Porque é que a Icicle deu a De Sarno o comando total da marca
A marca chinesa de «luxo silencioso» nomeou o antigo diretor criativo da Gucci para liderar toda a linha principal, e não uma sublinha, como é habitual nestes acordos. A decisão, cinco meses depois de a Kering entrar no capital, revela uma forma diferente de negociar entre o luxo chinês e o europeu.
A Icicle anunciou a 7 de setembro, em simultâneo em Paris e Xangai, que Sabato De Sarno, responsável pela direção criativa da Gucci entre 2023 e fevereiro de 2025, assume toda a marca: pronto-a-vestir feminino e masculino, acessórios e ótica. A primeira coleção assinada pelo designer chegará na estação outono/inverno de 2027-2028.
A dimensão do cargo distingue esta contratação das anteriores. Quando a Bosideng recrutou Kim Jones ou a Anta trouxe Kris Van Assche, os designers ocidentais ficaram à frente de sublinhas de nicho, separadas do negócio principal chinês. A Icicle entregou a De Sarno a linha inteira.
Cinco meses antes, em abril, a Kering, proprietária da Gucci, da Saint Laurent e da Bottega Veneta, adquirira uma participação minoritária na ICCF, a casa-mãe da Icicle. O investimento foi realizado através da House of Wonders, um novo veículo criado para apoiar marcas de luxo emergentes fora da Europa.
Foi a primeira operação da House of Wonders, anunciada por Luca de Meo, que assumiu há um ano a liderança da Kering, depois de dirigir a Renault. Perante os investidores, de Meo definiu dois objetivos: reduzir a dependência do grupo em relação à Gucci, cujas vendas têm caído na China, e testar a capacidade de crescimento através do investimento em marcas nascidas fora do eixo Paris-Milão, sem as comprar por inteiro.
A participação minoritária rompe com o padrão dominante da década anterior. Grupos chineses compraram marcas europeias em dificuldades, esperando repetir, em sentido inverso, o que os grupos franceses haviam feito com marcas italianas nos anos 2000. Na maioria dos casos, os resultados ficaram aquém das expectativas. As ações do grupo chinês Lanvin, proprietário da própria Lanvin francesa, do fabricante italiano de calçado Sergio Rossi e da marca austríaca Wolford, negoceiam hoje quase 90% abaixo do preço de entrada em bolsa, em 2022.
A Icicle conhece também os limites desse modelo. Desde 2018, detém uma participação de cerca de 10% na casa francesa Carven, sem ter conseguido devolver-lhe verdadeira relevância internacional.
Fundada em Xangai, em 1997, por Ye Shouzeng, antigo professor da Universidade de Donghua, e pela mulher, Tao Xiaoma, a Icicle construiu-se sobre uma estética discreta, sem logótipos visíveis, e o uso de matérias-primas nobres, como a caxemira e a lã dupla-face. Quase toda a produção é assegurada por duas fábricas próprias em Xangai.
A marca tem cerca de duzentas lojas na China, três em Paris e um espaço no Bon Marché. As vendas anuais ultrapassam os três mil milhões de yuan, segundo a agência estatal Xinhua. A Icicle já explorou a possibilidade de entrar em bolsa em Hong Kong ou Paris, com uma avaliação que os mercados chegaram a estimar em perto de mil milhões de euros.
A contratação de De Sarno não transfere para a Kering o controlo da Icicle. O grupo francês permanece como acionista minoritário e os fundadores mantêm-se no comando. A marca continua chinesa na propriedade, na produção e no seu mercado principal, mas coloca toda a direção criativa nas mãos de um designer formado no sistema europeu do luxo.
É essa combinação que distingue o acordo. A Icicle não comprou uma casa europeia em dificuldades nem confinou um nome ocidental a uma coleção paralela. Entregou-lhe o centro do negócio, sem entregar a própria empresa.





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