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Às 7h43, Pequim entrou na fábrica

Às 7h43, Tomás deixou de falar.


Até aí tinha falado quase sem parar.


Conhecêramos Tomás pouco depois das sete, à porta de uma fábrica nos arredores de Braga. Chovia pouco, mas o suficiente para lhe molhar as sapatilhas brancas. Trazia um copo de café numa mão e as chaves na outra.


Interior de uma fábrica com máquinas, trabalhadores e um gabinete de controlo ligado a uma inteligência artificial chinesa.
Numa fábrica nos arredores de Braga, Tomás descobre que Pequim está muito mais perto do que imaginava.

— Vieram mesmo.


— Disse-nos para virmos cedo.


— Eu digo muita coisa.


Acabou o café, dobrou o copo e guardou-o no bolso.


— Venham antes que comecem a precisar de mim.


Mal entrámos, alguém gritou:


— Tomás!


Ele continuou a andar.


— Já vou.


— É urgente.


— Então não desaparece entretanto.


O pavilhão cheirava a óleo e a metal. O calor vinha das máquinas e sentia-se mais à medida que avançávamos. Estavam alinhadas em duas filas, algumas fechadas por portas transparentes. Um empilhador passou devagar junto de nós. O homem que o conduzia levantou dois dedos para cumprimentar Tomás.


— Bom dia, Celeste.


Uma mulher junto a uma bancada respondeu sem parar de trabalhar.


— Bom dia.


— A pequena?


— Foi à escola.


— Então já está melhor.


— Já.


Mais adiante estava Rui.


— Aquilo?


— Depois vejo.


— Disseste isso ontem.


— E sobreviveram todos.


Tomás olhou para nós.


— O diretor técnico.


Rui mostrou-lhe o dedo do meio.


— E relações públicas.


Subimos umas escadas metálicas.


O gabinete tinha vidro de três lados. Dali via-se quase toda a fábrica. Celeste na bancada. Rui a desaparecer atrás de uma máquina. Um homem empurrava caixas azuis. Outro bebia de uma garrafa de plástico junto a uma porta.


Na parede havia um calendário de 2024.


— Isso está dois anos atrasado.


Tomás olhou.


— A minha filha está ali.


Na fotografia, uma rapariga segurava uma taça.


— Ganhou?


— Terceiro.


— E por isso não muda o calendário.


— Por isso não muda a fotografia.


Sentou-se.


Três monitores ocupavam quase toda a secretária. Havia um quarto, mais pequeno, posto de lado.


Nesse só havia texto.


Tomás abriu o relatório da noite.


— Às três e doze isto aqueceu mais do que devia.


Aproximou o cursor de uma linha.


— Muito?


— Quase nada.


— Então como viu?


— Eu não vi.


Apontou para o monitor pequeno.


— Foi o chinês.


— Que chinês?


— Kimi.


— É uma pessoa?


Tomás olhou para mim.


— Claro. Vive dentro desta caixa e trabalha vinte e quatro horas por dia.


Do piso de baixo ouviu-se Rui:


— Eu ouvi!


— Trabalha.


Kimi era uma inteligência artificial chinesa. Primeiro traduziu manuais. Depois começaram a usá-lo para procurar coisas nos documentos técnicos. Um engenheiro deu-lhe os históricos de manutenção. Mais tarde vieram fotografias das peças rejeitadas. Depois, os relatórios das máquinas e os dados das encomendas.


— Ninguém decidiu fazer isto tudo — disse Tomás.


— Como assim?


— Fizemos uma coisa. Funcionou. Fizemos outra.


Descemos.


Junto de uma máquina, chamou Rui.


— O chinês diz que tens aqui qualquer coisa.


Rui olhou para o tablet.


— Não tem nada.


— Então vê.


— Já estou a ver.


— Isso é olhar.


Rui levantou a cabeça.


— Queres fazer tu?


Tomás entregou-lhe o tablet.


— Antes do almoço.


— Antes do almoço é um período muito grande.


Na bancada, Celeste separava pequenas peças metálicas. Dois recipientes à frente, uma luz branca sobre as mãos.


— Esta senhora odeia o Kimi — disse Tomás.


Celeste pousou uma peça.


— Esta senhora chama-se Celeste.


— A Celeste odeia o Kimi.


— Não odeio ninguém que não tenha pernas.


Perguntei-lhe se alguma vez o utilizara.


— Eu?


— Sim.


— Eu não falo com máquinas.


Tomás riu-se.


— Ontem falou.


— Falei consigo.


— E eu perguntei-lhe a ele.


Celeste pegou noutra peça.


— Então ontem perdi tempo com dois parvos.


No gabinete, perguntei a Tomás quanto dependia daquilo.


— Daquilo o quê?


— Do Kimi.


Abriu uma folha de cálculo.


— Depender é uma palavra grande.


— Se desaparecer hoje?


— Hoje ninguém vai para casa.


Olhou para o monitor.


— Amanhã já me dá trabalho.


O monitor pequeno apitou.


Olhei para o relógio.


7h43.


Tomás leu.


— Que foi?


Levantou a mão.


Leu outra vez. Abriu uma janela. Fechou-a.


— Rui!


Esperou.


— RUI!


Pegou no telefone.


— Sobe cá.


O ruído das máquinas chegava amortecido através dos vidros.


— Algum problema?


— Ainda não sei.


Rui entrou.


— Se é a temperatura, eu...


— Esquece isso.


Tomás afastou a cadeira.


Rui inclinou-se para o monitor.


— Quando apareceu?


— Agora.


— Recebeste mais alguma coisa?


— Não.


Sentou-se. Abriu uma janela preta.


— Internet está.


— Ótimo.


— Servidor também.


Tomás não disse nada.


Chegou um email.


— Espera.


— É deles?


— Do fornecedor.


Tomás leu por cima do ombro.


— O que quer dizer isso?


— Estou a ler.


— Lê depressa.


— Assim as letras não andam mais depressa.


Rui abriu uma notícia no outro monitor.


Pequim. Ministério do Comércio. Empresas chinesas. Modelos de inteligência artificial. Falava-se de condições de acesso, talvez de restrições.


Tomás aproximou-se.


— Isto já entrou em vigor?


— Não diz isso.


— Então porque é que recebemos o email?


— Pergunta-lhes.


Tomás já estava a ligar.


— Bom dia. É o Tomás.


Ficou a ouvir.


— Pois, percebi.


Foi até ao vidro.


— Não me interessa o que estão a estudar. Quero saber se isto amanhã funciona.


A voz do outro lado falou.


Tomás voltou para junto da secretária.


— Isso não responde.


Esperou.


— Está bem. Ligue-me quando souber.


Desligou.


— E? — perguntou Rui.


— Não sabem.


— Melhor do que inventarem.


Tomás apontou para o monitor pequeno.


— Experimenta.


Rui escreveu.


Kimi respondeu.


— Está a funcionar.


— Eu estou a ver.


— Então?


Tomás sentou-se.


— Então nada.


Escreveu qualquer coisa.


— O que perguntou?


— Se vai deixar de funcionar.


A resposta apareceu pouco depois.


Tomás leu-a.


— O que diz?


Continuou a ler.


Kimi não podia prever decisões futuras das autoridades chinesas. Recomendava acompanhar as comunicações oficiais e contactar o fornecedor.


Tomás encostou-se à cadeira.


— Já fala como um advogado.


Chamaram Rui do piso inferior.


Levantou-se. À porta, parou.


— Já agora.


— O quê?


— Aquilo da temperatura.


Tomás esperou.


— O chinês tinha razão.


— Era o quê?


— Rolamento.


— Mau?


— Ainda não.


Rui saiu.


Vimo-lo atravessar o pavilhão.


Tomás ficou sentado.


— Se aquilo partisse, podia ficar quatro horas parado. Cinco. Oito, se tivesse azar.


— E agora?


— Agora muda-se antes.


— Por causa do Kimi.


Tomás olhou para baixo. Rui já estava junto à máquina.


— É ele que vai sujar as mãos.


O telefone vibrou.


— A minha mulher.


Leu a mensagem.


— Quer saber se vou almoçar.


Respondeu.


— Vai?


— Não.


— Disse-lhe porquê?


Guardou o telefone.


— Disse que os chineses não deixam.


Quando descemos, havia mais gente na fábrica. Um camião encostara-se ao cais. Junto de uma palete, discutiam quantidades. Rui tinha parte da máquina desmontada.


Tomás parou junto de Celeste.


— O chinês acertou.


— Em quê?


— No rolamento.


Celeste continuou a separar peças.


— Então dê-lhe aumento.


Fomos até à porta.


Já não chovia.


— Está preocupado?


— Com o rolamento?


— Com a China.


Tomás olhou para trás.


Rui estava ajoelhado junto à máquina.


— Há dois anos, se me dissesse que uma decisão do Governo chinês podia estragar-me uma manhã em Braga, eu mandava-o beber outro café.


Olhou para o relógio.


— Ainda nem são nove.


Atravessámos a rua.


No café, os três homens continuavam ao balcão. A televisão estava ligada sem som.


Pedimos dois cafés.


Da janela via-se o camião no cais e, de vez em quando, alguém a atravessar uma das portas.


Rui estava lá dentro a substituir um rolamento que ainda funcionava.


Do monitor do primeiro andar não se via nada.

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