Ben Sasse entre Trump e o cancro do pâncreas
- Alberto Carvalho

- há 16 horas
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Às 15h39 de 13 de fevereiro de 2021, o Senado dos Estados Unidos concluiu o segundo julgamento político de Donald Trump. Foram 57 votos pela condenação por incitamento à insurreição e 43 pela absolvição. Como era necessária uma maioria de dois terços, o antigo presidente foi absolvido. Ben Sasse, senador republicano pelo Nebraska, votou pela condenação.
Sasse manteve-se no Partido Republicano e continuou a defender as posições conservadoras. Perante o ataque ao Capitólio de 6 de janeiro, recusou subordinar o voto à disciplina partidária. Foi um dos episódios mais conhecidos dos seus oito anos no Senado, embora a relação que manteve com Trump tenha sido menos linear.

Eleito em 2014, Sasse tomou posse em janeiro de 2015, foi reeleito em 2020 e deixou o cargo em janeiro de 2023. Defendia o governo limitado, uma leitura exigente da autoridade constitucional, posições sociais conservadoras e firmeza na política externa. Integrava a direita republicana.
Sasse apoiou grande parte da agenda legislativa do partido durante a presidência de Trump. A divergência entre os dois não correspondia à habitual separação entre moderados e conservadores. Questionava a subordinação das regras e das instituições às conveniências pessoais do presidente, mas votava favoravelmente quando concordava com as políticas da Casa Branca.
Não adotou o programa dos adversários de Trump nem procurou construir uma identidade bipartidária. Apoiou as medidas fiscais e nomeações judiciais defendidas pela Administração enquanto contestava a conduta do presidente. O conflito incidia sobretudo sobre o exercício do cargo e os limites que, na sua leitura, um dirigente republicano continuava obrigado a respeitar.
Em 2016, Trump ainda disputava a nomeação republicana quando Sasse anunciou que não o apoiaria. Criticava a relação do candidato com a Constituição, a forma como tratava os adversários e uma política cada vez mais concentrada na figura do líder.
A posição deu-lhe projeção nacional, sem o transformar num republicano centrista. A crítica vinha de dentro do conservadorismo e pretendia separar a doutrina do movimento criado em redor de Trump. Durante a presidência, Trump consolidou o controlo sobre o partido.
Sasse continuou a intervir contra o presidente em assuntos que considerava incompatíveis com a tradição republicana. Criticou a proximidade de Trump com dirigentes autoritários e o tom das suas publicações nas redes sociais. As divergências raramente produziram uma rutura nas votações sobre a agenda conservadora, razão pela qual os seus críticos consideravam a oposição sobretudo retórica.
As divergências públicas com Trump expunham os eleitos republicanos a acusações de deslealdade. Sasse apoiava as medidas que considerava conservadoras e denunciava condutas que julgava impróprias do cargo. Para os adversários de Trump, era uma dissidência insuficiente; os apoiantes do presidente não lhe perdoavam as críticas. Em 2020, Sasse votou pela absolvição de Trump no primeiro processo de destituição.
No mesmo ano, voltou a apresentar-se aos eleitores do Nebraska e foi reeleito. As críticas a Trump não o tinham tornado eleitoralmente inviável num estado republicano. O segundo mandato começou quando o apoio ao presidente ganhava peso na definição de quem pertencia ao espaço político do partido.
A reeleição ocorreu antes do conflito face ao resultado presidencial. Sasse apresentara-se novamente como conservador e obtivera dos eleitores mais seis anos no Senado; a oposição a Trump não correspondia a uma mudança de programa. Quando reconheceu a vitória de Biden, fê-lo a partir da mesma posição republicana com que concorrera. Era isso que tornava o confronto incómodo para o partido: não podia ser explicado por uma aproximação aos democratas.
Até às eleições de 2020, Sasse criticava publicamente Trump e, em muitas votações, acompanhava a maioria republicana. A tentativa de reverter a vitória de Biden alterou o objeto da divergência. Estava agora em causa a validade de votos certificados pelos estados, não uma medida da Administração que o senador pudesse aprovar ou rejeitar.
Depois das eleições presidenciais de novembro de 2020, a divergência deixou de incidir apenas sobre comportamentos, linguagem ou decisões governativas. Joe Biden venceu, e Trump procurou desacreditar o resultado com alegações de fraude que não sustentou de modo credível. Sasse reconheceu a vitória de Biden e criticou os colegas republicanos que pretendiam contestar no Congresso os votos do Colégio Eleitoral.
Uma das críticas foi dirigida ao senador Josh Hawley, do Missouri, que anunciara a intenção de se opor à certificação. Sasse considerava que o Congresso não podia substituir os resultados apurados pelos estados porque o candidato derrotado recusava aceitá-los.
O ataque de 6 de janeiro ocorreu enquanto o Congresso certificava o resultado. A entrada forçada de apoiantes de Trump no Capitólio interrompeu os trabalhos, obrigou à retirada de legisladores e levou a confrontos com os agentes policiais.
Sasse responsabilizou politicamente Trump e alargou a crítica à direção do Partido Republicano. Num ensaio publicado na revista The Atlantic, escreveu que alguns dirigentes tinham tolerado teorias da conspiração para conservar o apoio de quem acreditava nelas, na expectativa de obter vantagem eleitoral sem responder pelas consequências.
No argumento de Sasse, Trump beneficiara de um ambiente partidário no qual candidatos, consultores, meios de comunicação e titulares de cargos eletivos evitavam contrariar alegações populares com receio de perder votos, financiamento ou atenção mediática.
A certificação do Colégio Eleitoral obrigou os senadores a assumir uma posição formal. Já não bastava classificar as declarações do presidente como exageros ou provocações. Tinham de aceitar os votos certificados pelos estados ou tentar rejeitá-los sem provas capazes de alterar o resultado. Sasse votou pela certificação.
O Congresso reunia-se para contar votos que os estados já tinham certificado. A objeção anunciada por Hawley e apoiada por outros republicanos não apresentava elementos que permitissem inverter a vitória de Biden. Sasse podia continuar a discordar dos democratas sobre impostos, tribunais ou política externa; nenhuma dessas divergências lhe dava fundamento para tratar o resultado eleitoral como inválido. Depois da invasão do Capitólio, essa mesma questão passou para o julgamento político de Trump.
Depois do ataque, a Câmara dos Representantes acusou Trump de incitamento à insurreição. A contagem oficial do Senado registou sete republicanos entre os 57 votos pela condenação. Sasse estava nesse grupo.
Os sete votos republicanos não chegaram para atingir a maioria de dois terços, embora tenham impedido uma divisão inteiramente partidária. Sasse votara pela absolvição no primeiro julgamento, por considerar que a remoção de Trump não se justificava. No segundo, entendeu que a atuação ligada ao 6 de janeiro merecia condenação.
Quase todo o seu programa político continuava a separá-lo dos democratas. O voto de fevereiro de 2021 não apagou esse percurso nem o converteu num adversário ideológico de Trump. Significou que, perante a tentativa de impedir a certificação eleitoral e a violência no Capitólio, Sasse não aceitou proteger o líder do partido através da absolvição.
Organizações republicanas no Nebraska censuraram-no ou procuraram fazê-lo, e muitos apoiantes de Trump passaram a tratá-lo como traidor.
Sasse continuou a criticar a aproximação do partido às teorias da conspiração, sem formar uma corrente capaz de alterar a direção republicana. As críticas públicas raramente impediram o funcionamento da Administração ou a aprovação da respetiva agenda. Durante boa parte do mandato, condenou a conduta de Trump e votou com ele. Rompeu na votação sobre a responsabilidade de Trump pelo 6 de janeiro.
Sasse deixou o Senado em 2023, quando os republicanos já se tinham aproximado novamente de Trump. O voto de 13 de fevereiro permaneceu no registo oficial entre os sete votos republicanos pela condenação.
Um diagnóstico e uma resposta fora da média
Em 23 de dezembro de 2025, Sasse anunciou que tinha cancro do pâncreas metastático em estádio IV. Tinha 53 anos e classificou o diagnóstico como terminal. Segundo explicaria mais tarde, os médicos deram-lhe inicialmente uma previsão de três a quatro meses de vida.
No estádio IV, o tumor já se disseminou para além do pâncreas. As informações clínicas divulgadas por Sasse indicam que a doença atingiu vários órgãos, entre eles o fígado e os pulmões. A remoção cirúrgica do tumor primário deixa geralmente de constituir uma opção com intenção curativa quando existem metástases noutros locais.
Sasse entrou num ensaio clínico com daraxonrasib, antes identificado como RMC-6236. O medicamento, administrado por via oral, atua sobre as proteínas RAS em estado ativo. Alterações nesta família de proteínas favorecem o crescimento de muitos tumores e aparecem com especial frequência no adenocarcinoma ductal, a forma mais comum de cancro do pâncreas.
O RAS foi durante décadas um alvo difícil para o desenvolvimento de medicamentos. Participa em sinais essenciais no interior da célula, e as formas alteradas da proteína nem sempre permitem uma ligação eficaz. O daraxonrasib procura bloquear várias formas ativas de RAS e interromper o sinal que favorece a multiplicação das células tumorais.
Sasse recebeu o medicamento como tratamento de primeira linha, num ensaio de fase inicial. Os dados clínicos mais robustos disponíveis dizem respeito a uma situação diferente, a de doentes com cancro metastático já submetidos a tratamento.
Em abril de 2026, Sasse comunicou uma diminuição de 76% no volume dos tumores. Três meses depois, após cerca de seis meses e meio de tratamento, disse que a redução ultrapassava 80%. Referiu ainda uma descida muito acentuada de um marcador tumoral no sangue e um ligeiro crescimento de alguns nódulos pulmonares.
Os números foram fornecidos pelo próprio Sasse. A redução não corresponde a uma remissão e o diagnóstico continua a ser de doença metastática. Também não se sabe durante quanto tempo o efeito poderá manter-se.
Em agosto de 2026, cerca de oito meses depois do diagnóstico, Sasse está vivo e ultrapassou a previsão inicial. O tratamento produziu uma resposta clinicamente relevante, mas até agora não há fundamento para falar em cura ou para considerar ultrapassado o prognóstico associado à doença.
Em abril, foram conhecidos os resultados do ensaio de fase III RASolute 302. O estudo incluiu 500 pessoas com adenocarcinoma ductal do pâncreas metastático que já tinham sido tratadas. Receberam daraxonrasib uma vez por dia ou uma das opções de quimioterapia selecionadas pelos investigadores.
Segundo os resultados publicados no New England Journal of Medicine, a sobrevivência global mediana entre os doentes com mutações RAS G12 foi de 13,2 meses com daraxonrasib e de 6,6 meses com quimioterapia. Durante o período analisado, o risco de morte foi 60% inferior no grupo que recebeu o novo medicamento. Também houve benefício na sobrevivência sem progressão.
A mediana não estabelece um prazo para cada doente. Metade dos participantes viveu mais do que o valor apurado no respetivo grupo e a outra metade viveu menos. Nem todos responderam ao tratamento. Foram observados efeitos adversos, sobretudo cutâneos e gastrointestinais, e alguns participantes tiveram de interromper ou reduzir a dose.
O ensaio de fase III estudou o medicamento depois de tratamentos anteriores. Sasse recebeu-o em primeira linha e num protocolo distinto, pelo que não é possível comparar diretamente o seu caso com a população do RASolute 302.
Em maio, a FDA permitiu a abertura de um programa de acesso alargado para doentes elegíveis com cancro metastático previamente tratado. Em julho, aceitou para avaliação o pedido de autorização apresentado pela Revolution Medicines. A Agência Europeia de Medicamentos iniciou uma avaliação faseada.
Em agosto de 2026, o daraxonrasib continua experimental. Está disponível em ensaios clínicos e, nos Estados Unidos, através do programa de acesso alargado para determinados doentes. As autoridades reguladoras ainda avaliam a eficácia, a segurança, o fabrico e a relação entre benefícios e riscos.
O programa SEER do Instituto Nacional do Cancro dos Estados Unidos estima 67 530 novos diagnósticos e 52 740 mortes em 2026. O cancro do pâncreas representa 3,2% dos novos casos de cancro e 8,4% das mortes por doença oncológica. É a terceira causa de morte por cancro nos Estados Unidos.
Considerando todos os estádios, a sobrevivência relativa a cinco anos é de 13,7%, com base nos diagnósticos efetuados entre 2016 e 2022. Nos tumores localizados, chega a 43,6%. Desce para 17% nos casos regionais e para 3,4% quando existe disseminação à distância, a categoria estatística mais próxima da doença metastática de Sasse.
Em 51% dos casos, já existem metástases à distância no momento do diagnóstico. Apenas 15% dos casos são detetados enquanto o tumor permanece localizado, quando a cirurgia ainda poderá ser considerada. Em muitos doentes, os sinais mais claros surgem depois dessa fase.
A idade de Sasse também foge ao padrão mais frequente. O SEER indica uma mediana de 71 anos no diagnóstico; 6,8% dos novos casos ocorrem entre os 45 e os 54 anos.
Estas estatísticas reúnem pessoas diagnosticadas em anos anteriores, com condições clínicas, características tumorais e respostas ao tratamento diferentes. O próprio SEER alerta que não servem para prever com exatidão a evolução de um doente. A limitação torna-se ainda mais evidente quando há acesso a uma terapêutica que não fazia parte da prática clínica durante o período usado no cálculo.
A resposta de Sasse não altera a taxa de sobrevivência de 3,4% observada na população com doença à distância. Mostra o que aconteceu até agora a uma pessoa tratada com um medicamento experimental. A sua vida prolongou-se. Para saber se o daraxonrasib mudará de forma duradoura o prognóstico de outros doentes, serão necessários mais dados e acompanhamento prolongado e uma adesão de doentes portugueses a estes ensaios.
A deteção tardia está relacionada com a biologia da doença e com a localização do órgão. O pâncreas encontra-se numa zona profunda do abdómen, próximo do estômago, do intestino, do fígado e das vias biliares. Um tumor pode crescer sem causar sintomas percetíveis; quando surgem, estes confundem-se com doenças bastante mais comuns.
O Instituto Nacional do Cancro refere a icterícia, visível no tom amarelado da pele e dos olhos, as fezes claras, a urina escura, a dor na parte superior ou média do abdómen com possível irradiação para as costas, a perda de peso sem explicação, a falta de apetite e o cansaço. Como estes sintomas podem ter muitas outras causas, a presença de um deles não confirma cancro. A persistência ou a combinação dos sinais deve ser avaliada por um médico.
Não há rastreio de rotina recomendado para adultos assintomáticos da população geral. A U.S. Preventive Services Task Force concluiu que os testes disponíveis não demonstraram benefício suficiente e podem originar falsos positivos, exames invasivos e tratamentos desnecessários. Também não existe um biomarcador validado com precisão adequada para a deteção precoce em toda a população.
A recomendação não abrange pessoas com síndromes genéticas hereditárias ou forte incidência familiar, consideradas de risco elevado. Nestes grupos, a vigilância pode ser feita em centros especializados, por vezes com ressonância magnética ou ecoendoscopia. É um acompanhamento dirigido, diferente de um programa universal.
O tabagismo, o excesso de peso, a diabetes e a pancreatite crónica estão associados a risco acrescido. O mesmo sucede com a história familiar de cancro do pâncreas e algumas alterações hereditárias. Entre elas encontram-se síndromes relacionadas com mutações BRCA1 e BRCA2, mais conhecidas pela associação aos cancros da mama e do ovário.
A presença de um destes fatores não permite identificar a causa num doente concreto. Há pessoas expostas que nunca desenvolvem a doença e pessoas diagnosticadas sem risco conhecido. No caso de Sasse, a informação pública não permite associar o cancro a qualquer comportamento, antecedente clínico ou mutação.
O último dado clínico divulgado continua a ser a redução tumoral superior a 80%. Sasse ultrapassou a expectativa inicial de três a quatro meses e permanece em tratamento, com doença metastática.
Tradução automática pelo Google. Em caso de dúvida, prevalece o original em português.



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