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- Manual para Começar a Escrever
Manual para começar (quando ninguém está a ver) Há uma hora da cidade em que o barulho ainda não acordou para o turno. Não é madrugada de poetas; é o intervalo técnico entre o camião do lixo e o primeiro autocarro. Gosto de começar aí. A rua parece desarrumada como um quarto depois da pressa, e a cabeça, se não lhe dermos conversa, aceita finalmente ouvir. Começar é quase sempre isto: escolher um silêncio que não se oferece. Aprendi cedo que ninguém nos dá autorização para escrever. Nem escola, nem prémio, nem selfie com lombada ao fundo. Se esperas aplauso para te sentares, não te sentas. Se esperas tempo, não começas nunca. O tempo livre é um boato. O que existe são minutos resgatados àquilo que te empurra: notificações, urgências falsificadas, o medo de falhar. O começo é uma espécie de contrabando: retiras ao dia um pedaço que era suposto não teres. Quando me perguntam “por onde é que se começa?”, gostava de responder com uma técnica impecável. Mas a verdade é mais caseira. Começa-se por olhar. Não o olhar artístico, cheio de intenção e filtro; o olhar simples que reconhece histórias naquilo que não tem legenda. A senhora do quinto que apanha roupa às sete porque desconfia da chuva. O rapaz da bomba de gasolina que coloca sempre o bico do lado esquerdo, como se houvesse um ritual invisível para não entornar o dia. O segurança do supermercado que deseja “bom trabalho” ao cliente, e só depois corrige para “bom dia”. A cidade dá matéria-prima suficiente para um livro por semana. O difícil é não a desperdiçar com frases que querem ser mais inteligentes do que o que viram. Outra coisa sobre o começo: não é preciso originalidade. A obsessão da originalidade paralisa mais do que a falta de talento. Já vi muita gente calada durante anos para só abrir a boca quando “tiver algo mesmo novo”. Não abre. E quando abre, a voz vem enferrujada. A originalidade é um efeito colateral da honestidade. Se fores mesmo honesto com o que vês e com o que sentes, já estás a entregar algo irrepetível: tu. O resto é ruído. Também não é preciso sofrimento performativo. Há uma romantização da dor que vende bem, mas escreve mal. Sofrer não é um método; é uma circunstância. Se estás mal, escreve com cuidado; se estás bem, escreve com cuidado. A escrita não melhora por te faltar luz nem piora por teres a renda paga. Melhora quando aceitas que não tens de impressionar ninguém naquela página: tens de ser claro. A clareza é revolucionária. Os meus primeiros textos eram longos para esconder inseguranças. Achava que, se ocupasse espaço, o leitor respeitava. Não respeita. O leitor respeita quando tu respeitas o tempo dele. Frases demasiado compridas pedem mesa posta; a maior parte do público lê em pé, no corredor entre estações. Troca um período que se arrasta por dois ou três que caminham. Não é proibição; é higiene. Começar também é aceitar que nem tudo serve. Escrever é descartar. Sou menos orgulhoso com as minhas frases do que com a minha capacidade de as deitar fora. Não há tragédia em cortar um parágrafo que te deu trabalho; tragédia é deixá-lo ficar só porque te deu trabalho. Quem lê não tem culpa da tua teimosia. Uma página limpa é sempre mais generosa do que uma página cheia. Quanto à voz — esse assunto que faz suar as mãos a gente séria —, a voz não se procura, descobre-se. E descobre-se escrevendo. Um dia, a meio de um texto que achavas igual aos outros, surge um andamento que te estranha e ao mesmo tempo te reconhece. Costumo guardar esses trechos e relê-los como quem relê uma conversa onde se disse, sem querer, algo verdadeiro. A voz não é uma invenção brilhante; é um encontro acidental que, a partir daí, começas a repetir com mais consciência. Não romantizo a disciplina. Não acordo às quatro e meia para correr atrás do pôr do sol. Mas tenho uma regra que me salvou de muitas desistências: sentar-me mesmo quando não apetece. Os dias “sem vontade” são os que explicam por que razão continuas. Escrever com vontade é agradável; escrever sem vontade cria músculo. Não publico tudo o que faço; publico o que, depois de frio, ainda aguenta estar de pé. O resto foi ginásio. A cidade ajuda. Nunca me falhou matéria quando decidi sair de casa sem auriculares e sem planos. No eléctrico, já ouvi monólogos mais honestos do que em certos debates televisivos. No café, vi casais a terminarem uma história em três frases, como se a relação fosse uma chávena a rachar de dentro. Num passeio de bairro, uma criança explicou à mãe que “o futuro é quando o pai chega mais cedo” — e, nesse instante, entendi melhor a política do que em cem páginas de relatório. O mundo está em bruto; a escrita é o trabalho de o lapidar sem retirar a sua verdade. Há quem defenda a técnica como se fosse uma religião. Respeito. Ajuda conhecer o ofício, saber o ritmo da pontuação, perceber quando uma metáfora é um truque e quando é uma janela. Mas há algo anterior a tudo: a decência de não mentir. A tentação de embelezar o que doeu. A vaidade de dramatizar o que foi apenas incómodo. O leitor não é burro. Sente quando lhe vendem perfume em vez de ar. Outra coisa que aprendi: a pressa estraga a revisão e a revisão salva o texto. Se puderes, afasta-te do que acabaste de escrever. Toma um duche, lava loiça, dá uma volta. Volta e lê com olhos de quem não te deve favores. Sublinhar o que soa a pose, cortar o que serve só a ti, apertar a frase até ela respirar melhor. E, por favor, poupa adjetivos. Um bom substantivo com um verbo decente aguenta mais do que quatro adjetivos aflitos. No princípio, quase ninguém lê. E está bem assim. A invisibilidade é um luxo que só te apercebes quando acaba. Aproveita-a para falhar com dignidade. Publica pouco, treina muito. A tua relação com a escrita não pode depender do número ao lado do coração. Um texto com cinquenta “gostos” pode valer mais do que um viral esquecido no dia seguinte. A métrica mais séria continua a ser esta: quando relês daqui a seis meses, ainda te reconheces? Se te perguntarem “sobre o quê escreves?”, não te apresses a dizer “sobre tudo”. É suspeito. Diz “sobre o que consigo ver”. E depois treina o olhar para veres mais. Escreve sobre a tua rua como se fosse o centro do mundo, porque é — para quem lá vive. Escreve sobre o corpo como se fosse um país. Escreve sobre o país como se fosse um corpo cansado a pedir descanso. Não há assunto pequeno quando o tratamento é sério. Também convém dizer: não deves nada ao cinismo. A ironia é útil; o cinismo esteriliza. Uma frase que goza com tudo fica bonita no momento e pobre no arquivo. Procura a inteligência que acolhe, não a que humilha. Se o teu texto precisar de deitar alguém abaixo para ser forte, não é forte; é fraco com microfone. E sim, às vezes a vida atropela o começo. Trabalhos maus, horários, contas. Ninguém vive de ar elegante e cadernos caros. Ainda assim, é possível roubar tempo ao inevitável. Escreve no telemóvel entre paragens, grava notas de voz, leva cartões de metro com frases a metade. Não há método único; há insistência. Um parágrafo por dia é um livro por ano se não desistires a meio. Faz as contas. Termino como comecei: a cidade acorda. O primeiro autocarro faz o barulho do costume, a senhora do quinto põe o lençol ao sol, o rapaz da bomba de gasolina acerta o bico do lado esquerdo. Nada disto é épico, e é por isso que merece página. O começo não tem clarins. Tem um caderno aberto e a humildade de lhe dar qualquer coisa que não se envergonhe de reler daqui a uns meses. Se chegaste até aqui, não esperes mais uma dica. Fecha este texto. Abre o teu. É assim que se começa: quando ninguém está a ver. Caderno do Início — Aurelian Draven Mesa de café com caderno aberto ao amanhecer #CadernoDoInicio #AurelianDraven #Escrita #Começar #Disciplina
- Primeiras páginas não têm índice
Há dias que começam antes do despertador. Não porque sejamos heróis do amanhecer, mas porque há uma inquietação que não se deixa adiar: a sensação de que hoje começa qualquer coisa, e que tudo o que aprendemos até aqui serve apenas como mapa desenhado a lápis — útil, mas pronto a ser apagado pelo primeiro imprevisto. Saio cedo. A cidade ainda tem o ar desalinhado de quem acabou de acordar. Há trabalhadores que parecem figurantes de uma peça sem público, uma senhora varre a frente da mercearia, um homem fuma junto à carrinha do pão, o motorista do autocarro testa as luzes. O silêncio não é total, mas as palavras andam baixas, como se o dia tivesse de ganhar confiança antes de falar alto. Gosto deste intervalo em que tudo pode ser e ainda não é. As primeiras páginas têm esse defeito maravilhoso: não prometem respostas, apenas disponibilidade. No café — chama-se “Vintage” e aceita MB Way, a ironia não é minha — peço um galão e uma torrada que vem sempre com manteiga a mais. A rapariga da caixa tem um sorriso cansado e unhas pintadas de azul. O rádio dá notícias que não peço: inflação, uma greve anunciada, um relatório sobre a saúde mental dos jovens. Parece que a vida é um boletim meteorológico perpétuo, com avisos laranja e vermelho para quase tudo. Pago, sento-me, abro o caderno, é a minha maneira de afiar o dia. Não para o tornar menos perigoso, mas para que corte melhor as indecisões. Quando chego à primeira linha ainda não sei nada. Tenho apenas fragmentos: o homem do pão, o autocarro, o sorriso azul, a voz do radialista a dizer “em atualização”. Tento ligar os pontos com frases que não se envergonhem de ser simples. Aprendi depressa que a simplicidade exige coragem: é mais fácil esconder inseguranças atrás de palavras grandes do que arriscar uma verdade breve. Há quem se habitue a dizer que a nossa geração vive depressa e sente devagar. Eu desconfio das generalizações, mas reconheço a tentação: passamos os dedos por ecrãs como rosários horizontais, pedimos satisfação imediata aos pequenos deuses da atenção, e quando não vem a resposta ficamos com uma fome que não sabemos nomear. Talvez por isso escreva: para abrandar a mão, para deixar a fome dizer de que tem fome, para distinguir entre o que posso mudar e o que só posso aceitar. A minha avó dizia que “o que tem de ser tem muita força”. Quando tinha dez anos isso irritava-me: soava a resignação e eu queria o contrário — queria piruetas, descobertas, escadas rolantes para o céu. Agora entendo melhor: o que tem de ser não me tira a liberdade; dá-me contorno. É como a margem do rio: não decide a água, mas impede que a água se perca em charcos. Nas primeiras páginas de qualquer coisa — um livro, um trabalho, um amor — precisamos de margens. Há quem as confunda com limites; eu prefiro chamá-las de forma. No autocarro, duas pessoas discutem em sussurros. Ele diz “tu não me ouves”, ela diz “tu não me escutas”. São verbos parecidos, mas não iguais. Ouvir é biologia; escutar é escolha. Aprendi a diferença com quem me quis bem. Também a escrita é uma forma de escuta: escuto o que a frase pede para ser, escuto a que distância a metáfora começa a exagerar, escuto quando é altura de parar. O vício do iniciante é achar que tudo cabe numa só página; o vício do experiente é esquecer-se de que a página pode sempre surpreender. Trabalho numa sala onde a luz insiste em ser lateral. Alguém decidiu que os candeeiros deviam fingir crepúsculo às dez da manhã. Às vezes penso que a arquitetura tem uma pedagogia secreta: ensina-nos, sem dizer, a curvar os ombros, a acelerar passos, a falar mais baixo. No intervalo, olho a rua pela janela e faço contas microscópicas: quantos passos até ao quiosque, quantos minutos para um café, quantas frases posso escrever antes que o relógio toque outra vez. Não é produtividade, é autodefesa: a tentativa de dar ao tempo a dignidade de uma matéria trabalhável. Ao almoço, duas mesas atrás, alguém diz “o que me falta é tempo para ser eu”. Tento não sorrir. Sei o que é isso e sei como a frase escorrega: por um lado, a verdade evidente — o mundo devora horas; por outro, a fuga perfeita — é mais cómodo culpar o relógio do que assumir que, às vezes, temos medo de ser quem somos. Não julgo. Também eu, mais vezes do que gosto de admitir, adio o que importa com tarefas impecavelmente inúteis. Se a procrastinação pagasse IMI, eu tinha isenção vitalícia. Nas primeiras páginas, a honestidade paga-se caro. Não me refiro a confissões em voz alta, dessas a internet está cheia; falo de honestidade de oficina — cortar o parágrafo que ficou bonito mas desnecessário, substituir a imagem fácil, aceitar que hoje não há frase perfeita e ainda assim entregar o texto. A única diferença entre escrever e não escrever está em sentar-me e ficar. A liberdade raramente chega como epifania; chega como hábito. Volto a casa ao fim da tarde. A cidade já afasta os candeeiros de si, como quem dispensa bengalas. Há uma criança que chora no supermercado, um adolescente que ri alto ao telefone, uma senhora que compra um maço de tabaco e pede “aquele com menos culpa”. Gosto deste teatro involuntário, destes papéis sem ensaio. É aqui, nestas miudezas, que o mundo me parece mais verdadeiro: não nos grandes discursos, mas no esforço pequeno de cada um para atravessar o dia com um mínimo de dignidade. À noite, abro de novo o caderno. As primeiras páginas do início da manhã já têm riscos, setas, pequenas desistências. Deixo estar. O rascunho é um retrato honesto do caminho: não há glória em fingir que foi limpo. Escrever não é alinhar vitórias, é aprender a perder menos. Quem lê talvez não repare, mas há gestos invisíveis que protegem uma frase de cair: a palavra que troquei para não repetir, o advérbio que recusei para não explicar demais, o substantivo que aguenta o peso sem pedir muletas. São estas minúcias que me lembram por que motivo escolhi este ofício: a possibilidade de construir algo que fique, mesmo que ninguém saiba o trabalho que custou ficar. Penso no futuro e recuso deliberadamente a ansiedade dos calendários. Não tenho a ambição de mudar o mundo; tenho a determinação de lhe ser fiel. Se um leitor, apenas um, encontrar numa linha minha a coragem que lhe faltava para começar — seja o que for —, então as minhas primeiras páginas cumpriram serviço público. Não é modéstia: é medida. A grandeza não está no aplauso, está no alcance. Antes de fechar o caderno, releio a primeira frase que escrevi de manhã. Está torta e, por isso mesmo, verdadeira. Decido deixá-la como ficou. As primeiras páginas não têm índice; têm ousadia. A ordem vem depois, quando a vida provar que a merece. Até lá, o meu trabalho é simples: aparecer. Sentar. Escutar. Escrever. Apago a luz. A cidade calou-se, mas não dorme. Também não. Há começos que adiam o sono — não por inquietação, mas por gratidão. Amanhã recomeço, e isso, apesar de tudo, é uma forma de paz. Caderno do Início — Aurelian Draven Caderno do Início — primeiras páginas #CadernoDoInício #AurelianDraven #Escrita #Começos #LiteraturaContemporânea
- O peso invisível dos dias
Lisboa acorda como se fosse um palco vazio. As ruas, ainda marcadas pela geometria da calçada, estendem-se em silêncio. Não há corpos que as percorram, não há vozes que se entrelacem com o rumor das pedras antigas. Apenas candeeiros erguidos como sentinelas de uma memória que ninguém parece escutar. A luz da manhã cobre as fachadas com cores que hesitam entre o abandono e a promessa, como se cada casa carregasse uma biografia suspensa. Há cidades que falam pela multidão, e há cidades que falam pelo seu silêncio. Lisboa, nesse instante, não é feita de pressa, nem de turistas, nem de vendedores que anunciam os seus produtos em pregões esquecidos. É feita de ausência. E a ausência tem sempre um peso — o peso invisível dos dias. Esse peso não se mede em números nem em relógios. Mede-se no ar parado, no som abafado de uma janela que se fecha devagar, no espaço entre duas sombras que não chegam a encontrar-se. Talvez seja esse o segredo que as cidades escondem: quando ficam desertas, revelam não apenas o que nelas falta, mas aquilo que nelas somos incapazes de ver quando a vida transborda. É fácil perdermo-nos no excesso: excesso de palavras, de imagens, de promessas. Difícil é reconhecer o vazio como parte da própria respiração do tempo. O vazio é o intervalo onde o mundo decide se avança ou se pára. E cada rua de Lisboa, quando deserta, torna-se um livro aberto nesse idioma raro que só os que caminham sozinhos sabem ler. Penso em todos os que passaram por ali: homens que regressaram de guerras e procuraram o cheiro familiar de uma cozinha acesa; mulheres que se debruçaram sobre varandas para acenar a filhos que partiam para o mar; crianças que desenharam no pó da rua a sua primeira letra incerta. E penso também em todos os que nunca voltarão. Porque cada cidade é feita de ausentes tanto quanto de presentes. Um dia, talvez, inventaremos uma ciência capaz de medir os fantasmas que habitam as ruas. Até lá, ficamos entregues à intuição: o saber íntimo de que entre cada porta fechada existe um rumor que não morre. O silêncio é apenas uma pele que encobre o coração batendo. Há quem diga que o vazio é insuportável. Eu acredito no contrário. O vazio é a condição para que qualquer gesto tenha sentido. É no espaço deixado entre duas notas que a música encontra harmonia; é no branco que a palavra desenha o seu contorno; é no intervalo da respiração que a vida se afirma como dádiva. Por isso caminho por esta Lisboa sem gente como quem atravessa uma biblioteca em chamas silenciosas. Cada cor nas paredes — ocre, azul, vermelho gasto — é um volume que resiste à erosão do esquecimento. Cada candeeiro apagado é uma vírgula de ferro numa frase ainda por escrever. E cada sombra que se prolonga na calçada é uma lembrança de que os dias são maiores do que nós. Mas a grande pergunta permanece: o que fazemos com esse peso invisível? Uns fogem. Preenchem-se de ruído para não ouvir o que o silêncio lhes pede. Outros suportam-no como um fardo, convencidos de que a vida é apenas uma soma de obrigações. Poucos ousam acolhê-lo. Porque acolher o vazio exige coragem: a coragem de ver-se a si mesmo sem a rede de distrações que a sociedade oferece. Lisboa, neste instante, oferece essa prova. Quem a olha sem pressa percebe que o mundo não nos deve nada. Que tudo é provisório: as casas, os candeeiros, as próprias cores que se esbatem com a luz. E é nesse reconhecimento da provisoriedade que nasce a única eternidade possível — aquela que carregamos quando nos deixamos transformar pelo instante. Há quem viva como se o tempo fosse inimigo. Eu prefiro pensar que o tempo é apenas um mestre severo. Obriga-nos a perder para podermos compreender. Ensina-nos que só o que passa pode ser lembrado. E Lisboa, vazia, é uma lição aberta: cada pedra da calçada já foi pisada por alguém que desapareceu, mas cujo peso invisível ainda molda a cidade. Pergunto-me se não seremos nós também parte desse mesmo enredo. Talvez um dia alguém olhe para a rua onde hoje me detenho e sinta a minha própria ausência como um peso discreto. Talvez o futuro seja apenas isso: a soma dos vazios que deixamos atrás de nós. E no entanto, há uma beleza radical em tudo isto. Porque não existe vazio que não seja também promessa. Uma rua deserta pode a qualquer instante encher-se de passos; um candeeiro apagado pode acender-se na noite; uma casa silenciosa pode abrir a janela e libertar um riso. O vazio, afinal, não é fim — é começo. Olho de novo para Lisboa. Não espero que me responda. Basta-me escutá-la na sua linguagem de pedra e luz. Sei que cada cor nas fachadas é um eco do que já foi vivido. Sei que cada candeeiro é um convite à espera. Sei que o silêncio não é ausência, mas outra forma de presença. E percebo então que o peso invisível dos dias não é maldição, mas herança. É a lembrança de que pertencemos a algo maior do que nós, algo que nos ultrapassa e nos sustenta. Cada rua, cada sombra, cada vazio é uma página da nossa história coletiva. Não precisamos temer o silêncio. Precisamos apenas de aprender a habitá-lo. Lisboa, nesse dia sem gente, ensinou-me isso. E eu escrevo agora para não esquecer: o vazio não é o contrário da vida. É a sua raiz secreta. Elian Morvane Rua deserta e em silêncio #Lisboa #Literatura #Silêncio #CidadeViva #ElianMorvane
- Lisboa, cidade sem testemunhas
O Silêncio e a Cidade Há cidades que nunca dormem, diz-se. Mas o que nunca dorme não é a cidade; são as suas feridas. As avenidas iluminadas, as fachadas de vidro, os candeeiros de ferro forjado – tudo repousa, tudo se cala no breu da madrugada. O que não adormece é o rumor de uma solidão acumulada, como se cada janela encerrasse um coração em sobressalto. Aprendi a escutar a cidade como quem encosta o ouvido a uma concha do mar: há um fundo de ondas que se repete, uma respiração invisível que atravessa os prédios e os corpos. Quando a noite se adensa e o trânsito se rende ao cansaço, sobram os sons mínimos – um cão que ladra, o vidro de uma garrafa que cai, o arrastar dos passos de alguém que não encontra descanso. É nesses instantes que o silêncio se revela, não como ausência, mas como uma presença mais funda, mais inquietante. Sempre me intrigou esta contradição: quanto mais ruído produzimos, mais precisamos do silêncio. Não do silêncio religioso, com claustros e vozes em surdina, mas de outro, mais feroz, que nos obriga a confrontar a nudez das nossas perguntas. A cidade, com toda a sua pressa, parece feita para nos distrair desse encontro. Multiplica ecrãs, semáforos, anúncios, notificações. Mas no intervalo entre um gesto e outro, quando baixamos a guarda, o silêncio regressa como quem cobra uma dívida. Recordo-me de uma madrugada em Lisboa, na Praça do Comércio. Não havia turistas, nem filas de elétricos, nem vozes a misturar línguas. Apenas o rio, pesado e escuro, com a sua respiração milenar. A lua inclinava-se sobre a água como se fosse um copo derramado. Senti que a cidade inteira estava suspensa naquele instante, como se tivesse envelhecido de súbito. E nesse vazio compreendi: as cidades são frágeis, apesar de toda a pedra, de toda a engenharia. um silêncio prolongado para que se desfizessem em pó. É por isso que muitos a temem. O silêncio expõe. O silêncio denuncia. Quantas vezes um casal, à mesa, se confronta com a impossibilidade de falar, e é nesse mutismo que se revela a falência do amor? Quantas vezes um político, interrompido, não suporta a pausa porque sabe que o vazio o desnuda mais do que qualquer acusação? O silêncio é uma espécie de espelho, mas um espelho sem imagem: devolve-nos a nós próprios em estado cru. E, no entanto, precisamos dele como de um chão firme. Sem silêncio, a palavra torna-se espuma, perde densidade. A poesia não existe sem o intervalo branco que a sustém. A música não respira sem o compasso que separa as notas. A amizade não sobrevive sem a possibilidade de estar junto e, simplesmente, calar. Talvez seja este o maior paradoxo das cidades modernas: quanto mais crescem em altura, em largura, em tecnologia, menos espaço concedem ao silêncio. Enchem-nos de barulho, mas não de presença. Distribuem vozes gravadas, alarmes, notificações, mas não oferecem o tempo nu em que se escuta o próprio coração. É como se tivéssemos medo de nos ouvir – e, no fundo, de nos conhecer. Há dias em que percorro ruas apenas para procurar recantos onde o silêncio ainda resista. Uma biblioteca quase vazia. Um banco de jardim esquecido. O interior de uma igreja abandonada, onde a luz entra pelas frestas como um salmo mudo. E nesses lugares sinto que a cidade me devolve algo essencial: a possibilidade de ser inteiro. Porque é no silêncio que se descobre a cidade invisível – aquela que não aparece em mapas, mas que pulsa sob o cimento. A cidade feita de gestos pequenos: a mulher que leva pão ao vizinho idoso, o rapaz que dá passagem antes da pressa, a criança que se detém diante de um pardal. Nenhum destes gestos faz ruído. Mas todos são a argamassa que impede a cidade de ruir. O silêncio, afinal, não é apenas ausência. É linguagem. Uma linguagem que a cidade tenta abafar mas que insiste em sobreviver. Talvez por isso eu acredite que, quando o mundo se cansar do seu próprio tumulto, será no silêncio que reencontrará a esperança. Elian Morvane Lisboa, cidade sem testemunhas — por Elian Morvane #ElianMorvane #Lisboa #Cidade #Solidão #Literatura #Portugal #PraçadoComércio
- Uma homenagem a Frank Caprio
O Juiz da Compaixão No claustro do direito, onde tantas vezes a letra se ergue como muralha, surgiu um homem que a transformou em ponte. Chamava-se Frank Caprio. Para muitos foi apenas juiz; para outros, um rosto simpático que aparecia nos ecrãs, perdoando pequenas infrações com um sorriso. Mas para quem sabe olhar com mais vagar, ele foi um sinal. Senhor, quando o mundo acredita que a lei só pode ferir, envias rostos assim, capazes de mostrar que a justiça também pode curar. Recordo as imagens do seu tribunal como quem assiste a uma liturgia: não havia pressa, não havia vaidade. O arguido entrava com medo e saía com um fragmento de dignidade restaurada. E se, por vezes, a sentença parecia apenas uma multa suspensa ou um perdão inesperado, na verdade era mais: era uma homilia feita de humanidade. Ele sabia que cada rosto traz consigo uma história invisível. Que atrás de um atraso no pagamento havia desemprego, doença, filhos para alimentar. Que por detrás de uma multa de trânsito havia cansaço, pressa de cuidar de alguém, distrações que não vinham da indiferença mas do excesso de vida. E, em vez de fechar os olhos à miséria, Caprio escancarava-os — e fazia da compaixão um ato judicial. Quantos de nós ousamos ver assim? Quantos magistrados, governantes, cidadãos comuns, param para perceber que a justiça não é apenas equilibrar pesos e medidas, mas restituir ao outro a consciência de que ainda é pessoa, ainda é digno, ainda pode recomeçar? Senhor, não são muitos. E, por isso, quando um se levanta, a sua vida torna-se luz. No seu tribunal não faltavam câmaras. Muitos pensaram que o espetáculo diminuía a seriedade da função. Mas a verdade é que, ao abrir as portas à televisão, Caprio fez algo maior: mostrou ao mundo que a misericórdia também é notícia, que o perdão pode ocupar o horário nobre. Num tempo em que se consome a violência como entretenimento, ele ofereceu um outro enredo: o da bondade. E a assembleia — não apenas de Rhode Island, mas de todos os que o viam no YouTube, na televisão, nas partilhas anónimas — reconheceu nele algo raro. Não era celebridade, era testemunha. Hoje partiu. E no silêncio que a sua ausência deixa, compreendo melhor a palavra do salmo: “A justiça e a paz abraçar-se-ão.” Porque foi isso que ele encarnou. Não uma justiça cega, nem uma paz ingénua. Mas a convicção profunda de que o direito e a compaixão não são inimigos. Senhor, quantas vezes repetimos que “ninguém está acima da lei”. Mas Caprio lembrava-nos que ninguém está abaixo da misericórdia. No claustro da tarde, imagino-o agora como juiz de um outro tribunal — não aquele em que se impõem sentenças, mas aquele em que se escuta o coração. Onde não há advogados de defesa nem acusadores públicos, mas apenas o rumor dos que chegam com a vida marcada de fragilidades. Vejo-o levantar-se, sorrir como sempre, e dizer: “Conte-me a sua história.” E sei que nesse instante o céu se abre como uma assembleia. Que resta a nós, aqui, diante da sua memória? Não basta chorar a partida. A verdadeira homenagem é aprender com ele. É levar para os nossos próprios julgamentos — pequenos ou grandes, familiares ou sociais, políticos ou íntimos — a mesma disposição de ouvir antes de condenar. É deixar que a compaixão tenha a última palavra. Na liturgia da justiça, Frank Caprio foi diácono fiel: serviu, não se serviu. E o seu legado não cabe num currículo, mas em milhares de vidas tocadas pelo gesto de alguém que acreditou que a bondade também pode ser lei. Senhor, recebe-o agora na Tua assembleia eterna. E concede-nos a graça de não esquecer que a Tua justiça se escreve sempre com a tinta da misericórdia. Amém. Frei Lourenço de Santa Clara – Pequenos Tratados do Invisível O malhete do juiz Frank Caprio #FrankCaprio #JustiçaCompassiva #FreiLourençoDeSantaClara #ComunidadeAC #PequenosTratadosDoInvisível
- O Negócio do Medo
Reservado aos Subscritores Dizem-me muitas vezes que Portugal é um país pacífico. E, no entanto, basta abrir o telejornal ou espreitar as capas dos jornais para perceber que a palavra “crime” é uma das mais repetidas, como se o dia só tivesse começado quando se anuncia um assalto, uma violência ou uma fuga espetacular. Fico a pensar nesse vício que temos em olhar o mundo através da mancha de sangue, como quem acredita que só o que dói é que prova que ainda estamos vivos. Talvez seja uma superstição moderna: se soubermos de um crime, o mal já aconteceu a outro e não a nós. É o medo a funcionar como vacina. Eu próprio cresci com essas histórias a rondar a casa. Recordo-me de uma vizinha que falava todas as manhãs do “homem do saco”, uma figura que misturava mitologia com notícia mal digerida. Diziam que roubava crianças à saída da escola e, no entanto, nunca ninguém conheceu a criança roubada. A verdade é que aquele fantasma segurava-nos mais direitos do que qualquer polícia: punha-nos em fila, fazia-nos andar juntos e ensinava-nos a olhar duas vezes antes de atravessar a rua. Não havia jornais nem televisões a mostrar estatísticas, mas havia o rumor, esse jornal oral que enchia os becos de fantasmas e que talvez tenha sido o primeiro grande noticiário do bairro. Com os anos, percebi que a relação entre crime e política é mais funda do que parece. Não se trata apenas da lei que se escreve nos gabinetes, mas da forma como o medo é usado para governar. Quando um governante fala em “segurança”, raramente fala do candeeiro que precisa de ser arranjado ou da patrulha que devia passar à noite. Fala antes de um sentimento que se quer alimentar. O medo é o pão diário da política. Não é de hoje: já os romanos sabiam que manter a população sobressaltada era uma boa maneira de a ter controlada. “Panem et circenses”, pão e circo — e, se faltar o pão, inventa-se o circo do medo. A violência urbana é um tema que os jornais adoram. Uma carteira roubada no centro de Lisboa pode ter mais impacto mediático do que uma lei inteira sobre habitação. É um paradoxo curioso: a violência real atinge poucos, mas a sensação de insegurança atinge quase todos. É isso que dá audiência, e a audiência dá poder. O medo é, no fundo, uma moeda. Houve uma tarde em que entrei num café no Porto e oiço dois homens a discutir se a cidade estava mais perigosa do que antes. Um dizia: “agora não se pode andar de noite na Baixa”. O outro respondia: “antigamente havia mais navalhadas, só não havia era televisão para mostrar”. A memória é uma fotografia a cores que vai desbotando consoante as necessidades do discurso. A ideia de que “agora é que está mau” é um truque antigo — cada geração precisa de acreditar que o presente é pior do que o passado, para se sentir mais experiente e mais dura. A política sabe disso. Não há campanha eleitoral sem um parágrafo sobre a criminalidade. Mas o curioso é que, muitas vezes, os números oficiais mostram descidas na violência e nos crimes graves. A estatística é fria, mas o discurso aquece-a, e de repente o país inteiro acredita que vive cercado. É uma espécie de alucinação coletiva, mas uma alucinação útil: dá votos, dá capas, dá discursos inflamados. Eu podia contar-lhe dezenas de histórias que vi ou ouvi. Recordo um miúdo que foi apanhado a roubar fruta no mercado. O polícia agarrou-o, o vendedor insultou-o, mas no meio da cena apareceu uma velha que lhe deu uma moeda e disse: “vai comprar o que precisas, mas não roubes”. Naquele instante, o crime foi desfeito não por uma sentença judicial, mas por um gesto que misturou compaixão e autoridade moral. Penso muitas vezes nesse episódio quando ouço falar de segurança. Quem garante a verdadeira segurança não é apenas o Estado: é também a teia invisível de justiça espontânea que as pessoas constroem quando decidem não virar a cara. O problema é que, nas últimas décadas, o discurso público foi trocando a compaixão pela desconfiança. Tornou-se normal apontar o dedo ao vizinho, desconfiar do miúdo de boné, evitar o bairro onde vivem mais pobres. E, claro, aparecem os vendedores de soluções rápidas: mais polícia, mais prisões, mais controlo. O medo é um negócio, e há quem o venda embalado em slogans fáceis. Mas nunca vi o medo resolver o que quer que seja: apenas multiplica portas fechadas, câmaras de vigilância e uma solidão urbana que é, ela própria, uma forma de violência. Um amigo meu, jornalista, dizia-me: “a notícia de crime é a mais fácil de escrever: tem sempre vítima, culpado e polícia”. É uma narrativa pronta, com personagens claras, que dispensa reflexão. Talvez por isso seja tão lida. Mas o que falta em muitas dessas histórias é o silêncio: o que levou alguém a roubar? O que antecedeu o momento em que um braço se ergueu? Há uma sociologia invisível que raramente cabe na notícia. E é aqui que a política devia entrar, não como fabricante de medo, mas como curadora das causas. O que faz crescer o crime não é apenas a falta de polícia, é a falta de futuro. Não é apenas a rua mal iluminada, é a escola que fecha cedo, o trabalho que não chega, a casa que não se paga. A violência é sempre o último capítulo de uma biografia de carências. Mas a política prefere começar pelo fim, porque é mais fácil mostrar algemas do que mostrar soluções lentas. Em muitas cidades portuguesas há bairros que se tornaram nomes malditos, etiquetas que escondem tanto quanto revelam. Quem nunca lá entrou imagina-os como territórios de guerra, mas quem lá vive sabe que também são lugares de vizinhança, de festas de rua, de crianças a jogar à bola. Essa duplicidade raramente passa na imprensa, porque a imprensa gosta de simplificar. Um bairro é perigoso, outro é seguro. A realidade, no entanto, é feita de misturas. A literatura ensinou-me que o crime é um dos temas mais antigos da narrativa. De Édipo a Dostoiévski, o que nos prende é sempre o enigma da transgressão: por que razão alguém atravessa a linha? A diferença é que na literatura temos tempo para olhar para dentro, enquanto nos jornais só se olha para fora. É essa ausência de profundidade que nos faz reféns do medo. Uma vez, numa aldeia transmontana, ouvi um velho dizer: “a justiça chega sempre tarde, mas o medo chega sempre a horas”. Achei uma definição perfeita do nosso tempo. Vivemos cercados por estatísticas, relatórios e polícias municipais, mas a sensação de insegurança continua instalada. Talvez porque não é de números que se trata, mas de perceções. E a perceção é fácil de manipular. Há um detalhe curioso: em Portugal, os crimes que mais nos assustam são os que menos acontecem. O homicídio é raro, mas ocupa páginas e páginas. Já a violência doméstica, que é diária, fica muitas vezes escondida, tratada como rotina. É uma espécie de cegueira seletiva. E aqui, outra vez, entra a política: o que escolhe dar visibilidade e o que escolhe silenciar. O crime que não se vê é, por vezes, o que mais marca uma sociedade. Escrever sobre isto é também arriscar cair no mesmo vício: dar palco ao medo. Por isso, tento lembrar-me da cena da velha no mercado: um gesto pequeno que anulou um crime inteiro. Talvez devêssemos escrever mais sobre esses momentos em que a solidariedade vence a violência. Não para adoçar a realidade, mas para mostrar que o medo não é a única lente. Quando penso no futuro, não imagino cidades cheias de câmaras e drones. Imagino praças cheias de gente, onde se possa circular sem sentir que o outro é um inimigo. Sei que é uma visão quase utópica, mas a política devia servir para isso: para erguer utopias praticáveis, e não apenas muros. E termino com outra memória. Numa noite em Lisboa, vi um homem segurar o casaco de uma criança perdida até que a mãe apareceu. Não houve crime, mas houve a possibilidade de um crime. O que ficou foi o cuidado anónimo, esse instinto de proteger o que não é nosso. Talvez seja isso que devêssemos guardar como notícia: que o medo existe, sim, mas que há também uma teia invisível de gestos simples que ainda nos mantém juntos. AC O negócio do medo nas ruas portuguesas #Portugal #Sociedade #Política #Segurança #Medo
- Sefarad no Espelho de Portugal
A presença sefardita não é nota de rodapé — é capítulo fundador da nossa história. Há nomes que, quando pronunciados, soam como um eco mais antigo do que o país que hoje julgamos ser. “Sefarad” é um desses nomes. Não cabe só nos mapas: atravessa-os. É uma palavra que não nasceu connosco, mas que, há muitos séculos, nos escolheu para ser casa — e também para ser ferida. Muito antes de Portugal existir, muito antes até de a cruz cristã assinalar templos e caminhos, já havia hebreus a habitar este território. Vieram com as marés de comércio e risco, quando os portos se enchiam de línguas diferentes e os mercados eram mais vastos do que as fronteiras conhecidas. Vieram com os fenícios, talvez com as sombras de Cartago, talvez com o eco de um acordo entre Salomão e o rei de Tiro, muito antes de a palavra “ibérico” ter nacionalidade. A história guardou-lhes vestígios mínimos — uma pedra gravada, moedas perdidas, orações sobreviventes em português, ditas em sinagogas distantes, como Amesterdão, muitos séculos depois de terem partido à pressa, perseguidos. É sempre assim: a memória dos perseguidos cabe em objetos pequenos, mas resiste mais do que a dos perseguidores. Houve tempos em que aqui encontraram espaço para viver, negociar, estudar, orar — com menos muros e menos fogueiras. E houve depois a viragem, quando a mão que antes os tolerava se fechou em punho. A Inquisição não só dispersou famílias, mas tentou apagar uma parte da própria espinha dorsal cultural que ajudaram a construir. A língua portuguesa ficou com feridas e marcas desse encontro e dessa violência. Ainda hoje, certas expressões que repetimos sem pensar carregam ecos antigos — umas com veneno, outras com cumplicidade involuntária. Mas a relação entre Portugal e os sefarditas nunca foi simples. É uma história feita de proximidade e expulsão, de reconhecimento e negação, de raízes que não se deixam arrancar e de ramos cortados à força. Mesmo quando já eram “outros” no papel, continuavam a ser “nossos” no trabalho, na ciência, nas rotas marítimas, no pensar o mundo para lá do horizonte. A lei de 2013, que abriu a porta da cidadania a descendentes de sefarditas expulsos, foi mais do que um ato jurídico: foi uma admissão pública de que não somos completos sem eles. É uma frase que Portugal disse tarde e a medo, mas que tinha de ser dita. E talvez seja isso que Sefarad nos lembra: que um país é feito não apenas do que quis ser, mas também do que tentou apagar e não conseguiu. Que a identidade é uma herança tanto dos encontros como das fraturas. E que não há espelho limpo sem aceitar as imagens que nele persistem, mesmo as que a história quis estilhaçar. AC Símbolos judaicos, testemunho da presença sefardita em território português. #HistóriaDePortugal #Sefarditas #CulturaPortuguesa #MemóriaColetiva #IdentidadeNacional #Inquisição #Judaísmo
- Quando a família pesa mais do que a vítima
Justiça portuguesa falha vítimas, alerta Conselho da Europa Há relatórios que se leem como um aviso. O documento do GREVIO — Grupo de Peritos Independentes do Conselho da Europa, responsável por avaliar a aplicação da Convenção de Istambul — é um desses textos. Publicado a 27 de maio de 2025, depois de observar a realidade portuguesa, aponta progressos inegáveis, mas não poupa nas palavras quando identifica um erro de fundo: o sistema judicial em Portugal, “privilegia a proteção da unidade familiar em detrimento da segurança das vítimas”. É uma frase curta, mas o seu peso é de chumbo. Não se trata de uma metáfora: refere-se a decisões concretas, tomadas em tribunais portugueses, onde a preservação do núcleo familiar — mesmo em contexto de violência — se sobrepôs ao direito da vítima viver sem medo. Essa inversão de prioridades não é um detalhe técnico; é uma falha de justiça que pode custar vidas. O relatório do GREVIO reconhece que Portugal avançou: a definição legal de violação passou a centrar-se no consentimento, foram criadas equipas especializadas, gabinetes de apoio junto do Ministério Público e recolhas de prova em 72 horas. Mas a mesma avaliação denuncia o que ainda falha. As sanções aplicadas a crimes de violência doméstica e sexual continuam, demasiadas vezes, a ser brandas e desproporcionadas. Persistem atitudes patriarcais entre alguns magistrados. E mantém-se a utilização, em processos judiciais, da chamada “síndrome de alienação parental” — um conceito sem validação científica e que o GREVIO recomenda que seja afastado, sobretudo quando há registo de violência doméstica. Outra crítica grave diz respeito à proteção de emergência: as ordens podem demorar até 48 horas, exigem muitas vezes uma denúncia formal ou a existência de processo-crime, e há abrigos que só aceitam acolher mulheres mediante esse requisito. Isto significa que uma vítima pode ficar exposta ao agressor no período mais perigoso — aquele em que decide romper o ciclo de violência. Não são apenas questões processuais; são falhas judiciais que se traduzem, na prática, em insegurança física e emocional para quem já viveu o suficiente para não ter de provar o óbvio. Entre as recomendações, o GREVIO pede formação obrigatória e contínua para magistrados, uma linha nacional de apoio 24 horas por dia, acesso imediato a abrigos sem barreiras burocráticas e revisão urgente de todos os procedimentos que atrasam a proteção. Este não é um debate teórico. É uma questão de prioridade moral. Colocar a “unidade familiar” acima da integridade da vítima é esquecer que não há família digna desse nome quando o medo é a sua língua principal. A justiça que hesita entre proteger a casa ou proteger quem nela sofre não cumpre a sua função: falha à lei, falha à sociedade e falha à própria ideia de justiça. O relatório do GREVIO não é um manifesto político; é um espelho que nos é colocado à frente. O que fazemos com o reflexo depende de nós. Podemos continuar a discutir percentagens, procedimentos e prazos. Ou podemos decidir que a segurança da vítima é inegociável — e agir em conformidade. No dia em que essa decisão for clara e sistemática, talvez já não precisemos de relatórios para nos lembrar do óbvio. Fonte principal: Relatório GREVIO sobre Portugal, Conselho da Europa, 27/05/2025 Convenção de Istambul: Tratado internacional para a prevenção e combate à violência contra as mulheres e violência doméstica Justiça portuguesa falha vítimas, alerta Conselho da Europa #JustiçaPortuguesa #ConselhodaEuropa #GREVIO #ViolênciaDoméstica #DireitosHumanos #ProteçãoDasVítimas #ConvençãoDeIstambul #Tribunais #Portugal #DireitosDasMulheres
- O Amor é um Feriado que Não se Assinala
Alberto Carvalho — O Amor é um Feriado que Não se Assinala Amanhã é 15 de agosto, feriado nacional em honra de Nossa Senhora da Assunção. Dia santo para os católicos, com missa obrigatória e procissões em muitas terras, mas também ocasião de romaria popular, onde a fé e a festa se misturam como há séculos. Para outros, será apenas um dia a mais no calendário, com o descanso possível e a rotina ligeiramente suspensa. Pensei que podia aproveitar a véspera para falar de um assunto que não cabe no calendário nem se limita a ritos: o amor. Não o “amor” das capas de revista, feito de retoques e frases que parecem ter saído de um cartão perfumado. O outro. O que se inventa no improviso, o que chega atrasado e ainda assim é recebido à porta, o que sobrevive aos silêncios e aos dias maus. ✺ O amor que me interessa não se deixa medir em aniversários nem cabe em datas fixas. É mais parecido com uma ponte improvisada: feita de pedaços de madeira que se tinham à mão, e que se reconstrói todos os dias para que o outro possa atravessar sem cair. É esse que me apetece escrever hoje. No tempo em que os relógios ainda eram de corda, havia a ideia de que o amor durava para sempre. Os retratos ficavam na sala, e quem passava via o casal na moldura como se nada lhes pudesse acontecer. Mas a fotografia é apenas um instante congelado; o amor, esse, tem de atravessar invernos e verões, febres e noites mal dormidas. Tem de aceitar que a vida nem sempre deixa lugar para flores na jarra, e que há semanas em que a única prova de afeto é o chá quente deixado na mesa antes de sair. ✺ Hoje, trocámos a fotografia emoldurada pelo feed que se atualiza. O amor é agora feito de mensagens rápidas, corações digitais, fotografias que se apagam passadas vinte e quatro horas. Não digo isto com nostalgia — há beleza também na forma como encontramos meios novos para dizer o mesmo. Mas há uma diferença: a urgência. Queremos respostas imediatas, declarações diárias, prova constante de que o outro está ali. E esquecemo-nos de que, às vezes, amar é justamente saber esperar. O amor não se esgota na paixão. A paixão é o incêndio; o amor é a casa que se reconstrói depois, com paredes mais fortes e janelas que se abrem quando o fumo já passou. Há quem confunda as duas coisas e fuja quando as chamas baixam, procurando o próximo incêndio. Mas quem já viveu algum tempo sabe que é nas manhãs normais, nas conversas repetidas, no cuidado quase invisível que se esconde o verdadeiro milagre. E é aí que o feriado de amanhã me parece uma boa metáfora: um dia que não é para grandes acontecimentos, mas que nos oferece a pausa suficiente para olhar para o lado e reparar que a pessoa está ali, a segurar o mesmo jornal ou a mesma chávena de café. Talvez seja esse o ponto mais alto da vida a dois: perceber que, no meio de tudo, escolhemos ficar. O amor, quando é bom, não é uma prisão. É um porto. Podemos sair e regressar, sabendo que o outro não contou as horas nem fechou as portas. É por isso que o amor exige coragem: coragem para mostrar fragilidades, para admitir falhas, para pedir desculpa. E também para ouvir sem se defender, para abraçar sem fazer perguntas, para calar quando é preciso. ✺ Lembro-me de uma frase que ouvi a um velho marinheiro: “A âncora segura, mas não prende.” O amor que vale a pena é assim. Não se trata de manter alguém por falta de alternativas, mas de querer que seja precisamente essa pessoa a atravessar connosco os invernos e os verões. Talvez o problema esteja na forma como o procuramos. Falamos de “encontrar o amor” como quem encontra um objeto perdido. Mas o amor não está à espera numa esquina. Ele nasce de gestos mínimos: uma mão que se estende sem que a peçamos, um riso que nos apanha desprevenidos, um cuidado que não se anuncia. Cresce quando é alimentado, e definha se o deixarmos ao frio. ✺ E não é só nos casais que o amor acontece. Há amores que não passam pelo romance: o amor entre amigos que se salvam mutuamente sem fazer alarde; o amor dos pais que, mesmo cansados, deixam o melhor pedaço para os filhos; o amor de quem cuida de um desconhecido numa fila de hospital. É desse que se constrói uma cidade habitável. Amanhã, quando muitos acordarem sem saber exatamente o que fazer com o dia a mais, talvez seja boa ideia gastar parte dele a reparar no que nos liga. Não no que nos separa — disso já se ocupam as notícias, as redes, os partidos. Mas no que ainda nos permite olhar para alguém e sentir que estamos a salvo. Se me perguntarem se o amor salva, respondo sem hesitar: sim. Não porque cure todas as dores ou impeça todos os erros, mas porque nos dá uma razão para continuar a tentar. É uma espécie de feriado interior que não depende de calendários: pode acontecer numa terça-feira de trabalho ou numa madrugada de insónia. ✺ O amor é raro, sim. Mas não é frágil como dizem. Frágil é a nossa atenção, que se distrai com o barulho e deixa escapar os sinais. O amor, quando existe, aguenta. Aguenta más notícias, distâncias, tempestades. Aguenta porque não se alimenta de promessas vazias, mas de gestos concretos, às vezes tão pequenos que só mais tarde percebemos o peso que tiveram. Amanhã é feriado, e talvez para muitos seja só isso. Mas para quem quiser, pode ser também o dia de olhar para alguém — ou até para si mesmo — e dizer, de forma clara: “Gosto de ti. E fico.” Não há calendário que valha mais do que isso. AC Love — O Feriado que Não se Assinala #Amor #Vida #NossaSenhoraDaAssunção #Feriado #AlbertoCarvalho #Afeto #Esperança #RelaçõesHumanas
- Trégua em marcha lenta
Trégua em marcha lenta Wall Street encerrou ontem no vermelho, ainda que com perdas ligeiras, depois de Donald Trump ter assinado a prorrogação, por mais 90 dias, da trégua comercial entre os Estados Unidos e a China. O acordo, inicialmente estabelecido em maio, visava travar a escalada de tarifas entre as duas maiores economias do mundo. Os números ficaram registados: Dow Jones -0,45%, S&P 500 -0,20% e Nasdaq -0,30%. Nada dramático, mas o suficiente para lembrar que os mercados não vivem apenas de assinaturas — precisam de sinais concretos. A decisão, já antecipada pelo secretário do Comércio, Howard Lutnick, chegou enquanto delegações norte-americanas e chinesas se encontravam na Suécia, em busca de um alinhamento mais estável. O problema, como sempre, é que tréguas não são tratados de paz. Funcionam como um intervalo no jogo, mas as equipas mantêm-se em campo, olhando o adversário com desconfiança. A economia global assiste, prende a respiração… e continua a ajustar-se a cada rumor. Enquanto isso, o investidor comum — esse que não tem assento nas mesas de negociação — continua a depender de decisões tomadas a portas fechadas e de calendários que não controla. Talvez a verdadeira questão não seja quando termina a trégua, mas o que acontecerá no minuto seguinte. Helena Vale — Mapa de Coisas Sérias Gráficos de Wall Street em queda após prolongamento da trégua EUA-China #Economia #WallStreet #China #EUA #MercadosFinanceiros #PolíticaEconómica #HelenaVale #MapaDeCoisasSérias
- Quando o Sentido se Completa em Quem Lê
O Dia em que o Mar se Mudou para a Serra Diz o meu vizinho que o problema do país é que já não temos “patriotismo a sério”. Eu perguntei se isso vinha em frasco ou se se compra ao quilo na mercearia. Ele ficou sério: “Não, Zé, é que precisamos de proteger a nossa identidade!”. Ora, eu cá sei como isso acaba — começa com bandeiras na varanda e acaba com reuniões para decidir que cor de tapete é “verdadeiramente portuguesa”. Se calhar, azul não pode, porque lembra o mar, e o mar é perigoso, que traz estrangeiros. O melhor mesmo é fechar o mar. Puxar um toldo gigante, daqueles de esplanada, e pronto. A água fica só para nós, que assim ninguém nos rouba as ondas. E como é que se vive sem peixe? Fácil, meu amigo: bacalhau salgado do Minho (se lá ainda houver), sardinha de lata e carapau enlatado com rótulo patriótico. Só de pensar, já me sinto mais “nacional”. O problema é que depois começam a implicar com as palavras. “Fado” não pode, porque veio do árabe. “Bacalhau” também não, porque a receita foi apanhada no estrangeiro. “Pastel de nata” talvez passe, desde que seja com farinha nacional e ovos com certificado de origem. Mas ai de quem usar canela de fora — traidor! É este o tal nacionalismo moderno: um amor tão grande à pátria que até a querem pôr dentro de um frasco, fechar bem a tampa e guardar na despensa, não vá entrar um sopro de vento espanhol e estragar o lote. Eu cá acho graça, mas também fico preocupado: com esta lógica, daqui a pouco vão exigir passaporte até para entrar no café da esquina. E, pior, vão cobrar taxa para ouvir a vizinha falar francês com a tia emigrada. Enfim… se isto é “patriotismo a sério”, prefiro o antigo: bandeira no São João, vinho na mesa e mar aberto para quem queira chegar. Porque Portugal sempre foi assim — e quem não gosta, que vá ver se o mar já fechou. Zé das Verdades Meias Retrato do Zé no café #CadernoDoZé #HumorPortuguês #CrónicaSatírica #PolíticaComHumor #VidaEmPortugal #HumorIrónico
- Na praça com Maria do Rio
Maria do Rio não escreve no gabinete. Escreve na praça, no café, na fila de supermercado. Não há parágrafo que não traga o cheiro a torrada ou o rumor de uma conversa a dois metros de distância. A política, para ela, não é só o que se decide em parlamentos. É também o que se decide à porta de uma escola, numa reunião de condomínio ou no preço do pão. Maria do Rio não tem medo das palavras que queimam — nem das que abraçam. Sabe que, quando um país se esquece de ouvir a rua, perde o compasso. E, por isso, transforma cada texto num passeio guiado pelo que se diz, pelo que se cala e pelo que devia estar escrito nas paredes da cidade. Aqui, na Comunidade AC, Maria do Rio traz o país para dentro de casa. E obriga-nos a pensar que talvez a política não viva só em cima de mesas de reunião, mas também nas mesas de café. AC Quando a rua é o verdadeiro parlamento. #ComunidadeAC #MariaDoRio #Política #CrónicaUrbana #VozDaRua #ParticipaçãoCívica











