O fármaco que prolonga vidas. Portugal vai adquiri-lo a tempo?
Na quarta-feira, a agência norte-americana do medicamento aprovou o primeiro fármaco dirigido especificamente à proteína RAS para tratar o cancro do pâncreas metastático. Chama-se Rasonque, é fabricado pela Revolution Medicines e resulta de mais de uma década de trabalho sobre um alvo que a farmacologia considerou, durante muito tempo, praticamente impossível de atacar.
Num ensaio de fase 3 com 500 doentes com adenocarcinoma pancreático metastático que já tinham recebido tratamento, a sobrevivência mediana foi de 13,2 meses entre os que receberam o medicamento e de 6,7 meses entre os que receberam apenas quimioterapia. Segundo a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA), estes resultados correspondem a uma redução de 60% no risco de morte.
O adenocarcinoma é a forma mais comum de cancro do pâncreas. Só nos Estados Unidos, são diagnosticados todos os anos cerca de 67.500 novos casos da doença. O Rasonque é tomado por via oral, num comprimido diário de 300 miligramas. Os efeitos secundários mais comuns incluem erupções cutâneas, diarreia, náuseas e fadiga. Nos ensaios clínicos, 86% dos doentes tiveram problemas de pele, considerados graves em cerca de uma décima parte dos casos.
A proteína RAS está mutada na maioria dos tumores do pâncreas, mas resistiu durante décadas às tentativas de a bloquear: a superfície não oferece um ponto óbvio onde uma molécula se possa fixar. Os poucos inibidores de RAS anteriormente aprovados, da Amgen e da Bristol Myers Squibb, atuam apenas sobre uma mutação específica e apenas quando a proteína se encontra inativa. O Rasonque foi concebido para bloquear várias formas da proteína mesmo no estado ativo e pode ser usado independentemente de ter ou não sido identificada uma mutação no doente.
Desde maio, antes da aprovação formal, a Revolution Medicines já o distribuía através de um programa de acesso alargado autorizado pela FDA. O programa chegou a mais de 2.000 pessoas em centros oncológicos e clínicas comunitárias.
Sete meses antes da aprovação, o medicamento esteve no centro de uma tentativa falhada de comprar a própria empresa que o desenvolveu. Em janeiro, o Wall Street Journal noticiou que a AbbVie estava em conversações avançadas para adquirir a Revolution Medicines. A AbbVie negou, em comunicado à Reuters, estar em qualquer negociação com a empresa. Dias depois, o Financial Times e o próprio Wall Street Journal noticiaram que era a Merck, e não a AbbVie, quem negociava a compra, por um valor entre 28 e 32 mil milhões de dólares.
A Revolution Medicines, que valia pouco mais de 15 mil milhões de dólares antes destas notícias, viu as suas ações subirem mais de 30% em poucos dias, chegando a um valor de mercado superior a 20 mil milhões. No final de janeiro, porém, o Wall Street Journal noticiou que a Merck tinha travado as conversações, sem que as duas partes conseguissem chegar a acordo sobre o preço. O presidente executivo da Revolution Medicines, Mark Goldsmith, recusou sempre confirmar ou desmentir qualquer negociação, invocando uma política de não comentar rumores.
Em abril, a empresa fechou uma oferta de ações e obrigações convertíveis que lhe trouxe mais de 2.200 milhões de dólares. A Erasca, um rival direto que desenvolve outro medicamento dirigido à mesma proteína RAS, perdeu mais de 40% do seu valor em bolsa depois de revelar que um doente de 66 anos, participante no seu ensaio clínico, tinha morrido após desenvolver uma inflamação pulmonar grave. A Revolution Medicines alegou ainda, numa carta formal, que o medicamento da concorrente infringia as suas patentes.
Em maio, a Revolution Medicines recebeu 250 milhões de dólares da Royalty Pharma em troca de direitos sobre futuras royalties. Em julho, a Agência Europeia de Medicamentos aceitou acelerar a avaliação do Rasonque, e a FDA aceitou o pedido de aprovação para revisão prioritária.
A 11 de agosto, as ações da Revolution Medicines fecharam acima de 205 dólares, dando à empresa um valor de mercado superior a 44 mil milhões de dólares. Era mais do dobro do que valia antes da especulação de janeiro e ultrapassava largamente o valor que a Merck chegou a oferecer. As ações voltaram a atingir um máximo histórico a 18 de agosto e continuaram a subir. Entre os investidores conhecidos da empresa está o gestor de fundos Stanley Druckenmiller, que reforçou a sua posição em mais de 26% no segundo trimestre do ano, segundo documentos entregues às autoridades reguladoras.
A Revolution Medicines fixou o preço de tabela do Rasonque em 39.800 dólares por mês, cerca de 478.000 dólares por um ano completo de tratamento. A empresa afirma que, para a generalidade dos doentes nos Estados Unidos, a maior parte do custo será coberta por seguro. O litígio de patentes com a Erasca continua por resolver.
Ainda este mês, os analistas voltaram a apontar a Revolution Medicines como um possível alvo de aquisição, embora o preço de entrada seja hoje muito superior ao de janeiro.





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