A entrevista de James Schuyler que sobreviveu numa cópia
O arquivo perdido no Porto começou numa caixa de cartão pousada no chão da reserva da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Palácio de Cristal. Cheirava a cave húmida e a fita magnética. Dentro havia sete cassetes BASF sem caixa, um caderno de capa preta com a etiqueta «J.S. / S.M.P. / 77» e uma folha datilografada onde alguém escrevera: «cópia — original ardido 2019».
A entrevista de James Schuyler sem a gravação original
O arquivo não era do Porto. O poeta nunca vivera na cidade. Mas foi ali que aquilo que restava dele voltou a poder ser lido.
Em 1995, Nathan Kernan, editor do diário de James Schuyler, contou como soubera da existência de uma entrevista gravada em janeiro de 1977 no apartamento de Peter Schjeldahl, em St. Mark’s Place. Destinava-se a uma biografia de Frank O’Hara que nunca chegou a ser concluída. Peter Schjeldahl emprestou-lhe as cassetes e descreveu James Schuyler, a quem tratava por Jimmy, a falar durante horas em blocos completos, como se estivesse a ler de um ecrã invisível.
Nathan Kernan ouviu as gravações e transcreveu-as. Naquela dicção reconheceu o mesmo estado em que James Schuyler escrevera The Morning of the Poem, publicado em 1980 e distinguido com o Pulitzer no ano seguinte.
Em 2018, Ada Calhoun, filha de Peter Schjeldahl, encontrou na cave do apartamento da família dezenas de cassetes relacionadas com o livro Also a Poet. A gravação de James Schuyler já não estava entre elas. Em outubro de 2019, um incêndio destruiu o apartamento. Da entrevista restava a transcrição editada por Nathan Kernan.
A voz sobrevivera, mas já não como voz. Entre o homem que falara em 1977 e o leitor que podia agora lê-lo havia um gravador desaparecido, uma fita perdida, a memória de Peter Schjeldahl e as decisões tomadas por Nathan Kernan ao passar a conversa para o papel.
É nesse intervalo que a caixa chega ao Porto.
O investigador chama-se Rui e trabalha entre a Foz e Miragaia. Recebeu-a de um livreiro do Bolhão que comprara um lote de papéis pertencentes a um americano que vivera em Serralves nos anos oitenta. Rui não sabe quem escreveu a indicação sobre o incêndio nem por que motivo o caderno foi guardado com sete cassetes que, à primeira vista, nada têm que ver com James Schuyler. A etiqueta só lhe oferece três iniciais e um ano: «J.S. / S.M.P. / 77».
Abre o caderno. No verão de 1951, lê, um jovem publicou três textos curtos na revista Accent, editada na Universidade de Illinois. John Bernard Myers, galerista nova-iorquino em ascensão, telefonou-lhe para dizer que os textos não eram contos. Eram poemas.
Durante o mesmo telefonema, James Schuyler mencionou o único poema da revista que lhe parecera digno de atenção, The Three-Penny Opera, assinado por alguém chamado Frank O’Hara. John Bernard Myers respondeu que esse alguém estava na sala ao lado.
A proximidade não bastou. James Schuyler não conheceu Frank O’Hara naquele dia. Também não conhecia John Ashbery. Quando lhe perguntaram pela sua formação, respondeu com o nome de um romance de Fiódor Dostoiévski. Quando lhe perguntaram por Harvard, negou alguma vez lá ter estudado e atribuiu a história a uma conversa de Alex Katz numa festa.
Rui relê o episódio. Tudo começa com uma classificação errada. James Schuyler julgava ter publicado contos; John Bernard Myers decidiu que eram poemas. Depois surge um nome impresso numa revista, Frank O’Hara, e uma voz ao telefone informa que o homem a quem o nome pertence está a poucos metros de distância. Nada se completa: nem o género dos textos, nem o encontro, nem a história da formação universitária. Cada facto chega através de alguém que o corrige, o adia ou o conta de novo.
O arquivo perdido no Porto e o telefonema que não foi encontro
Frank O’Hara regressou ao Michigan, para Ann Arbor, onde preparava uma tese de escrita criativa. James Schuyler entrou em Bloomingdale, em White Plains, para um internamento por esgotamento. Só se encontraram meses depois.
Antes do encontro há uma lista de lugares que parece ter sido escrita por várias vidas: Downers Grove; Washington, D.C., onde o pai foi revisor no Washington Post e jogador compulsivo; a separação dos pais quando James Schuyler tinha cinco anos; duas visitas ao pai antes de este morrer, nos anos quarenta, no Michigan; Buffalo no junior high; East Aurora e a comunidade artesanal de Elbert Hubbard e dos Roycrofters, com as suas pranchas de carvalho, o cobre martelado e o couro lavrado.
Rui procura o que pode ser confrontado fora do caderno. James Schuyler nasceu em Chicago em 1923. Publicou seis livros de poesia em vida, a começar por Freely Espousing, em 1969, pela Doubleday e pela Paris Review Editions. Publicou dois romances e escreveu um terceiro com John Ashbery. Foi menos conhecido do que outros nomes da New York School: John Ashbery, Frank O’Hara, Barbara Guest e Kenneth Koch, e morreu em 1991, depois de anos descritos como felizes e produtivos, apesar da doença intermitente. A Accent existiu e esteve ligada à Universidade de Illinois.
As datas mantêm-se de pé: 1951, 1977, 1995, 2018, 2019. O problema não está na cronologia. Está naquilo que a cronologia já não consegue devolver.
Peter Schjeldahl lembrava-se de James Schuyler a falar como se lesse num ecrã invisível. Nathan Kernan encontrou nessa fala a graça atenta que reconhecia na escrita. São duas descrições próximas, mas não são a mesma prova. Se James Schuyler falava realmente em parágrafos completos, a transcrição preservou uma qualidade que já existia na voz. Se não falava, os parágrafos nasceram quando Nathan Kernan retirou hesitações, escolheu cortes e decidiu onde terminava uma frase.
Rui olha para as sete cassetes. Nenhuma está identificada como a gravação de 1977. Mesmo que uma delas contivesse a voz de James Schuyler, faltaria demonstrar que fora aquela a fita emprestada por Peter Schjeldahl. O arquivo oferece-lhe a forma habitual da tentação: existe matéria suficiente para construir uma certeza e matéria insuficiente para a provar.
A cassete que ardeu
Na folha, a frase «cópia — original ardido 2019» transforma dois acontecimentos diferentes numa sequência perfeita. Primeiro a cópia, depois o incêndio. Parece explicar por que razão o texto existe. Não explica quem fez aquela cópia, de que exemplar a retirou ou como chegou ao Porto.
Rui pode escrever que a entrevista ocorreu em janeiro de 1977 e que foi gravada para uma biografia de Frank O’Hara que não se concluiu. Pode escrever que Peter Schjeldahl emprestou as cassetes a Nathan Kernan, que Nathan Kernan preparou uma transcrição e que a gravação não apareceu entre as fitas encontradas por Ada Calhoun em 2018. Pode escrever que o apartamento ardeu em outubro de 2019.
Não pode ouvir a conversa. Também não pode regressar ao telefonema de 1951 para verificar as palavras de John Bernard Myers ou de James Schuyler. Aquilo que tem diante de si passou pela memória, pela transcrição e pela edição antes de chegar à página.
Talvez James Schuyler falasse como escrevia. Talvez a desenvoltura que Peter Schjeldahl recordava tenha sido acentuada pelo trabalho de Nathan Kernan. Uma conversa transcrita anos depois, noutro apartamento e com cortes destinados à publicação, tende a perder repetições, silêncios, frases abandonadas e mudanças de direção. Os blocos completos podem ter saído da boca de James Schuyler ou da mesa do editor. Já não existe fita que permita separar um trabalho do outro.
Isso não torna a transcrição falsa. Torna-a a única forma disponível de uma conversa que deixou de poder ser comparada consigo própria.
O primeiro gesto público de James Schuyler também dependera da intervenção de outra pessoa. Ele enviou contos; John Bernard Myers leu poemas. Reconheceu Frank O’Hara numa página antes de o conhecer numa sala. Décadas depois, a conversa extensa em que recordava esse início voltou a depender de alguém que a escutou, lhe deu pontuação e a conservou em papel. A cópia não veio depois da obra. Esteve desde o princípio na maneira como a obra chegou aos outros.
Antes de devolver a caixa à reserva, Rui pousa o caderno preto junto da janela que dá para o Douro. Confere as sete cassetes, fecha a tampa e preenche a folha de entrada. No campo reservado ao conteúdo, não escreve «gravação de James Schuyler». Escreve apenas: «Transcrição sem original identificado».








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