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Fundação de Portugal: o mito dos 900 anos

há 2 dias
2 min de leitura

Em 1128, um filho pegou em armas contra a própria mãe. Chamava-se Afonso Henriques, tinha menos de vinte anos e enfrentou-a num campo perto de Guimarães chamado São Mamede, à frente de nobres do Minho descontentes com o poder que D. Teresa vinha a partilhar, havia anos, com o conde galego Fernão Peres de Trava, seu companheiro. D. Teresa perdeu a batalha e, pouco depois, o controlo do condado. O filho passou a governar sozinho um território que ainda não era Portugal. Séculos de historiografia nacionalista foram limpando o episódio até fazer dele uma história de coragem fundadora, afastada da disputa familiar e senhorial que esteve na sua origem.


Por resolução do Conselho de Ministros de 17 de julho, o Governo criou um comissariado para as comemorações dos 900 anos da fundação de Portugal, tomando 1128, presume-se, como ponto de partida. Paulo Portas foi escolhido para o dirigir. Foi jornalista, político e é hoje comentador. Não é historiador.


A fundação de Portugal começou numa disputa pelo poder

Capa Atlantic Lisbon com o Castelo de Guimarães e o título “Fundação de Portugal: o mito dos 900 anos”.
O Castelo de Guimarães permanece ligado à narrativa da fundação de Portugal, cujo marco político é situado nas disputas de 1128. Fotografia: Wendell Adriel L.S. / Unsplash.

André Evangelista Marques chamou a atenção para outro dado, num artigo de opinião publicado este fim de semana no Público. O conselho geral que apoiará o comissariado tem catorze membros. Apenas cinco representam instituições científicas ou académicas e estão sobretudo ligados ao Minho. Ficaram de fora universidades e centros de investigação que, nas últimas décadas, estudaram este período e discutiram a própria possibilidade de fixar num ano o nascimento de Portugal.


As comemorações terão estátuas, exposições, cerimónias e uma identidade gráfica. D. Afonso Henriques presta-se bem a esse programa: um vencedor jovem, uma batalha e uma data. D. Teresa cria mais dificuldades. Governou, negociou fronteiras, reuniu apoios e dispôs de forças próprias. Não aparece apenas como mãe do futuro rei, embora seja esse o lugar secundário que a narrativa tradicional costuma reservar-lhe. Em São Mamede foi derrotada por um filho apoiado por parte da nobreza portucalense, numa luta em que também intervinham interesses galegos e rivalidades entre famílias.


Uma celebração pública pode reduzir tudo isto ao momento em que um herói afasta um obstáculo e começa a construir o país. A composição do conselho geral torna essa possibilidade menos remota, sobretudo pela presença limitada de investigadores especializados no período.


A escolha de Paulo Portas acrescenta um elemento difícil de ignorar. A sua carreira passou pelo jornalismo, pela direção partidária, por vários governos e pelo comentário político. Em cada etapa, soube reorganizar a sua posição pública e adaptar o discurso às circunstâncias. Caber-lhe-á agora coordenar uma narrativa sobre um passado que também foi reorganizado muitas vezes, conforme as necessidades políticas de cada época.


Faltam dois anos para o início efetivo das comemorações. O programa ainda pode incluir a investigação que ficou pouco representada na composição inicial e dar espaço às divergências sobre 1128, sobre D. Teresa e sobre o poder que Afonso Henriques conquistou antes de Portugal existir como reino. Se optar por uma origem mais simples, terá de deixar quase tudo isso fora.



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