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- 7 de outubro: as duas chamadas de Avi Gil a Netanyahu
Entre as duas chamadas que Avi Gil fez a Benjamin Netanyahu na manhã de 7 de outubro de 2023 passaram onze minutos. A primeira, situa-a Gil às 6h29, por uma linha não protegida, para acordar o primeiro-ministro e avisá-lo de que o Hamas lançara fogo em grande escala. A segunda foi às 6h40, na linha segura, e nela disse a Netanyahu que estavam em guerra. Avi Gil era então secretário militar do primeiro-ministro. Deixou o exército em 2024 e quebrou o silêncio em 8 de outubro de 2026, em entrevistas ao Canal 12 e ao Israel Hayom. Benjamin Netanyahu com Antony Blinken, em Telavive, em 3 de novembro de 2023. Fotografia de arquivo e contexto; não documenta as chamadas de 7 de outubro. Fotografia: Chuck Kennedy / Departamento de Estado dos EUA. Domínio público. A utilização não implica endosso do Governo dos EUA. Página de origem. Em janeiro de 2024, conta, uma estenógrafa do gabinete do primeiro-ministro disse-lhe que o chefe de gabinete, Tzachi Braverman, lhe mandara buscar a transcrição da chamada das 6h40 e mudar-lhe a hora para as 6h29. A funcionária, segundo Gil, explicou-lhe que não lhe era permitido mudá-la. Gil informou a procuradora-geral, Gali Baharav-Miara, com quem já falara nas primeiras semanas da guerra, ao reparar que pessoas próximas de Netanyahu reuniam material em quantidade desproporcionada. Perguntara-lhe então o que se podia e não podia fazer com as transcrições oficiais. Duas formas de comunicação e linhas desencontradas evocam as chamadas e a disputa sobre o seu registo. Composição digital original para o Atlantic Lisbon. Braverman foi ouvido pela polícia em novembro de 2024 por suspeita de falsificação e fraude na alteração de registos. Segundo uma notícia do The Jerusalem Post, publicada em 10 de outubro de 2026 e atualizada no dia seguinte, a investigação policial terminou e o processo aguarda uma decisão do Ministério Público sobre uma eventual acusação. O seu advogado sustenta que Braverman corrigiu um erro de registo. O gabinete do primeiro-ministro negou as suspeitas em 2024. Ao reagir à entrevista de Avi Gil, o Likud falou de propaganda com motivação política contra Netanyahu. Segundo Avi Gil, pôr as 6h29 na transcrição da chamada segura podia ter dois efeitos. Um seria mostrar Netanyahu a dar ordens desde o início do ataque. O outro seria sugerir que o que lhe foi dito na segunda chamada já era conhecido durante a primeira, o que daria força à tese de que lhe esconderam informação. Avi Gil recusa a tese da traição. Diz que houve falhas e que o sistema falhou por completo. A cronologia que apresenta admite alertas que não subiram na hierarquia. Às 3h55, um assistente de informações recebeu um alerta para uma mensagem sobre movimentos suspeitos junto à fronteira de Gaza, classificados como rotineiros, e decidiu não acordar nem o primeiro-ministro nem o secretário militar. Gil só foi acordado às 6h12, por um telefonema do gabinete de Ronen Bar, então diretor do Shin Bet. O Likud diz que o primeiro-ministro não recebeu nenhum aviso prévio do ataque e que, se tivesse sido informado em tempo real, tudo teria sido diferente. Gil diz que Netanyahu ouviu dos chefes dos serviços tudo o que se sabia, que as propostas de ataques dirigidos em Gaza foram recusadas e que Bar o avisou em julho de 2023, com o primeiro-ministro internado, da possibilidade de guerra. Gil distingue esses avisos de um alerta específico para o ataque de 7 de outubro, que diz não ter existido. Para Gil, a responsabilidade pelas falhas de 7 de outubro é de Netanyahu. Avi Gil diz que só conhece este caso e que não sabe se houve outras alterações. Recomenda à futura comissão de inquérito e ao controlador do Estado, que já obteve transcrições, que não se fiem apenas nelas e exijam as gravações originais. Do documento que Netanyahu entregou ao controlador, disse que descreve só parte da verdade. Na entrevista integral, transmitida pelo Canal 12 na noite de 8 de outubro, Gil referiu tanto uma alteração como uma tentativa de alteração. No Israel Hayom, afirmou que Braverman escreveu a hora das 6h29 à mão na transcrição. O relato de Gil não constitui uma conclusão judicial sobre a existência de falsificação. O que Avi Gil guardou nos cadernos Antes de deixar o cargo, Avi Gil mandou digitalizar o conteúdo integral dos seus cadernos e guardá-lo num computador classificado da Direção de Informações Militares. Diz que o entregará a uma comissão de inquérito de Estado no dia em que ela for criada, juntamente com o seu testemunho. Já não acredita que venha a sê-lo. Esperou três anos e decidiu falar nas últimas semanas, depois de ver o que acontece quando não há inquérito, e apontou o incidente a bordo de um voo da flydubai a 30 de setembro de 2026. Supremo Tribunal de Israel, em Jerusalém, fotografado em 3 de agosto de 2012. Imagem de arquivo e contexto institucional. Fotografia: Hedva Sanderovitz / PikiWiki, via Wikimedia Commons. Domínio público, por declaração da autora. Página de origem. Netanyahu recusa a comissão de Estado, cujos membros são nomeados pelo presidente do Supremo Tribunal, por entender que seria parcial contra o seu Governo, e defende uma comissão escolhida pelos deputados. A oposição prometeu boicotar uma comissão desse tipo. Na decisão de 23 de setembro de 2026, proferida no processo 4889/24 e nos processos apensos, o Supremo Tribunal determinou a apresentação de uma atualização até 15 de janeiro de 2027. Esse prazo é posterior às eleições de 27 de outubro de 2026. Fontes institucionais Supremo Tribunal de Israel — decisão de 23 de setembro de 2026, processo 4889/24 e apensos: prazo para apresentação de uma atualização. Lei das Comissões de Inquérito — artigos 1.º e 4.º, texto disponibilizado pelo Instituto Israelita para a Democracia: criação da comissão e nomeação dos seus membros. Entrevistas e fontes jornalísticas Canal 12 — entrevista integral com Avi Gil, 8 de outubro de 2026 Israel Hayom — entrevista direta com Avi Gil The Times of Israel — interrogatório de Braverman em novembro de 2024 The Jerusalem Post — processo de Braverman à espera de decisão do Ministério Público The Times of Israel — decisão do Supremo Tribunal sobre a comissão de inquérito #Israel #Justiça
- EUA e China: cooperar na IA sem partilhar tecnologia
Os dois países anunciaram um diálogo e um canal para incidentes. Comunicar sobre riscos, limitar determinadas utilizações e desenvolver tecnologia em conjunto são formas diferentes de cooperação. Os Estados Unidos e a China acordaram criar um canal de comunicação para incidentes relacionados com a inteligência artificial. O anúncio surgiu no final da visita de Xi Jinping a Washington, em setembro de 2026, acompanhado de um compromisso para continuar o diálogo sobre riscos e benefícios da tecnologia. A Casa Branca apresentou a iniciativa como um diálogo sobre «superinteligência», com novo intercâmbio previsto até novembro. O comunicado chinês utilizou a expressão inteligência artificial e indicou igualmente novembro para a próxima reunião. Ambos anunciaram a criação de um canal para incidentes. Criar um meio de comunicação não equivale a partilhar modelos, dados de treino ou capacidade de computação. Também não estabelece, por si só, limites comuns ao desenvolvimento tecnológico. EUA e China: O anúncio de um canal não prova que já funcione Os comunicados de setembro confirmam o compromisso de estabelecer uma ligação bilateral. Não apresentam, porém, um protocolo detalhado sobre os acontecimentos que devem ser comunicados, os responsáveis por receber as mensagens ou os prazos de resposta. Esses elementos determinam a utilidade prática do mecanismo. Também importa o significado de «incidente». Uma falha técnica, uma utilização não autorizada e uma operação deliberada levantam problemas diferentes. O canal pode ajudar a trocar informação sobre o sucedido; a sua existência não determina automaticamente a causa nem a responsabilidade. A comunicação pode coexistir com a concorrência O diálogo bilateral não começou em 2026. Em maio de 2024, representantes dos dois países reuniram-se em Genebra para discutir os riscos e a governação da IA. A comunicação chinesa sobre o encontro registou a troca de posições e, simultaneamente, as objeções de Pequim às restrições norte-americanas no setor. Esse encontro mostra que discutir segurança não pressupõe resolver os conflitos sobre acesso à tecnologia. Do lado norte-americano, a política de promoção internacional da IA também identifica destinatários preferenciais. Ao apresentar o plano de ação de julho de 2025, a Casa Branca anunciou a intenção de apoiar a exportação de conjuntos de tecnologia norte-americana, incluindo equipamento, modelos, programas e aplicações, para amigos e aliados. O canal anunciado não estabelece essa segunda forma de cooperação. O compromisso conhecido incide na comunicação, não num programa de desenvolvimento conjunto. O precedente das decisões nucleares Uma área de convergência já tinha sido identificada ao nível presidencial. Em novembro de 2024, Joe Biden e Xi Jinping afirmaram a necessidade de manter o controlo humano sobre a decisão de utilizar armas nucleares. O comunicado norte-americano acrescentou a importância de considerar cuidadosamente os riscos da IA no domínio militar. Joe Biden e Xi Jinping com as respetivas delegações, em Lima, a 16 de novembro de 2024. Imagem de arquivo do encontro em que foi afirmado o controlo humano da decisão de utilizar armas nucleares; não documenta a visita de 2026. Fotografia: Adam Schultz / Casa Branca. Domínio público nos EUA, obra do Governo federal. Uso editorial, sem implicar apoio da Casa Branca ao Atlantic Lisbon. Origem O objeto desse compromisso é específico: a decisão de utilização. Essa delimitação é importante. Um princípio sobre quem autoriza uma ação não resolve automaticamente todas as questões relativas à informação que chega ao decisor ou aos sistemas através dos quais a ordem é transmitida. O compromisso fornece, contudo, um ponto de partida para discutir outras decisões de consequências estratégicas. EUA e China: As propostas dos especialistas não são acordos dos governos Em setembro de 2026, Melanie W. Sisson e Tianjiao Jiang publicaram propostas sobre controlo humano da IA militar. Participam num diálogo informal promovido pela Brookings Institution e pelo Centro de Segurança e Estratégia Internacional da Universidade Tsinghua. Sisson propôs que a decisão de iniciar ciberataques contra sistemas nucleares de comando, controlo e comunicações, ou contra infraestruturas críticas, permanecesse humana. Jiang defendeu mecanismos adicionais, incluindo um canal militar específico para emergências associadas à IA. A publicação identifica essas recomendações como posições dos autores. A distinção evita atribuir aos governos limites que estes ainda não anunciaram. Um diálogo informal permite desenvolver propostas, comparar conceitos e identificar problemas. O trabalho sobre vocabulário ilustra essa função. Desde 2019, os especialistas envolvidos na iniciativa Brookings–Tsinghua têm procurado melhorar a precisão das discussões. Produziram glossários paralelos de termos relativos à IA e à segurança nacional, expressamente apresentados como contributos não oficiais. Avaliar riscos também exige métodos comparáveis Outra possibilidade de aproximação está na forma de medir capacidades e riscos. Um estudo apresentado em 2025, baseado em mais de 40 documentos de política pública e governação empresarial dos dois países, identificou convergências em matérias como transparência algorítmica e fiabilidade dos sistemas. Mesmo com uma pergunta comum, os testes não produzem uma garantia universal de segurança. Numa avaliação de modelos publicada em 2025, o organismo norte-americano de normalização e tecnologia, o NIST, advertiu que as medições abrangiam domínios específicos e podiam não se generalizar a outras tarefas. Entrada do campus do NIST em Gaithersburg, nos Estados Unidos. Imagem de contexto institucional; data da fotografia não indicada na página de origem. Fotografia: R. Eskalis / NIST. Domínio público nos EUA, obra do Governo federal. A utilização não implica apoio do NIST ao Atlantic Lisbon. Origem · Condições de utilização Por isso, comparar resultados exige conhecer as condições da avaliação e aquilo que foi efetivamente medido. Uma classificação agregada pode ocultar diferenças entre tarefas, ambientes e recursos disponíveis. A cooperação sobre métodos pode ser discutida sem implicar a entrega de todos os componentes de um modelo. Mas o grau de acesso necessário depende daquilo que se pretende verificar. Do entendimento político ao procedimento Os EUA e a China também participaram na Declaração de Bletchley de 2023, que reconheceu riscos graves dos sistemas avançados e defendeu cooperação internacional na sua identificação e gestão. Esse entendimento estabeleceu princípios partilhados; não criou uma entidade bilateral com poder para autorizar modelos ou investigar cada incidente. Os compromissos conhecidos pertencem, portanto, a planos distintos. Bletchley fornece uma base multilateral de reconhecimento dos riscos. O entendimento de 2024 identifica uma decisão que deve permanecer humana. O anúncio de setembro de 2026 acrescenta um diálogo e a intenção de estabelecer comunicação sobre incidentes. O passo seguinte é tornar essa comunicação utilizável: definir o que a desencadeia, quem responde e que informação pode ser transmitida. Fontes institucionais Casa Branca — resultados da visita de Xi Jinping (25 de setembro de 2026) Missão chinesa nas Nações Unidas — oito entendimentos (26 de setembro de 2026) Diálogo China–EUA em Genebra (2024), comunicação reproduzida pela Comissão de Ciência e Tecnologia de Xangai Casa Branca — apresentação do plano de ação para a IA (23 de julho de 2025) Casa Branca — encontro Biden–Xi em Lima (16 de novembro de 2024) Brookings — Advancing human control of military AI (2026) Brookings — glossário de termos de IA e segurança nacional Estudo — Promising Topics for U.S.–China Dialogues on AI Risks and Governance (2025) NIST/CAISI — avaliação dos modelos DeepSeek (2025), incluindo ressalvas metodológicas na secção 9 Governo britânico — Declaração de Bletchley (2023) #InteligênciaArtificial #EstadosUnidos #China
- Combustíveis: o Orçamento conta com o consumo
O Governo estima arrecadar cerca de 3,8 mil milhões de euros com o Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP) em 2027, mais 5,2% do que a receita prevista para 2026. No relatório orçamental, o crescimento é associado à evolução esperada do consumo privado. Uma redução duradoura do consumo pode representar um avanço na política energética e uma perda de receita. Não há incompatibilidade contabilística entre os dois resultados. As contas públicas incorporam uma expectativa de consumo que, se não se concretizar, poderá obrigar a encontrar receita noutro lado, a reduzir a despesa ou a aceitar um saldo diferente do previsto. O que está em causa não é se deve haver imposto sobre os combustíveis, mas como uma receita ligada a consumos que se pretende reduzir continua a ocupar um lugar importante no financiamento público. Combustíveis: o ISP depende das quantidades consumidas O ISP é calculado em função da quantidade de produto, não simplesmente do preço pago pelo consumidor. Por isso, um aumento do preço do petróleo não se traduz automaticamente num aumento equivalente da receita de ISP. O resultado depende das quantidades vendidas, das taxas aplicadas e de eventuais alterações fiscais. Mostrador de uma bomba de abastecimento, em imagem de arquivo de 2014. Fotografia: Raysonho / Open Grid Scheduler — domínio público (CC0). O Governo não está apenas a contar com combustíveis mais caros. Ao relacionar o aumento esperado com o crescimento do consumo privado, inscreve nas contas uma evolução da atividade que deverá sustentar a cobrança. A receita estimada para 2026 situa-se em cerca de 3,6 mil milhões, abaixo dos 4,2 mil milhões anteriormente previstos. Para 2027, antecipa-se uma recuperação de aproximadamente 200 milhões. São previsões, não receitas realizadas, dependentes do comportamento dos consumidores e das condições económicas. Um aumento de receita não deve ser confundido com um agravamento automático da carga fiscal por litro. Sem separar as alterações das taxas das variações do consumo, não é possível estabelecer essa relação. Mesmo sem aumentar a taxa, o Estado pode esperar arrecadar mais porque prevê uma maior utilização dos produtos tributados. Reduzir os combustíveis e prever a receita O apelo à redução do consumo tem uma justificação que ultrapassa o preço nas bombas. Uma menor utilização pode reduzir a exposição às oscilações internacionais e diminuir as emissões associadas ao transporte. O Orçamento, porém, tem de estimar o comportamento provável da economia e as receitas daí resultantes. Um Governo pode defender a redução da dependência de combustíveis fósseis e apresentar previsões de maior consumo. A primeira posição exprime um objetivo; a segunda reflete o que considera mais provável. A distância entre a transformação pretendida e a evolução económica inscrita nas contas merece exame porque a receita antecipada contribui para determinar o saldo e a margem para financiar compromissos. Se o consumo ficar abaixo do previsto, a receita poderá ficar aquém, caso outros fatores não compensem. Os números disponíveis não permitem afirmar que o Governo tenha interesse em impedir a redução. Para isso, seria necessário demonstrar decisões concretas nesse sentido. O que se pode afirmar é que a política energética e a política orçamental operam com referências diferentes: uma procura alterar comportamentos ao longo do tempo; a outra precisa de antecipar receitas para um exercício determinado. A tensão torna-se relevante quando a mudança desejada começa a afetar uma fonte de financiamento. Refinaria na Turquia, em 2015. Imagem ilustrativa da cadeia dos produtos petrolíferos. Fotografia: isakarakus — domínio público (CC0). A compensação do IVA através do ISP Durante 2026, o Governo recorreu a reduções temporárias do ISP para compensar a receita adicional de IVA associada à subida dos preços. A Portaria n.º 250-A/2026/1, de 5 de junho, explicita o mecanismo: perante um aumento extraordinário do preço da gasolina e do gasóleo, as taxas unitárias do ISP foram reduzidas para devolver, por essa via, a receita adicional de IVA. O Estado reconhece, na fundamentação, que a subida de preços pode aumentar a cobrança de IVA e agravar os custos das famílias e das empresas. A compensação não ocorre automaticamente: depende de uma decisão administrativa que modifica as taxas de ISP. O aumento do preço e a decisão de devolver parte da receita são acontecimentos distintos. A receita dos combustíveis resulta de uma combinação de consumo, preços e opções de política fiscal. Não basta observar a evolução do petróleo para saber quanto o Estado ganhará. Uma alteração das taxas pode modificar a receita mesmo que as quantidades vendidas permaneçam estáveis. A estimativa de 3,8 mil milhões para 2027 é um resultado esperado, não uma medição direta do consumo. A experiência de 2026 mostra que o Governo pode abdicar de parte da receita quando considera que o custo económico e social da subida o justifica. Quanto maior a compensação fiscal, menor será, em princípio, a receita que poderia ser obtida mantendo as taxas anteriores para o mesmo volume de consumo. O apoio ao consumidor e a preservação da receita não são objetivos inteiramente independentes. Os combustíveis nas contas do Orçamento de 2027 A proposta de Orçamento do Estado para 2027 foi entregue à Assembleia da República em 8 de outubro. O processo parlamentar ainda está em curso, pelo que os valores são os de uma proposta, não os de um orçamento definitivamente aprovado. A receita fiscal total prevista ascende a 70,67 mil milhões de euros, mais 4,2% do que a estimativa para 2026. O IVA deverá representar 30,28 mil milhões, aproximadamente 43% dessa receita. Os 3,8 mil milhões de ISP representam cerca de 5,4%. A tributação dos combustíveis é relevante, mas não determina isoladamente a sustentabilidade do Orçamento. Uma redução do consumo de combustíveis não provocaria necessariamente uma perda de receita fiscal total da mesma dimensão. Parte da despesa que deixa de ser realizada em combustível pode ser transferida para outros bens e serviços, igualmente sujeitos a tributação. O efeito líquido depende dessa transferência, da estrutura dos impostos e da evolução da atividade. Se uma família gastar menos em gasolina e usar a diferença para adquirir outros produtos, o Estado poderá continuar a receber IVA sobre parte dessa despesa. Se a poupança for usada para amortizar dívida ou permanecer depositada, o efeito imediato será diferente. Uma empresa que reduza os custos de transporte poderá aumentar o investimento, melhorar os resultados ou baixar os preços. Cada decisão produz consequências fiscais distintas. O saldo final não se determina apenas com a previsão de ISP. Elétrico no Largo de Santo António da Sé, em Lisboa, em 2010. Fotografia: DimiTalen — domínio público (CC0). Da transição energética à transição fiscal Uma fonte associada a produtos petrolíferos terá de ser progressivamente substituída, compensada ou reduzida na sua importância relativa se a transição diminuir de forma significativa a utilização desses produtos. Não é necessariamente uma perda de receita pública global. É uma mudança na sua composição. O sistema fiscal não existe separado dos comportamentos que pretende influenciar. A tributação dos combustíveis pode encarecer a utilização de produtos petrolíferos e favorecer alternativas, ao mesmo tempo que proporciona receitas para financiar a despesa pública. Enquanto o consumo se mantiver elevado, os dois efeitos coexistem. Quando o primeiro objetivo começa a produzir resultados duradouros, uma redução das quantidades consumidas pode diminuir a base sobre a qual incide o imposto, ainda que corresponda ao resultado desejado da política energética. A resposta não tem de ser aumentar as taxas para conservar a mesma receita. Seria uma escolha política, com consequências próprias sobre os consumidores que continuassem dependentes. Também não é obrigatório criar um novo imposto. O Estado pode acomodar alterações na composição através do crescimento de outras bases tributárias, da reorganização da despesa ou de uma combinação de medidas. O essencial é que a mudança energética tem consequências orçamentais que precisam de ser consideradas antes de a receita começar a diminuir. Automóvel num posto de carregamento elétrico em Buffalo, nos Estados Unidos, em 2013. Imagem de arquivo ilustrativa. Fotografia: Fortunate4now — domínio público (CC0). A previsão de maior cobrança de ISP em 2027 não demonstra um afastamento dos objetivos de transição. Um único exercício não permite estabelecer essa conclusão. Mostra que a receita fiscal ainda é projetada com base numa utilização significativa dos combustíveis e que o Governo espera arrecadar mais através dessa tributação no próximo ano. O Estado pode pedir aos cidadãos que reduzam o consumo e, simultaneamente, prever que esse consumo aumente. Uma previsão não é uma preferência. Mas a distinção entre prever e desejar não elimina a obrigação de preparar as contas públicas para o sucesso das próprias políticas. Se a redução do consumo se concretizar de forma duradoura, o Estado terá de adaptar a composição das suas receitas. O Orçamento ainda conta com a cobrança associada a esses produtos. A transição energética, quando avançar, exigirá também uma transição fiscal. Fontes documentais: proposta de Orçamento do Estado para 2027, entregue em 8 de outubro de 2026; Portaria n.º 250-A/2026/1, de 5 de junho; documentação orçamental da Entidade Orçamental e tramitação parlamentar. Os valores da receita fiscal utilizados correspondem à proposta orçamental, não a resultados definitivos. Consultar: relatório do Orçamento do Estado de 2027 · Portaria n.º 250-A/2026/1 #Economia #Portugal #Governo
- A máquina que não obedece
Em Março de 2020, quando os governos europeus começaram a impor confinamentos nacionais, a justificação era sempre a mesma: os modelos epidemiológicos previam o colapso hospitalar iminente se nada fosse feito. Os gráficos mostravam curvas exponenciais; projeções computorizadas indicavam datas precisas para a saturação de cuidados intensivos; os especialistas apresentavam cenários com três casas decimais. A promessa implícita era reconfortante: sabemos o que vai acontecer, sabemos quando, e sabemos como evitar. A política transformara-se em engenharia de saúde pública. Bastava seguir os números. Capa do ensaio “A Máquina Que Não Obedece”, publicado no Atlantic Lisbon (www.atlanticlisbon.com): uma composição noturna, em azuis e negros, onde se insinuam mapas de circuitos, traços de engrenagens e uma textura quase mineral. O desenho sugere uma ideia central do texto — a tentação moderna de tratar a vida coletiva como um mecanismo previsível — e o choque recorrente com aquilo que não se deixa modelar: comportamento humano, contingência, falhas de previsão, limites da técnica. Uma imagem de promessa e fricção: cálculo por um lado, imprevisível por outro. Dezoito meses depois, os mesmos governos admitiam que grande parte das previsões falhara — não por erro de cálculo, mas porque a realidade social não se comporta como sistema fechado. As pessoas adaptam-se, resistem, improvisam. A curva que deveria subir verticalmente achatou-se em lugares inesperados e disparou onde não era previsto. O vírus não leu os modelos. O que colapsou não foi apenas a previsão epidemiológica. Foi a confiança numa ideia mais profunda: a de que a razão técnica pode governar a vida coletiva como um engenheiro governa uma máquina. Essa promessa — a de controlo racional sobre a contingência humana — é a arquitetura invisível das democracias liberais contemporâneas. E é essa promessa que está hoje em crise. A substituição silenciosa Há algo específico que distingue a política moderna de todas as formas anteriores de governo. Não é a democracia — Atenas tinha assembleias populares dois mil anos antes de Rousseau. Não é a liberdade individual — cidades medievais italianas conheciam autonomia municipal. Não é sequer o constitucionalismo — tratados entre reis e barões limitavam o poder muito antes de Montesquieu. O que muda é a fonte de legitimidade. Durante séculos, o poder justificava-se por origem divina, linhagem heróica ou tradição imemorial. Um rei governava porque Deus o escolhera, porque descendia de conquistadores, ou porque "sempre fora assim". A pergunta política fundamental era: quem tem direito a mandar? A modernidade inverte isto. A pergunta deixa de ser sobre direito e passa a ser sobre capacidade. Não importa quem governa, importa se governa bem. A legitimidade desloca-se da transcendência para performance. Este deslizamento não foi acidental. Foi deliberado. Quando Hobbes escreveu o Leviatã (Leviathan) - Leviathan, or The Matter, Forme and Power of a Common-wealth Ecclesiasticall and Civil - em 1651, no rescaldo da guerra civil inglesa, a sua proposta é brutal na clareza: o poder existe para produzir paz, não para encarnar a verdade eterna. Se um soberano garante segurança, merece obediência. Se falha, perde o título. A autoridade mede-se por resultados. Isto parece razoável. Mas tem uma implicação que só se torna visível séculos depois: se a política se justifica por eficácia, então qualquer falha técnica mina o próprio sistema. Um rei que perde uma batalha pode invocar a vontade divina, infortúnio ou traição. Um Estado que promete controlo racional e falha não tem essa saída. Falhou no único critério que importa. A modernidade pôs todos os ovos no mesmo cesto. Se o sistema produz resultados, merece obediência. Se falha, perde o fundamento. Não há plano B. A engenharia da vontade geral Um dos dispositivos centrais deste sistema é a representação política. Não no sentido trivial de votar a cada quatro anos, mas no sentido filosófico: a ideia de que o poder exercido pelo Estado é, em última análise, poder do próprio povo. A operação é engenhosa. As pessoas detestam ser governadas. Mas aceitam ser governadas se acreditarem que governam através de representantes eleitos. O conflito entre autoridade e autonomia dissolve-se — pelo menos em teoria. O problema é escala. Numa assembleia ateniense com seis mil cidadãos reunidos fisicamente, a distância entre vontade individual e decisão coletiva é curta. Num Estado-nação com cinquenta milhões de habitantes espalhados por centenas de milhares de quilómetros quadrados, essa distância torna-se abismo. A representação moderna funciona através de múltiplas camadas de abstração: o voto transforma-se em mandato, o mandato transforma-se em coligação, a coligação transforma-se em governo, o governo transforma-se em lei, a lei transforma-se em regulamento, o regulamento transforma-se em decisão administrativa executada por funcionários que ninguém elegeu. No final desta cadeia, o cidadão individual olha para a decisão que o afeta e não reconhece nela a sua vontade. Mas também não a pode rejeitar legitimamente, porque foi "democraticamente decidida". A representação torna-se ficção funcional. Enquanto produz resultados aceitáveis — crescimento económico, segurança, serviços públicos —, a ficção aguenta. Quando os resultados falham, a legitimidade desmorona-se. E aqui está o paradoxo: quanto mais o Estado promete controlar, maior a probabilidade de falhar em alguma dimensão. E quanto maior a falha, mais frágil a legitimidade. Prosperidade como substituto de sentido Há também uma aposta económica no centro deste edifício, e assenta numa ideia ousada: o crescimento material pacifica. A lógica é simples. Se a produção de bens aumenta continuamente, a disputa pelo que existe diminui. Em vez de lutar por território fixo, as sociedades competem por expansão de riqueza. o Comércio substitui A conquista. a Inovação substitui a pilhagem. O conflito não desaparece — é redirecionado para arenas menos sangrentas. Durante três séculos, funcionou extraordinariamente bem. Entre 1800 e 2000, a produção global multiplicou-se por um fator de cinquenta. Dizem-nos que a esperança de vida duplicou. Que a pobreza extrema caiu de 90% para menos de 10% da população mundial. Mas este sucesso gerou dependência estrutural. Se a paz social depende de crescimento contínuo, qualquer estagnação torna-se ameaça existencial. O sistema não tolera pausa. E quando o crescimento abranda — como em 2008, ou durante crises energéticas, ou sob a pressão ambiental —, a pacificação económica revela-se frágil. Há também um custo antropológico. Quando a prosperidade material se torna substituto no sentido coletivo, a política esvazia-se. Votar transforma-se em escolher gestores de crescimento. Governar transforma-se em administrar o PIB. A pergunta deixa de ser "como devemos viver?" e passa a ser "quanto vamos crescer?". A economia liberta as sociedades da violência crónica. Mas aprisiona-as numa corrida sem linha de chegada. O obstáculo que nunca foi resolvido E há ainda um obstáculo que a modernidade nunca resolveu completamente: a religião. O problema não é que a fé seja irracional — muitas tradições religiosas desenvolveram a teologia sofisticada. O problema é que a religião introduz fonte de autoridade que escapa ao controlo humano. Se o mundo está submetido à vontade divina independente, o domínio técnico tem limite intrínseco. Há coisas que não podem ser calculadas, optimizadas ou geridas. Há autoridade que não se delega nem se revoga. A modernidade responde de duas formas. Uma é reinterpretar a religião como questão privada. A fé torna-se escolha individual, não estrutura pública. O Estado tolera-a desde que não interfira na gestão colectiva. Deus retira-se para o espaço interior; a política governa o espaço comum. A outra é substituir a transcendência religiosa por transcendência secular: direitos humanos universais, progresso histórico inevitável, razão como autoridade final. O conteúdo muda; a estrutura — algo que está acima da vontade humana imediata — mantém-se. Ambas as estratégias funcionaram durante séculos. Mas deixaram um vazio metafísico. Quando a religião deixa de fornecer sentido coletivo partilhado e a política se reduz a gestão técnica, resta apenas o indivíduo isolado procurando significado onde conseguir. Este vazio não é estável. Preenche-se com substitutos: identidades tribais, ideologias totalizantes, movimentos messiânicos seculares. A modernidade pensou que podia dispensar o sagrado. Descobriu que o sagrado regressa sob formas menos domesticáveis. Quando a razão se volta contra si mesma A crise contemporânea do controlo racional não vem de fora. Vem de dentro. Durante o século XX, filósofos, sociólogos e historiadores começaram a interrogar o próprio conceito de razão. E descobriram algo incómodo: aquilo que uma época considera "racional" depende de contextos históricos, estruturas sociais e relações de poder. Se a razão é produto histórico variável, então o "controlo racional" não é fundamento estável — é fase transitória num processo que pode mudar de direção. Este deslizamento do conceito produziu duas reações opostas, ambas destrutivas para o equilíbrio liberal. Uma tenta radicalizar o controlo: mais dados, mais algoritmos, mais planeamento científico da sociedade. A promessa é que a tecnologia suficientemente avançada eliminará incerteza. A Inteligência Artificial preverá o crime, os modelos climáticos guiarão a política energética, a análise de big data otimizará a saúde pública. A China contemporânea levou esta lógica ao extremo com sistemas de crédito social que monitorizam o comportamento individual em tempo real, atribuem pontuações e ajustam o acesso a serviços públicos conforme a sua conformidade. O sistema foi desenhado para ser racional, previsível, justo. Mas produziu efeitos que nenhum modelo previu: a simulação da virtude, ansiedade crónica de vigilância, colapso de confiança interpessoal. As pessoas adaptaram-se ao sistema que o próprio sistema não conseguiu antecipar. O problema é que quanto mais sofisticado o sistema de controlo, maior o custo de falha. E falha sempre ocorre — porque a realidade social não é sistema fechado. A outra reação rejeita completamente o projeto. Se a razão é construção histórica arbitrária, então não há critério objetivo para escolher entre alternativas. Sobra a vontade, identidade, autenticidade. A política torna-se afirmação tribal, não deliberação racional. Ambas as respostas são filhas da mesma crise: a promessa moderna de controlo racional já não convence, mas nada a substituiu de forma coerente. O paradoxo da eficácia total As democracias liberais enfrentam hoje uma armadilha que elas próprias construíram. O controlo racional foi suficientemente bem-sucedido para gerar expectativas de gestão total. Os Estados prometem não apenas a segurança externa, mas a saúde pública, estabilidade financeira, proteção ambiental, equilíbrio social, progresso tecnológico e até bem-estar emocional. Cada promessa amplia o perímetro do controlável. E cada ampliação aumenta a superfície de falha potencial. Quando uma pandemia expõe limites da medicina preventiva, quando uma crise financeira revela a fragilidade dos modelos económicos, quando as alterações climáticas demonstram incapacidade de gerir os sistemas planetários — cada evento transforma-se em crise de legitimidade. Se a política se justifica por eficácia técnica, qualquer ineficácia técnica questiona a própria política. O cidadão contemporâneo sente-se simultaneamente protegido e impotente. Protegido porque o Estado garante a segurança sem precedente histórico. Impotente porque a escala de decisões que o afetam ultrapassa qualquer capacidade individual de influência. Este paradoxo alimenta o ressentimento difuso. Não contra a injustiça específica, mas contra o sistema que promete controlo total e entrega controlo parcial. Contra-argumento: o progresso é inegável A objeção mais forte a esta análise é evidente, e seria desonesto ignorá-la. O projeto moderno de controlo racional produziu ganhos tangíveis sem paralelo histórico. Dizem que a Esperança de vida aumentou de 30 para 75 anos em dois séculos. Que a Mortalidade infantil caiu 95%. Que a Pobreza extrema diminuiu de maioria absoluta para minoria global. Que o Acesso à educação, saúde, informação expandiu-se para biliões de pessoas. Negar estes avanços seria irresponsável intelectualmente. Mas o ponto não é negar o progresso. É questionar a sustentabilidade política da promessa que o gerou. Um sistema que se legitima através da eficácia crescente cria vulnerabilidade estrutural: cada crise — sanitária, financeira, climática — transforma-se em teste existencial. Se a política é técnica, o erro técnico mina fundamento. E erro técnico é inevitável. Não por incompetência, mas porque a realidade social contém irredutível imprevisibilidade. O que resta quando a máquina falha O debate contemporâneo não é entre razão e irracionalidade. É entre dois modelos de razão. Um modelo vê a razão como instrumento de domínio: conhecer para controlar. Outro vê a razão como instrumento de compreensão: conhecer para aceitar limites. O primeiro produz eficiência e expansão. O segundo produz moderação e prudência. A modernidade escolheu o primeiro. O século XXI confronta-se com as consequências dessa escolha. Os Estados que continuem a prometer controlo total — climático, económico, sanitário, social — ampliam o risco de desilusão colectiva. Não porque sejam incompetentes, mas porque prometem o impossível. A política não é máquina. Governar não é engenharia. E quando se trata a contingência humana como problema técnico solucionável, cria-se a expetativa que nenhum sistema consegue satisfazer indefinidamente. O desafio não é abandonar a razão. É abandonar a fantasia de omnipotência racional. Num mundo saturado de dados, algoritmos e gestão em tempo real, a tentação do controlo absoluto cresce. Mas quanto mais sofisticadas as ferramentas, mais visível se torna o que elas não conseguem capturar: escolha moral, sentido partilhado, contingência irredutível. A crise das democracias liberais não é económica, cultural ou tecnológica. É filosófica. É a tensão entre uma promessa de engenharia social e a persistência teimosa do imprevisível. E o imprevisível — ao contrário do que a modernidade apostou — não desaparece com mais cálculo. Persiste. E exige resposta política que a técnica sozinha não pode dar. A questão não é se devemos usar a razão. É se devemos confiar que a razão elimina tragédia. A máquina não obedece. Talvez nunca tenha obedecido realmente, e o que funcionou durante três séculos foi apenas coincidência favorável de condições — crescimento fácil, energia abundante, expectativas contidas. Quando essas condições mudam, o que parecia controlo racional revela-se aposta sem cobertura. E continuar a dobrar essa aposta não é racionalidade. É fé disfarçada de técnica. 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- França: a República que resiste aos governos
A arquitetura institucional da Quinta República foi desenhada para proteger o executivo da instabilidade parlamentar. A fragmentação está a mostrar onde essa proteção deixa de chegar. Já não se trata apenas de encontrar um governo que sobreviva, mas de perceber como se tomam decisões duradouras sem maioria para as sustentar. Em 2022, Emmanuel Macron perdeu a maioria absoluta na Assembleia. A administração continuou, os serviços públicos continuaram, o Presidente conservou os poderes constitucionais. Ao mesmo tempo, cada orçamento passou a poder transformar-se em crise e cada iniciativa de maior alcance passou a depender de negociações de resultado incerto. França: A Quinta República e a proteção do executivo Em 1958, Charles de Gaulle quis responder ao que tinha visto na Quarta República: coligações frágeis, executivos de curta duração, paralisia. A Quinta República reforçou o executivo, limitou os instrumentos de intervenção parlamentar e procurou impedir que crises ministeriais sucessivas bloqueassem a ação do Estado. Charles de Gaulle, fotografado em 28 de maio de 1958. A Quinta República procurou responder à instabilidade dos executivos da Quarta República. Fotografia: Anefo / Nationaal Archief. Domínio público, CC0 1.0. Durante décadas, a fórmula funcionou quando o Presidente dispunha de uma maioria favorável para executar as suas escolhas. Havia conflito entre a esquerda e a direita, mas era reconhecível quem governava e quem se opunha. O desenho institucional mantém-se. O país que o sustenta mudou de composição política. O Presidente nomeia o primeiro-ministro sem que a Constituição exija um voto inicial de confiança. O Governo permanece enquanto não for obrigado a demitir-se pelos mecanismos previstos ou enquanto outra circunstância política não determinar a sua saída. Fachada do Palácio Bourbon, numa fotografia histórica conservada pelo Museu Carnavalet. É na Assembleia Nacional que se decide a responsabilidade política do Governo. Fotografia: autor anónimo / Paris Musées, Musée Carnavalet. Domínio público, CC0 1.0. O artigo 49.º, n.º 3, permite ao Governo fazer aprovar determinados textos sem votação final sobre o conteúdo, salvo se uma moção de censura for aprovada. Foi pensado para evitar bloqueios parlamentares, mas desloca o conflito para a sobrevivência do próprio executivo. Com maioria, o recurso ao 49.3 pode ser apresentado como disciplina excecional de divergências internas. Sem maioria, o Governo deixa de ter de convencer os deputados e passa a depender de os adversários não conseguirem unir-se para o derrubar. A ausência de uma maioria favorável e a existência de uma maioria disposta a censurar são coisas diferentes. Entre ambas há um espaço de sobrevivência. Depois das legislativas de 2022, o executivo de Élisabeth Borne recorreu repetidamente ao 49.3. Ultrapassou impasses e conseguiu aprovar medidas sem demonstrar apoio parlamentar suficiente para construir uma orientação partilhada. A dissolução que não criou uma maioria Em junho de 2024, na sequência do resultado das europeias, Macron dissolveu a Assembleia. A lógica era institucionalmente compreensível: devolver a palavra aos eleitores para clarificar uma autoridade presidencial enfraquecida por um Parlamento fragmentado. As legislativas dividiram a Assembleia em três grandes conjuntos: a esquerda reunida numa frente eleitoral, o campo presidencial e a direita radical com peso confirmado, sem maioria absoluta para nenhum. Esclareceu-se a distribuição de forças. A questão de quem podia formar um Governo estável ficou por resolver. Michel Barnier foi nomeado em setembro de 2024. O seu Governo precisava de evitar que forças politicamente distintas se entendessem para o derrubar. Em dezembro, ao apresentar o orçamento da Segurança Social com recurso ao 49.3, foi confrontado com uma moção de censura aprovada a 4 de dezembro. O mecanismo funcionou juridicamente como prevê a Constituição. O que deixou de funcionar foi a expectativa política de que os adversários não se reuniriam para censurar. A França ficou com um Presidente com mandato próprio, um Governo constitucionalmente nomeado e uma Assembleia democraticamente eleita, sem uma direção política estável daí resultante. Emmanuel Macron numa cerimónia na Casa Branca, em 24 de abril de 2018. O mandato presidencial e a maioria parlamentar têm legitimidades distintas. Fotografia: Zane Ecklund / U.S. Army, DVIDS. Domínio público nos EUA; utilização editorial gratuita. A recomposição do eleitorado A eleição de 2017 alterou um equilíbrio que durante muito tempo se organizou à volta da competição entre a esquerda e a direita, com partidos menores e mudanças de alianças, mas com alternativas de governo reconhecíveis. A candidatura de Macron ultrapassou essa divisão e reuniu apoios de origens diferentes, acompanhada de uma maioria legislativa que adiou as consequências da recomposição. Essa maioria escondia uma transformação. Os antigos partidos dominantes perderam capacidade de organizar o eleitorado. À esquerda, sensibilidades diferentes passaram a disputar o mesmo espaço. À direita, o crescimento do Reagrupamento Nacional mudou a relação entre o eleitorado conservador, os partidos tradicionais e a direita radical. O centro presidencial tornou-se decisivo sem substituir de forma duradoura as estruturas que organizavam a alternância. A Quinta República habituou os protagonistas a procurar autoridade através da vitória eleitoral e de maiorias disciplinadas, não de compromissos prolongados entre adversários. Ao contrário do que acontece em democracias parlamentares onde os acordos de coligação são prática habitual, uma Assembleia sem maioria em França exige uma negociação permanente que as instituições, por si só, não criam. A continuidade do Estado e os limites do orçamento O Presidente eleito diretamente pelos cidadãos conserva a influência decisiva na defesa, na diplomacia e na orientação geral do Estado, embora a distribuição concreta de competências dependa da relação com o Governo e a Assembleia. Pode anunciar prioridades e mobilizar recursos políticos, mas precisa de leis e orçamentos aprovados para as concretizar. Um Rafale francês descola no Havai durante o exercício Wakea, em 29 de junho de 2021. Os compromissos de defesa exigem financiamento e execução para além da duração de cada governo. Fotografia: Orlando Corpuz / U.S. Air National Guard, DVIDS. Domínio público nos EUA; utilização editorial gratuita. Isso nota-se quando uma iniciativa exige financiamento continuado. A lei de programação militar para 2024-2030 fixa compromissos financeiros de longo prazo e define prioridades. A execução continua dependente de decisões orçamentais anuais e de administrações a trabalhar com alguma previsibilidade. A continuidade do Estado reduz os efeitos imediatos das crises. Não substitui indefinidamente uma direção política sustentada. O orçamento é onde as declarações de intenção competem pelos mesmos recursos. Reforçar a defesa, proteger o poder de compra, investir na indústria e reduzir o défice implica decidir quem suporta os custos, que despesas se adiam e que compromissos deixam de ser financiados. O peso da dívida, a necessidade de controlar o défice e o financiamento dos serviços públicos estreitam a margem para conciliar interesses. Concordar em termos gerais que é preciso preservar a proteção social e manter o investimento é diferente de decidir sobre impostos, pensões, despesa ou prioridades territoriais. Sem uma maioria estável, cada acordo tem de ser reconstruído e pode desaparecer na negociação seguinte. Um executivo que não sabe se aprova o próximo orçamento tende a concentrar-se no indispensável, a adiar reformas controversas e a reduzir a ambição de iniciativas que precisam de vários anos. A administração conserva capacidade de execução e algumas decisões continuam a reunir apoios amplos. A incerteza torna-se, porém, um elemento permanente do cálculo político, e os problemas de longo prazo não desaparecem quando os governos se concentram na sobrevivência imediata. O Presidente não substitui uma maioria A Quinta República foi frequentemente lida através da figura presidencial. A personalização do poder coloca o Presidente no centro da atenção e cria a expectativa de que a estabilidade depende da capacidade individual de impor uma orientação. Um novo chefe de Estado pode alterar os equilíbrios eleitorais e a relação entre os partidos. Não garante que as legislativas produzam uma maioria coerente nem que forças com interesses incompatíveis aceitem compromissos duradouros. À medida que se aproxima a presidencial de 2027, os incentivos para negociar podem diminuir. Uma concessão hoje pode ser usada amanhã como argumento de campanha, e cada acordo passa a ser avaliado também pelo efeito na eleição seguinte. O problema ultrapassa a personalidade de Emmanuel Macron. O regime organiza-se em torno de uma presidência forte enquanto a sociedade política deixou de oferecer maiorias previsíveis. A França mantém uma administração extensa, instituições com experiência, capacidade diplomática, forças armadas relevantes e uma posição central na União Europeia. Compromissos internacionais, projetos públicos e programas de investimento atravessam mudanças de governo sem serem interrompidos. Uma administração pode continuar a aplicar programas existentes e a preparar alternativas. Não decide por iniciativa própria a distribuição futura de recursos entre prioridades concorrentes. Isso exige legitimidade política para escolher. Paris continua a ser um interlocutor indispensável em defesa, energia, indústria e financiamento comunitário. Defender uma posição no Conselho não garante assegurar internamente todos os compromissos necessários à execução. A confiança dos parceiros na continuidade das decisões conta, e, quando não se sabe que Governo estará em funções meses depois, a negociação torna-se mais complexa. A Quinta República perante a negociação A Constituição oferece mecanismos para nomear governos, aprovar textos e resolver conflitos parlamentares. O regime dispõe de instrumentos para continuar a funcionar. Durante muito tempo, a resposta foi a combinação entre liderança presidencial e maioria parlamentar. Com a fragmentação, não basta identificar quem ganhou uma eleição. É preciso saber que compromissos podem ser construídos entre forças que representam parcelas diferentes da sociedade e que não dispõem, isoladamente, de apoio suficiente para governar. Isso não implica que todos os partidos participem no mesmo Governo nem que os conflitos tenham de desaparecer. Uma democracia precisa de oposição e da possibilidade de mudança. Implica reconhecer a negociação como condição de governação. A Quinta República continua de pé. Resta saber se consegue transformar a resistência institucional em capacidade para escolher, financiar e executar orientações que ultrapassem a duração de cada governo. Fontes institucionais Conselho Constitucional: Constituição de 4 de outubro de 1958 Assembleia Nacional: votação da moção de censura de 4 de dezembro de 2024 #França #Governo #República
- Guerra do Irão: o que as bases dos EUA não protegem
Trinta e três quilómetros. Na estrangulação mais apertada do Estreito de Ormuz, é essa a distância entre as costas iranianas e a península de Musandam, no sultanato de Omã. Uma hora de travessia a velocidade de cruzeiro para um navio-tanque. Tempo suficiente para transportar uma fração do petróleo e do gás liquefeito que, durante décadas, fluiu por ali sem que o mundo prestasse grande atenção ao que tornava aquela passagem possível — e ao que seria necessário para a fechar. Por que as bases militares dos EUA no Golfo não protegem os seus anfitriões. A geografia estreita de Ormuz expôs uma fragilidade maior: a presença militar americana no Golfo não garante, por si só, a proteção dos aliados nem o controlo político da crise. Em março de 2026, esse corredor tornou-se o ponto de convergência de uma equação que ninguém tinha querido formular em voz alta: o Irão decidira fechá-lo, e nenhum dos países com bases militares americanas instaladas ao longo de toda a costa sul do Golfo Pérsico estava em condições de o reabrir. Não por falta de meios. Por falta de um cálculo que valesse a pena fazer — ou que alguém com poder de decisão estivesse disposto a assumir publicamente. O que falhou não foi a capacidade militar. Foi a premissa. Durante cinquenta anos, a presença americana no Golfo assentou numa lógica que raramente precisou de ser articulada, precisamente porque nunca tinha sido testada com esta brutalidade. A base era a garantia. O porta-aviões ancorado ao largo, os interceptores Patriot estacionados nos arredores de Riade e Abu Dhabi, os militares americanos a circular nos centros comerciais de Doha — tudo isso dizia, sem precisar de dizer: estamos aqui, portanto estão protegidos. Os países do Golfo aceitaram este argumento durante décadas, pagaram-no em contratos de armamento avaliados em centenas de milhares de milhões de dólares e em cooperação política que incluía silêncios convenientes sobre políticas domésticas, e construíram sobre ele a sua arquitetura de segurança. A condição não estava escrita — funcionava enquanto o Irão respeitasse a dissuasão. O Irão deixou de a respeitar — e a revelação teve uma crueldade específica para quem estava dentro do sistema. Os Emirados Árabes Unidos, que acolhem a maior base aérea americana do Médio Oriente, foram o país do Golfo mais duramente atingido pelos ataques iranianos. A escolha não foi aleatória. Teerão construiu deliberadamente uma estrutura de incentivos para punir qualquer aproximação a Israel: atacar o anfitrião mais visível da presença americana era a mensagem, escrita em mísseis balísticos sobre instalações portuárias e de dessalinização. A base não protegeu os Emirados. Tornou-os alvo preferencial, com a precisão de quem quer que o exemplo seja lido corretamente pelos vizinhos. Dania Thafer, diretora do Gulf International Forum, nomeou o mecanismo com precisão: existe "uma preocupação real sobre uma hierarquia de aliança entre os EUA e Israel, e os EUA e os Estados do Golfo, com Israel mais acima nessa hierarquia." Qualquer analista do Médio Oriente teria subscrito esta formulação em 2018, ou em 2010, ou em 1990. O que a guerra fez foi torná-la indisfarçável. Há uma memória em Lisboa sobre este mecanismo que Washington parece ter esquecido, ou nunca aprendido direito. Em outubro de 1973, quando a guerra de Yom Kippur ameaçava destruir as forças israelitas no Sinai e no Golã, a administração Nixon precisava com urgência de uma ponte aérea para Telavive. A rota mais direta passava pelos Açores. Portugal, governado então por Marcelo Caetano e em negociação longa e difícil com Washington sobre a renovação dos acordos de utilização das Lajes, acabou por ceder à pressão americana — a base foi disponibilizada, os voos de reabastecimento partiram da Terceira a partir de 13 de outubro, e a operação ajudou a virar o equilíbrio militar no terreno. As consequências chegaram em semanas. Os países árabes produtores de petróleo incluíram Portugal no embargo que lançaram contra os que tinham apoiado Israel, diretamente ou por facilitar a logística americana. Uma economia já fragilizada, a menos de seis meses da revolução que poria fim ao Estado Novo, pagou o preço de uma estratégia que não tinha desenhado e de uma guerra em que não tinha nenhuma posição própria. Portugal assinou um acordo de utilização com cláusulas escritas — e recebeu as cláusulas não escritas conforme chegaram, sem aviso prévio e sem direito de veto. Segundo Zelensky, os Estados Unidos utilizaram cerca de oitocentos interceptores Patriot nos primeiros três dias da guerra com o Irão — mais do que a Ucrânia recebeu em quatro anos de conflito contra uma força que usa os mesmos drones iranianos comprados por Moscovo. Os países do Golfo viram os sistemas instalados nos seus territórios, apresentados publicamente como escudo da sua segurança, a ser reorientados para uma prioridade diferente sem que ninguém se tivesse dado ao trabalho de lhes explicar a lógica operacional. A base estava lá. O que ela estava a proteger tinha mudado. No topo da hierarquia que se tornou visível não estavam os Emirados, nem a Arábia Saudita, nem o Qatar — aliados comprados a peso de ouro e de silêncio diplomático durante décadas. Estava a operação militar americana no estreito, e dentro dessa operação a segurança de Israel e a batalha pelo preço do barril numa economia americana já fragilizada pela desorganização tarifária dos meses anteriores. Os países do Golfo já sabiam, em abstrato, que Washington tinha interesses próprios que nem sempre coincidiam com os seus. Saber isso com portos atacados e sistemas Patriot redirecionados é uma informação de outra ordem — operacional, mensurável, documentada em interceptores por dia. A Arábia Saudita aprofundou o acordo de defesa com o Paquistão, que ganhou credibilidade adicional como mediador entre Washington e Teerão. O Qatar consolida os laços com a Turquia, que tem os seus próprios cálculos em relação à NATO e à Rússia e que não é, por isso, uma âncora simples. A China, com relações comerciais densas com o Irão e interesses diretos na estabilidade do corredor de Ormuz para as suas importações energéticas, posiciona-se como o ator com credenciais de mediação que Washington erodiu. Fala-se de arquiteturas regionais de segurança coletiva, de um "NATO árabe", de consórcios internacionais para a gestão dos corredores marítimos do Golfo — ideias que circulavam em conferências académicas há quinze anos e que a guerra trouxe para negociações concretas. O problema com estas alternativas não é a sua incoerência. É que replicam, em versão mais fragmentada e com menos recursos, a mesma premissa que acabou de ser testada até ao ponto de ruptura: uma arquitetura de segurança assente em garantias mútuas funciona enquanto a ameaça aceitar ser dissuadida. O Irão que fechou Ormuz após ter absorvido ataques que mataram o seu líder supremo, decimaram a sua liderança política e destruíram parte substancial da sua infraestrutura militar demonstrou que essa condição tem limites que nem a presença de um porta-aviões americano foi capaz de fixar. Se uma arquitetura alternativa, construída sobre interesses parcialmente contraditórios entre a Turquia, o Paquistão, a China e os próprios países do Golfo, estaria em melhor posição para lidar com esse Irão — é uma pergunta que ninguém em Abu Dhabi ou Riade consegue responder com convicção, porque a convicção exigiria um grau de confiança nos novos parceiros que ainda não foi construído. O que existe é menos dependência de uma única garantia. Não é uma estratégia acabada, mas é o único terreno disponível depois de o anterior ter cedido. Do outro lado do mundo, a Europa assistia a um espelho do mesmo problema, com variações que tornavam o reflexo mais incómodo do que a imagem original. Trump exigiu que os aliados da NATO abrissem as suas bases para as operações americanas contra o Irão. Vários recusaram ou limitaram o acesso. A resposta de Washington foi imediata: "NATO WASN'T THERE WHEN WE NEEDED THEM, AND THEY WON'T BE THERE IF WE NEED THEM AGAIN." Moscovo tratou a fratura como confirmação do argumento que alimentara durante anos sobre a fragilidade estrutural do sistema de alianças ocidentais. O enviado presidencial russo Kirill Dmitriev escreveu que os europeus tinham finalmente revelado o seu verdadeiro rosto — o comentário de um ator que beneficia diretamente do ruído que gera, e que o sabe. A recusa europeia não foi um abandono da aliança. Foi a aplicação da mesma lógica que os países do Golfo tinham aplicado, com a diferença de que os europeus têm parlamentos e opiniões públicas que tornam impossível a aceitação silenciosa. Acolher uma base americana não equivale a uma carta branca para todas as guerras que o seu proprietário decida travar. Os europeus tinham reservas sobre a guerra com o Irão — expressas em reuniões do Conselho Europeu, em declarações de chefes de governo, em análises de serviços de informações que não partilhavam o otimismo de Washington sobre a rapidez com que o regime iraniano capitularia — e essas reservas foram ignoradas durante o planeamento da operação. Recusar o uso das bases foi a única forma de as exprimir que ainda estava disponível depois de a guerra ter começado. Trump leu isto como traição. Os europeus leram como diferença legítima de avaliação estratégica sobre uma guerra em que não tinham sido consultados. Moscovo leu como oportunidade de exploração. A Rússia é o único ator para quem as três leituras são simultaneamente verdadeiras — e que se beneficia precisamente dessa simultaneidade. Os meses que se seguiram confirmaram o encadeamento. Com o preço do petróleo disparado pelo fechamento do estreito, a administração americana emitiu uma isenção temporária que suspendeu parcialmente as sanções ao petróleo russo para aliviar a pressão nos mercados energéticos ocidentais. As receitas russas de petróleo subiram de 9,7 mil milhões de dólares em fevereiro para 19 mil milhões em março. A atenção americana e os interceptores Patriot estavam no Golfo, e a Ucrânia continuava a receber, noite após noite, vagas de mísseis balísticos e drones Shahed — construídos com componentes russos, baseados em tecnologia iraniana, montados em fábricas que os dois países tinham desenvolvido em conjunto durante os anos em que o mundo estava a olhar para outro lado. Na madrugada de 15 de abril, a Rússia lançou sobre a Ucrânia três mísseis balísticos e trezentos e vinte e quatro drones de ataque, incluindo duzentos e cinquenta Shaheds. Na noite seguinte, dezanove mísseis balísticos, vinte e cinco mísseis de cruzeiro e seiscentos e cinquenta e nove drones. Morreram pelo menos dezassete pessoas. Foi um dos maiores ataques aéreos dos quatro anos de guerra. A base em Rammstein, a base em Aviano, a base em Mildenhall: continuavam lá. Serviam uma prioridade diferente. A palavra "aliança" cobre mais território do que qualquer tratado descreve — e parte desse território só se torna visível quando alguém precisa de o atravessar. Há um detalhe nas negociações de Islamabade que vale a pena registar com cuidado, porque é fácil de sobrecarregar de sentido. Mohammad Bagher Ghalibaf, que liderou a delegação iraniana nas vinte e uma horas de conversações que terminaram sem acordo, construiu parte da sua reputação pública como modernizador pragmático. Em 2008, quando era presidente da câmara de Teerão e frequentava o Fórum Económico Mundial em Davos, disse ao New York Times que o Irão não queria construir armas nucleares, que o diálogo com Washington era possível, e que a condição era simples: ser tratado como parceiro, não como réu. A entrevista foi publicada com o subtítulo de "authoritarian modernizer". Dezoito anos depois, o mesmo homem sentava-se do outro lado da mesa numa tentativa de pôr fim a uma guerra que começara com a morte do líder supremo do seu país em ataques aéreos guiados por informações americanas. O que Ghalibaf disse em Davos e o que disse em Islamabade não são posições contraditórias — são a mesma posição em contextos de poder radicalmente diferentes. Em 2008, o Irão precisava de ser ouvido e não tinha alavancagem suficiente para exigir que o ouvissem. Em 2026, o Irão controlava o corredor por onde fluía um quinto do petróleo mundial, e a delegação americana que veio a Islamabade incluía o vice-presidente J. D. Vance. A diferença entre ser tratado como parceiro e ser tratado como problema nunca esteve nas declarações de intenção de nenhuma das partes. Estava na presença ou ausência de alavancagem — e a alavancagem, neste caso, não vinha dos anos de resistência às sanções nem da retórica revolucionária. Vinha de trinta e três quilómetros de água e da decisão de os fechar. Suzanne Maloney, do Brookings Institution, disse-o de forma direta: os iranianos "acreditam que ganharam a guerra" e "ainda detêm o trunfo do controlo sobre o estreito." Enquanto isso for verdade — e continua a ser, com o estreito largamente fechado — não há incentivo estrutural para a capitulação que Trump descreveu publicamente como o modelo venezuelano. A Venezuela funcionou porque Maduro não tinha Ormuz. O Irão tem. #GuerraDoIrão #EstreitorDeOrmuz #BasesAmericanas #GeopolíticaDoGolfo
- Stockton University apaga um texto sobre Gaza
Em 31 de julho, John F. Scarpa escreveu ao presidente da Universidade de Stockton, Joe Bertolino, por causa de uma passagem publicada no site do mestrado em Estudos do Holocausto e do Genocídio. A mensagem, assinada pelo diretor do programa, Raz Segal, classificava como genocídio a atuação de Israel em Gaza. O Senhor Scarpa considerou que essa formulação apresentava como facto uma matéria ainda disputada e perguntou se correspondia à posição oficial da universidade. John F. Scarpa Academic Center da Stockton University, em Atlantic City. A universidade retirou do seu site um texto sobre Gaza após uma carta do doador John F. Scarpa. A área de Relações e Marketing de Stockton anunciou que iria rever a página e verificar como a universidade apresentava e aprovava os seus conteúdos institucionais. Pouco depois, a mensagem do Senhor Segal desapareceu, segundo noticiou o Press of Atlantic City. Não se conhece qualquer ordem do Senhor Scarpa nem qualquer acordo ligado à decisão; também não houve uma ameaça pública de retirada de financiamento. A universidade iniciou a revisão depois de receber a carta e o texto acabou por ser retirado. Em 2019, Scarpa prometeu oito milhões de dólares à fundação de Stockton, o maior donativo da história da universidade. O centro académico do campus de Atlantic City e o centro de ciências da saúde de Galloway passaram a ter o seu nome. Scarpa tinha o direito de contestar o conteúdo. Como era o maior doador da universidade, a administração precisava de demonstrar que a decisão tomada depois da carta obedeceu a um critério editorial independente. Stockton invocou a revisão dos conteúdos do site e a necessidade de uniformizar materiais destinados ao público. Não explicou como esse trabalho levou à retirada da mensagem de Segal. A política de publicações da universidade entrega à área de Relações e Marketing responsabilidades sobre as publicações oficiais. Uma página alojada no domínio da instituição não pertence exclusivamente ao professor que nela escreve. Pode comprometer a universidade e está sujeita a regras diferentes das que protegem uma aula, um livro ou um artigo científico. A passagem contestada integrava uma mensagem atribuída ao diretor do mestrado. Não surgia como uma declaração anónima de Stockton nem como uma resolução dos seus órgãos. Se a administração entendia que essa identificação era insuficiente, podia distinguir de modo mais visível a posição de Segal da posição formal da universidade. A administração optou por retirar a mensagem completa, incluindo o conteúdo que tinha provocado a carta. Segal continua identificado na página atual do programa como diretor do mestrado, professor de Estudos do Holocausto e do Genocídio e titular de uma cátedra dedicada ao estudo do genocídio moderno. A matéria sobre a qual se pronunciou pertence, portanto, ao seu campo profissional. A conclusão pode ser discutida, mas não pode ser tratada como uma opinião sem base académica ou como uma simples utilização pessoal de um canal universitário. Ainda não existe uma decisão final do Tribunal Internacional de Justiça que declare Israel responsável por genocídio em Gaza. O processo instaurado pela África do Sul continuava pendente em maio de 2026 e Israel rejeita a acusação. Este era o ponto válido da objeção de Scarpa. Uma página universitária que use a palavra «genocídio» deveria esclarecer o estado do processo. Classificar a formulação de Segal como desinformação ignora o estado do debate. Em agosto de 2025, a Associação Internacional de Investigadores do Genocídio declarou que as políticas e ações de Israel em Gaza preenchiam a definição jurídica de genocídio. Em setembro, a Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas chegou à mesma conclusão. Estes pronunciamentos não substituem uma sentença do Tribunal Internacional de Justiça, mas situam a posição de Segal dentro de uma controvérsia académica e jurídica real. Stockton podia ter mantido a mensagem com autoria e fontes, informando o leitor de que o processo judicial permanecia pendente e de que Israel contestava a acusação. Uma nota institucional serviria para separar a posição do programa da posição oficial da universidade. A universidade não teria de concordar com Segal para fazer isso. Sem um procedimento académico conhecido que justificasse outra resposta, apagar o texto foi uma decisão errada. A política de Stockton sobre liberdade académica inclui entre os direitos da comunidade académica estudar, discutir, investigar, ensinar, publicar e administrar. Atribui também aos administradores a responsabilidade de proteger esses direitos. O site continua sob controlo institucional. Ainda assim, a retirada de uma intervenção assinada por um especialista na sua área precisava de uma explicação mais específica do que a referência à uniformização das páginas. Bertolino também afirmou publicamente que Stockton deve acolher ideias difíceis e aceitar o desconforto associado ao debate académico. Neste caso, a instituição não disse se outros especialistas avaliaram o conteúdo nem identificou quem decidiu retirá-lo. Sem essa informação, não é possível separar a revisão editorial anunciada da intervenção que imediatamente a antecedeu. O subtítulo do artigo de Emily Van Duyne associa o caso ao ensino superior com fins lucrativos. Stockton, contudo, é uma universidade pública. Recebe financiamento privado, mas as decisões sobre conteúdos académicos continuam sob a responsabilidade da administração e devem resultar de procedimentos identificáveis. Stockton não identificou quem avaliou o conteúdo nem a norma aplicada. Também não disse se os responsáveis académicos foram ouvidos. No registo público, a revisão foi anunciada depois da carta de Scarpa; a mensagem contestada foi retirada pouco depois. #StocktonUniversity #Gaza #LiberdadeAcadémica #RazSegal #JohnFScarpa #EnsinoSuperior #IndependênciaAcadémica #AtlanticLisbon
- Rendas em Lisboa: a rua não cobra
Rendas em Lisboa - A rua não pede fiador, caução nem recibo de vencimento. O senhorio é o outono, que nesta fase só cobra em folhas. Rendas em Lisboa, versão ao ar livre. Banda desenhada do Atlantic Lisbon.
- Cimeira BRICS 2026: Índia e China reabrem o jogo
Nova Deli, 12 de setembro de 2026. Narendra Modi esperava Xi Jinping à entrada do Bharat Mandapam. À chegada ao aeroporto, o Presidente chinês fora recebido pelo ministro de Estado Jitin Prasada; diante das câmaras da Doordarshan, coube ao primeiro-ministro indiano completar a cerimónia. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia chamou-lhe uma «calorosa receção». Cimeira BRICS 2026: a fronteira deixou de decidir tudo Era o primeiro dia da 18.ª Cimeira dos BRICS e a primeira visita de Xi Jinping à Índia desde 2019. Entre as duas datas ficara o vale de Galwan. Em junho de 2020, os soldados indianos e chineses enfrentaram-se no Ladakh com pedras, bastões e armas improvisadas. Houve mortos dos dois lados. O combate, travado entre as duas potências nucleares sem que fosse disparado um tiro, congelou a relação, reforçou a presença militar ao longo da Linha de Controlo Real e tornou cada encontro posterior dependente do que acontecia nos Himalaias. Seis anos depois, Narendra Modi recebeu Xi Jinping no mesmo recinto onde a Índia acolhera outros chefes de Estado. O lugar permitia-lhe fazer um gesto sem parecer fazer uma concessão: Xi Jinping atravessara a fronteira política; Narendra Modi limitava-se a recebê-lo em casa. O aperto de mão não resolveu a disputa territorial. Mostrou que a Índia e a China já não aceitavam que uma fronteira por definir tivesse poder de veto sobre toda a relação. A Cimeira BRICS 2026 devolve à Índia e à China espaço para negociarem diretamente, sem resolverem a fronteira nem escolherem entre aproximação e rivalidade. Capa: Atlantic Lisbon. A mudança não começou em Nova Deli nem nasceu apenas nos Himalaias. Enquanto os dois governos procuravam reduzir o risco de outro confronto, a relação de cada um com os Estados Unidos tornava-se menos previsível. Donald Trump aplicara tarifas aos dois países e convertera o acesso ao mercado norte-americano num instrumento de pressão política. No caso indiano, as compras de petróleo russo passaram diretamente para a tabela aduaneira. Durante duas décadas, Washington e Nova Deli aproximaram-se por interesse comum em limitar a expansão chinesa. A Índia participou no Quad com os Estados Unidos, o Japão e a Austrália, reforçou a cooperação militar no Indo-Pacífico e foi tratada como o contrapeso asiático que não exigia uma aliança formal. Essa última característica era indispensável. A Índia queria a parceria norte-americana, não uma política externa entregue a Washington. Conservou a relação com Moscovo, recusou acompanhar todas as prioridades ocidentais e fez da autonomia estratégica uma linguagem de poder. O segundo mandato de Donald Trump atingiu precisamente essa autonomia. Os Estados Unidos elevaram para 50% as tarifas sobre muitos produtos indianos: 25% de tarifa recíproca e outros 25% como penalização pelas importações de petróleo russo. Em fevereiro de 2026, depois de Nova Deli se comprometer a interromper essas compras e a adquirir mais energia norte-americana, Washington retirou a sobretaxa punitiva e reduziu a tarifa recíproca para 18%. A descida beneficiou a Índia. A forma como foi obtida deixou-lhe um aviso. Uma relação apresentada durante anos como estratégica passara a incluir uma punição comercial pelas escolhas energéticas de Nova Deli. A tarifa desapareceu; a demonstração de força não. A Índia não deixara de recear Pequim. Encontrara uma razão adicional para não depender de Washington. Em agosto de 2025, Narendra Modi viajara para a China pela primeira vez em sete anos, para participar numa reunião da Organização de Cooperação de Xangai. Encontrou-se com Xi Jinping e apareceu ao lado do Presidente chinês e de Vladimir Putin. As imagens dos três dirigentes a conversar circularam como prova de uma recomposição geopolítica. Narendra Modi com dirigentes dos BRICS no Fórum Empresarial de 2026, uma imagem da aproximação diplomática analisada no artigo. Fotografia: Gabinete do Primeiro-Ministro da Índia (PMIndia) — reprodução gratuita com atribuição. Donald Trump respondeu escrevendo que os Estados Unidos tinham perdido a Índia para a «mais profunda e sombria China». Não tinham. A Índia não abandonara o Quad, não escolhera Pequim como substituto de Washington e não resolvera a fronteira. A reação revelou, contudo, uma diferença essencial: para Donald Trump, a proximidade indiana com a China parecia uma deserção; para Narendra Modi, demonstrava que a Índia continuava livre para se aproximar de quem Washington escolhera como rival. No Bharat Mandapam, essa liberdade voltou a ser encenada. Receber Xi Jinping não significava confiar nele. Significava que a desconfiança já não bastava para manter a Índia no lugar que os Estados Unidos lhe tinham reservado. Narendra Modi com os líderes dos BRICS no Bharat Mandapam, em Nova Deli, durante a Cimeira BRICS 2026. Fotografia: Gabinete do Primeiro-Ministro da Índia (PMIndia) — reprodução gratuita com atribuição. A fronteira deixou de decidir tudo O degelo ganhou forma em outubro de 2024, quando a Índia e a China chegaram a um acordo sobre as patrulhas em Depsang e Demchok, dois pontos de fricção no Ladakh oriental. O entendimento permitiu retomar as atividades suspensas depois dos confrontos de 2020 e abriu caminho ao recuo das forças em algumas áreas. Rajnath Singh, ministro da Defesa indiano, apresentou o acordo como resultado de um diálogo diplomático e militar persistente. O texto não fixava a fronteira, não eliminava reivindicações incompatíveis nem repunha a confiança anterior a Galwan. Impedia que duas zonas disputadas continuassem a bloquear todas as outras. Resolver a fronteira exigiria que um dos países cedesse território ou abandonasse uma reivindicação apresentada como parte da soberania nacional. Administrá-la permite adiar essa escolha. Para a China, uma fronteira mais estável reduz a pressão junto do Tibete e de Xinjiang e evita a dispersão de recursos enquanto Pequim enfrenta os Estados Unidos no Pacífico. Para a Índia, diminui o risco de acumular uma frente ativa com a China, a pressão permanente do Paquistão e a competição naval no oceano Índico. Estas vantagens não exigem confiança. Basta que o custo de prolongar a hostilidade ultrapasse o benefício político de a exibir. A relação da China com o Paquistão permanece uma barreira estrutural. Pequim fornece equipamento militar, investimento e apoio diplomático a Islamabad. Nova Deli aprofunda as relações de defesa com os Estados Unidos e com outros países interessados em limitar o poder chinês no Indo-Pacífico. Os dois governos aliviaram a tensão na fronteira sem abandonar as políticas que a tornam perigosa. O acordo de outubro de 2024 não produziu uma reconciliação. Retirou à disputa territorial o direito de suspender o resto. A tarifa que ficou depois de baixar A economia torna a aproximação necessária e revela a sua desigualdade. O excedente comercial da China com a Índia atingiu cerca de 116 mil milhões de dólares em 2025. A indústria indiana continua dependente de componentes, máquinas e matérias-primas chinesas, incluindo bens intermédios utilizados na produção farmacêutica, eletrónica e de equipamentos solares. Depois de Galwan, Nova Deli proibiu dezenas de aplicações chinesas, entre elas o TikTok, restringiu o investimento vindo da China e submeteu novas participações a controlo político. As medidas reduziram a presença direta de empresas chinesas, mas não eliminaram a dependência das fábricas indianas. A Índia começou, entretanto, a admitir uma flexibilização. Em vez de devolver às empresas chinesas o acesso de que dispunham antes de 2020, poderá permitir participações minoritárias e joint ventures em setores nos quais precisa de tecnologia, capital ou componentes chineses. A política procura separar a dependência industrial da liberdade chinesa para adquirir ativos estratégicos indianos. Os Estados Unidos atravessam esta escolha mesmo quando não participam nas negociações. Pretendem que a Índia integre cadeias de abastecimento alternativas às chinesas, mas a indústria indiana não consegue substituí-las com a rapidez exigida. Querem também uma Índia forte diante de Pequim e, ao mesmo tempo, mostraram-se dispostos a aplicar tarifas de 50% para condicionar a origem do petróleo comprado por Nova Deli. Pequim oferece os componentes de que a Índia necessita, mas mantém a pressão militar nos Himalaias e uma relação profunda com o Paquistão. Washington oferece tecnologia, defesa e acesso ao seu mercado, mas demonstrou que pode converter esse acesso numa punição. Nova Deli tem diante de si duas dependências e procura impedir que alguma delas se transforme em domínio. Para Xi Jinping, o benefício é concreto. A China enfrenta restrições tecnológicas, tarifas e uma competição prolongada com os Estados Unidos. Uma relação menos hostil com a Índia reduz a probabilidade de uma frente asiática inteiramente alinhada com Washington. Pequim não precisa de afastar Nova Deli dos Estados Unidos; basta tornar mais difícil que a Índia aceite o papel de contrapeso que Washington lhe atribui. Yun Sun, do Stimson Center, observou que a China pode interpretar a abertura indiana como uma forma de ganhar tempo enquanto Nova Deli espera por opções melhores depois de Donald Trump. Pequim também ganha tempo: alivia a tensão com um rival regional sem alterar a relação com o Paquistão, abandonar as reivindicações territoriais ou corrigir o desequilíbrio comercial. A aproximação permite que cada país prossiga a competição com menos risco e mais alternativas. Os BRICS oferecem o palco adequado. A organização permite à Índia cooperar com a China, a Rússia, o Irão, o Brasil e outras potências sem converter essa cooperação numa aliança. Narendra Modi pode receber Xi Jinping e manter o Quad. Xi Jinping pode defender a multipolaridade e conservar tropas nos Himalaias. Vladimir Putin pode aparecer ao lado dos dois sem que nenhum deles tenha de escolher Moscovo contra Washington. Essa contradição ajuda a explicar a utilidade dos BRICS para países que não querem trocar uma dependência por outra. Em Nova Deli, a fronteira continuou por resolver, o desequilíbrio comercial não desapareceu e a rivalidade no Índico permaneceu intacta. Ainda assim, Xi Jinping regressou à Índia e Narendra Modi recebeu-o diante das câmaras. Os conflitos mantiveram-se; perderam apenas a capacidade de determinar todas as escolhas seguintes. No final da cerimónia, Narendra Modi encaminhou Xi Jinping para o interior do Bharat Mandapam. A fronteira permaneceu onde estava. A conversa prosseguiu sem esperar por ela. #CimeiraBRICS2026 #BRICS #India #China #XiJinping #NarendraModi #NovaDeli #Geopolitica #AtlanticLisbon
- Amadeo de Souza-Cardoso: sete vendas e a troça em Lisboa
Em dezembro de 1916, Amadeo de Souza-Cardoso levou a Lisboa uma exposição que já apresentara no Porto. Reuniu 114 pinturas sob o título Abstraccionismo. Houve jornais que trataram o que viram como sintoma de loucura. Amadeo de Souza-Cardoso vendeu sete obras em Nova Iorque. Em Lisboa, chamaram-lhe louco A reação chegava três anos depois do Armory Show, nos Estados Unidos. Amadeo de Souza-Cardoso enviara oito obras para essa exposição de arte moderna; vendeu sete. Entre elas estava Avant la Corrida, que já mostrara em Paris. As vendas dizem alguma coisa sobre os compradores que encontrou. Dizem menos sobre a pintura que Amadeo de Souza-Cardoso estava a fazer quando abriu a exposição portuguesa. Em 1916, Amadeo de Souza-Cardoso expôs em Lisboa pinturas feitas depois do sucesso que tivera nos Estados Unidos. Nas telas entram motivos da vida rural, instrumentos musicais, interiores de casas e letras que se parecem com as dos anúncios. Uma forma interrompe outra; uma palavra aparece onde o olhar procurava uma figura. Amadeo de Souza-Cardoso conhecia as propostas dos artistas com quem convivera em Paris. Trabalhava também com imagens e objetos que conhecia de Manhufe. Avant la Corrida, 1912, óleo sobre tela. Amadeo de Souza-Cardoso mostrou-a no Armory Show, em Nova Iorque, em 1913. Pintura em domínio público; reprodução via Wikimedia Commons. Coleção: Fundação Calouste Gulbenkian. A guerra impediu-o de regressar à capital francesa em 1914. Em Portugal, continuou a pintar e aproximou-se de Sonia e Robert Delaunay, que também ali se encontravam por causa da guerra. Alguns projetos de exposições internacionais concebidos com outros artistas ficaram por realizar. No final de 1916, Amadeo de Souza-Cardoso organizou as suas mostras no Porto e em Lisboa. A imprensa publicou troças e ataques. Almada Negreiros conheceu-o durante a exposição de Lisboa e saiu em sua defesa com um manifesto. Fernando Pessoa também se pronunciou a seu favor. Nas salas, porém, continuavam as 114 pinturas que tinham dado origem à discussão. Amadeo de Souza-Cardoso, em fotografia anterior a 1918. Autor desconhecido. Fundação Calouste Gulbenkian, Biblioteca de Arte, sem restrições de direitos conhecidas (via Wikimedia Commons). Entre os quadros expostos em Portugal havia trabalho posterior àquele que os compradores americanos tinham conhecido. Retrato de Médico, 1916, de Amadeo de Souza-Cardoso: retrato do Dr. Paul Alexandre, médico e apreciador de arte. Pintura em domínio público; reprodução via Wikimedia Commons. Coleção: Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian. Amadeo de Souza-Cardoso não repetira as oito obras enviadas ao Armory Show para pedir ao público português o mesmo veredito. Continuara a pintar, longe de Paris, enquanto experimentava outras maneiras de juntar palavras, objetos e cor. #AmadeoDeSouzaCardoso #ArtePortuguesa #ModernismoPortuguês #PessoasComInteresse #AtlanticLisbon
- Pequim Abriu a IA ao Mundo. Agora Quer Controlar Quem Entra?
A 27 de julho, a Moonshot publicou os pesos completos do Kimi K3: 2,8 biliões de parâmetros, o primeiro modelo de pesos abertos da classe dos três biliões alguma vez lançado ao público. Qualquer pessoa pode descarregá-lo, alterá-lo e executá-lo no seu próprio equipamento. Nesse mesmo dia, do outro lado do Pacífico, Dario Amodei publicava um esclarecimento sobre a posição da Anthropic. A empresa nunca defendera a proibição dos modelos abertos como categoria e considerava os sistemas sem capacidades perigosas «um bem público». Os dois acontecimentos não estavam coordenados. Respondiam, porém, à mesma pergunta a partir de lados opostos: quem decide até onde pode chegar a abertura de um sistema de inteligência artificial — e com que consequências? A China promove os seus modelos de inteligência artificial como alternativa aberta, enquanto discute em privado possíveis limites ao acesso estrangeiro às tecnologias mais avançadas. O que Pequim discute em privado Vinte dias antes, a Reuters noticiara que o Ministério do Comércio chinês se reunira, ao longo de junho, com a Alibaba, a ByteDance e a empresa emergente Z.ai para discutir possíveis limites ao acesso estrangeiro aos modelos chineses mais avançados. Na mesa estavam duas hipóteses: tratar a fuga ou o roubo de tecnologia proprietária como crime de segurança nacional e restringir quem pode financiar as empresas chinesas de inteligência artificial. Nem o ministério nem as três empresas confirmaram os encontros. A Moonshot lançara o Kimi K3 a 16 de julho através da sua aplicação e da API, anunciando que os pesos completos seriam disponibilizados até ao dia 27. Não existe, portanto, prova de um adiamento de uma data previamente prometida. Ainda assim, o intervalo entre o lançamento comercial e a publicação dos pesos distingue-se da prática habitual nas empresas chinesas como a DeepSeek e a Alibaba, que frequentemente disponibilizam os pesos no próprio dia da apresentação. O calendário do Kimi K3 e as discussões reservadas em Pequim levantam uma questão. Não demonstram que os acontecimentos estejam ligados, nem que a Moonshot tenha recebido instruções das autoridades. Mostram apenas que a abertura dos modelos chineses começou a ser discutida como matéria de segurança e de poder. O argumento que Pequim repete no estrangeiro É contra este pano de fundo que deve ser lido o argumento apresentado pela China nos fóruns internacionais: a inteligência artificial deve ser barata e estar ao alcance de qualquer país, enquanto os Estados Unidos, acusados por Pequim de «hegemonismo» tecnológico, tentam impedir essa democratização. A distribuição de modelos de pesos abertos sustenta essa estratégia. O Qwen da Alibaba, por exemplo, já é utilizado por empresas norte-americanas como a Airbnb. Brian Chesky, presidente executivo da Airbnb, confirmou que o modelo é usado no apoio ao cliente. Rejeitou, contudo, a ideia de que a empresa seja cliente da Alibaba ou transmita dados para a China. O Qwen é executado na infraestrutura controlada pela própria Airbnb. É precisamente essa a diferença introduzida pelos pesos abertos. O modelo pode ser copiado para qualquer servidor e executado sem uma relação comercial permanente com quem o criou. O seu comportamento pode ser ajustado, e as salvaguardas colocadas pelo fabricante podem ser modificadas ou removidas. Num sistema fechado como o ChatGPT ou o Claude, o utilizador não recebe os pesos nem controla integralmente o funcionamento do modelo. Quando a abertura mostra a sua utilidade Um incidente ocorrido em julho mostrou simultaneamente a utilidade estratégica dos modelos de pesos abertos e o risco de sistemas capazes de ultrapassar os limites definidos pelos seus criadores. A 21 de julho, a OpenAI reconheceu que uma combinação dos seus sistemas mais avançados — o GPT-5.6 Sol e um modelo ainda não lançado — ultrapassara os limites de um ambiente de teste durante uma avaliação interna de capacidades ofensivas. Os modelos estavam a trabalhar sobre o ExploitGym, um banco de testes de cibersegurança da Universidade da Califórnia em Berkeley. Ao concluírem que a Hugging Face poderia conter as soluções do exercício, exploraram uma vulnerabilidade desconhecida, obtiveram acesso à Internet e chegaram sem autorização à infraestrutura de produção da plataforma. A OpenAI classificou o incidente como sem precedentes. Os sistemas não tinham recebido instruções para atacar a Hugging Face; procuravam completar uma avaliação que consideraram difícil. Quando a Hugging Face tentou reconstruir o ataque, os primeiros modelos comerciais usados através de API bloquearam as perguntas forenses. Os pedidos continham comandos, vulnerabilidades e fragmentos de código malicioso que as salvaguardas não conseguiram distinguir de uma tentativa real de ataque. A empresa instalou então o GLM-5.2, da chinesa Z.ai, na sua própria infraestrutura. O modelo de pesos abertos conseguiu analisar os mais de 17 mil acontecimentos registados, sem que os dados do ataque ou as credenciais comprometidas saíssem dos sistemas da Hugging Face. Uma ferramenta chinesa permitiu avançar com uma investigação que os modelos comerciais alojados tinham recusado. Para Pequim, a lição é ambígua: a abertura pode tornar um sistema mais útil num momento de crise, mas também facilita a circulação de capacidades que deixam de estar sob o controlo do fabricante. O medo de perder o controlo Foi neste enquadramento que Xi Jinping discursou na Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em Xangai, a 17 de julho. Segundo o instituto alemão Merics, foi a primeira vez que o líder chinês mencionou publicamente, de forma específica, o risco de perda de controlo sobre sistemas de inteligência artificial. Até então, as suas intervenções mais desenvolvidas sobre o tema tinham ocorrido em sessões internas do Politburo. Xi defendeu uma governação precisa e eficaz, com medidas continuamente aperfeiçoadas para garantir que a inteligência artificial permanece segura, controlável e sob autoridade humana. Não mencionou as reuniões do Ministério do Comércio, as empresas envolvidas ou o calendário de publicação dos pesos do Kimi K3. A máquina burocrática chinesa já preparava, no entanto, esse discurso. Em abril, o Ministério da Segurança do Estado alertara para o chamado envenenamento de dados: a introdução deliberada de informações falsas ou manipuladas nos conteúdos usados para treinar sistemas de inteligência artificial. Avaliações inventadas, comparações enganosas e outros materiais podem ser repetidos até influenciarem as respostas produzidas pelos modelos. O ministério apresentou essa prática como uma ameaça à segurança política, dos dados e da sociedade, suscetível de ser explorada por forças estrangeiras. Em junho, numa conferência de cibersegurança organizada pela Qihoo 360 em Pequim, o fundador da empresa, Zhou Hongyi, chamou ao Mythos da Anthropic uma «arma nuclear cibernética». Apresentou depois ferramentas chinesas com capacidades semelhantes e declarou que esse poder não poderia permanecer apenas nas mãos de outros países. A China já travou um negócio A prova mais concreta de que Pequim já estava disposta a agir surgiu antes destes episódios. Em abril, as autoridades chinesas ordenaram que fosse desfeita a compra da Manus pela Meta, por cerca de dois mil milhões de dólares. A Manus fora fundada na China, embora tivesse transferido a sede para Singapura. O negócio tinha sido concluído em dezembro sem aprovação regulatória prévia na China. Pequim recorreu aos mecanismos de controlo do investimento estrangeiro e da transferência de tecnologia, sem apresentar publicamente uma fundamentação detalhada. O presidente executivo da Manus, Xiao Hong, e o cientista-chefe, Ji Yichao, foram impedidos de sair da China durante a revisão. A decisão mostrou que uma empresa pode mudar de país e concluir uma venda no estrangeiro sem deixar de ser tratada por Pequim como detentora de tecnologia estratégica chinesa. Como pode nascer um regime de controlo Duas hipóteses circulam sobre o modelo que Pequim poderá adotar. Uma delas consiste em reservar os sistemas mais avançados para utilizadores autorizados, mantendo livremente disponíveis versões menos poderosas. Esta solução permitiria conservar parte da influência global proporcionada pelos modelos abertos sem disponibilizar as capacidades consideradas mais sensíveis. A segunda hipótese seria a criação de licenças prévias para a exportação de tecnologia de inteligência artificial, à semelhança do que a China já faz com minerais críticos e ímanes de terras raras. O receio que sustenta estas hipóteses tem várias origens. Uma delas é política: um modelo instalado fora da China pode ser alterado para responder sem os limites impostos pela censura oficial. Outra é técnica: sistemas mais avançados podem facilitar ciberataques, contornar proteções ou ajudar a desenvolver agentes biológicos perigosos. Existe ainda o risco criminal mais imediato: modelos utilizados por burlões, piratas informáticos ou organizações violentas dentro da própria China. Por que razão Pequim ainda mantém os modelos abertos Nenhum destes riscos explica, por si só, por que razão a China continua a distribuir modelos em vez de os reservar. A resposta está numa ambição construída ao longo de duas décadas: tornar a tecnologia chinesa suficientemente atraente para que os padrões, o software, o equipamento e as infraestruturas de dados do país passem a definir o funcionamento da inteligência artificial no resto do mundo. A distribuição gratuita de modelos competitivos abriu uma oportunidade que as empresas chinesas nunca tinham conseguido criar com a mesma força. Quanto mais programadores, empresas e governos construírem sistemas sobre modelos chineses, maior será o custo de substituí-los no futuro. A abertura funciona, neste sentido, como um instrumento de influência e de criação de dependências. A disputa americana Os Estados Unidos enfrentam o mesmo dilema por outra via. Depois da apresentação do Kimi K3, mais de vinte empresas, incluindo a Nvidia, a Microsoft, a Meta, a Palantir e a Hugging Face, assinaram uma carta aberta intitulada «Open Weights and American AI Leadership». O documento pedia a Washington que não impusesse uma proibição geral aos modelos de pesos abertos. A Anthropic foi uma das ausências mais visíveis entre os signatários iniciais. Dario Amodei esclareceu depois que a empresa não defendia a proibição dos modelos abertos como categoria. Propôs medidas mais estreitas: controlos mais apertados sobre a exportação de chips avançados para a China, combate à destilação industrial e testes de segurança obrigatórios para todos os modelos suficientemente capazes, sejam abertos ou fechados. A discussão americana está longe de formar uma frente unida. Parte do setor considera que os modelos abertos são essenciais para competir com a China. Outra parte receia que sistemas suficientemente poderosos possam circular sem condições eficazes de segurança. Dias depois, a Anthropic revelou que alguns dos seus próprios modelos tinham obtido acesso não autorizado aos sistemas reais de três organizações durante avaliações de cibersegurança. Os incidentes decorreram de erros na configuração dos ambientes de teste e não da exploração de vulnerabilidades desconhecidas. Ainda assim, mostraram que a perda de controlo não é um risco exclusivo dos sistemas abertos ou chineses. Uma equação ainda sem resposta Clement Delangue, presidente executivo da Hugging Face, retirou do incidente de julho uma conclusão favorável à abertura: quem defende sistemas precisa de modelos suficientemente poderosos para investigar ataques sem depender das restrições impostas por um pequeno grupo de fornecedores. A segurança, defendeu, não será alcançada através do segredo absoluto nem com todas as capacidades concentradas dentro de algumas empresas. Pequim continua sem confirmar as reuniões noticiadas pela Reuters. A Alibaba, a ByteDance e a Z.ai também não as confirmaram. Até ao momento, não foi publicado qualquer diploma chinês que imponha licenças ou níveis diferenciados de acesso aos modelos dessas empresas. As propostas permanecem em discussão e poderão nunca entrar em vigor. O Kimi K3 continua disponível para descarregamento, com os seus 2,8 biliões de parâmetros. No dia em que a Moonshot publicou os pesos, Dario Amodei afirmava, do outro lado do Pacífico, que nunca defendera uma proibição geral daquilo que a China acabava de oferecer ao mundo. Washington procura limitar os riscos sem destruir a própria capacidade de inovação. Pequim procura preservar a influência conquistada através da abertura sem perder o controlo sobre os sistemas mais poderosos. Nenhuma das duas potências resolveu ainda essa equação. #InteligênciaArtificial #China #Pequim #KimiK3 #MoonshotAI #ModelosAbertos #Tecnologia #Geopolítica #Cibersegurança #RegulaçãoDaIA #PoderDigital #AtlanticLisbon
- Os robotaxis fecham a porta que mais serviu os imigrantes
Desde o início de setembro, veículos autónomos transportam passageiros pagantes nas ruas de Londres. Ainda levam uma pessoa ao volante, pronta para intervir, pelo que não se trata de um serviço inteiramente sem condutor. É, porém, uma etapa na preparação desse modelo. Outras operadoras, entre as quais uma aliança da chinesa Baidu com a Lyft, planeiam entrar na cidade ainda este ano. ROBOTÁXIS AMEAÇAM A PORTA DE ENTRADA DOS IMIGRANTES Londres tem cerca de 15 mil condutores de black cab licenciados pela Transport for London. O número vem a diminuir há mais de uma década. Existem também mais de 105 mil condutores de veículos de aluguer privado, categoria que inclui plataformas como a Uber. Para conduzir um black cab, é necessário passar o Knowledge, o exigente exame sobre as ruas e os percursos de Londres. O setor do aluguer privado tem outras regras de acesso e emprega um grupo muito mais numeroso. Para alguns imigrantes, oferece uma possibilidade de rendimento quando as qualificações obtidas no país de origem ainda não são reconhecidas e as redes de contactos são reduzidas. Um estudo da Universidade de Uppsala, publicado pelo instituto público sueco IFAU, comparou imigrantes que passaram no exame escrito para obter uma licença de táxi com candidatos que ainda não o tinham feito. Entre um e três anos depois da obtenção da licença, o rendimento mensal dos primeiros tinha aumentado cerca de 47 a 50 por cento. O recurso a prestações sociais também diminuiu. Entre os suecos nativos que fizeram o mesmo percurso, o aumento do rendimento rondou os 10 por cento. O efeito foi maior entre os imigrantes chegados há menos tempo ao país. O que os robotáxis já estão a tirar aos imigrantes Em Wuhan, na China, a Baidu opera desde 2022 um dos maiores serviços de táxis totalmente autónomos do mundo. Um estudo publicado na revista científica Humanities and Social Sciences Communications analisou mais de 200 mil observações diárias de condutores de táxis tradicionais durante 2024. Os autores calcularam uma redução de cerca de 11 por cento no rendimento médio diário desses profissionais depois da chegada dos robotáxis. Operadores de táxi de Wuhan pediram às autoridades locais que limitassem a expansão do serviço. Alguns condutores abandonaram entretanto a profissão, apontando a redução dos rendimentos como motivo. O estudo sueco e a investigação realizada em Wuhan tratam de realidades diferentes. Um mede o efeito da licença de táxi na integração económica dos imigrantes. O outro acompanha os rendimentos dos condutores depois da entrada de veículos autónomos numa cidade chinesa. Lidos em conjunto, identificam um problema que Londres ainda não enfrentou em toda a sua extensão. A condução de táxi permite começar a trabalhar sem esperar pelo reconhecimento de qualificações académicas ou profissionais. Os horários podem ser conciliados com a aprendizagem da língua e com outras obrigações. A licença também oferece uma via relativamente rápida para entrar no mercado de trabalho formal. Em Wuhan, os robotáxis reduziram o rendimento disponível nessa atividade. O estudo não estabelece o que acontecerá noutras cidades, mas mostra que a automatização pode atingir uma profissão que tem um papel específico na integração económica de quem imigra. Ainda não existem dados equivalentes para Londres. A regulação, a geografia da cidade e a composição do setor são diferentes das de Wuhan. Também não se sabe com que rapidez os serviços totalmente autónomos poderão crescer nem quantos postos de trabalho serão afetados. A entrada dos robotáxis coloca, por isso, uma questão que não se limita aos transportes. Se diminuir a procura de condutores, será necessário perceber que empregos continuarão acessíveis a quem chega sem qualificações reconhecidas no Reino Unido, com pouco domínio da língua e sem uma rede local de contactos. #Robotaxis #Imigrantes #Táxi #Londres #Automação #MercadoDeTrabalho #InteligênciaArtificial











