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A Crimeia Está às Escuras e Quase Ninguém na Rússia Sabe

Há semanas, centenas de milhares de pessoas na Crimeia vivem sem eletricidade durante dias seguidos. A forma como uma comunidade aprende a funcionar ao lado do que prefere não ver diz mais sobre a condição humana do que sobre a guerra que a causou.


Uma mulher risca um fósforo na escuridão, três vezes antes de pegar. A chama, pequena, ilumina só as mãos e a mesa da cozinha, não o resto da casa. Já sabe de cor onde fica a vela, sabe quantos passos há até à porta sem precisar de ver, e sabe também, com a mesma naturalidade prática, que esta noite vai ser outra vez assim.

Figura escura contra um fundo de neblina e luzes fortes, segurando um objeto de metal junto ao corpo.
 Imagem ilustrativa de uma figura numa zona escura, iluminada por luzes fortes ao fundo.

Não é a primeira semana sem luz, nem promete ser a última. A rotina da escuridão instalou-se depressa: o telemóvel poupado para o essencial, a comida cozinhada antes de o gerador desligar, as crianças que aprenderam a não perguntar quando volta a eletricidade, porque a resposta nunca é satisfatória. Há também um som que se aprende a reconhecer no escuro, o zumbido de um gerador a trabalhar longe, que tanto pode ser um vizinho com sorte como um aviso de que, esta noite, vale a pena poupar a bateria do telemóvel para o que for mesmo preciso.


A cena podia pertencer a qualquer século, mas está a acontecer agora, no norte da península da Crimeia. Desde junho, uma campanha ucraniana com drones tem atingido a rede elétrica da região, sobretudo junto a instalações militares russas, e por volta de finais de julho todas as cidades e vilas maiores do norte da península já tinham passado por apagões completos. Numa única semana, segundo um diplomata russo citado pela agência estatal Tass, os ataques cortaram a eletricidade a 1,4 milhões de pessoas, numa população que antes da guerra rondava os 2,5 milhões. Uma análise de imagens de satélite feita pelo Meduza, um órgão de comunicação social em língua russa, registou, no início de julho, uma iluminação noturna inferior a um quinto do habitual.


Os apagões não pouparam ninguém: nem o litoral turístico do sul, onde a água canalizada passou a chegar só três horas por dia, nem as estações de comboio do interior, fechadas por falta de energia, nem os pequenos negócios que penduraram cartazes a explicar a ausência de luz. Numa cidade do norte, depois de duas semanas sem eletricidade, os moradores começaram por fim a ter duas horas de corrente por dia, mas a uma voltagem alta o suficiente para estragar eletrodomésticos. Numa localidade costeira, as autoridades reinstalaram cabines telefónicas públicas, um objeto que a maioria das pessoas mais novas nunca tinha usado, para que as famílias pudessem comunicar depois de as redes móveis caírem junto com a rede elétrica.


Dentro da mesma escuridão há também diferenças de peso. Quem vive em casas isoladas, com quintal, consegue às vezes ligar um gerador; quem vive num prédio, normalmente não. Mesmo entre os que têm gerador, o combustível ficou caro ao ponto de se tornar um cálculo diário: gerar eletricidade durante cinco horas pode custar cerca de vinte dólares, uma despesa pesada para o rendimento médio russo, e mesmo assim não chega para o frigorífico, só para carregar telemóveis e manter uma luz acesa. O peso da escuridão acaba por seguir linhas sociais que já existiam antes de a luz se ir embora. Já este verão, antes mesmo do pico dos apagões, escassezes graves de gasolina tinham levado alguns turistas e residentes a decidir sair da península mais cedo do que planeavam.


Na quarta semana de apagões, as autoridades locais ainda prometiam equipar cada hospital com um gerador próprio, uma garantia que devia ter existido muito antes de a crise chegar a este ponto. A Rússia ofereceu um pagamento único, equivalente a cerca de 190 dólares, às famílias sem eletricidade durante mais de 48 horas, um valor que não cobre sequer o custo de comprar e alimentar um pequeno gerador durante um mês. Nas fábricas paradas do norte, alguns trabalhadores perderam o emprego, outros ficaram apenas suspensos, à espera de uma retoma sem data. Às empresas ligadas ao turismo, mais visíveis e mais fáceis de compensar politicamente, foi prometido algum apoio financeiro. Sobre as fábricas fechadas, as autoridades não se pronunciaram.


Do lado ucraniano, a lógica é declarada sem rodeios. As forças que comandam os ataques falam abertamente em enfraquecer a capacidade militar russa na península, ocupada pela Rússia desde 2014, e o comandante das forças de drones ucranianas chegou a gabar-se, publicamente, de ter "desligado o interruptor" da Crimeia, depois de mais de cem infraestruturas energéticas atingidas só nas primeiras três semanas de julho. O presidente ucraniano já veio dizer que a população civil da península não é o alvo, ainda que a distinção entre infraestrutura militar e vida civil, numa rede elétrica que serve as duas coisas ao mesmo tempo, seja mais fácil de anunciar do que de manter.


A quilómetros dali, do outro lado da mesma península, ou mais longe ainda, do outro lado da fronteira russa, quase ninguém sabe que isto está a acontecer. A televisão estatal evita mostrar imagens das zonas afetadas e garante que as necessidades da população estão a ser satisfeitas. Blogueiros de estilo de vida publicam vídeos de praias e pores do sol na Crimeia para contrariar o que descrevem como propaganda ucraniana. Um encontro do presidente russo com responsáveis governamentais, este mês, tocou no tema do abastecimento de combustível à península, sem uma palavra sobre os ataques com drones da noite anterior, que tinham voltado a deixar o norte às escuras. Quem seguia os registos oficiais da reunião registou a ausência; para a generalidade dos telespectadores russos, porém, a Crimeia continuava, nesse dia, a ser apenas mais uma região a precisar de gasóleo. Ao lado dos apagões, constrói-se ali uma segunda realidade, com a função de tornar a primeira dispensável de se ver.


Um jornalista russo exilado que estuda a propaganda televisiva do seu país explica o mecanismo em termos simples: mostrar a escala real da crise obrigaria o poder a admitir uma fragilidade que prefere esconder dos próprios cidadãos. A explicação é sóbria e, por isso mesmo, incompleta, porque a mesma escolha, entre ver e não ver, pertence tanto ao poder como às pessoas que vivem dentro da crise, que decidem todos os dias, sem que ninguém lhes peça, quanto da verdade cabe num dia normal e quanto teria de ser adiado só para se conseguir continuar a funcionar. Esse padrão já apareceu antes, noutras cidades, sob outros cercos.


Durante o cerco de Leninegrado, com a cidade cercada pelas forças alemãs, cortada de comida e de aquecimento durante quase novecentos dias, a orquestra da rádio local ensaiou e estreou, no verão de 1942, uma sinfonia inteira, com músicos que desmaiavam de fome durante os ensaios e outros que morreram antes da estreia. O concerto foi transmitido pela rádio para toda a cidade, e também, através de altifalantes viradas para as linhas alemãs, para os soldados que a cercavam. Funcionava, entre outras coisas, como prova de que a cidade continuava a existir enquanto cidade, e não apenas enquanto população sitiada.


Em Londres, durante os bombardeamentos alemães da Segunda Guerra Mundial, o governo britânico distribuiu cartazes com o lema hoje reproduzido até à exaustão, Keep Calm and Carry On, mas a continuidade real veio de outro lado: dos cinemas que reabriam horas depois de um ataque, dos autocarros que voltavam às rotas antes de os escombros estarem removidos, das lojas que despachavam clientes com a fachada ainda de pé só por um fio. Manter a rotina custava esforço e organização, mas garantia às pessoas alguma decisão sobre a própria vida, mesmo que fosse só decidir que autocarro apanhar.


O cerco de Sarajevo durou quase quatro anos, na década de 1990, com franco-atiradores a disparar sobre quem atravessasse certas ruas. Mesmo assim, a cidade manteve temporadas de teatro, exposições de arte e um desfile de moda com roupa cosida a partir do que havia disponível. Estes gestos não travavam balas, mas serviam para outra coisa, mais difícil de medir e provavelmente mais necessária.


O mesmo mecanismo aparece em escalas muito mais pequenas, dentro de uma única casa. Famílias que evitam, à mesa de jantar, o assunto que todos sabem que existe mas ninguém nomeia; casais que mantêm as rotinas de sempre, o café da manhã, o comentário sobre o trânsito, enquanto um dos dois sabe que algo mudou e ainda não encontrou as palavras certas. É a esse gesto, normalmente, que se chama cuidado, não mentira.


Leninegrado e Londres continuaram a funcionar por decisão de quem vivia dentro do cerco, gente a decidir, todos os dias, continuar a ser cidade. Na Crimeia atual, a normalidade que aparece nos ecrãs é fabricada a centenas de quilómetros de distância, por decisão de quem nunca passou uma noite sem luz.


A construção dessa segunda realidade também não é perfeita, nem unânime. Nas redes sociais do responsável russo nomeado para a Crimeia, moradores da península têm deixado, nos últimos meses, comentários de frustração que a moderação não consegue apagar depressa o suficiente. Um homem do sul da península, entrevistado por um jornal norte-americano, admitiu não perceber como uma rede elétrica podia ter ficado tão indefesa, e disse não saber como continuar a viver sem conseguir comunicar com a família; confirmou as suas próprias palavras ao jornal, mas pediu para não ser identificado, com medo das consequências. Ao mesmo tempo, um pedido de ajuda publicado por um empresário local, a pedir água potável para o norte, foi partilhado o suficiente para gerar uma pequena rede informal de entregas, com vídeos de centenas de pessoas, na maioria idosas, em fila para recolher os bidões.


Dentro do próprio apagão, há ainda uma terceira camada da mesma escolha, mais pequena e mais compreensível do que qualquer uma das outras duas. Um cabeleireiro do centro da península continuou a cortar cabelo a meio de um apagão, com tesoura e uma máquina a pilhas, iluminado só pela luz que entrava pela janela; disse depois que, enquanto tivesse essa luz, estava bem. Uma jovem mãe, instalada há poucos anos numa cidade do norte, continua a acreditar que as autoridades vão resolver a situação, ainda que também admita que o que as pessoas precisam mesmo é do fim da guerra, um assunto que a maioria à sua volta prefere não tocar.


Tratar todas estas formas de continuar como a mesma coisa simplifica demasiado a diferença real entre elas. Continuar a cortar cabelo à luz da janela é uma forma pequena e legítima de manter alguma soberania sobre o próprio dia, quando quase tudo o resto foi tirado. Evitar em voz alta o assunto da guerra, num país onde fazê-lo pode ter consequências legais, é sobrevivência, não ingenuidade. Mas quando é o próprio Estado a decidir, por quem quer que seja, o que essa pessoa pode ou não saber sobre a dimensão real da própria crise, a escolha deixa de ser dela. Passa a ser feita em nome dela, o que é uma coisa bastante diferente. A família que evita o assunto à mesa de jantar mantém, pelo menos, a decisão dentro de si mesma; é ela quem decide o que dizer e quando.


A mulher que risca o fósforo na escuridão sabe exatamente o que falta, e sabe também, com a mesma clareza, o que não vai voltar tão cedo. O gesto de acender a vela organiza a vida à volta da crise, um dia de cada vez, da forma como isso é possível fazer-se sem esperar por ninguém.


A vela ilumina a mesa da cozinha, os pratos ainda por lavar, um calendário na parede com um mês inteiro riscado a caneta. Lá fora, algures na mesma península, um ecrã mostra imagens de uma praia ao pôr do sol, sem gente, sem apagões, só o mar a repetir-se como sempre repetiu. A mulher apaga o fósforo com dois dedos, sem pressa, e senta-se à mesa para comer o que ainda está morno.


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