top of page

Resultados de busca

Search this site

267 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Vacina contra o cancro do pâncreas: 18 em 20 não provam tudo

    Dezoito em vinte Seis mutações do gene KRAS aparecem na maioria dos cancros do pâncreas, muitas vezes anos antes de o tumor existir. É a essas seis mutações que a mKRAS-VAX ensina o sistema imunitário a reagir — testada, pela primeira vez, em vinte pessoas que já sabiam ter risco hereditário elevado da doença e uma anomalia visível no pâncreas. Quatro dos oito sítios noticiosos portugueses que deram a notícia — Observador, Jornal do Ave, DNotícias, Índice — publicaram o mesmo primeiro parágrafo, praticamente sem alterar uma vírgula: a vacina tinha-se revelado segura e gerado respostas imunitárias duradouras em pessoas de alto risco. Era o mesmo despacho, chegado a quatro redações diferentes entre 16 e 17 de julho. A Sábado usou um título quase igual. Nos outros três houve reescrita real: a SOL foi pela percentagem — 90% dos participantes; a ZAP preferiu o número absoluto — 18 em 20; o Público escreveu por conta própria, hoje só para assinantes. Dos vinte, dezoito reagiram: células T capazes de reconhecer especificamente essas mutações, ainda detetáveis em alguns casos dois anos depois. Não houve efeitos adversos graves. Num seguimento que foi, em média, de dezasseis meses e meio, nenhum dos vinte adoeceu. É, segundo os autores, a primeira vez que uma vacina contra KRAS produz, em seres humanos, uma resposta imunitária desta duração. Os autores — do Kimmel Cancer Center da Universidade Johns Hopkins e do Skip Viragh Center for Pancreatic Cancer, num artigo saído esta semana na revista Cancer Discovery — escrevem também outra coisa, que não chegou a nenhum dos oito sítios: o ensaio não foi desenhado para provar que a vacina previne o cancro. Foi desenhado para testar se é segura e se o sistema imunitário reage. São perguntas diferentes. Elizabeth Jaffee, uma das autoras, foi mais cautelosa do que qualquer título: "isto é apenas o início", disse — acrescentando que os resultados sugerem que o sistema imunitário está, de facto, a ser ativado. Noventa por cento é o número que se lê. Mas dezoito em vinte significa que bastavam duas pessoas a reagir de outra maneira para o resultado cair para setenta — e, nesse caso, provavelmente não teria sido notícia nenhuma. A conta está certa; a escala é que é pequena demais para a frase que se tirou dela. Nenhum dos oito textos menciona um grupo de comparação. As vinte pessoas do ensaio já estavam a ser vigiadas com exames de imagem regulares — é raro o cancro do pâncreas manifestar-se, mesmo em quem tem risco hereditário, num espaço de dezasseis meses. Sem um grupo para comparar, ninguém sabe quantas destas vinte teriam adoecido de qualquer forma. O que falta para responder à pergunta que a notícia pareceu responder é, segundo os próprios autores, um ensaio maior e com um grupo de comparação. Esse ensaio já existe como pedido. Ainda não tem data. A mKRAS-VAX levou à formação de células T capazes de reconhecer mutações do gene KRAS em 18 dos 20 participantes. O ensaio avaliou a segurança e a resposta imunitária, não a prevenção do cancro.

  • Autocensura Democrática: o Silêncio Sem Decreto

    Em Fevereiro de 2003, no exato momento em que os Estados Unidos se preparavam para a invasão do Iraque, a MSNBC cancelou Donahue, o programa de Phil Donahue. Não foi um processo judicial. Não houve sentença, nem um polícia à porta do estúdio. Houve, isso sim, uma decisão empresarial num ambiente em que a dissidência antiguerra era vista como risco: risco de reputação, risco de audiência, risco de ser “o canal errado” quando a maré patriótica subia. O episódio tem valor porque é banal no seu mecanismo. Ninguém proibiu Donahue de falar. O sistema apenas tornou mais caro deixá-lo falar ali, àquela hora, com aquela montra. A democracia, quando começa a produzir silêncio, quase nunca o faz com as ferramentas clássicas da censura. Faz com ferramentas modernas: incentivos, desconforto, cálculo, medo de perder — dinheiro, pertença, futuro. Poucas semanas depois, a mesma anatomia repetiu-se noutro palco. Em Março de 2003, as Dixie Chicks disseram, num concerto em Londres, que tinham vergonha de o presidente dos EUA ser do Texas. O que se seguiu — boicotes, cortes em rádios, ameaças e uma reeducação pública em tempo real — não precisou de lei. Precisou apenas de uma comunidade em estado de alerta e de intermediários (estações, patrocinadores, promotores) capazes de traduzir indignação em consequências. E houve ainda a caricatura perfeita, quase infantil, mas por isso mesmo instrutiva: a história das freedom fries. Num impulso simbólico contra a França, por esta se opor à guerra, “French fries” e “French toast” foram renomeadas em espaços ligados ao Congresso. Não era censura; era sinalização. Um modo de dizer, sem o dizer: há palavras e gestos que, neste clima, convém evitar. Estes três episódios não provam que a democracia seja, por natureza, inimiga da liberdade. Provam algo mais desconfortável: a democracia é perfeitamente capaz de fabricar autocensura — e, quando a fabrica bem, não deixa impressões digitais. Como se aprende a calar sem ordem explícita A autocensura não nasce, normalmente, de uma convicção repentina (“isto não pode ser dito”). Nasce de um raciocínio progressivo (“isto pode sair caro”). É um processo de aprendizagem, e o seu motor é a antecipação. Primeiro observa-se o ambiente: quem disse o quê, e o que lhe aconteceu. Depois calcula-se o risco: que custo tem uma frase, uma reportagem, um post, uma piada, uma aula? E por fim ajusta-se o comportamento: troca-se uma palavra por outra, corta-se um parágrafo, escolhe-se um ângulo “mais neutro”, adia-se, engaveta-se. O silêncio, aqui, não aparece como capitulação moral. Aparece como prudência. E a prudência, quando se torna hábito, passa a parecer virtude. Há uma diferença crucial entre censura e autocensura: a censura tem um autor claro. A autocensura tem um clima. E contra um clima não se apresenta queixa. Um clima não assina ofícios. Um clima não responde a perguntas. Um clima só se sente — e, por isso, governa melhor do que um censor. Três pressões, todas legais, todas eficazes Pressão económica. As instituições onde se fala — jornais, televisões, editoras, universidades, fundações, galerias — vivem de dinheiro: assinaturas, publicidade, patrocínios, doações, parcerias. Não é preciso que um financiador telefone a ordenar. Basta que a organização aprenda, uma vez, que certo assunto “dá problemas”. O resto faz-se sozinho. E isto é particularmente perigoso porque se apresenta como racionalidade de gestão. Não se diz: “não publiquem”. Diz-se: “não arrisquem”. Não se diz: “isto é proibido”. Diz-se: “isto não compensa”. Pressão social. O medo de perder o emprego é real. Mas o medo de perder o lugar no grupo é, muitas vezes, mais imediato. Em ambientes polarizados, a discordância deixa de ser apenas discordância: passa a ser suspeita moral. E quando a suspeita moral entra na sala, a conversa muda de tom. O que acontece então não é um debate mais rigoroso. É um debate mais defensivo. As pessoas começam a falar para não serem mal-interpretadas — e, nesse gesto, a linguagem perde precisão, coragem e até humor. Passa a ser uma linguagem de prevenção. Pressão algorítmica. Aqui está a novidade dos nossos dias. As plataformas não precisam de proibir. Basta reduzirem visibilidade, desmonetizarem, atrasarem distribuição, aplicarem rótulos, tornarem “menos recomendado”. E fazem-no com regras opacas, aplicadas de modo irregular, com recurso a automatismos e à prudência comercial. O resultado é um incentivo direto à autocensura: se não sei onde está a linha, fico longe dela. E, ficando longe, não erro — mas também não digo nada de importante. O problema não é “quem manda”; é “quanto custa” Quando uma democracia começa a produzir autocensura, é tentador procurar um vilão único: o magnata, o partido, o dono do jornal, a plataforma, o “ativismo”, o “cancelamento”. Às vezes há vilões. Muitas vezes há apenas um mercado do medo: muita gente a tentar não perder. É por isso que a autocensura é tão resistente. Não depende de um tirano. Depende de uma soma de pequenas decisões individuais, cada uma defensável, cada uma compreensível, cada uma “sensata”. E, no entanto, a soma dessas sensatezes pode empobrecer o espaço público com a mesma eficácia que uma lei malvada. O espaço público não encolhe num dia. Encolhe como encolhe uma fotografia ao sol: quase não se nota, até se notar. Um teste simples Há um teste que ajuda a medir a autocensura sem recorrer a estatísticas: pergunte-se o que mudou na forma como se escreve. Não “o que mudou na lei”. O que mudou na frase. Quando se começa a escrever para evitar reacções, o texto muda. Perde arestas. Prefere o “talvez” ao “é”. Encosta-se a fórmulas. Evita nomes próprios. Troca afirmações por “debates”. E, a certa altura, já nem se percebe quando começou. Porque o escritor passa a acreditar que sempre escreveu assim. A autocensura, quando vence, faz-se passar por estilo. O que estes exemplos realmente dizem O cancelamento de Donahue, o castigo público às Dixie Chicks, a febre ridícula das freedom fries não são curiosidades históricas do início dos anos 2000. São uma lição estrutural: em tempos de choque, medo ou guerra, as democracias podem tornar-se ansiosas — e a ansiedade procura culpados, exige uniformidade, trata a dúvida como fraqueza. Não é preciso ditadura para isto acontecer. Basta um consenso inflamável e intermediários com capacidade de transformar indignação em penalização: uma direção, uma estação, um patrocinador, uma plataforma, uma multidão online. E depois? Depois o resto é psicologia humana. Se eu vi o que aconteceu ao outro, eu aprendo. Se aprendo, eu ajusto. Se ajusto, eu sobrevivo. E, se sobrevivo, eu racionalizo: “foi melhor assim”. A tragédia da autocensura não é a perda de uma frase. É a normalização do silêncio como forma de virtude cívica. Porque uma sociedade que fala apenas do que é seguro pode continuar a chamar-se livre — mas já começou a comportar-se como se não fosse. Imagem original criada para o Atlantic Lisbon (João da Praça / Atlantic Lisbon). Sem utilização de imagem de terceiros. Autocensura: o silêncio sem ordem — Atlantic Lisbon #AtlanticLisbon #JoãoDaPraça #Autocensura #LiberdadeDeExpressão #LiberdadeDeImprensa #Jornalismo #Democracia #Opinião #CulturaPolítica #Media #Algoritmos #RedesSociais #PressãoSocial #McCarthyismo #EspaçoPúblico

  • Dois funerais recusados: há uma nova linha contra os maçons?

    Segundo relatos da imprensa local, na manhã de 8 de agosto, o féretro de Mario Tarducci permaneceu no exterior da Igreja de San Marco Evangelista, em Camporosso. As exéquias que deveriam realizar-se dentro da igreja tinham sido impedidas pelo bispo de Ventimiglia-Sanremo, Antonio Suetta. O pároco recitou algumas preces no adro e, depois das orações, o filho do falecido pronunciou algumas palavras diante das pessoas que ali se encontravam. Duas dioceses italianas recusam exéquias católicas a maçons Uma porta de igreja fechada e uma coroa fúnebre representam os dois funerais católicos impedidos em Roma e Camporosso, em agosto de 2026. Tarducci, de 73 anos, tinha sido venerável mestre da loja Mimosa n.º 985, em Bordighera. A diocese soube da sua filiação maçónica quando o funeral já estava organizado, através da imprensa local e das participações de falecimento afixadas publicamente. O comunicado publicado pela Diocese de Ventimiglia-Sanremo informa que Suetta falou com o pároco e com a família e procurou obter instruções de autoridades eclesiásticas superiores. Não as recebeu no tempo disponível. A decisão acabou por ser tomada com base num caso ocorrido poucas horas antes, em Roma. O comunicado afirma que Suetta seguiu as mesmas indicações dadas pelo cardeal Baldassare Reina, vigário-geral da Diocese de Roma, e invocou o cânone 1184 do Código de Direito Canónico para impedir as exéquias. Segundo o jornal Il Secolo XIX, a intervenção ocorreu quando a cerimónia estava a começar. A diocese não descreve esse momento no seu comunicado. O funeral romano estava marcado para 7 de agosto, na Basílica de Santa Maria in Montesanto, em Piazza del Popolo, conhecida como Chiesa degli Artisti. O falecido era Bruno Battisti D’Amario, guitarrista, compositor e professor. Trabalhou com Ennio Morricone, tocou em bandas sonoras de filmes de Sergio Leone e ensinou em vários conservatórios italianos. A sua posição no Grande Oriente d’Italia fora divulgada pela própria organização. A ANSA identificou-o como fundador de uma loja romana e autor do hino oficial do Grande Oriente. O anúncio de morte publicado no portal maçónico também referia essa filiação e os cargos que desempenhara. O bispo Antonio Staglianò, reitor da basílica e presidente da Pontifícia Academia de Teologia, disse à ANSA que a Secretaria de Estado o alertara para o caso e lhe enviara um artigo do Grande Oriente d’Italia. Não há um comunicado da Secretaria de Estado que confirme o contacto. A informação disponível provém do relato de Staglianò. Depois de receber o alerta, o reitor contactou Reina e pediu que o serviço jurídico lhe enviasse uma declaração sobre a impossibilidade de realizar as exéquias. O cardeal determinou que o funeral eclesiástico não se realizasse e indicou as condições em que poderia ser recitada uma oração breve. A família reuniu-se com um sacerdote, sem vestes litúrgicas, para confiar o falecido à misericórdia de Deus. Reina é o vigário-geral de Sua Santidade para a Diocese de Roma e exerce o governo pastoral da diocese em nome do Papa, seu bispo. Segundo esse relato, a ordem para impedir as exéquias partiu de Reina. A Secretaria de Estado enviou o artigo que desencadeou a consulta. O vicariato não publicou a fundamentação jurídica da decisão. No dia seguinte, Suetta usou o caso romano como referência depois de não ter conseguido obter instruções superiores. O comunicado de Ventimiglia-Sanremo estabelece esta relação, mas não refere qualquer contacto direto entre os dois prelados. As fontes públicas também não documentam uma coordenação pela Santa Sé. A Conferência Episcopal Italiana e o Dicastério para a Doutrina da Fé não publicaram orientações específicas sobre os dois funerais. O cânone 1184, citado pela Diocese de Ventimiglia-Sanremo, não contém qualquer referência à maçonaria. Na ausência de sinais de arrependimento antes da morte, determina a recusa de exéquias eclesiásticas aos apóstatas, hereges e cismáticos notórios; às pessoas que escolheram a cremação por razões contrárias à fé cristã; e aos restantes pecadores manifestos, quando as exéquias não possam ser concedidas sem escândalo público entre os fiéis. Se houver dúvidas, a decisão cabe ao ordinário do lugar. A diocese não indicou em que categoria enquadrou Tarducci. O n.º 3, relativo aos pecadores manifestos, é a leitura mais provável, atendendo aos factos divulgados, mas não corresponde a uma fundamentação publicada por Suetta. O comunicado também não informa se foram apurados sinais de arrependimento ou que elementos da vida religiosa do falecido foram considerados. A filiação maçónica não aparece no cânone como causa autónoma para recusar um funeral. A autoridade eclesiástica tem de enquadrar a situação numa das categorias previstas e verificar a existência de sinais de arrependimento. Se aplicar o n.º 3, terá de considerar manifesta a situação de pecado e entender que a concessão das exéquias provocaria escândalo público entre os fiéis. A posição doutrinal da Igreja sobre a maçonaria encontra-se noutros documentos. A declaração da Congregação para a Doutrina da Fé de 1983 manteve proibida a filiação em associações maçónicas. Considerou os seus princípios inconciliáveis com a doutrina católica e declarou que os fiéis que lhes pertençam se encontram em estado de pecado grave e não podem receber a comunhão. Em novembro de 2023, durante o pontificado de Francisco, o Dicastério para a Doutrina da Fé reafirmou essa proibição. O esclarecimento refere os católicos formal e conscientemente inscritos em lojas que tenham abraçado os princípios maçónicos. Nem o documento de 1983 nem o de 2023 determina a recusa automática das exéquias em todos os casos. Também não declara automaticamente excomungados todos os católicos maçons. Em Roma e Camporosso, as autoridades diocesanas entenderam que a filiação conhecida impedia os funerais marcados. Em agosto de 2022, a Arquidiocese de Fermo chegou a outra decisão depois de uma participação de falecimento ter apresentado um homem como ligado à maçonaria. O arcebispo ouviu a família e avaliou a conduta do falecido nos seus últimos meses. A explicação divulgada pela cúria de Fermo afirma que a notoriedade da pertença não ficou suficientemente estabelecida. O funeral realizou-se numa paróquia de Civitanova. A autoridade diocesana não deu como provado o elemento que, quatro anos mais tarde, Roma e Ventimiglia-Sanremo consideraram público nos casos de D’Amario e Tarducci. Outro anúncio, de janeiro de 2025, permite apenas uma comparação incompleta. O Grande Oriente d’Italia comunicou a morte de Lucio d’Oriano, seu Grande Orador Adjunto, e marcou o funeral para a Igreja de San Gennaro, em Pozzuoli. A condição maçónica constava do anúncio. Não foi encontrada qualquer notícia de uma intervenção diocesana, mas também não existe confirmação independente de que a cerimónia se tenha realizado como previsto. As decisões de Roma e Camporosso foram tomadas durante o pontificado de Leão XIV. Até 12 de agosto, não se conhecia qualquer intervenção pública do Papa sobre esses casos ou sobre um eventual aperto da disciplina funerária aplicável a maçons. A função exercida por Reina na Diocese de Roma não permite atribuir a decisão a uma ordem pessoal do pontífice sem informação que o demonstre. Em junho, a Conferência Episcopal Nórdica tinha convertido as normas da Igreja sobre a maçonaria em instruções pastorais dirigidas aos párocos. Não é conhecida qualquer ligação institucional entre essa carta e as decisões italianas. Em Camporosso, a referência expressamente identificada pela diocese foi o funeral impedido em Roma no dia anterior. O Grande Oriente d’Italia reagiu à decisão sobre Tarducci através do seu grão-mestre, Antonio Seminario. Num texto publicado em 9 de agosto, Seminario reconheceu o direito da Igreja Católica a aplicar as suas regras, mas afirmou que a norma deveria ter sido acompanhada pela piedade. Disse ainda que a organização continuaria a procurar o diálogo com o mundo católico. A Diocese de Ventimiglia-Sanremo anunciou que publicaria uma nota jurídico-pastoral sobre as exéquias eclesiásticas. Até ao fecho deste artigo, em 12 de agosto, essa nota ainda não se encontrava disponível. Sem ela, a fundamentação pública da decisão sobre Tarducci continua limitada à referência genérica ao cânone 1184, incluída no comunicado de 8 de agosto. Ilustração: Atlantic Lisbon /IA Leia também: Templo Maçónico de Santa Cruz avança para “Lugar de Memória Democrática” #IgrejaCatolica #Maconaria #DireitoCanonico #ExequiasCatolicas #Italia #LeaoXIV

  • O Fármaco Que Duplicou a Sobrevivência no Cancro do Pâncreas

    O novo fármaco duplicou a sobrevivência mediana de doentes com cancro do pâncreas metastático. Os resultados justificam a esperança e uma pergunta concreta em Portugal: o que farão o INFARMED, os IPO e a Fundação Champalimaud para tentar aproximá-lo dos doentes? Cancro do pâncreas: há doentes sem tempo para esperar O daraxonrasib duplicou a sobrevivência mediana num ensaio com doentes previamente tratados por cancro do pâncreas metastático. Portugal já podia começar a estudar as possíveis vias de acesso. O daraxonrasib não distingue perfeitamente uma célula cancerígena de uma célula saudável. Bloqueia a forma ativa das proteínas RAS em ambas. Pela lógica que orientou durante décadas a investigação nesta área, isso devia tornar o medicamento demasiado tóxico para ser usado. No ensaio que agora sustenta o pedido de aprovação nos Estados Unidos, aconteceu outra coisa: os doentes com cancro do pâncreas metastático viveram uma mediana de 13,2 meses, contra 6,7 meses com quimioterapia. O fármaco atinge proteínas mutantes e normais, mas os tumores e os tecidos saudáveis não respondem da mesma maneira. As células cancerígenas permanecem bloqueadas ou morrem. Os tecidos normais sofrem e recuperam melhor. Ainda não se compreende por inteiro como se forma essa diferença. Para quem tem a doença, isto não é uma discussão abstrata sobre uma prudência regulatória. Mais seis meses de sobrevivência mediana não são uma cura nem permitem prever o que acontecerá a cada doente. São meses que a quimioterapia não conseguiu dar. Quem acompanha um familiar ou um amigo com cancro do pâncreas sabe o que pode caber nesse tempo. Uma proteína que ninguém sabia atacar Durante décadas, a comunidade científica tratou a KRAS como um alvo fora de alcance. Descoberta no início dos anos 1980 como um dos genes cujas mutações impulsionam certos cancros, a proteína não apresentava as cavidades onde um medicamento convencional pudesse encaixar. A superfície parecia lisa. Entre os investigadores, tornou-se o exemplo clássico de uma proteína impossível de atingir com um fármaco. Mais de 90% dos adenocarcinomas ductais do pâncreas apresentam mutações na família RAS, sobretudo na KRAS. A proteína que ajudava a explicar a doença era precisamente aquela que a farmacologia não conseguia bloquear. Em 2013, o laboratório de Kevan Shokat identificou uma cavidade explorável numa forma mutante da KRAS. Surgiram depois os primeiros inibidores dirigidos a mutações específicas. Alcançavam apenas uma fração dos tumores e podiam perder eficácia quando o cancro encontrava outra forma de reativar a mesma via. A Revolution Medicines procurou outra entrada. Desenvolveu uma espécie de cola molecular que se liga primeiro à ciclofilina A, uma proteína presente nas células. O conjunto prende-se depois à RAS na sua forma ativa e impede-a de transmitir o sinal que mantém a célula a proliferar. O daraxonrasib pode atingir várias formas mutantes da RAS e também formas não mutadas. Chega, por isso, a uma população muito maior de doentes. A segurança preocupava os investigadores antes dos primeiros testes em seres humanos. A escolha que devia ter falhado A RAS participa no funcionamento e na renovação dos tecidos normais. Se fosse bloqueada em todo o organismo, o dano poderia crescer juntamente com o efeito contra o cancro. Os estudos pré-clínicos com o RMC-7977, um composto relacionado com o daraxonrasib, não produziram esse resultado. Em modelos de cancro do pâncreas, os tumores entravam em apoptose e permaneciam sem proliferar. Nos tecidos normais analisados, a proliferação diminuía durante algum tempo e recuperava depois. A inibição foi mais potente e persistente nos tumores do que na pele e no cólon dos animais. Os resultados foram publicados na Nature em 2024. As células tumorais parecem depender mais intensamente da sinalização produzida pela KRAS mutada. O composto também pode permanecer durante mais tempo no tumor. A quantidade de RAS ativa e de ciclofilina A varia entre os tecidos normais e os cancerígenos. Nenhum destes mecanismos explica sozinho o que se observou. Nos estudos clínicos iniciais, foram frequentes as erupções cutâneas, a diarreia, as náuseas, a inflamação da boca, os vómitos e a fadiga. Cerca de 30% dos doentes tiveram acontecimentos adversos relacionados com o tratamento de grau 3 ou superior. O estudo de fases I e II foi publicado no New England Journal of Medicine. O fármaco chega aos tecidos saudáveis. Falta perceber por que razão alguns suportam a interrupção da via RAS durante mais tempo do que o tumor, quanto varia essa resposta entre os doentes e o que acontecerá quando o tratamento for usado durante períodos mais longos ou em combinação com outros medicamentos. Um resultado que atravessou o escrutínio A 13 de abril de 2026, a Revolution Medicines anunciou os primeiros resultados do ensaio de fase III RASolute 302. A FDA recebeu o pedido para um protocolo norte-americano de acesso alargado a 28 de abril e autorizou-o dois dias depois. A comunidade científica ainda não dispunha da publicação integral do ensaio. No final de maio, os resultados foram apresentados na reunião anual da American Society of Clinical Oncology, em Chicago, e publicados no New England Journal of Medicine. O ensaio incluiu 500 doentes com adenocarcinoma ductal do pâncreas metastático que já tinham recebido uma linha de tratamento. Metade recebeu daraxonrasib; a outra metade, uma das opções de quimioterapia disponíveis. A sobrevivência mediana foi de 13,2 meses com o novo medicamento e de 6,7 meses com a quimioterapia. O risco de morte foi 60% inferior. A sobrevivência sem progressão da doença também aumentou. Os doentes relataram uma deterioração mais tardia da dor, do estado geral de saúde e da qualidade de vida. O registo do ensaio identifica a publicação e os 500 participantes. A publicação confirmou os números divulgados pela empresa. A 22 de julho, a FDA aceitou formalmente o pedido de aprovação do daraxonrasib para doentes com cancro do pâncreas metastático previamente tratados. O medicamento recebeu a designação de terapia inovadora, o estatuto de medicamento órfão e foi incluído no programa-piloto Commissioner’s National Priority Voucher. Nenhuma destas decisões equivale a uma aprovação. Permitem que a avaliação decorra mais depressa. Na Europa, a Agência Europeia de Medicamentos começou a receber e a avaliar partes do processo antes da apresentação do pedido completo. O acesso alargado foi autorizado quando a FDA conhecia os resultados, mas estes ainda não podiam ser examinados numa publicação científica. Um mês depois, já podiam. As perguntas que permanecem são outras: por quanto tempo durará o benefício, como surgirá a resistência e onde ficará a margem de segurança quando o medicamento passar do ensaio para uma população maior. A esperança e o limite O daraxonrasib não cura o cancro do pâncreas metastático. Nem todos os doentes respondem. Mesmo quando o tumor encolhe, pode voltar a crescer durante o tratamento. A experiência pré-clínica já encontrou mecanismos de resistência, e a investigação procura agora combinações capazes de os atrasar ou ultrapassar. Uma sobrevivência mediana não determina quanto tempo viverá uma pessoa. Metade dos doentes viveu mais de 13,2 meses e metade viveu menos. Com a quimioterapia, essa fronteira ficou nos 6,7 meses. As alternativas de segunda linha raramente tinham produzido uma diferença desta dimensão. Num cancro metastático com uma sobrevivência de cinco anos próxima dos 3%, esperar também produz um resultado. Parte dos doentes morrerá durante o tempo necessário para esclarecer as dúvidas que só uma utilização mais prolongada poderá resolver. Os dados têm de permanecer acessíveis ao escrutínio, a toxicidade terá de ser vigiada e os doentes precisam de saber o que ainda é incerto. A oncologia começa muitas vezes a tratar antes de possuir a resposta final, porque essa resposta chega tarde para quem já está doente. E Portugal? O programa de acesso alargado autorizado pela FDA destina-se aos Estados Unidos. O registo público não apresenta centros portugueses e o ensaio RASolute 302 já não está a recrutar. Quando um medicamento ou uma indicação ainda não está aprovado, um hospital português pode apresentar ao INFARMED um pedido de Autorização de Utilização Excecional para um doente específico. A Comissão de Farmácia e Terapêutica da instituição tem de avaliar o caso e fundamentar a inexistência de alternativa e a imprescindibilidade clínica do tratamento. O INFARMED descreve esse procedimento. Antes disso, é preciso saber se a Revolution Medicines aceita fornecer o medicamento fora dos Estados Unidos. Os IPO de Lisboa, Porto e Coimbra, a Fundação Champalimaud e os hospitais que tratam estes doentes podem fazer essa pergunta. Podem também identificar quem corresponde à população estudada e avaliar se algum caso justifica um pedido excecional. O contacto com a empresa pode não produzir acesso. Um pedido ao INFARMED pode ser recusado. Alguns doentes não terão condições clínicas ou não preencherão os critérios usados no ensaio. Ainda assim, não se sabe se uma via está fechada antes de os centros responsáveis a examinarem. Os ensaios seguintes com daraxonrasib e outros inibidores de RAS também contam. Portugal não teve um centro no RASolute 302, apesar de o estudo ter recrutado em Espanha, França, Alemanha e Itália. Os grandes centros oncológicos portugueses podem procurar participar nas fases seguintes, em vez de receberem os resultados quando o recrutamento já terminou. O INFARMED e o Governo têm aqui um trabalho que não depende da aprovação europeia. Podem pedir informação ao fabricante, acompanhar a avaliação faseada da Agência Europeia de Medicamentos e preparar uma resposta comum para os hospitais. Se a possibilidade de acesso surgir, os critérios clínicos e administrativos não deveriam começar a ser discutidos nessa altura. O daraxonrasib foi estudado em adultos com doença metastática previamente tratada e em condições clínicas suficientemente estáveis para receber o fármaco. Durante quarenta anos, a KRAS foi considerada impossível de atacar. Agora existe um ensaio aleatorizado em que a sobrevivência mediana duplicou. Persistem a toxicidade, a resistência e uma margem de segurança que não se compreende inteiramente. Os centros portugueses não podem dispensar nenhuma etapa científica ou regulatória. Podem começar a percorrê-las. Para alguns doentes, a diferença entre essas duas atitudes será medida em tempo. #Daraxonrasib #CancroDoPancreas #Oncologia #InvestigacaoClinica #AcessoAoMedicamento #INFARMED #IPO #FundacaoChampalimaud #AtlanticLisbon

  • O que a ressonância já sabe sobre o pâncreas

    A imagem por tensor de difusão foi desenhada para olhar para o cérebro — para seguir a água a mover-se ao longo dos feixes de substância branca que ligam um pensamento a outro. Carlos Bilreiro, radiologista no Centro Clínico Champalimaud, teve a ideia de a apontar, pela primeira vez, a um órgão que não pensa: o pâncreas. O que a ressonância já sabe O pâncreas avisa tarde. Os sintomas do seu cancro não são específicos e confundem-se com os de outras doenças; quando aparecem, a doença está muitas vezes já avançada e inoperável. A diferença entre apanhá-la cedo e apanhá-la tarde é radical: a sobrevivência a cinco anos ronda os 44% quando o tumor ainda está localizado, e cai para cerca de 3% quando já há metástases. A maior parte dos cancros do pâncreas — a esmagadora maioria é adenocarcinomas ductais pancreáticos — nasce de uma lesão anterior, a neoplasia intraepitelial pancreática, ou PanIN. É uma alteração microscópica no tecido, muitas vezes silenciosa, que precede o cancro sem ser ainda cancro. Não havia, até agora, forma não invasiva de a detetar. A Champalimaud recebeu, em 2023, um financiamento de 50 milhões de euros para investigar o cancro do pâncreas ao longo de dez anos. Este estudo faz parte desse esforço. Bilreiro e Noam Shemesh, investigador principal do laboratório de Ressonância Magnética Pré-clínica da Champalimaud Research, publicaram na revista Investigative Radiology, o primeiro método capaz de a detetar. A difusão da água, medida pela DTI, distingue o tecido com PanIN do tecido com quistos simples e benignos. "Há provavelmente PanIN escondidos nestes pixéis", resume Shemesh. É a mesma abordagem usada para mapear o cérebro, agora virada para um órgão que a medicina raramente consegue ver com este pormenor. Testaram o método em amostras de tecido pancreático humano e em ratinhos transgénicos propensos a desenvolver estas lesões. Depois, em amostras de doentes já recolhidas, confirmaram que os resultados "se generalizam aos humanos". Por agora, é possível ver a lesão sem que exista ainda alguém a quem seja preciso contá-la. Os próprios autores dizem que a técnica precisa de mais estudos antes de chegar à prática clínica — antes de alguém decidir o que fazer a quem tiver uma PanIN detetada por ressonância. Quando isso acontecer, vai existir uma categoria nova de pessoa. Uma PanIN não é uma doença, mas é mais do que nada — e a medicina ainda não decidiu como lhe chamar quando alguém a tiver, nem o que fazer a seguir. Nesse território, alguém passaria a viver, talvez durante anos, sem nunca saber se aquilo que tem vai ficar parado ou vai começar a avançar. Os autores já falam em explorar "possibilidades interventivas ou de vigilância" para essa pessoa: vão ter de decidir entre vigiar, durante anos, uma coisa que pode nunca se tornar cancro, ou intervir numa coisa que ainda não é cancro. Essa decisão ainda não foi tomada — os estudos que a preparam ainda estão para vir. Imagem por tensor de difusão (DTI) — a técnica de ressonância magnética usada, pela primeira vez, para detetar lesões pré-malignas no pâncreas. (Imagem Simulada e Não Real)

  • A beleza como suspeita: Raphael e o critério moderno

    Há uma pergunta que os museus raramente fazem em voz alta, embora a resposta esteja inscrita em quase todas as decisões que tomam — na iluminação que escolhem, nas obras que penduram à altura dos olhos, nas legendas que escrevem, nos artistas que incluem nas exposições que definem épocas. Durante dois séculos, a modernidade estabeleceu a fricção como medida de seriedade artística. Raphael é o caso-teste mais claro do que esse critério não consegue ler. A pergunta é esta: o que é que conta como profundidade? Não é uma pergunta inocente. Capa de “A beleza como suspeita: Raphael e o critério moderno”, com o emblema visual do Atlantic Lisbon em destaque. É uma pergunta com história, com interesses, com vencedores e perdedores. E a resposta que a cultura ocidental foi construindo ao longo dos últimos dois séculos — de forma gradual, por acumulação, sem que ninguém a tivesse formulado explicitamente como política — é uma resposta específica e contingente que tomámos por universal: profundidade é tensão. Seriedade é conflito. O que não perturba não pensa. Este critério não caiu do céu. Tem uma genealogia rastreável. Tem também um preço, que pagamos sem o reconhecer, porque o critério já se naturalizou a ponto de parecer simplesmente verdadeiro — a ponto de parecer uma descrição do que a arte é, em vez de uma decisão sobre o que queremos que ela seja. Raphael é o lugar onde esse preço fica mais visível. Mas o que está em jogo não é a reputação de um pintor do século XVI. É a questão de saber se conseguimos ainda ler beleza sem suspeita. O Romantismo fez várias coisas ao mesmo tempo, e nem todas são igualmente reconhecidas. A mais óbvia é a elevação do sentimento como critério estético — a ideia de que a obra deve provocar uma resposta emocional intensa, e que a intensidade é ela própria um índice de valor. Menos discutida, mas talvez mais consequente, é a construção paralela de um certo tipo de artista como figura exemplar: o génio isolado, em conflito com o mundo, cuja obra traz as marcas físicas do sofrimento e da luta. Este arquétipo não era uma descoberta — era uma invenção, ou pelo menos uma seleção retroativa. O Romantismo pegou em certos artistas do passado que se prestavam ao molde — Miguel Ângelo acima de todos — e organizou a história da arte em torno deles. Os que não se prestavam ao molde foram empurrados para a periferia. E os que tinham tido sucesso em demasia — os que tinham sido amados, celebrados, remunerados, os que tinham gerido equipas e trabalhado com colaboradores e pensado em como as suas imagens circulavam — ficaram particularmente vulneráveis. O sucesso em vida passou a parecer suspeito. A facilidade técnica passou a sugerir superficialidade. A harmonia, sem fricção visível, passou a parecer ausência de pensamento. Não é um exagero dizer que o modernismo herdou estes critérios e os radicalizou. O que o Romantismo tinha formulado como preferência, o modernismo transformou em princípio. A ruptura tornou-se o valor por excelência. A dificuldade tornou-se um sinal de seriedade. A obra que não resistia, que não obrigava o olhar a trabalhar, que não criava desconforto ou desorientação — essa obra ficou fora do cânone que as instituições construíram no século XX. Não estou a dizer que esses critérios são arbitrários. Estou a dizer que são históricos — que respondem a condições específicas, que têm razões que fazem sentido no seu contexto, e que, como todos os critérios históricos, não se aplicam de forma universal sem perdas. A perda mais significativa é esta: quando a fricção se torna o critério de profundidade, toda uma categoria de realizações artísticas fica sistematicamente subavaliada. Não as obras medíocres — essas ficam subavaliadas por razões compreensíveis e defensáveis. Fica subavaliada uma certa forma de excelência que não exibe o seu esforço, que resolve problemas de tal modo que a solução parece inevitável, que cria harmonia onde havia contradição sem deixar visíveis as costuras da operação. Esta forma de excelência é rara. É provavelmente mais difícil de atingir do que a excelência que se manifesta em tensão e conflito, precisamente porque não tem onde esconder os seus fracassos. Uma obra que funciona através da perturbação pode pertencer ao seu fracasso — a desorientação que provoca pode ser intencional ou pode ser resultado de controlo insuficiente, e o observador raramente consegue distinguir com certeza. Uma obra que funciona através da harmonia não tem essa ambiguidade protetora. Se a harmonia falha, falha completamente e é imediatamente visível. Raphael atingiu esta forma de excelência de forma repetida e, no final da sua vida curta, com uma consistência que não tem paralelo no Renascimento italiano. É por isso que foi venerado durante dois séculos. É por isso que o seu nome ficou no terceiro lugar da lista — não por hábito ou por inércia, mas porque havia um consenso genuíno sobre o que representava. Depois, devagar, o critério mudou. E Raphael não mudou com ele. Há um pormenor técnico que ajuda a perceber o que estava em jogo, e que raramente aparece nas discussões sobre a sua pintura. O retrato de Baldassare Castiglione, pintado por volta de 1515, tem o mesmo tamanho que uma pessoa real. Não aproximadamente — exatamente. A mão de Castiglione, se alguém estender a sua própria mão em direção à tela, coincide. Os olhos estão à mesma altura. A luz no quadro entra pelo lado do observador, como se não houvesse separação entre o espaço da sala e o espaço da pintura. Este princípio — que o historiador de arte Alexander Nagel documentou como o início de uma transformação que durou três séculos e meio — propagou-se a partir deste e de outros retratos de Raphael e tornou-se a norma da pintura de retrato europeia. Durante trezentos e cinquenta anos, o retrato de prestígio foi pintado à escala real. Esta convenção é tão profunda que já não a vemos como convenção — vemos retratos, e esperamos que tenham aquele tamanho, sem perguntar porque é que esperamos isso. O problema com os artistas que inventam normas desta ordem é o seguinte: a norma sobrevive ao nome. Ao fim de algumas gerações, a invenção tornou-se o fundo sobre o qual tudo o resto se destaca, e o inventor desapareceu dentro dela. Ver o retrato de Castiglione hoje exige um esforço específico de desaprendizagem — é preciso suspender trezentos e cinquenta anos de retratos que aplicaram o mesmo princípio para sentir o que havia de radical na decisão original. Este esforço é possível. Mas não é o que os museus habitualmente nos pedem. Os museus pedem-nos contemplação, não arqueologia perceptiva. Existe um segundo mecanismo, distinto do primeiro mas igualmente poderoso, que operou contra Raphael. O mito do artista solitário — construído em larga medida sobre a figura de Miguel Ângelo, que o próprio Miguel Ângelo cultivou com consciência e que os seus biógrafos contemporâneos, a começar por Vasari, transformaram em modelo universal — entrou em conflito direto com o modo de trabalho de Raphael. Raphael não trabalhava sozinho. Trabalhava com uma oficina de colaboradores que incluía especialistas em diferentes áreas, a quem atribuía partes significativas de projetos complexos. As tapeçarias que desenhou para a Capela Sistina — destinadas a ser penduradas abaixo do teto de Miguel Ângelo, numa concorrência explícita que o encomendante, o papa Leão X, não tentou disfarçar — envolveram fiandeiros, tintureiros e tecelões em números que tornavam o projeto mais parecido com uma operação industrial do que com o que imaginamos quando pensamos em criação artística. As bordas dessas tapeçarias foram concebidas para imitar molduras de janelas abertas, criando a ilusão de estar rodeado por cenas habitáveis. O efeito de imersão era o objetivo, e o objetivo exigia uma equipa. Mais: Raphael trabalhou ativamente para que as suas composições circulassem. Colaborou com gravadores que as reproduziram em tiragens distribuídas por toda a Europa. A imagem — não o objeto único, mas a imagem como entidade separável do suporte — era para ele um produto tão legítimo quanto a pintura original. Esta visão do trabalho criativo como processo colaborativo e da obra como algo que existe em múltiplas instâncias e circula por múltiplos canais é, no essencial, a visão que a maioria dos artistas contemporâneos mais relevantes opera. É o modo de funcionamento de qualquer prática criativa de grande escala. Mas foi lida, durante dois séculos, como evidência de que Raphael não era um verdadeiro artista — que era um gestor, um coordenador, um empresário, não um criador. O que esta leitura revelava não era uma verdade sobre Raphael. Revelava os limites do critério que estava a ser aplicado. A terceira camada do problema é a mais difícil de articular sem parecer que se está a exigir do observador contemporâneo uma empatia histórica que é irrazoável pedir. As Madonas de Raphael foram pintadas para pessoas com uma relação com a morte radicalmente diferente da nossa. A mortalidade infantil no Renascimento italiano não era uma tragédia excecional — era uma constante. Perder filhos no primeiro ano de vida era estatisticamente provável para qualquer família, incluindo as mais abastadas. Raphael perdeu a mãe e a irmã recém-nascida quando tinha oito anos. Esta não era uma biografia incomum. A Alba Madonna — pintada por volta de 1510, a composição circular onde a Virgem se senta no chão com o filho ao colo e João Batista ajoelhado a seu lado — mostra uma mãe saudável e um filho gordo e robusto, com a saúde específica de um bebé que sobreviveu. A paisagem atrás tem nuvens que parecem reais, cavaleiros em miniatura, edifícios identificáveis, plantas estudadas com precisão botânica. É uma cena ancorada no mundo físico, não suspensa em ouro simbólico. Para o observador original, esta ancoragem era a mensagem. A saúde daquela criança não era um dado adquirido — era uma afirmação contra a experiência comum. A graça que hoje lemos como suavidade excessiva era, para esse observador, uma forma de coragem. Não a coragem do conflito — a coragem de afirmar que o mundo poderia ser assim, que havia ordem e beleza possíveis, que a harmonia não era uma mentira sobre a condição humana mas uma promessa sobre o que ela poderia conter. Quando esse contexto desaparece — quando a obra entra num museu e o observador não traz consigo a memória visceral da mortalidade infantil como dado quotidiano — o que resta é a superfície. E a superfície, separada do que a tornava necessária, parece apenas bonita. O problema não é que a obra tenha envelhecido. É que perdemos o instrumento com que era lida. Há um argumento que aparece com frequência neste ponto e que é preciso examinar com cuidado, porque parece válido e não é completamente falso. O argumento é este: a dificuldade de ver Raphael decorre da sua influência. A sua linguagem propagou-se tanto que já não a reconhecemos como linguagem — reconhecemo-la como o fundo neutro sobre o qual tudo o resto se destaca. Para recuperar o choque da invenção, seria preciso desaprender tudo o que veio depois. E isso é um esforço que não podemos completamente fazer. Há verdade nisto. Mas o argumento tem um defeito estrutural que é preciso nomear: não tem falsificação possível. Se não sentimos nada diante do quadro, é porque estamos demasiado contaminados pela herança; se sentimos, é porque conseguimos desaprender o suficiente. A teoria explica qualquer resultado e portanto não explica nada — é uma narrativa de reabilitação que se imuniza contra a experiência real do observador. A alternativa menos confortável é esta: algumas obras de Raphael — não todas, mas algumas das mais reproduzidas e mais identificadas com o seu nome — são genuinamente menos ricas do que as menos conhecidas. A harmonia que atingem é real, mas é uma harmonia sem resistência, sem o tipo de tensão que mantém o olhar em movimento. Não é uma falha de critério encontrar estas obras menos mobilizadoras do que outras. É uma resposta legítima a algo que está lá. O que não é legítimo é usar esta resposta legítima como prova de que o critério da fricção é universal. Que algumas obras de Raphael sejam menos interessantes do que os seus momentos mais altos não demonstra que a harmonia é sempre superficial. Demonstra apenas que a harmonia, como qualquer outro recurso, pode ser bem ou mal executada. O ponto que interessa, e que vai além de Raphael, é este. Quando uma cultura estabelece um único critério de profundidade — quando a fricção se torna a medida universal de seriedade, e a harmonia se torna equivalente a superficialidade — essa cultura perde a capacidade de ler toda uma gama de realizações. Não perde a capacidade de as ver; perde a capacidade de as avaliar com precisão. Vê formas, reconhece técnica, identifica intenção — mas não consegue situar a obra na escala de valores que usa para tudo o resto, porque a obra não joga esse jogo. Isto tem consequências práticas. Os museus que organizam as suas coleções segundo critérios derivados do modernismo — que penduram em posição de destaque o conflito, a ruptura, a dificuldade, a ironia — criam observadores treinados para procurar essas qualidades e para ficar desorientados quando não as encontram. Não é que esses observadores não consigam apreciar beleza; é que não têm um vocabulário para o fazer que não passe pela suspeita. A suspeita de beleza é um hábito cultural específico, não uma resposta natural. Levou tempo a construir. E como todos os hábitos culturais, pode ser examinado — não para ser abandonado, mas para ser visto como o que é: uma escolha, com as suas razões e os seus custos. O que Raphael torna visível, neste contexto, não é a injustiça de que foi vítima. Não estou a pedir que o reabilitemos, que o coloquemos de volta no terceiro lugar da lista, que reconheçamos que foi mal tratado pela posteridade. Estas são questões de classificação que não têm grande interesse fora dos departamentos universitários onde são debatidas. O que Raphael torna visível é a estrutura do critério. É um caso-teste extraordinariamente claro porque a obra não deixa dúvidas sobre o que está a fazer — não é ambígua, não está a tentar provocar e a falhar, não está a imitar fricção sem a ter. Está a fazer outra coisa, com mestria, de forma consistente, ao longo de vinte anos de produção. E essa outra coisa é sistematicamente difícil de avaliar com os instrumentos que herdámos. Existe uma frase de Simone Weil que aparece raramente nas discussões sobre arte visual mas que tem aqui uma precisão invulgar. Weil escreveu que a beleza é a promessa de que o mundo pode ser habitado — não que o mundo é bom, não que o sofrimento é ilusório, mas que existe uma ordem possível que não contradiz a experiência da dor mas a contém sem a negar. É uma definição que não separa a beleza da realidade — que a entende como uma forma específica de atenção à realidade, capaz de encontrar nela uma estrutura que não estava visível antes de a obra existir. Não sei se Raphael teria reconhecido esta formulação. Provavelmente não usaria este vocabulário. Mas o que as suas obras mais logradas fazem — a Alba Madonna, o retrato de Castiglione, os estudos de figura onde a linha resolve em dois movimentos o que outros artistas levam uma página a aproximar — é precisamente isso: encontrar uma ordem que não nega a complexidade do que representa, mas a articula de forma que a torna, por um momento, habitável. Isto não é menos difícil do que criar tensão. É diferente. E a diferença importa. O que não temos, e que seria necessário para ler este tipo de obra sem suspeita, é um vocabulário crítico para a excelência harmónica que seja tão desenvolvido quanto o vocabulário que temos para a excelência disruptiva. Temos palavras muito precisas para descrever o que acontece quando uma obra nos perturba, nos desequilibra, nos força a reconfigurar o que sabemos. Temos muito menos palavras para descrever o que acontece quando uma obra resolve — quando a harmonia que cria não é a ausência de tensão mas o resultado de ter trabalhado a tensão até ao ponto em que ela se transforma em algo que sustenta o olhar em vez de o agitar. Esta assimetria no vocabulário não é inocente. Os críticos escrevem com as palavras que têm. As instituições constroem programas com as categorias que os críticos fornecem. Os observadores aprendem a ver com as estruturas que as instituições lhes oferecem. O ciclo é fechado, e Raphael está do lado de fora. A questão não é se vai entrar. É se queremos perceber porque ficou de fora — e o que isso diz sobre a sala, não sobre ele.

  • A cor do silêncio

    Foi sempre mais do que cabelo. Foi território. Desde o primeiro gesto de uma escova, o corpo de uma mulher negra aprendeu que o mundo exige tradução — que a beleza, para ser aceite, tem de falar uma língua que não é a sua. Michelle Obama compreendeu-o cedo, não como conceito, mas como sobrevivência. Cada vez que o olhar público pousava sobre ela, havia uma contagem invisível de gestos, de tecidos, de cores, de ângulos. Era o peso de uma história inteira pendurado na raiz do cabelo. Durante oito anos na Casa Branca, cada madeixa foi um ato político, cada escolha estética uma tentativa de decifrar o que o país toleraria ver. O mesmo povo que a aplaudia pela educação das filhas e pelo sorriso intacto pedia-lhe, em silêncio, que domesticara o reflexo. As câmaras, mais do que o discurso, registravam a lisura do penteado, o brilho dos fios, a ausência de volume — como se a autoridade de uma mulher dependesse da obediência do seu cabelo. Houve um tempo em que o ferro quente substituiu a liberdade, e o perfume químico do alisador tornou-se parte do ritual do poder. Michelle percebeu que o cabelo crespo não seria apenas um traço biológico, mas uma metáfora viva da diferença. O mesmo país que jurava celebrar a diversidade exigia-lhe a uniformidade. E ela, com a sabedoria dos que conhecem o abismo entre o que são e o que o mundo lhes permite ser, escolheu a estratégia mais antiga: o disfarce calmo. Não o fez por vaidade. Fê-lo porque sabia que o corpo negro, na esfera pública, é uma provocação. E porque, no teatro político americano, a estética é uma forma de gramática. Aprendeu que cada fio rebelde podia ser lido como descuido, como ameaça, como afronta. Então decidiu guardar a sua rebeldia para o invisível — para o gesto secreto de resistir sem mostrar. Mas o tempo, que tudo gasta, devolve-nos o essencial. Há um dia em que a raiz volta a crescer na sua direção natural, como quem reencontra o norte após uma longa travessia. As tranças regressam, não como adorno, mas como reconciliação. Cada fio entrelaçado é uma oração antiga, um mapa de pertença, uma forma de dizer “estou de volta ao meu próprio corpo”. Michelle Obama reaprendeu a habitar-se. E, nesse gesto íntimo — o de deixar o cabelo ser o que sempre foi — há mais política do que em muitos discursos. É o corpo a recuperar o direito à verdade. A elegância deixa de ser sinónimo de adequação e passa a significar fidelidade: à textura, à história, à dor e à beleza que coexistem num mesmo reflexo. O livro The Look parece, à superfície, um ensaio sobre estilo. Mas é, na verdade, um livro de anatomia — o retrato de um corpo que aprendeu a carregar a cor, o género e a memória como símbolos de um país que ainda não se compreendeu. Cada fotografia é um espelho duplo: por fora, a figura serena; por dentro, a tensão invisível de quem precisa de medir cada centímetro de espontaneidade. Michelle escreve, com o cuidado de quem desenha cicatrizes, sobre aquilo que nunca se diz nas biografias oficiais: o preço da aceitação. Há uma cena recorrente no imaginário das mulheres negras — o pente quente, a mãe a alisar os cabelos da filha ao domingo, o som breve do vapor quando o ferro encontra o couro cabeludo. É uma lembrança de ternura e dor, o eco de uma pedagogia antiga: que a ordem do mundo começa na cabeça. “Endireita o cabelo”, dizem as mães, querendo dizer “não lhes dês motivo”. Crescer sob essa disciplina é crescer num país que te mede pela docilidade dos teus fios. Michelle Obama foi a primeira a transformar essa herança em diplomacia. Soube que o poder é, antes de mais, uma questão de aparência. Que o público americano, habituado à brancura do mito presidencial, veria no seu corpo uma nota dissonante. Por isso, enquanto o país aprendia a chamá-la “First Lady”, ela ensinava-o a ver nela mais do que um símbolo: uma mulher complexa, educada, vulnerável, estratégica. Hoje, quando surge com tranças, o gesto é uma libertação silenciosa. Não precisa de explicação, nem de manifesto. Basta o som das câmaras e a naturalidade do movimento. O cabelo, que antes era uma concessão, torna-se agora uma escolha. E escolher, neste caso, é reescrever a história. As tranças são antigas como o tempo. Em cada uma, há genealogias de resistência, mapas de fuga, códigos de pertença. As escravas africanas desenhavam rotas no couro cabeludo umas das outras — linhas que indicavam caminhos para a liberdade. Talvez, sem o saber, Michelle retome esse gesto: cada trança como um traço de regresso, uma bússola que aponta para casa. A estética não é banalidade; é a forma visível de uma ética. E a política, nesse sentido, é uma arte de aparições. Michelle Obama entendeu que podia usar a superfície — o vestido, a postura, o cabelo — como um espelho onde o país se vê refletido e, por instantes, se interroga. Chamam-lhe “soft power”. Eu prefiro chamar-lhe liturgia: o ritual em que o corpo se oferece como tradução do invisível. Há algo de profundamente poético neste percurso: uma mulher que passou anos a endireitar o cabelo para não assustar o mundo, e que agora, liberta do cargo e do peso simbólico, decide aparecer como é. E, no entanto, não há ressentimento. Apenas um sossego novo, uma ternura consigo mesma. O gesto de pentear é, afinal, um gesto de perdão. Entre as fotografias do livro, há uma que a mostra a rir, com as tranças longas e soltas, a cabeça ligeiramente inclinada, como quem ouve um som distante. Talvez o som do tempo a reconciliar-se com ela. Talvez o som de uma liberdade que já não precisa de pedir licença. A cor do silêncio, essa, permanece. Mas já não é a cor do medo — é a cor do regresso. Autor: por Elian Morvane Secção: Caderno das Sombras Claras Michelle Obama — Retrato oficial na Casa Branca #MichelleObama #CasaBranca #PrimeiraDama #RetratoOficial #MulheresNoPoder #FotografiaInstitucional #ChuckKennedy #HistóriaContemporânea #ElegânciaEIdentidade

  • Violência doméstica em Portugal: 61% dos inquéritos arquivados em 2025

    O ficheiro fecha com um clique. Ou com um carimbo. Ou com a frase que os juristas conhecem de cor e que os outros raramente lêem: não há indícios suficientes. O processo vai para o arquivo. A queixa existiu — está registada, tem número, tem data. O que não tem é consequência. Violência Doméstica em Portugal Por Alberto Carvalho Em 2025, fecharam 38.749 inquéritos por violência doméstica em Portugal. De entre eles, 23.836 foram arquivados. Não foram esquecidos, não foram perdidos, não foram desviados para nenhum limbo administrativo. Foram encerrados dentro do procedimento normal, com fundamentação jurídica, por magistrados que cumpriram a lei. Sessenta e um por cento. Quase dois em cada três inquéritos findos por violência doméstica em Portugal resultam em arquivo. Capa do Atlantic Lisbon para um artigo sobre o arquivamento de 61% dos inquéritos de violência doméstica em Portugal em 2025. Os restantes: 5.327 acusações deduzidas, 1.886 suspensões provisórias do processo, 7.700 encerrados por outros motivos. O Estado tem nome para cada uma destas categorias. Tem formulários. Tem prazos. Há um dado no Relatório Anual de Segurança Interna de 2025 que o próprio relatório apresenta como sinal positivo. A violência doméstica registou, no ano passado, uma "ligeira diminuição" de 1,9 por cento. Vinte e nove mil seiscentos e quarenta e quatro participações, menos quinhentas e setenta e sete do que em 2024. A frase existe no documento. A tendência existe nos gráficos. No mesmo ano, a violência doméstica contra menores subiu 8,6 por cento. Os homicídios cometidos em contexto de violência doméstica passaram de 23 para 27 vítimas. Vinte e uma eram mulheres. Duas eram crianças. A diminuição de 1,9 por cento pode ser simplesmente um sinal de que há menos fé no sistema. A mulher que não foi à esquadra porque já foi antes e não serviu de nada. O vizinho que ouviu e não ligou. O filho que aprendeu que aquilo é normal. O que não entra nas participações não desce em nenhum gráfico. Em maio de 2025, o governo aprovou a Portaria n.º 228/2025 para regular o novo Instrumento de Avaliação de Risco em Violência Doméstica — o RVD-R. Entrou em vigor a 1 de julho. É uma ferramenta que permite às forças de segurança avaliar o risco de reincidência quando atendem uma vítima: perguntas sobre a frequência dos episódios, sobre ameaças com armas, sobre filhos, sobre o grau de isolamento. O instrumento existe noutros países há décadas. Em Portugal, foi aprovado em 2025. No ano em que o RVD-R entrou em vigor, morreram quatro pessoas a mais do que no ano anterior em contexto de violência doméstica. O aparato existe e é visível. A GNR tinha, no final de 2025, 895 militares afetos ao projeto de investigação e apoio a vítimas específicas. A PSP dispunha de 428 efetivos dedicados à área da violência doméstica. Há dezoito estruturas especializadas de atendimento policial a vítimas distribuídas pelo país. Salas de atendimento à vítima em 75,8 por cento dos postos e esquadras. Programas para agressores que, em 2025, abrangeram pouco mais de quatro mil pessoas — num universo de quase trinta mil participações anuais. A vigilância eletrónica tem uma taxa de cumprimento de 97,4 por cento nas medidas associadas a violência doméstica. O agressor usa a pulseira. O sistema sabe onde ele está. Há uma memória mais longa do que qualquer portaria. Portugal criminalizou a violência doméstica conjugal como crime público em 2000. Não antes. Durante décadas, o que acontecia dentro de casa era assunto de família: a expressão não é metáfora, foi uma prática generalizada. O Estado Novo não inventou a violência doméstica, mas construiu as condições para a sua invisibilidade. A democracia chegou em 1974. A criminalização efetiva chegou vinte e seis anos depois. O que ficou é a memória institucional de não ver. Não a memória dos indivíduos: a dos procedimentos, dos critérios de arquivo, das culturas das esquadras. A crítica não é aos magistrados que aplicaram a lei. É a lei que foi construída de forma a tornar o arquivo o resultado mais provável. Visto de Lisboa — de um país que sabe o que é construir estruturas para gerir a aparência de uma resposta sem a resposta em si —, o problema não é de recursos nem de vontade declarada. É de arquitetura. Em 2024, o Ministério da Justiça pagou mais de 1,6 milhões de euros em apoio judiciário a advogados que acompanharam as vítimas de violência doméstica. Em 2025, esse valor caiu para 916 mil euros. O número de pagamentos passou de mais de seis mil para cerca de 3.400. No mesmo ano, o sistema de queixa eletrónica registou 349 participações de violência doméstica. Num país com quase trinta mil participações anuais totais, 349 chegaram por via eletrónica. Vinte e sete mortes num ano. Vinte e uma mulheres. Dois menores. Quatro homens. O RASI não tem fotografias. Tem tabelas, variações percentuais, setas a apontar para cima e para baixo. A seta da violência doméstica global aponta para baixo: menos 1,9 por cento. A seta dos homicídios em contexto de violência doméstica aponta para cima: mais quatro. O relatório apresenta as duas na mesma secção, com o mesmo peso gráfico, sem hierarquia moral entre elas. O próximo relatório terá as mesmas categorias, as mesmas taxas, a mesma frase sobre a ligeira diminuição — ou sobre o ligeiro aumento, consoante o ano. O ficheiro vai para o arquivo. O sistema fica aberto. Por que são arquivados dois em cada três inquéritos de violência doméstica em Portugal? #ViolênciaDoméstica #JustiçaPortuguesa #RASI2025

  • Quando a Igreja volta a fechar a porta à Maçonaria

    Bruno Battisti D’Amario tinha 88 anos quando morreu, a 5 de agosto de 2026. A família preparou o funeral na Basílica de Santa Maria in Montesanto, na Piazza del Popolo, em Roma. A igreja é conhecida como a Igreja dos Artistas, uma escolha que fazia sentido para um guitarrista e professor que trabalhara durante anos com Ennio Morricone. A celebração, porém, não se realizou como estava prevista. Quando uma fronteira volta a ser visível A incompatibilidade entre a Igreja Católica e a Maçonaria mantém-se há décadas, mas decisões recentes voltaram a tornar visíveis as suas consequências práticas. Fotografia: Stephanie Klepacki. O Grande Oriente d’Italia anunciou a morte de D’Amario e tornou pública uma parte da sua biografia que a família, segundo foi posteriormente relatado, não comunicara quando pediu as exéquias. D’Amario tinha ocupado cargos relevantes na Maçonaria italiana. Fora conselheiro da Ordem, presidira por duas vezes à estrutura dos veneráveis mestres do Lácio, fundara a loja romana Giuseppe Leti e compusera o hino oficial do Grande Oriente. Numa publicação maçónica de 2010, era apresentado como um mestre da coluna de harmonia e com uma vida maçónica. Conhecida essa filiação, o caso chegou ao cardeal Baldassare Reina, vigário-geral para a Diocese de Roma. A missa de exéquias foi recusada. Pouco depois, ocorreu outro caso, desta vez na Diocese de Ventimiglia-Sanremo. Mario Tarducci, ligado à loja Mimosa de Bordighera, também não recebeu as exéquias católicas previstas. A sua presença na Maçonaria não era recente: documentos do Grande Oriente d’Italia registavam-no como venerável mestre da Mimosa em 2005 e, anos depois, entre os representantes da loja numa iniciativa de apoio a pessoas com deficiência. A doutrina usada para sustentar as decisões deste género existia muito antes dos dois funerais. O que aconteceu em Itália coincidiu, contudo, com outra decisão recente da Igreja: poucas semanas antes, uma conferência episcopal europeia tinha enviado aos seus padres instruções concretas sobre católicos maçons. A Conferência Episcopal Nórdica publicou-as em 29 de junho de 2026. O documento resultara de uma questão levada a Roma no ano anterior. Entre 1 e 5 de setembro de 2025, já durante o pontificado de Leão XIV, os bispos reuniram-se com os superiores e responsáveis do Dicastério para a Doutrina da Fé. Queriam saber se as formas de Maçonaria praticadas nos países nórdicos, designadamente as associadas ao chamado rito sueco, poderiam justificar uma exceção à posição geral da Igreja. Na carta enviada aos párocos no ano seguinte, escreveram que a resposta tinha sido negativa. A partir daí, estabeleceram o que deveria acontecer nos casos concretos. Um católico ligado à Maçonaria deve ser encorajado a abandoná-la. Enquanto conservar essa filiação, deve abster-se da comunhão e fica impedido de receber os outros sacramentos. Quem pretenda ser batizado na Igreja Católica, ou nela entrar em plena comunhão, sendo já cristão batizado, terá primeiro de deixar a Maçonaria. As instituições católicas não devem celebrar acordos de colaboração com maçons ou lojas maçónicas nem utilizar imóveis pertencentes a essas organizações. Quando o novo Código de Direito Canónico entrou em vigor, em 1983, deixou de mencionar expressamente as associações maçónicas, ao contrário do código de 1917. A alteração suscitou dúvidas. A então Congregação para a Doutrina da Fé publicou, em novembro desse ano, uma declaração segundo a qual o juízo negativo da Igreja permanecia inalterado. Em novembro de 2023, o Dicastério voltou ao assunto na sequência de uma consulta proveniente das Filipinas. Francisco era ainda Papa. A incompatibilidade foi reafirmada. Em 2025, os bispos nórdicos perguntaram outra coisa: se a situação local permitia uma exceção. A carta de 2026 regista que não permitia. Não há, até agora, elementos suficientes para atribuir a Leão XIV uma campanha pessoal contra a Maçonaria. A declaração de 1983 antecede-o em mais de quatro décadas e o esclarecimento de 2023 pertence ao pontificado de Francisco. A consulta nórdica, porém, ocorreu já sob Leão XIV e teve consequências pastorais publicadas menos de um ano depois. Um católico dos países nórdicos que mantenha a filiação maçónica dispõe agora de instruções episcopais expressas sobre as consequências sacramentais. As instituições católicas receberam igualmente regras sobre acordos e utilização de propriedades. Em Itália, duas famílias que tinham preparado funerais católicos viram as celebrações impedidas depois de conhecida a pertença maçónica dos falecidos. A exceção que os bispos quiseram esclarecer A dúvida nórdica tinha antecedentes próprios. A Maçonaria não se desenvolveu de forma idêntica em toda a Europa, e algumas tradições escandinavas possuem características religiosas que levaram católicos e maçons a questionar se os fundamentos da antiga condenação se lhes aplicariam nos mesmos termos. Os bispos levaram essa questão ao Dicastério. A carta de junho de 2026 não se ficou pela resposta recebida. Diz aos párocos o que fazer quando um fiel maçon se aproxima dos sacramentos, quando alguém pretende entrar na Igreja ou quando uma instituição católica pondera colaborar com uma organização maçónica. Entre 1974 e 1980, representantes católicos e maçons na Alemanha tinham participado num processo de diálogo que incluiu o exame de posições e rituais maçónicos. Os bispos alemães concluíram, no final, que as divergências impediam a pertença simultânea às duas instituições. A carta nórdica recupera esse trabalho ao apresentar os fundamentos da posição que manda aplicar. Em maio de 2025, poucos dias depois da eleição de Leão XIV, o Grande Oriente d’Italia publicou uma saudação ao novo Papa. Apresentou os maçons como construtores de pontes de paz e manifestou a esperança de que também houvesse espaço para eles entre as pontes de diálogo evocadas no início do pontificado. Em agosto do ano seguinte, a pertença maçónica de D’Amario e Tarducci pesou diretamente nas decisões tomadas sobre os respetivos funerais. O que significa recusar um funeral Para a Igreja Católica, um funeral religioso tem conteúdo próprio e está sujeito às suas regras. Não corresponde apenas à disponibilização de uma igreja, de um sacerdote e de uma cerimónia pedida pela família. Os familiares vivem o mesmo momento de outra maneira. Depois da morte, decisões práticas misturam-se com hábitos religiosos e memória familiar. Se uma celebração já preparada deixa de poder realizar-se por causa de uma pertença mantida pelo falecido, a consequência chega a pessoas que não tomaram essa decisão. Nos casos italianos, a documentação disponível não apontava para contactos ocasionais com a Maçonaria. D’Amario e Tarducci tinham exercido funções identificáveis em estruturas maçónicas. Uma diocese que tivesse perante si uma suspeita, uma filiação remota ou informação não confirmada enfrentaria uma situação diferente. Também não decorre destes dois episódios que qualquer católico com passado maçónico receba necessariamente o mesmo tratamento. As exéquias envolvem disciplina canónica e apreciação do caso concreto. Aqui sabemos apenas o que aconteceu nestas duas dioceses. Nos países nórdicos, a carta atua antes de surgir qualquer funeral ou outro caso público. Enquanto permanecer maçon, o fiel deve abster-se da comunhão e dos restantes sacramentos. Se quiser entrar na Igreja, terá de abandonar previamente a organização. Há igualmente instruções para as relações entre instituições. Um pároco pode encontrar estas disposições quando alguém lhe pede um sacramento ou quando uma colaboração local envolve uma loja. Duas pertenças na mesma biografia Uma pessoa pode considerar-se simultaneamente católica e maçónica durante décadas. Pode participar em ritos religiosos, manter hábitos familiares católicos e exercer funções numa loja. A Igreja considera essas pertenças incompatíveis, ainda que a própria biografia do fiel as tenha mantido lado a lado. As orientações nórdicas obrigam a resolver essa situação. Quem quiser regressar ao acesso normal aos sacramentos terá de abandonar a Maçonaria. A posição decorre da maneira como a Igreja entende a pertença religiosa e os compromissos que considera inconciliáveis com ela. A Maçonaria europeia desenvolveu outra relação com a diversidade confessional, embora as várias obediências e ritos não sejam idênticos. Essa variedade foi uma das razões para os bispos nórdicos perguntarem se a disciplina geral admitia uma solução diferente no seu território. Roma não reconheceu essa exceção. Para os fiéis abrangidos, a consequência é bastante concreta: manter a filiação maçónica impede o acesso normal aos sacramentos. Uma disputa antiga numa Europa diferente A relação entre a Igreja Católica e a Maçonaria formou-se num contexto marcado pela secularização, pelo anticlericalismo, pelas disputas políticas e pelos conflitos sobre o lugar público da Igreja. Muito desse passado já não ocupa a vida quotidiana da maioria dos europeus. A Maçonaria perdeu parte do peso político e simbólico que teve no século XIX e em partes do século XX. A Igreja, por sua vez, atua hoje em sociedades mais secularizadas, onde muitos cidadãos desconhecem as regras internas que regem a pertença católica. Uma declaração de 1983 pode permanecer válida durante décadas sem entrar na experiência de grande parte dos fiéis. Quando um bispo tem de decidir sobre um sacramento ou um funeral, a mesma regra deixa de estar apenas num arquivo doutrinal. Os casos de 2026 não demonstram uma aplicação mais frequente em toda a Igreja. Para saber isso, seria necessário conhecer as decisões tomadas ao longo do tempo em dioceses diferentes, muitas das quais nunca chegam ao espaço público. Em setembro de 2025, os bispos nórdicos procuraram uma resposta em Roma. Em junho de 2026, publicaram instruções. Em agosto, duas dioceses italianas recusaram exéquias católicas a homens com funções conhecidas na Maçonaria. Há ainda outro fator. Hoje, uma decisão tomada numa paróquia ou diocese pode circular internacionalmente em poucas horas. As próprias organizações maçónicas mantêm arquivos, comunicados e publicações acessíveis ao público. Situações que antes poderiam permanecer locais passam depressa para uma discussão europeia. Com os elementos disponíveis, não é possível medir se estamos perante mais decisões deste género ou apenas perante decisões que se tornaram mais visíveis. O novo pontificado A consulta nórdica ocorreu quatro meses depois da eleição de Leão XIV. As orientações foram publicadas durante o primeiro ano do pontificado. A doutrina aplicada pelo Dicastério não nasceu então. Tinha sido reafirmada durante Francisco e assenta numa declaração de 1983. Também não foi identificado, até agora, um documento de Leão XIV que determine uma campanha específica contra a Maçonaria. Os bispos nórdicos, contudo, fizeram a consulta já no novo pontificado e não obtiveram a exceção que procuravam. A partir dessa resposta, publicaram regras pastorais aplicáveis nos seus territórios. Poucas semanas depois, os dois funerais italianos mostraram outra consequência possível da incompatibilidade. Ainda não há base documental suficiente para saber se estes acontecimentos fazem parte de uma mudança mais ampla na prática pastoral. Francisco era Papa quando o Dicastério reafirmou a posição em 2023. Leão XIV era Papa quando a consulta nórdica recebeu resposta e quando os bispos publicaram as instruções de 2026. Se vierem a surgir outros casos, será possível perceber melhor se a prática está a mudar ou se estes acontecimentos permanecerão episódios dispersos. O espaço que desapareceu A Igreja afirma que a dignidade é inerente a cada ser humano e não depende da sua condição social, cultural, política ou religiosa. É um princípio que não contém exceções para os maçons. A incompatibilidade entre a fé católica e a Maçonaria pertence à doutrina da Igreja; a dignidade da pessoa, segundo a própria Igreja, permanece intacta. É entre estas duas afirmações que os acontecimentos de 2026 deixam a questão por resolver. Ilustração: Stephanie Klepacki / IA #IgrejaCatólica #Maçonaria #DireitoCanónico #LeãoXIV

  • Trump e o teste de stress à democracia americana

    Mapa de Coisas Sérias Trump e o teste de stress à democracia americana Seis meses depois do regresso de Donald Trump à Casa Branca, a democracia dos Estados Unidos está a atravessar um teste de resistência que, até há pouco tempo, muitos especialistas considerariam improvável. Não se trata de um choque pontual, mas de uma erosão sistemática e estratégica: o ataque coordenado a pilares como o poder judicial, as universidades, os meios de comunicação e até as grandes firmas de advocacia. As vitórias internas de Trump, nestes meses, não se resumem a ganhos políticos: traduzem-se em capitulações institucionais. Universidades de elite, como Columbia, cederam a exigências governamentais que implicaram alterações curriculares, expulsões de estudantes e pagamento de multas milionárias para recuperar verbas federais. Empresas de media como a Paramount e a Disney aceitaram acordos que levantam dúvidas sobre a independência editorial. Grandes sociedades de advogados aceitaram prestar serviços jurídicos gratuitos para causas alinhadas com a agenda do Executivo, poupando ao governo centenas de milhões de dólares. A mecânica é conhecida e estudada noutros contextos: usar o poder regulatório, económico e jurídico para criar um dilema nas instituições — resistir e enfrentar retaliações potencialmente fatais, ou ceder e sobreviver amputadas. O professor Ryan Enos, de Harvard, classifica o momento como “autoritarismo competitivo”, comparando-o a modelos como a Hungria e a Turquia: eleições que se mantêm formais, mas com um campo de jogo inclinado, onde a oposição luta contra o peso de regras e contextos desfavoráveis. O paralelo internacional não é gratuito. Viktor Orbán, na Hungria, usou métodos semelhantes para moldar universidades, consolidar o controlo sobre a comunicação social e fragilizar tribunais. Jair Bolsonaro, no Brasil, testou as fronteiras da legalidade e explorou ao limite o peso da máquina executiva. Em todos estes casos, o padrão é semelhante: quando as instituições se dobram isoladamente, o líder acumula poder com rapidez e torna mais difícil qualquer resistência futura. Nos EUA, parte do sistema judicial parece ter desistido de funcionar como travão. O Supremo Tribunal, com maioria conservadora, tem suspendido decisões contrárias ao Executivo por via de ordens provisórias, emitidas, sem fundamentação pública detalhada. Especialistas alertam que isto fragiliza a previsibilidade do direito constitucional e incentiva novas investidas para alterar precedentes. Há quem ainda recuse falar em crise constitucional aberta. É verdade que o Executivo não desafiou diretamente ordens do Supremo Tribunal. Mas é igualmente verdade que o Congresso e o próprio Supremo mostram pouco apetite para confrontar o Presidente, mesmo perante sinais de violação de princípios constitucionais. O que sobra, nesta equação, é a sociedade civil — sindicatos, associações, movimentos académicos, organizações não governamentais. Uma lição para Portugal. Se conseguirem atuar de forma concertada, poderão funcionar como último contrapeso a um Executivo em expansão. Se se fragmentarem ou recuarem, a consolidação do poder será mais rápida e profunda. O teste de stress à democracia americana está em curso. Não é um cenário de colapso abrupto, mas de transformação silenciosa. Quando as linhas do mapa se deslocam lentamente, é fácil não perceber a mudança até que o território seja outro. É por isso que a vigilância — das instituições, dos cidadãos e dos aliados internacionais — não é um luxo. É a única forma de garantir que, quando chegar a próxima eleição, ainda haverá um campo democrático onde ela possa acontecer de forma livre e justa. Helena Vale — Analisa políticas públicas e os seus impactos sobre a democracia, a economia e os direitos fundamentais no espaço que se chama de Mapa de Coisas Sérias. Trump e a erosão democrática nos EUA #DonaldTrump #EstadosUnidos #Democracia #PolíticaInternacional #Autoritarismo #DireitosFundamentais #SociedadeCivil

  • O fármaco que prolonga vidas. Portugal vai adquiri-lo a tempo?

    Na quarta-feira, a agência norte-americana do medicamento aprovou o primeiro fármaco dirigido especificamente à proteína RAS para tratar o cancro do pâncreas metastático. Chama-se Rasonque, é fabricado pela Revolution Medicines e resulta de mais de uma década de trabalho sobre um alvo que a farmacologia considerou, durante muito tempo, praticamente impossível de atacar. Num ensaio de fase 3 com 500 doentes com adenocarcinoma pancreático metastático que já tinham recebido tratamento, a sobrevivência mediana foi de 13,2 meses entre os que receberam o medicamento e de 6,7 meses entre os que receberam apenas quimioterapia. Segundo a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA), estes resultados correspondem a uma redução de 60% no risco de morte. Atlantic Lisbon | SAÚDE • INOVAÇÃO • FUTURO O adenocarcinoma é a forma mais comum de cancro do pâncreas. Só nos Estados Unidos, são diagnosticados todos os anos cerca de 67.500 novos casos da doença. O Rasonque é tomado por via oral, num comprimido diário de 300 miligramas. Os efeitos secundários mais comuns incluem erupções cutâneas, diarreia, náuseas e fadiga. Nos ensaios clínicos, 86% dos doentes tiveram problemas de pele, considerados graves em cerca de uma décima parte dos casos. A proteína RAS está mutada na maioria dos tumores do pâncreas, mas resistiu durante décadas às tentativas de a bloquear: a superfície não oferece um ponto óbvio onde uma molécula se possa fixar. Os poucos inibidores de RAS anteriormente aprovados, da Amgen e da Bristol Myers Squibb, atuam apenas sobre uma mutação específica e apenas quando a proteína se encontra inativa. O Rasonque foi concebido para bloquear várias formas da proteína mesmo no estado ativo e pode ser usado independentemente de ter ou não sido identificada uma mutação no doente. Desde maio, antes da aprovação formal, a Revolution Medicines já o distribuía através de um programa de acesso alargado autorizado pela FDA. O programa chegou a mais de 2.000 pessoas em centros oncológicos e clínicas comunitárias. Sete meses antes da aprovação, o medicamento esteve no centro de uma tentativa falhada de comprar a própria empresa que o desenvolveu. Em janeiro, o Wall Street Journal noticiou que a AbbVie estava em conversações avançadas para adquirir a Revolution Medicines. A AbbVie negou, em comunicado à Reuters, estar em qualquer negociação com a empresa. Dias depois, o Financial Times e o próprio Wall Street Journal noticiaram que era a Merck, e não a AbbVie, quem negociava a compra, por um valor entre 28 e 32 mil milhões de dólares. A Revolution Medicines, que valia pouco mais de 15 mil milhões de dólares antes destas notícias, viu as suas ações subirem mais de 30% em poucos dias, chegando a um valor de mercado superior a 20 mil milhões. No final de janeiro, porém, o Wall Street Journal noticiou que a Merck tinha travado as conversações, sem que as duas partes conseguissem chegar a acordo sobre o preço. O presidente executivo da Revolution Medicines, Mark Goldsmith, recusou sempre confirmar ou desmentir qualquer negociação, invocando uma política de não comentar rumores. Em abril, a empresa fechou uma oferta de ações e obrigações convertíveis que lhe trouxe mais de 2.200 milhões de dólares. A Erasca, um rival direto que desenvolve outro medicamento dirigido à mesma proteína RAS, perdeu mais de 40% do seu valor em bolsa depois de revelar que um doente de 66 anos, participante no seu ensaio clínico, tinha morrido após desenvolver uma inflamação pulmonar grave. A Revolution Medicines alegou ainda, numa carta formal, que o medicamento da concorrente infringia as suas patentes. Em maio, a Revolution Medicines recebeu 250 milhões de dólares da Royalty Pharma em troca de direitos sobre futuras royalties. Em julho, a Agência Europeia de Medicamentos aceitou acelerar a avaliação do Rasonque, e a FDA aceitou o pedido de aprovação para revisão prioritária. A 11 de agosto, as ações da Revolution Medicines fecharam acima de 205 dólares, dando à empresa um valor de mercado superior a 44 mil milhões de dólares. Era mais do dobro do que valia antes da especulação de janeiro e ultrapassava largamente o valor que a Merck chegou a oferecer. As ações voltaram a atingir um máximo histórico a 18 de agosto e continuaram a subir. Entre os investidores conhecidos da empresa está o gestor de fundos Stanley Druckenmiller, que reforçou a sua posição em mais de 26% no segundo trimestre do ano, segundo documentos entregues às autoridades reguladoras. A Revolution Medicines fixou o preço de tabela do Rasonque em 39.800 dólares por mês, cerca de 478.000 dólares por um ano completo de tratamento. A empresa afirma que, para a generalidade dos doentes nos Estados Unidos, a maior parte do custo será coberta por seguro. O litígio de patentes com a Erasca continua por resolver. Ainda este mês, os analistas voltaram a apontar a Revolution Medicines como um possível alvo de aquisição, embora o preço de entrada seja hoje muito superior ao de janeiro. #CancroDoPancreas #Rasonque #Daraxonrasib #Oncologia #AcessoAoTratamento #SNS #INFARMED #DireitoASaude #Portugal #AtlanticLisbon

  • Encontrou um caroço. Faltou à consulta para cuidar do pai

    Teresa fechou a porta da casa de banho com o pé e ficou especada em frente ao espelho, a mão esquerda enfiada por dentro da camisola, os dedos a percorrer devagar o contorno de um caroço do tamanho de um bago de uva. Onze dias. Contava-os todas as manhãs sem dizer o número a ninguém, nem a si própria em voz alta. O pai precisava dela naquele dia. O caroço teria de esperar. Vestiu-se depressa. Na cozinha, Jorge já tinha o café feito e a rádio ligada baixo no noticiário local. Não perguntou por que é que ela se tinha demorado. Há meses que Jorge não perguntava nada que pudesse ter resposta comprida. — Hoje passo pelo lar antes da loja — disse ela. Ele acenou com a cabeça sem levantar os olhos do jornal, e Teresa sentiu, como sentia quase todas as manhãs, um alívio pequeno e vergonhoso por ele não ter perguntado mais nada. A loja ficava por cima de uma mercearia, duas divisões com pouca luz e uma máquina Singer que tinha sido da mãe dela. Teresa herdara o ofício antes de o escolher: aos catorze anos já fazia bainhas de calças para os vizinhos, aos vinte fazia fatos de casamento completos, com forro e tudo. Naquela manhã tinha uma noiva marcada para as nove e meia, uma rapariga de vinte e poucos anos, magra, nervosa, que já tinha vindo três vezes provar o mesmo vestido e continuava a achar que alguma coisa estava mal, sem saber dizer o quê. — Ainda está apertado aqui — disse a rapariga, virando-se de lado ao espelho, a mão a apontar para as costas onde não havia nada a apertar. Teresa ajoelhou-se e passou os dedos pela costura, sentindo onde o tecido puxava de facto e onde não puxava nada. Alfinetou um centímetro de cada lado, devagar, com a boca cheia de alfinetes, para a rapariga se ir embora tranquila, e pensou, sem querer, em como era fácil corrigir um vestido e impossível corrigir um corpo. — Fica pronto sexta — disse, tirando os alfinetes da boca um a um e espetando-os de novo na almofadinha. Às onze fechou a loja com um cartão na porta, Volto às 14h, e conduziu os vinte minutos até ao lar. Aníbal estava sentado junto à janela, num cadeirão que uma auxiliar empurrava até ali todas as manhãs para ele ver o pátio. Desde o AVC, catorze meses antes, o lado direito do corpo tornara-se uma coisa que ele carregava mais do que usava. Falava pouco, três ou quatro palavras de cada vez, e nem sempre as certas, mas os olhos seguiam tudo, e isso, para Teresa, era pior do que se ele tivesse deixado de ver de todo. Na mesa de cabeceira, ao lado do copo com a palhinha dobrável, estava uma fotografia pequena, já amarelada, dele fardado, novo, em frente a uma composição da CP em que fora revisor durante trinta e dois anos. Ninguém no lar sabia o que era aquele uniforme. Teresa tinha posto lá a fotografia no primeiro dia e nunca mais falara nisso com ele, nem ele com ela. — Pai — disse, e sentou-se ao lado dele. Ele virou a cabeça devagar. Saiu-lhe da garganta um som, nem palavra nem suspiro, o som que fazia sempre que a reconhecia. Teresa pegou-lhe na mão esquerda, a boa, e ficou ali um bocado sem dizer nada, porque já tinha aprendido que preencher o silêncio com frases era mais para ela do que para ele. Depois foi buscar o alicate de unhas à mala e cortou-lhe as unhas uma a uma, soprando o pó que caía, como fazia de duas em duas semanas desde que ele deixara de conseguir fazê-lo sozinho. Era um gesto sem urgência nenhuma. Podia ter esperado mais uma semana. Não esperou. A enfermeira, Sílvia, entrou com o tabuleiro do almoço e ficou a vê-la um instante antes de pousar a bandeja. — Dona Teresa, desculpe esta minha preocupação, mas a senhora está com um ar cansado e que não tinha na semana passada. Já dorme alguma coisa? — Durmo o suficiente. — Devia ir ao médico fazer uns exames, nem que seja só isso. As pessoas cuidam de toda a gente menos de si. Teresa sorriu o sorriso que já tinha pronto para estas ocasiões e perguntou se o pai tinha comido bem ao pequeno-almoço. Sílvia disse que sim e saiu, e Teresa ficou ali mais dez minutos a dar-lhe a sopa às colheradas, inclinando-lhe a cabeça com uma mão para que não se engasgasse, limpando-lhe o queixo com o guardanapo de pano que trazia de casa porque os do lar eram de papel e desfaziam-se. No bolso do casaco, o telemóvel vibrou duas vezes. Era o centro de saúde. Desligou o som sem olhar para o ecrã e continuou a dar a sopa. Ricardo ligou de Londres nessa noite, como fazia aos domingos, à hora do jantar. Perguntou pelo avô, e Teresa disse que estava na mesma, o que já não era bem verdade havia semanas mas era a frase que usava desde sempre para não ter de explicar graus. Perguntou também como é que ela estava, e Teresa disse que estava bem, cansada mas bem, e mudou de assunto: o trabalho dele, o frio de lá, se já tinha comprado um casaco decente. Desligou antes de o filho poder voltar à primeira pergunta. Depois do jantar, o telefone de casa tocou enquanto Jorge via televisão na sala. — Fala da parte da doutora Meireles, é só para confirmar a consulta de amanhã de manhã. A senhora tinha faltado à primeira marcação. — Vou ter de remarcar outra vez — disse Teresa, baixinho, a mão a tapar o auscultador embora não houvesse ninguém por perto. — Tenho uma coisa com o meu pai. A rapariga do outro lado disse que não havia problema e perguntou se queria já ficar com outro dia marcado. Teresa disse que ligava ela. Voltou à sala. Jorge tinha adormecido no sofá, a boca ligeiramente aberta, o comando ainda preso na mão. Ela ficou a olhar para ele um bocado, para o peito a subir e a descer, para a maneira como um homem de sessenta anos ainda conseguia dormir sem peso nenhum na cara, e por um segundo teve vontade de o acordar e de lhe dizer. Dormiam em quartos separados desde que a mãe de Teresa morrera, sete anos antes. Teresa cuidara da mãe em casa até ao fim. Nunca tinham falado sobre isso. Pegou no cobertor da arca e estendeu-lho por cima das pernas, e foi deitar-se sozinha. Graça chegou de Lisboa no sábado seguinte, sem avisar com mais do que um telefonema na véspera. Trouxe uma mala pequena e um ar de quem já tinha decidido ficar só uma noite antes de sair de casa. Foram as duas ao lar depois do almoço. No caminho, no carro, Graça falou da filha, do trânsito na A1, de um colega de trabalho que se tinha reformado antecipadamente. Só ficou calada quando entraram no quarto e viram o pai, mais magro do que da última vez que o tinha visto, os pulsos finos por cima do lençol. — Ninguém me disse que ele tinha piorado assim — disse, já no corredor, depois de saírem. — Piora todas as semanas, Graça. Achas que eu não te ligo porque me esqueço? — Não disse isso. — Tu vives a três horas. Eu venho cá todos os dias, ao almoço, e às vezes à noite outra vez. Achas que tenho tempo para andar a fazer boletins semanais para quem não vem? Ficaram as duas em silêncio junto às máquinas de café do átrio. Uma auxiliar passou a empurrar um carrinho de roupa lavada. — Estás com mau aspeto, Teresa — disse Graça, por fim, mais baixo. — A sério, não é maldade. Estás magra de um jeito estranho. Teresa sentiu o caroço, por baixo do casaco, como uma moeda quente contra as costelas. Por um segundo achou que ia dizer. Já tinha a primeira frase pronta: encontrei uma coisa. Graça estava ali, à espera. — É o cansaço — disse. — Toda a gente com um pai num lar tem mau aspeto, Graça. Vai perguntar às outras senhoras da sala de espera. Graça não insistiu. Ajeitou o casaco e disse que ia à casa de banho antes de voltarem para junto do pai. O telefonema veio às três e meia da manhã de terça-feira, duas semanas depois. Era Sílvia, com a voz de quem já tinha feito aquela chamada antes e sabia não alongar o preâmbulo. — Dona Teresa, é melhor vir. O seu pai está a piorar muito depressa. Não chegou a tempo. Quando entrou no quarto, às quatro e vinte, uma auxiliar mais nova estava a tapar o espelho da casa de banho com uma toalha, e Sílvia estava sentada na cadeira junto à cama, à espera, com as mãos no colo. — Foi tranquilo — disse. — Não sofreu. Teresa aproximou-se da cama. A cara do pai estava virada para a janela, como sempre preferira, e a mão esquerda, a boa, pousada por cima do lençol, a aliança agora demasiado larga a rodar-lhe no dedo a cada movimento que Teresa lhe dava sem querer, ajeitando o lençol, endireitando o colarinho da camisa do pijama que a auxiliar já lhe tinha vestido. Pegou-lhe na mão e ficou ali sem chorar, sem saber ao certo se era vergonha ou apenas cansaço. Ligou a Graça às cinco menos um quarto. A irmã disse que vinha já, que apanhava o primeiro comboio. O funeral foi na quinta-feira, numa manhã de vento que fazia bater a porta da igreja entre as orações e trazia folhas de plátano para dentro do adro, coladas ao chão molhado pelos sapatos de quem entrava. Depois, em casa, Graça ficou mais dois dias a tratar de papéis com Teresa: a conta do lar, a certidão, uma caixa de fotografias que nenhuma das duas sabia bem onde arrumar. Trabalharam lado a lado na mesa da cozinha sem falar muito. A meio da caixa, Graça tirou uma fotografia da mãe, dos últimos meses, magríssima numa cadeira de rodas no jardim da casa antiga, e ficou a olhar para ela mais tempo do que para as outras. — Tu fizeste isto sozinha — disse, sem levantar os olhos da fotografia. — Com ela. Eu estava grávida da Inês e vinha um fim de semana por mês. — Fiz. — Nunca me disseste que era difícil. — Não valia a pena — disse Teresa, e esticou o braço para pegar noutra fotografia. Graça pousou a mão em cima da mão de Teresa, sem dizer mais nada, e Teresa deixou-a ficar ali um bocado antes de a puxar de volta para o monte de papéis. Na noite antes de a irmã voltar para Lisboa, Teresa entrou na casa de banho e fechou a porta com o pé. Enfiou a mão por dentro da camisola. O caroço continuava lá, do mesmo tamanho. Ficou a olhar para o próprio reflexo. Depois foi buscar a mala à entrada, tirou de dentro o cartão amarrotado com o número do centro de saúde e pousou-o em cima da mesa da cozinha, virado para cima, onde Jorge o havia de ver de manhã ao passar com o café. Não lhe telefonou nessa noite. Foi deitar-se. #AtlanticLisbon #Ficcao #Conto #Cuidadores #SaudeDaMulher #RelacoesFamiliares

bottom of page