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  • Linhagem de Acesso

    Há uma forma de poder que não se anuncia. Não vem em discurso. Não precisa de bandeira. Chega como convite. Uma chamada curta. Um nome dito com naturalidade. Um lugar reservado. Um “claro, sim, conheço”. E, de repente, o mundo fica mais simples: o processo acelera, a autorização chega cedo, a inspeção torna-se cordial, o contrato aparece com menos linhas de risco. Não é magia. É genealogia. Ensaio “Linhagem de Acesso”, do Atlantic Lisbon, sobre a aristocracia do acesso na China, redes de influência e a lógica política da autorização como capital. Imagem original criada para publicação. China: quando o apelido abre portas Em muitas sociedades, a desigualdade é económica: uns têm mais, outros têm menos. Na China contemporânea, além dessa desigualdade, há uma desigualdade anterior — a desigualdade de acesso. E o acesso, muitas vezes, tem rosto familiar. Não é uma história de pessoas “melhores” ou “piores”. É uma história de portas. Quem nasce com a chave não discute com a fechadura. A palavra ocidental para isto é “nepotismo”. A palavra chinesa relevante, quando se quer falar de redes, é outra: guanxi — ligações, relações, favores, reciprocidade, dívida social. Mas, neste ensaio, interessa menos o vocabulário do que a mecânica: como é que um Estado-partido, que nasceu a prometer igualdade, produz uma aristocracia prática? A resposta não é moral. É estrutural. Um sistema que concentra decisão, propriedade e fiscalização no mesmo eixo cria um recurso raro: autorização. E quando autorização é recurso raro, torna-se capital. O capital não é apenas dinheiro; é a capacidade de transformar uma decisão numa oportunidade. Em economias onde o Estado domina sectores estratégicos, crédito e licenciamento, o recurso mais valioso não é a ideia. É a permissão. Nessa arquitetura, o mercado nunca é totalmente “mercado”. É um mercado condicionado, onde certas trajetórias são mais fáceis porque passam por corredores protegidos. E é aí que entram os clãs. “Princelings” é o termo que, fora da China, se popularizou para designar descendentes de figuras históricas do Partido — herdeiros simbólicos e, em muitos casos, herdeiros reais de influência. A imagem, para o leitor europeu, é tentadora: príncipes numa república. Mas a palavra corre o risco de simplificar demasiado. Não se trata de uma monarquia com coroas. Trata-se de um ecossistema de vantagens: acesso a informação, acesso a crédito, acesso a sectores, acesso a proteção. E, acima de tudo, acesso a impunidade. A impunidade, aqui, não tem de ser escandalosa. Pode ser apenas a ausência de fricção. O projecto que passa, o terreno que muda de destino, o concorrente que perde o tempo certo, a auditoria que não chega, o processo que é arquivado antes de ganhar corpo. Na vida de quem empreende, a fricção é custo. Na vida de quem governa, a fricção é ameaça. Na vida de quem tem acesso, a fricção é uma coisa que acontece aos outros. Este é um ponto onde a análise ocidental costuma tropeçar em duas tentações opostas. A primeira é a tentação romântica: acreditar que a China, por ser meritocrática em algumas dimensões (exames, percurso burocrático, disciplina administrativa), é meritocrática como sistema. A segunda é a tentação cínica: acreditar que tudo se resume a roubo e crime. Nenhuma serve. A realidade é mais competente e mais sombria. A máquina chinesa é capaz de produzir quadros tecnicamente fortes, projectos gigantescos e uma capacidade de execução que as democracias, muitas vezes, invejam. Mas essa competência convive com uma hierarquia de acesso que não se vê. E a hierarquia de acesso é precisamente aquilo que torna o sistema tão resiliente: ela cria uma elite com demasiado a perder numa abertura real. A elite económica, noutros países, pode sobreviver a alternância política. Troca-se o governo, os negócios adaptam-se. Na China, em muitos sectores, a elite é parte do próprio Estado-partido — ou vive encostada a ele como um órgão vital. Não é apenas “capitalismo com Estado”. É um capitalismo onde o Estado escolhe quem pode ser grande sem ser esmagado. O resultado é uma forma particular de aristocracia: não aristocracia de títulos, mas aristocracia de corredores. O herdeiro não recebe apenas património; recebe mapa. Sabe que portas não se tentam, que portas se pedem, que portas se abrem em silêncio. E isto muda, de forma profunda, a relação do cidadão comum com a ideia de futuro. Porque o futuro deixa de ser um horizonte de esforço e passa a ser um jogo de redes. Há talentos que vencem, sim. Há empreendedores que conseguem subir pela competência e por sorte. Mas, quando um país se convence de que o mérito é subordinado à linhagem, o mérito torna-se amargo: mesmo quando funciona, parece exceção. E uma sociedade que vive de exceções vive com raiva. A pergunta, então, não é “existem princelings?”. Existem. A pergunta é: por que razão um sistema os produz como peça funcional? Aqui, convém olhar para o Estado como organismo. Mao transformou a propriedade privada em propriedade estatal e disciplinou uma sociedade por via da política e do medo. Deng e a reforma económica abriram espaço para riqueza e iniciativa, mas sem abrir o núcleo político. Isso criou uma tensão: como permitir enriquecimento sem permitir autonomia? A solução mais eficiente é amarrar riqueza a lealdade. E amarrar riqueza a lealdade faz-se melhor por redes familiares e partidárias do que por mercado aberto. Uma economia aberta demais produz actores independentes. E actores independentes produzem política. O Partido tolera muitas coisas; não tolera concorrência de soberania. Por isso, a riqueza “segura” é a riqueza que não pode existir sem o Partido. A riqueza que, se o Partido cair, cai com ele. Essa é a lógica que transforma alguns sectores em feudos modernos: energia, telecomunicações, banca, logística, infraestruturas, tecnologia sensível. Mesmo quando há empresas privadas, há sempre uma linha invisível: a linha do aceitável. A linha do que não ameaça. A linha do que não cria poder paralelo. E, quando se cria uma elite económica que depende do Partido para existir, cria-se um seguro político. É por isso que o discurso anticorrupção, por vezes, é mais útil para eliminar desvios dentro da elite do que para destruir o princípio da elite. O sistema pode punir um homem. Não pode punir a sua própria engrenagem sem se punir a si mesmo. Esta engrenagem tem consequências no quotidiano. O empreendedor “sem ligações”, por exemplo, entra no mercado com uma inocência perigosa: acha que competir é apresentar melhor produto, preço e serviço. Aprende depressa que, em certos sectores, competir é sobreviver a atrasos, auditorias, licenças, interpretações flexíveis da regra. Aprende que a regra é elástica para quem tem padrinho. Aprende que o mérito é necessário, mas raramente suficiente. E o funcionário intermédio — aquele que não é príncipe nem camponês — aprende outra lição: o seu lugar no sistema depende de obedecer e de não se expor. Se denuncia, perde. Se resiste, perde. Se pergunta demais, perde. A prudência torna-se virtude. A prudência, num país com medo, é uma forma de inteligência. A aristocracia do acesso, portanto, não é apenas um privilégio económico. É um molde psicológico. Ensina as pessoas a baixar a voz. Ensina-as a procurar padrinhos. Ensina-as a ver o Estado não como árbitro, mas como dono do jogo. E, no entanto, este sistema não é estático. Tem contradições que o corroem por dentro. Primeira contradição: eficiência versus protecção. A protecção de clãs tende a produzir ineficiências, porque privilegia relações em vez de desempenho. Isso pode ser tolerável em tempos de crescimento rápido, quando há margem e tudo parece subir. Mas quando o crescimento abranda, a ineficiência pesa como chumbo. E então o centro reage com campanhas, reformas parciais, reestruturações, auditorias. O sistema tenta, de tempos a tempos, corrigir a sua própria gordura sem cortar o osso. Segunda contradição: mobilidade social versus estabilidade política. Uma sociedade aceita elites quando acredita que pode subir. Mas quando a mobilidade se transforma em mito, a elite deixa de ser “natural” e passa a ser ofensiva. O ressentimento cresce, e o regime, para o conter, precisa de mais controlo, mais propaganda, mais policiamento do discurso. Ou seja: a aristocracia do acesso pede, no fim, um Estado mais duro. Terceira contradição: nacionalismo versus privilégio. O Partido usa o discurso nacionalista como cimento moral: a China como projeto civilizacional, como destino, como reparação histórica. Mas o privilégio de clãs é uma ferida nesse discurso: o país pede sacrifícios, mas vê alguns a viver como se estivessem acima do sacrifício. Em muitos regimes, isto é o princípio do colapso moral: o momento em que a população percebe que a virtude é exigida apenas aos fracos. É por isso que a questão dos princelings não é folclore. É política profunda. É a forma como um regime, ao tentar proteger-se, fabrica as condições do seu próprio desgaste moral. O leitor pode perguntar: e o que acontece quando uma aristocracia destas se encontra com uma campanha anticorrupção agressiva? Acontece uma coisa paradoxal: a campanha pode assustar os níveis intermédios, reduzir ostentação e travar abusos mais grosseiros, mas tende a reforçar o núcleo. Porque o núcleo — por definição — é o lugar onde o poder pode punir sem se autodestruir. A campanha, assim, pode tornar o sistema mais disciplinado sem o tornar mais justo. E justiça é um conceito perigoso para regimes que vivem de autorização. A justiça, quando é real, cria expetativas. E expectativas criam política. Um Estado pode gerir desigualdade por algum tempo. Pode gerir silêncio por muito tempo. O que não consegue gerir indefinidamente é a sensação coletiva de que as regras existem apenas para justificar o privilégio. A sensação de que o futuro depende de um apelido. A sensação de que a lei é instrumento, não limite. O que torna tudo isto mais delicado é que a China não é apenas uma potência económica. É uma potência de imaginação política. A sua história recente apresenta-se ao mundo como alternativa: “crescimento sem caos, modernização sem liberalismo”. Esse modelo tem resultados visíveis — e tem também custos invisíveis. O custo invisível é este: uma sociedade onde o acesso é hereditário, mesmo que a competência seja real, acaba por degradar a ideia de comunidade. A comunidade deixa de ser “nós”. Passa a ser “eles” e “nós”. E quando um regime precisa de unir “nós” para sobreviver, a existência de “eles” privilegiados é dinamite lenta. Não se escreve isto para anunciar um colapso. Escreve-se para compreender a fragilidade escondida. A aristocracia do acesso é, ao mesmo tempo, força e fraqueza. Força, porque cria lealdades e protege o regime. Fraqueza, porque corrói legitimidade e bloqueia reforma real. O Partido sabe disso. Por isso oscila: protege o núcleo, castiga a periferia, reorganiza o topo quando precisa, e mantém o princípio intacto. A grande pergunta, no fundo, é se um país pode sustentar modernidade tecnológica com uma estrutura social que, no que importa, ainda se comporta como uma corte. Talvez possa — durante muito tempo. Mas paga-se sempre um preço: o preço de uma sociedade que aprende a não acreditar no seu próprio esforço. E, quando uma sociedade deixa de acreditar no esforço, só lhe resta acreditar no medo. Nota editorial (série): Quarto ensaio do Caderno Chinês no Atlantic Lisbon. Seguem-se: o mercado como autorização; e 1989 como política do silêncio. Subscreva a Newsletter #AtlanticLisbon #China #PCC #Poder #Elite #Economia #PolíticaInternacional #Guanxi #Princelings #EstadoPartido

  • Breve História da Cultura Ocidental — Recensão

    Há livros que nascem contra a velocidade. Não recusam o presente, nem procuram abrigo numa nostalgia erudita; lembram apenas que nenhuma época se compreende a si mesma se perder a memória das formas que a tornaram possível. Breve História da Cultura Ocidental não quer substituir bibliotecas, nem encerrar a cultura numa síntese definitiva. Reabre um caminho que a pressa contemporânea tende a tornar indistinto. O título contém uma promessa e um risco. Toda a breve história de uma matéria tão vasta pode parecer demasiado arrumada, demasiado panorâmica, demasiado disponível para consumo rápido. Mas a síntese não é, por natureza, uma concessão à superficialidade. Há momentos em que a cultura precisa de mapas: não para dispensar a viagem, mas para impedir que a dispersão se confunda com conhecimento. Recensão feita por Alberto Carvalho — Breve História da Cultura Ocidental, de Fernando Gonçalves. Ideias de Ler, 2026. Fernando Gonçalves propõe uma travessia pela cultura ocidental da Antiguidade aos dias de hoje, cruzando história, pensamento, arte, literatura, religião, filosofia, pintura, música, cinema e formas de sensibilidade que moldaram o modo como o Ocidente se pensou a si próprio. O interesse de uma obra assim não está apenas na extensão do arco temporal. Está na tentativa de restituir continuidade a um mundo habituado a viver por fragmentos. A cultura ocidental é hoje frequentemente tratada como campo de batalha ou como museu. Para uns, torna-se património a defender em bloco, sem interrogação; para outros, um legado a desconstruir até à exaustão, como se a crítica exigisse sempre a demolição do objeto criticado. Entre estas duas tentações, perde-se a atitude mais exigente: compreender. Não venerar, não absolver, não cancelar por reflexo. Compreender. Saber de onde vêm as formas, as ideias, as obras, os conflitos, as feridas e as esperanças que ainda nos organizam. A cultura não aparece aqui como ornamento da vida prática, nem como luxo de quem tem tempo. Surge como estrutura de orientação. Uma sociedade que não reconhece as suas camadas de memória fica entregue ao ruído do imediato. Pode ter informação em excesso e, ainda assim, empobrecer na capacidade de juízo. Pode acumular dados, imagens, opiniões, indignações, e perder a continuidade interior que permite distinguir uma herança viva de uma coleção de referências soltas. A expressão cultura geral ganhou, em muitos ambientes, uma sonoridade antiga, quase embaraçosa. Parece pertencer a outro mundo, anterior à especialização extrema, à aceleração digital, à fragmentação dos públicos, à transformação do saber em utilidade mensurável. Talvez por isso volte a ser necessária. Não como pose social, nem como catálogo de nomes ilustres, mas como tecido comum: aquilo que permite a uma comunidade conversar consigo mesma sem começar sempre do zero. A cultura ocidental nunca foi uma linha limpa. É feita de criação e violência, razão e mito, fé e dúvida, império e emancipação, cânone e contestação. Inclui Atenas e Jerusalém, Roma e Florença, mosteiros e universidades, catedrais e revoluções, salões, fábricas, guerras, vanguardas, cinemas, bibliotecas e ruínas. Qualquer aproximação séria a esse percurso tem de aceitar a tensão. O Ocidente não é uma essência imóvel. É uma disputa contínua sobre o que merece ser preservado, reformulado ou superado. Quando se fala de grandes obras e grandes nomes, o perigo é deixá-los imóveis, como medalões numa parede. Mas as obras que permanecem não permanecem por estarem mortas. Permanecem porque continuam a mudar de lugar dentro de nós. Homero, Platão, Agostinho, Dante, Shakespeare, Cervantes, Bach, Kant, Goethe, Beethoven, Dostoiévski, Virginia Woolf, Picasso ou Chaplin — para ficar apenas no tipo de constelação que uma história cultural inevitavelmente convoca — não são peças de decoração civilizacional. São instrumentos de inquietação. Uma obra de divulgação cultural tem uma responsabilidade difícil: ser acessível sem ser pobre; ser panorâmica sem se tornar escolar no pior sentido; ser clara sem transformar a clareza em simplificação. O leitor que procura um livro deste género não precisa apenas de saber quem veio antes de quem. Precisa de perceber que certas ideias continuam a trabalhar por baixo do presente: a dignidade da pessoa, a tensão entre liberdade e ordem, a relação entre beleza e verdade, o lugar do sagrado, a crise da razão, a emergência do indivíduo, o poder da imagem, a fragilidade da democracia, a pergunta pelo sentido. A cultura não nos torna necessariamente melhores. A história europeia é demasiado brutal para consentir essa ingenuidade. Pessoas cultas participaram em violências extremas; sociedades letradas aceitaram barbáries; bibliotecas coexistiram com perseguições. A ausência de cultura, porém, deixa-nos mais disponíveis para simplificações agressivas, para a sedução dos slogans, para o empobrecimento da linguagem e para a ilusão de que o presente se basta a si próprio. Breve História da Cultura Ocidental chega num tempo que desconfia da demora. Tudo pede reação rápida, leitura breve, opinião imediata. A cultura exige outra respiração. Uma ideia atravessa séculos antes de se tornar hábito; uma forma artística reaparece onde menos se espera; uma pergunta antiga pode voltar, intacta, ao centro de uma crise contemporânea. Falar de cultura ocidental hoje é entrar num terreno carregado, frequentemente capturado por agendas identitárias opostas. Abandonar o tema aos que o usam como arma seria uma derrota intelectual. A herança ocidental deve ser estudada, criticada, amada quando merece amor, recusada quando exige recusa, mas nunca entregue à ignorância — nem à ignorância orgulhosa dos que a veneram sem a conhecer, nem à ignorância apressada dos que a rejeitam sem a compreender. O livro de Fernando Gonçalves recupera esse gesto elementar: voltar a ligar. Ligar épocas, disciplinas, obras, pensamentos, experiências históricas. Ligar a arte à vida comum. Ligar a memória à liberdade. Ligar o passado ao julgamento do presente. Numa época em que a atenção se fragmenta e a cultura é tantas vezes reduzida a conteúdo, essa ligação já não é pouco. A pressa continuará a vencer muitos dias. A cultura trabalha noutro tempo.

  • Óscares: o prestígio já não é o centro

    Uma cerimónia pode conservar o brilho mesmo quando deixa de ocupar o centro do mundo que celebra. É essa a sensação que hoje acompanha os Óscares. A estatueta dos Óscares, símbolo máximo de reconhecimento num sistema cinematográfico em transformação. O palco continua a concentrar atenção global, a linguagem do prestígio mantém-se intacta, e o ritual anual ainda é tratado como consagração máxima da indústria. No entanto, a relação entre o que ali se distingue e o sistema real de produção, financiamento, circulação e consumo do cinema tornou-se menos direta do que foi em outras épocas. Não se trata de dizer que os Óscares perderam importância, nem de decretar o esgotamento de Hollywood como centro simbólico. Trata-se, antes, de perceber que o mapa mudou: a cerimónia persiste, mas o terreno em redor deslocou-se. Durante grande parte do século XX, o funcionamento da indústria americana do cinema assentou numa estrutura relativamente reconhecível. Os grandes estúdios concentravam recursos, moldavam carreiras, decidiam calendários e controlavam a distribuição com uma margem de influência muito superior à de hoje. Houve crises, transformações regulatórias, quebras de modelo e mudanças de gosto, mas a centralidade institucional do sistema era suficientemente clara para que a noite dos prémios funcionasse também como espelho do seu equilíbrio interno. Premiar um filme significava, em larga medida, confirmar a hierarquia de um mundo que já se conhecia. Esse quadro começou a tornar-se mais instável à medida que a indústria entrou numa fase prolongada de recomposição. A internacionalização do financiamento, a fragmentação dos públicos, a digitalização da exibição, a multiplicação de plataformas e a integração do cinema em conglomerados empresariais mais vastos reduziram a nitidez das fronteiras antigas. A diferença entre o que pertence ao centro e o que vem das margens tornou-se menos evidente. Um filme pode nascer de um grande estúdio e circular como obra de autor; outro pode ter ambição industrial e depender de circuitos mais próximos da lógica independente; um terceiro pode ser legitimado por festivais, premiado pela Academia e consumido sobretudo fora da sala tradicional. O ecossistema já não obedece a uma linha única de autoridade. É por isso que a ideia de “deslocação” ajuda mais do que a linguagem do declínio. O que está em curso não é apenas uma perda de influência, mas uma redistribuição de funções. A cerimónia mantém valor simbólico elevado, mas já não organiza sozinha o sentido do que conta. O prestígio continua, embora partilhado com outros mecanismos de validação: a circulação internacional, a crítica, os festivais, a conversa digital, a permanência em catálogo, a reutilização em plataformas, a capacidade de atravessar públicos muito diferentes. A consagração institucional permanece importante, mas deixou de ser suficiente para descrever a posição real de um filme no sistema. O contexto histórico ajuda a situar esta mudança sem recorrer a mitologias simplificadoras. Em décadas anteriores, incluindo períodos de forte renovação artística, a inovação era absorvida por um aparelho industrial ainda reconhecível como tal. Mesmo quando novos realizadores alteravam linguagem, tom e ambição temática, faziam-no no interior de um quadro onde os canais de legitimação estavam relativamente concentrados. Hoje, esse quadro continua a existir, mas tornou-se mais poroso. A autoridade não desapareceu; distribuiu-se. Os atores principais dessa transformação são vários e não operam todos com a mesma lógica. Os grandes estúdios continuam a ser decisivos porque conservam infraestrutura, músculo financeiro, capacidade promocional e acesso privilegiado à exibição. Ao mesmo tempo, muitos deles já não funcionam apenas como casas de cinema: fazem parte de grupos empresariais onde o filme é uma peça entre várias, ao lado de televisão, streaming, propriedade intelectual, publicidade, licenciamento e reorganizações de portefólio. Isso altera o tipo de risco que estão dispostos a assumir e a forma como avaliam projetos. As plataformas digitais introduziram uma segunda dinâmica. Não substituíram pura e simplesmente os estúdios, mas mudaram as condições em que muitos filmes são pensados e financiados. Para uma plataforma, um filme não vale apenas pela receita direta de bilheteira ou pelo prestígio crítico; vale também pela sua capacidade de atrair, reter ou reposicionar públicos num catálogo mais vasto. Esta lógica não é idêntica à do estúdio clássico. Produz oportunidades novas, mas também outras dependências. Certos projetos que antes dificilmente avançariam conseguem hoje financiamento; outros passam a existir dentro de métricas de visibilidade e consumo que não têm equivalente direto na tradição cinematográfica. Há ainda os realizadores, argumentistas, produtores e equipas criativas, que navegam entre estas estruturas tentando preservar alguma continuidade artística num ambiente institucional mais móvel. A carreira de um cineasta deixou de depender de um único centro de decisão. Pode passar por festivais, coproduções, televisão premium, streaming, subsídios, estúdios tradicionais ou combinações instáveis de tudo isso. O ganho está na abertura. A dificuldade está na falta de um quadro comum. Os interesses em jogo também se tornaram mais heterogéneos. Para os estúdios, importa equilibrar prestígio, receita, franquias, reputação e gestão de risco. Para as plataformas, importa adicionar cinema a uma estratégia de retenção e de presença global. Para os criadores, importa encontrar condições de produção que não anulem o projeto no momento em que o financiam. Para a Academia, importa manter relevância num ecossistema em que a autoridade simbólica já não decorre automaticamente da antiguidade do ritual. É neste ponto que a cerimónia se torna particularmente reveladora. Ela continua a funcionar como síntese pública de uma indústria, mas de uma indústria que já não é uma unidade simples. Cada escolha, cada exclusão, cada consagração parece carregar menos o peso de uma unanimidade e mais o de um compromisso provisório entre sensibilidades, geografias, gerações e interesses de produção. A própria composição internacional da Academia, muito mais ampla do que noutros períodos, contribui para isso. O voto não se limita hoje ao velho núcleo americano da indústria, e isso altera inevitavelmente o horizonte de referência. A tecnologia agravou essa pluralização. Não apenas porque mudou a forma de ver filmes, mas porque multiplicou os contextos em que um filme pode existir. A sala de cinema mantém centralidade simbólica e experiência própria, mas deixou de ser o lugar único em que a vida do filme se decide. Muitos espectadores conhecem obras premiadas pela primeira vez em plataformas; outros entram nelas por fragmentos, recomendações algorítmicas, excertos, reedições ou circulação social. Isto não significa que o cinema se dissolveu noutros formatos. Significa que o percurso entre criação, consagração e receção se tornou mais descontínuo. Essa descontinuidade tem consequências estéticas e industriais. Certas obras são pensadas para sobreviver a vários ambientes de visualização; outras reforçam precisamente a especificidade da sala; outras ainda procuram um meio-termo. O cinema contemporâneo vive nessa tensão entre permanência e adaptação. A noite dos Óscares, ao celebrar filmes produzidos em condições muito diversas, torna visível esse desencontro sem o resolver. A questão geracional entra aqui de forma inevitável. Uma parte do público e mesmo da indústria continua a relacionar-se com os prémios como ápice de uma tradição. Outra parte vê-os como um ritual importante, mas já não soberano. Não há ruptura absoluta entre estas posições, mas há uma diferença crescente de expectativa. Para uns, a cerimónia confirma uma história. Para outros, regista apenas um momento entre muitos. Também por isso o tom geral destas cerimónias parece por vezes dividido entre celebração e compensação. Celebra-se o cinema, evidentemente. Mas celebra-se também a continuidade de um centro cuja estabilidade já não pode ser pressuposta. Quando o contexto industrial se torna mais volátil, os rituais de legitimidade ganham peso adicional. Não porque recuperem o controlo perdido, mas porque oferecem uma forma de continuidade visível num sistema menos coerente do que antes. Os próximos anos não deverão simplificar este quadro. A concentração empresarial tende a prosseguir, ainda que com resistências regulatórias variáveis. As plataformas continuarão a influenciar o financiamento e os modos de circulação. A economia da sala enfrentará ajustamentos continuados, sem desaparecer. E a Academia será pressionada a manter a sua dupla função: guardar a ideia de tradição e, ao mesmo tempo, não parecer alheada da realidade contemporânea do cinema. A pergunta mais útil, por isso, não é se os Óscares ainda importam. Importam. A pergunta é outra: que tipo de importância exercem num sistema em que o centro deixou de coincidir consigo mesmo? A resposta, por agora, parece ser esta: a cerimónia continua a ser o grande palco do prestígio, mas já não é o único lugar onde o valor do cinema se decide. O que ela sanciona permanece relevante; o que ela já não consegue fazer sozinha é ordenar todo o mapa. Quando um ritual sobrevive à estabilidade do mundo que o criou, não perde necessariamente poder. Muda de função. Talvez seja isso que os Óscares hoje mostram com mais clareza: não o fim de uma centralidade, mas a sua transformação em outra coisa — menos operativa, mais simbólica, e por isso mesmo mais exposta ao tempo em que existe.

  • Amar os livros não é o mesmo que ler. Os filhos sabem.

    O corredor estreito da Livraria Bertrand da Rua Garrett, em Lisboa, obriga quem entra a andar de lado para deixar passar quem sai. É uma das mais antigas livrarias do mundo ainda em funcionamento — o facto consta das paredes, numa placa discreta — e em certas tardes de outubro fica cheia de gente que parece ali estar por razões completamente diferentes. Por que os filhos de pais leitores não lêem? Há quem compre. Há quem folheie durante vinte minutos e saia de mãos vazias. Há quem entre simplesmente para estar naquele cheiro. E há, cada vez mais, gente que tira fotografias às lombadas sem abrir um único volume. A livraria como cenário. O livro como adereço. Não é uma observação moralista. É um dado. Entre a reverência pelo livro e o hábito real de leitura há uma distância que as crianças aprendem a reconhecer muito cedo. Existe uma distinção que os estudos sobre hábitos de leitura raramente formulam com clareza suficiente: a diferença entre amar livros e ler. As duas coisas não são a mesma. É possível ter uma relação intensa, quase devota, com o objeto-livro — a sua textura, o seu peso, a promessa das suas páginas — sem ter uma prática de leitura consistente. E é possível, também, o inverso: ler com regularidade sem nenhum fetichismo particular pelo artefacto. A confusão entre as duas coisas tem consequências práticas, sobretudo quando se tenta perceber como é que os hábitos de leitura se formam — ou não se formam — numa criança. O argumento mais comum diz que o ambiente doméstico decide quase tudo. Que uma casa com livros produz leitores. Que pais que lêem têm filhos que lêem. Há investigação que apoia esta leitura, e ela não está errada. Mas está incompleta de uma forma específica que raramente se nomeia: o que se transmite, na maioria dos casos, não é o hábito de ler. É a posição social da leitura. A ideia de que livros são importantes. O gesto de os ter. A retórica da sua necessidade. Isso é muito diferente de transmitir o prazer concreto, físico, quase viciante, de acabar um capítulo às duas da manhã porque não se consegue largar o livro. Pense-se numa cena comum. Uma família de classe média urbana, escolarizada, com uma estante bem abastecida na sala. Os filhos crescem rodeados de livros. Ouvem, desde pequenos, que ler é fundamental. A escola reforça a mensagem. Os avós oferecem livros no Natal. Há uma biblioteca pública a dez minutos de casa que nunca foi visitada. Os pais, quando questionados, dizem que adoravam ler — usam o imperfeito com uma certa melancolia — mas que agora não têm tempo. O telemóvel está sempre à mão. A série está sempre a meio. O dia é sempre demasiado longo e demasiado curto ao mesmo tempo. A criança observa — não o que lhe dizem, mas o que fazem. A observação não pretende culpar ninguém. É apenas o que acontece. As crianças aprendem comportamentos muito mais do que aprendem declarações. E quando o comportamento observado é — os livros ficam na estante, o ecrã fica na mão — a mensagem recebida não tem nada a ver com a mensagem enviada. A criança percebe, com a crueldade analítica que é específica da infância, que os adultos à sua volta acreditam que ler é importante da mesma forma que acreditam que fazer exercício é importante: com convicção sincera e prática irregular. Existe uma ideia na economia comportamental — o nudge, a pequena empurra — que parte de uma observação banal: as pessoas não agem de acordo com as suas convicções. Agem de acordo com a fricção. Com o que é mais fácil, mais imediato, mais disponível no momento em que têm de escolher. Richard Thaler ganhou um Nobel por levar isso a sério. Aplicado à leitura, o argumento tem uma consequência incómoda: não basta valorizar os livros. É preciso que os livros sejam o objeto de menor resistência no ambiente. Que estejam espalhados, acessíveis, normais. Que não sejam reservados a um território especial — a estante da sala, o quarto de estudo, a lista de presentes de aniversário — mas que apareçam na mesa de jantar, no quarto de banho, na mochila do carro, na mesa de cabeceira com um marcador a meio. O livro como objeto de uso, não de reverência. A reverência é, possivelmente, um dos maiores obstáculos à leitura. Transforma o livro numa categoria moral. E ninguém quer passar o tempo livre a praticar uma atividade moral. A leitura competia, durante séculos, com um número relativamente pequeno de alternativas. A conversa. O trabalho manual. O passeio. A carta. O jogo de cartas. Em cada uma dessas alternativas havia fricção — o jogo de cartas exigia companhia, a conversa exigia energia social, a carta exigia papel e tinteiro e tempo de resposta. O livro, nesse contexto, era muitas vezes o caminho de menor resistência para quem quisesse estar sozinho e ocupado ao mesmo tempo. Esse contexto desapareceu. O telemóvel oferece o mesmo — solidão ocupada, estimulação imediata, possibilidade de pausa e retoma a qualquer momento — sem nenhuma das exigências do livro. Sem a necessidade de manter a atenção durante mais do que trinta segundos. Sem a obrigação de seguir um fio narrativo entre sessões. Sem o investimento inicial de entrar num mundo que ainda não se conhece. Não é que as crianças de hoje sejam menos capazes de ler do que as de gerações anteriores. É que o custo de oportunidade da leitura aumentou de forma dramática. E ninguém fala honestamente sobre isso porque implicaria admitir que o problema não está nas crianças. Está nos adultos que lhes criaram o ambiente. Existe uma geração — a que tem hoje entre trinta e cinco e cinquenta anos, grosso modo — que aprendeu a ler antes da internet e cresceu com a internet. Que tem uma relação com os livros formada num tempo em que eles eram o principal veículo de ficção e conhecimento disponível a baixo custo, e que vive agora num tempo em que essa função foi quase inteiramente substituída. Esta geração continua a comprar livros. Continua a ter estantes. Continua a recomendar títulos e a oferecer volumes e a falar de leitura com uma certa saudade de si própria. Mas a verdade é que lê menos. Muito menos, provavelmente, do que imagina. O resultado é uma espécie de dupla mensagem que as crianças recebem desde muito cedo: os livros são importantes — e os adultos que mais os valorizam são precisamente os que menos tempo passam a lê-los. A dissonância não passa despercebida. Uma criança de oito anos não tem vocabulário para a articular, mas tem antenas suficientemente finas para a detetar. E o que deteta não é hipocrisia — os adultos são genuínos na sua convicção — mas incoerência. A incoerência que existe entre o valor declarado e o uso real. A transmissão de um hábito funciona diferentemente da transmissão de um valor. Um valor pode ser ensinado, repetido, argumentado, reforçado por autoridade. Um hábito só se forma por modelagem — pela observação direta de alguém a fazer a coisa, com regularidade, como parte natural do quotidiano. Um pai que vai à missa todos os domingos transmite o hábito da missa muito mais eficazmente do que um pai que explica a importância da fé sem nunca entrar numa igreja. Um pai que cozinha transmite o prazer de cozinhar de forma que nenhuma conversa sobre gastronomia consegue replicar. A leitura não é diferente. A criança que vê o pai ou a mãe pegar num livro ao fim do dia, não como performance pedagógica mas como gesto natural de quem quer estar naquele lugar durante uma hora, recebe uma informação que nenhuma conversa sobre a importância da leitura consegue transmitir: que um adulto inteligente, ocupado, com muitas outras opções disponíveis, escolhe isto. Que isto é o que um adulto faz quando finalmente tem tempo para si. Essa informação vale mais do que qualquer lista de leituras recomendadas. Há um problema estrutural, contudo, que os argumentos sobre modelagem tendem a ignorar. A modelagem funciona quando o modelo é genuíno. Quando o adulto lê porque quer ler, não porque decidiu que vai ler na frente dos filhos para lhes dar bom exemplo. A segunda situação — o adulto que força o hábito como estratégia parental — é detetável com a mesma precisão com que a criança deteta todas as outras formas de performance adulta. O teatro da virtude é sempre transparente para quem o observa de fora. O que isto significa, na prática, é que a formação de leitores exige algo que nenhum guia parental consegue prescrever: que os pais gostem genuinamente de ler. Que a leitura seja, para eles, um prazer real e não um dever cultural. Que o livro que está na mesa de cabeceira esteja ali porque não conseguiram largar a história antes de adormecer, não porque decidiram que era importante ter um livro visível. E é aqui que o argumento fecha sobre si próprio de uma forma desconfortável: se a transmissão do hábito depende da autenticidade do modelo, e se a geração de pais atuais tem uma relação com a leitura marcada pela dissonância entre o valor declarado e a prática real, então o problema não se resolve com mais estantes nem com mais recomendações de títulos adequados à idade. Resolve-se — se é que se resolve — quando os adultos voltam a ler por prazer próprio, sem agenda pedagógica, sem propósito de exemplo. O que é uma conclusão estranha. Porque sugere que a melhor coisa que um pai pode fazer pela leitura dos filhos é, simplesmente, ler. Não para eles. Para si. Em outubro passado, a Bertrand da Rua Garrett estava, numa tarde de quinta-feira, surpreendentemente cheia. Havia uma sessão de autógrafos que tinha terminado há pouco, e as pessoas que tinham comprado o livro saíam com ele debaixo do braço, a maioria sem o ter aberto. No corredor estreito, uma rapariga de talvez dez anos estava sentada no chão, encostada a uma prateleira de bolso, a ler. Não estava à espera de ninguém. Não estava a ser observada — ou não sabia que estava. Tinha os joelhos dobrados, o livro pousado neles, e uma expressão de ausência completa do lugar onde se encontrava. Ninguém sabe o que a pôs ali. Se foi uma mãe que lia no sofá ou uma professora que lhe deu o livro certo na altura certa ou simplesmente o acidente de ter encontrado uma história que a entrou de forma que não conseguiu resistir. Essas coisas raramente se sabem. O que se sabe é o resultado: uma criança que escolheu, num lugar cheio de distrações, sentar-se no chão e desaparecer dentro de um livro. O que a fez chegar ali é a pergunta que fica. E é uma pergunta que, quanto mais se estuda o assunto, menos tem resposta certa.

  • O General Que Esperou Dois Anos Pelo Golpe Fatal

    HISTÓRIA · Atlantic Lisbon · Portugal/Espanha · Conspiração. | José Sanjurjo y Sacanell Lisboa, 26 de abril de 1934, manhã. O navio holandês Baloeran chega de Gibraltar e encosta ao cais. Não é um desembarque de rotina. Há gente à espera. Portugueses. Espanhóis já instalados em Portugal. Curiosos e simpatizantes misturados, sem uma fronteira nítida entre o folclore do momento e a política que o alimenta. O General José Sanjurjo y Sacanell Que Esperou Dois Anos Pelo Golpe Que o Mataria. Do convés descem José Sanjurjo y Sacanell, a esposa, os filhos Justo e Pepe, e Ricardo Goizueta, amigo. O general não aparece como visitante. Aparece como um homem que foi preso, amnistiado, e que escolheu este lado da fronteira para viver enquanto a outra metade da Península fervilha. O jornalista Félix Correia, do Diário de Lisboa, descreveria anos depois a atmosfera dessa chegada num pequeno livro publicado em 1940. Na sua memória, o cais não foi apenas um lugar de passagem. Foi palco. Houve “vivas”. “Vivas” a Espanha. “Vivas” ao general. E a palavra “general”, ali, não era simples etiqueta. Era um sinal. Sanjurjo tinha 62 anos. Trazia consigo dois anos de prisão e uma tentativa falhada de golpe de Estado. Trazia também a reputação de ser uma das figuras mais importantes do campo que, desde 1931, olhava para a República espanhola como se olhasse para uma usurpação. O país que deixara para trás vivia desde 14 de abril de 1931 sob a Segunda República. No centro do novo regime destacavam-se nomes como Manuel Azaña e Niceto Alcalá-Zamora. A coligação republicano-socialista empurrou reformas e escolhas que dividiram Espanha: laicismo e anticlericalismo, reformas financeiras e de propriedade, reconfigurações na hierarquia militar, e cedências às autonomias catalã, basca e galega. Para monárquicos, católicos, latifundiários e parte dos militares, o conflito deixou de ser abstrato. Tornou-se método, e o método tinha uma gramática: conspiração, tentativa, recuo, nova tentativa. Sanjurjo não era um recém-chegado à máquina do Estado. Era um homem que a conhecia por dentro. Nasceu em Pamplona, em março de 1872, ainda no clima político que antecede a chamada Restauração Bourbon. Serviu no reinado de Afonso XIII e alinhou-se com a ditadura de Miguel Primo de Rivera a partir de 1923. Entre 1928 e 1932, ocupou o cargo de diretor-geral da Guardia Civil — um posto que, na Espanha desse tempo, significava ter nas mãos um instrumento decisivo da ordem pública. Nos primeiros meses da Segunda República, Sanjurjo não foi imediatamente empurrado para fora. Continuou a exercer funções e chegou a ser nomeado Alto-Comissário em Marrocos pelo ministro da Guerra — o próprio Azaña. Mas o texto histórico que serve de base a esta narrativa descreve uma erosão rápida. Ao longo de 1931 surgem divergências. O general reage ao desencadear de perseguições religiosas, à repressão dirigida a companheiros associados ao período ditatorial anterior e a assassinatos que agravam a tensão social. A destituição da direção da Guardia Civil cristaliza a rutura: Sanjurjo deixa de ser homem do regime e passa a ser homem contra ele. A 10 de agosto de 1932, lidera uma revolta em Sevilha contra o governo republicano-socialista dirigido por Azaña. O episódio ficaria conhecido como Sanjurjada. Havia, segundo o mesmo texto, a ideia de uma operação com alcance maior: ofensivas em Madrid como distração e movimentos simultâneos em cinco guarnições — Valladolid, Pamplona, Sevilha, Granada e Cádis — para depois marcharem sobre Madrid. A ambição era militar, e a lógica era a de impor uma cadeia de factos consumados. Mas a realidade foi mais pobre do que o plano. Avançaram apenas Madrid e Sevilha. A falta de coordenação e a adesão limitada condenaram a intentona. Em Sevilha, Sanjurjo decretou o estado de guerra e apresentou-se como alguém que procurava justiça, denunciando abusos e imoralidades do regime. Contou com o apoio da Guardia Civil local. Não chegou. As forças governamentais dominaram o movimento com relativa facilidade. O que acontece a seguir é revelador da proximidade mental — e física — da fronteira portuguesa para este tipo de derrotados. O texto histórico refere que Sanjurjo terá ponderado fugir para Portugal, mas decide entregar-se no dia seguinte em Huelva. No entanto, a imprensa portuguesa publicou uma versão distinta. O Diário de Lisboa avançou que o general não se entregou por vontade própria: teria sido detido quando tentava, de facto, alcançar a via de fuga. Segundo essa notícia, Sanjurjo estaria acompanhado pelo filho Justo e pelo general García de la Herrán. De madrugada, procurava informações junto de um civil sobre como chegar a Ayamonte. Um guarda civil reconhece-o e declara prisão. Sanjurjo não resiste. Por volta das oito da manhã, segue escoltado de Huelva para Madrid. Há, aqui, uma primeira imagem que fica: a da fronteira como hipótese imediata. E, por detrás, a ideia de que Portugal — mesmo antes de receber — já era considerado um possível abrigo. Sanjurjo foi julgado e condenado à morte, mas acabou indultado. Foi enviado para o penal de El Dueso, na Cantábria, onde permaneceu quase dois anos. Um dos textos científicos que acolhemos sublinha um ponto que, na política, pesa como uma decisão: a reclusão não foi particularmente dura. Pelo contrário, foi descrita como benigna, e essa brandura não funcionou como aviso dissuasor. Funcionou como sinal para o campo conservador de que a conspiração podia falhar sem fechar, para sempre, o caminho. Não admira que figuras da própria República tenham visto aí um erro. O texto menciona o socialista Juan Negrín, que considerou que o indulto fora uma falha grave: ao poupar Sanjurjo, a República facilitava futuras conspirações. Entre o final de 1933 e o início de 1934, a conjuntura espanhola muda. Forma-se um governo liderado por Alejandro Lerroux, com a direita a dominar a maioria das pastas. A posição reforça-se quando Lerroux procura apoio junto da CEDA de José María Gil Robles. Este período manter-se-á até fevereiro de 1936, quando a vitória eleitoral da Frente Popular devolverá a esquerda ao poder. Mas, no intervalo, acontece o ponto que altera a vida de Sanjurjo — e altera também o mapa político do seu exílio. A 24 de abril de 1934, é promulgada uma amnistia destinada aos conspiradores ligados à intentona de agosto de 1932. Sanjurjo é libertado no dia seguinte. A imprensa portuguesa acompanha o assunto antes de ele se consumar. O Diário de Lisboa noticiou, já a 21 de abril, um ambiente de festa em Cádis, com hotéis sobrelotados de familiares e amigos à espera. Naquele momento, o destino final do general era objeto de especulação: Lisboa ou Tânger. Dois dias depois, a imprensa mostrava maior convicção: Sanjurjo já teria passaporte para seguir para Portugal, em direção ao Estoril, aguardando apenas o decreto final para sair de Espanha, devidamente escoltado, rumo a Gibraltar — e de Gibraltar para Lisboa. O movimento torna-se mais claro quando se sabe que, a partir desse território britânico, Sanjurjo contacta espanhóis já instalados no Estoril para informar local e hora de chegada. Isso ajuda a explicar por que razão o desembarque de 26 de abril tem “aparatosa” visibilidade. E ajuda a explicar também por que surgem amigos vindos de Espanha para o receber: antigos oficiais como Emílio Esteban-Infantes Martín e Luiz Pelaz La Torre. A imprensa registou que ambos apreciaram o acolhimento das autoridades portuguesas e as facilidades concedidas pelo governo. É aqui que a história deixa de ser apenas biografia de um general espanhol e passa a ser um capítulo ibérico, com Lisboa e o Estoril a entrarem como cenário de um período de preparação. O Estoril não era uma folha em branco. Era uma região com tradição de acolhimento de estrangeiros, sobretudo de classes abastadas que aí faziam veraneio. Mas também era, já então, um espaço onde se fixavam refugiados e exilados — incluindo espanhóis que tinham chegado após a implantação da República e após o falhanço do golpe de 1932. Esse pano de fundo importa: cria redes, hábitos, sociabilidades. Permite que um homem como Sanjurjo não chegue a um deserto. Chega a um lugar onde há gente que o entende, gente que o protege, gente que o reconhece. O texto histórico aponta ainda a moldura política que torna esse acolhimento possível. Portugal vivia uma situação favorável à direita espanhola: primeiro sob a Ditadura Militar e depois, a partir de 1933, sob o autodenominado Estado Novo. Esse quadro seria propício aos intentos da direita espanhola e ao desenvolvimento de atividades conspirativas — até ao início da Guerra Civil. Há também um dado mais antigo, menos dramático e mais estrutural: a longa tradição de mobilidades ibéricas. Movimentos por trabalho, por lazer, por contrabando, por deslocações forçadas. Mais tarde, a guerra civil produziria fluxos de refugiados em grande escala. Mas o corredor humano e logístico entre países já existia. A história, aqui, não precisa de ornamentação: basta reconhecer que, para certos homens, atravessar a fronteira nunca foi um ato excecional. Foi uma técnica de sobrevivência política. Entre 1934 e 1936, a residência de Sanjurjo no Estoril ganha peso na leitura do período. O texto-base é explícito no objetivo: analisar o acolhimento dado pelo governo português e pela população local e compreender como a presença do general contribuiu para que Portugal, e aquela zona em particular, passassem a ser percepcionados como um centro de conspiração da direita espanhola. Esse é o ponto decisivo. A presença de uma figura de alto perfil — libertada por amnistia, recebida com aparato, instalada numa zona com redes de exilados — não é uma nota de rodapé. É um elemento que participa na forma como a conspiração se organiza e é entendida. A própria direita espanhola, depois do falhanço de 1932, retira lições operacionais. O texto refere conclusões concretas: necessidade do apoio da Guardia Civil e da Guardia de Asalto; importância de neutralizar autoridades municipais republicanas e líderes sindicais; e urgência de avançar apenas com planificação bem definida. Percebe-se também que o Estado republicano era mais forte do que parte dos conspiradores supunha e que a oposição ativa no terreno estava limitada a grupos pequenos, unidos sobretudo por aversão comum ao regime. A Sanjurjada, mesmo derrotada, funcionou como ensaio. E os ensaios, em política, raramente desaparecem sem deixar método. Durante a revolta, Sanjurjo não se limitou ao gesto militar. O texto menciona as ideias que apresentou à audiência de Sevilha: libertar Espanha do que considerava prejuízos morais e materiais do governo republicano, convocar novas Cortes Constituintes para definir a forma de governo, assegurar eleições livres. Ao mesmo tempo, acusou o governo de “tirania sectária”, de danos económicos e de aumento da criminalidade. Há uma contradição intrínseca neste tipo de discurso — a promessa de liberdade por via do ato de força — e é precisamente essa contradição que ajuda a perceber por que figuras como Sanjurjo podiam ser, ao mesmo tempo, militares de carreira e símbolos de uma política de derrube. O arco fecha-se com uma ironia factual, sem necessidade de exagero. A 18 de julho de 1936, deflagra o golpe militar contra a República. Sanjurjo preparava-se para regressar a Espanha e liderar a operação. Mas a 20 de julho de 1936, morre em Cascais, num acidente aéreo, quando se preparava para seguir viagem. O homem que atravessara fronteiras para conspirar contra a República, que passara dois anos no Estoril após ser libertado, que sobrevivera à prisão e ao indulto, morre antes de chegar ao centro do palco para o qual se preparava. A sua estada em Portugal não foi um parêntesis. Foi antecâmara. E, na leitura que o texto histórico propõe, foi também parte da fase de preparação: Portugal como apoio relevante não apenas durante a guerra civil, mas na arquitetura que a antecede. Nota final: Este texto é uma narrativa jornalística construída exclusivamente a partir dos excertos históricos fornecidos (incluindo as referências à imprensa portuguesa citada e às obras consultadas). (Referências no fim da imagem) Capa — O General Que Esperou Dois Anos Pelo Golpe Fatal Referências bibliográficas Sacanell Ruiz de Apodaca, Enrique — El general Sanjurjo, héroe y víctima. El militar que pudo evitar la dictadura franquista. Madrid: La Esfera de los Libros, 2004. Esteban-Infante, Emilio — General Sanjurjo (Un laureado en el penal del Dueso). Madrid: Editorial AHR, 1957. Sacanell Ruiz de Apodaca, Enrique — 1936. La conspiración. Madrid: Síntesis, 2008. Ruiz, David — Octubre de 1934. Madrid: Síntesis, 2008. Márquez Hidalgo, Francisco — Las sublevaciones contra la Segunda República. Madrid: Síntesis, 2010. Alía Miranda, Francisco — Julio de 1936. Conspiración y alzamiento contra la II República. Barcelona: Crítica, 2011. Viñas, Ángel — La Alemania nazi y el 18 de julio. Madrid: Alianza, 1977. Payne, Stanley G. — El colapso de la República. Los orígenes de la Guerra Civil (1933-1936). Madrid: La Esfera de los Libros, 2005. Payne, Stanley G. — El camino al 18 de julio. La erosión de la democracia en España (diciembre de 1935-julio de 1936). Madrid: Espasa, 2016. Ranzato, Gabriele — El eclipse de la democracia. La guerra civil española y sus orígenes, 1931-1939. Madrid: Siglo XXI, 2006. Oliveira, César — Portugal e a II República de Espanha, 1931-1936. Lisboa: Perspetivas & Realidades, 1985. Álvarez Rey, Leandro (coord.) — La Segunda República Española, 90 años después. Balances y perspectivas. Madrid: Centro de Estudios Políticos y Constitucionales, 2022. Martínez Bande, José Manuel — Los años críticos: República, conspiración, revolución y alzamiento. Madrid: Ediciones Encuentro, 2007. Alonso Rodríguez, Elfídio — “Reflexiones sobre ‘ABC republicano’, a través de su diretor”. In: 70 años de ABC, 1994. González Calleja, Eduardo — Contrarrevolucionarios. Radicalización violenta de las derechas durante la Segunda República, 1931-1936. Madrid: Alianza Editorial, 2011. Preston, Paul — El holocausto español. Odio y exterminio en la Guerra Civil y después. Barcelona: Debolsillo, 2011. Sardica, José Miguel — Ibéria. A relação entre Portugal e Espanha no século XX. Lisboa: Alêtheia Editores, 2013. Olaguíbel, Joaquín — Abril de 1934. La amnistia de las derechas y la crisis del vituperio. Sevilla: Ediciones Espuela de Plata, 2022. Correia, Félix — Quem vem lá? Gente de paz! Gente de guerra... Lisboa: Edição do autor, 1940. Imprensa periódica citada no texto-base Diário de Lisboa — 10 de agosto de 1932, p. 4. Diário de Lisboa — 11 de agosto de 1932, p. 5 e p. 8. Diário de Lisboa — reportagem sobre a detenção e escolta (11 de agosto de 1932), p. 5. Diário da Manhã — 27 de abril de 1934, p. 1. Diário de Lisboa — notícia sobre a amnistia e ambiente em Cádis (data indicada no texto-base: 21 de agosto de 1934), p. 12. Diário de Lisboa — notícia sobre passaporte e destino Estoril (data indicada no texto-base: 23 de agosto de 1934), p. 8. #AtlanticLisbon #Historia #Portugal #Espanha #Estoril #Lisboa #Sanjurjo #SegundaRepublica #GuerraCivilEspanhola #Conspiracao #EstadoNovo

  • Portugal reconhece o Estado da Palestina — coragem, consequências e a medida da nossa decência

    Portugal reconhece o Estado da Palestina — coragem, consequências e a medida da nossa decência. Londres/Nova Iorque/Lisboa, 21 de setembro de 2025. Não foi apenas um gesto protocolar: Portugal reconheceu oficialmente o Estado da Palestina. O anúncio, feito por Paulo Rangel, na Missão Permanente junto das Nações Unidas, colocou-nos, finalmente, do lado da coerência — a mesma que juramos sempre que falamos de direitos humanos, direito internacional e solução de dois Estados. Um país que pronuncia “paz” sem sussurros Há momentos em que a política externa revela a espinha dorsal de um país. Hoje foi um desses momentos. Portugal deu nome a uma evidência moral e jurídica: não haverá paz duradoura se não houver dois Estados, vivos, viáveis, reconhecidos. Ao fazê-lo em coordenação com aliados que até ontem hesitavam — Reino Unido, Canadá e Austrália — o Governo português evitou a solidão diplomática e reforçou o efeito de alavanca desta decisão. Não romantizemos: reconhecer não é resolver. Mas é romper com a indecisão, com o cálculo que eterniza tragédias e com a confortável neutralidade que, tantas vezes, funciona como cumplicidade. A gramática da coerência Reconhecer é também prometer coerência. O ministro sublinhou o óbvio: condenação do Hamas, libertação de todos os reféns, rejeição da sua tutela sobre Gaza, defesa da cessação imediata das hostilidades e denúncia do horror humanitário. Reafirmou, ainda, o caráter ilegal da expansão de colonatos na Cisjordânia — a ferida que rasga qualquer mapa de paz. Esta linguagem conta. E compromete. Quando governos amigos avançam no mesmo sentido — e quando o Reino Unido altera décadas de prática —, percebe-se que não se trata de capricho. Trata-se de uma viragem de paradigma face à continuação da guerra em Gaza e à política de colonatos, inclusive na área sensível do corredor E1, que ameaça transformar o “Estado palestiniano” numa palavra sem território. Memória portuguesa: de Timor à Palestina Portugal tem memória longa. A nossa Constituição inscreveu, depois de 1974, uma ideia clara de paz e autodeterminação. Foi com essa bússola que insistimos por Timor-Leste quando poucos queriam ouvir. Não fomos perfeitos, mas fomos persistentes. Essa persistência é agora exigida para que o reconhecimento não fique em moldura: tem de se traduzir em política pública, diplomacia ativa e ajuda concreta. O ónus de quem reconhece: 10 tarefas para já Diplomacia consequente na UE e na ONU. Portugal deve trabalhar com Madrid, Dublin e Oslo, que, em 2024, já tinham normalizado este passo, para um bloco europeu coerente sobre cessar-fogo, fronteiras, colonatos e garantias de segurança. Apoio humanitário vinculante. Reforçar contribuições a agências reconhecidas e organizações com provas dadas no terreno, com mecanismos de auditoria públicos. Programa de vistos humanitários e bolsas. Crianças e estudantes palestinianos precisam de corredores seguros para tratamento clínico e continuidade académica; é possível fazê-lo sem improvisos, com metas verificáveis. Revisão de licenças de exportação de material de defesa. Congelar tudo o que possa, direta ou indiretamente, alimentar violações de direito internacional humanitário — por qualquer das partes. Sanções direcionadas a quem promove colonatos ilegais. Medidas pontuais, graduais, com avaliação técnica e coordenação europeia, centradas em atores e entidades que lucram com a ilegalidade. Apoio a reformas na Autoridade Palestiniana. Sem instituições que funcionem, a palavra “Estado” perde substância. Reformar, profissionalizar e responsabilizar é condição, não adereço. Defesa do direito internacional. Apoiar ativamente os tribunais internacionais quando investigam crimes graves, sem exceções de conveniência. Canais de diálogo com Israel. Segurança de Israel e dignidade palestiniana não são termos contraditórios; são condições mútuas. Reconhecer a Palestina não é negar Israel. Missão técnica portuguesa para reconstrução essencial. Água, energia, escolas e hospitais: onde a nossa engenharia, saúde e ensino superior podem acrescentar valor com parceiros locais. Diplomacia cultural e académica. Redes entre universidades portuguesas e palestinianas, residências artísticas e projetos de língua portuguesa podem abrir janelas onde as paredes parecem definitivas. As crianças no centro Quem são os sujeitos do reconhecimento? Não apenas líderes e chancelarias — são sobretudo as crianças que aprenderam a desenhar sob bombardeamentos e as que vivem com medo de sirenes; as de Gaza e as do sul de Israel; as que perderam a casa, a escola, os amigos. A política externa que ignora esta realidade transforma-se em geometria sem vida. O reconhecimento, por si só, não lhes devolve o tempo roubado; mas pode encurtar a distância entre o que dizemos e o que fazemos por elas. (As decisões de hoje foram justificadas, entre outros motivos, pelo agravamento humanitário e pela estagnação do processo de paz). Riscos reais, mas proporcionais Haverá reações duras — diplomáticas, comerciais, retóricas. Israel já tem contestado movimentos análogos feitos por outros países europeus; governos que hoje avançam — Reino Unido, Canadá, Austrália — assumem esse custo em nome de uma ideia simples: quando o processo de paz se esgota, é preciso reabrir o mapa com decisões políticas. Portugal não está sozinho nessa leitura. Mas os riscos não diminuem a legitimidade do passo. Pelo contrário: testam-no. A política é feita de escolhas visíveis. Este é um desses dias em que um país se vê ao espelho. O que muda, afinal? Muda a posição de partida quando Portugal falar de Gaza, de colonatos, de justiça e de segurança. Muda o peso da nossa voz quando apelarmos a cessar-fogo, à libertação de reféns, ao fim dos lançamentos de rockets, ao fim das incursões que devastam comunidades inteiras. Muda a expectativa sobre nós próprios: quem reconhece não pode pactuar com ambiguidades. Muda também a arquitetura internacional. O gesto de hoje segue uma linha crescente, iniciada por países europeus em 2024 — Espanha, Irlanda e Noruega — e reforçada agora por aliados centrais. Não é um fim; é a reabertura das possibilidades. Um país é o que faz com o que diz Reconhecer a Palestina não é um troféu moral. É um contrato. Exige transparência, escrutínio, relatórios públicos de execução das promessas que hoje se enunciaram. Exige que a oposição parlamentar critique com seriedade, que a sociedade civil exija resultados, que a comunicação social acompanhe com rigor — sem cinismo, sem propaganda. E exige, sobretudo, proximidade humana. Quem esteve em campos de refugiados sabe que a palavra “Estado” vale tanto quanto a próxima refeição, a próxima aula, a próxima consulta. A política externa começa, muitas vezes, no gesto concreto de garantir que um laboratório funciona, que uma escola reabre, que um trauma é tratado com dignidade. Final: um dia para estar à altura Hoje Portugal pronunciou “Palestina” com a boca inteira. Agora precisa de conjugar o verbo: amparar, reconstruir, negociar, insistir, proteger. Não se trata de escolher um lado da história; trata-se de escolher o lado do futuro. Um futuro onde duas bandeiras cabem no mesmo horizonte e onde uma criança pode aprender a escrever o seu nome sem medo. Se esse futuro é possível? Não sei. Sei apenas que os países que o tornam menos impossível são os que dizem e, depois, fazem. Um gesto histórico que só fará sentido se for seguido de política, ajuda e coerência #Portugal #Palestina #DoisEstados #DireitosHumanos #Diplomacia #Paz

  • Quando as Tragédias Já Não Unem: Bondi Beach e o Fim do Consenso

    CONTEXTO · Mundo · Oceânia · Sociedade e Política A Austrália sempre se orgulhou de responder a crises nacionais com unidade. O massacre em Bondi Beach durou horas. A unidade política durou menos ainda. O que aconteceu revela mais do que uma falha de liderança — revela uma mudança profunda em como as democracias ocidentais lidam com o luto coletivo. Quando as Tragédias Já Não Unem: Bondi Beach e o Fim do Consenso. Houve um tempo — não assim tão distante — em que tragédias nacionais produziam algo parecido com união. Não unanimidade, que é impossível em democracia. Mas pelo menos uma trégua temporária. Um reconhecimento tácito de que havia momentos em que a política partidária devia parar, nem que fosse por respeito aos mortos. Esse tempo, aparentemente, acabou. Em Bondi Beach, Sydney, quinze pessoas foram mortas a tiro durante uma celebração de Hanukkah. Aconteceu à luz do dia, numa das praias mais icónicas da Austrália, num país que se orgulha de ter algumas das leis de controlo de armas mais rigorosas do mundo desde 1996. As primeiras horas após o massacre seguiram o guião esperado. O Primeiro-Ministro Anthony Albanese apelou à unidade. Disse que atacar a comunidade judaica era atacar todos os australianos. Sussan Ley, que lidera a oposição conservadora, prometeu apoio total e incondicional. E depois, quase imediatamente, tudo desmoronou. A Velocidade da Decomposição Mark Kenny, que dirige o Instituto de Estudos Australianos, disse algo revelador: nunca tinha visto "um momento de tragédia nacional transformado tão rapidamente em vantagem política partidária". Rapidamente quanto? Dias. Talvez menos. A oposição começou a culpar Albanese directamente pelo massacre. Não de forma subtil ou implícita. Directamente. Josh Frydenberg, antigo político do Partido Liberal e ele próprio judeu, exigiu num discurso público que Albanese assumisse "responsabilidade pessoal pela morte de 15 pessoas inocentes". Responsabilidade pessoal. Pela morte de 15 pessoas. Mortas a tiro por dois homens que ninguém na oposição conhecia, que ninguém tinha controlado, que ninguém — nem governo nem oposição — tinha previsto. Isto não é crítica política normal. Isto é acusação de cumplicidade moral. E funcionou. Ou pelo menos, teve o efeito desejado: colocou Albanese permanentemente na defensiva, transformou o luto numa arma, e garantiu que qualquer tentativa de resposta política seria vista como insuficiente ou calculista. O Que Albanese Fez (E Porque Não Chegou) Albanese não esteve parado. O seu governo nomeou o primeiro enviado australiano contra o antissemitismo. Aprovou legislação que criminaliza discurso de ódio. Condenou publicamente as motivações antissemitas do ataque. Propôs apertar ainda mais as leis de controlo de armas. Mas nada disto foi suficiente. Não para a comunidade judaica em luto. Não para a oposição, que viu aqui uma oportunidade política rara. E talvez não até para alguns dentro do próprio governo, que reconhecem — em privado — que Albanese não é um comunicador natural. Kenny foi direto: Albanese teve dificuldade em estar à altura do momento. Para os judeus australianos, soou pouco convincente. E havia mais. Meses antes do ataque, o enviado contra o antissemitismo tinha feito recomendações ao governo. Criar uma base de dados nacional de incidentes antissemitas. Dar ao governo poder para reter financiamento a universidades que não combatessem o antissemitismo. Albanese não agiu com a velocidade que esperavam. E agora pagava o preço. Mas há algo perturbador nesta narrativa. A ideia de que se Albanese tivesse implementado essas recomendações alguns meses mais cedo, quinze pessoas não estariam mortas. Como se bases de dados prevenissem massacres. Como se burocracias administrativas impedissem homens armados de abrir fogo numa praia. É uma ilusão reconfortante. Dá a sensação de que há sempre algo que poderia ter sido feito. Que tragédias são evitáveis se apenas os políticos fizerem o seu trabalho. Mas raramente é assim tão simples. A Ironia de John Howard Há um momento de ironia quase brutal nesta história. Quando Albanese propôs apertar as leis de controlo de armas — uma resposta que parecia óbvia, dado que quinze pessoas tinham sido mortas a tiro — uma das primeiras vozes a atacá-lo foi John Howard. Howard é quase uma figura mítica na política australiana. Foi ele, como primeiro-ministro conservador em 1996, que implementou as leis rigorosas de controlo de armas após um massacre que matou 35 pessoas na Tasmânia. Leis que são celebradas até hoje. Leis que tiveram apoio bipartidário. Mas desta vez, Howard disse que o foco nas armas era uma distração. Que o verdadeiro problema era o antissemitismo. Que Albanese estava a desviar atenções. É uma posição estranha vinda de alguém cuja principal realização política foi precisamente apertar o controlo de armas após uma tragédia semelhante. Mas encaixa-se na narrativa mais ampla: Albanese está a fazer as coisas erradas. Está a falhar. E talvez haja nisso uma lição sobre como o consenso se desfaz. Não através de grandes rupturas ideológicas. Mas através da erosão gradual de normas que todos consideravam óbvias. Como a ideia de que apertar leis de armas após um massacre é uma resposta sensata. Ou a ideia de que políticos não devem culpar diretamente adversários por mortes que não causaram. A Comunidade Que Não Pode Ser Consolada A comunidade judaica australiana está furiosa. E tem motivos. Durante dois anos, desde os ataques do Hamas a 7 de Outubro de 2023 e a guerra em Gaza, muitos judeus australianos sentiram-se cada vez mais inseguros. Houve incidentes. Houve retórica. Houve a sensação de que o governo não estava a fazer o suficiente. E agora havia quinze mortos. Julianne Schultz, professora na Universidade Griffith, disse que o trauma, dor e raiva na comunidade judaica "vão fundo". Mas em vez de trabalhar para a cura, partes da oposição amplificaram essa raiva. Isto levanta uma pergunta difícil: o que é que um governo pode fazer quando uma comunidade em luto decide que nada é suficiente? Albanese não foi aos funerais. Alguns disseram que foi cobardia. Mas outros reconheceram que a sua presença poderia ter sido, ela própria, motivo de protesto. Quando apareceu num memorial em Bondi Beach uma semana após o ataque, parte da multidão vaiou-o. Ele não discursou. Que resposta teria sido adequada? Que gesto teria sido suficiente? Talvez nenhum. Talvez, neste momento, não haja nada que Albanese possa fazer que não seja visto como calculista ou insuficiente. Porque a raiva não é apenas sobre políticas. É sobre medo. E o medo não se resolve com nomeações de enviados ou bases de dados. Netanyahu e a Globalização da Raiva Horas após o massacre, Benjamin Netanyahu fez o que faz melhor: transformou tragédia em arma política. Ligou o ataque diretamente à decisão da Austrália, em Setembro, de reconhecer a Palestina como estado. "Deixaram a doença espalhar-se e o resultado são os ataques horríveis aos judeus que vimos hoje", disse. É uma acusação extraordinária. Implica que reconhecer diplomaticamente a Palestina causou — directa ou indirectamente — um massacre em Sydney. Como se houvesse uma linha clara entre uma decisão de política externa e dois homens armados numa praia. Mas a acusação não precisa de fazer sentido lógico para ter impacto político. E teve. Porque deu à oposição australiana uma narrativa pronta: Albanese foi demasiado brando. Priorizou relações com países árabes. Falhou em proteger judeus australianos. E aqui está o padrão mais amplo: tragédias locais são cada vez mais interpretadas através de lentes globais. O que aconteceu em Bondi Beach não é apenas sobre Austrália. É sobre Gaza. É sobre Israel. É sobre tensões que atravessam continentes e que nenhum primeiro-ministro australiano consegue resolver sozinho. Isso não torna a tragédia menos real. Mas torna a resposta política quase impossível. Porque não há consenso sobre o que causou o problema. E sem consenso sobre causas, não pode haver consenso sobre soluções. Ecos Americanos Schultz vê semelhanças com os Estados Unidos. A forma como a oposição amplificou a raiva em vez de trabalhar para a cura. A velocidade com que a tragédia se transformou em arma política. A polarização crescente. "Isto vai além de algo que vimos aqui no passado", disse. A Austrália sempre se orgulhou de ser diferente. De ter um centro político forte. De ter líderes que gravitam para o consenso. De ter uma cultura política menos tóxica do que a americana. Mas essa diferença está a diminuir. E Bondi Beach pode ser o momento em que se percebeu que a excepção australiana era mais frágil do que se pensava. Kos Samaras, antigo estratega trabalhista, disse algo importante: "O público australiano não quer um jogo de futebol político aqui. Querem uma resposta nacional." Mas a questão é: ainda é possível dar uma resposta nacional quando já não há consenso sobre o que a nação é ou deveria ser? O Custo do Pluralismo No fundo, o que está em jogo não é apenas a carreira de Albanese. É a capacidade da Austrália de funcionar como sociedade pluralista. Uma sociedade onde pessoas de diferentes origens, religiões e perspectivas políticas conseguem coexistir. Onde tragédias unem em vez de dividir. Onde o discurso político, mesmo em desacordo, mantém um mínimo de civilidade. "Se a ameaça se torna existencial, o pluralismo desmorona-se, a menos que se trabalhe muito arduamente nele", disse Schultz. "É esse o território em que estamos agora." E talvez seja esse o ponto. Talvez estejamos num momento em que o esforço necessário para manter o pluralismo excede a vontade política disponível. Em que é mais fácil amplificar raiva do que construir pontes. Em que é mais rentável politicamente culpar do que consolar. Conclusão: E Agora? Quinze pessoas morreram em Bondi Beach. Famílias foram destruídas. Uma comunidade está em luto. E a política australiana, por agora, parece incapaz de oferecer outra coisa que não seja mais divisão. Talvez mude. Talvez, com tempo, haja espaço para cura. Talvez a próxima tragédia — porque haverá uma próxima — seja respondida de forma diferente. Mas neste momento, duas semanas após o massacre, esse espaço não existe. E isso, mais do que qualquer política específica ou falha de comunicação, é o verdadeiro legado de Bondi Beach. Não que um governo falhou. Mas que o consenso que permitia responder a falhas colectivamente já não está disponível. As tragédias já não unem. Agora, dividem. E quando isso se torna normal, quando se torna a expectativa em vez da excepção, algo fundamental mudou. A Austrália pode ainda recuperar o que perdeu. Mas primeiro precisa de reconhecer que o perdeu. E essa, talvez, seja a conversa mais difícil de todas. Austrália. O massacre em Bondi Beach testou a capacidade do país de manter o consenso político em momentos de crise nacional. Foto: Unsplash #Austrália #BondiBeach #PolíticaAustraliana #ConsensoPolítico #Democracia #Pluralismo #AnálisePolítica #Polarização #AnthonyAlbanese #CrisePolítica #ArcanaNews #OpiniãoPolítica

  • A Indústria da Boa Consciência

    ENSAIO · Economia · Ajuda Internacional · Caridade Genebra não é um lugar. É um método. Há momentos em que a caridade parece uma sala com ar condicionado. Não é metáfora. É literalmente uma sala. A cena repete-se com pequenas variações, como um ritual secular: hotel impecável, carpetes espessas, um palco com luzes que fazem qualquer frase parecer mais séria do que é, e um ecrã grande o suficiente para transformar um gráfico num ato de fé. No foyer, mesas com café, água e pequenas peças de fruta cortada, como se a pobreza extrema fosse um assunto que se resolvesse com boas escolhas alimentares. A conferência, desta vez, tinha como tema “erradicação da pobreza”. Um título que soa absoluto, redondo, quase bíblico. E foi ali, no intervalo, que um trabalhador humanitário — duas décadas de terreno, África e Ásia, uma vida inteira a negociar com a logística e com a lama — olhou para o buffet e fez um comentário que não era sequer indignação. Era cansaço. Um tipo de lucidez exausta. Disse que, só naquele encontro, com voos, hotel, catering e produção, se queimava dinheiro suficiente para erguer várias salas de aula num distrito rural qualquer. Não tinha a exatidão de um auditor. Tinha a exatidão de quem já montou tendas em lugares onde as crianças escrevem no chão. A frase ficou no ar com um silêncio incómodo. Não porque fosse falsa. Mas porque era indecente, no sentido antigo da palavra: fora de cena. Há verdades que não se dizem em Genebra. Nem em Bruxelas. Nem em Nova Iorque. Nem em qualquer cidade onde a compaixão tem crachá e agenda. O estranho é que ninguém naquela sala precisava de ser convencido. Toda a gente sabia. E, mesmo assim, tudo continuou como se nada fosse. Porque, num certo ponto, a ajuda deixa de ser um gesto e passa a ser uma profissão. E, quando vira profissão, constrói o que qualquer profissão constrói: carreira, reputação, salários, redes, códigos internos, linguagem própria e um instinto de sobrevivência que não tem necessariamente má-fé — mas tem sempre consequência. A indústria da boa consciência não vive de cinismo. Vive de estrutura. O dinheiro e a viagem até ao “terreno” Quando uma pessoa doa cem euros, imagina uma linha direta: eu → alguém. A criança. A família. O poço. A escola. A ideia é tão simples que parece impossível ser mentirosa. Mas não é uma linha direta. É um percurso. Antes de chegar ao “terreno” (palavra repetida até ficar lisa), o dinheiro passa por escritórios, relatórios, revisões, reuniões, procurement, compliance, auditorias, avaliações intermédias e avaliações finais — e, no meio, pelo custo de manter gente capaz de fazer isso. Os defensores do modelo dizem: sem essa estrutura, a ajuda colapsa. E têm razão num ponto essencial. A ajuda, para existir, precisa de logística. Precisa de segurança. Precisa de contratos. Precisa de rastreabilidade. Precisa de evitar corrupção, desvio, captura política. Precisa de regras, porque, quando se mexe com dinheiro e vulnerabilidade, a tentação cresce. O problema começa quando a estrutura deixa de ser um meio e passa a ser o fim. Há um ponto a partir do qual a ajuda já não se organiza para chegar a pessoas — organiza-se para continuar organizada. E, quando isso acontece, a prioridade muda: menos “o que é preciso” e mais “o que é financiável”, “o que é reportável”, “o que é replicável”, “o que se traduz bem em indicadores”. Os números variam de organização para organização, e há instituições que trabalham com overhead baixo e disciplina real. Mas, mesmo nos melhores casos, ninguém sério promete que 100% da sua doação cai no colo de um beneficiário. Se prometesse, estaria a mentir ou a esconder coisas. A questão, portanto, não é existir custo administrativo. A questão é quando o custo administrativo ganha vida própria. E aqui entramos no assunto que irrita sempre alguém: salários. A ajuda como carreira e a moral dos salários No discurso oficial, ninguém é “bem pago”. É “remunerado de forma competitiva” para atrair talento. A linguagem, como sempre, faz a anestesia. Um diretor executivo de grande ONG pode receber valores próximos dos de gestores seniores no sector privado. Coordenadores de país, especialistas de segurança, responsáveis financeiros, gestores de projeto — muitos vivem num patamar salarial muito acima do contexto em que operam, com casa assegurada, motorista (em certos lugares), seguros, voos periódicos. Quem já esteve no terreno sabe que alguns desses benefícios são defensáveis: não é luxo, é sobrevivência operacional. A linha entre “necessário” e “confortável”, porém, é uma linha que se move sempre na direção conveniente. O argumento habitual é simples: “Se queremos competência, temos de pagar.” Certo. Só que o resultado concreto é este: cria-se uma classe profissional internacional que vive da pobreza como tema — sem, na prática, viver na pobreza como condição. Isto não implica falta de ética individual. Implica uma contradição estrutural. O humanitário veterano que fez o comentário do buffet não parecia invejoso. Parecia, isso sim, alguém que percebeu o que custa a justificar a si próprio, todos os anos, a mesma engrenagem. Há um tipo de fadiga moral que não se resolve com boas intenções. Resolve-se com desenho institucional. E, muitas vezes, ninguém quer mexer no desenho. Genebra como mercado — e a conferência como mecanismo de pertença A conferência não é apenas conferência. É mercado. Não um mercado de produtos, mas de pertenças: “Quem está dentro?”, “Quem é credível?”, “Quem pode ser parceiro?”, “Quem tem acesso ao doador?”, “Quem tem ‘capacidade de absorção’?”, “Quem é seguro para financiar?”. Numa área onde o risco reputacional pode destruir uma organização, o capital mais valioso é confiança entre pares — e essa confiança constrói-se, em larga medida, por presença. Genebra, por isso, não é um lugar. É uma forma de funcionar: encontros, painéis, documentos finais, fotografias, declarações, networking. E um detalhe quase cómico: muitas vezes, as pessoas que falam de “dar voz aos locais” são as mesmas que voam para falar sobre isso numa cidade onde o bilhete de comboio para a periferia já é caro para a vida real. As conferências cumprem funções legítimas: coordenam, estabelecem padrões, evitam duplicações, trocam práticas. O problema é quando o custo do ritual cresce até se tornar indecente — e quando a conferência serve mais a rede do que os destinatários do trabalho. E isso não se mede só em dinheiro. Mede-se em tempo. Tempo em que um gestor está em hotel e não está a ouvir uma comunidade. Tempo em que uma organização escreve um documento brilhante e não faz a pergunta óbvia: “Isto vai funcionar quando nós formos embora?” A ajuda, muitas vezes, vive de um paradoxo: o ato de “organizar para ajudar” consome uma parte significativa do que se pretende entregar. O projeto “bem desenhado” que nasce errado Há um tipo de falhanço que não é escândalo. É normalidade. Um projeto chega com nome optimista: “Resiliência alimentar” ou “Capacitação comunitária”. Tem orçamento grande o suficiente para dar confiança. Tem matriz lógica, teoria da mudança, indicadores. Tem tudo o que um doador quer ler. E, ainda assim, nasce errado — porque nasce no lugar errado. O desenho faz-se numa capital, numa sede regional, ou num escritório europeu, com gente competente, sim, mas distante. Visitas curtas, mediadas, uma tradução apressada, uma reunião com líderes locais que já aprenderam o que dizer para garantir continuidade de apoios. As prioridades do documento não são o que a comunidade precisa; são o que a cadeia institucional consegue financiar, justificar e medir. Depois vêm os “inputs”: sementes melhoradas, kits, formações, armazéns, cooperativas. A lista é familiar e, por isso, tranquilizadora. E é exatamente essa familiaridade que é perigosa: repete-se o que já foi aprovado antes, porque já tem prova burocrática de sucesso, mesmo quando o sucesso no papel não coincide com a vida. Dois anos depois, chega uma avaliação externa. A linguagem é prudente, eufemística: “impacto limitado”, “desafios de implementação”, “lições aprendidas”. E a vida continua. A organização não fecha. O doador financia outro ciclo. O responsável é promovido, deslocado, reatribuído. Não há maldade aqui. Há incentivos. O sector aprende depressa o que recompensa: gastar o orçamento dentro do prazo, produzir relatórios consistentes, não causar problemas ao doador, manter reputação, garantir renovação. O impacto real, quando existe, é bem-vindo. Quando não existe, é interpretado como “contexto”. E o contexto é sempre uma explicação disponível. Métricas: contar coisas em vez de mudar coisas A ajuda ama métricas porque precisa delas para existir. Sem números, o dinheiro fecha. Sem números, não há prestação de contas. O problema é que a métrica, quase sempre, mede o que é fácil e não o que é vital. Construíram-se cem poços. Óptimo. Mas quantos funcionam passados seis meses? Quantos funcionam passados três anos? Quem paga as peças? Quem sabe reparar? Quem responde quando o poço avaria no dia em que a ONG já saiu? Construíram-se escolas. Óptimo. E professores? Salários? Manutenção? Água? Manuais? Segurança? A escola é um edifício; a educação é um sistema. O sistema é difícil. O edifício é fotografável. O mesmo com clínicas, formações, “centros de mulheres”, “espaços seguros”, incubadoras de micro-negócios: sai bem numa brochura, sai bem num PowerPoint, sai bem num press release. E, no entanto, a realidade é menos elegante: sem instituições locais fortalecidas, o projeto vira ruína funcional. O sector não é estúpido. O sector é pressionado. E, quando a pressão é por resultados reportáveis, o trabalho adapta-se. O que se chama “accountability” vira, muitas vezes, “contabilidade”. A economia paralela da ajuda: um efeito colateral com cara de progresso Em certas capitais africanas, há dois mundos sobrepostos. O mundo local, com salários locais, preços locais, fragilidade local. E o mundo da ajuda, com viaturas, residências “seguras”, restaurantes que vendem vinho importado, escolas internacionais para filhos de expatriados, ginásios, e uma lógica de consumo que não é crime — mas é distorção. Os preços sobem onde a ajuda se concentra. As rendas disparam. Proprietários preferem alugar a quem paga em moeda forte. A classe média local, que já era estreita, fica encostada à parede. Depois há o mercado de trabalho: motoristas, tradutores, seguranças, assistentes administrativos, técnicos — muitos ganham mais em ONGs do que em serviços públicos. Resultado previsível: a ajuda drena talento do Estado. Enfermeiros saem de hospitais para clínicas financiadas por projectos. Professores deixam escolas para “programas” que pagam melhor. O Estado enfraquece, e a ajuda cresce para “compensar” o enfraquecimento. É um círculo estranho: a ajuda, em certos lugares, não substitui o Estado — mas convive com um Estado frágil e, por vezes, contribui para mantê-lo frágil, porque oferece alternativas que não consolidam o centro. Quando o financiamento muda, quando a “atenção internacional” migra para outra crise, quando o projeto acaba, a economia paralela desaba. E quem dependia dela fica sem chão — e com expectativas salariais que o mercado local não consegue absorver. É assim que se fabrica dependência sem querer. A pergunta indecente: e se dessem dinheiro às pessoas? Há uma pergunta que soa vulgar nas salas certas: por que não transferir dinheiro diretamente? Quando se coloca esta hipótese, há sempre uma reação quase automática, como se se estivesse a propor irresponsabilidade: “E a corrupção?”, “E o álcool?”, “E a má gestão?”, “E se gastarem mal?” O detalhe perturbador é que, em muitos casos, as pessoas pobres gastam melhor do que as organizações imaginam — porque têm o que a estrutura não tem: conhecimento íntimo do que falta. E, sobretudo, porque ninguém precisa de ser educado para querer sobreviver. Há experiências conhecidas de transferências diretas, com resultados geralmente positivos em termos de alimentação, saúde, investimento pequeno, escolaridade. Não é milagre. É, muitas vezes, apenas eficiência: menos intermediários, menos custos, menos teatro. Mas a transferência direta ameaça uma coisa que a ajuda institucional não quer perder: protagonismo. Quando o dinheiro vai direto, a organização perde centralidade. O consultor perde o papel de “desenhar” a solução. A conferência perde argumento. O relatório perde grandiosidade. E, então, constrói-se uma resistência sofisticada: aponta-se o risco (real) e ignora-se o desperdício já normalizado do modelo atual. Isto não significa que transferir dinheiro seja sempre a melhor opção. Em muitos contextos, não é. Há guerra, há colapso de mercado, há captura armada, há lugares onde dinheiro vira alvo. Há infra-estruturas que precisam de ser construídas. Há sistemas de saúde que não nascem só com transferências. O que significa é outra coisa: o sector devia fazer esta pergunta com frequência — e não faz, porque a resposta mexe na sua própria razão de existir. O peso moral: gente boa dentro de um mecanismo errado O trabalhador humanitário cansado não é vilão. E a maioria das pessoas na “indústria” não são vilões. O que existe é uma tensão interior, quase sempre silenciosa: perceber que o sistema é ineficiente, por vezes auto-serviçal, e continuar lá dentro porque abandonar parece pior. É assim que a boa consciência ganha forma de rotina. A rotina tem um preço. Não financeiro: moral. A pessoa repete, durante anos, um tipo de ficção funcional: “Estamos a fazer o melhor possível”, “O contexto é difícil”, “Sem nós seria pior”, “Aprendemos com os erros”. E, ao mesmo tempo, vê repetirem-se os mesmos erros com nomes diferentes. Esse atrito produz um cinismo específico — um cinismo cansado, não agressivo. É o cinismo de quem já viu demasiado para acreditar nos slogans, mas ainda acredita o suficiente para não sair. O sector, por isso, tem uma peculiaridade cruel: atrai idealistas e, com o tempo, especializa-os em sobreviver dentro da máquina. Reforma: sempre prometida, raramente feita De tempos a tempos, a indústria anuncia reforma. Há acordos com nomes que parecem optimistas. Há compromissos de “localização” — financiar mais diretamente atores locais, transferir poder decisório. Há linguagem nova. Há um conjunto de metas que, no papel, mudariam o sistema. O problema é que a reforma real exige abdicação. E abdicar não é um gesto comum em sistemas de carreira. A organização internacional tem receio de perder controlo e ser responsabilizada por falhas de um parceiro local. O doador tem receio de escândalos e prefere “marca conhecida”. O parceiro local, quando recebe o papel de implementador, continua sem receber a chave da decisão. E o ciclo mantém-se. A reforma falha não por conspiração, mas por inércia — e a inércia, quando está vestida de boas intenções, torna-se quase impossível de derrotar, porque qualquer crítica parece crueldade. Criticar a ajuda, no Ocidente, é sempre arriscado: parece que se está a atacar quem tenta fazer o bem. E isso é precisamente o escudo perfeito de qualquer indústria que vive do bem. Voltar ao hotel: o lugar onde se aprende a não dizer certas coisas A conferência acabou como acabam quase todas: uma “declaração final”, frases sobre compromisso, parcerias, urgência, esperança. Fotografias. Sorrisos profissionais. Um último café. O trabalhador humanitário não disse a frase do buffet ao microfone. E fez bem, do ponto de vista da sua sobrevivência. Em certos sistemas, a verdade é permitida apenas em conversa privada, como uma confissão. Publicamente, a verdade vira deslealdade. E é aqui que a indústria da boa consciência se revela por completo: não é apenas o dinheiro; é a disciplina interna. Uma disciplina suave, social. Um conjunto de limites sobre o que se pode dizer sem ser considerado “problemático”. A pergunta final não é “a ajuda é boa ou má?” — essa pergunta é infantil. A pergunta adulta é: a ajuda, tal como está desenhada, serve quem diz servir, ou serve sobretudo a sua própria continuidade? Talvez a resposta seja desconfortável porque pode ser “ambas”. Serve em momentos. Salva vidas em emergências reais. Sustém sistemas quando tudo colapsa. Mas, ao mesmo tempo, perpetua-se como indústria, com os seus rituais, as suas hierarquias, e uma tendência natural para converter sofrimento em carreira. A boa consciência, quando vira indústria, faz o que todas as indústrias fazem: expande-se. E, no fim, Genebra continua a ser o melhor símbolo desta contradição: um lugar onde se fala da pobreza extrema com salmão fumado ao alcance da mão — e onde a frase mais verdadeira é sempre dita ao lado, em voz baixa, como se fosse indecente. A Indústria da Boa Consciência — Capa editorial Subscrever a Newsletter #AjudaInternacional #Caridade #Economia #Desenvolvimento #ONU #ONG #Pobreza #Genebra #PolíticasPúblicas

  • O Futuro Não Eleito da Inteligência Artificial

    Naquela tarde de 9 de dezembro de 2025, o Senado dos Estados Unidos tinha o seu ar habitual de catedral laica: madeira polida, bandeiras, uma solenidade que parece pedir sempre uma frase bem vestida. O que se ouviu, porém, não foi um discurso bem vestido. Foi uma sequência de perguntas ditas com a voz de quem já não tem paciência para cerimónias — nem para o tipo de optimismo tecnológico que se vende como se fosse sabonete: “lava tudo, resolve tudo, cheira bem”. Bernie Sanders subiu à tribuna como sobe há décadas: sem encanto, sem treino de televisão, sem sorriso calculado. Um homem com mais de oitenta anos, cabelo desalinhado, cara de quem dorme pouco e carrega demasiados países dentro da cabeça. Em teoria, Sanders é uma peça antiga. Na prática, o momento que vivemos é tão novo — e tão mal governado — que um homem antigo pode, de repente, soar como a única pessoa na sala a não estar a fingir. Sanders não foi ali falar dos seus temas de sempre, ou pelo menos não os trouxe pelo caminho habitual. Não fez o sermão clássico sobre Wall Street, não se limitou a repetir que o salário mínimo é indecente. Falou de inteligência artificial. E falou dela como se fala de poder — não como se fala de gadgets. Porque o problema, o bruto problema, é este: estamos a construir uma estrutura que vai mandar na vida de toda a gente, e estamos a fazê-lo com uma leveza moral que mete medo. Ele fez sete perguntas. Não no sentido escolar, de “vamos lá ver se a turma aprendeu”. No sentido de um diagnóstico: quando alguém não sabe o que está a fazer, começa a narrar. Quando alguém sabe que está a entrar numa zona perigosa, pergunta. E há perguntas que são uma forma de travão de mão. A primeira, a mais incómoda, foi a que deveria estar colada na porta de cada laboratório, de cada conselho de administração, de cada palco de conferência tech: quem controla a inteligência artificial? Quem está, de facto, a escrever as regras invisíveis do futuro? A conversa pública sobre IA tem sido uma coisa estranha. Por um lado, é tudo inevitável: “vai acontecer”, “não dá para parar”, “é como a electricidade”, “é como a internet”. Por outro, quem decide quase tudo são meia dúzia de pessoas e empresas. Isto é o truque. Dizem-nos que é inevitável para nos calarmos; depois, fazem as escolhas em privado como se fossem proprietários do destino humano. Sanders apontou nomes que já nem precisam de apresentação: Elon Musk, Jeff Bezos, Bill Gates, Larry Ellison — gente que tem dinheiro suficiente para comprar tempo, comprar influência, comprar portas. Gente que, em alguns casos, diz abertamente que despreza reguladores e que vê o Estado como um incómodo. O que Sanders perguntou — sem floreados — foi se é aceitável que esta elite molde a próxima etapa da vida coletiva sem prestar contas a ninguém. A pergunta é simples e, por isso mesmo, brutal: desde quando é que o futuro deixou de precisar de eleições? Desde quando aceitamos que decisões que afetam trabalho, informação, vigilância, intimidade, saúde, educação e guerra sejam tomadas como se fossem decisões de produto? Depois veio a pergunta que cai em cima do estômago, porque tem a ver com o que paga a renda e o que põe comida na mesa: o que acontece ao trabalho? Não ao “emprego do futuro” num slide bonito, mas ao trabalho real — o trabalho que tem horários, chefes, turnos, dores nas costas, e que termina com alguém a abrir a carteira no supermercado e a fazer contas. Sanders levou números. E os números, nestas coisas, não são profecia, são aviso. A automação e a robótica podem empurrar para fora do mercado dezenas de milhões de postos. As estimativas variam — e há sempre quem diga “não vai ser assim”, “vai criar novos empregos”, “foi assim na revolução industrial”. Tudo isso pode ser verdade em parte. Mas a escala e a velocidade são diferentes, e o tipo de substituição também. Havia percentagens duras no que ele referiu: uma fatia enorme do fast food, parte relevante de camionistas, contabilistas, assistentes educativos, um pedaço grande da enfermagem. Não interessa aqui discutir se o número exato é 40% ou 35% ou 45%. O que interessa é o mecanismo: quando uma tecnologia promete eficiência, a primeira coisa que corta é gente. E a segunda coisa que corta é poder negocial. Porque um trabalhador que sente que pode ser substituído amanhã trabalha hoje com medo. E o medo é uma forma de governo. É aqui que a conversa costuma ficar cínica. Dizem: “é o progresso”. Mas progresso para quem? Se a produtividade aumenta e os lucros disparam, mas o cidadão comum perde estabilidade, perde salário, perde tempo, perde dignidade, então não estamos a falar de progresso. Estamos a falar de um saque — um saque com ar de modernidade. Depois Sanders entrou na democracia. E aqui a rudeza é necessária, porque há um tipo de discurso tecnológico que se comporta como se a democracia fosse um detalhe irritante. “Depois logo vemos.” “Não travem a inovação.” “Não compliquem.” É exatamente assim que as coisas descarrilam: primeiro chamam “complicação” às regras; depois chamam “inevitável” ao abuso. A pergunta foi: o que acontece à democracia num mundo de vigilância algorítmica? Sanders invocou ideias associadas a Larry Ellison sobre vigilância em tempo real: sistemas capazes de registar e analisar movimentos, palavras, compras, deslocações, interações. O panóptico, só que sem torre e sem carcereiro visível. Um panóptico onde o carcereiro é um sistema, e onde a punição nem precisa de ser prisão: basta ser classificação, exclusão, predição, manipulação. A palavra “privacidade” já anda com ar de peça de museu. O nosso tempo tem uma habilidade especial para normalizar o que devia causar alarme. Sentimos aquela inquietação leve quando um anúncio parece saber demais, mas passamos à frente como quem espanta uma mosca. O problema é que uma mosca hoje é um enxame amanhã. E, quando damos por ela, a democracia está sentada numa cadeira a olhar para o chão, porque percebe que deixou de controlar as condições básicas da liberdade. Democracia não é só votar de quatro em quatro anos. É ter margem para discordar, para mudar de ideias, para experimentar sem ser imediatamente punido. É poder existir sem ser um ficheiro. Se tudo é rastreado e tudo é analisado, a dissidência torna-se estatística. E uma dissidência estatística é uma dissidência controlável. Depois ele foi ao ponto que mais gente tenta evitar, porque é o ponto que obriga a falar de fragilidade humana sem ironia: o que acontece à nossa humanidade? Sanders falou de solidão. Falou de adolescentes que já recorrem a “companheiros” de IA como forma de companhia. Os números citados em estudos recentes são esmagadores. E, mesmo que o número exato mude de estudo para estudo, o fenómeno é real: há miúdos a conversar com máquinas para não conversarem com pessoas. Há jovens a preferirem o conforto do algoritmo à fricção humana. Aqui convém abandonar a pose. Isto não é uma curiosidade sociológica. Isto é um sinal. Quando uma geração cresce a treinar a intimidade com uma entidade que nunca se zanga, nunca se afasta, nunca tem dias maus, nunca diz “agora não me apetece”, nós estamos a educar seres humanos para um tipo de relação que não existe. Estamos a ensinar que o outro deve ser sempre disponível, sempre gentil, sempre útil. E, depois, quando a vida real aparece — com pessoas reais, com limites reais — a vida real parece defeituosa. Parece “menos boa”. Parece “menos eficiente”. E é aí que começa uma espécie de miséria afetiva que não se resolve com tecnologia nenhuma. Sanders citou John Donne (“nenhum homem é uma ilha”) para lembrar a interdependência. Eu diria isto de forma menos elegante: sem relação humana a sério, ficamos mais burros e mais cruéis. Porque a empatia não nasce de discursos. Nasce de choques, de reconciliações, de aprender a lidar com alguém que não é programado para nos agradar. Depois veio o tema que os evangelistas da “nuvem” detestam: o chão. Qual é o custo ambiental disto tudo? A “nuvem” é uma mentira semântica confortável. Sugere leveza. Sugere invisibilidade. Sugere que nada pesa. Mas a IA pesa. Pesa muito. Pesa em energia, em água, em metais, em território, em infraestruturas gigantescas, em centros de dados que precisam de arrefecimento constante. Sanders falou de consumo eléctrico comparável ao de dezenas de milhares de casas e, em projetos maiores, de centenas de milhares. E, mais importante do que o número, é a lógica: a tecnologia não é etérea; é material. Ela ocupa terra, exige recursos, gera conflitos locais. E quem paga isso raramente é quem beneficia mais. Há comunidades que ficam com o ruído, a pressão sobre redes eléctricas e hídricas, a transformação do território; e há acionistas que ficam com a valorização. Isto é velho como o mundo, apenas mudou a embalagem. A seguir veio a pergunta que muita gente evita porque estraga o almoço: como é que isto muda a guerra? A guerra, tal como a conhecemos, tem um travão político essencial: os mortos próprios. Um governo pensa duas vezes quando sabe que vai mandar jovens para morrer e que isso vai ter consequências internas. Mas se o combate se fizer com drones, sistemas autónomos, “robôs-soldado”, se o custo humano directo for menor para quem ataca, então o travão moral e político enfraquece. A tentação aumenta. A guerra torna-se mais “administrável”. E uma guerra administrável é uma guerra mais provável. Isto não é alarmismo. É só olhar para a história com olhos limpos. Os Estados fazem o que conseguem justificar. Se a tecnologia lhes facilitar a justificação — “não morremos nós”, “é cirúrgico”, “é preciso” — então o mundo fica mais perigoso. Não necessariamente porque os líderes se tornam mais maus; mas porque o custo de ser mau diminui. Por fim, Sanders entrou na pergunta mais profunda e mais fácil de ridicularizar — e por isso mesmo mais importante: podemos perder o controlo? Ele citou Geoffrey Hinton, figura central da IA moderna, que alertou publicamente para riscos de sistemas ultrapassarem a nossa capacidade de supervisão. E invocou o imaginário de 2001: A Space Odyssey, com HAL a virar-se contra os criadores. É tentador tratar isto como cinema. Mas o risco real não é o robô assassino com voz calma. O risco real é mais prosaico e mais aterrador: é dependermos de sistemas que ninguém entende totalmente, que ninguém consegue auditar por inteiro, e que, mesmo assim, passam a decidir coisas vitais. É a civilização a operar com caixa negra. E, quando a caixa é negra, o poder desloca-se. Desloca-se para quem controla a caixa, para quem sabe mexer nela, para quem tem acesso aos dados, para quem tem o direito de desligar ou ligar. Desloca-se, muitas vezes, para fora do espaço democrático. No meio destas sete perguntas, há um fio que as cose: o poder. Não a IA como fenómeno técnico, mas a IA como reorganização de poder. Sanders não está a dizer “parem a tecnologia”. Está a dizer “parem a estupidez política”. Parem de agir como se o futuro fosse uma questão privada. Parem de confundir inovação com inevitabilidade. Parem de chamar “liberdade” ao direito de meia dúzia de empresas rearranjarem a vida dos outros sem discussão pública. Há um tipo de conversa que domina a nossa época e que é, francamente, covarde: “isto vai acontecer, portanto adaptem-se.” É a conversa de quem quer o conforto de não decidir. Mas um futuro que “vai acontecer” sem decisão coletiva é um futuro tomado. É um futuro apropriado. O que Sanders fez naquele dia, no Senado, foi recusar essa apropriação como se fosse normal. E isso, neste tempo de propaganda optimista e de medo silencioso, é um ato político raro. Um homem velho a lembrar que democracia não é um adereço. É o mecanismo — frágil, irritante, lento — que impede que o futuro seja capturado por quem tem mais dinheiro e menos escrúpulos. No fim, tudo isto pode ser dito numa frase que não tem glamour nenhum: o futuro é demasiado importante para ser deixado aos donos da tecnologia. E é precisamente por não ter glamour que a frase serve. O glamour, nestes assuntos, costuma ser a antecâmara da fraude. Talvez a esperança — se é que a palavra ainda pode ser usada sem cinismo — esteja mesmo nesta insistência pouco elegante de Sanders. Não porque ele tenha respostas perfeitas. Mas porque ele se recusa a aceitar a pergunta falsa que nos empurram: “o que pode a IA fazer?” A pergunta verdadeira é outra: quem manda, quem paga e quem fica de fora? O resto é conversa bonita. E, nesta fase, já tivemos conversa bonita suficiente para uma vida inteira. O Futuro Não Eleito da Inteligência Artificial #AtlanticLisbon #AurelianDraven #InteligenciaArtificial #IA #Tecnologia #Democracia #Poder #VigilanciaDigital #Privacidade #Trabalho #Automacao #Robots #DataCenters #Ambiente #Geopolitica #Futuro

  • Portugal, perdão presidencial e confiança na justiça

    Há textos que escrevemos a olhar para longe e, sem darmos por isso, estamos apenas a dar uma volta para regressar a casa. As primeiras partes deste ensaio falavam de um “país sem nome”, de um Presidente distante e de um poder de perdão que parecia viver sobretudo noutra latitude. Era mais fácil assim: conversar sobre o perigo sem olhar diretamente para o espelho. O Preço do Perdão – Parte IV | Portugal ao Espelho Mas o espelho está aqui. Chama-se Portugal. Não temos o espetáculo americano, não temos “prime time” para anunciar indultos, nem conferências de imprensa em que se vendem perdões como se fossem promessas de campanha. Temos outra coisa: uma tradição discreta, quase doméstica, feita de gestos pequenos, justificações técnicas e uma convicção antiga de que “somos brandos”. É essa brandura, tantas vezes confundida com bondade, que hoje me inquieta. I — A clemência em voz baixa Entre nós, o perdão raramente faz manchete. Surge em notas de rodapé, no Diário da República, em comunicados secos da Presidência, ou diluído em leis de amnistia votadas na Assembleia como quem vota o calendário escolar. A forma é burocrática, mas o efeito é o mesmo: a mão do Estado entra na esfera dos tribunais e diz “basta assim”. Um Presidente pode indultar, comutar penas, aliviar o castigo de um rosto concreto. O Parlamento pode decidir que, por causa de uma visita do Papa, de um aniversário redondo de Abril ou de um qualquer momento simbólico, milhares de crimes deixam de ser puníveis ou passam a ser castigados com menos. Chamamos a isto tradição humanista. Eu chamo-lhe também outra coisa: poder concentrado, ainda que exercido em voz baixa. O problema não é que a clemência exista; é a facilidade com que o país deixa de se interrogar sobre o seu uso. Em Portugal, a pergunta raramente é “porquê?”; quase sempre é “quanto apanha?”. E, quando muito, “quem entra e quem fica de fora?”. O debate moral evapora-se em detalhes técnicos. II — As prisões que pedem desculpa por existir Durante décadas, justificámos amnistias e perdões com o mesmo argumento: as prisões estão cheias. As celas não chegam, as casas de banho são poucas, os reclusos vivem amontoados, os guardas não dão conta do recado. E, porque a realidade é dura, o país habituou-se à solução suave: perdoa-se um pouco, abre-se espaço, “alivia-se o sistema”. É uma espécie de ventilador jurídico: em vez de consertar o edifício, abrimos janelas de tempos a tempos para o ar não ficar irrespirável. Mas cada amnistia que serve apenas para aliviar sobre-lotação é, no fundo, uma confissão política: não conseguimos ou não queremos reformar estruturalmente o sistema prisional, por isso pedimos desculpa com uma caneta. O perdão passa a ser substituto da reforma, remendo daquilo que não se quis enfrentar. E um país que trata a sua política penal com remendos acaba a viver num casaco que nunca assenta bem a ninguém. III — O país das exceções simpáticas Há um traço muito português que se cola facilmente à clemência: a cultura da exceção simpática. Conhecemos bem essa lógica: “Ele até é boa pessoa”, “foi um momento”, “não vamos arruinar a vida de um rapaz por causa disto”. É uma linguagem cheia de compaixão e, ao mesmo tempo, cheia de risco. Porque a pergunta seguinte raramente é feita: e os outros? Quando uma lei de amnistia é desenhada à medida de determinados delitos — muitas vezes ligados a juventudes, a trânsito, a pequenos ilícitos do quotidiano — o país tende a pensar no filho, no sobrinho, no vizinho que “se calhar até beneficia”. Mas raramente pensa na mensagem que passa a quem nunca teve qualquer indulgência. O motorista que matou alguém numa estrada e recebe a notícia de que a pena encolheu por decreto; o agressor que vê o seu crime ficar abaixo da fasquia da amnistia; o condenado por corrupção que percebe que o país é severo nas palavras e indulgente na prática. Entre a simpatia e a incoerência vai a distância de um artigo de lei. E nós percorremo-la com uma facilidade assustadora. IV — Quem cabe dentro da misericórdia? Gosto de imaginar, às vezes, a lista invisível que acompanha cada decisão de perdão. Há sempre uma lista, mesmo quando não está escrita: crimes incluídos, crimes excluídos; idades limite; datas de prática do facto; tipos de pena. No papel, tudo é neutro. Na realidade, essas fronteiras têm consequências morais. Quando um país decide que determinados delitos são “amistiáveis” e outros não, está a ordenar a sua escala de valores. Um exemplo: a facilidade com que somos capazes de perdoar certos crimes económicos em comparação com a relutância em admitir clemência para delitos ligados à violência sobre crianças ou à violência doméstica. É compreensível que haja diferenças — mas também é revelador que, muitas vezes, a linha não seja traçada em função da gravidade objetiva do dano, mas da sensibilidade momentânea da opinião pública. Há crimes que “pegam mal” num diploma de amnistia, e não porque a ética o exija, mas porque a fotografia política seria devastadora. E, no entanto, quantas vezes discutimos isto seriamente? Quantas vezes perguntamos, em voz alta: quem cabe dentro da misericórdia pública e quem é definitivamente empurrado para fora? V — O silêncio como cumplicidade Em Portugal, quase ninguém perde eleições por causa de um indulto ou de uma amnistia. Não há comícios dedicados ao tema, não há debates televisivos de grande audiência a desmontar cada caso. O assunto vive em comissões discretas, pareceres jurídicos, relatórios densos que poucos leem. A sociedade civil, salvo raras exceções, aceita. A comunicação social acompanha um dia, dois, e passa ao assunto seguinte. Este silêncio não é inocente. Quando uma democracia abdica de discutir os seus mecanismos de perdão, abdica também de vigiar a linha que separa a compaixão da arbitrariedade. Ficamos apenas com a versão administrativa da misericórdia: carimbos, despachos, números de processo. O país olha de longe e diz: “Eles lá sabem.” Mas “eles” não são um corpo metafísico. São pessoas, com preferências, crenças, pressões, simpatias e medos. E, sem escrutínio público, é natural que o perdão se incline devagar na direção do costume: os que têm melhor advogado, melhor acesso, melhor contacto, melhor telefone. VI — O espelho que não perdoa Talvez a pergunta decisiva, quando falamos de Portugal, não seja “quantos perdões concedemos?”, mas “que tipo de país produzimos a partir deles?”. Se a clemência serve para corrigir injustiças flagrantes, para responder a situações humanamente insustentáveis, para diminuir penas desproporcionadas, ela é um sinal de maturidade democrática. Mas se se torna anestesia periódica para um sistema que não queremos reformar — prisões degradadas, penas desenhadas sem estudos sérios de eficácia, leis que acumulam remendos — então o perdão deixa de ser virtude e passa a ser fuga. O espelho não mostra apenas o Presidente que assina ou o Parlamento que aprova; mostra um país inteiro que preferiu aliviar do que transformar. E talvez seja isso que mais me inquieta: a possibilidade de estarmos a usar a clemência não como expressão da nossa humanidade, mas como desculpa para não exercermos, com seriedade, a nossa responsabilidade política. VII — Um convite desconfortável Não escrevo estas linhas contra o perdão, nem contra quem o exerce. Escrevo-as contra o automatismo. Contra a normalidade preguiçosa com que aceitámos que amnistias se tornem rituais de calendário e que indultos surjam descontextualizados, sem uma explicação pública que trate os cidadãos como adultos. Talvez fosse tempo de um compromisso simples: cada ato de clemência deveria vir acompanhado de um relato claro — não apenas jurídico, mas moral — das razões que o justificam e das lições que dele retiramos para o sistema como um todo. Perdoar alguém não pode significar esquecer o que falhou antes. Se um indulto é necessário porque a pena foi excessiva, então precisamos discutir a lei que a permitiu. Se uma amnistia é inevitável porque as prisões colapsam, então é a política prisional que tem de ir a votos, não apenas os diplomas que aliviam o sintoma. Portugal ao espelho não é um exercício de vergonha; é um exercício de lucidez. Olhar para a nossa tradição de indulgência não para a destruir, mas para a tomar a sério. Talvez, um dia, possamos dizer que continuamos a ser um país “brando”, mas no sentido adulto da palavra: brando porque sabe distinguir a dureza necessária da crueldade inútil; brando porque usa o perdão com transparência e parcimónia; brando porque não confunde misericórdia com esquecimento. Até lá, resta-nos esta pergunta, simples e difícil: quando a caneta se aproxima do papel, em nome de quem perdoamos afinal — em nome da justiça ou em nome da nossa própria resistência a mudar? Parlamento português com a bandeira nacional ao alto #Portugal, #Justiça, #Presidencia, #EstadoDeDireito

  • 2027 Não É Um Ano, É Um Método

    OPINIÃO · Mundo · China/Taiwan · Segurança A mais recente avaliação do Pentágono descreve uma China que já não se limita a modernizar equipamento: está a consolidar, passo a passo, a capacidade de operar longe do continente e de sustentar operações prolongadas — um ponto particularmente sensível quando se olha para Taiwan e para o equilíbrio no Indo-Pacífico. O relatório é claro num aspecto e ambivalente noutro. Claro, porque identifica progressos consistentes: mais meios, mais treino, mais opções operacionais. Ambivalente, porque assinala que, no final do ano passado, Pequim ainda não tinha a certeza de conseguir executar com sucesso uma operação de invasão e ocupação da ilha — apesar de Xi Jinping ter fixado 2027 como horizonte para dotar o Exército Popular de Libertação (EPL) das capacidades necessárias para tomar Taiwan pela força. A intenção permanece; a convicção operacional, não é apresentada como garantida. Essa tensão aparece também na formulação do próprio documento: o EPL “continua a refinar” várias vias para impor a unificação pela coerção, mas a liderança chinesa “permanece insegura” quanto ao grau de prontidão para uma tomada efectiva de Taiwan. Traduzindo em termos práticos: o planeamento existe, o treino intensifica-se, mas há dúvidas — sobre coordenação, execução, perdas aceitáveis, resposta externa e, sobretudo, sobre a diferença entre capacidade declarada e capacidade demonstrada. Enquanto a grande decisão não acontece, a pressão faz-se no quotidiano. O Pentágono aponta para um aumento forte de actividade chinesa nas imediações de Taiwan, por via aérea e marítima, com incidência particular na zona de identificação de defesa aérea (ADIZ). A escalada é quantificada: mais de 60% de subida, de 1.703 incidentes em 2023 para 2.771 no ano passado. Não é um padrão de “crise” episódica; é um regime de desgaste que normaliza a presença e testa rotinas de resposta. No mar, a tendência é semelhante. O relatório indica intensificação de operações de navios de guerra no Estreito de Taiwan, reforçando a mensagem de permanência: a presença torna-se instrumento político e militar, independentemente de haver ou não um confronto aberto. Do lado de Pequim, o enunciado político não mudou: Taiwan é considerada parte do território chinês e o uso da força continua declarado como opção possível. A diferença, sublinha o Pentágono, é que o país dispõe hoje de músculo militar muito superior ao de décadas anteriores — e esse músculo é posto à prova em exercícios. Em 2024, segundo o relatório, as forças chinesas realizaram treinos para validar “componentes essenciais” de um conjunto de cenários: invasão anfíbia, ataques de fogo e bloqueio marítimo. São peças distintas de um mesmo tabuleiro. E, quando ensaiadas, deixam de ser apenas linguagem política: tornam-se procedimento. A reacção norte-americana, tal como descrita no documento, mistura reforço material e gestão de risco. Na semana passada, a administração Trump aprovou um pacote de vendas de armas a Taiwan de 11 mil milhões de dólares, com lançadores de mísseis montados em camiões, mísseis anti-tanque, artilharia e drones. Em simultâneo, Trump desvalorizou publicamente a probabilidade de Pequim recorrer à força num horizonte próximo e sinalizou intenção de aprofundar canais com Xi, com uma cimeira prevista para Abril. A combinação é típica: endurece-se a capacidade de dissuasão de Taiwan, mas evita-se fechar a porta à diplomacia com Pequim. O relatório acrescenta que Washington pretende ampliar comunicações militares com a China e insistir em mecanismos para clarificar “intenções pacíficas”. Só que essa expressão tem elasticidade: o que para os EUA é prevenção de escalada, para Pequim pode ser interpretado como espaço para avançar com pressão gradual, sem ultrapassar a linha da guerra formal. A política norte-americana tradicional é enquadrada pelo Pentágono como continuidade da chamada ambiguidade estratégica: manter a China na incerteza quanto a uma intervenção directa, mas também conter iniciativas unilaterais de independência formal de Taiwan que poderiam precipitar um conflito. O problema, sugere o texto, é que a margem de manobra diminui à medida que a actividade militar se torna mais frequente e a região mais nervosa. Há, ainda, uma nota sobre o próprio estilo do documento. Esta é a primeira avaliação do segundo mandato de Trump e surge após a divulgação de uma estratégia de segurança nacional que dá primazia à defesa do Hemisfério Ocidental. O Pentágono apela a cooperação mais estreita com parceiros do Pacífico para dissuadir tentativas de tomada de Taiwan, mas menciona a China poucas vezes e, quando o faz, tende a fazê-lo em chave económica. Menos dramatização, mais pragmatismo — sem que isso reduza a gravidade das conclusões. O relatório tem cerca de 100 páginas, aproximadamente metade do comprimento do documento publicado no ano anterior pela administração Biden. E inclui uma frase pesada: a “acumulação militar histórica” da China está a tornar o território dos EUA “cada vez mais vulnerável”. Tom Karako, do CSIS, notou precisamente essa mudança: menos detalhe técnico sobre equipamento e um sublinhado inesperado de melhoria de relações e de cooperação militar EUA–China, algo que contrasta com a leitura de confronto inevitável presente noutros anos. Nos objectivos estratégicos atribuídos ao EPL, o Pentágono enumera três grandes linhas rumo a 2027: capacidade para alcançar uma “vitória decisiva estratégica” sobre Taiwan; capacidade de “contrabalanço estratégico” face aos EUA em domínios nucleares e outros estratégicos; e capacidade de “dissuasão e controlo” sobre actores regionais. Não são metas pequenas — e têm implicações directas para a estabilidade. No capítulo nuclear, o relatório estima que a China já terá mais de 600 ogivas. O texto sugere um ritmo de crescimento mais lento do que em anos recentes, mas insiste que a trajectória continua expansiva, com projecção para ultrapassar 1.000 ogivas até 2030. Pequim, por sua vez, mantém a recusa de conversações de controlo de armas nos termos propostos por Washington, argumentando que pretende aproximar-se do nível de EUA e Rússia e que são essas potências que deveriam reduzir primeiro. No mar, o documento aponta um plano ambicioso: seis porta-aviões até 2035, totalizando nove. A marinha chinesa concluiu ensaios marítimos do seu terceiro porta-aviões, o primeiro concebido internamente. O Fujian aproxima-se do desenho de convés plano usado pelos EUA e inclui sistema de lançamento electromagnético, semelhante ao dos porta-aviões norte-americanos da classe Ford. Ryan Fedasiuk, do American Enterprise Institute, sublinhou que o relatório clarifica este objectivo de nove porta-aviões, o que colocaria a frota chinesa imediatamente atrás da americana. Os EUA operam com 11. Por fim, o Pentágono volta a insistir na dimensão global da projecção chinesa. O relatório refere a inauguração, em Abril, de um centro de logística e treino numa base naval no Camboja e recorda a presença chinesa em Djibuti, junto ao Mar Vermelho. A mensagem é simples: o eixo de ambição não se esgota no Estreito de Taiwan. Está a desenhar-se uma arquitectura de alcance mais largo — e é isso que, no fundo, transforma este dossier numa questão sistémica, não apenas regional. Cidade iluminada à noite #China #Taiwan #IndoPacifico #Pentagono #Geopolitica #SegurancaInternacional #Dissuasao #EPL #Marinha #PoliticaExterna

  • O Preço do Perdão — Parte I

    Reflexões íntimas e crónicas de um país por dentro — fragmentos de uma pátria que se reconhece no que não diz, no que esconde, no que já não sabe nomear. Um país sem nome, mas com memória. Há poderes que nascem com a intenção de salvar e acabam, lentamente, por aprender a corromper. Nenhum me inquieta tanto como o poder que permite a um só indivíduo — um presidente, um chefe de Estado, um vértice solitário da pirâmide — rasgar sentenças que foram escritas ao longo de meses ou anos, entre provas, testemunhos, hesitações, recursos, angústias e cicatrizes. O poder que absolve e o risco de transformar a clemência num instrumento de influência. Esse gesto, que chamamos “perdão”, é uma das mais antigas invenções humanas: uma luz que atravessa a dureza da lei. Mas também é, se não for vigiado, uma sombra que atravessa a transparência da República. Nunca consegui olhar para o perdão presidencial sem um sobressalto íntimo. Há nele algo de sublime e algo de perigoso. Sublime porque reconhece que a justiça, por mais rigorosa que seja, pode errar; perigoso porque recorda, com a brutalidade dos factos, que o poder absoluto nunca desapareceu — apenas mudou de roupagem, tornou-se mais limpo, mais polido, mais constitucional. Mas continua ali, à distância de uma assinatura. Quando observo esse gesto — a caneta que se inclina, a tinta que cai, a sentença que se dissolve — pergunto sempre: quem vigia o vigilante? Quem decide que este perdão é um sinal de humanidade e aquele outro um ato de conveniência? Quem distingue a misericórdia do cálculo político? Quem separa a compaixão do reflexo instintivo de proteger os seus? É aqui que começa a minha inquietação. I — O Perdão como Ritual de Poder Todos os povos inventaram, à sua maneira, um mecanismo para libertar alguém do peso da culpa. É um traço profundamente humano: não conseguimos viver numa sociedade onde tudo é punido, onde tudo é definitivo. Precisamos de acreditar que existe uma porta, pequena que seja, para aqueles que erraram e merecem recomeçar. Mas, em quase todas as civilizações, essa porta não é larga — é estreita e depende de um guardião. O perdão presidencial, tal como existe nas democracias modernas, é herdeiro direto dessa lógica: um poder extraordinário reservado a uma pessoa ordinária, com virtudes, limites, inclinações e fragilidades como qualquer um de nós. E aqui surge o paradoxo: confiamos num cidadão comum um poder extraordinário porque acreditamos que ele será capaz de agir com uma virtude extraordinária. Mas a História, essa velha professora que nunca perdoa ilusões, mostra-nos que raramente é assim. O perdão presidencial é uma espécie de altar laico: aproxima-se com solenidade, ajoelha-se perante o espírito da justiça, coloca-se a mão sobre a pedra fria da Constituição e decide-se se a clemência é um gesto de grandeza… ou uma arma de bastidores. II — A Economia da Clemência Há uma frase que todos conhecemos, ainda que raramente admitamos: a lei é para todos, mas a exceção não é. E é aqui que começa a economia moral do perdão. A clemência oficial nunca existe no vazio. Existe num ecossistema de relações humanas: amizades políticas, alianças silenciosas, redes de influência, telefonemas discretos, conselheiros que sussurram, advogados que insinuam, emissários que preparam o terreno. A própria ideia de “pedido de perdão” já contém em si uma desigualdade. Quem não tem voz, pede como pode; quem tem poder, pede como quer. E a linha que separa o justo do conveniente começa a desfocar-se. Primeiro quase sem se notar. Depois com a naturalidade de quem bebe água. Um país que começa a ver o perdão como um privilégio negociável — explícita ou implicitamente — aproxima-se perigosamente de uma aristocracia moral. Uma sociedade que aceita que algumas pessoas podem comprar, merecer ou influenciar a própria anulação dos seus erros começa a habituar-se a um novo normal: uma justiça com duas portas, uma largura e outra estreita. Tudo isto me lembra, inevitavelmente, um velho princípio: o que é concedido em nome da graça pode ser reclamado em nome do interesse. E aquilo que deveria ser exceção transforma-se em moeda. III — A Fragilidade das Instituições Quando um Presidente perdoa alguém que nunca deveria ter sido condenado, o país respira de alívio. A clemência aparece como o último reduto da justiça, o ponto de fuga numa arquitetura rígida. Mas quando um Presidente perdoa alguém que deveria responder pelos seus atos, a República perde um pedaço da sua espinha dorsal. Não é apenas a lei que fica abalada; é a perceção de que todos somos medidos pela mesma balança. E, numa democracia, a perceção é tão importante quanto o facto. Não precisamos que um abuso seja frequente para que seja corrosivo. Basta que seja plausível. Basta que uma parte da sociedade comece a suspeitar que a justiça pode ser dobrada como um galho seco. É assim que nasce o descrédito. E o descrédito é um vírus rápido, invisível e resistente. IV — O Perdão como Espetáculo Há outra dimensão que me inquieta: o perdão como performance pública. O perdão como parte de uma coreografia política. O perdão como gesto calculado para produzir efeito, gerar manchetes, fidelizar seguidores, recompensar alianças, sinalizar poder. Quando a clemência se transforma em espetáculo, perde o seu núcleo moral. Deixa de ser uma síntese entre justiça e humanidade para se tornar numa ferramenta de narrativa. O gesto deixa de corrigir a vida e passa a corrigir a agenda. E, quando o perdão é usado como prova de força — “eu posso”, “eu decido”, “eu determino quem se levanta” — não é a bondade que se afirma, é a hierarquia. O perdão deixa de ser bálsamo e converte-se em troféu. Ou pior: em arma. V — A República e o Abismo Ético A democracia não colapsa porque as leis desaparecem — colapsa quando as leis permanecem, mas deixam de significar o mesmo. O código pode manter-se intacto, a Constituição pode continuar suspensa nas paredes dos tribunais, mas, quando a prática se desvia, a letra perde peso. O perdão presidencial é um dos pontos onde essa distorção pode tornar-se mais visível. Sempre que é utilizado para proteger influências, corrigir alianças ou premiar lealdades, cria um desvio. E esse desvio abre outro, e outro, e outro. Até que o país acorda um dia e percebe que já não mede a justiça pelo que ela é, mas pelo que ela concede. Durante anos, habituaram-nos à ideia de que “todos os poderes têm excessos”.Mas não é verdade. Há excessos que não são defeitos tecnológicos — são falhas morais. E o perdão, por ser absoluto e irreversível, amplifica essas falhas com uma força que nenhum outro ato institucional possui. VI — A Pergunta que Fica Escrevo estas linhas sem conhecer todos os bastidores onde a clemência circula, mas conheço, como qualquer cidadão atento, a fragilidade humana que habita os corredores do poder. Conheço o efeito que a proximidade exerce. Conheço a tentação de proteger os amigos — e, pior, de proteger os fiéis. E por isso deixo a pergunta que me parece mais urgente, e que servirá de ponte para a Quando o perdão é absoluto, quem perdoa o abuso do perdão? Quem vigia o vigia? Quem exerce clemência sobre os que concederam clemência demais? Quem devolve à República aquilo que se perdeu no segredo das decisões irreversíveis? Talvez a resposta esteja na sociedade civil, talvez na imprensa, talvez na consciência histórica, talvez no medo — o medo saudável — de ser lembrado como alguém que confundiu o interesse público com a administração privada da justiça. Mas, como descobriremos na segunda parte, há algo ainda mais inquietante: o perdão não é apenas um ato isolado. É um sintoma. Um sintoma de um país, seja ele qual for que pode estar a perder a capacidade de distinguir entre autoridade e arbítrio. E isso, sim, merece uma reflexão mais longa. Imagem: - Tingey Injury Law Firm / Unsplash Atravessai comigo para a Parte II: A Justiça que se Desvia #AlbertoCarvalho #CadernoAberto #Ensaio #ÉticaPública #Justiça #Democracia

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