O que a ressonância já sabe sobre o pâncreas
- Zé das Verdades Meias

- 20 de jul.
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A imagem por tensor de difusão foi desenhada para olhar para o cérebro — para seguir a água a mover-se ao longo dos feixes de substância branca que ligam um pensamento a outro. Carlos Bilreiro, radiologista no Centro Clínico Champalimaud, teve a ideia de a apontar, pela primeira vez, a um órgão que não pensa: o pâncreas.
O que a ressonância já sabe
O pâncreas avisa tarde. Os sintomas do seu cancro não são específicos e confundem-se com os de outras doenças; quando aparecem, a doença está muitas vezes já avançada e inoperável. A diferença entre apanhá-la cedo e apanhá-la tarde é radical: a sobrevivência a cinco anos ronda os 44% quando o tumor ainda está localizado, e cai para cerca de 3% quando já há metástases.
A maior parte dos cancros do pâncreas — a esmagadora maioria é adenocarcinomas ductais pancreáticos — nasce de uma lesão anterior, a neoplasia intraepitelial pancreática, ou PanIN. É uma alteração microscópica no tecido, muitas vezes silenciosa, que precede o cancro sem ser ainda cancro. Não havia, até agora, forma não invasiva de a detetar. A Champalimaud recebeu, em 2023, um financiamento de 50 milhões de euros para investigar o cancro do pâncreas ao longo de dez anos. Este estudo faz parte desse esforço.
Bilreiro e Noam Shemesh, investigador principal do laboratório de Ressonância Magnética Pré-clínica da Champalimaud Research, publicaram na revista Investigative Radiology, o primeiro método capaz de a detetar. A difusão da água, medida pela DTI, distingue o tecido com PanIN do tecido com quistos simples e benignos. "Há provavelmente PanIN escondidos nestes pixéis", resume Shemesh. É a mesma abordagem usada para mapear o cérebro, agora virada para um órgão que a medicina raramente consegue ver com este pormenor.
Testaram o método em amostras de tecido pancreático humano e em ratinhos transgénicos propensos a desenvolver estas lesões. Depois, em amostras de doentes já recolhidas, confirmaram que os resultados "se generalizam aos humanos".
Por agora, é possível ver a lesão sem que exista ainda alguém a quem seja preciso contá-la. Os próprios autores dizem que a técnica precisa de mais estudos antes de chegar à prática clínica — antes de alguém decidir o que fazer a quem tiver uma PanIN detetada por ressonância.
Quando isso acontecer, vai existir uma categoria nova de pessoa. Uma PanIN não é uma doença, mas é mais do que nada — e a medicina ainda não decidiu como lhe chamar quando alguém a tiver, nem o que fazer a seguir. Nesse território, alguém passaria a viver, talvez durante anos, sem nunca saber se aquilo que tem vai ficar parado ou vai começar a avançar.
Os autores já falam em explorar "possibilidades interventivas ou de vigilância" para essa pessoa: vão ter de decidir entre vigiar, durante anos, uma coisa que pode nunca se tornar cancro, ou intervir numa coisa que ainda não é cancro. Essa decisão ainda não foi tomada — os estudos que a preparam ainda estão para vir.




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