Encontrou um caroço. Faltou à consulta para cuidar do pai
- João da Praça

- há 1 hora
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Teresa fechou a porta da casa de banho com o pé e ficou especada em frente ao espelho, a mão esquerda enfiada por dentro da camisola, os dedos a percorrer devagar o contorno de um caroço do tamanho de um bago de uva. Onze dias. Contava-os todas as manhãs sem dizer o número a ninguém, nem a si própria em voz alta.
Vestiu-se depressa. Na cozinha, Jorge já tinha o café feito e a rádio ligada baixo no noticiário local. Não perguntou por que é que ela se tinha demorado. Há meses que Jorge não perguntava nada que pudesse ter resposta comprida.
— Hoje passo pelo lar antes da loja — disse ela.
Ele acenou com a cabeça sem levantar os olhos do jornal, e Teresa sentiu, como sentia quase todas as manhãs, um alívio pequeno e vergonhoso por ele não ter perguntado mais nada.
A loja ficava por cima de uma mercearia, duas divisões com pouca luz e uma máquina Singer que tinha sido da mãe dela. Teresa herdara o ofício antes de o escolher: aos catorze anos já fazia bainhas de calças para os vizinhos, aos vinte fazia fatos de casamento inteiros, com forro e tudo. Naquela manhã tinha uma noiva marcada para as nove e meia, uma rapariga de vinte e poucos anos, magra, nervosa, que já tinha vindo três vezes provar o mesmo vestido e continuava a achar que alguma coisa estava mal, sem saber dizer o quê.
— Ainda está apertado aqui — disse a rapariga, virando-se de lado ao espelho, a mão a apontar para as costas onde não havia nada apertado nenhum.
Teresa ajoelhou-se e passou os dedos pela costura, sentindo onde o tecido puxava de facto e onde não puxava nada. Alfinetou um centímetro de cada lado, devagar, com a boca cheia de alfinetes, para a rapariga se ir embora tranquila, e pensou, sem querer, em como era fácil corrigir um vestido e impossível corrigir um corpo.
— Fica pronto sexta — disse, tirando os alfinetes da boca um a um e espetando-os de novo na almofadinha.
Às onze fechou a loja com um cartão na porta, Volto às 14h, e conduziu os vinte minutos até ao lar.
Aníbal estava sentado junto à janela, num cadeirão que uma auxiliar empurrava até ali todas as manhãs para ele ver o pátio. Desde o AVC, catorze meses antes, o lado direito do corpo tornara-se uma coisa que ele carregava mais do que usava. Falava pouco, três ou quatro palavras de cada vez, e nem sempre as certas, mas os olhos seguiam tudo, e isso, para Teresa, era pior do que se ele tivesse deixado de ver de todo. Na mesa de cabeceira, ao lado do copo com a palhinha dobrável, estava uma fotografia pequena, já amarelada, dele fardado, novo, em frente a uma composição da CP em que fora revisor durante trinta e dois anos. Ninguém no lar sabia o que era aquele uniforme. Teresa tinha posto lá a fotografia no primeiro dia e nunca mais falara nisso com ele, nem ele com ela.
— Pai — disse, e sentou-se ao lado dele.
Ele virou a cabeça devagar. Saiu-lhe da garganta um som, nem palavra nem suspiro, o som que fazia sempre que a reconhecia.
Teresa pegou-lhe na mão esquerda, a boa, e ficou ali um bocado sem dizer nada, porque já tinha aprendido que preencher o silêncio com frases era mais para ela do que para ele. Depois foi buscar o alicate de unhas à mala e cortou-lhe as unhas uma a uma, soprando o pó que caía, como fazia de duas em duas semanas desde que ele deixara de conseguir fazê-lo sozinho. Era um gesto sem urgência nenhuma. Podia ter esperado mais uma semana. Não esperou.
A enfermeira, Sílvia, entrou com o tabuleiro do almoço e ficou a vê-la um instante antes de pousar a bandeja.
— Dona Teresa, desculpe a lambança, mas a senhora está com um ar cansado que nem a semana passada tinha. Já dorme alguma coisa?
— Durmo o suficiente.
— Devia ir ao médico fazer uns exames, nem que seja só isso. As pessoas cuidam de toda a gente menos de si.
Teresa sorriu o sorriso que já tinha pronto para estas ocasiões e perguntou se o pai tinha comido bem ao pequeno-almoço. Sílvia disse que sim e saiu, e Teresa ficou ali mais dez minutos a dar-lhe a sopa às colheradas, inclinando-lhe a cabeça com uma mão para que não engasgasse, limpando-lhe o queixo com o guardanapo de pano que trazia de casa porque os do lar eram de papel e se desfaziam.
No bolso do casaco, o telemóvel vibrou duas vezes. Era o centro de saúde. Desligou o som sem olhar para o ecrã e continuou a dar a sopa.
Ricardo ligou de Londres nessa noite, como fazia aos domingos, à hora do jantar de lá. Perguntou pelo avô, e Teresa disse que estava na mesma, o que já não era bem verdade havia semanas mas era a frase que usava desde sempre para não ter de explicar graus. Perguntou também como é que ela estava, e Teresa disse que estava bem, cansada mas bem, e mudou de assunto: o trabalho dele, o frio de lá, se já tinha comprado um casaco decente. Desligou antes de o filho poder voltar à primeira pergunta.
Depois do jantar, o telefone de casa tocou enquanto Jorge via televisão na sala.
— Fala da parte da doutora Meireles, é só para confirmar a consulta de amanhã de manhã. A senhora tinha faltado à primeira marcação.
— Vou ter de remarcar outra vez — disse Teresa, baixinho, a mão a tapar o auscultador embora não houvesse ninguém por perto. — Tenho uma coisa com o meu pai.
A rapariga do outro lado disse que não havia problema e perguntou se queria já ficar com outro dia marcado. Teresa disse que ligava ela.
Voltou à sala. Jorge tinha adormecido no sofá, a boca ligeiramente aberta, o comando ainda preso na mão. Ela ficou a olhar para ele um bocado, para o peito a subir e a descer, para a maneira como um homem de sessenta anos ainda conseguia dormir sem peso nenhum na cara, e por um segundo teve vontade de o acordar e de lhe dizer. Dormiam em quartos separados desde que a mãe de Teresa morrera, sete anos antes. Teresa cuidara da mãe em casa até ao fim. Nunca tinham falado sobre isso. Pegou no cobertor da arca e estendeu-lho por cima das pernas, e foi deitar-se sozinha.
Graça chegou de Lisboa no sábado seguinte, sem avisar com mais do que um telefonema na véspera. Trouxe uma mala pequena e um ar de quem já tinha decidido ficar só uma noite antes de sair de casa.
Foram as duas ao lar depois do almoço. No caminho, no carro, Graça falou da filha, do trânsito na A1, de um colega de trabalho que se tinha reformado antecipadamente. Só ficou calada quando entraram no quarto e viram o pai, mais magro do que da última vez que o tinha visto, os pulsos finos por cima do lençol.
— Ninguém me disse que ele tinha piorado assim — disse, já no corredor, depois de saírem.
— Piora todas as semanas, Graça. Achas que eu não te ligo porque me esqueço?
— Não disse isso.
— Tu vives a três horas. Eu venho cá todos os dias, ao almoço, e às vezes à noite outra vez. Achas que tenho tempo para andar a fazer boletins semanais para quem não vem?
Ficaram as duas em silêncio junto às máquinas de café do átrio. Uma auxiliar passou a empurrar um carrinho de roupa lavada.
— Estás com mau aspeto, Teresa — disse Graça, por fim, mais baixo. — A sério, não é maldade. Estás magra de um jeito estranho.
Teresa sentiu o caroço, por baixo do casaco, como uma moeda quente contra as costelas. Por um segundo achou que ia dizer. Já tinha a primeira frase pronta: encontrei uma coisa. Graça estava ali, à espera.
— É o cansaço — disse. — Toda a gente com um pai num lar tem mau aspeto, Graça. Vai perguntar às outras senhoras da sala de espera.
Graça não insistiu. Ajeitou o casaco e disse que ia à casa de banho antes de voltarem para junto do pai.
O telefonema veio às três e meia da manhã de terça-feira, duas semanas depois. Era Sílvia, com a voz de quem já tinha feito aquela chamada antes e sabia não alongar o preâmbulo.
— Dona Teresa, é melhor vir. O seu pai está a piorar muito depressa.
Não chegou a tempo. Quando entrou no quarto, às quatro e vinte, uma auxiliar mais nova estava a tapar o espelho da casa de banho com uma toalha, e Sílvia estava sentada na cadeira junto à cama, à espera, com as mãos no colo.
— Foi tranquilo — disse. — Não sofreu.
Teresa aproximou-se da cama. A cara do pai estava virada para a janela, como sempre preferira, e a mão esquerda, a boa, pousada por cima do lençol, a aliança agora demasiado larga a rodar-lhe no dedo a cada movimento que Teresa lhe dava sem querer, ajeitando o lençol, endireitando o colarinho da camisa do pijama que a auxiliar já lhe tinha vestido. Pegou-lhe na mão e ficou ali sem chorar, sem saber ao certo se era vergonha ou apenas cansaço.
Ligou a Graça às cinco menos um quarto. A irmã disse que vinha já, que apanhava o primeiro comboio.
O funeral foi na quinta-feira, numa manhã de vento que fazia bater a porta da igreja entre as orações e trazia folhas de plátano para dentro do adro, coladas ao chão molhado pelos sapatos de quem entrava. Depois, em casa, Graça ficou mais dois dias a tratar de papéis com Teresa: a conta do lar, a certidão, uma caixa de fotografias que nenhuma das duas sabia bem onde arrumar. Trabalharam lado a lado na mesa da cozinha sem falar muito. A meio da caixa, Graça tirou uma fotografia da mãe, dos últimos meses, magríssima numa cadeira de rodas no jardim da casa antiga, e ficou a olhar para ela mais tempo do que para as outras.
— Tu fizeste isto sozinha — disse, sem levantar os olhos da fotografia. — Com ela. Eu estava grávida da Inês e vinha um fim de semana por mês.
— Fiz.
— Nunca me disseste que era difícil.
— Não valia a pena — disse Teresa, e esticou o braço para pegar noutra fotografia.
Graça pousou a mão em cima da mão de Teresa, sem dizer mais nada, e Teresa deixou-a ficar ali um bocado antes de a puxar de volta para o monte de papéis.
Na noite antes de a irmã voltar para Lisboa, Teresa entrou na casa de banho e fechou a porta com o pé. Enfiou a mão por dentro da camisola. O caroço continuava lá, do mesmo tamanho.
Ficou a olhar para o próprio reflexo. Depois foi buscar a mala à entrada, tirou de dentro o cartão amarrotado com o número do centro de saúde e pousou-o em cima da mesa da cozinha, virado para cima, onde Jorge o havia de ver de manhã ao passar com o café.
Não lhe telefonou nessa noite. Foi deitar-se.




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