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Portugal Não É Um País Pequeno

Sobre o intervalo entre a palavra e a coisa que ela um dia nomeou


Atlantic Lisbon · Ensaio · Elian Morvane


No topo do Padrão dos Descobrimentos, a proa de pedra aponta há sessenta e cinco anos para o rio, como se o Tejo ainda fosse caminho para algures. Henrique, o Navegador, vai à frente, o rosto virado para a água; atrás dele, em fila cerrada, os outros: reis, poetas, cartógrafos, um punhado de santos, todos de calcário claro, todos parados no gesto exato de partir. Nenhum chegou a lado nenhum desde 1960. E no entanto o monumento continua, todas as manhãs, a fazer o mesmo gesto: aponta e promete uma partida que já não vai a lugar nenhum.

Paisagem da costa portuguesa ao pôr do sol, com oceano e falésias, usada na capa do artigo «Portugal não é um país pequeno».
A costa atlântica portuguesa ao entardecer, numa capa da Atlantic Lisbon para o ensaio «Portugal não é um país pequeno»

Foi erguido na véspera do ano em que a guerra começaria em Angola, e no ano anterior àquele em que a Índia tomaria Goa em poucos dias, quase sem disparar um tiro. Nenhum dos homens que decidiu esculpir aquela proa podia ignorar inteiramente o que se preparava: os relatórios já circulavam, as fronteiras já rangiam. Ainda assim, decidiu-se fixar em pedra definitiva o gesto de um império que, no discurso oficial, na moeda, nos manuais escolares, continuava completo. Vinte e seis anos antes disso, um mapa de propaganda do Estado Novo já tinha sobreposto o desenho de Angola e Moçambique ao continente europeu, para provar aos portugueses que o seu país "não era pequeno". O mapa exagerava por adição, colando território a território até parecer grande. O monumento faria, décadas mais tarde, algo mais grandioso: continuaria a apontar muito depois de já não haver navios a seguir a direção indicada.


Isto não precisa de ser mentira, nem propaganda consciente. A coisa desfaz-se depressa, por vezes num fim-de-semana; a palavra continua, por inércia, por hábito, por falta de substituta, a ser dita exatamente da mesma maneira em que era dita quando ainda tinha para onde apontar. Todo o império atravessa este intervalo antes de o admitir.


O português tem, para esse intervalo específico, uma palavra que nenhuma outra língua conseguiu traduzir sem a estragar a meio do caminho: saudade. A maior parte das definições erra por defeito quando a reduz a um sentimento privado, quase doméstico, como se fosse apenas mágoa por uma ausência qualquer, quando é mais do que isso.


Saudade é o nome que se dá a um hábito completo de linguagem: à decisão de continuar a conjugar um verbo cujo sujeito já não está presente para o praticar. Não se tem saudade de uma coisa que ainda está lá; tem-se saudade do próprio intervalo entre a palavra que a nomeava e o lugar vazio que ela foi deixando para trás, devagar, sem aviso formal. Um país que perdeu um império em menos de quinze anos passou o século seguinte a cantá-lo em vez de o negar.


Há uma casa de fado, numa rua estreita de Alfama, onde essa conjugação se ouve melhor do que em qualquer arquivo. A luz é sempre pouca, de propósito, quase de encomenda, e a voz, quando chega, chega sem pressa nenhuma de resolver o que está a dizer. A guitarra portuguesa insiste numa nota que a viola já abandonou; os dois instrumentos discutem, em surdina, a mesma desafinação: um já não está onde o outro ainda o procura. Ninguém, naquela sala, pede à cantadeira que traga de volta o que perdeu. Pede-se-lhe apenas que continue a cantá-lo bem, com a dor no sítio certo, porque cantar bem uma ausência é a única forma de posse que resta quando a posse verdadeira já não é possível. Não cura o intervalo; encontra, noite após noite, uma forma de habitar dentro dele.


Este intervalo teve, por fim, uma data de encerramento parcial. Em 1974, uma revolução feita quase sem sangue devolveu a palavra "império" ao museu, e no ano seguinte perto de meio milhão de pessoas chegou a Lisboa vindo de territórios que, até há pouco, os manuais ainda chamavam Portugal. Os retornados trouxeram consigo a prova física de que a coisa tinha mesmo desaparecido: não era já um relatório secreto, era gente à porta, com malas, sem casa. Ainda assim, a palavra sobreviveu ao desmentido mais categórico que alguma vez lhe foi feito. Deixou de descrever um território para descrever uma falta, só que agora com uma data exata e meio milhão de rostos por trás dela.


Do outro lado do Atlântico, uma guerra recente tem produzido a sua própria versão do mesmo intervalo: objetivos anunciados como cumpridos meses antes de o estarem, um fim declarado repetidamente antes de o conflito ter sequer decidido terminar, promessas feitas a um adversário e desfeitas poucas semanas depois com a mesma firmeza com que tinham sido feitas, sem que isso, aqui, sirva para julgar quem tem razão sobre o Irão, ou se a guerra foi certa ou errada. Uma palavra como vitória, pronunciada dezenas de vezes antes de o ser, começa a comportar-se exatamente como o império português se comportou durante a segunda metade do século passado: continua a falar-se dela num tempo que, aos poucos, deixou de a conter.


Hoje, ao pé do Padrão, os turistas fotografam a proa de pedra sem saber, a maior parte deles, o que ela quis dizer, ou em que ano exato deixou de o poder dizer com verdade. Vendem-se, nas lojas em redor, réplicas de azulejo com caravelas, ímanes de frigorífico com a esfera armilar, postais onde Henrique continua, eternamente, virado para a água que já não vai buscar nada a lado nenhum. Ninguém ali finge que o império voltou; ninguém precisa de fingir isso, porque a palavra já não pesa o suficiente para exigir semelhante encenação. Foi absorvida por uma economia inteiramente diferente: a do souvenir, da fotografia, da nostalgia vendável a seis euros a peça.


A próxima palavra (vitória, terminado, resolvido) fará provavelmente o mesmo percurso, do comunicado oficial ao íman de frigorífico, reaproveitada com o tempo para uma função mais pequena e mais vendável do que confessar em voz alta o vazio que a terá tornado órfã. É essa a pergunta que Lisboa, mais do que qualquer outra capital do Atlântico, já aprendeu de cor a fazer. E a cantar, três vezes por noite, numa sala às escuras onde ninguém pede que a palavra volte a ser verdadeira.

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