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Duas Visitas a um Homem Distante

Atualizado: há 3 dias

Duas Visitas e um Silêncio


Voltei hoje a São Vicente de Fora para o cumprimentar. Não sei bem que palavra usar para o que ali se faz. Não é bem oração. Também não é bem visita de cortesia. Fica algures a meio, e o mais parecido que encontro é dizer que fui fechar, à minha maneira, algo que o tempo tinha deixado por fechar.


O que ele foi para mim não cabe em lápide nenhuma — coube de forma completa numa única tarde, há décadas, e num silêncio que se seguiu e nunca mais se desfez.


Fui recebido com uma correção perfeita, uma cordialidade tão bem executada que não deixava fenda por onde entrar. Frieza não é a palavra certa para isto. Tinha esse rosto comprido que as fotografias oficiais também mostram, sempre grave, sempre composto para o retrato, como se o rosto fosse mais um paramento a vestir do que uma superfície a mostrar. Os olhos fixavam sem hesitar; a boca não cedia nunca ao sorriso de circunstância que qualquer outro homem naquela posição teria oferecido por puro ofício. Falava pouco e bem, ouvia com uma atenção que até parecia genuína, e mesmo assim não aquecia nada à sua volta. Agradeci-lhe o tempo que me deu. Aceitou o agradecimento com um aceno definido, cortês, sem nada a mais.


Passados dias, enviei-lhe dois livros. Não eram meus, para que não pairasse vaidade nenhuma no gesto. Eram livros de literatura portuguesa, publicados por uma pequena editora que se esfalfava, como todas se esfalfam, a pôr no mundo o que mais ninguém queria financiar. O gesto não era para ele. Era para a literatura — e, sobretudo, para essa gente que faz livros sem nenhuma das garantias que fazem outros negócios valer a pena. Pareceu-me que um homem da sua posição, com a sua audiência, podia ao menos saber que aquilo existia.


Nunca soube se os livros chegaram a ser abertos. Não veio um bilhete, nem o secretário a confirmar a receção, nem palavra alguma, nem então nem depois. Não foi ríspido: não houve nada de ríspido em nenhum momento daquele encontro. Foi apenas silêncio: tão bem-educado como o resto dele que nem chega a ser descortesia. O gesto simplesmente desapareceu, como se tivesse caído num poço sem fundo visível.


Chamam-lhe moderador da transição para a democracia: o homem que ajudou o país a sair de uma ditadura sem saber bem o que fazer com a liberdade que tinha acabado de ganhar. Ao fim da tarde recebia sindicalistas e políticos no Patriarcado, e ninguém sabia ao certo o que se dizia ali dentro. Dava poucas entrevistas, quase nenhumas, segundo quem o tratou de perto, e preferia deixar que fosse o púlpito da Sé a falar por ele. Percebi, lendo isto, que a distância que eu tinha sentido como pessoal era, na verdade, o método.


Perceber a razão do silêncio não o apaga; só lhe dá o contexto que eu precisava. Um homem pode ser, ao mesmo tempo, uma figura de moderação histórica e um destinatário que nunca confirma ter recebido dois livros. As duas coisas cabem na mesma pessoa sem se contradizerem, e é essa coexistência, mais do que qualquer heroísmo ou qualquer falha, que fica comigo, décadas depois, parado outra vez diante do mármore.


Não escrevo isto como queixa: seria fácil, e seria pequeno, dizer só que ele nunca respondeu. O tempo trata estas coisas de outra maneira: absorve-as, e o que fica, no fim, não é a falta de resposta — é a memória de quem escreve sobre ela. Ele era o homem que era, reservado até à última fibra; isso não me cabe corrigir nem lamentar. A mim cabe-me outra coisa: defender a liberdade de consciência de cada um, e acreditar no afeto que se deve aos outros independentemente do que se recebe de volta.


Não vim aqui pedir-lhe nada, nem sequer uma resposta atrasada; vim apenas dizer-lhe, a ele, ou ao ar que fica onde ele já não está, que a pequena editora continuou a publicar depois disso, com ou sem a sua confirmação, e que os livros, mesmo sem resposta, chegaram a outras mãos que os abriram. A gratidão que lhe dirigi nunca precisou de ser recebida por ele para ser verdadeira. Só eu precisava de voltar aqui, uma segunda vez, para lho dizer pessoalmente. Desta vez nem espero resposta: só queria que o gesto ficasse feito outra vez, aqui, à porta de um homem que continua, décadas depois, a ser por mim enaltecido e honrado.


Sarcófago de mármore junto a uma janela, com brasão dourado e a inscrição "D. António Ribeiro, 1971-1998", no Panteão dos Patriarcas do Mosteiro de São Vicente de Fora.
O túmulo de D. António Ribeiro, Cardeal-Patriarca de Lisboa entre 1971 e 1998, no Panteão dos Patriarcas do Mosteiro de São Vicente de Fora.

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