O Médico que Viu o Próprio Corpo no Chão
- Alberto Carvalho

- 7 de ago.
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Atualizado: 8 de ago.
Linha editorial: Ensaio · Consciência e condição humana · Testemunho e morte · Alberto Carvalho
O Corpo no Canto da Sala
Um médico habituado a certificar mortes afirma ter contemplado o próprio corpo inerte. Sem registo clínico conhecido, o episódio ficou entregue à memória.
Este ensaio integra O Limite do Eu, um dossiê da Atlantic Lisbon sobre o corpo, a consciência e a morte.
José Morales levantou-se de uma sesta durante um fim de semana e perdeu os sentidos. A recordação seguinte situa-o de pé, à altura habitual dos próprios olhos. O seu corpo estava noutro ponto da divisão.
Via-o num canto, entre um móvel e a parede. Parecia inerte. Morales diz que não respirava. Reconheceu-o e concluiu que estava morto.
Durante cerca de quarenta anos, sobretudo como médico rural, fora chamado a casas onde alguém acabara de morrer. Aproximava-se do corpo, procurava os sinais necessários e certificava o óbito. Na experiência que descreve, aplicou esse conhecimento à figura caída. A ausência de movimento e de respiração tinha, para ele, um significado profissional preciso.
O corpo observado era o seu.
A profissão explica parte da força do testemunho. Um médico conhece os sinais exteriores associados à morte e dispõe de vocabulário para descrever alterações do estado de consciência. Essa competência termina onde começam os dados que ninguém recolheu.
Morales estava inconsciente. Não podia medir a própria tensão arterial, verificar o ritmo cardíaco, avaliar reflexos ou registar a atividade cerebral. A entrevista também não esclarece quanto tempo durou a perda de consciência. Não apresenta um eletrocardiograma, um registo de paragem cardiorrespiratória ou uma avaliação feita por outra pessoa.
Desconhece-se se alguém o encontrou durante o episódio, verificou a respiração ou iniciou manobras de reanimação. A expressão «morte clínica» exigiria elementos que não aparecem no excerto.
O que existe é uma sequência narrada: Morales levantou-se, perdeu os sentidos e recorda ter visto o próprio corpo sem respirar. A conclusão de que estava morto formou-se dentro dessa experiência. O estado fisiológico pode ter sido grave, breve ou diferente daquilo que ele julgou observar. A entrevista não permite reconstruí-lo.
A memória é a única fonte disponível para aquele intervalo.
Quando alguém recupera uma recordação, o cérebro não reproduz necessariamente uma gravação preservada. Reúne fragmentos, sensações, conhecimentos anteriores e explicações posteriores. A ordem dos momentos pode alterar-se. Duas partes separadas podem regressar como uma sequência contínua.
A perda de consciência torna esse processo particularmente difícil de examinar. A própria pessoa não observou continuamente aquilo que lhe aconteceu. A memória pode ter-se formado antes da inconsciência completa, durante a recuperação ou enquanto o cérebro reorganizava a perceção do corpo e do espaço.
Morales pode ter vivido uma sensação nítida de separação corporal sem conseguir localizar o instante em que a imagem surgiu. A convicção com que a descreve mostra a presença da recordação na sua vida; não permite determinar a sua origem.
A formação médica terá fornecido parte das palavras com que interpretou o episódio. Pode também ter influenciado a forma assumida pela memória. O material disponível não permite saber em que medida isso aconteceu.
Outro narrador talvez descrevesse apenas um corpo imóvel. Morales reconheceu sinais que associava à morte porque os tinha procurado durante décadas nas pessoas que examinara. Uma tradição religiosa ofereceria a imagem da alma separada do corpo. A neurofisiologia dispõe de conceitos como dissociação, alteração da representação corporal e experiência autoscópica.
A possibilidade de alguém sentir que observa o próprio corpo a partir de outro lugar levanta uma questão diferente da morte: [até onde coincide a pessoa com o corpo que reconhece como seu?]
As sensações de estar fora do corpo surgem em contextos diferentes. Foram relatadas durante o sono, em estados associados à anestesia, em crises neurológicas e noutras alterações da integração sensorial. Algumas pessoas sentem que se observam de cima ou a partir de um ponto da divisão onde o corpo não se encontra.
A investigação relacionou parte destes fenómenos com perturbações no modo como o cérebro combina a informação visual, vestibular e corporal. Redes próximas da junção temporoparietal participam na construção da posição do corpo e do ponto a partir do qual uma pessoa sente que observa o espaço.
A visão pode indicar uma localização enquanto o equilíbrio, os músculos e as articulações fornecem informações que deixaram de coincidir com ela. A posição sentida afasta-se então da posição física do organismo.
Um mecanismo desta natureza permite compreender a formação de uma perspetiva extracorporal sem exigir uma deslocação física da consciência. Aplicá-lo ao episódio de Morales exigiria dados neurológicos que a entrevista não contém.
Talvez tenha ocorrido uma perturbação breve da representação corporal. A imagem pode ter surgido durante a recuperação da consciência. Também é possível que partes diferentes da experiência se tenham formado em momentos distintos. O material disponível não permite escolher uma destas possibilidades como explicação do caso.
Os estudos sobre experiências próximas da morte enfrentam uma dificuldade semelhante. Dependem de sobreviventes capazes de falar depois de situações críticas. Algumas pessoas descrevem paz, luz, alterações da perceção do tempo, encontros com figuras conhecidas ou a sensação de terem observado a própria reanimação. Outras não conservam qualquer memória.
As sequências variam, tal como o conteúdo, a condição clínica, a medicação administrada, o período de inconsciência e o momento da entrevista. Sob a mesma designação reúnem-se experiências que podem ter ocorrido em circunstâncias fisiológicas muito diferentes.
O estudo multicêntrico AWARE II acompanhou 567 casos de paragem cardíaca em ambiente hospitalar. Sobreviveram 53 pessoas e 28 puderam ser entrevistadas. Onze relataram memórias ou perceções consideradas sugestivas de alguma forma de consciência durante ou em torno da reanimação. Os investigadores distinguiram experiências associadas à recuperação durante as manobras, recordações posteriores à reanimação, conteúdos semelhantes a sonhos e relatos interpretados pelos participantes como transcendentes.
Em alguns dos doentes monitorizados surgiram padrões de atividade elétrica cerebral que os investigadores consideraram compatíveis com funções cognitivas. Foram registados até 35 a 60 minutos depois do início da reanimação. Esses sinais não identificam o conteúdo vivido por cada pessoa nem demonstram que uma consciência separada tenha observado a sala.
Muitos sobreviventes morrem antes de poderem ser entrevistados. Outros permanecem demasiado debilitados ou não recordam o período crítico. Mesmo quando existe monitorização, os equipamentos registam o ritmo cardíaco, a circulação, a oxigenação e a atividade elétrica. Nenhum desses dados mostra diretamente uma imagem interior.
Depois da recuperação, o investigador recebe palavras. Pode comparar relatos, classificar elementos recorrentes e relacioná-los com dados clínicos. Continua a ser difícil estabelecer, em muitos casos, o momento exato em que uma imagem foi formada e guardada.
Morales conhecia bem o outro lado desse problema. Quando certificava uma morte, trabalhava com sinais observáveis. Examinava o corpo e registava uma conclusão. O certificado precisava de uma identidade, de uma hora e da verificação clínica exigida.
Na experiência que relata, conservou a posição de quem examina. Acreditava estar de pé enquanto o corpo permanecia no chão. Aplicava os critérios profissionais à figura caída, embora não houvesse outro médico na divisão a avaliar o seu organismo.
Uma pessoa inconsciente não pode examinar-se de forma independente. A cena recordada contorna essa impossibilidade colocando o observador noutro ponto do quarto.
Morales descreve uma localização concreta. O corpo estava entre um móvel e uma parede. A altura do olhar correspondia aproximadamente àquela que teria se estivesse de pé. A experiência preservou uma perspetiva corporal habitual, apesar de a posição dessa perspetiva já não coincidir com o organismo visível.
Na vida quotidiana, essa coincidência parece automática. Olhamos para as mãos e reconhecemo-las. Movemos um braço sem confirmar visualmente cada ordem. Uma dor na perna é sentida como nossa.
Essa continuidade depende da combinação de vários sinais. A visão mostra a posição dos membros. Os músculos e as articulações fornecem informação sobre o movimento. O sistema vestibular acompanha a posição da cabeça e o equilíbrio. O toque ajuda a estabelecer os limites do corpo.
Uma falha de integração pode alterar a experiência de localização. Há pessoas que deixam de reconhecer um membro como seu. Outras sentem uma presença próxima ou colocam o ponto de vista fora do lugar ocupado pelo organismo. O corpo não mudou de posição. Mudou a experiência através da qual a pessoa se localiza.
Morales reconheceu a figura caída como sua a partir de outro ponto da divisão. A experiência conservou a identidade do corpo e deslocou o lugar de onde essa identidade era reconhecida.
A linguagem quotidiana contém uma pequena distância semelhante. Dizemos «o meu corpo», «a minha mão» ou «o meu cérebro», como se existisse um proprietário separado. A biologia encontra a pessoa no organismo, nas suas funções e na sua continuidade. Certos estados de consciência permitem que esse organismo seja vivido como objeto.
O testemunho de Morales regista um momento em que a posição sentida deixou de coincidir com o corpo reconhecido como próprio. Não esclarece se uma pessoa pode existir para além desse corpo.
Alguns ouvintes interpretarão a separação como a saída da alma. A investigação neurofisiológica procura mecanismos ligados à representação corporal, à memória e à recuperação da consciência. O relato, isoladamente, deixa em aberto a questão metafísica e o mecanismo clínico específico.
Morales conhece a experiência que recorda. O acontecimento fisiológico precisaria de ser reconstruído a partir de dados exteriores.
A condição de médico costuma ser usada para atribuir maior valor probatório a relatos deste género. O raciocínio parte da ideia de que um profissional habituado a reconhecer a morte dificilmente confundiria uma experiência comum com uma separação efetiva entre a consciência e o corpo.
Um médico reconhece uma paragem cardíaca quando examina outra pessoa ou consulta registos adequados. A imagem do próprio corpo imóvel durante uma perda de consciência não fornece essa confirmação. A precisão da descrição e a existência de dados clínicos são matérias diferentes.
Morales contou o episódio depois de ter recuperado. Entre a queda e a entrevista, retomou a perceção habitual do corpo, organizou a memória e encontrou uma forma de narrar o que lhe acontecera.
Não sabemos se a cena regressou inteira. Pode ter surgido por partes e adquirido uma sequência mais definida ao longo do tempo. Cada nova narração também pode reforçar certos detalhes sem que a pessoa tenha consciência dessas alterações.
Os acidentes, as doenças graves e os momentos de medo extremo transformam-se frequentemente em referências biográficas. A pessoa passa a organizar a vida em torno do que existia antes e do que mudou depois. A explicação escolhida começa a acompanhar a própria recordação.
Morales regressou ao episódio com o conhecimento de quem certificara mortes. Esse conhecimento ajudou-o a nomear a ausência de respiração e a imobilidade. O que se passara no organismo durante a inconsciência continuava fora do seu alcance.
Na entrevista, o domínio da anatomia e da fisiologia surge como garantia de credibilidade. Sustenta a interpretação profissional dos sinais que Morales julgou ver. A determinação do estado clínico dependeria de outra fonte.
Uma experiência inteiramente produzida pelo cérebro pode alterar profundamente a vida de quem a atravessa. A dor, o medo, o sonho e a memória dependem da atividade cerebral e produzem consequências concretas.
Morales viveu subjetivamente uma cena em que contemplava o próprio corpo. A afirmação de que o organismo esteve morto continua sem confirmação clínica no material conhecido. Também a nitidez da memória deixa por esclarecer o mecanismo que a produziu.
O problema torna-se ainda mais preciso quando existem paragem cardíaca, reanimação e registos fisiológicos. [O que acontece à consciência quando o coração para?] é precisamente a questão examinada no último ensaio deste dossiê.
A medicina poderá melhorar a monitorização durante a reanimação, estudar durante quanto tempo permanecem determinadas formas de atividade cerebral e compreender melhor as experiências autoscópicas. Cada caso continuará dependente dos dados recolhidos enquanto ocorria.
No episódio relatado por Morales, esses dados não aparecem. Há um homem que se levantou de uma sesta, perdeu os sentidos e regressou com a memória de ter observado o próprio corpo num canto da divisão.
Depois, sentiu uma espécie de sucção, como se fosse afastado do lugar onde acreditava estar. O relato prossegue para além do quarto. A questão clínica ficou junto do corpo.
Durante décadas, Morales certificara mortes através de sinais que podia examinar. Naquele fim de semana, a única testemunha capaz de contar o intervalo era precisamente a pessoa que perdera os sentidos.
O Limite do Eu — Atlantic Lisbon




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