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Sucessão de Putin: a Chechénia já prepara o depois

há 5 dias
6 min de leitura

Entre 18 e 20 de setembro de 2026, a Chechénia elege o seu líder. Ramzan Kadyrov, no poder desde 2007, concorre a um quinto mandato, depois de Vladimir Putin lhe ter dado publicamente o seu apoio em abril. Pouco mais de um milhão e meio de habitantes são chamados às urnas. Ninguém espera que delas saia uma surpresa.


Há, porém, uma coisa menos previsível a acontecer em Grozny, e não depende do resultado.


Kadyrov chega a estas eleições depois de anos de notícias sobre problemas graves de saúde. Desde 2019, sucedem-se relatos que referem necrose pancreática e um transplante renal falhado. No final de 2025, imagens públicas mostraram-no com dificuldades visíveis de mobilidade. Em dezembro, anunciou que voltaria a concorrer; confirmou a decisão em fevereiro.

Imagem vertical sobre o futuro do poder na Rússia, destacando Vladimir Putin, Moscovo e a Chechénia.
A sucessão política na Chechénia contrasta com a ausência, em Moscovo, de um sucessor visível para Vladimir Putin.

Ao mesmo tempo, Adam Kadyrov foi subindo.


Tem 18 anos e é, desde 2025, o Secretário do Conselho de Segurança checheno. Apti Alaudinov e Magomed Daudov, ambos ligados à estrutura de poder do pai, aparecem entre os nomes apontados para assegurar uma eventual transição até que Adam possa ocupar plenamente o lugar. Nada garante que seja esse o desfecho. Os cargos, as promoções e os homens colocados à sua volta mostram, pelo menos, que a possibilidade deixou de pertencer apenas à especulação sobre o futuro de Ramzan Kadyrov.


E esta, está a ser preparada dentro do próprio aparelho.


Por isso, o quinto mandato diz menos sobre os próximos anos de Kadyrov do que poderia parecer. A eleição prolonga um poder conhecido; os movimentos que rodeiam o filho procuram responder a uma situação que nenhuma eleição resolve: o que acontece quando esse poder perde o homem que o concentra.


Em Moscovo, a pergunta existe há muito mais tempo e continua sem uma resposta comparável.


Putin governa a Rússia há mais de um quarto de século, descontado o período em que ocupou formalmente o cargo de primeiro-ministro antes de regressar ao Kremlin. À sua volta, existem serviços de segurança, militares, governadores, grandes interesses económicos e homens que atravessaram diferentes fases do regime. Nenhum deles foi transformado publicamente por Putin no homem que vem a seguir.


Também não há um descendente a percorrer, à vista de todos, os degraus do aparelho.


Isto pode ser deliberado. Um sucessor reconhecido demasiado cedo começaria inevitavelmente a ser observado como tal. Pessoas cuja posição depende hoje de Putin teriam uma referência para o dia seguinte. Algumas aproximar-se-iam. Outras tentariam limitá-lo. Decisões tomadas em função do atual presidente passariam a incorporar um cálculo adicional, sobretudo num sistema em que a proximidade do centro continua a determinar carreiras, influência e segurança.


Putin não precisa de resolver esse problema enquanto permanecer no Kremlin. Em certo sentido, tem interesse em que ninguém consiga resolvê-lo por antecipação.


Grozny seguiu outro caminho. Adam Kadyrov não é ainda o sucessor formal do pai, e entre isso e a transmissão efetiva do poder existem obstáculos suficientes para impedir qualquer certeza. Mas a estrutura começou a mexer antes de ser obrigada a fazê-lo. É um detalhe importante numa república em que o poder de Ramzan Kadyrov já adquiriu características familiares muito mais visíveis do que aquelas que a natureza formalmente eletiva do cargo deixaria supor.


Daí uma situação pouco habitual dentro da Federação Russa. A experiência mais explícita de preparação do futuro de um poder pessoal está a decorrer numa pequena república do Cáucaso que Moscovo mantém dentro da sua órbita e cujo sistema político se tornou inseparável da família Kadyrov. No Kremlin, onde a questão sucessória teria consequências incomparavelmente maiores, o futuro continua praticamente sem rosto.


A guerra na Ucrânia prolongou o tempo dessa indefinição.


Quatro anos e meio depois da invasão, nenhum acontecimento encerrou o ciclo aberto em 2022. A guerra prossegue. Putin permanece no poder. O regime não colapsou. Também não surgiu uma solução política capaz de transformar o conflito numa fase claramente diferente da anterior.


Durante a Páscoa ortodoxa, em abril, vigorou uma trégua de 32 horas, proposta por Volodymyr Zelensky e aceite por Putin. A Ucrânia contabilizaria depois 469 violações russas nesse intervalo, sobretudo ataques de drones. Terminadas as 32 horas, os combates retomaram a intensidade anterior.


A trégua entrou, assim, na história desta guerra como mais um episódio dentro dela, sem lhe alterar o curso.


A passagem dos anos fez o resto. Aquilo que, em 2022, ocupava permanentemente as manchetes passou a conviver com a rotina política europeia, com eleições, crises económicas e outras guerras. Os combates continuam a matar e a destruir, mas a própria duração retirou-lhes parte da capacidade de produzir a sensação diária de mudança.


Com a Rússia aconteceu algo parecido. Nos primeiros meses da invasão, multiplicaram-se previsões sobre crise do regime, derrota, fragmentação territorial, colapso económico ou perda acelerada da antiga influência russa. Setembro de 2026 chegou sem que nenhum desses cenários tenha fornecido uma resposta para o futuro do poder em Moscovo.


Entretanto, à volta da Rússia, o tempo não ficou suspenso.


Alexander Lukashenko continua estreitamente dependente de Moscovo. Encontrou-se novamente com Putin em junho, e as tensões próprias entre Minsk e Kiev não alteraram a relação estrutural que une a Bielorrússia à Rússia. É difícil encontrar aqui uma mudança equivalente à que ocorreu noutros pontos do antigo espaço soviético.


Na Moldova, até junho de 2026, tinham sido abertos cinco capítulos de negociação para a adesão à União Europeia, com Chisinau a procurar avançar ainda mais antes do final do verão. Foram decisões acumuladas ao longo dos últimos anos, tomadas sem esperar que a guerra na Ucrânia esclarecesse primeiro qual seria a posição futura da Rússia.


A Geórgia avançou na direção contrária. O seu processo europeu foi travado pelo próprio governo georgiano, ao ponto de a Comissão Europeia passar a tratar o país como candidato apenas no nome.


Chisinau aproximou-se da União Europeia; Tbilisi afastou-se. Minsk permaneceu ligada a Moscovo. É difícil reunir estas três trajetórias numa única história sobre declínio russo ou libertação da periferia. Talvez seja essa a parte interessante. Países durante muito tempo descritos sobretudo pela distância que mantinham em relação à Rússia passaram a produzir movimentos que já não podem ser entendidos apenas a partir do Kremlin.


A China não precisou de esperar por um colapso russo para aumentar a sua presença económica na Ásia Central. Tem continuado a fazê-lo gradualmente. Pequim lida com uma Rússia desgastada por anos de guerra, sanções e concentração de recursos no conflito europeu, mas não se comporta como se um enorme espaço geopolítico tivesse ficado subitamente vago.


A Rússia continua ali.


Esse é talvez o elemento mais incómodo para quem procura um momento claro de mudança. Durante quatro anos e meio, a guerra produziu destruição suficiente para alimentar previsões enormes, mas não entregou a cena final que permitiria organizar tudo o resto à sua volta.


Putin continua no Kremlin. Lukashenko continua em Minsk. A Moldova abriu capítulos de negociação com a União Europeia. A Geórgia suspendeu o seu próprio avanço europeu. A China ganha espaço económico na Ásia Central. E, em Grozny, um rapaz de 18 anos acumula posições dentro da estrutura que o pai construiu.


São acontecimentos com velocidades diferentes e causas diferentes. O tempo político, porém, continuou a correr enquanto o grande desfecho russo não chegava.


É isso que devolve interesse às eleições chechenas.


Ramzan Kadyrov pode obter o quinto mandato e continuar a governar. Ainda assim, Adam já ocupará, no dia seguinte, uma posição que não ocupava há poucos anos. Alaudinov e Daudov continuarão dentro de uma estrutura onde a possibilidade de uma transição passou a fazer parte dos cálculos. A saúde de Kadyrov permanecerá sobre tudo isto.


Em Moscovo, não se vê um processo semelhante.


Pode aparecer um sucessor quando for necessário. Pode formar-se um compromisso entre grupos que hoje parecem concorrentes. Uma figura secundária pode tornar-se central num intervalo curto. Nada na experiência política russa permite excluir essas possibilidades. Também não há fundamento para afirmar que a atual ausência de um herdeiro público tornará inevitavelmente caótica uma futura transição.


Por agora, apenas se sabe que essa transição não está a ser mostrada.


As referências a 1917 e 1991 surgem frequentemente quando se tenta imaginar o que poderá acontecer à Rússia, mas dizem pouco sobre a forma concreta de uma futura mudança. Em ambos os casos, a dimensão da rutura só se tornou inteiramente clara quando o processo já estava em movimento. Anos de desgaste não forneciam uma data. Muito menos um guião.


Também não fornecem um em 2026.


Talvez por isso seja mais útil observar os movimentos pequenos do que procurar continuamente o acontecimento que encerrará a época de Putin. Uma eleição regional quase sem competição, a promoção de um filho, os cargos ocupados pelos homens em redor da família, um vizinho que avança para Bruxelas e outro que recua, uma China que acrescenta influência sem anunciar que está a substituir ninguém. Nada disto diz quando termina o atual sistema russo.


Diz apenas que muita coisa já está a ser decidida sem esperar por esse dia.


Na Chechénia, até a sucessão começou a entrar nessa categoria. Em Moscovo, ainda não.



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