A casa mais estável que vi em Lisboa foi feita para desmontar
Revista · Ensaio · As Tábuas que Sobram
Alinhou seis lápis pela aresta da mesa. Não no centro. Pela aresta, para não rolarem. À frente, uma janela pequena dividida em quarenta vidros. Lá fora, mato fechado e um comedouro feito à mão, preso à balaustrada com dois parafusos tortos. Ele interrompe o que está a escrever quando um chapim pousa e só volta à frase quando o pássaro vai embora.
Vi isto numa encosta nos arredores de Lisboa. Uma casa de quatro por cinco metros, levantada do chão com blocos de cimento. Por baixo passava o vento. A dona chamava-lhe palheiro, embora já não guardasse palha. Tinha sido corte, depois arrecadação, depois nada, depois sítio onde o neto ia ler para não ouvir a televisão da cozinha. Perguntei-lhe porque não deitava abaixo. Porque ainda serve.
No léxico imobiliário de Lisboa e do Porto, uma boa casa é aquela onde a rua acontece sem nos tocar. Vidro duplo, isolamento acústico, estore elétrico, fechadura com código. A casa da encosta estava levantada por outro motivo. Quando a encosta escorre ou o ribeiro ao fundo sobe, levantar é dizer fico sem pedir que mudem por mim. Se não fossem os pilares, pareceria parte do mato.
Um avô corta pinho e ergue um barracão. O filho deixa cair o telhado. Um sobrinho desmonta o que resta e leva as madeiras para fazer um abrigo mais abaixo, onde possa estar sozinho sem ter de dar explicações. Esse abrigo apodrece. Um rapaz rouba duas tábuas de choupo e uma de nogueira e sobe outra vez. Faz uma caixa com uma janela grande. Não lhe chama casa. Chama-lhe concha.
A casa mais estável que encontrei nos últimos anos tinha sido feita para poder ser desmontada. Chamamos hoje a isto arquitectura resiliente.
No Poço do Bispo há uma oficina onde ainda se fazem maços de uma só peça. De madeira de raiz. O homem tem setenta e poucos anos e mãos que parecem lixa. Corta um carvalho pequeno rente ao solo e aproveita o nó onde a raiz torce, porque aí a fibra enrola-se sobre si mesma e torna-se quase impossível de rachar. Passa uma tarde a lascar até ficar com um cabo à medida da mão. Um industrial custa vinte euros. O dele atravessa anos de uso.
Quando lhe perguntei quanto tempo demora a ensinar alguém, respondeu dez anos.
No Porto, num rés-do-chão da Rua de Camões, uma marceneira guarda tábuas numeradas a giz. São de demolições. Guarda os pregos antigos numa lata de atum. Propôs a um cliente usar aquelas tábuas para prateleiras de um apartamento reabilitado. O cliente recusou, queria madeira sem história. Ela fez as prateleiras com madeira nova. As velhas continuam encostadas à parede.
O maço, a tábua numerada, a casa levantada.
Ocupar começa nos metros quadrados. Medes, instalas fibra, calculas retorno, sais quando o gráfico desce. Numa casa como aquela é preciso ficar tempo suficiente para perceber onde a água quer passar, onde o vento encosta, que pássaro vem em Novembro. Depois tira-se o que impede essa percepção.
Ensinaram-nos que progresso é estrear.
Tentaram forçar essa casa da encosta. Não havia nada lá dentro — lápis, papel, um fogão velho. O dono não pôs arame farpado. Escreveu um bilhete à mão e deixou-o em cima da mesa.
Se estás aflito, não destruas isto. Vem à minha casa e eu dou-te o que precisas.
Vive a dez minutos a pé da aldeia. Vai aos correios todos os dias, a mulher toca no coro da igreja, o cão dorme na varanda. Quando chove pega na carrinha velha, com uma motosserra nos pés — perigosa, poluente, útil e rápida — e vai dar de comer às ovelhas. Nos anos oitenta recusou um computador. A pergunta que fazia ainda serve, em Lisboa e no Porto: esta ferramenta aumenta a minha dependência ou a minha competência?
Deitar abaixo por dentro e manter a fachada. Pladur, focos embutidos, ar condicionado. A estrutura desaparece. Naquela casa ficaram a tábua, o prego, o saber de onde a água corre. As velhas, de parede com sessenta centímetros, continuam habitáveis. Foram feitas por gente que sabia que a luz ia faltar.
Seis lápis bem afiados. Uma tábua que já foi parede e pode ser mesa. A lata de atum com os pregos antigos. As velhas continuam encostadas à parede.
A casa pode ser desmontada peça a peça. Cada peça já foi outra coisa. Uma parede pode voltar a ser mesa. Uma tábua pode entrar noutra construção.
Não é que casa lhes deixamos aos filhos. São as tábuas que ainda aceitem outra forma.
No último dia na oficina do Poço do Bispo, o homem do maço mostrou-me como se faz um cabo a partir da raiz. Cortas, lavas a terra, marcas com carvão onde a fibra torce. Depois começas a lascar de fora para dentro, sempre a favor da torção, nunca contra. Se fores contra, a madeira abre. Se fores a favor, fecha-se sobre si mesma e ganha força.
Pensei na casa. Nenhuma geração tentou endireitar a fibra.





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