquece o rosto. O cansaço altera a atenção e a capacidade de decidir. Os pensamentos variam com o estado corporal, mesmo quando o seu conteúdo parece afastado da matéria.
Na experiência da mão de borracha, a pessoa sabe que o objeto não possui sensibilidade. A sincronização anterior entre a visão e o toque pode provocar uma resposta de proteção quando surge uma ameaça.
Quando os pincéis deixam de se mover em conjunto, a sensação de pertença tende a diminuir. A mão artificial volta a ser tratada como um objeto sobre a mesa.
Depois, o investigador pede ao participante que indique a posição da mão verdadeira, ainda escondida atrás da divisória. Muitos apontam para um lugar ligeiramente deslocado na direção da mão de borracha.
O braço nunca saiu do lugar. A origem exata do desvio indicado pelos participantes continua a ser estudada.
O Limite do Eu — Atlantic Lisbon



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