Liechtenstein anuncia igualdade. Família prefere república.
Reforma da sucessão divide a família do Liechtenstein
A 15 de agosto, o príncipe herdeiro Alois abriu a sucessão ao trono às mulheres e chamou-lhe progresso. Semanas depois, soube-se que parte da sua própria família estava a preparar um processo contra ele.
No dia nacional do Liechtenstein, Alois subiu ao palco e anunciou que o trono passaria a caber ao primogénito, fosse homem ou mulher. Apresentou a decisão como parte da capacidade histórica da casa para conciliar continuidade e renovação. A reforma foi recebida como mais um passo de uma monarquia europeia para abandonar a preferência masculina na sucessão. Entre as monarquias hereditárias do continente, restava o Mónaco.
Na mesma votação, os membros da família aprovaram alterações que reduziram os mecanismos de controlo sobre as decisões de Alois e alargaram os seus poderes em matéria de títulos, brasões e pertença à dinastia.
Ser reconhecido como membro da casa determina também o acesso às rendas da fortuna familiar. Uma parte substancial dessa riqueza é administrada através do LGT, o banco privado da família, presidido pelo irmão de Alois. Em 2025, o banco distribuiu à família cerca de 878 milhões de dólares.
Vários príncipes consideram que a reforma permitiu a Alois reforçar a autoridade sobre os restantes membros da casa. Segundo os dissidentes, a contestação procura assegurar igualdade de direitos no interior da família. O processo contra as alterações estaria a ser preparado havia meses e contaria com o apoio de outros familiares.
Entretanto, revelações recentes dos ficheiros Epstein indicaram que o LGT empregara uma jovem próxima do financeiro norte-americano e que ela mantivera contacto com Jeffrey Epstein enquanto trabalhava no banco. A informação tornou-se pública quando Alois procurava obter da família apoio para as alterações ao Direito da Casa.
Quase um terço dos cinquenta príncipes com direito de voto opôs-se à reforma, segundo uma carta interna do Castelo de Vaduz. Alguns dos opositores sustentam que o número de descontentes era superior ao registado oficialmente.
Liechtenstein anunciou igualdade. Uma fação da família prefere a república.
Pela primeira vez em três séculos de tradição, a votação decorreu por correspondência. Os advogados dos dissidentes entendem que a reforma poderá ser juridicamente nula se não ficar demonstrado que a maioria qualificada de dois terços foi validamente alcançada. Como não existe uma via clara de recurso através do Tribunal Constitucional, admitem levar a questão aos tribunais civis do país.
Nenhum tribunal analisou até hoje o estatuto jurídico do Direito da Casa. Também não existe precedente para uma disputa judicial desta natureza no interior da família principesca.
Em junho, Alois anunciara que vetaria a legalização do aborto até às doze semanas de gravidez, mesmo que a proposta fosse aprovada pelos liechtensteinianos em referendo. Alguns dos familiares que agora contestam a reforma viram nessa declaração a disposição do príncipe para impor as suas convicções católicas ao país. A Casa Principesca respondeu que a decisão sobre a matéria pertence exclusivamente a Alois enquanto chefe de Estado em exercício.
O Direito da Casa encontra-se fora da Constituição do Liechtenstein, mas determina quem pode herdar a chefia de Estado. O titular do cargo dispõe de poderes para vetar leis, destituir governos e dissolver o parlamento. Há mais de duas décadas, um organismo de peritos jurídicos do Conselho da Europa qualificou como «simplesmente espantoso» o enquadramento constitucional desses poderes.
A reforma de agosto abriu a sucessão às mulheres e alterou, na mesma votação, a distribuição de autoridade dentro da dinastia. Os familiares que contestam o procedimento preparam agora a intervenção dos tribunais civis. Entre eles, alguns já admitem uma consequência mais ampla caso Alois recuse rever as alterações: prefeririam que o Liechtenstein se tornasse uma república.
Fontes: Financial Times, 19/20 de setembro de 2026; comunicado oficial da Casa Principesca do Liechtenstein, 15 de agosto de 2026.





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