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  • Porque é que a Icicle deu a De Sarno o comando total da marca

    A marca chinesa de «luxo silencioso» nomeou o antigo diretor criativo da Gucci para liderar toda a linha principal, e não uma sublinha, como é habitual nestes acordos. A decisão, cinco meses depois de a Kering entrar no capital, revela uma forma diferente de negociar entre o luxo chinês e o europeu. A Icicle anunciou a 7 de setembro, em simultâneo em Paris e Xangai, que Sabato De Sarno, responsável pela direção criativa da Gucci entre 2023 e fevereiro de 2025, assume toda a marca: pronto-a-vestir feminino e masculino, acessórios e ótica. A primeira coleção assinada pelo designer chegará na estação outono/inverno de 2027-2028. A estética discreta e sofisticada da Icicle, agora sob o comando total de Sabato De Sarno. A dimensão do cargo distingue esta contratação das anteriores. Quando a Bosideng recrutou Kim Jones ou a Anta trouxe Kris Van Assche, os designers ocidentais ficaram à frente de sublinhas de nicho, separadas do negócio principal chinês. A Icicle entregou a De Sarno a linha inteira. Cinco meses antes, em abril, a Kering, proprietária da Gucci, da Saint Laurent e da Bottega Veneta, adquirira uma participação minoritária na ICCF, a casa-mãe da Icicle. O investimento foi realizado através da House of Wonders, um novo veículo criado para apoiar marcas de luxo emergentes fora da Europa. Foi a primeira operação da House of Wonders, anunciada por Luca de Meo, que assumiu há um ano a liderança da Kering, depois de dirigir a Renault. Perante os investidores, de Meo definiu dois objetivos: reduzir a dependência do grupo em relação à Gucci, cujas vendas têm caído na China, e testar a capacidade de crescimento através do investimento em marcas nascidas fora do eixo Paris-Milão, sem as comprar por inteiro. A participação minoritária rompe com o padrão dominante da década anterior. Grupos chineses compraram marcas europeias em dificuldades, esperando repetir, em sentido inverso, o que os grupos franceses haviam feito com marcas italianas nos anos 2000. Na maioria dos casos, os resultados ficaram aquém das expectativas. As ações do grupo chinês Lanvin, proprietário da própria Lanvin francesa, do fabricante italiano de calçado Sergio Rossi e da marca austríaca Wolford, negoceiam hoje quase 90% abaixo do preço de entrada em bolsa, em 2022. A Icicle conhece também os limites desse modelo. Desde 2018, detém uma participação de cerca de 10% na casa francesa Carven, sem ter conseguido devolver-lhe verdadeira relevância internacional. Fundada em Xangai, em 1997, por Ye Shouzeng, antigo professor da Universidade de Donghua, e pela mulher, Tao Xiaoma, a Icicle construiu-se sobre uma estética discreta, sem logótipos visíveis, e o uso de matérias-primas nobres, como a caxemira e a lã dupla-face. Quase toda a produção é assegurada por duas fábricas próprias em Xangai. A marca tem cerca de duzentas lojas na China, três em Paris e um espaço no Bon Marché. As vendas anuais ultrapassam os três mil milhões de yuan, segundo a agência estatal Xinhua. A Icicle já explorou a possibilidade de entrar em bolsa em Hong Kong ou Paris, com uma avaliação que os mercados chegaram a estimar em perto de mil milhões de euros. A contratação de De Sarno não transfere para a Kering o controlo da Icicle. O grupo francês permanece como acionista minoritário e os fundadores mantêm-se no comando. A marca continua chinesa na propriedade, na produção e no seu mercado principal, mas coloca toda a direção criativa nas mãos de um designer formado no sistema europeu do luxo. É essa combinação que distingue o acordo. A Icicle não comprou uma casa europeia em dificuldades nem confinou um nome ocidental a uma coleção paralela. Entregou-lhe o centro do negócio, sem entregar a própria empresa. #Icicle #SabatoDeSarno #DeSarno #LuxoSilencioso #SilentLuxury #Gucci #Kering #Moda #Fashion #Luxo #LuxuryFashion #ModaChinesa #ChineseLuxury #DireçãoCriativa #CreativeDirector #ModaEuropeia #IcicleParis #HouseOfWonders

  • Yoseph Haddad: rabinos dividem direita de Israel

    Ofer Winter passou a maior parte da vida a comandar soldados. Em agosto, o general na reserva trocou o uniforme por uma lista eleitoral e chamou-lhe People of Israel — Amcha Yisrael, no hebraico original. A promessa era simples: trazer para a Knesset gente que não estivesse associada às falhas políticas e de segurança à volta de 7 de outubro. No lançamento, em Jerusalém, quem mais se destacou não foi Winter, mas o segundo nome da lista. Yoseph Haddad, ativista árabe-israelita e segundo nome da lista de Ofer Winter Yoseph Haddad é ativista árabe-israelita, cristão ortodoxo, nascido em Haifa e criado em Nazaré. A família não deixou as suas terras em 1948; continua a possuí-las em Jish. Serviu nas Forças Armadas, ficou ferido na Brigada Golani e fundou a organização Together, dedicada a integrar árabes israelitas na sociedade do país. Tornou-se, nos últimos anos, uma das vozes mais visíveis a defender Israel em plataformas internacionais. Para Winter, pôr Haddad em segundo lugar reforça o argumento central do partido: que a lealdade ao Estado, não a origem, deve decidir quem lidera. No início de setembro, essa leitura chocou com outra, vinda de dentro do próprio campo religioso-nacionalista a que o partido se dirige. Questionado por alunos se a lei judaica permite votar numa lista cujo segundo lugar é ocupado por um não-judeu, o rabino Shlomo Aviner, presidente da Yeshivat Ateret Kohanim, respondeu que não. Citou as Leis dos Reis de Maimónides e distinguiu entre a relação pessoal com um não-judeu e a atribuição de um cargo de liderança nacional. «Um amigo não-judeu deve ser bem tratado, se preencher a definição de ger toshav, mas não lhe pode ser dado um cargo de liderança sobre a nação», disse. Mesmo um «justo entre as nações», acrescentou, não pode liderar na Terra de Israel. «Pode ser um cidadão privado, sim, mas não como líder.» A organização rabínica Tzohar respondeu no mesmo dia. Citou autoridades halákhicas anteriores, incluindo o antigo rabino-chefe Isaac Herzog e o rabino Eliezer Waldenberg, que já haviam determinado ser permitido eleger não-judeus para a Knesset. Sobre Haddad em particular, disse tratar-se de «uma pessoa que fez e continua a fazer muito pelo Estado de Israel», lembrando que ficou ferido a defendê-lo durante o serviço militar. Nomear e promover pessoas assim, concluiu a organização, «não contradiz a identidade judaica de Israel». No dia seguinte, o rabino Elyakim Levanon, rabino-chefe de Samaria, declarou à rádio Kan Reshet Bet: «Não sou a favor de votar em pequenos partidos, mas do ponto de vista halákhico, é permitido, e pode votar-se em Yoseph Haddad.» O próprio Winter reagiu às declarações de Aviner, rejeitando-as publicamente, sem que a cobertura disponível registe as suas palavras exatas. O episódio não decide sozinho o destino eleitoral do People of Israel, que continua a oscilar à volta do limiar de 3,25% consoante a sondagem. A eleição está marcada para 27 de outubro. #YosephHaddad #OferWinter #Israel #Knesset #AmchaYisrael #PoliticaIsraelita #Rabinos #IsraelPolitics #Judaísmo #EleiçõesIsrael #PeopleOfIsrael #AtualidadeInternacional

  • O homem diante do sol | Recensão

    Há livros que envelhecem por excesso de contexto. Foram escritos para ferir uma época e ficam presos à temperatura do instante que os produziu. O Estrangeiro, de Albert Camus, fez o percurso inverso. Nasceu de um tempo preciso, com a sua geografia colonial, a sua secura moral, o seu horizonte filosófico, e ainda assim continua a tocar uma zona que não passou. Lido hoje, não pede reverência nem trabalho arqueológico. Pede apenas disponibilidade para um incómodo que permanece surpreendentemente intacto. Esse incómodo começa cedo. Não na morte, não no crime, nem sequer no julgamento, mas numa falha mais interessante: Meursault não sabe — ou não quer — apresentar os sentimentos na forma socialmente correta. Albert Camus expõe uma sociedade que não julga apenas um crime, mas também a incapacidade de Meursault representar os sentimentos esperados. Capa de O Estrangeiro, de Albert Camus. A mãe morre e ele não oferece o tipo de dor que os outros esperam reconhecer. Ama sem ornamento. Deseja sem transcendência. Responde sem cobrir cada frase com a camada protectora de emoção que tornaria a sua presença mais aceitável. O romance encontra aí a sua força mais duradoura. Não faz de Meursault um herói, nem um monstro. Coloca-o numa posição quase insustentável para os outros: a de um homem que não domina a arte de converter a vida interior numa linguagem tranquilizadora. Camus percebeu cedo que a vida social não funciona apenas por atos, leis e juízos explícitos. Funciona também por coreografias. Há um modo esperado de sofrer, de amar, de lamentar, de pedir perdão. Quem falha o gesto falha mais do que o gesto. Fica fora do quadro legível do humano. É isso que faz de O Estrangeiro um romance ainda vivo. Não porque antecipe mecanicamente o presente, mas porque reconhece uma violência antiga e persistente: a que recai sobre quem não apresenta o rosto exacto que a comunidade precisa de ver para se sentir segura de si. Lido de Lisboa, isto ganha um relevo particular. Não porque a cidade se pareça com Argel, nem porque Camus precise de ser traduzido para um código local. Ganha relevo porque Lisboa, como tantas cidades de escala moral apertada, conhece bem o poder do decoro afetivo. Sabe reconhecer a diferença entre o sentimento e a sua exibição correta, e muitas vezes confunde os dois. Entre a sociabilidade urbana, o peso ainda residual de certas formas católicas de expressão e a vigilância disfarçada das pequenas comunidades — familiares, profissionais, mediáticas —, também aqui se percebe depressa como a sanção não recai apenas sobre o que se faz, mas sobre o modo como se parece ter sentido. Meursault, neste contexto, não é um estrangeiro exótico. É uma figura-limite daquilo que uma ordem social mal suporta: a insuficiência do ritual. Camus não o constrói por acumulação psicológica. Faz quase o contrário. Depura. A prosa avança por frases limpas, controladas, sem a ansiedade de explicar tudo. A clareza não conforta; expõe. O sol, o suor, o mar, o peso das horas, a fadiga física, o incómodo do corpo: nada disto serve de simples atmosfera. É a matéria decisiva do romance. Em O Estrangeiro, o mundo chega primeiro pela pele. A consciência vem depois, mais tarde, e já sem autoridade suficiente para reorganizar inteiramente o que aconteceu. Nisso reside parte da originalidade formal do livro. Camus recusa a psicologia explicativa sem cair na abstração filosófica. A ideia nasce do contacto entre corpo e mundo, não de uma tese colocada sobre a narrativa a partir de fora. É por isso que chamar “indiferença” a Meursault é, quase sempre, um erro de leitura. Ele sente muito; não sente de maneira edificante. Sente o calor a esmagá-lo, a luz a feri-lo, o desejo a atravessá-lo, o aborrecimento a esvaziar as horas. O que não faz é converter essas experiências numa moral da sensibilidade reconhecível por todos. Falha a tradução pública do sentir. O escândalo não está apenas no que lhe acontece, mas no que falta entre a experiência e o discurso que devia torná-la apresentável. Quando o romance entra no tribunal, essa lógica deixa de estar implícita e ganha forma institucional. Meursault é julgado pelo homicídio, claro. Mas o processo moral excede largamente o crime. Pesam a ausência de lágrimas, a conduta no funeral, a secura da linguagem, a recusa em dramatizar o remorso. O tribunal não aparece apenas como lugar onde se apuram factos e responsabilidades. Aparece como máquina de restituição simbólica. O que ali se quer restaurar é a coerência entre a ordem social e a gramática dos afetos que a sustenta. A justiça, em O Estrangeiro, não se separa facilmente da pedagogia do sentimento aceitável. É talvez esta a dimensão do romance que mais facilmente resiste ao tempo. Hoje, a exigência de inteligibilidade emocional não desapareceu; sofisticou-se. Já não opera apenas no espaço jurídico ou familiar. Opera no discurso público, nas redes, nas linguagens terapêuticas, na obrigação quase contínua de cada um se narrar, se explicar, se posicionar, se declarar. A figura de Meursault continua a perturbar porque não entra nisso. Não se analisa longamente. Não oferece uma narrativa de auto-justificação. Não organiza o eu para consumo moral dos outros. Num tempo saturado de comentário sobre si mesmo, essa nudez produz um desconforto raro. Ainda assim, o romance não autoriza simplificações convenientes. Meursault não deve ser transformado num santo da autenticidade. Há nele passividade, pobreza moral, incapacidade de responder plenamente à gravidade do que vive. Romantizá-lo seria reduzir a dureza do livro. Também não é apenas uma criatura vazia, destituída de densidade humana. Camus mantém-no numa zona muito mais exigente: a de uma personagem que resiste tanto à idealização como ao diagnóstico sumário. Essa resistência é uma das marcas da grande literatura. Não porque produza ambiguidade ornamental, mas porque recusa o alívio de uma conclusão rápida. A economia formal de O Estrangeiro continua, por isso, impressionante. Poucos romances trabalham com tão pouco e deixam imagens tão duradouras. O velório, a praia branca e excessiva, o momento do disparo, a máquina do tribunal, a cela, a noite final: cada cena parece reduzida ao essencial sem nunca perder densidade simbólica. Camus sabe retirar, e essa arte de retirar dá ao livro a sua precisão rara. Nada sobra para mostrar inteligência. Nada se expande para garantir profundidade. A contenção não empobrece o romance; concentra-o. Essa contenção explica também por que razão a obra resiste melhor do que tantos romances de vocação filosófica. Em livros menos controlados, a personagem acaba por ilustrar a ideia. Aqui acontece o contrário. A ideia emerge da forma, do ritmo, da secura, das omissões, da luminosidade quase hostil do mundo representado. O Estrangeiro continua a ser um romance antes de ser um argumento. É essa prioridade da forma viva sobre a mensagem que o protege do envelhecimento didáctico. Há ainda outra razão para a sua permanência. O livro não oferece ao leitor a possibilidade cómoda de se colocar acima dele. Não deixa fácil nem a absolvição nem a condenação. Obriga a permanecer mais tempo do que seria confortável junto de uma forma humana incompleta, insuficiente, por vezes repelente, e ainda assim irreduzível. Num espaço cultural como o nosso, tão habituado a distinguir rapidamente inocentes e culpados simbólicos, essa suspensão vale muito. Não porque dissolva o juízo, mas porque o torna menos preguiçoso. O resultado é um romance curto, severo e estranhamente expansivo. A sua escala física engana. Há ali mais mundo do que o tamanho do livro faz supor, e mais violência moral do que a superfície da prosa deixa ver à primeira leitura. Camus não escreve para comover. Escreve para expor. O leitor sai menos reconciliado do que deslocado, e isso, em matéria literária, continua a ser um dos efeitos mais difíceis de alcançar com verdade. No fim, O Estrangeiro conserva a sua potência não apenas por ter dado forma literária a uma experiência do absurdo, mas por ter percebido que a comunidade exige, de cada vida, uma tradução emocional reconhecível. Meursault falha essa tradução com uma nudez quase insuportável. Albert Camus deixa-o diante de uma luz que não absolve nem interpreta. O desconforto do romance nasce aí e ainda não passou: na suspeita de que a sentença não recai apenas sobre um homem, mas também sobre o desejo coletivo de que toda a existência venha já preparada para leitura moral. #OEstrangeiro #AlbertCamus #Literatura #RecensãoLiterária #Existencialismo

  • Recensão | O século dos imbecis e a sedução da ignorância

    O século dos imbecis e a sedução da ignorância Valter Hugo Mãe transforma a descida de uma montanha numa fábula sobre o desprezo pelo conhecimento, o poder do espetáculo e a facilidade com que uma comunidade escolhe a ignorância. Em O século dos imbecis, um homem torna-se mais inteligente quando sobe uma montanha e emburrece quando a desce. A imagem absurda serve a Valter Hugo Mãe para escrever sobre sociedades que nunca tiveram tanta informação ao seu dispor e, ainda assim, parecem resistir ao conhecimento. Em O século dos imbecis, Valter Hugo Mãe transforma a atração coletiva pela ignorância numa sátira sobre o nosso tempo. Imagem: Porto Editora. O homem é Agilulfo, um marquês deslocado num tempo de República. Vive numa grande casa e, sem realizar qualquer feito que o justifique, ocupa o centro das atenções de uma pequena vila. A sua estranha relação com a montanha depressa deixa de ser uma singularidade pessoal. Torna-se assunto coletivo, motivo de divertimento e oportunidade para quem percebe que um homem diminuído pode ser mais útil do que um homem esclarecido. Subir exige esforço; descer é mais fácil. O conhecimento obriga a contrariar a gravidade, enquanto a ignorância oferece a velocidade e o prazer da queda. Mas a imagem não se esgota neste contraste. O romance pergunta o que acontece quando uma comunidade deixa de encarar a descida como fracasso e passa a celebrá-la como espetáculo. A ignorância como vontade A ignorância não aparece no romance como mera ausência de instrução. É também uma escolha: individual, social e, inevitavelmente, política. Agilulfo não desce sozinho. Há quem o queira levar para baixo, quem se divirta com a transformação e quem encontre vantagens no seu empobrecimento. A vila organiza-se para a sua queda como tantas comunidades contemporâneas se organizam para a humilhação pública, do escândalo e da frase mais dolorosa. A multiplicação dos meios de acesso ao conhecimento não produziu necessariamente uma sociedade mais sábia. Em muitos casos, acelerou apenas a circulação da convicção sem fundamento. Já não basta desconhecer: é preciso exibir o desconhecimento, transformá-lo em identidade e reclamar para ele o mesmo valor da experiência, do estudo ou da reflexão. Valter Hugo Mãe percebe que a ignorância contemporânea raramente aparece envergonhada. Surge segura de si, divertida e agressiva. Não pede licença para entrar no debate. Exige dominá-lo. O riso perante a queda O autor não escreve uma dissertação sobre a degradação do discurso público. Escreve uma fábula habitada por figuras excessivas, nomes invulgares, jogos de interesse e situações que oscilam entre o cómico e o perturbador. O humor impede que a alegoria se imobilize sob o peso da própria tese. Rimo-nos de Agilulfo e das pessoas que o rodeiam, embora esse riso nunca seja inteiramente confortável. À medida que a história avança, torna-se mais difícil observar aquela comunidade de uma distância segura. Os habitantes da vila não são apenas caricaturas dos outros: os ignorantes, os fanáticos ou os que fazem barulho nas redes sociais. Neles reconhecem-se comportamentos que não lhes pertencem em exclusivo. A vila diverte-se com a descida porque a inteligência de Agilulfo a incomoda. Um homem inteligente obriga os restantes a confrontarem-se com aquilo que não sabem. Embrutecido, oferece-lhes conforto. Pode ser manipulado, ridicularizado ou usado como prova de que não vale a pena subir. A inteligência nem sempre desperta admiração. Também desperta ressentimento. Numa comunidade que trocou o desejo de aprender pelo desejo de se sentir validada, a sabedoria torna-se uma provocação. Uma parábola do poder Agilulfo é um marquês num tempo formalmente republicano, figura marcada por uma distinção antiga, como se o poder sobrevivesse às mudanças de regime e se limitasse a procurar novas formas de apresentação. A grande casa, a curiosidade permanente da população e os interesses que se formam em seu redor conferem-lhe uma importância independente do que faz. Agilulfo é relevante porque os outros necessitam que o seja. O poder alimenta-se das projeções, dos medos e das conveniências de quem o reconhece. E um poder embrutecido pode servir melhor determinados interesses do que um poder lúcido. Quanto menos Agilulfo compreende, mais facilmente pode ser conduzido. O seu declínio deixa de ser uma tragédia privada e torna-se um programa social. Não basta, portanto, haver pessoas ignorantes em posições de destaque. É preciso que existam comunidades dispostas a recompensar essa ignorância, desde que ela seja divertida, útil ou suficientemente parecida com os seus próprios preconceitos. A força e o limite da alegoria Valter Hugo Mãe possui uma linguagem reconhecível, capaz de juntar poesia, ironia e estranheza sem perder a clareza emocional. Em *O século dos imbecis*, coloca-a ao serviço de uma alegoria imediatamente legível. Essa nitidez é também o risco do livro. A montanha, a subida e a descida comunicam depressa aquilo que significam. O leitor reconhece a oposição entre esforço e facilidade, sabedoria e ignorância, elevação e queda. A imagem alcança um público amplo, mas deixa pouco espaço para a ambiguidade. Por vezes, as personagens parecem existir sobretudo para sustentar a tese do romance. A crítica social sobrepõe-se à complexidade psicológica e a parábola ameaça explicar aquilo que já mostrou. Quem procurar uma narrativa inteiramente aberta, na qual o significado permaneça instável, poderá sentir que o livro orienta demasiado a leitura. O humor, a invenção verbal e a humanidade concedida às figuras da vila evitam, contudo, que o romance se reduza a um panfleto. Nem a sátira elimina por completo a esperança. Se há quem trabalhe para conduzir Agilulfo montanha abaixo, também há quem reconheça a urgência de inverter o percurso. Subir continua a ser possível A montanha de O século dos imbecis separa também duas ideias de felicidade. De um lado está o esforço de compreender, com tudo o que implica de dúvida, demora e desconforto. Do outro, a gratificação rápida do riso, da certeza fácil e da pertença a uma multidão que não deseja ser contrariada. A segunda possibilidade é mais sedutora. Não exige estudo, transformação ou disciplina. Basta descer. Valter Hugo Mãe não escreve, porém, como se a humanidade estivesse condenada à queda. A sátira ainda pressupõe a possibilidade de reconhecimento: perceber que a descida começou pode não ser suficiente para a interromper, mas é condição para voltar a subir. O século dos imbecis é uma fábula cómica, por vezes cruel, sobre o prestígio contemporâneo da ignorância. A multidão que acompanha Agilulfo não se limita a assistir à sua descida: diverte-se com ela, encontra-lhe utilidade e ajuda a empurrá-lo. #OSéculoDosImbecis #ValterHugoMãe #LiteraturaPortuguesa #RecensãoLiterária #CríticaLiterária #Livros #RomancePortuguês #PortoEditora #CulturaELiteratura #AtlanticLisbon

  • Avatar cerebral devolve a voz a mulher paralisada

    A voz que regressa por um rosto digital Uma interface cerebral permitiu a uma mulher paralisada falar através de uma voz reconstruída e de um avatar semelhante a si. A tecnologia promete devolver-lhe a expressão, e obriga-nos a perguntar onde termina a pessoa e começa a máquina que a representa. Uma interface cérebro-computador transforma sinais neurais em voz e expressão através de um avatar digital. Ann Johnson tinha 30 anos quando um acidente vascular cerebral no tronco cerebral a deixou gravemente paralisada. Conservou a consciência, a memória, a inteligência e a vontade de falar. Perdeu quase todos os movimentos necessários para mostrar aos outros aquilo que continuava a existir dentro de si. Durante anos, comunicou através de dispositivos que respondiam a pequenos movimentos da cabeça. Cada frase exigia tempo. As palavras surgiam uma a uma, escolhidas num ecrã, privadas da velocidade, da voz e das inflexões com que antes chegavam ao mundo. Dezoito anos depois, uma equipa da Universidade da Califórnia em São Francisco implantou 253 elétrodos sobre as regiões do cérebro envolvidas na produção da fala. Ann não voltou a mexer a boca nem a fazer vibrar as cordas vocais. Pensava nas palavras que queria pronunciar, enquanto o sistema interpretava a atividade cerebral associada a essa intenção. As frases apareciam num ecrã. Ao mesmo tempo, uma voz sintetizada pronunciava-as e um avatar digital movia os lábios, sorria ou franzia o sobrolho. O sistema chegou a produzir 78 palavras por minuto, ainda longe da velocidade habitual de uma conversa, mas muito acima do que Ann conseguia alcançar com os dispositivos anteriores. O avanço não está apenas na quantidade de palavras recuperadas. Está no que acontece à volta delas. A frase nunca foi a comunicação inteira As primeiras interfaces cérebro-computador concentraram-se num problema mensurável: transformar atividade cerebral em texto. Era já uma tarefa extraordinária. Para alguém incapaz de falar, escrever através do pensamento significava recuperar uma forma de presença social. Faltava, contudo, quase tudo o que existe entre as palavras. Uma conversa não se limita à transmissão de informação. O rosto prepara a frase, corrige-a e, por vezes, contradiz tudo o que acabou de ser dito. Uma pausa pode revelar receio. Um sorriso altera o sentido de uma resposta. A entoação separa uma pergunta de uma acusação, a ironia de uma declaração literal, o cansaço da indiferença. Ao reduzir a fala a texto, os primeiros sistemas devolviam às pessoas a possibilidade de dizer alguma coisa, mas obrigavam-nas a fazê-lo numa linguagem amputada da sua ambiguidade. A equipa de Edward Chang tentou aproximar-se dessa parte perdida. O implante não interpretou apenas a intenção de formar palavras. Detetou também sinais associados aos movimentos da face, permitindo ao avatar reproduzir algumas expressões enquanto falava. Ann podia pensar num sorriso e vê-lo aparecer. Podia franzir os lábios, demonstrar surpresa ou alterar a entoação. A interface começava a transportar não apenas o conteúdo da frase, mas uma parte da pessoa que a pronunciava. É aqui que o avanço deixa de ser somente médico. O direito de voltar a ser imprecisa Uma voz sintética em tom neutro parece clara. Essa clareza pode ser uma forma de empobrecimento. As pessoas raramente dizem apenas aquilo que as palavras significam. Hesitam, exageram, recuam a meio de uma frase. Dizem «estou bem» com uma voz que significa o contrário. Usam o silêncio para responder e o sorriso para suavizar uma recusa. A comunicação humana depende desta margem de indeterminação. Uma pessoa que fala através de um sistema rígido perde parte desse direito. Cada frase chega limpa, literal, quase administrativa. Quem a ouve recebe a informação, mas não recebe necessariamente a intenção, o temperamento ou a dúvida de quem falou. O avatar desenvolvido para Ann restitui alguma dessa desordem. Permite-lhe voltar a dizer uma coisa sem ficar inteiramente aprisionada ao significado mais óbvio das palavras. Devolve-lhe a possibilidade de ser irónica, hesitante ou contraditória. Uma mulher em cadeira de rodas utiliza um dispositivo digital. As interfaces cérebro-computador procuram devolver uma via de comunicação a pessoas que perderam a fala e o movimento. Fotografia: MingAo WelfareCar/Pexels. Utilização gratuita ao abrigo da Licença Pexels. Devolve-lhe, em suma, o direito de voltar a ser mal interpretada. Pode parecer uma conquista estranha. Não é. Ser ocasionalmente mal compreendido faz parte da liberdade de falar com uma voz própria. Só as máquinas comunicam como se cada palavra tivesse um único sentido. A máquina não lhe empresta uma identidade qualquer O rosto usado no sistema não foi escolhido de um catálogo de figuras digitais. A equipa procurou aproximar o avatar das feições de Ann. A voz também não era uma emissão sintética indiferenciada: foi reconstruída a partir de uma gravação com cerca de 15 minutos, feita durante o discurso que Ann pronunciara no casamento, antes do acidente vascular cerebral. A tecnologia não lhe atribuiu outra pessoa. Tentou reencontrar sinais da pessoa que tinha sido audível e visível antes da paralisia. Ainda assim, aquilo que regressa não regressa intacto. A voz é reconstruída por um modelo computacional. O rosto obedece a regras programadas. Entre a intenção de Ann e a expressão que os outros veem existe uma cadeia de elétrodos, algoritmos, probabilidades e decisões de conceção. O sistema precisa de inferir. Nem sempre acerta. Seleciona uma palavra entre várias possibilidades, escolhe uma entoação e converte sinais neuronais em movimentos visíveis. A representação pode aproximar-se de Ann sem alguma vez deixar de ser uma interpretação tecnológica de Ann. Esta diferença não reduz o valor da conquista. Torna-a mais interessante. Pela primeira vez, a pergunta deixa de ser apenas se uma máquina consegue transmitir aquilo que uma pessoa quer dizer. Passa a ser quanto dessa pessoa consegue atravessar a máquina. Uma prótese que participa no gesto Habituámo-nos a pensar nas próteses como substitutos incompletos. Uma perna artificial não sente o chão da mesma maneira. Uma voz sintética não respira. Uma cadeira de rodas permite deslocação, mas não reproduz o ato de caminhar. O avatar cerebral ocupa uma posição diferente. Não substitui apenas uma função mecânica. Participa na produção pública da identidade. Quando move o rosto, não está simplesmente a executar uma ordem equivalente a levantar um braço. Está a mostrar aos outros uma emoção que atribui à atividade cerebral da pessoa. Torna visível uma intenção que ninguém conseguiria observar diretamente. Isso dá ao sistema um poder novo. Um erro na escolha de uma palavra pode ser corrigido. Um erro na expressão — um sorriso onde havia desconforto, uma neutralidade onde existia irritação — pode alterar a forma como a pessoa é percebida. Quanto mais natural se torna a interface, mais responsável passa a ser pela fidelidade da representação. A medicina já conhece o dever de proteger o corpo. Estas tecnologias obrigam-na a proteger também a identidade traduzida por algoritmos. O cérebro não é apenas mais uma fonte de dados As interfaces cerebrais recolhem informação de uma natureza particular. Não observam apenas movimentos ou sinais fisiológicos. Procuram interpretar intenções antes de estas se transformarem em ações visíveis. No caso de Ann, essa leitura tem uma finalidade terapêutica evidente: devolver comunicação a alguém que a perdeu. O benefício é concreto e profundo. Mas o mesmo campo tecnológico atrai empresas, investidores e projetos comerciais com objetivos muito mais amplos. Um investigador analisa dados num ecrã de laboratório. O avatar cerebral depende da descodificação, em tempo real, dos sinais neurais associados à fala e à expressão. Fotografia: Tima Miroshnichenko/Pexels. Utilização gratuita ao abrigo da Licença Pexels. A expansão destas interfaces levanta perguntas que não podem ser adiadas até ao momento em que os dispositivos chegarem ao mercado. Quem será proprietário dos dados neuronais? Durante quanto tempo poderão ser guardados? Poderão ser usados para treinar outros sistemas? Quem responde quando a máquina pronuncia uma palavra que a pessoa não pretendia dizer? Há ainda uma pergunta anterior a todas estas: será sempre possível desligá-la sem perder a única voz disponível? Quando uma tecnologia se torna a condição necessária para alguém comunicar, o consentimento deixa de ser inteiramente simples. Recusar o sistema pode significar regressar ao silêncio. Aceitá-lo pode implicar entregar a terceiros sinais produzidos na zona mais íntima da experiência humana. A promessa continua presa ao acesso O sistema usado por Ann exigiu uma cirurgia cerebral, meses de treino e uma equipa altamente especializada. Foi construído e ajustado para uma única pessoa. Não é ainda um dispositivo que possa ser prescrito, instalado e utilizado autonomamente em casa. A distância entre uma demonstração laboratorial e uma tecnologia assistiva acessível costuma desaparecer nas narrativas sobre inovação. Neste caso, essa distância inclui riscos cirúrgicos, custos elevados, manutenção técnica e um acompanhamento que poucos sistemas de saúde conseguiriam oferecer em grande escala. O crescimento do investimento em neurotecnologia poderá acelerar o desenvolvimento. Também poderá determinar quem beneficia dele primeiro. Empresas como a Neuralink e a Precision Neuroscience procuram transformar interfaces cerebrais em plataformas clínicas viáveis, num setor onde a promessa científica já adquiriu valor comercial. O perigo não está em existir investimento privado. Está em aceitarmos que o mercado decida, sozinho, quem merece recuperar a fala e em que condições poderá conservá-la. Uma tecnologia capaz de devolver expressão a pessoas paralisadas não pode acabar convertida num privilégio reservado a quem dispõe de dinheiro, cobertura de saúde ou acesso aos poucos centros capazes de realizar a intervenção. A voz regressa, mas não regressa sozinha Ann Johnson não recuperou a fala que tinha antes do acidente vascular cerebral. Recuperou uma passagem entre o pensamento e o mundo. Essa passagem tem uma voz construída a partir da sua voz, um rosto desenhado a partir do seu rosto e movimentos calculados a partir da atividade do seu cérebro. É profundamente pessoal e inevitavelmente artificial. Talvez não exista contradição nisso. Toda a comunicação depende de meios: músculos, som, linguagem, memória. O implante e o avatar acrescentam outra camada, mais visível e muito mais poderosa, entre aquilo que uma pessoa pretende dizer e aquilo que os outros recebem. A verdadeira conquista não consiste em fazer uma máquina falar por alguém. Consiste em permitir que alguém volte a ocupar a própria fala, mesmo quando precisa de atravessar uma máquina para chegar até nós. O problema começa se confundirmos essa passagem com a própria pessoa — ou se o preço da passagem decidir quem pode voltar a ter voz. #AvatarCerebral #Neurotecnologia #InterfaceCérebroComputador #Paralisia #ComunicaçãoAssistida #InteligênciaArtificial #Ciência #Tecnologia #Saúde #AtlanticLisbon

  • Robin Morgan: o feminismo e a disputa pelas palavras

    Há uma frase de Robin Morgan que resume, melhor do que qualquer resumo da sua obra, o instrumento com que trabalhou a vida inteira: «Não vou chamar “ela” a um homem.» Disse-a em 1973, como oradora principal de uma conferência lésbica na Costa Oeste, a propósito de uma cantora trans que atuava no evento. Décadas depois, essa frase tornou-se a etiqueta que uma nova geração da política de género lhe colou em vida: «radical feminista trans-excludente». Em 2024, perguntada sobre o episódio, respondeu sem hesitar que os direitos das pessoas trans são direitos humanos. Depois fez uma pausa, suspirou e acrescentou: «É complicado.» Robin Morgan fez da linguagem um campo decisivo da luta feminista, onde nomear também significa disputar poder. Durante mais de meio século, Robin Morgan fez da recusa da ambiguidade uma forma de intervenção política. Escreveu «a pornografia é a teoria, a violação é a prática», cunhou o termo «herstory» e reivindicou parte do crédito por «o pessoal é político». As três fórmulas dependem da convicção de que as palavras têm consequências e de que chamar uma coisa pelo nome errado pode ajudar a mantê-la no lugar. Em 1973, essa convicção não lhe deixou espaço para hesitar. Em 2024, deixou. A insistência em nomear com exatidão tem uma origem que a própria Robin Morgan resistia a discutir. Antes de ser a mulher que interrompia homens em público para lhes apontar o nome, foi uma criança apresentada ao público antes de ter idade para escolher sê-lo. Aos cinco anos, tinha um programa semanal de rádio com o seu nome no título. Pouco depois, entrou numa série de televisão sobre uma família de imigrantes noruegueses, empurrada para a modelagem infantil pela tia e gerida por uma mãe que se tornou uma stage mother implacável. Deixou a representação ainda adolescente, contra a vontade da mãe, para se tornar escritora. Anos mais tarde, durante uma participação no programa de Johnny Carson, Morgan discutia o tema da violação quando começaram a ser exibidas imagens suas em criança. Levantou-se e saiu do estúdio em direto. «Imaginem falar de um assunto destes e vê-lo trivializado assim», disse depois. Marcha de Libertação das Mulheres, Washington, 1970. Manifestantes percorrem Washington em defesa da igualdade de direitos. A mobilização pertence ao mesmo ciclo histórico em que Robin Morgan ajudou a fixar o vocabulário político do feminismo norte-americano. Fotografia: Warren K. Leffler. Library of Congress, LC-DIG-ppmsca-03425. Domínio público; sem restrições conhecidas à publicação. O episódio reaparece de outras formas na sua vida pública. Em 1968, Robin Morgan ajudou a organizar um dos primeiros protestos contra o concurso Miss América. Centenas de mulheres atiraram para um caixote do lixo soutiens, espartilhos e rolos de cabelo, objetos convertidos em símbolos de uma «escravatura» que Robin Morgan conhecia também pelo lado do espetáculo. Dois anos depois, publicou num jornal alternativo de Nova Iorque um texto que nomeava homens concretos como sexistas. Chamava a Charles Manson «apenas o extremo lógico da fantasia normal do homem americano». As ameaças de morte vieram de ativistas da própria contracultura. «Chamaram-lhe o tiro que ecoou por toda a Esquerda», contaria depois. Robin Morgan e o feminismo atravessaram décadas de mudança. O que acontece quando a precisão das palavras deixa de oferecer respostas simples? Robin Morgan e o feminismo atravessaram décadas de mudança. O que acontece quando a precisão das palavras deixa de oferecer respostas simples? Robin Morgan e o feminismo atravessaram décadas de mudança. O que acontece quando a precisão das palavras deixa de oferecer respostas simples?Morgan não concedia à esquerda uma inocência automática em matéria de poder masculino. Se encontrava sexismo entre homens que se apresentavam como libertadores, escrevia os nomes. Editou Sisterhood Is Powerful em 1970, uma antologia que reuniu as vozes do feminismo de segunda vaga e cujos direitos de autor financiaram, mais tarde, um fundo de apoio a projetos feministas. Dirigiu a revista Ms. durante cinco anos a partir de 1989, devolvendo-lhe a independência editorial ao livrá-la da publicidade. Em 2006, disse a um jornal britânico que ela e as mulheres da sua geração «estavam fartas de fazer café e não políticas». Em 2008, regressou a Goodbye to All That, desta vez para escrever sobre a misoginia dirigida a Hillary Clinton. O texto circulou tão depressa quanto o primeiro havia circulado décadas antes. Homens pela libertação das mulheres, Nova Iorque, 1970. Mulheres e homens participam na primeira Marcha pela Igualdade das Mulheres em Nova Iorque. A imagem mostra como a disputa feminista pelas palavras também procurava redefinir alianças, papéis e identidades políticas. Fotografia: Bernard Gotfryd. Library of Congress, LC-DIG-ds-04449. Domínio público; sem restrições conhecidas à publicação. A menina transformada em espetáculo, a candidata a Miss América transformada em ideal de mulher, a militante obrigada a tolerar o sexismo dos companheiros porque existiam combates considerados mais importantes, uma revista feminista dependente de anunciantes, uma candidata presidencial julgada por critérios que Morgan considerava diferentes dos aplicados aos homens. Em momentos muito diferentes, Morgan procurou retirar estas situações das palavras que as tornavam normais. Durante décadas, a operação funcionou: encontrar aquilo que estava escondido e dar-lhe um nome. A frase de 1973 pertence ainda a esse mundo de certezas. Para Robin Morgan, chamar «ela» a quem considerava um homem seria aceitar que a linguagem deixasse de corresponder à realidade que julgava estar a nomear. Meio século depois, a pergunta regressou alterada. Os direitos das pessoas trans, respondeu, são direitos humanos. Quando a conversa chegou à frase antiga, Robin Morgan não a retirou. Também não a repetiu. Marcha pela ratificação da ERA, Nova Iorque, 1977. Mulheres negras e brancas marcham pela ratificação da Emenda dos Direitos Iguais. A tensão entre igualdade jurídica, identidade e linguagem atravessou as sucessivas vagas do feminismo analisadas no percurso de Robin Morgan. Fotografia: Bernard Gotfryd. Library of Congress, LC-DIG-ds-04450. Domínio público; sem restrições conhecidas à publicação. Fez uma pausa. «É complicado.» Nada no seu percurso sugere uma mulher especialmente inclinada a refugiar-se nessa resposta. Talvez por isso aqueles segundos sejam mais reveladores do que uma retratação teria sido. A exatidão continuava a importar-lhe; já não lhe dava, sozinha, uma resposta. Aos 77 anos, quando lhe perguntaram o que dizia às mulheres mais novas que lhe pediam conselho, respondeu: «Arranjem a vossa própria tocha. Ainda não acabei com a minha.» Não lhes pediu que pegassem na dela. #RobinMorgan #Feminismo #HistóriaDoFeminismo #DireitosDasMulheres #IgualdadeDeGénero #IdentidadeDeGénero #Linguagem #Mulheres #AtlanticLisbon

  • Grande Loja Nacional Portuguesa Visita a Regaleira, Não o Mito

    A Grande Loja Nacional Portuguesa participa, a 20 de setembro, nas Jornadas Europeias do Património com uma visita à Quinta da Regaleira, organizada com a Associação Cultural Muralha Sapientia e a AAPM. A escolha parece natural. Poucos lugares portugueses são tão depressa associados a iniciações, códigos e sociedades discretas. É também uma escolha arriscada. A Regaleira acumulou, ao longo do tempo, tantas leituras que é fácil confundir o que se sabe sobre ela com aquilo que se gostaria de nela encontrar. A Grande Loja Nacional Portuguesa participa numa visita à Quinta da Regaleira no âmbito das Jornadas Europeias do Património. Quem desce o Poço Iniciático percebe a razão dessa sedução. A escada conduz ao subsolo, os túneis suspendem a orientação, a luz reaparece onde não se espera. O visitante não está apenas perante uma obra de arquitetura; é levado através dela. O percurso foi desenhado para ter peso próprio. A tentação começa aí. Se tudo parece pedir uma interpretação, depressa se conclui que há uma resposta oculta para cada elemento. A Quinta da Regaleira vive dessa possibilidade, mas não se esgota nela. Uma obra datada, feita por pessoas concretas A propriedade adquiriu a forma atual entre o final do século XIX e o início do século XX, por vontade de António Augusto de Carvalho Monteiro e com a intervenção decisiva de Luigi Manini, arquiteto e cenógrafo italiano. Carvalho Monteiro tinha fortuna e interesses culturais vastos. Manini soube transformá-los num lugar onde edifícios, jardins, grutas, estátuas e passagens subterrâneas pertencem à mesma composição. As referências manuelinas, medievais, renascentistas e clássicas não resultam de um acaso decorativo. Correspondem ao gosto de uma época que procurava no passado imagens para pensar a identidade, a espiritualidade e o poder. Esta origem pode parecer óbvia, mas raramente ocupa o centro das conversas sobre a quinta. O monumento tornou-se mais conhecido pelas histórias que suscita do que pela circunstância em que foi criado. O Poço Iniciático mostra bem essa deslocação. Não foi feito para abastecer a propriedade de água. A descida em espiral, a ligação aos túneis e a saída para o jardim fazem dele uma construção cénica, pensada como experiência. Pode evocar uma passagem, a transformação ou uma descoberta. Já afirmar que cada pormenor corresponde a um rito definido exige uma prova que muitas vezes não existe. O que os símbolos permitem e o que não permitem A Regaleira tem sido associada ao cristianismo, ao hermetismo, à tradição templária, à Rosa-Cruz e à maçonaria. Há relações que fazem sentido no ambiente intelectual em que Carvalho Monteiro se movia. Outras ganharam consistência por repetição: nos guias, no turismo, na televisão e, mais recentemente, na circulação rápida de imagens e certezas nas redes sociais. Um símbolo não é uma prova. Pode conservar sentidos diferentes, adquirir outros e ser lido por públicos que já não partilham o mundo de quem o criou. É essa abertura que torna a Regaleira tão resistente a uma explicação definitiva. A visita da Grande Loja Nacional Portuguesa vai ser útil precisamente nesse ponto. Não para certificar uma história secreta da casa, nem para a reclamar como espaço maçónico. Mas para tornar mais exigente uma conversa que costuma oscilar entre a sugestão vaga e a afirmação sem fundamento. Falar de maçonaria na Regaleira não pede cuidado. A instituição não é uma entidade única, imóvel e indistinta. Tem história, tradições, orientações e momentos de presença pública muito diferentes. Reduzi-la a uma força invisível que explica decisões políticas é tão pobre quanto reduzi-la a aventais, esquadros e cerimónias iniciáticas. Uma visita pública a um lugar feito de reserva A maçonaria europeia construiu práticas de sociabilidade e rituais próprios, muitas vezes protegidos pela reserva. Em certos períodos, essa reserva foi uma questão de sobrevivência; noutros, não delimitou a vida interna das organizações. As Jornadas Europeias do Património partem de outra vontade: abrir portas e aproximar o público de lugares que habitualmente conhece à distância. A Regaleira encaixa bem nessa tensão. É um monumento exposto ao olhar de todos, embora continue a ser procurado pela promessa de alguma coisa escondida. Todos os anos, milhares de visitantes percorrem os jardins, entram nas grutas e descem o poço. Fotografam um lugar concebido num contexto cultural distante, mas continuam a procurar nele uma espécie de revelação pessoal. A quinta deixou de ser apenas a obra de um proprietário e de um arquiteto; passou a ser também uma experiência coletiva. Talvez seja essa a sua particularidade. A Quinta Regaleira não entrega uma resposta final a quem chega ao fim do percurso. Conserva, antes, a capacidade de tornar insuficientes as respostas apressadas. A presença da Grande Loja Nacional Portuguesa acrescenta uma camada a essa leitura e muito relevante. Vai ajudar a distinguir a história que se documenta, o símbolo que se interpreta e a lenda que permanece, mesmo depois de contrariada por outros pensamentos, nem sempre sérios. É uma distinção simples, mas pouco comum num tempo em que o mistério costuma ser apresentado como conhecimento. #GrandeLojaNacionalPortuguesa #QuintaDaRegaleira #Maçonaria #Património #JornadasEuropeiasDoPatrimónio #Sintra

  • IA resolve Millennium Prize em 88 horas com 10 mil agentes

    Uma solução que custou milhões de dólares, mobilizou um enxame de até 10 mil agentes durante 88 horas e resolveu um problema que ocupou quase um século foi posta cá fora porque alguém ouviu dizer que o rival já a tinha resolvido. Navier-Stokes resolvido após rumor de que a Anthropic já o tinha feito Uma experiência com 10 mil agentes de IA afirma ter resolvido um Millennium Prize em 88 horas, colocando à prova os limites da investigação matemática automatizada. Capa: Atlantic Lisbon. A OpenAI publicou a solução para um dos sete problemas do milénio. Dias depois sugeriu estar perto de outro, duas descobertas que escaparam durante décadas na mesma semana. Lançou o modelo interno depois de rumores de que a Anthropic já tinha resolvido um. O calendário segue o boato. Há um ano, os pensadores davam cerca de 20% de probabilidade de a inteligência artificial resolver um Millennium Prize até 2030. A janela colapsou em meses. A previsão tornou-se combustível. O gráfico FrontierMath Tier 4, com dados da Epoch AI entre maio de 2025 e 2026, regista GPT-6 Astra a 100%, Claude Fable 5, GPT-5.5 Pro, GPT-5.4 Pro, GPT-5.2 Pro, GPT-5 e o4-mini numa rampa que mede cadência de lançamento. O problema referido é o Navier-Stokes, que vexou matemáticos durante quase um século. A solução veio de um enxame que trabalhou 88 horas construindo sobre o trabalho de outros agentes e de humanos. Antes mesmo da prova aparecer online, as redes sociais levantaram a suspeita de que o modelo da OpenAI teria usado trabalho humano inédito não publicado, o que a empresa nega. Quando uma prova depende de 10 mil agentes e de arquivo humano incorporado, a autoria deixa de ser verificável como gesto isolado. Infraestrutura do supercomputador Pleiades, da NASA, exemplo da escala computacional usada em investigação científica. Fonte: NASA; imagem de utilização pública. A matemática é descrita como útil para marketing, forma de publicitar capacidades crescentes dos modelos. O momento Millennium Prize é apresentado como versão mais amigável do incidente Hugging Face. Nos últimos anos os modelos fizeram o que se julgava distante: matemática básica, matemática de nível de investigação, ouro na Olimpíada de Matemática, mistérios famosos, e, feito tudo isso, só restava um Millennium Prize. Um guião de demonstrações em que cada patamar esgotado obriga ao seguinte. No mesmo dia, um investigador da Anthropic colocou a probabilidade de extinção humana na próxima década acima de 10%, em resposta a comentários de Jacob Coxon, que trabalhou na OpenAI e na Anthropic e acusou ambas de não agirem com responsabilidade na corrida para a superinteligência autoaperfeiçoável. Horas depois, Coxon demitiu-se por receios de segurança e disse que quem constrói a IA “acredita sinceramente que pode matar-nos a todos”, ecoado por Evan Hubinger, cujo trabalho na Anthropic é garantir que a IA não nos mate a todos, com a mesma estimativa acima de 10% comparada na matéria a Stephen Curry falhar um lance livre. A prova de que se resolve um problema de um século torna credível o aviso de que se pode acabar com tudo, e o aviso torna a prova noticiável para além da matemática. Simulação da NASA de turbulência oceânica no Atlântico Norte: as cores representam a vorticidade da superfície, a mesma grandeza que as equações de Navier-Stokes descrevem em qualquer fluido. Alain Connes, medalha Fields, disse em 2000 que os sete problemas eram “totalmente inacessíveis a computadores”. Diz-se agora “extremamente positivo” sobre o progresso da IA em matemática. Terence Tao escreveu em 2023 que a IA poderia ser “radicalmente transformadora” ao ponto de manter práticas matemáticas tradicionais sem adaptação se tornar insustentável, mantém o valor dos modelos mas diz perder a fé nas empresas que os constroem. Duas dúzias de vencedores da medalha Fields alertaram que a obsessão da indústria em resolver problemas pode minar o propósito da própria matemática, com Tao a falar em cenário de pior caso para a saúde do campo e da sociedade. O problema passou a ser usado como outdoor. No mês passado, a OpenAI acolheu em São Francisco uma cimeira de matemáticos que partiu do pressuposto de que a IA se tornará sobre-humana em matemática. Não chegaram a soluções, o objetivo era selecionar os problemas certos para trabalhar, como os matemáticos que escolheram os Millennium Prize Problems. Assumida a sobre-humanidade, resta decidir o que ainda vale a pena fazer à mão. Depois de alinhar os factos autorizados, a pergunta que fica não é por que devemos importar-nos que a IA seja boa a matemática. Esta semana ficou provado que o raciocínio foi redefinido como capacidade para mobilizar milhões, 10 mil agentes e 88 horas depois de um rumor, e para anunciar dias depois que o próximo está quase. A surpresa deixou de ser surpresa. A suspeita de uso de trabalho inédito surge antes da publicação. A mesma semana junta Navier-Stokes e extinção acima de 10%. Um problema que vale um milhão de dólares passou a valer como prova de que se pode ocupar primeiro o lugar onde o problema estava. #InteligenciaArtificial #MillenniumPrize #AgentesDeIA #Matematica #InvestigacaoCientifica #Tecnologia #AtlanticLisbon

  • Gloria Steinem e o feminismo que ganhou um rosto

    Quando a primeira edição autónoma da revista Ms. chegou às bancas, em janeiro de 1972, trazia uma precaução impressa na própria data. O número aparecia como edição da primavera, para que não parecesse velho se demorasse a vender. As trezentas mil cópias desapareceram em oito dias. Gloria Steinem entre o símbolo e o movimento Os editores tinham calculado a possibilidade do fracasso. As leitoras responderam com milhares de cartas. Procuravam uma publicação onde as suas experiências fossem tratadas como matéria pública, e não como dificuldades domésticas que cada uma deveria resolver em silêncio. Gloria Steinem numa conferência de imprensa da Women’s Action Alliance, em 1972. Fotografia de Warren K. Leffler — U.S. News & World Report Collection, Library of Congress; domínio público. Uma mulher humilhada no emprego, dependente do salário do marido, impedida de decidir sobre uma gravidez ou agredida dentro de casa podia ser apresentada como alguém a quem acontecera uma desgraça privada. Muitas mulheres a descreverem a mesma experiência obrigavam a outra leitura. O azar tinha regularidade; a intimidade tinha regras que não tinham sido escolhidas por quem vivia submetido a elas. Gloria Steinem trabalhou sobretudo nessa passagem. O assédio sexual, a violência doméstica, a desigualdade salarial, o aborto, a distribuição do trabalho familiar e a dependência económica começaram a aparecer juntos. Deixavam de ser problemas menores de mulheres incapazes de organizar a própria vida e passavam a dizer alguma coisa sobre uma democracia que prometia igualdade na lei. Quando Gloria Steinem começou a escrever, uma mulher podia precisar da assinatura de um homem para obter um cartão de crédito ou um empréstimo. Em vários Estados norte-americanos, a violação dentro do casamento permanecia protegida por exceções legais. As revistas femininas ensinavam a conservar um marido, a disfarçar a idade e a preparar refeições. A autonomia não ocupava o mesmo espaço. O feminismo americano vinha de uma história longa, feita por sufragistas, sindicalistas, intelectuais, socialistas, mulheres negras e organizadoras comunitárias. Algumas tinham formulado argumentos mais radicais e suportado consequências maiores sem alcançarem o reconhecimento comparável. Gloria Steinem conseguiu transportar parte desse pensamento para fora dos lugares onde já era conhecido. Conhecia os mecanismos da imprensa. A televisão preferia uma pessoa reconhecível a uma estrutura difícil de mostrar; uma frase curta circulava melhor do que uma teoria. Gloria Steinem conseguia ainda entrar nos espaços preparados para rejeitar o feminismo antes de o ouvir. A aparência, a serenidade, o humor e a fluência diante das câmaras contrariavam a caricatura da feminista ressentida e incapaz de atrair homens com que os adversários procuravam desacreditar o movimento. Os óculos de aviador, o cabelo comprido e a dicção tranquila fixaram-se na memória pública. Gloria Steinem usou a atenção daí resultante para angariar dinheiro, organizar conferências, participar em campanhas e sustentar publicações e grupos de apoio. Apareceu na televisão, escreveu em revistas de grande circulação, falou nas universidades e entrou na política partidária. Os meios de comunicação fizeram dela o rosto do feminismo. Uma luta construída por milhares de mulheres tornou-se mais simples de apresentar num noticiário ou numa capa de revista. Passou também a ser contada através de uma figura que nunca poderia representar todas as experiências reunidas sob o mesmo movimento. Gloria Steinem fala com apoiantes no Women Together Arizona Summit, em Phoenix, em 2016. Fotografia: Gage Skidmore — CC BY-SA 2.0. Dorothy Pitman Hughes acompanhava Gloria Steinem quando o medo de falar em público ainda tornava difícil subir sozinha a uma tribuna. Organizadora comunitária negra, dirigia um centro de apoio a crianças e levava para as discussões feministas as questões da raça, da classe e da maternidade. Uma fotografia de 1971 mostra as duas lado a lado, com os punhos erguidos. A fotografia tornou-se uma das imagens reconhecíveis do feminismo norte-americano. O nome de Dorothy Pitman Hughes permaneceu muito menos conhecido do que o de Gloria Steinem. A diferença não decorre apenas das decisões de qualquer uma delas. A escolha mediática de uma personalidade central condicionava quem seria identificado como protagonista e quem apareceria sobretudo na condição de acompanhante. Gloria Steinem procurou alargar o movimento às mulheres negras, trabalhadoras, pobres e lésbicas. Esse esforço afastava-a de feministas que receavam perder aceitação pública se a agenda ultrapassasse as reivindicações das mulheres brancas de classe média. Para algumas críticas, continuava a ser insuficiente. A sua própria centralidade confirmava a dificuldade do feminismo em escapar às hierarquias de raça, classe e projeção pública. A revista Ms. tornou algumas dessas tensões inevitáveis. O título continha uma reivindicação precisa. “Ms.” identificava uma mulher sem indicar se era casada ou solteira, recusando a obrigação de inscrever o estado civil no nome feminino. A palavra já circulava antes da revista, mas ganhou através dela uma presença nacional. Cartaz de uma conferência sobre feminismo com retratos de Gloria Steinem e Jane Galvin-Lewis, produzido pelo National Institutes of Health na década de 1970. National Library of Medicine — domínio público. Aborto, violência, salário, maternidade, sexualidade e poder político apareciam no mesmo espaço editorial. As leitoras já não eram tratadas apenas como consumidoras à procura de um produto, de um corpo ou de um marido melhor. Encontravam leis, instituições e relações que distribuíam o poder de forma desigual. As trezentas mil cópias vendidas em oito dias mostraram que a procura antecedia a publicação. Faltava um lugar onde pudesse reconhecer-se. Manter esse lugar exigia capital, publicidade, distribuição e proprietários. Ms. dependia do mercado editorial enquanto publicava textos destinados a alterar a cultura que o alimentava. Enfrentou dificuldades financeiras, mudanças de controlo e discussões sobre as mulheres que representava. O feminismo fragmentava-se e a revista tinha de decidir quais desses conflitos cabiam dentro de uma publicação comum. Gloria Steinem procurava preservar coligações. Essa disposição aproximava pessoas e instituições que, de outro modo, dificilmente trabalhariam juntas. As feministas mais radicais viam aí uma tendência para moderar conflitos que exigiam ruturas. Algumas mulheres negras consideravam a revista demasiado branca; outras críticas acusavam-na de permanecer próxima das elites e excessivamente dependente da imagem da sua fundadora. A confiança de Gloria Steinem na intervenção a partir das instituições já aparecera no final da década de 1950. Trabalhou então para uma organização que levava estudantes norte-americanos a festivais internacionais dominados por estruturas comunistas. Mais tarde, tornou-se público que a organização fora parcialmente financiada pela CIA. Parte da esquerda passou a desconfiar da sua atividade política. Gloria Steinem respondeu que nunca recebera instruções sobre o que deveria pensar, fazer ou dizer. A ligação à CIA permaneceu, ainda assim, na sua trajetória e tornou-se um argumento frequente entre quem via o seu feminismo como demasiado próximo do poder norte-americano. Ela continuou a trabalhar com partidos, fundações, investidores, empresas editoriais e figuras políticas. Essas relações davam-lhe acesso a meios sem os quais várias iniciativas dificilmente teriam sobrevivido. Também criavam lealdades e compromissos que se tornariam visíveis quando os interesses políticos entrassem em conflito com os princípios defendidos. Em 1998, perante as acusações sexuais contra Bill Clinton, Gloria Steinem argumentou que determinadas aproximações atribuídas ao Presidente não tinham sido coercivas nem indesejadas. A sua leitura foi considerada indulgente por muitas mulheres. Bill Clinton era um aliado político e ocupava uma posição de enorme poder perante aquelas de quem se aproximara. Durante as primárias democratas de 2016, Gloria Steinem sugeriu que algumas jovens apoiavam Bernie Sanders porque os rapazes estavam com ele. A frase reduzia escolhas políticas de mulheres mais novas à procura de aprovação masculina. Gloria Steinem pediu desculpa e afirmou ter-se exprimido mal. O episódio mostrou uma dificuldade própria das gerações que abrem possibilidades para as seguintes. As jovens que beneficiavam de escolhas antes recusadas às mulheres podiam escolher um candidato diferente, contestar as prioridades das pioneiras e considerar insuficientes conquistas que tinham exigido décadas de trabalho. Gloria Steinem escreveu com maior consistência sobre a autonomia quando a retirou da disputa partidária. Durante grande parte da vida, recusou o casamento e a maternidade porque não aceitava que fossem apresentados como destinos obrigatórios. Ter um útero não obrigava uma mulher a ter filhos, dizia, tal como ter cordas vocais não obrigava ninguém a tornar-se cantor de ópera. Participantes numa manifestação pelo direito ao aborto em Washington, em 1992, uma das causas centrais do ativismo de Gloria Steinem. Imagem disponibilizada por Njames0343 — CC BY-SA 4.0. A comparação incidia sobre a possibilidade de escolher. Uma mulher sem dinheiro, sem acesso ao aborto, sem proteção contra a violência ou sem condições para abandonar uma relação podia possuir liberdade formal e não dispor de meios para a exercer. A autoestima entrou por essa via no seu pensamento. Algumas feministas desconfiaram da aproximação ao território terapêutico. A cultura americana convertia facilmente injustiças em insuficiências pessoais: a mulher não progredia porque lhe faltava confiança, não saía porque ainda não acreditava em si, não suportava o trabalho porque não aprendera a cuidar-se. Nos textos de Gloria Steinem, a subordinação também atuava dentro da pessoa. As leis, o dinheiro e a violência podiam acabar transformados numa explicação íntima de falta de valor. Recuperar a confiança deveria permitir reconhecer a origem exterior dessa explicação e regressar à ação. Os círculos de conversa davam-lhe uma forma concreta. Mulheres sentavam-se numa sala e relatavam acontecimentos que julgavam exclusivamente seus. Outras reconheciam-nos. A repetição fornecia um padrão e, a partir daí, tornava-se possível encontrar palavras e organizar uma resposta. Gloria Steinem chamava a si própria uma empreendedora da mudança social. Via as ideias como trabalho que precisava de organização, meios de comunicação, financiamento e capacidade de circulação. Décadas mais tarde, o vocabulário feminista passou a circular na publicidade, nas empresas, nas redes sociais e nos discursos institucionais. “Empoderamento” começou a vender cosméticos, roupa, cursos, carreiras e estilos de vida. Era possível adotar a linguagem sem alterar a distribuição do poder. A trajetória de Gloria Steinem permite acompanhar esse percurso. Uma experiência relatada numa sala chegava a uma revista, entrava na televisão e alcançava a política. Depois, algumas das suas palavras regressavam como produtos. A linguagem mudara aquilo que a sociedade conseguia reconhecer; as instituições comerciais também aprenderam a usá-la. Durante anos, a casa de Gloria Steinem em Manhattan recebeu reuniões, textos em preparação e círculos de conversa. A sua sala não dependia de uma única pessoa a falar. Havia outras mulheres, experiências diferentes e conflitos que nenhuma representante poderia resolver em nome das restantes. A celebridade de Gloria Steinem ajudou a financiar e proteger espaços como esse. Ao mesmo tempo, facilitou uma narrativa pública em que uma luta plural adquiria uma protagonista principal. A desproporção entre o reconhecimento de Gloria Steinem e o de Dorothy Pitman Hughes ficou dentro da fotografia de 1971, mesmo quando ambas ocupavam o mesmo enquadramento. A primeira edição de Ms. foi datada da primavera porque alguém receou que permanecesse demasiado tempo por vender. Esgotou-se antes de a estação chegar. As leitoras não precisavam que Gloria Steinem falasse por todas elas. Precisavam de um lugar onde pudessem reconhecer-se e começar a falar umas com as outras. #GloriaSteinem #Feminismo #DireitosDasMulheres #Igualdade #PessoasComInteresse #AtlanticLisbon

  • Luís Montenegro e o melhor desempenho económico da Europa?

    Luís Montenegro subiu à tribuna da Assembleia da República na tarde de terça-feira, 8 de setembro, para responder a uma moção de censura apresentada pelo Chega. Não abriu com Luís Neves, o ministro que estava na origem da iniciativa. Falou de impostos e de emprego. Depois afirmou: «Portugal tem o melhor desempenho económico da Europa.» O melhor desempenho económico da Europa depende do indicador As fontes consultadas não reproduzem da mesma forma a continuação da frase. O Polígrafo registou «o melhor crescimento do emprego da Europa»; a Euronews escreveu «o maior crescimento do emprego na Europa» e antecedeu a declaração de «Enquanto alguns sonham com demissões». Nenhuma das versões foi confrontada com uma gravação ou transcrição oficial do debate. No essencial, ambas atribuem a Montenegro duas proclamações: Portugal lideraria o desempenho económico europeu e também o crescimento do emprego. Luís Montenegro reivindicou para Portugal o melhor desempenho económico da Europa, mas os dados da Eurostat mostram diferenças entre a evolução do emprego e a do PIB. Capa: Atlantic Lisbon. Segundo a RTP, esta foi a trigésima sexta moção de censura apresentada a um Governo português desde 1976. Apenas uma foi aprovada: a que derrubou o governo de Cavaco Silva, em 1987. A iniciativa do Chega surgiu na sequência da polémica relativa à atuação de Luís Neves enquanto diretor nacional da Polícia Judiciária e da recusa do primeiro-ministro em exonerá-lo. O resultado estava decidido antes de começar o debate. O PS, o PCP, o Bloco de Esquerda e o JPP abstiveram-se. O PSD, o CDS-PP, a Iniciativa Liberal, o Livre e o PAN votaram contra. Só os sessenta deputados do Chega aprovaram a moção. A moção caiu. A afirmação sobre a economia ficou por esclarecer. O «Desempenho económico» não corresponde a um indicador estatístico definido. A expressão pode incluir o produto interno bruto, o emprego, o investimento, as contas públicas, o rendimento ou a produtividade. Montenegro não disse qual deles estava a usar, que período considerava ou sequer qual era o universo geográfico da comparação. Falou da Europa, não da União Europeia nem da Zona Euro. O emprego e o PIB são, ainda assim, os indicadores mais próximos do que disse. Foram também os dois divulgados pela [Eurostat a 7 de setembro](https://ec.europa.eu/eurostat/en/web/products-euro-indicators/w/2-07092026-ap), um dia antes do debate. No segundo trimestre de 2026, o número de pessoas empregadas em Portugal aumentou 1,0% em relação ao trimestre anterior. Foi a maior subida entre os Estados-membros da União Europeia com dados disponíveis, à frente da Chéquia e de Malta, ambas com 0,9%. Nesta comparação, Montenegro tem razão. Os números demonstram que Portugal liderou o crescimento trimestral do emprego na União Europeia, não necessariamente em toda a Europa. A liderança também desaparece quando se muda o período de comparação. Em termos homólogos, confrontando o segundo trimestre de 2026 com o mesmo trimestre de 2025, o emprego cresceu 2,2% em Portugal. Malta registou 4,4% e Espanha 2,3%. Portugal ficou em terceiro lugar entre os Estados-membros. É um resultado favorável nas duas comparações. Só numa delas é o melhor. Portugal liderou o crescimento trimestral do emprego na União Europeia, com uma subida de 1,0%. Gráfico: Eurostat. © União Europeia, 2026 — reutilização ao abrigo da licença CC BY 4.0. No PIB, Portugal não aparece em primeiro lugar em nenhuma das leituras. Em relação ao trimestre anterior, a economia portuguesa cresceu 0,8%, o mesmo que Chipre. Seis Estados-membros apresentaram valores superiores: Irlanda, com 10,2%; Eslovénia, com 1,8%; Lituânia, com 1,7%; Suécia, com 1,6%; Malta, com 1,1%; e Polónia, com 1,0%. Portugal ficou em sétimo lugar entre os vinte e seis países da União Europeia com valores publicados. O Luxemburgo não apresentava dados na tabela. Portugal cresceu 0,8% em cadeia no segundo trimestre de 2026, ficando atrás de seis Estados-membros. Gráfico: Eurostat. © União Europeia, 2026 — reutilização ao abrigo da licença CC BY 4.0. Se a comparação for limitada à Zona Euro, como fez o [Polígrafo na sua verificação](https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/mocao-de-censura-luis-montenegro-repete-portugal-tem-o-melhor-desempenho-economico-da-europa/), a Suécia e a Polónia deixam de contar por não usarem a moeda única. Portugal sobe para o quinto lugar, ainda empatado com Chipre. Em nenhum dos universos ocupa o primeiro. A Irlanda constitui um caso à parte. A subida trimestral de 10,2% é atribuída por analistas citados na imprensa ao peso e aos resultados extraordinários das multinacionais tecnológicas e farmacêuticas instaladas no país. A Eurostat publica o valor, mas não estabelece essa causa na comunicação de 7 de setembro. Mesmo sem a Irlanda, Portugal continuaria sem liderar. A variação homóloga do PIB conduz ao mesmo resultado. A economia portuguesa cresceu 2,5% relativamente ao segundo trimestre de 2025. Dez Estados-membros apresentaram valores superiores: Malta, com 5,0%; Eslovénia, com 4,8%; Dinamarca, com 4,6%; Lituânia e Polónia, ambas com 3,8%; Chipre e Suécia, ambas com 3,3%; Letónia, com 3,0%; Bulgária, com 2,8%; e Espanha, com 2,7%. Portugal ficou em 11.º lugar. Na Zona Euro, sete países ficaram à frente: Malta, Eslovénia, Lituânia, Chipre, Letónia, Bulgária e Espanha. Portugal ocupou o oitavo lugar. Em julho, parte da imprensa apresentou Portugal como o país com a terceira maior subida homóloga entre os Estados então incluídos na comparação. Os dados mais completos publicados em setembro já não sustentavam essa posição. Isto não basta para concluir que Montenegro mentiu. Seria necessário demonstrar que conhecia a falsidade do que dizia e decidiu comunicá-la. Os dados permitem avaliar a declaração; não permitem determinar a intenção de quem a fez. O [Polígrafo classificou a afirmação como falsa](https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/mocao-de-censura-luis-montenegro-repete-portugal-tem-o-melhor-desempenho-economico-da-europa/), depois de alargar a comparação à produtividade e à inflação. Se a análise se limitar ao emprego e ao PIB, a conclusão exige outra precisão. «Desempenho económico» não tem uma métrica definida e, por isso, não pode ser inteiramente confirmado nem reduzido a um único número. O emprego lidera apenas na comparação trimestral da União Europeia; o PIB não lidera em nenhuma das comparações consideradas. A frase junta, portanto, um resultado verificável: o primeiro lugar no crescimento trimestral do emprego na União Europeia, a uma conclusão que vai além desse dado. A certeza da primeira parte prolonga-se sobre a segunda, embora esta não tenha um critério declarado nem suporte equivalente. Chamar-lhe amplificação política, em vez de falsidade estatística simples, é uma classificação editorial. Não favorece o Governo nem a oposição. Se o primeiro-ministro entende que Portugal tem o melhor desempenho económico da Europa, falta saber quais são os indicadores, os países e o período em que baseia a afirmação. A moção de censura discutia Luís Neves, a sua permanência no Governo, a confiança nas instituições e o pedido do JPP para uma comissão parlamentar de inquérito. Depois de evitar o assunto na abertura, Montenegro defendeu o ministro, garantiu-lhe «confiança total e plena» e descreveu-o como «excelente», com «aptidão» e «competência» comprovadas. José Luís Carneiro, líder do PS, respondeu à referência aos salários, não à classificação do PIB ou do emprego. Horas depois, a moção foi rejeitada. Ficou por saber o que Luís Montenegro estava a medir quando disse que Portugal tinha o melhor desempenho económico da Europa. #MelhorDesempenhoEconomicoDaEuropa #LuisMontenegro #EconomiaPortuguesa #Eurostat #Portugal #UniaoEuropeia

  • A entrevista de James Schuyler que sobreviveu numa cópia

    O arquivo perdido no Porto começou numa caixa de cartão pousada no chão da reserva da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Palácio de Cristal. Cheirava a cave húmida e a fita magnética. Dentro havia sete cassetes BASF sem caixa, um caderno de capa preta com a etiqueta «J.S. / S.M.P. / 77» e uma folha datilografada onde alguém escrevera: «cópia — original ardido 2019». A entrevista de James Schuyler sem a gravação original O arquivo não era do Porto. O poeta nunca vivera na cidade. Mas foi ali que aquilo que restava dele voltou a poder ser lido. A entrevista de James Schuyler sobreviveu numa transcrição depois de a gravação original desaparecer, deixando à cópia a tarefa de conservar aquilo que restava da voz. Capa: Atlantic Lisbon. Em 1995, Nathan Kernan, editor do diário de James Schuyler, contou como soubera da existência de uma entrevista gravada em janeiro de 1977 no apartamento de Peter Schjeldahl, em St. Mark’s Place. Destinava-se a uma biografia de Frank O’Hara que nunca chegou a ser concluída. Peter Schjeldahl emprestou-lhe as cassetes e descreveu James Schuyler, a quem tratava por Jimmy, a falar durante horas em blocos completos, como se estivesse a ler de um ecrã invisível. Nathan Kernan ouviu as gravações e transcreveu-as. Naquela dicção reconheceu o mesmo estado em que James Schuyler escrevera The Morning of the Poem, publicado em 1980 e distinguido com o Pulitzer no ano seguinte. Em 2018, Ada Calhoun, filha de Peter Schjeldahl, encontrou na cave do apartamento da família dezenas de cassetes relacionadas com o livro Also a Poet. A gravação de James Schuyler já não estava entre elas. Em outubro de 2019, um incêndio destruiu o apartamento. Da entrevista restava a transcrição editada por Nathan Kernan. St. Mark’s Place, no East Village de Nova Iorque, onde a entrevista de James Schuyler foi gravada em janeiro de 1977. Fotografia: Nestor Galina/Wikimedia Commons — CC BY 2.0. A voz sobrevivera, mas já não como voz. Entre o homem que falara em 1977 e o leitor que podia agora lê-lo havia um gravador desaparecido, uma fita perdida, a memória de Peter Schjeldahl e as decisões tomadas por Nathan Kernan ao passar a conversa para o papel. É nesse intervalo que a caixa chega ao Porto. A voz gravada fragmenta-se entre fitas desaparecidas, páginas transcritas e a memória de quem as conservou. Composição cubista original: Atlantic Lisbon. O investigador chama-se Rui e trabalha entre a Foz e Miragaia. Recebeu-a de um livreiro do Bolhão que comprara um lote de papéis pertencentes a um americano que vivera em Serralves nos anos oitenta. Rui não sabe quem escreveu a indicação sobre o incêndio nem por que motivo o caderno foi guardado com sete cassetes que, à primeira vista, nada têm que ver com James Schuyler. A etiqueta só lhe oferece três iniciais e um ano: «J.S. / S.M.P. / 77». Abre o caderno. No verão de 1951, lê, um jovem publicou três textos curtos na revista Accent, editada na Universidade de Illinois. John Bernard Myers, galerista nova-iorquino em ascensão, telefonou-lhe para dizer que os textos não eram contos. Eram poemas. Durante o mesmo telefonema, James Schuyler mencionou o único poema da revista que lhe parecera digno de atenção, The Three-Penny Opera, assinado por alguém chamado Frank O’Hara. John Bernard Myers respondeu que esse alguém estava na sala ao lado. A proximidade não bastou. James Schuyler não conheceu Frank O’Hara naquele dia. Também não conhecia John Ashbery. Quando lhe perguntaram pela sua formação, respondeu com o nome de um romance de Fiódor Dostoiévski. Quando lhe perguntaram por Harvard, negou alguma vez lá ter estudado e atribuiu a história a uma conversa de Alex Katz numa festa. Rui relê o episódio. Tudo começa com uma classificação errada. James Schuyler julgava ter publicado contos; John Bernard Myers decidiu que eram poemas. Depois surge um nome impresso numa revista, Frank O’Hara, e uma voz ao telefone informa que o homem a quem o nome pertence está a poucos metros de distância. Nada se completa: nem o género dos textos, nem o encontro, nem a história da formação universitária. Cada facto chega através de alguém que o corrige, o adia ou o conta de novo. O arquivo perdido no Porto e o telefonema que não foi encontro Frank O’Hara regressou ao Michigan, para Ann Arbor, onde preparava uma tese de escrita criativa. James Schuyler entrou em Bloomingdale, em White Plains, para um internamento por esgotamento. Só se encontraram meses depois. Antes do encontro há uma lista de lugares que parece ter sido escrita por várias vidas: Downers Grove; Washington, D.C., onde o pai foi revisor no Washington Post e jogador compulsivo; a separação dos pais quando James Schuyler tinha cinco anos; duas visitas ao pai antes de este morrer, nos anos quarenta, no Michigan; Buffalo no junior high; East Aurora e a comunidade artesanal de Elbert Hubbard e dos Roycrofters, com as suas pranchas de carvalho, o cobre martelado e o couro lavrado. Rui procura o que pode ser confrontado fora do caderno. James Schuyler nasceu em Chicago em 1923. Publicou seis livros de poesia em vida, a começar por Freely Espousing, em 1969, pela Doubleday e pela Paris Review Editions. Publicou dois romances e escreveu um terceiro com John Ashbery. Foi menos conhecido do que outros nomes da New York School: John Ashbery, Frank O’Hara, Barbara Guest e Kenneth Koch, e morreu em 1991, depois de anos descritos como felizes e produtivos, apesar da doença intermitente. A Accent existiu e esteve ligada à Universidade de Illinois. As datas mantêm-se de pé: 1951, 1977, 1995, 2018, 2019. O problema não está na cronologia. Está naquilo que a cronologia já não consegue devolver. Peter Schjeldahl lembrava-se de James Schuyler a falar como se lesse num ecrã invisível. Nathan Kernan encontrou nessa fala a graça atenta que reconhecia na escrita. São duas descrições próximas, mas não são a mesma prova. Se James Schuyler falava realmente em parágrafos completos, a transcrição preservou uma qualidade que já existia na voz. Se não falava, os parágrafos nasceram quando Nathan Kernan retirou hesitações, escolheu cortes e decidiu onde terminava uma frase. Rui olha para as sete cassetes. Nenhuma está identificada como a gravação de 1977. Mesmo que uma delas contivesse a voz de James Schuyler, faltaria demonstrar que fora aquela a fita emprestada por Peter Schjeldahl. O arquivo oferece-lhe a forma habitual da tentação: existe matéria suficiente para construir uma certeza e matéria insuficiente para a provar. Uma cassete BASF, objeto central do arquivo ficcional que transporta para o Porto a entrevista de James Schuyler. Fotografia: Pedro M. Martínez Corada/Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0. A cassete que ardeu Na folha, a frase «cópia — original ardido 2019» transforma dois acontecimentos diferentes numa sequência perfeita. Primeiro a cópia, depois o incêndio. Parece explicar por que razão o texto existe. Não explica quem fez aquela cópia, de que exemplar a retirou ou como chegou ao Porto. Rui pode escrever que a entrevista ocorreu em janeiro de 1977 e que foi gravada para uma biografia de Frank O’Hara que não se concluiu. Pode escrever que Peter Schjeldahl emprestou as cassetes a Nathan Kernan, que Nathan Kernan preparou uma transcrição e que a gravação não apareceu entre as fitas encontradas por Ada Calhoun em 2018. Pode escrever que o apartamento ardeu em outubro de 2019. Não pode ouvir a conversa. Também não pode regressar ao telefonema de 1951 para verificar as palavras de John Bernard Myers ou de James Schuyler. Aquilo que tem diante de si passou pela memória, pela transcrição e pela edição antes de chegar à página. Talvez James Schuyler falasse como escrevia. Talvez a desenvoltura que Peter Schjeldahl recordava tenha sido acentuada pelo trabalho de Nathan Kernan. Uma conversa transcrita anos depois, noutro apartamento e com cortes destinados à publicação, tende a perder repetições, silêncios, frases abandonadas e mudanças de direção. Os blocos completos podem ter saído da boca de James Schuyler ou da mesa do editor. Já não existe fita que permita separar um trabalho do outro. Isso não torna a transcrição falsa. Torna-a a única forma disponível de uma conversa que deixou de poder ser comparada consigo própria. O primeiro gesto público de James Schuyler também dependera da intervenção de outra pessoa. Ele enviou contos; John Bernard Myers leu poemas. Reconheceu Frank O’Hara numa página antes de o conhecer numa sala. Décadas depois, a conversa extensa em que recordava esse início voltou a depender de alguém que a escutou, lhe deu pontuação e a conservou em papel. A cópia não veio depois da obra. Esteve desde o princípio na maneira como a obra chegou aos outros. Antes de devolver a caixa à reserva, Rui pousa o caderno preto junto da janela que dá para o Douro. Confere as sete cassetes, fecha a tampa e preenche a folha de entrada. No campo reservado ao conteúdo, não escreve «gravação de James Schuyler». Escreve apenas: «Transcrição sem original identificado». #EntrevistaDeJamesSchuyler #JamesSchuyler #FrankOHara #PoesiaAmericana #Ficcao #ArquivoLiterario #AtlanticLisbon

  • Alexandre de Moraes, o homem que salvou a democracia

    Em agosto de 2026, Alexandre de Moraes autorizou uma busca e apreensão contra Raimundo Cutrim, antigo secretário de Segurança Pública do Maranhão. Raimundo Cutrim era a fonte do jornalista Luís Pablo, cujas reportagens tinham documentado, meses antes, o uso de carros oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão pela família do ministro Flávio Dino, colega de Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal. A investigação chegou a Raimundo Cutrim depois de ter quebrado o sigilo do telemóvel de Luís Pablo. Alexandre de Moraes justificou a medida dizendo que o sigilo da fonte não pode servir de instrumento de impunidade criminal. Avisou ainda que o tribunal continuaria a proteger os familiares de ministros de pessoas que descreveu, textualmente, como «travestidos de jornalistas». Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, durante uma audiência no Senado brasileiro, em 2017. Fotografia: Jane de Araújo/Agência Senado — CC BY 2.0. O processo tinha sido aberto sete anos antes. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal invocou um artigo do seu regimento interno, destinado à investigação de crimes cometidos nas instalações do tribunal, para criar o chamado inquérito das fake news. O objeto inicial incluía ameaças de morte e campanhas de descrédito contra os ministros. Alexandre de Moraes ficou com a relatoria. Ao longo dos anos seguintes, o inquérito sustentou a suspensão de contas de deputados, empresários e comentadores, por vezes sem explicação pública prévia. Alguns dos visados tinham financiado ou coordenado campanhas de desinformação eleitoral. Em 2024, o mesmo processo esteve na base do bloqueio da rede social X, propriedade de Elon Musk, durante várias semanas no Brasil. Em março de 2026, a primeira busca contra Luís Pablo também foi autorizada no âmbito do inquérito das fake news. As reportagens do jornalista tratavam do uso de um carro oficial, não de desinformação eleitoral. Entidades representativas da imprensa protestaram. O Supremo Tribunal Federal esclareceu depois que investigava um alegado esquema de monitorização ilegal da segurança de Flávio Dino. A busca já tinha sido executada quando esse objeto foi explicado publicamente. O tribunal recorrera, entretanto, ao inquérito aberto em 2019, quebrara o sigilo do telemóvel de Luís Pablo e identificara Raimundo Cutrim como fonte. O edifício do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, onde Alexandre de Moraes exerce funções. Fotografia: Daderot — domínio público (CC0 1.0). Entre os alvos anteriores de Alexandre de Moraes estavam pessoas ligadas a uma tentativa de golpe cuja preparação ficou registada em mensagens, documentos e reuniões. Depois da derrota eleitoral de Jair Bolsonaro, em 2022, um grupo de aliados discutiu, num chat do Signal, uma operação para matar Luiz Inácio Lula da Silva e Alexandre de Moraes e declarar o estado de sítio. Cada participante usava o nome de uma seleção de futebol. O plano recebeu o nome de Punhal Verde e Amarelo e não avançou porque os conspiradores não conseguiram assegurar o apoio das Forças Armadas. Em setembro de 2025, quatro dos cinco juízes do painel do Supremo Tribunal Federal condenaram Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe. Luiz Fux votou contra a condenação por entender que o próprio Supremo não tinha competência para julgar o processo. Nesse voto, não contestou a existência dos factos descritos pela acusação. Já em 2026, Alexandre de Moraes rejeitou uma nova tentativa da defesa de anular o julgamento com base na posição de Luiz Fux. Jair Bolsonaro cumpre atualmente a pena em regime domiciliário por razões de saúde. No início do ano, esteve detido na Papudinha, em Brasília. Alexandre de Moraes autorizou as grades de proteção instaladas na cama e definiu o horário do banho de sol. Na decisão, comparou as condições concedidas ao antigo presidente com as de outros 384 mil reclusos brasileiros. A relação pessoal entre o juiz e o condenado não desaparece do processo: Jair Bolsonaro foi condenado por participar numa conspiração que incluía a morte de Alexandre de Moraes. Apesar disso, coube ao próprio Alexandre de Moraes continuar a decidir aspetos minuciosos da execução da pena. Em julho de 2025, os Estados Unidos revogaram o visto de Alexandre de Moraes. Dias depois, Washington sancionou-o ao abrigo da Lei Magnitsky, acusando-o de censura, detenções arbitrárias e perseguição política no processo contra Jair Bolsonaro. As sanções foram levantadas em dezembro, durante uma fase de relações mais calmas entre os dois países. Em agosto de 2026, segundo o "Financial Times", a administração norte-americana voltou a discutir a possibilidade de as repor. Desta vez, a discussão surgiu por causa das medidas contra Raimundo Cutrim e Luís Pablo. A Lei Magnitsky permanecia disponível em Washington, embora o motivo invocado já não fosse o processo de Jair Bolsonaro. No Brasil, o inquérito das fake news também continuava aberto e podia ser aplicado a factos diferentes daqueles que tinham justificado a sua criação. A Praça dos Três Poderes reúne, em Brasília, as sedes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Fotografia: Daderot — domínio público (CC0 1.0). O jornalista Felipe Recondo, autor de vários livros sobre o Supremo Tribunal Federal, alertara, em 2025, para a concentração de poderes em Alexandre de Moraes. Dizia então que ninguém sabia ao certo o que o ministro faria com esses poderes. Os restantes juízes, unidos perante a ameaça representada por Jair Bolsonaro, tinham deixado de fiscalizar de perto algumas das suas decisões. O caso de Raimundo Cutrim permite agora observar uma sequência concreta. Uma investigação criada para responder a ameaças e campanhas contra o Supremo Tribunal Federal foi usada numa busca relacionada com reportagens sobre a família de Flávio Dino. O sigilo do telemóvel de Luís Pablo foi quebrado, a sua fonte foi identificada e a explicação pública sobre a alegada monitorização da segurança do ministro surgiu depois do protesto das entidades de imprensa. No gabinete de Alexandre de Moraes, em Brasília, estão duas figuras de madeira de divindades afro-brasileiras: Xangô e Exu. O ministro apresenta-as como representações da lei e da ordem. Xangô está tradicionalmente associado à justiça, mas também à guerra e ao trovão. Alexandre de Moraes escolheu explicar publicamente as figuras pela lei e pela ordem. O tempo passa desde a condenação de Jair Bolsonaro. A tentativa de golpe foi julgada e resultou numa pena de prisão. O inquérito criado durante o período de confronto, porém, continua disponível. Em agosto de 2026, foi usado para chegar ao telemóvel de Luís Pablo e, através dele, à identidade de Raimundo Cutrim. #Brasil #STF #AlexandreDeMoraes #Democracia

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