top of page

Como o FSB trocou o terrorismo por caça a traidores na Rússia

2 de set.
6 min de leitura

Em 2025, uma série estatística russa desapareceu. Em 2026, desapareceram mais três. Não eram dados militares nem informação operacional: eram salários de professores, despesas das famílias com a habitação, rendimentos domésticos. O responsável era o Rosstat, o serviço federal de estatística.


Um Estado empenhado numa guerra longa, sob sanções e mobilizado para uma economia de guerra, precisaria de saber mais sobre o país que administra. A Rússia está a fazer o contrário.


Capa vertical do artigo sobre a mudança de estratégia do FSB russo – Atlantic Lisbon
Como o FSB trocou o terrorismo por caça a traidores na Rússia | Atlantic Lisbon

O apagão estatístico é apenas a face mais silenciosa de uma transformação maior. Desde 2022, a segurança interna russa passou a tratar uma categoria muito mais vasta de pessoas, instituições e relações como potenciais problemas de segurança. O suspeito deixou de ser apenas quem pratica um ato contra o Estado. Pode ser quem tem um contacto errado, trabalha com uma tecnologia estrangeira, conhece alguém no exterior ou simplesmente controla uma informação que o Estado já não quer ver circular.


A consequência que começa agora a aparecer é mais difícil de medir do que a repressão: ao tentar eliminar a informação que considera perigosa, o sistema pode estar a eliminar também a informação de que precisa para governar.


1. O que deixou de ser contado


O Rosstat interrompeu em 2025 a publicação de dados demográficos. Em 2026, suspendeu dados sobre as remunerações dos funcionários públicos, docentes e médicos, bem como sobre a despesa com a habitação e rendimento das famílias.


Não são exceções isoladas. Desde o início da invasão em larga escala, pelo menos catorze outras entidades com funções de supervisão ou produção estatística deixaram de publicar séries que mantinham havia décadas. A criminalidade deixou de ser atualizada pela Procuradoria-Geral. O Tesouro deixou de detalhar a execução do orçamento. O banco central restringiu a divulgação de reservas internacionais. A proibição de publicar dados sobre a produção de petróleo e gás, em vigor desde abril de 2023, foi prolongada. Bancos e empresas cotadas passaram a poder omitir informação financeira. As declarações anuais de rendimentos dos titulares de cargos públicos, antes obrigatórias, deixaram de estar acessíveis.


Quando esses números deixam de ser publicados, salários, produção, reservas, criminalidade e execução orçamental deixam também de cumprir uma função básica da estatística pública: mostrar ao poder o que está a acontecer fora dos seus próprios gabinetes.


E a opacidade não fica do lado de fora do sistema. O Kremlin também depende dos números que os seus subordinados produzem.


2. A lógica não nasceu com a guerra. A escala, sim.


A ideia de colocar agentes de segurança permanentemente dentro das instituições, unidades militares e indústrias estratégicas não nasceu em 2022. É uma lógica soviética dos anos 1920 que sobreviveu a Estaline, ao degelo de Khrushchov e ao fim da URSS, chegando ao FSB pós-soviético.


Quando Vladimir Putin dirigiu o serviço, em 1998, o departamento criado para disciplinar os oligarcas já incluía equipas destinadas a supervisionar a indústria, os transportes e o sistema financeiro. A infiltração era tratada como algo que devia ser detetado antes de se materializar.


Uma empresa civil que assina um contrato militar ou de duplo uso passa a estar dentro desse campo de supervisão. Um atraso de calendário, uma derrapagem orçamental ou um contacto externo que antes poderiam ser problemas de gestão podem adquirir outro significado: indício de incompetência, corrupção ou, num ambiente de suspeita crescente, deslealdade.


No final de julho de 2026, três quadros de topo de uma subsidiária da Gazprom responsável por dezenas de centrais elétricas e térmicas no país foram detidos, oficialmente por suborno. O episódio não prova, por si só, uma campanha contra gestores do setor energético. Num sistema em que a fronteira entre a falha administrativa e o risco de segurança se tornou mais estreita, porém, um gestor sabe que as suas decisões podem ser examinadas por uma autoridade para a qual o erro não é necessariamente apenas um erro.


Uma lei assinada em junho de 2025 passou a exigir que projetos científicos com participação estrangeira sejam reportados em detalhe a uma base de dados gerida pelo FSB, ficando a própria participação dependente de aprovação prévia do serviço.


A Cloudflare, usada por muitos sites russos para acelerar o carregamento de páginas, ficou sujeita a restrições de acesso desde o verão de 2025. Em junho de 2026, o FSB acusou publicamente a empresa de colaborar com os serviços de informação dos Estados Unidos. O setor das telecomunicações, já pressionado pela escassez de computação em nuvem e por infraestrutura obsoleta, recebeu esse sinal num momento particularmente sensível.


Uma empresa, um laboratório ou uma infraestrutura tecnológica podem entrar assim no mesmo campo de vigilância que antes estava associado sobretudo a ameaças de segurança mais delimitadas.


3. O inimigo mudou de nome; mudou o alcance da repressão


Durante as duas primeiras décadas de Putin no poder, o vocabulário dominante da segurança interna era o terrorismo e o extremismo. As guerras na Chechénia foram enquadradas como operações antiterroristas; opositores como Boris Berezovsky, Mikhail Khodorkovsky ou Alexei Navalny foram frequentemente tratados através desse léxico ou de acusações de natureza económica.


Esse enquadramento tinha uma vantagem política: permitia apresentar a perseguição de adversários como aplicação da lei comum: fraude, desvio, abuso de poder, em vez de repressão política.


Depois da primavera de 2022, o vocabulário começa a mudar.


Em abril desse ano, uma estrutura ligada ao Conselho da Federação anunciou um escrutínio sobre a chamada oposição não sistémica, fora da Duma, por traição. Na lei russa, a alta traição é entendida como uma forma de espionagem: agir contra o Estado em benefício de uma potência estrangeira.


O terrorismo aponta para uma ameaça relativamente delimitada. A espionagem pode ser procurada em qualquer lugar: num laboratório, numa empresa, num gabinete público ou numa rede de contactos pessoais.


Segundo uma compilação da ONU relativa ao artigo 275.º do Código Penal russo, que tipifica a alta traição, as condenações anuais, que se situavam entre dez e quinze antes da guerra, passaram para 167 em 2023 e 361 em 2024. Só no primeiro semestre de 2025 foram registadas 232. A organização Pervy Otdel, que acompanha estes processos a partir do exílio, contabiliza 143 casos de segurança do Estado apenas no primeiro trimestre de 2026, incluindo um recorde de 48 veredictos num único mês, março. A pena média comunicada é de quinze anos e cinco meses.


O caso de Vladimir Kara-Murza é particularmente revelador. O opositor foi acusado de alta traição em outubro de 2022 por discursos contra a guerra proferidos em Lisboa e Washington e libertado em agosto de 2024 numa troca de prisioneiros.


Há também casos menos conhecidos. Operações de aliciamento do FSB fazem-se passar por interlocutores ucranianos ou por combatentes de unidades russas do lado de Kiev para estabelecer um contacto com os russos conhecidos pelas suas posições contra a guerra. O contacto criado pela própria operação pode depois tornar-se parte da acusação.


A acusação pode, portanto, nascer não só de uma relação que o suspeito procurou estabelecer, mas de uma relação criada pelo próprio aparelho de segurança e apresentada depois como indício.


4. Quando a suspeita sobe pela hierarquia


A repressão produz um efeito imediato que é fácil de observar: reduz a dissidência visível e aumenta a obediência.


Um funcionário que sabe que comunicar um problema pode ser interpretado como incompetência ou deslealdade tem um incentivo para não o comunicar. Um investigador pode evitar uma colaboração estrangeira. Uma empresa pode preferir não propor uma solução que envolva tecnologia estrangeira. Uma autoridade regional pode esperar por uma ordem superior antes de agir.


A suspeita não precisa de produzir falsidades deliberadas. Basta tornar perigoso dizer aquilo que o superior talvez não queira ouvir.


Retirar dados de circulação protege o Estado de observadores externos. Também retira aos decisores uma parte daquilo que lhes permitiria testar os seus pressupostos.


Na Crimeia, no verão de 2026, os relatos locais apontavam para uma rutura quase total de combustível nas bombas de gasolina. Em meados de julho, Vladimir Putin afirmava publicamente que estava em curso um sistema «protegido» de abastecimento para a península.


O episódio, isoladamente, não permite concluir que o Kremlin desconhecia a situação real. Mas mostra a distância que pode surgir entre aquilo que acontece numa região e aquilo que chega à liderança como a descrição da situação. Quanto mais custoso é transmitir más notícias, mais difícil se torna distinguir, no topo, uma situação resolvida de uma situação que apenas foi descrita como resolvida.


Um Estado pode tornar-se muito eficaz a descobrir quem desobedece sem receber informação igualmente boa sobre as próprias falhas. Pode saber quem contacta o estrangeiro e demorar mais a saber que uma região está sem combustível.


A Rússia não está simplesmente a esconder estatísticas do exterior. Está a construir um sistema em que cada vez mais a informação precisa de atravessar primeiro o filtro da segurança para poder chegar a qualquer lado. Esse filtro não separa apenas informação verdadeira de informação falsa. Decide também que informação é segura e qual pode constituir uma ameaça.


Um Estado consegue governar durante algum tempo sem publicar os seus números. O problema surge quando os números que chegam ao centro já não permitem saber com segurança o que está a acontecer fora dele.


Quanto mais caro for dizer ao poder que alguma coisa correu mal, maior será a possibilidade de ele descobrir o problema apenas quando já não puder corrigi-lo.


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page