Robert D. Kaplan: quarenta anos a decifrar o mundo pelo mapa
- Alberto Carvalho - Narrador

- 1 de jul.
- 9 min de leitura
Atualizado: 4 de jul.
I. Antes de Washington
Antes de se tornar um escritor lido em Washington, Robert D. Kaplan era um repórter de circulação restrita. Formou-se em 1973 na Universidade do Connecticut, onde dirigiu as páginas de cultura do jornal universitário, e passou os dois anos seguintes a viajar pela Europa de Leste comunista e pelo Médio Oriente, antes de trabalhar como repórter num pequeno diário do Vermont. Em 1975 deixou os Estados Unidos e viveu, durante os dezasseis anos seguintes, sobretudo no mundo árabe e no Mediterrâneo. Cobriu a guerra Irão-Iraque a partir do terreno, em 1984.
O primeiro livro, Surrender or Starve (1988), partia da fome na Etiópia para defender uma leitura politicamente incómoda: a crise dos anos oitenta no Corno de África não era apenas desastre natural agravado pela seca, mas resultado de decisões políticas e coletivização forçada sob o regime de Mengistu Haile Mariam.
Dois anos depois, Soldiers of God (1990) registou os anos passados junto dos mujahedin afegãos durante a guerra contra a União Soviética. Nenhum dos dois livros o converteu em figura de grande circulação. Foi aos Balcãs, no final dos anos oitenta, que essa disposição — ir ao terreno antes de fechar a tese — o levou, numa altura em que a região ainda era, para a maior parte da imprensa americana, periférica. O resultado, Balkan Ghosts, foi recusado por várias editoras antes de ser publicado em 1993.
II. O livro que entrou em Washington
Com a Jugoslávia já em guerra, o Presidente Bill Clinton foi visto com um exemplar de Balkan Ghosts debaixo do braço, e responsáveis da Casa Branca confirmaram, mais tarde, que a leitura pesou na hesitação inicial em enviar tropas para a Bósnia. Kaplan contestou essa utilização do livro — a leitura que via nele uma justificação para a inação que não tinha necessariamente pretendido escrever.
A leitura mais polémica do livro, popularizada como a dos "ódios antigos", contestada por historiadores da região, acusa-o de fixar os Balcãs numa imagem de violência quase inscrita na história, com pouco espaço para décadas de convivência, casamentos mistos e vida urbana partilhada sob a Jugoslávia de Tito. É um debate que Kaplan já discutiu abertamente em entrevistas sobre os trinta anos do livro, sem o rejeitar por completo nem se deixar reduzir a ele.
Um livro de reportagem e viagem, escrito por alguém que ainda não era figura central do establishment, entrou numa decisão de guerra.
III. Da reportagem às instituições
O reconhecimento tardio de Balkan Ghosts transformou Kaplan num nome consultado por instituições que pensam e executam política externa. Tornou-se consultor do Regimento de Forças Especiais do Exército, da Força Aérea e dos Fuzileiros norte-americanos; deu formação em academias militares, na CIA, na NSA e no Estado-Maior Conjunto do Pentágono; fez briefings a presidentes, secretários de Estado e da Defesa; e integrou o Defense Policy Board do Pentágono e o Executive Panel da Marinha. Entre 2012 e 2014 foi analista-chefe de geopolítica da consultora Stratfor. Hoje, as suas biografias mais recentes destacam sobretudo a ligação à Universidade do Texas em Austin e ao Foreign Policy Research Institute.
Nos anos seguintes publicou uma série de livros que prolongavam o mesmo gesto inicial — ir primeiro ao terreno, teorizar depois: The Ends of the Earth, sobre espaços deixados à margem da globalização otimista dos anos noventa; Eastward to Tartary, sobre os Balcãs, o Médio Oriente e o Cáucaso; Mediterranean Winter, sobre o Mediterrâneo como arquivo de impérios e religiões; e, em 2005, Imperial Grunts, onde acompanhou forças especiais americanas dispersas pelo globo — da Colômbia à Mongólia, das Filipinas ao Iraque. Foi nesse contexto que esteve integrado com tropas no Iraque e escreveu, para a The Atlantic, "Five Days in Fallujah", sobre a campanha da Primavera de 2004.
IV. A desordem antes de se tornar evidente
Em 1994, um artigo — não um livro — tornou-se uma das peças mais influentes da sua carreira: "The Coming Anarchy", publicado na The Atlantic. A partir da experiência na Serra Leoa, o ensaio descrevia um mundo em que a ordem internacional deixava de se poder compreender apenas através de fronteiras formais entre Estados: um mosaico irregular de cidades frágeis, territórios informais, criminalidade, pressão demográfica e poderes locais sem enquadramento estável.
A Guerra Fria tinha acabado de terminar, a globalização avançava, a democracia liberal parecia expandir-se. Kaplan olhou para as margens desse otimismo e viu fragmentação, colapso de autoridade e conflitos híbridos antes de o termo se tornar comum. Décadas depois, o ensaio continua a ser criticado pela proximidade com a tese do "Choque de Civilizações" de Samuel Huntington, e por transformar experiências localizadas numa visão considerada por alguns excessivamente sombria da ordem global.
V. O Iraque e o custo do erro
Kaplan apoiou publicamente a invasão do Iraque em 2003, coerente com a convicção, dessa época, de que o poder americano, exercido com disciplina, podia reorganizar espaços de instabilidade antes que se degradassem ainda mais. A ocupação revelou a distância entre derrubar um regime e construir uma ordem, e a fragilidade de uma leitura que subestimou o peso das identidades sectárias e a destruição institucional que se seguiu.
Poucos defensores da guerra revisitaram essa posição com igual exposição pessoal. Em The Tragic Mind: Fear, Fate, and the Burden of Power (2023), Kaplan escreveu que sofreu de depressão clínica devido ao peso das vidas americanas e iraquianas perdidas, que sente ter contribuído indiretamente para causar através do apoio que deu à guerra.
VI. O mapa antes da teoria
Para Kaplan, a geografia não é pano de fundo da política internacional: é o que determina, antes de mais, o comportamento dos Estados. A tecnologia altera distâncias, mas não elimina o mar; intensifica fluxos, mas não apaga gargalos.
Em Monsoon (2010), desloca a atenção estratégica para o Oceano Índico. Em Asia's Cauldron (2014), descreve o Mar do Sul da China como a Mitteleuropa do século XXI, e Taiwan como a rolha que fecha esse mar. Em The Revenge of Geography (2012), o mapa deixa de ser cenário e passa a ser a própria explicação: não desapareceu com a globalização, apenas mudou a forma como opera.
A Etiópia, o Afeganistão, os Balcãs, o Cáucaso — e agora o Estreito de Taiwan.
VII. Um mundo em declínio simultâneo
Em Waste Land: A World in Permanent Crisis (2024), o problema deixa de ser apenas o espaço e passa a ser a coincidência histórica de Estados Unidos, China e Rússia atravessarem, ao mesmo tempo, fases de declínio relativo. Os Estados Unidos enfrentam polarização interna e fadiga estratégica; a China combina força industrial e centralização política sob Xi Jinping com envelhecimento demográfico e rigidez decisória — uma economia parte capitalista, parte autocrática, entregue a decisões cada vez mais leninistas, uma combinação que, no diagnóstico do próprio Kaplan, "não pode acabar bem"; a Rússia conserva armas nucleares e capacidade de perturbação, mas opera a partir de insegurança estratégica e declínio relativo.
Durante décadas, países médios e pequenos puderam navegar entre blocos com margem de manobra. Num mundo de grandes potências simultaneamente desconfiadas e frágeis, essa margem diminui, e escolher lados torna-se mais provável, mais caro e menos reversível.
VIII. O desconforto americano
Kaplan tem sido crítico de uma política de defesa americana recente que, na sua leitura, substitui instrumentos diplomáticos e institucionais por demonstração de força — a que chamou "Cesarismo Americano", numa analogia direta com o declínio de Roma, onde o excesso de investimento na imagem militar coexistiu com a redução dos instrumentos "brandos" de política externa.
Mesmo contrariando parte do eleitorado por quem, noutro livro, Earning the Rockies, tinha demonstrado simpatia sociológica, aplica-lhes a mesma régua que aplica à China e à Rússia.
IX. Taiwan como advertência
O aviso mais insistente de Kaplan não é sobre guerra deliberada, mas sobre erro de cálculo. A analogia repetida é sempre a mesma: a Alemanha de 1914 calculou mal a probabilidade de intervenção britânica em defesa da França e da Bélgica, e essa leitura errada ajudou a precipitar uma guerra que nenhum dos lados procurava à partida.
Kaplan adverte que Pequim pode estar sujeita a um erro de leitura simétrico sobre a disposição efetiva de Washington para defender Taiwan — agravado pela imprevisibilidade de uma Administração que pode anunciar uma política e praticar o oposto. O que mais importa, nesse cenário, não é a doutrina declarada, mas a consistência do sinal enviado a Pequim.
Taiwan concentra uma parte decisiva da produção mundial de semicondutores avançados, e o Mar do Sul da China é um corredor central do comércio internacional. Ao contrário de outras guerras recentes, que os mercados globais foram absorvendo com resiliência notável, um conflito no Estreito de Taiwan atingiria diretamente cadeias industriais, energia e credibilidade americana — um cenário que Kaplan já descreveu como um "extinction event" para os mercados financeiros globais.
X. Não uma coleção de opiniões avulsas
Da Etiópia ao Afeganistão, dos Balcãs ao Iraque, do Índico ao Estreito de Taiwan: começar no terreno, desconfiar de abstrações demasiado limpas, levar a geografia a sério, tratar a história como presença e não como arquivo, entender o poder como instrumento necessário mas perigoso.
Kaplan foi criticado muitas vezes, e algumas dessas críticas têm fundamento — a leitura fatalista dos Balcãs, o apoio ao Iraque revelado, anos depois, como erro de avaliação grave.
Recensão
Há uma frase, algures a meio deste livro, que Robert D. Kaplan usa quase de passagem: a de que a geografia é "o que a política internacional tenta esquecer, e paga caro por isso". Lida de Lisboa, é uma frase que trai o seu próprio limite: há uma geografia inteira que este livro esquece, e por cujo esquecimento não paga preço nenhum, precisamente porque quem escreve nunca precisou de olhar para ela com atenção.
O argumento central é conhecido, e Kaplan expõe-no com a clareza didáctica que o caracteriza: a Eurásia — o "world island" de Mackinder — continua a ser o tabuleiro onde se decide o poder global, e quem controla o seu centro, o Heartland, ou os seus rebordos populosos, o Rimland de Spykman, controla o essencial da história. É um regresso deliberado a pensadores fora de moda — Mackinder, Spykman, Mahan, Hodgson — que Kaplan resgata do desprezo académico em que caíram depois de o nazismo ter deformado a teoria do Heartland numa justificação de Lebensraum.
O livro divide-se em três partes: uma revisão desses "visionários" esquecidos; um périplo pelo mapa do início do século XXI, região a região — a Europa dividida, a Rússia insegura, o Irão como charneira entre Heartland e Rimland, a China a tentar transformar o Pacífico Ocidental num lago próprio; e uma parte final, mais curta, sobre o destino geográfico dos próprios Estados Unidos.
O capítulo sobre a Rússia é notável: um país que se estende por cento e setenta graus de longitude sem uma única barreira natural significativa, invadido repetidamente — lituanos, polacos, suecos, franceses, alemães —, para quem a insegurança não é traço de carácter mas condição geográfica.
O capítulo sobre o Irão é, provavelmente, o mais original: a tese de que o planalto iraniano é o único ponto onde o Heartland de Mackinder e o Rimland de Spykman se tocam fisicamente, e de que a influência iraniana sobre o Iraque pós-2003 não é esquema político mas geografia a exprimir-se por conta própria.
Siga-se o mapa até ao fim, e chega-se a um ponto onde ele simplesmente pára. A Europa que Kaplan descreve é a Europa Central e de Leste — a fronteira alemã, a Polónia, os Balcãs, o antigo território otomano —, porque é aí que o Heartland pressiona o Rimland e a teoria produz previsões interessantes. A fachada atlântica — Portugal, mas também a Galiza, a costa francesa, a Irlanda — não tem lugar próprio no argumento, porque não tem fronteira terrestre com o Heartland que a ameace nem posição no Rimland que a torne charneira estratégica.
Um recensor da Association of American Geographers já notou, com alguma severidade, que Kaplan cita apenas nove geógrafos sensu stricto em todo o livro, quase todos do início do século XX, e nenhum geógrafo político contemporâneo — como se a disciplina tivesse parado em 1904, no artigo de Mackinder sobre o "pivô geográfico da história". É uma escolha deliberada: Kaplan procura precisamente os "pensadores fora de moda", como escreve na introdução.
O efeito colateral é que a Eurásia continental, terrestre, imperial, se torna o único tipo de geografia que conta como geografia a sério — e o Atlântico, esse espaço que Portugal e Espanha organizaram durante séculos a partir de uma lógica exactamente inversa, marítima e não continental, fica reduzido a pano de fundo.
O pensamento estratégico que Portugal produziu — não em tratados formais, mas na prática de séculos de expansão atlântica, de Ceuta a Malaca, de uma pequena faixa costeira que se tornou império precisamente por não ter Heartland nenhum para disputar — é a prova viva de que o argumento de Kaplan é incompleto, não errado.
A geografia não determina apenas quem controla o centro do "world island"; determina também que um pequeno território sem profundidade continental, colado ao Atlântico, sem outra saída senão o mar, é empurrado por essa mesma geografia para uma vocação marítima que o Heartland nunca poderia gerar nem compreender bem. Kaplan sabe disto — é, no fundo, a mesma lógica que aplica a Mahan e ao poder naval — mas nunca a aplica à Península Ibérica com o mesmo rigor que aplica à Rússia ou à China.
A vista de Lisboa, se este livro a tivesse incorporado, teria mostrado uma terceira categoria, a da potência marítima periférica sem ambição continental, que não é Rimland em disputa nem Heartland fechado, mas algo mais antigo e mais simples — uma fachada para o oceano, e nada mais atrás dela que valha a pena defender por terra.
É um livro escrito por alguém que passou a vida a atravessar o Heartland e os seus rebordos: a densidade histórica é real, a erudição é real, o instinto de que a geografia continua a mandar recados que a globalização prometeu calar está certo.
Um leitor que chegue a este livro a partir do Atlântico, e não de Washington, sente onde o mapa de Kaplan termina — não porque a geografia aí se torne menos importante, mas porque deixou de ser a geografia que Kaplan sabe ler.
Ficha bibliográfica
Kaplan, Robert D. The Revenge of Geography: What the Map Tells Us About Coming Conflicts and the Battle Against Fate. Nova Iorque: Random House, 2012. ISBN 9781400069835.




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