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- Violência paterna: o que fica depois do medo
A mão do pai é maior do que o rosto do filho. Isso é um facto anatómico e é também a primeira coisa que o filho aprende sobre a diferença de tamanho entre os corpos — que essa diferença pode doer. O que faz a violência de um pai a uma criança de sete anos? Tinha sete anos. Chamava-se, digamos, Tomás. Uma mão maior do que o rosto. O medo que fica quando a violência vem de quem devia proteger. Vivia num apartamento de três assoalhadas com o pai, a mãe e uma irmã mais nova. O pai trabalhava na construção, chegava a casa às seis e meia, lavava as mãos durante tempo suficiente para que o barulho da água servisse de aviso. Quando a água parava, todos ficavam muito quietos. Não havia nada de extraordinário no pai de Tomás. Era um homem de quarenta e dois anos com dores nas costas e dinheiro contado até ao fim do mês. Não bebia mais do que os vizinhos. Não tinha prontuário. Ia à missa no Natal. O que desencadeou aquela tarde de Outubro não importa — e é importante que não importe. O que se aprende da violência doméstica, quando se olha para ela com atenção, é que o desencadeador raramente tem escala proporcional ao que se segue. Um copo partido. Uma nota de escola. A demora a pôr a mesa. O filho que não ouviu à primeira. Tomás não tinha ouvido à primeira. O pai levantou-se da cadeira com uma lentidão que não era calma — era o tempo que levava a decidir. A mãe foi para a cozinha. A irmã ficou muito imóvel no sofá, o que é uma forma de desaparecer quando não se pode ir a lado nenhum. A bofetada foi única. Não foi uma surra — não houve cinto, não houve cena longa. Foi uma bofetada aberta na cabeça de uma criança de sete anos, com força suficiente para a desequilibrar. Tomás bateu com o cotovelo no ângulo da mesa e começou a chorar, não de dor emocional — de dor física, aquela que é involuntária e por isso mais humilhante, porque o corpo trai a tentativa de não mostrar nada. O pai disse: para de chorar. Essa instrução — parar de chorar depois de ter sido a causa do choro — é onde a violência não termina. É onde recomeça a violência. Há um equívoco persistente na forma como se fala de violência doméstica sobre crianças: fala-se de monstros. O monstro é útil porque resolve o problema da identificação — o monstro não sou eu, não é o meu vizinho, não é aquele homem perfeitamente normal que vi ontem no supermercado com um miúdo ao colo. O monstro existe algures fora do raio de visão moral do cidadão comum. Os números não confirmam essa topografia. Em Portugal, como em toda a Europa, a esmagadora maioria dos casos de violência sobre crianças é exercida por alguém dentro de casa — e dentro de casa, o pai biológico é o agressor mais frequente nas faixas mais jovens. Não o estranho. Não o perturbado clínico visível. O homem que conhece o nome completo da criança, que assinou o registo de nascimento, que tem sobre ela autoridade legal reconhecida pelo Estado. A violência doméstica sobre crianças é estruturalmente invisível não porque aconteça em sítios escondidos, mas porque acontece em sítios que a sociedade decidiu não olhar com atenção — o interior das famílias, o espaço protegido pelo princípio de não-intervenção na vida privada, o território onde se diz que cada um sabe o que é melhor para os seus filhos. O que Tomás aprendeu naquela tarde não foi que o pai era mau. Aprendeu algo mais complicado: que o pai podia ser mau. Que a fronteira entre a figura de autoridade e a ameaça física era uma fronteira que o pai podia atravessar sempre que quisesse — e que ninguém ia impedi-lo. A criança que foi batida uma vez sabe que pode ser batida outra vez. E passa a organizar o comportamento em função dessa possibilidade — não em função do que é certo ou errado, do que é seu ou do que gosta, mas em função do que provoca ou não provoca a travessia dessa fronteira. Chama-se a isso hipervigilância, nos manuais de psicologia do trauma. Nas casas onde acontece, chama-se crescer. Portugal tem uma relação particular com esta história. Durante décadas — e com cobertura ideológica explícita do Estado — o direito de correção paternal foi não apenas tolerado mas codificado numa visão de família em que a autoridade do pai era estruturalmente análoga à autoridade do Estado: inquestionável, benevolente por definição, e portanto imune à ideia de abuso. Quem corrige educa. Quem educa não pode abusar. Esse vocabulário sobreviveu ao Estado Novo. Sobreviveu à democracia. Ainda circula — com menos exposição, com linguagem atualizada — na ideia de que uma palmada a tempo não fez mal a ninguém, de que os miúdos de hoje não têm limites, de que os pais de antigamente eram mais duros e os filhos saíam melhores. Os filhos não saíam melhores. Saíam mais silenciosos. Às oito e meia dessa noite, o pai de Tomás sentou-se ao lado dele no sofá e perguntou-lhe se já estava bem. Tinha um tom diferente — não de arrependimento exatamente, mas de encerramento. A questão não era genuína: era o ritual de normalização que se segue, o gesto que permite que a noite continue, que o jantar seja comido, que a família sobreviva à sua própria violência e continue a ser reconhecível como família. Tomás disse que sim. Porque tinha sete anos e a única saída disponível era essa. A criança não pode não perdoar. Não tem acesso à categoria jurídica ou emocional da rutura, depende do agressor para comer, dormir, ir à escola — e aprende, portanto, a gerir a distância entre o que sente e o que mostra com uma precisão que nenhuma criança deveria ter de desenvolver. É essa precisão que os adultos sobreviventes de violência parental descrevem com mais frequência: não a dor das pancadas, mas o trabalho constante de calcular o estado de espírito do outro, de ler sinais antes de que se tornem ameaças, de habitar o próprio espaço doméstico como um território de risco que tem de ser navegado com cuidado. Há uma pergunta que não se faz suficientemente: o que é que o pai sabia? Sabia que tinha batido no filho. Sabia que o filho tinha chorado. Sabia que a mão aberta numa cabeça pequena desequilibra. Todas essas coisas eram conhecidas — e foram escolhidas, ainda que não deliberadamente no sentido de um plano, pelo menos no sentido de uma possibilidade não recusada. O argumento do descontrolo — perdi a cabeça, não sabia o que estava a fazer — é o argumento mais frequente e o menos sustentado pela evidência. A violência doméstica raramente é cega: tem alvos, tem limites, tem padrões de recorrência que pressupõem memória. O que se perde, no momento da violência, não é a consciência — é a inibição. E a inibição perdeu-se porque o custo de a perder era suportável. O filho tem sete anos. Não vai embora. Não chama a polícia. Não tem vocabulário para o que aconteceu. O cotovelo de Tomás ficou roxo durante uma semana. Ele disse à professora que tinha caído das escadas. Não mentiu por medo de consequências para o pai. Mentiu porque tinha aprendido — com uma eficiência que é uma das formas mais cruéis de inteligência infantil — que o mundo fora de casa não estava equipado para fazer algo útil com a verdade. Talvez estivesse errado. Provavelmente não estava. Rita Alarcão Júdice tem hoje a pasta que pode mudar isto — não sozinha, não de um dia para o outro, mas tem-na. Em 2025, Portugal registou 29.644 participações por violência doméstica, 27 mortos e 61,5% de inquéritos arquivados. Treze vírgula sete por cento resultaram em acusação. No mesmo ano, o apoio judiciário às vítimas caiu de 1,6 milhões para 916 mil euros — menos dinheiro para quem mais precisa de um advogado, no mesmo ano em que o Conselho da Europa identificou publicamente atitudes patriarcais em parte da magistratura portuguesa. O GREVIO e o RASI 2025, via Arcana News foram publicados no mesmo mês. Não dialogam entre si. Uma ministra que fala em tornar a justiça mais acessível e mais clara sabe, ou deve saber, que a criança que não tem vocabulário para o que lhe aconteceu também precisa de um sistema que não a obrigue a provar o que calou. O problema não é a falta de legislação. É a distância entre o que está escrito e o que chega a uma sala de aula em Outubro, quando uma professora olha para um cotovelo roxo e decide não perguntar. #Literatura #GREVIO #RASI #RitaAlarcãoJúdice #ViolênciaDoméstica #Portugal
- O acordo existe. Trump é que não o consegue assinar
A 26 de fevereiro de 2026, em Genebra, Steve Witkoff e Jared Kushner sentaram-se em frente à delegação iraniana. Tinham voado para a Suíça sem equipas de especialistas, sem cadernos de posições preparados, sem o aparato técnico que qualquer negociação desta escala normalmente exige. A mensagem que transmitiram foi simples: não precisamos de peritos, não precisamos de detalhes, precisamos apenas que aceitem os nossos termos. A reunião terminou sem acordo. Por que as negociações com o Irão não chegam a acordo? O impasse não está na inexistência de um acordo possível, mas na incapacidade política de Trump em aceitar uma solução que permita ao Irão assinar sem parecer derrotado. Há guerras que terminam por esgotamento militar. Esta não vai terminar assim. O Irão tem reservas para dois a três meses de bloqueio. Os Estados Unidos têm um calendário político que os iranianos calculam ser ainda mais curto — semanas, não meses, antes que o preço do petróleo, a falta de combustível para aviões e a pressão económica acumulada tornem o custo doméstico insuportável para uma administração que chegou ao poder prometendo exatamente o contrário. Nenhum dos dois lados vai dobrar o outro pela força. Ambos sabem disso. A questão não é se haverá acordo. É se o homem que teria de o assinar consegue fazê-lo sem destruir a possibilidade no próprio ato de a criar. Trump construiu a sua identidade política à volta de uma ideia de vitória que exige a visibilidade da derrota do outro. Não basta ganhar — é preciso que o outro seja visto a perder. Esta não é uma preferência estilística. É uma limitação estrutural quando aplicada a negociações com um regime que sobreviveu quarenta anos de pressão externa precisamente porque aprendeu a nunca parecer dobrado. O Irão não assina o que pareça rendição — não porque os seus líderes sejam irracionais, são calculistas e pragmáticos dentro dos seus próprios parâmetros, mas porque a legitimidade interna do regime depende da perceção de que resistiu onde outros teriam cedido. A diplomacia, na sua forma mais exigente, é a arte de construir acordos em que cada parte pode apresentar o resultado aos seus como uma vitória. Ou pelo menos como não uma derrota. "Unconditional surrender" foi a formulação que Trump usou nos primeiros dias da guerra. É a formulação que os iranianos ouviram. E é a formulação que torna o acordo estruturalmente mais difícil cada vez que é repetida, porque obriga a contraparte a provar, para consumo interno, que não foi isso que aconteceu. Enquanto Witkoff e Kushner esperavam em Genebra que os iranianos aceitassem os seus termos, as delegações iranianas percorriam o mundo. Islamabade, para as conversações com os paquistaneses. Mascate, para os omanis. Moscovo, para discutir com os russos o que fazer com as reservas de urânio enriquecido. Três capitais em dias. Ambos os lados sabem o que é preciso. O obstáculo não é o Irão — é a prática política de um presidente que só reconhece a vitória quando o adversário aparece visivelmente derrotado. E é o comportamento de um regime que está a construir a arquitetura de uma saída que não pareça uma saída — que está a criar, com a paciência de quem tem décadas de experiência em sobreviver à pressão externa, as condições para que um eventual acordo possa ser apresentado em Teerão como algo diferente de capitulação. Os americanos, neste mesmo período, não se moveram. Ficaram à espera. A assimetria não é de poder. É de método que aplicam. Portugal tem uma memória longa sobre o que acontece quando um ator com mais força não percebe que a força não é o instrumento certo. Durante treze anos, o Estado Novo travou guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau contra movimentos de independência que não podiam vencer militarmente mas que também não podiam ser derrotados por meios militares. O impasse não foi resolvido pela força de nenhum dos lados. Foi resolvido quando, dentro do próprio exército português, oficiais que tinham servido nessas guerras chegaram à conclusão de que a continuidade era impossível — e construíram uma saída que preservou a dignidade de quem saía. O 25 de Abril não foi uma derrota. Foi uma retirada com arquitetura suficiente para não parecer uma fuga. A administração Trump não está a construir essa arquitetura. Está a insistir na formulação que a torna impossível. As condições para um acordo existem e são conhecidas. Do lado iraniano: algum grau de enriquecimento de urânio reconhecido, levantamento das sanções, acesso a mercados. Do lado americano: garantias de não proliferação, reabertura do Estreito de Ormuz, alguma forma de supervisão internacional. Nenhuma destas posições é irreconciliável com a da outra parte. O que não existe é uma formulação que permita a Trump apresentar o resultado como rendição iraniana e aos Guardiães apresentá-lo como vitória estratégica. Há uma solução técnica possível para o Estreito — um consórcio internacional, um sistema de portagens partilhado, uma supervisão multilateral que retire ao Irão o controlo exclusivo sem o obrigar a ceder formalmente a soberania. A solução técnica só funciona se o contexto político a deixar funcionar — se nenhuma das partes precisar de a apresentar como derrota da outra. Com a gramática atual de Washington, esse contexto não existe. Vaez formulou-o com uma precisão que poucos analistas conseguem: Trump poderia ter tido, na sua primeira presidência, um acordo melhor do que o que Obama assinou. Tinha a alavancagem económica, tinha o contexto, tinha a disposição iraniana. O que não tinha era a capacidade de deixar o outro lado sair sem humilhação. E sem isso, não há acordo — não com os iranianos, não com ninguém que tenha aprendido a tratar a dignidade como recurso estratégico. A guerra continua. O Estreito permanece fechado. O petróleo sobe. As companhias aéreas cancelam voos por falta de combustível. O Campeonato do Mundo está marcado para os Estados Unidos e começam a haver dúvidas sobre a logística de um torneio sem querosene suficiente para os aviões dos adeptos. Trump declarou em Truth Social que tem "todo o tempo do mundo". É o tipo de frase que se diz quando se perdeu o controlo do calendário. O Irão sabe que o tempo americano é mais curto do que o seu. Os mercados sabem. Os aliados europeus, que se recusaram a abrir as bases para as operações americanas e que continuam a ver o custo económico do conflito a subir, sabem. As negociações continuam. Os iranianos continuam a viajar. Os americanos continuam à espera que o outro lado aceite os seus termos. Em Genebra, a 26 de fevereiro, Witkoff e Kushner tinham dito que não precisavam de peritos. Tinham razão num sentido que não pretendiam: o problema não é técnico. É a questão mais antiga da diplomacia — como se constrói um acordo em que ambos os lados podem olhar para o resultado e chamar-lhe vitória. É uma arte. E há homens que simplesmente não a aprenderam. Fontes: entrevista de Ali Vaez ao The New Yorker, abril de 2026; reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026. #GuerraDoIrão #Trump #Negociações #Irão #Diplomacia #EstreitorDeOrmuz #Geopolítica #AtlanticLisbon #MédioOriente #Acordo #PolíticaExterna
- O país que não recebia armas tornou-se fornecedor dos que as tinham
Num campo de treino algures nos Emirados Árabes Unidos, em março de 2026, instrutores ucranianos ensinavam militares do Golfo a abater drones com interceptores que custam dez mil dólares. Os drones que estavam a ser simulados custavam entre oitenta mil e cento e trinta mil dólares cada. A diferença de preço não era um detalhe técnico. Era o argumento de venda. Ucrânia vende drones ao Golfo: o mercado que a guerra do Irão criou. A Ucrânia tinha chegado ao Golfo com algo que nenhum dos fornecedores habituais de armamento conseguia oferecer: quatro anos de experiência operacional real contra exatamente o tipo de ameaça que o Irão acabara de demonstrar ser capaz de lançar em escala industrial. Não era teoria. Não era simulação. Era o conhecimento acumulado de quem aprendeu a sobreviver em condições que os países do Golfo estavam agora a descobrir pela primeira vez. A guerra do Irão abriu no Golfo um mercado inesperado para a experiência ucraniana: o país que dependia de armas ocidentais passou a vender drones, formação e tecnologia contra-drone a aliados que julgavam estar protegidos. O Irão fechou o Estreito de Ormuz em fevereiro de 2026 com uma combinação de mísseis balísticos e drones Shahed que rapidamente se tornou o padrão tático do conflito. Os países do Golfo, que tinham sistemas Patriot instalados nos seus territórios mas viram esses sistemas a ser reorientados para prioridades americanas, perceberam com a brutalidade dos factos consumados que a defesa contra drones baratos e em volume é um problema diferente da defesa contra mísseis convencionais. Exige outra doutrina, outros equipamentos, outra cadeia de decisão. Exige, acima de tudo, experiência que não se compra num catálogo de armamento. A Ucrânia tinha essa experiência. Tinha-a construído pela necessidade — o tipo de necessidade que não admite erro porque o erro custa vidas — durante quatro anos de guerra contra uma força que usava os mesmos Shaheds iranianos, comprados por Moscovo e integrados na sua doutrina de ataque a infraestruturas civis. Quando o Golfo começou a procurar quem pudesse ensinar o que sabia, havia um único país com credenciais operacionais verificadas e disponibilidade imediata. A guerra do Irão privou a Ucrânia de interceptores Patriot e criou-lhe um mercado no Golfo que Washington não controla e não antecipou. Zelensky assinou acordos de defesa com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar. Os acordos incluíam fornecimento de drones, construção de linhas de produção no próprio Golfo, formação de pessoal e transferência de tecnologia de contra-drone. Por março de 2026, mais de duzentos especialistas militares ucranianos estavam no terreno em países do Golfo Pérsico. Não como conselheiros. Como instrutores com experiência direta do que estavam a ensinar. A mesma guerra que reduziu o fornecimento de interceptores Patriot à Ucrânia — porque os Estados Unidos os redirecionaram para as operações no Golfo — criou as condições para que a Ucrânia encontrasse um mercado que não dependia dos Estados Unidos para existir. A escassez que Washington impôs a Kyiv tornou o conhecimento ucraniano mais valioso, não menos. O país que estava a ser privado de armamento ocidental tornou-se fornecedor de segurança para os países que esse armamento estava a proteger em vez dela. Portugal reconhece esta geometria, ainda que em versão mais antiga e menos dramática. Durante séculos, o valor estratégico de um país pequeno não dependeu do seu tamanho mas da sua posição — o que controlava, o que sabia, o que outros precisavam de atravessar para chegar ao que queriam. Sagres não era uma base militar. Era o ponto onde o conhecimento náutico português se tornava indispensável para qualquer projeto de expansão atlântica. As Lajes não eram território americano. Eram o sítio sem o qual a logística americana no Atlântico não funcionava. A Ucrânia está a fazer algo estruturalmente semelhante — a transformar competência adquirida em condições extremas num ativo estratégico que outros países precisam e não têm. O Golfo não pode esperar décadas. Precisa agora. Os acordos com os três países do Golfo não são apenas transações comerciais. São o início de uma arquitetura de relações bilaterais que a Ucrânia não tinha antes da guerra e que a guerra do Irão acelerou de forma que nenhum planeamento estratégico teria conseguido antecipar. A Arábia Saudita, os Emirados e o Qatar são atores com capacidade financeira, influência diplomática e posições em fóruns multilaterais que a Ucrânia tem interesse em cultivar independentemente de qualquer acordo de armamento. O drone é o produto. A relação é o investimento. Orysia Lutsevych, do Chatham House, formulou-o com precisão: a Ucrânia quer mostrar que é "a linha da frente de uma revolução tecnológica militar" e que acordos de segurança com Kiev tornam os parceiros "mais seguros". É uma narrativa de posicionamento — a Ucrânia não como país em guerra à procura de apoio, mas como potência tecnológica de nicho com algo concreto a oferecer. A distinção importa porque muda a natureza da relação. Um país que pede apoio depende da generosidade do outro. Um país que vende competência tem alavancagem. Esta transformação não apaga os custos da guerra nem resolve o problema central de Kiev — que continua a ser a Rússia, que continua a atacar, que continua a beneficiar dos preços do petróleo inflacionados pelo fechamento do Estreito. O que muda é a posição relativa da Ucrânia num sistema internacional que estava a tratá-la crescentemente como um problema de gestão humanitária em vez de como um ator com interesses e capacidades próprias. Há um número que ilustra a distância entre os dois mundos que a Ucrânia habita simultaneamente. Os Estados Unidos utilizaram cerca de oitocentos interceptores Patriot nos primeiros três dias da guerra com o Irão — mais do que a Ucrânia recebeu em quatro anos de conflito. No mesmo período, a Ucrânia declarava capacidade de produzir dois mil interceptores próprios por dia, metade dos quais disponíveis para exportação. O país que não recebia Patriot suficientes estava a tornar-se fornecedor dos que os tinham. A assimetria não é apenas económica. É doutrinária. Os sistemas ocidentais foram desenhados para ameaças convencionais de alta intensidade — mísseis balísticos, aviões de combate, blindados. O drone barato e em volume é uma ameaça diferente, que exige respostas diferentes, que a Ucrânia desenvolveu por necessidade enquanto o Ocidente continuava a investir nos sistemas que conhecia. Quando o Golfo descobriu que o Patriot não é a resposta certa para uma nuvem de Shaheds, a Ucrânia já tinha a resposta. Tinha-a há anos. Tinha-a porque não havia alternativa. A guerra continua. Kiev continua a receber mísseis balísticos e drones noturnos. A atenção americana continua desviada para o Golfo. As garantias de segurança ocidentais continuam a ser uma promessa cujo cumprimento depende de calendários políticos que a Ucrânia não controla. Ao mesmo tempo, os instrutores ucranianos ensinam nos Emirados. As linhas de produção de drones estão a ser construídas na Arábia Saudita com tecnologia ucraniana. O Qatar assinou. A lista pode crescer. Não é o fim da guerra. Não é sequer o começo do fim. É a Ucrânia a perceber, pela experiência direta e sem alternativa, que a sobrevivência de um país pequeno num sistema internacional instável raramente depende apenas de quem o apoia. Depende também do que tem para oferecer quando os outros precisam. Por agora, o que tem para oferecer são drones que custam dez mil dólares e a memória operacional de como se usa um deles para abater outro que custa dez vezes mais. Fontes: reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026. #Ucrânia #GuerraDoIrão #Drones #Golfo #Geopolítica #AtlanticLisbon #MédioOriente #Defesa #EstreitorDeOrmuz #Zelensky #Armamento
- 2027 Não É Um Ano, É Um Método
OPINIÃO · Mundo · China/Taiwan · Segurança A mais recente avaliação do Pentágono descreve uma China que já não se limita a modernizar equipamento: está a consolidar, passo a passo, a capacidade de operar longe do continente e de sustentar operações prolongadas — um ponto particularmente sensível quando se olha para Taiwan e para o equilíbrio no Indo-Pacífico. O relatório é claro num aspecto e ambivalente noutro. Claro, porque identifica progressos consistentes: mais meios, mais treino, mais opções operacionais. Ambivalente, porque assinala que, no final do ano passado, Pequim ainda não tinha a certeza de conseguir executar com sucesso uma operação de invasão e ocupação da ilha — apesar de Xi Jinping ter fixado 2027 como horizonte para dotar o Exército Popular de Libertação (EPL) das capacidades necessárias para tomar Taiwan pela força. A intenção permanece; a convicção operacional, não é apresentada como garantida. Essa tensão aparece também na formulação do próprio documento: o EPL “continua a refinar” várias vias para impor a unificação pela coerção, mas a liderança chinesa “permanece insegura” quanto ao grau de prontidão para uma tomada efectiva de Taiwan. Traduzindo em termos práticos: o planeamento existe, o treino intensifica-se, mas há dúvidas — sobre coordenação, execução, perdas aceitáveis, resposta externa e, sobretudo, sobre a diferença entre capacidade declarada e capacidade demonstrada. Enquanto a grande decisão não acontece, a pressão faz-se no quotidiano. O Pentágono aponta para um aumento forte de actividade chinesa nas imediações de Taiwan, por via aérea e marítima, com incidência particular na zona de identificação de defesa aérea (ADIZ). A escalada é quantificada: mais de 60% de subida, de 1.703 incidentes em 2023 para 2.771 no ano passado. Não é um padrão de “crise” episódica; é um regime de desgaste que normaliza a presença e testa rotinas de resposta. No mar, a tendência é semelhante. O relatório indica intensificação de operações de navios de guerra no Estreito de Taiwan, reforçando a mensagem de permanência: a presença torna-se instrumento político e militar, independentemente de haver ou não um confronto aberto. Do lado de Pequim, o enunciado político não mudou: Taiwan é considerada parte do território chinês e o uso da força continua declarado como opção possível. A diferença, sublinha o Pentágono, é que o país dispõe hoje de músculo militar muito superior ao de décadas anteriores — e esse músculo é posto à prova em exercícios. Em 2024, segundo o relatório, as forças chinesas realizaram treinos para validar “componentes essenciais” de um conjunto de cenários: invasão anfíbia, ataques de fogo e bloqueio marítimo. São peças distintas de um mesmo tabuleiro. E, quando ensaiadas, deixam de ser apenas linguagem política: tornam-se procedimento. A reacção norte-americana, tal como descrita no documento, mistura reforço material e gestão de risco. Na semana passada, a administração Trump aprovou um pacote de vendas de armas a Taiwan de 11 mil milhões de dólares, com lançadores de mísseis montados em camiões, mísseis anti-tanque, artilharia e drones. Em simultâneo, Trump desvalorizou publicamente a probabilidade de Pequim recorrer à força num horizonte próximo e sinalizou intenção de aprofundar canais com Xi, com uma cimeira prevista para Abril. A combinação é típica: endurece-se a capacidade de dissuasão de Taiwan, mas evita-se fechar a porta à diplomacia com Pequim. O relatório acrescenta que Washington pretende ampliar comunicações militares com a China e insistir em mecanismos para clarificar “intenções pacíficas”. Só que essa expressão tem elasticidade: o que para os EUA é prevenção de escalada, para Pequim pode ser interpretado como espaço para avançar com pressão gradual, sem ultrapassar a linha da guerra formal. A política norte-americana tradicional é enquadrada pelo Pentágono como continuidade da chamada ambiguidade estratégica: manter a China na incerteza quanto a uma intervenção directa, mas também conter iniciativas unilaterais de independência formal de Taiwan que poderiam precipitar um conflito. O problema, sugere o texto, é que a margem de manobra diminui à medida que a actividade militar se torna mais frequente e a região mais nervosa. Há, ainda, uma nota sobre o próprio estilo do documento. Esta é a primeira avaliação do segundo mandato de Trump e surge após a divulgação de uma estratégia de segurança nacional que dá primazia à defesa do Hemisfério Ocidental. O Pentágono apela a cooperação mais estreita com parceiros do Pacífico para dissuadir tentativas de tomada de Taiwan, mas menciona a China poucas vezes e, quando o faz, tende a fazê-lo em chave económica. Menos dramatização, mais pragmatismo — sem que isso reduza a gravidade das conclusões. O relatório tem cerca de 100 páginas, aproximadamente metade do comprimento do documento publicado no ano anterior pela administração Biden. E inclui uma frase pesada: a “acumulação militar histórica” da China está a tornar o território dos EUA “cada vez mais vulnerável”. Tom Karako, do CSIS, notou precisamente essa mudança: menos detalhe técnico sobre equipamento e um sublinhado inesperado de melhoria de relações e de cooperação militar EUA–China, algo que contrasta com a leitura de confronto inevitável presente noutros anos. Nos objectivos estratégicos atribuídos ao EPL, o Pentágono enumera três grandes linhas rumo a 2027: capacidade para alcançar uma “vitória decisiva estratégica” sobre Taiwan; capacidade de “contrabalanço estratégico” face aos EUA em domínios nucleares e outros estratégicos; e capacidade de “dissuasão e controlo” sobre actores regionais. Não são metas pequenas — e têm implicações directas para a estabilidade. No capítulo nuclear, o relatório estima que a China já terá mais de 600 ogivas. O texto sugere um ritmo de crescimento mais lento do que em anos recentes, mas insiste que a trajectória continua expansiva, com projecção para ultrapassar 1.000 ogivas até 2030. Pequim, por sua vez, mantém a recusa de conversações de controlo de armas nos termos propostos por Washington, argumentando que pretende aproximar-se do nível de EUA e Rússia e que são essas potências que deveriam reduzir primeiro. No mar, o documento aponta um plano ambicioso: seis porta-aviões até 2035, totalizando nove. A marinha chinesa concluiu ensaios marítimos do seu terceiro porta-aviões, o primeiro concebido internamente. O Fujian aproxima-se do desenho de convés plano usado pelos EUA e inclui sistema de lançamento electromagnético, semelhante ao dos porta-aviões norte-americanos da classe Ford. Ryan Fedasiuk, do American Enterprise Institute, sublinhou que o relatório clarifica este objectivo de nove porta-aviões, o que colocaria a frota chinesa imediatamente atrás da americana. Os EUA operam com 11. Por fim, o Pentágono volta a insistir na dimensão global da projecção chinesa. O relatório refere a inauguração, em Abril, de um centro de logística e treino numa base naval no Camboja e recorda a presença chinesa em Djibuti, junto ao Mar Vermelho. A mensagem é simples: o eixo de ambição não se esgota no Estreito de Taiwan. Está a desenhar-se uma arquitectura de alcance mais largo — e é isso que, no fundo, transforma este dossier numa questão sistémica, não apenas regional. Cidade iluminada à noite #China #Taiwan #IndoPacifico #Pentagono #Geopolitica #SegurancaInternacional #Dissuasao #EPL #Marinha #PoliticaExterna
- O Preço do Perdão — Parte I
Reflexões íntimas e crónicas de um país por dentro — fragmentos de uma pátria que se reconhece no que não diz, no que esconde, no que já não sabe nomear. Um país sem nome, mas com memória. Há poderes que nascem com a intenção de salvar e acabam, lentamente, por aprender a corromper. Nenhum me inquieta tanto como o poder que permite a um só indivíduo — um presidente, um chefe de Estado, um vértice solitário da pirâmide — rasgar sentenças que foram escritas ao longo de meses ou anos, entre provas, testemunhos, hesitações, recursos, angústias e cicatrizes. O poder que absolve e o risco de transformar a clemência num instrumento de influência. Esse gesto, que chamamos “perdão”, é uma das mais antigas invenções humanas: uma luz que atravessa a dureza da lei. Mas também é, se não for vigiado, uma sombra que atravessa a transparência da República. Nunca consegui olhar para o perdão presidencial sem um sobressalto íntimo. Há nele algo de sublime e algo de perigoso. Sublime porque reconhece que a justiça, por mais rigorosa que seja, pode errar; perigoso porque recorda, com a brutalidade dos factos, que o poder absoluto nunca desapareceu — apenas mudou de roupagem, tornou-se mais limpo, mais polido, mais constitucional. Mas continua ali, à distância de uma assinatura. Quando observo esse gesto — a caneta que se inclina, a tinta que cai, a sentença que se dissolve — pergunto sempre: quem vigia o vigilante? Quem decide que este perdão é um sinal de humanidade e aquele outro um ato de conveniência? Quem distingue a misericórdia do cálculo político? Quem separa a compaixão do reflexo instintivo de proteger os seus? É aqui que começa a minha inquietação. I — O Perdão como Ritual de Poder Todos os povos inventaram, à sua maneira, um mecanismo para libertar alguém do peso da culpa. É um traço profundamente humano: não conseguimos viver numa sociedade onde tudo é punido, onde tudo é definitivo. Precisamos de acreditar que existe uma porta, pequena que seja, para aqueles que erraram e merecem recomeçar. Mas, em quase todas as civilizações, essa porta não é larga — é estreita e depende de um guardião. O perdão presidencial, tal como existe nas democracias modernas, é herdeiro direto dessa lógica: um poder extraordinário reservado a uma pessoa ordinária, com virtudes, limites, inclinações e fragilidades como qualquer um de nós. E aqui surge o paradoxo: confiamos num cidadão comum um poder extraordinário porque acreditamos que ele será capaz de agir com uma virtude extraordinária. Mas a História, essa velha professora que nunca perdoa ilusões, mostra-nos que raramente é assim. O perdão presidencial é uma espécie de altar laico: aproxima-se com solenidade, ajoelha-se perante o espírito da justiça, coloca-se a mão sobre a pedra fria da Constituição e decide-se se a clemência é um gesto de grandeza… ou uma arma de bastidores. II — A Economia da Clemência Há uma frase que todos conhecemos, ainda que raramente admitamos: a lei é para todos, mas a exceção não é. E é aqui que começa a economia moral do perdão. A clemência oficial nunca existe no vazio. Existe num ecossistema de relações humanas: amizades políticas, alianças silenciosas, redes de influência, telefonemas discretos, conselheiros que sussurram, advogados que insinuam, emissários que preparam o terreno. A própria ideia de “pedido de perdão” já contém em si uma desigualdade. Quem não tem voz, pede como pode; quem tem poder, pede como quer. E a linha que separa o justo do conveniente começa a desfocar-se. Primeiro quase sem se notar. Depois com a naturalidade de quem bebe água. Um país que começa a ver o perdão como um privilégio negociável — explícita ou implicitamente — aproxima-se perigosamente de uma aristocracia moral. Uma sociedade que aceita que algumas pessoas podem comprar, merecer ou influenciar a própria anulação dos seus erros começa a habituar-se a um novo normal: uma justiça com duas portas, uma largura e outra estreita. Tudo isto me lembra, inevitavelmente, um velho princípio: o que é concedido em nome da graça pode ser reclamado em nome do interesse. E aquilo que deveria ser exceção transforma-se em moeda. III — A Fragilidade das Instituições Quando um Presidente perdoa alguém que nunca deveria ter sido condenado, o país respira de alívio. A clemência aparece como o último reduto da justiça, o ponto de fuga numa arquitetura rígida. Mas quando um Presidente perdoa alguém que deveria responder pelos seus atos, a República perde um pedaço da sua espinha dorsal. Não é apenas a lei que fica abalada; é a perceção de que todos somos medidos pela mesma balança. E, numa democracia, a perceção é tão importante quanto o facto. Não precisamos que um abuso seja frequente para que seja corrosivo. Basta que seja plausível. Basta que uma parte da sociedade comece a suspeitar que a justiça pode ser dobrada como um galho seco. É assim que nasce o descrédito. E o descrédito é um vírus rápido, invisível e resistente. IV — O Perdão como Espetáculo Há outra dimensão que me inquieta: o perdão como performance pública. O perdão como parte de uma coreografia política. O perdão como gesto calculado para produzir efeito, gerar manchetes, fidelizar seguidores, recompensar alianças, sinalizar poder. Quando a clemência se transforma em espetáculo, perde o seu núcleo moral. Deixa de ser uma síntese entre justiça e humanidade para se tornar numa ferramenta de narrativa. O gesto deixa de corrigir a vida e passa a corrigir a agenda. E, quando o perdão é usado como prova de força — “eu posso”, “eu decido”, “eu determino quem se levanta” — não é a bondade que se afirma, é a hierarquia. O perdão deixa de ser bálsamo e converte-se em troféu. Ou pior: em arma. V — A República e o Abismo Ético A democracia não colapsa porque as leis desaparecem — colapsa quando as leis permanecem, mas deixam de significar o mesmo. O código pode manter-se intacto, a Constituição pode continuar suspensa nas paredes dos tribunais, mas, quando a prática se desvia, a letra perde peso. O perdão presidencial é um dos pontos onde essa distorção pode tornar-se mais visível. Sempre que é utilizado para proteger influências, corrigir alianças ou premiar lealdades, cria um desvio. E esse desvio abre outro, e outro, e outro. Até que o país acorda um dia e percebe que já não mede a justiça pelo que ela é, mas pelo que ela concede. Durante anos, habituaram-nos à ideia de que “todos os poderes têm excessos”.Mas não é verdade. Há excessos que não são defeitos tecnológicos — são falhas morais. E o perdão, por ser absoluto e irreversível, amplifica essas falhas com uma força que nenhum outro ato institucional possui. VI — A Pergunta que Fica Escrevo estas linhas sem conhecer todos os bastidores onde a clemência circula, mas conheço, como qualquer cidadão atento, a fragilidade humana que habita os corredores do poder. Conheço o efeito que a proximidade exerce. Conheço a tentação de proteger os amigos — e, pior, de proteger os fiéis. E por isso deixo a pergunta que me parece mais urgente, e que servirá de ponte para a Quando o perdão é absoluto, quem perdoa o abuso do perdão? Quem vigia o vigia? Quem exerce clemência sobre os que concederam clemência demais? Quem devolve à República aquilo que se perdeu no segredo das decisões irreversíveis? Talvez a resposta esteja na sociedade civil, talvez na imprensa, talvez na consciência histórica, talvez no medo — o medo saudável — de ser lembrado como alguém que confundiu o interesse público com a administração privada da justiça. Mas, como descobriremos na segunda parte, há algo ainda mais inquietante: o perdão não é apenas um ato isolado. É um sintoma. Um sintoma de um país, seja ele qual for que pode estar a perder a capacidade de distinguir entre autoridade e arbítrio. E isso, sim, merece uma reflexão mais longa. Imagem: - Tingey Injury Law Firm / Unsplash Atravessai comigo para a Parte II: A Justiça que se Desvia #AlbertoCarvalho #CadernoAberto #Ensaio #ÉticaPública #Justiça #Democracia
- O Instante que nos Pertence
Elian Morvane não nasceu para ser escritor. Nasceu para guardar silêncios, para observar o mundo como quem escuta um rumor antigo que poucos ouvem. Sempre acreditou que a palavra só merece existir quando resgata aquilo que, sem ela, se perderia no esquecimento. Talvez por isso escreva como quem acende uma vela: não para iluminar multidões, mas para que uma única pessoa, ao ler, sinta que não está sozinha. O seu nome não vem de linhagem literária, não se prende a academias, nem se alimenta de salões de prestígio. Cresceu entre livros gastos e ruas estreitas, onde a realidade parecia sempre maior do que qualquer narrativa. Carrega nas frases a poeira das cidades, a nostalgia das aldeias, a ferida e a promessa do futuro. A sua escrita não procura ser resposta — é pergunta. Não oferece certezas, mas abre espaços de respiração, onde cada leitor pode reconhecer-se ou perder-se. É uma prosa que mistura o íntimo e o universal, o quotidiano e o intemporal, como se uma confissão pudesse, de repente, transformar-se em visão. Alguns chamariam a este tom melancolia. Outros, esperança. Elian Morvane prefere chamar-lhe simplesmente fidelidade ao humano — às suas dores, às suas fragilidades, mas também às suas possibilidades de ternura. Não reivindica escolas nem manifestos. O que escreve nasce da urgência interior, como se cada texto fosse o único modo de permanecer vivo. Por isso, tanto numa breve nota publicada numa rede social, como num livro que atravessa centenas de páginas, reconhece-se sempre a mesma marca: uma voz que não grita, mas fica. Elian Morvane escreve porque não sabe não escrever. E, talvez por isso, cada palavra sua soe a algo que já existia dentro de nós — apenas aguardava que alguém lhe desse nome. Retrato literário de Elian Morvane #ElianMorvane #Literatura #Escrita #Memória #Identidade
- O Mercado da Sabotagem
Não começa com explosões. Começa com um pedido banal. Trabalho Sujo por Encomenda na Europa Contemporânea. Uma mensagem num canal encriptado. Um perfil sem rosto. Uma tarefa pequena: fotografar uma estação eléctrica, deixar um saco num cacifo, pintar uma marca num edifício industrial, observar horários. Pagamento modesto. Sem contexto. Sem explicação. Nada parece estratégico. E é precisamente aí que começa o problema. 1. A banalização da função O trabalho sujo por encomenda: sabotagem de baixo limiar numa Europa de infraestruturas expostas. A sabotagem contemporânea não é executada, na maioria dos casos, por operacionais clássicos treinados em centros secretos. Não é o agente infiltrado com passaporte falso. Não é o especialista paramilitar. É alguém vulnerável. Endividado. Radicalizado. Marginalizado. Ou simplesmente disponível. O modelo mudou. Não se compra lealdade ideológica. Compra-se execução fragmentada. A sabotagem deixou de ser missão. Passou a ser tarefa. E tarefa é algo que se subcontrata. 2. A arquitetura invisível O que transforma atos dispersos em estratégia não é o executor — é a arquitetura que liga os atos. Há três camadas neste modelo: Encomendador estratégico — Estado, proxy, organização híbrida. Intermediário operacional — canal digital, facilitador logístico, recrutador. Executor descartável — o indivíduo que cumpre uma tarefa sem visão do todo. O executor não conhece o plano. O intermediário não conhece o propósito final. O encomendador nunca aparece. Isto não é ficção. É eficiência organizacional. A fragmentação reduz risco. A compartimentação reduz rastreabilidade. A Ambiguidade reduz atribuição. 3. Porque a Europa é terreno fértil A Europa contemporânea reúne condições ideais para este modelo: fronteiras internas abertas infraestruturas críticas densas elevada digitalização liberdade de circulação sistemas legais garantísticos polarização política crescente Nada disto é falha. Mas tudo isto cria superfície. Uma estação eléctrica numa cidade média. Um cabo de telecomunicações. Um armazém logístico. Um centro de dados. Um porto. O dano não precisa de ser devastador. Precisa apenas de ser suficiente para testar a resposta, sem provocar uma guerra aberta. 4. O incentivo estratégico Porque razão um Estado recorreria a este modelo em vez de uma operação direta? Porque permite três vantagens cruciais: 1. Negabilidade plausível Se o executor for apanhado, é um indivíduo isolado. 2. Escalada controlada O dano pode ser calibrado. Nem demasiado pequeno, nem demasiado grande. 3. Custo reduzido Recrutar um “biscateiro” é infinitamente mais barato do que mobilizar uma estrutura formal. A sabotagem por tarefa é uma forma de pressão de baixo limiar. É guerra abaixo do limiar da guerra. 5. O papel das redes digitais O recrutamento raramente ocorre em encontros secretos. Ocorre em fóruns. Em apps encriptadas. Em comunidades paralelas. Em mercados cinzentos. O discurso não é ideológico. É funcional. “Preciso de alguém para fotografar.” “Preciso de alguém para deixar um pacote.” “Preciso de alguém para vigiar.” O executor não sente que está a participar numa operação estratégica. Sente que está a fazer um trabalho. E o trabalho paga. 6. O erro europeu O erro clássico das democracias é interpretar estes atos como criminalidade comum isolada. São frequentemente tratados como vandalismo, sabotagem industrial, ativismo radical ou delinquência. Mas quando padrões começam a emergir — infraestruturas energéticas, cabos submarinos, instalações militares — já não estamos perante coincidência. Estamos perante sondagem estratégica. E sondagem não é ataque. É preparação. 7. Contra-argumento: paranoia estratégica? A objecção óbvia é esta: Nem todo ato suspeito é operação de Estado. Nem toda falha é sabotagem. Nem todo recrutamento obscuro é guerra híbrida. Correto. Mas o erro inverso — negar sistematicamente qualquer padrão — é igualmente perigoso. A questão não é ver conspiração em tudo. É compreender que o modelo existe. E que a sua eficiência reside precisamente na dificuldade de atribuição. 8. O dilema democrático Quando a sabotagem se fragmenta em microtarefas, a atribuição torna-se difícil — e o efeito, cumulativo. Como responde uma democracia a isto sem corroer o próprio sistema? Se endurece vigilância, arrisca direitos. Se não endurece, arrisca vulnerabilidade. Se reage publicamente, amplifica o ato. Se ignora, sinaliza permissividade. A sabotagem por tarefa é eficaz porque força decisões desconfortáveis. 9. O mercado invisível Há um elemento económico raramente discutido. Existe um mercado. Pequenos pagamentos. Microtarefas. Serviços pontuais. É um modelo próximo do “gig economy”. Uberização da sabotagem. Não exige fidelidade. Exige disponibilidade. E enquanto houver bolsas de precariedade, haverá oferta. 10. O que vigiar Há três sinais que são críticos: Repetição geográfica ou setorial. Os Recrutamentos semelhantes em diferentes países. O Uso sistemático de intermediários digitais. A sabotagem moderna raramente anuncia intenções. Revela-se por padrão. 11. Conclusão A sabotagem contemporânea não é espetacular. É incremental. Não é declarada. É insinuada. Não mobiliza exércitos. Mobiliza indivíduos. E talvez o seu traço mais perturbador seja este: Não exige convicção. Exige oportunidade. A Europa, com as suas infraestruturas abertas e sociedades livres, não é fraca. Mas é permeável. E a permeabilidade é o terreno onde o trabalho sujo prospera. A pergunta que permanece não é “quem atacou?” É outra: Estamos preparados para reconhecer o modelo antes que ele escale? Subscrever a Newsletter
- Sérgio Godinho aos 80 — Voz que Nos Acompanha
Homenagem a Sérgio Godinho Há canções que não passam na rádio: passam na vida. Sérgio Godinho fez oitenta anos e continua a ser essa voz que nos acompanha desde o exílio até ao presente, como se cada verso fosse um pedaço de caminho partilhado. Não é apenas músico, é cronista de um país inteiro — escreveu-nos em ditadura, cantou-nos em liberdade, e nunca deixou de nos interpelar com a ironia, a ternura e a coragem. A sua obra é um livro aberto onde couberam os dias da revolução, as histórias de amor miúdo, a dor de quem parte e a esperança de quem fica. Cada refrão tornou-se companhia, cada palavra guardou a dignidade de um povo que precisava de música para respirar. Hoje, celebrar Sérgio Godinho não é apenas assinalar um aniversário: é agradecer a quem nos deu um “brilhozinho nos olhos” quando tudo parecia escuro. Aos oitenta anos, não se apaga — ilumina. Poema para Sérgio Godinho Cantaste o riso e a dor, a revolta e o carinho, ensinaste que o amor traz sempre um brilhozinho. O tempo não te cansou, nem te roubou o caminho, és a voz que nos mostrou que a vida cabe num hino. Sombra que Canta #AlbertoCarvalho #SérgioGodinho80 #LiteraturaPortuguesa #MúsicaPortuguesa #VozesQueFicam
- O Preço do Perdão — Parte III: O Rosto e a Máscara
Há sempre um momento, na história de qualquer poder, em que o país percebe que já não está a discutir a justiça — está a discutir a aparência da justiça. E, nesse instante silencioso, aquilo que era transparente adquire um brilho estranho. O país olha, mas já não vê. Escuta, mas já não distingue. A justiça continua lá, mas está coberta por uma película fina — uma máscara que imita o rosto, mas não é o rosto. A máscara surge primeiro como proteção, depois como hábito, por fim como identidade. E quando a máscara se cola ao rosto, deixa de ser possível separar as duas coisas. É aqui que começa esta terceira parte. I — A Arte de Parecer Justo Nenhuma instituição resiste muito tempo sem teatralidade. O poder aprendeu isso muito antes de existir democracia. Há rituais, símbolos, discursos solenes, assinaturas filmadas, portas que se abrem devagar, fachadas que se iluminam ao entardecer. Tudo isto existe para dizer ao país: “estamos aqui, somos dignos, somos confiáveis”. Mas o que acontece quando o ritual se torna mais importante do que o conteúdo? Quando a pose se sobrepõe ao princípio? Quando o gesto vale mais do que o critério? O perdão presidencial, essa cerimónia sempre envolta em nobreza, corre um risco particular: o de se tornar um espetáculo que convence não pelo que decide, mas pelo que encena. E o espetáculo — como todos os espetáculos — é especialista em esconder aquilo que não convém mostrar. A justiça, quando se preocupa demasiado em parecer justa, começa a esquecer-se de o ser. II — O Olho que Observa e o Olho que Encobre As sociedades vivem divididas entre dois olhares. O olhar público — amplo, certeiro, moralista. E o olhar íntimo — cúmplice, pragmático, por vezes resignado. O problema é quando o poder começa a usar um olhar para a nação e outro para si mesmo. O primeiro fala de princípios, de universalidade, de imparcialidade. O segundo fala de circunstâncias, de conveniências, de exceções que “se compreendem”. É nesta duplicidade que nasce a máscara. A máscara serve para projetar virtude e esconder o cálculo. Serve para anunciar igualdade enquanto distribui privilégios. Serve para mostrar firmeza enquanto ajusta regras para acomodar proximidades. O país escuta a narrativa oficial — o rosto. Mas sente, no rumor subterrâneo — a máscara — que há decisões que não pertencem à justiça, pertencem ao círculo. E, quando essa sensação amadurece, a confiança começa a desfazer-se por dentro, como madeira roída por insetos invisíveis. III — Quando a Clemência se Torna Persona Há quem acredite que o perdão é apenas um ato jurídico. Não é. É também uma expressão simbólica — quase teatral — que molda o imaginário público. Durante muito tempo, o perdão foi visto como gesto raro, excecional, reservado a situações extremas. Mas, quando começa a ser aplicado com fluidez, com uma ligeireza que dispensa explicações robustas, transforma-se num personagem. Entra em palco. Repete falas conhecidas. Age segundo conveniências do momento. E o mais inquietante é isto: a República começa a comportar-se como se estivesse a encenar a ideia de justiça enquanto, nos bastidores, ajusta o enredo para acomodar alguns protagonistas. A máscara não cobre apenas um rosto — cobre uma intenção. IV — A Face Oculta do Perdão Há sempre uma versão oficial — limpa, redonda, quase pedagógica. E há sempre uma versão oficiosa — aquela que não se escreve, mas todos conhecem: quem telefonou, quem pressionou, quem sussurrou, quem “pediu apenas para avaliar”. A justiça não se desvia quando erra. Desvia-se quando aceita conviver com duas versões da mesma realidade. Um país amadurece quando reconhece os seus erros. Adormece quando aceita as suas máscaras. Desmorona quando confunde uma coisa com a outra. E a pergunta que devemos fazer não é: “porque foi perdoado este homem? ”Mas antes: “porque não poderia ele ser perdoado… se estivesse sentado noutra mesa?” A máscara protege quem? E protege do quê? V — O Espelho Quebrado No final, tudo se resume a isto: uma República é um espelho partido em mil pedaços. Cada decisão pública é uma tentativa de juntar fragmentos, alinhar reflexos, montar uma imagem coerente do país. Mas bastam alguns perdões mal explicados — ou demasiado facilmente explicáveis — para que surjam fissuras no espelho. Primeiro parecem riscos. Depois linhas. Depois fraturas. Até que, um dia, o país olha para a sua própria justiça e já não se reconhece. Porque aquilo que vê não é o rosto — é a máscara. E ninguém confia numa máscara. VI — A Conclusão Inquietante A primeira parte perguntou: o que é o poder que absolve? A segunda perguntou: o que acontece quando a justiça se desvia? Esta terceira pergunta algo ainda mais íntimo e mais perigoso: Que país se torna aquele que já não distingue entre o que é justo e o que parece justo? É essa a fronteira final. A mais ténue. A mais enganadora. A que mais facilmente se atravessa sem dar por isso. E, quando a atravessamos, percebemos tarde demais que o rosto da justiça já não está onde estava — ficou para trás, abandonado no chão. E o que segue em frente é apenas a máscara. Imagem: — Unsplash O Preço do Perdão — Parte III: O Rosto e a Máscara #OPreçoDoPerdão #Justiça #Democracia #AbusoDePoder #Clemência #EstadoDeDireito #DireitosHumanos #PaísSemNome #AlbertoCarvalho #DonaldTrump
- O Preço do Perdão – Parte II: A Justiça que se Desvia
País sem Nome Há momentos na vida pública em que o país parece entrar num corredor estreito. Passamos uma porta, depois outra, e, sem darmos conta, já não estamos onde pensávamos estar. A paisagem muda devagar, quase sem ruído, e é essa lentidão que torna a mudança mais perigosa: ninguém percebe o exato instante em que a justiça deixou de ser um sistema e passou a ser uma interpretação; quando deixou de ser voz e passou a ser eco. Quando a exceção se transforma em hábito e a justiça perde o seu centro moral. Se a primeira parte deste ensaio procurou compreender a tentação do perdão — essa prerrogativa absoluta que habita a caneta de um Presidente — esta segunda parte tenta algo mais difícil: olhar para o modo como um país se adapta quando as exceções começam a parecer regra. Quando a clemência se transforma, pouco a pouco, numa linguagem paralela, entendida apenas por alguns. É aí que começa a justiça que se desvia. I — O país que aprende a tolerar Há um fenómeno curioso nas sociedades democráticas: habituam-se. A tudo.Habituam-se ao excesso, ao escândalo, ao desvio, às incoerências, às notícias que passam num rodapé como quem passa a ferro páginas de um livro. Habituam-se ao que devia ser intolerável. E, quando a habituação se instala, instala-se também uma espécie de anestesia moral. O desvio deixa de ser exceção e começa a ser paisagem. E a paisagem, quando vista todos os dias, torna-se invisível. Um país começa a adormecer quando já não estranha nada. E começa a perder-se quando deixa de distinguir entre o razoável e o abusivo. O perdão presidencial — esse gesto tão poderoso, tão cheio de história e ambiguidade — pode tornar-se o principal sintoma dessa erosão. Quando é usado com parcimónia, ilumina o que resta de humanidade numa máquina fria. Mas quando se torna rotina, deixa de iluminar e começa a cegar. II — O mapa invisível das proximidades A justiça paralela não nasce do dia para a noite. Nasce da acumulação de pequenas decisões que parecem inofensivas. Todas elas justificáveis, todas elas defendidas em nome da exceção. Todas elas embaladas num discurso que apela à misericórdia, à correção dos excessos, ao equilíbrio entre lei e compreensão humana. Mas, por baixo do discurso oficial, existe um território silencioso — uma geografia feita de proximidades, favores, compromissos implícitos. Uma espécie de mapa subterrâneo onde a justiça não depende apenas dos factos, mas também das relações. O que me assusta não é o perdão em si — é o modo como ele pode ser solicitado. E, mais ainda, o modo como começa a circular a ideia de que o perdão é possível para uns e impossível para outros. Uma sociedade que internaliza essa distinção entra numa espécie de adolescência moral: sabe que está errada, mas não encontra força para se corrigir. O que parece justo deixa de ser o que está certo — e passa a ser o que está disponível. III — Quando a justiça deixa de ser cega Fala-se muito na imagem clássica da justiça: a mulher de olhos vendados, segurando uma balança e uma espada. Sempre achei comovente essa tentativa de representar a imparcialidade. A venda é o símbolo que mais me intriga. A justiça não precisa de ser muda — precisa é de ser cega. Mas quando os perdões se distribuem segundo critérios que ninguém conhece, a venda começa a escorregar. Primeiro um pouco. Depois mais. Até que a justiça, já com um olho descoberto, começa a avaliar não apenas o peso dos atos, mas o peso dos nomes. E a partir desse momento, a justiça deixa de ser cega — e passa a ser míope.Vê de perto, mas não vê de longe. Avalia a árvore, mas já não distingue a floresta. E uma República com uma justiça míope não está apenas em risco: está inclinada. Os sistemas não se corrompem com grandes explosões; corrompem-se com pequenos alinhamentos desviados, que repetidos muitas vezes criam um ângulo novo no edifício. O perdão, usado como instrumento de gestão política, altera esse ângulo. IV — A construção silenciosa de um segundo país Há sempre dois países dentro do mesmo país. Um deles é o país visível: o dos tribunais, das eleições, das leis, dos discursos. O outro é o país subterrâneo: o das relações pessoais, dos compromissos implícitos, da influência, dos corredores curtos. Quando o perdão presidencial começa a circular com demasiada flexibilidade, nasce uma ponte que liga os dois países — e não é uma ponte construída pelo povo, pelos tribunais ou pela Constituição. É uma ponte construída pelo poder. E, pela primeira vez, deixa de ser o mérito que conduz alguém ao perdão e passa a ser a proximidade. Deixa de ser a argumentação jurídica e passa a ser a argumentação política. Deixa de ser a justiça e passa a ser a utilidade. S e isto não assusta um país, é porque o país já começou a adormecer. V — A normalização do desvio O que mais me impressiona não é o escândalo. O que me impressiona é a ausência dele. Quando uma sociedade já não reage, não questiona, não debate, não exige explicações — não é porque está madura, é porque está cansada. E um país cansado é sempre fértil para a normalização dos abusos. Os perdões compulsivos, os perdões estratégicos, os perdões que parecem ter uma agenda, os perdões que não explicam o que pretendem — tudo isso começa a parecer “parte do jogo”.E o mais assustador é isto: quando o desvio se normaliza, deixa de ser desvio. Os Estados Unidos vivem com um segundo sistema de justiça: um para o cidadão comum, outro para o círculo próximo do poder. E quando há dois sistemas, não há sistema nenhum. VI — A tentação de absolver o útil Há uma força quase gravitacional na política: o impulso de proteger os seus. É uma força antiga, quase tribal. Uma mistura de lealdade e medo. Mas quando essa força se cruza com o poder absoluto de perdoar, nasce um risco que poucas sociedades estão preparadas para enfrentar. A tentação não é apenas cobrir os erros dos aliados — é querer construir para eles uma inocência artificial. Uma inocência não baseada nos factos, mas na conveniência. Uma inocência que não é conquistada, mas concedida. E quando o perdão deixa de ser um gesto de grandeza e passa a ser um instrumento de limpeza simbólica, a democracia perde uma das suas colunas. Porque, no fim de contas, a justiça não é apenas um conjunto de procedimentos: é uma narrativa comum. A justiça precisa de ser acreditada para existir. E nada destrói essa crença mais rapidamente do que a ideia de que algumas pessoas são absolvidas não por serem justas, mas por serem úteis. VII — A demolição suave da confiança Não há democracia que sobreviva sem confiança. E não há confiança que sobreviva a um sistema onde a exceção se transforma em hábito. O perdão presidencial americano — esse gesto tão solene e tão frágil — pode funcionar como um marcador moral. Quando é bem utilizado, aumenta a confiança. Quando é abusado, destrói-a. E, ao contrário do que muitos pensam, a confiança não cai com estrondo. Cai em silêncio. Cai nos pequenos gestos, nas ironias dos cafés, nos comentários cansados das famílias, nas conversas murmuradas que terminam sempre com a mesma frase: “Isto já não é para nós.” Quando um país chega a esse ponto, já não é apenas a justiça que se desviou — somos nós que começámos a desviar o olhar. VIII — A pergunta final Escrevo estas linhas consciente da sua dureza. Mas não acredito que haja outra forma de olhar para um fenómeno tão delicado. A clemência presidencial não é, por natureza, um mal. Pelo contrário. É uma das poucas janelas pela qual a humanidade consegue entrar num sistema que, tantas vezes, se torna mecânico e insensível. Mas essa mesma janela pode transformar-se numa porta larga para os desvios éticos que, acumulados, abalam a arquitetura moral de um país. E assim regresso à pergunta que abriu esta segunda parte: o que acontece a uma República quando a justiça começa a desviar-se? Acontece o que sempre aconteceu, em todos os tempos e em todos os continentes: o país começa a dividir-se entre os que acreditam e os que desistiram; entre os que confiam e os que já só esperam; entre os que ainda lutam e os que preferem não ver. E, no meio desse ruído, nasce a pior consequência de todas: não a injustiça — mas a indiferença. Porque a injustiça pode ser corrigida. A indiferença, não. Imagem: - Foto: Tingey Injury Law Firm / Unsplash Leia também a primeira parte: O Preço do Perdão — Parte I: O Poder que Absolvia Representação clássica da Justiça. Uma reflexão sobre o poder que absolve e o risco de distorção moral #CadernoAberto #Justiça #ÉticaPública #Democracia
- Batina e Kremlin: propaganda ortodoxa em Washington
Opinião · Mundo · Estados Unidos/Rússia/Ucrânia · Religião & Influência Política. Naqueles dias em que Washington se enche de coroas de Natal, discursos sobre “valores” e fotografias com velas acesas, houve uma visita ao Capitólio que merecia menos incenso e mais atenção. A acusação levada ao Capitólio. Não porque a fé não conte — conta — mas porque, às vezes, a fé é usada como embalagem. E a embalagem, quando vem carimbada por uma máquina de influência, serve precisamente para evitar que se olhe para o conteúdo. Foi o que aconteceu com a delegação de clérigos ortodoxos e intermediários que circulou por gabinetes e corredores (com barbas, cruzes e gravidade bem ensaiada), a repetir uma mensagem simples, eficaz e feita para consumo americano: a Ucrânia persegue cristãos. A acusação tem o apelo certo. Toca no ponto exato onde muitos conservadores e muitos crentes americanos reagem por instinto: liberdade religiosa, igreja, perseguição, mártires. E é por isso que funciona. Porque, quando uma narrativa acerta no nervo moral, raramente se pergunta o que falta. (E o que falta é sempre o essencial.) A frase — dita, insinuada, reenviada, reciclada — é conhecida: a igreja “está praticamente banida”. Kiev fecha templos. Reprime fiéis. Criminaliza a ortodoxia. Quem ouve isto, sem contexto, imagina logo um Estado anticristão a esmagar procissões. Mas a Ucrânia não é um país descrente. Pelo contrário: a religião ali não é decoração; é tecido social. A guerra, aliás, fez o que as guerras fazem a muita gente: empurrou-os para o que é último. Há missas, há velas, há funerais, há capelães, há salmos ditos com a voz presa. E há também uma realidade que o Kremlin (e os seus ecoadores) tenta apagar: a Ucrânia não está a fazer “guerra à fé”. Está a fazer guerra — defensiva — a redes de influência do agressor. O ponto de viragem foi político e jurídico. Em 2024, o Parlamento ucraniano aprovou legislação destinada a impedir que organizações religiosas subordinadas a centros num “Estado agressor” atuem como prolongamento desse Estado. A lei não é um slogan; é um instrumento de segurança em tempo de invasão. É discutível? Pode ser. Há alertas e críticas no plano dos direitos fundamentais? Há. Mas uma coisa é discutir os limites de uma lei num Estado em guerra; outra é vender a lei como se fosse uma cruzada anticristã. Até porque o campo ortodoxo ucraniano não é um bloco único (e isto é sempre omitido quando dá jeito). Desde 2018/2019, existe uma estrutura ortodoxa ucraniana reconhecida por Constantinopla como independente — a Igreja Ortodoxa da Ucrânia. Em paralelo, existe a outra estrutura, historicamente ligada a Moscovo, que se move numa zona cinzenta de jurisdição, legitimidade e lealdades. E é aqui que a história fica menos confortável para quem gosta de frases curtas. Porque, quando se fala de “perseguição”, a pergunta que não querem ouvir é esta: perseguição a quê — à fé, ou a uma arquitetura de dependência que, durante décadas, foi uma ferramenta política russa? Nos Estados Unidos, aprenderam (bem ou mal) a viver com a separação entre igreja e Estado. A Rússia, pelo contrário, fez da fusão um método. No Império, a igreja foi coluna do poder. No comunismo, foi penetrada, controlada, usada. No putinismo, tornou-se uma das faces públicas do regime — a face que benze, legitima e moraliza aquilo que, sem bênção, seria apenas violência nua. O Patriarca Kirill não é um espectador. É ator. E não apenas por linguagem geral de “paz”: o seu discurso tem servido, repetidamente, para enquadrar a invasão como combate espiritual, para dar ao conflito uma aura de destino e de “missão”. Não se trata de uma igreja esmagada por um tirano; trata-se, muitas vezes, de uma hierarquia que escolheu estar ao lado do tirano. E, quando se olha para o que acontece no terreno, percebe-se porque é que a Ucrânia insiste em falar de segurança e espionagem (e não de teologia). As autoridades ucranianas têm acusado membros do clero ligado a Moscovo de colaboracionismo e de apoio operacional ao invasor; há casos, investigações, detenções — e, do outro lado, negações e contestação. O ponto, porém, não é afirmar que “todos são espiões”. O ponto é este: em guerra, basta que alguns sejam (e que a estrutura sirva de cobertura) para que o Estado se veja obrigado a atuar. A comparação útil, aqui, é simples e pouco romântica: quando os Estados Unidos combateram a Al-Qaeda e os talibãs, isso não foi “guerra ao Islão”. Foi guerra a organizações violentas. Do mesmo modo, restringir a actividade de estruturas suspeitas de servir um agressor externo não é “guerra ao Cristianismo”. É guerra a redes de influência num conflito existencial. E há ainda uma ironia que Moscovo detesta ver dita em voz alta. Porque, se alguém quer falar seriamente de perseguição religiosa, não tem de ir a Kiev. Basta olhar para a Rússia. Na Rússia, denominações cristãs não-ortodoxas — protestantes, evangélicos, baptistas — vivem há anos num ambiente de intimidação, multas, processos e limitações legais. A legislação “anti-extremismo” e as regras sobre missionação foram sendo usadas como bastão administrativo. E as Testemunhas de Jeová foram banidas e perseguidas como “extremistas”. Isto não é retórica: é o quotidiano de um Estado que gosta muito de falar de fé (desde que a fé obedeça). É por isso que a acusação russa contra a Ucrânia soa tão familiar: acusa o outro do que faz em casa. E fá-lo com a segurança de quem sabe que, no mundo saturado de informação, a primeira frase circula; a nota de rodapé morre. Depois há a dimensão material, aquela que corta qualquer discurso de “defesa da fé” pela raiz. Desde o início da invasão, a destruição de locais religiosos na Ucrânia tem sido massiva. Há monitorizações que apontam para centenas e centenas de igrejas, templos e edifícios de culto destruídos ou danificados; algumas estimativas apontam para “pelo menos 630”. Seja qual for o número exato, a realidade é incontornável: foi a guerra russa que fez das cúpulas e das naves ruínas fumegantes. E é difícil imaginar gesto mais obsceno do que posar como protetor da Cristandade enquanto se multiplica a devastação de igrejas num país maioritariamente cristão. Nesta história, os amplificadores americanos importam. Não porque tenham inventado a narrativa, mas porque a tornam respeitável. Quando um argumento entra num gabinete do Congresso, ganha gravata e carimbo. E a partir daí já não parece propaganda: parece “preocupação legítima”. É assim que se normaliza uma operação de influência — não com gritos, mas com reuniões. Há, porém, quem diga o óbvio sem medo de desagradar: que a Igreja Ortodoxa Russa, no seu topo e na sua função pública, não é apenas uma instituição religiosa; é um braço simbólico e político de um Estado em guerra. E é precisamente essa clareza — rara, quase antiga — que falta quando se confunde liberdade religiosa com imunidade estratégica. (É aqui que me lembro de um verso conhecido, que não precisa de ser repetido palavra por palavra para ser entendido: a imagem de um padre a esconder, debaixo das vestes, as dragonas de um oficial. A metáfora é brutal porque é simples. E é simples porque descreve um método.) No fim, a regra é esta: o Kremlin chorará sempre “perseguição” quando os seus instrumentos forem escrutinados. Chamará “ataque ao Cristianismo” a qualquer tentativa de bloquear infiltração. Dirá “liberdade religiosa” como quem diz “passe livre”. Mas defender liberdade religiosa não é suspender o juízo. Não é fechar os olhos a uma instituição que se deixa usar — e que, por vezes, se oferece para ser usada — como cobertura moral de uma guerra de agressão. Não é tratar como vítima uma estrutura que, no tabuleiro político, funciona como ferramenta. A delegação que passou por Washington não trouxe uma mensagem de paz. Trouxe uma narrativa. E a diferença entre fé e operação é esta: a fé não precisa de apagar o contexto. A operação vive disso. Apaga o resto da história e pede-nos que acreditemos apenas na primeira frase. E, em política, acreditar só na primeira frase costuma ser o começo do erro. Cruz ortodoxa russa (símbolo) #Rússia #Ucrânia #IgrejaOrtodoxa #Kremlin #Propaganda #Influência #LiberdadeReligiosa #Washington #Geopolítica #Desinformação #GuerraNaUcrânia #PolíticaInternacional
- Homenagem a António Lobo Antunes
Há silêncios que não se confundem com ausência. António Lobo Antunes fez oitenta e três anos e já não escreve. A doença roubou-lhe a pena, mas não lhe apagou a presença. Porque um escritor não se mede apenas pelo último livro que entrega: mede-se pela ferida que abriu na língua, pelo clarão que deixou nas nossas leituras. Quem leu Lobo Antunes sabe que a sua prosa é mais do que literatura: é uma respiração funda, uma torrente de vozes que não pedem licença. Ele ensinou-nos que Portugal podia ser escrito com a mesma brutalidade e a mesma ternura com que se vive. E agora, quando o silêncio se impõe, cabe-nos a nós repetir-lhe as palavras, como quem prolonga uma oração interrompida. Não é despedida — é gratidão. Lobo Antunes continua entre nós, também nos livros que pesam como pedras e brilham como cicatrizes. O silêncio da sua mão é apenas o eco de uma obra que não se cala. Um clip #AlbertoCarvalho #LoboAntunes #LiteraturaPortuguesa #Gratidão











