top of page

Montenegro quer decidir o tamanho das notícias

Luís Montenegro estava num púlpito partidário quando escolheu a palavra «censura». Não falava de um discurso proibido, de uma notícia retirada ou de jornalistas impedidos de trabalhar. Falava do lugar que as decisões do Governo ocupam nos jornais e nas televisões. Na sua descrição, a comunicação social empurra as «grandes coisas» para «notas de rodapé» e entrega o espaço principal aos incidentes.


O objeto da queixa não era o silêncio. Era a paginação.


Capa editorial vertical do Atlantic Lisbon para uma análise às críticas de Luís Montenegro à comunicação social.
Na Festa do Pontal, Luís Montenegro chamou «censura moderna» ao relevo dado pela comunicação social aos incidentes em detrimento das medidas do Governo.

Esta diferença muda o discurso por completo. O primeiro-ministro não acusou os media de esconderem factos no sentido habitual da palavra. Acusou-os de atribuírem aos factos um tamanho diferente daquele que o Governo lhes atribui. A medida considerada decisiva pelo Executivo aparece abaixo da polémica. O resultado anunciado disputa espaço com a falha que exige explicação. A notícia existe, mas não está onde Montenegro entende que deveria estar.


Foi a essa perda de controlo sobre o relevo da informação que chamou «censura moderna».


A frase foi dita no Pontal, perante uma audiência partidária. Montenegro não estava a apresentar uma reclamação dirigida a um diretor de jornal, nem a pedir a correção de uma falsidade concreta. Falava para pessoas dispostas a ouvi-lo e oferecia-lhes uma explicação para a distância entre o país descrito pelo Governo e o país que encontram quando acompanham as notícias.


Se os resultados governativos não dominam a conversa pública, a culpa estará no filtro. Se uma dificuldade ocupa o primeiro plano, será porque alguém diminuiu aquilo que verdadeiramente conta. O discurso fornece assim uma chave para ler as notícias futuras: quando a cobertura for desfavorável, não resultará apenas de uma escolha editorial discutível; estará a esconder a realidade.


É uma acusação poderosa porque chega ao leitor antes da notícia.


A absolvição vem incluída


Todo o Governo tenta organizar a realidade. Dos números disponíveis, escolhe os que permitem contar uma história de progresso. Uma obra anunciada pode passar a resumir o rumo de um mandato. Quando a mensagem chega ao público, os factos já trazem o lugar que o Executivo lhes reservou.


O jornalismo começa por retirar essa legenda. Perante uma obra anunciada, procura o que foi executado. Uma política apresentada como benefício obriga a saber quem ficou de fora. Por vezes, a verificação confirma a dimensão que o Governo anunciara. Noutras, encontra pouco para lá do comunicado.


Montenegro chama às falhas «pequenas coisas que, porventura, não corram tão bem». A formulação é cómoda porque o caso chega classificado antes de ser examinado. O Governo conserva a dimensão dos seus resultados e reduz o problema à escala de um episódio.


Um caso não nasce pequeno por ser inconveniente. Pode morrer no próprio dia ou conduzir a uma decisão mal explicada, a uma responsabilidade que ninguém quer assumir, a uma falha que se repete longe das câmaras. Só depois de investigado se saberá. Tratá-lo antecipadamente como questões menores é pedir ao jornalismo que aceite a conclusão antes de fazer a pergunta.


As medidas chamadas grandes precisam do mesmo exame. O alcance só começa a perceber-se quando a decisão sai do púlpito, encontra os seus destinatários e deixa ver o problema que ficou por resolver. O tamanho de uma política não vem impresso no comunicado.


Com a fórmula do Pontal, qualquer cobertura pode dar razão a Montenegro. O destaque das falhas confirma, aos olhos dos seus apoiantes, que existe um filtro. Quando as medidas do Governo dominam as notícias, os factos terão finalmente conseguido impor-se. A acusação deixa de precisar de um ato concreto de censura. Basta olhar para a primeira página e discordar do tamanho das letras.


O discurso de Montenegro não era para os jornalistas


Os jornalistas eram o alvo, mas não eram o público mais importante daquela passagem. Montenegro não precisava de os convencer de que trabalham mal. Precisava de preparar os seus ouvintes para desvalorizarem antecipadamente a informação adversa.


Não lhes pediu que deixassem de acreditar nas notícias. Ensinou-os a desconfiar da proporção. Uma investigação pode estar factualmente correta e, ainda assim, ser desvalorizada porque ocupou o espaço que o Governo reservara para as suas medidas. Já não é necessário responder ao conteúdo. Discute-se o incómodo que o provocou.


Para um Executivo sob pressão, este desconto é útil. As dificuldades permanecem, mas perdem autoridade política. As controvérsias entram na série das distrações e a insistência dos jornalistas passa a parecer uma obsessão. Quanto maior for a cobertura, mais fácil será dizer que as realizações voltaram a ser atiradas para a margem.


A expressão «notas de rodapé» revela, por isso, mais do que uma irritação. Montenegro escolheu uma imagem editorial. Há um texto principal, onde deveria estar a obra do Governo, e um espaço inferior para o que não merece interromper a leitura. Na página que imaginou, os jornalistas trocaram tudo. Promoveram o acessório e encolheram o essencial.


Falta decidir quem tem o direito de paginar.


Se esse direito pertencer ao Governo, a independência editorial torna-se decorativa. Os jornalistas continuam livres para escrever, mas dentro da escala fornecida pelo poder: a falha pode ser investigada, contanto que não cresça o suficiente para perturbar o anúncio.


Montenegro não formulou esta exigência. Apresentou-a como senso comum: o país devia falar mais do que corre bem e menos do que corre mal. Parece um pedido de equilíbrio. Na prática, entrega ao Governo a definição prévia do que merece ser grande.


A crítica que ficou por provar


Há razões sérias para criticar a comunicação social. O conflito rápido vence demasiadas vezes a explicação demorada. Uma frase áspera circula melhor do que a execução gradual de uma política. Há assuntos acompanhados durante horas e abandonados antes de produzirem qualquer resposta. Esse modo de cobrir a realidade deforma o país que pretende mostrar.


Montenegro podia ter entrado por aí. Bastava identificar uma medida ignorada e demonstrar que o seu alcance justificava outro tratamento. Teria então um caso concreto ao qual os media precisariam de responder.


Não o fez. A acusação ficou sem objeto verificável. Não indicou uma informação omitida nem explicou como mediu o desequilíbrio. «Censura moderna» entrou no discurso como conclusão de um processo que nunca foi apresentado.


Também o Governo participa no sistema de que se queixa. Não espera passivamente que os jornalistas descubram as suas medidas. Tem assessores, canais institucionais e acesso permanente ao espaço público. Decide quando anuncia e com que enquadramento. Pode falar diretamente aos cidadãos sem enfrentar uma pergunta que altere o assunto preparado.


Nada disso é ilegítimo. Torna-se problemático quando o poder controla a mensagem nos seus próprios canais e acusa os intermediários de censura por fazerem aquilo que a comunicação oficial evita: escolher outra pergunta.


O escrutínio começa precisamente aí. Um jornalista obriga o Governo a sair do tema que escolheu e a responder pelo facto que deixou fora da apresentação. Se apenas for considerada justa a cobertura que preserva a ordem do discurso oficial, essas perguntas continuam a existir, mas já chegam ao público sob suspeita.


Da maledicência à capa


Montenegro pediu menos «maledicência» e criticou quem trata como um «frete» o reconhecimento do que o Governo faz bem. Aqui, o conflito deixa de ser apenas editorial.


«Maledicência» não identifica um erro nem a omissão de contexto. A palavra atribui aos jornalistas uma vontade de falar mal. O trabalho deixa de ser avaliado; a intenção passa a estar sob suspeita.


Uma acusação sobre o método jornalístico pode ser testada. A suspeita de que os jornalistas pretendem diminuir o Governo ou o país não oferece essa possibilidade. Qualquer notícia incómoda pode tornar-se mais um sintoma da hostilidade atribuída a quem a publicou.


É neste ponto que os resultados económicos começam a carregar um significado nacional. As medidas apresentadas pelo Executivo deixam de ser apenas matéria sujeita a confirmação e tornam-se sinais de confiança em Portugal. A crítica não é declarada antipatriótica. Fica, porém, suficientemente perto dessa ideia para que a suspeita faça o resto.


Esta linguagem não censura os jornalistas. Afirmá-lo seria repetir o abuso da palavra que se critica. Prepara uma audiência para avaliar a notícia não pela prova que contém, mas pelo lugar que ocupa numa narrativa de hostilidade. O facto já não chega sozinho. A desconfiança está à espera dele.


O primeiro-ministro tem razão quando diz que uma sociedade alimentada apenas por escândalo perde a capacidade de reconhecer mudanças reais. Quando o jornalismo abandona um assunto antes de verificar o resultado, o retrato do país fica preso à primeira crise. Mas essa falha não transfere para o Governo a escolha da capa.


Para tornar verificável a sua crítica, Montenegro teria de identificar a realização diminuída e demonstrar a desproporção. Foi esse passo que ficou por dar.


«Censura moderna» permite dispensá-lo. Retira a acusação do terreno da prova e instala-a no da perceção. A discordância do primeiro-ministro sobre a ordem dos assuntos passa a ser suficiente.


Foi isso que aconteceu no Pontal. Montenegro não reclamou apenas o direito de explicar a obra do Governo. Reclamou autoridade para definir a proporção entre essa obra e as falhas com que os outros a confrontam. Quer governar e conservar uma palavra sobre a edição da página onde será julgado.


Escolheu a imagem da nota de rodapé. É provável que volte a servir-lhe. Sempre que um problema subir ao título, poderá apontar para baixo e lembrar a realização que, segundo ele, ficou esquecida. Não para mostrar o que foi censurado, mas o que o Governo desejava ver em letras maiores.


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page