Vacina contra o cancro do pâncreas: 18 em 20 não provam tudo
- Aurelian Draven

- 19 de jul.
- 2 min de leitura
Dezoito em vinte
Seis mutações do gene KRAS aparecem na maioria dos cancros do pâncreas, muitas vezes anos antes de o tumor existir. É a essas seis mutações que a mKRAS-VAX ensina o sistema imunitário a reagir — testada, pela primeira vez, em vinte pessoas que já sabiam ter risco hereditário elevado da doença e uma anomalia visível no pâncreas.
Quatro dos oito sítios noticiosos portugueses que deram a notícia — Observador, Jornal do Ave, DNotícias, Índice — publicaram o mesmo primeiro parágrafo, praticamente sem alterar uma vírgula: a vacina tinha-se revelado segura e gerado respostas imunitárias duradouras em pessoas de alto risco. Era o mesmo despacho, chegado a quatro redações diferentes entre 16 e 17 de julho. A Sábado usou um título quase igual. Nos outros três houve reescrita real: a SOL foi pela percentagem — 90% dos participantes; a ZAP preferiu o número absoluto — 18 em 20; o Público escreveu por conta própria, hoje só para assinantes.
Dos vinte, dezoito reagiram: células T capazes de reconhecer especificamente essas mutações, ainda detetáveis em alguns casos dois anos depois. Não houve efeitos adversos graves. Num seguimento que foi, em média, de dezasseis meses e meio, nenhum dos vinte adoeceu. É, segundo os autores, a primeira vez que uma vacina contra KRAS produz, em seres humanos, uma resposta imunitária desta duração.
Os autores — do Kimmel Cancer Center da Universidade Johns Hopkins e do Skip Viragh Center for Pancreatic Cancer, num artigo saído esta semana na revista Cancer Discovery — escrevem também outra coisa, que não chegou a nenhum dos oito sítios: o ensaio não foi desenhado para provar que a vacina previne o cancro. Foi desenhado para testar se é segura e se o sistema imunitário reage. São perguntas diferentes.
Elizabeth Jaffee, uma das autoras, foi mais cautelosa do que qualquer título: "isto é apenas o início", disse — acrescentando que os resultados sugerem que o sistema imunitário está, de facto, a ser ativado.
Noventa por cento é o número que se lê. Mas dezoito em vinte significa que bastavam duas pessoas a reagir de outra maneira para o resultado cair para setenta — e, nesse caso, provavelmente não teria sido notícia nenhuma. A conta está certa; a escala é que é pequena demais para a frase que se tirou dela.
Nenhum dos oito textos menciona um grupo de comparação. As vinte pessoas do ensaio já estavam a ser vigiadas com exames de imagem regulares — é raro o cancro do pâncreas manifestar-se, mesmo em quem tem risco hereditário, num espaço de dezasseis meses. Sem um grupo para comparar, ninguém sabe quantas destas vinte teriam adoecido de qualquer forma.
O que falta para responder à pergunta que a notícia pareceu responder é, segundo os próprios autores, um ensaio maior e com um grupo de comparação. Esse ensaio já existe como pedido. Ainda não tem data.




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