top of page

Resultados de busca

Buscar neste site

396 resultados encontrados com uma busca vazia

  • EUA - O recuo do meme: poder, racismo e silêncio

    ANÁLISE · Mundo · EUA · Política e Discurso Público Há um gesto moderno que parece pequeno, quase doméstico, e no entanto deixa rasto: a página atualiza, o feed reorganiza-se, e aquilo que estava ali — um post, um vídeo, uma provocação — deixa de estar. Não fica uma marca, não fica um carimbo oficial. Fica apenas um vazio no lugar exacto onde, segundos antes, existia uma peça de comunicação. E esse vazio, em política, não é neutro. É uma decisão. Na noite de 6 de Fevereiro de 2026, Donald Trump partilhou na Truth Social um vídeo de teor político. O vídeo incluía, no seu final, um excerto que representava de forma racialmente ofensiva Barack Obama e Michelle Obama, recorrendo a um vídeo historicamente racista. Houve reação pública imediata e condenação, e essa reação incluiu figuras do partido do presidente a pedir que a publicação fosse retirada. Antes de a remoção acontecer, a White House desvalorizou as críticas e enquadrou o conteúdo como “meme” ou “indignação”. Matrioskas decoradas com os retratos de Vladimir Putin e Donald Trump expostas numa banca. Ao longo de sexta-feira, a publicação foi removida do feed presidencial. No mesmo ciclo noticioso, não houve uma explicação pública direta do presidente sobre a partilha e a eliminação. Circulou, por parte de aliados, a versão de que teria havido erro operacional ou de equipa, sem clarificação pública do processo de validação. O episódio foi descrito como parte de uma estratégia de comunicação política que usa conteúdos virais e memes — incluindo material gerado por inteligência artificial — como arma de ataque e ridicularização. Este conjunto de factos é suficiente para uma análise longa — não porque seja “um caso isolado”, mas porque contém, comprimidos num único dia, vários elementos que definem um sistema sob pressão: a transformação do insulto em método; a confusão deliberada entre brincadeira e poder; a relação instável entre comunicação oficial e cultura de plataforma; e, sobretudo, a pergunta que ninguém gosta de responder quando um post desaparece: quem manda, exatamente, quando a política se comporta como feed? O “meme” como forma de governo Um meme não é apenas uma imagem engraçada. Não é apenas uma piada. No ecossistema digital contemporâneo, o meme é um modo de condensar uma visão do mundo: simplifica pessoas em personagens, converte conflitos complexos em símbolos primários, substitui argumentação por reação imediata. E, quando entra no coração do poder, o meme torna-se outra coisa: torna-se um instrumento de governo informal. Chamar “meme” a um conteúdo racista não é um detalhe retórico. É uma técnica de imunização. Serve para duas coisas ao mesmo tempo: (1) normalizar o conteúdo (“é só internet”), (2) desqualificar a crítica (“não percebem humor”). A operação é conhecida e eficaz, porque desloca o debate do objeto (o que foi publicado) para o temperamento de quem reage (quem se ofende). O conteúdo passa a ser um teste de personalidade pública: quem condena é “frágil”; quem tolera é “forte”. A política fica reduzida à coreografia da reação. Mas há um problema estrutural quando o meme entra na comunicação presidencial: a fronteira entre o informal e o institucional deixa de ser uma fronteira. A mesma conta que anuncia decisões políticas pode, no mesmo fluxo, partilhar material que humilha, desumaniza e alimenta grupos racistas. A pergunta deixa de ser “foi uma piada?” e passa a ser: que tipo de poder precisa de se mascarar de piada para dizer aquilo que quer dizer? O meme, quando usado como arma, é um dispositivo de desresponsabilização com duas saídas. Se resulta, produz o efeito desejado: atenção, humilhação do alvo, mobilização do público que aplaude. Se falha, recua para a categoria de “brincadeira”. É uma comunicação com pára-quedas integrado. E isso — a existência do pára-quedas — muda o comportamento do poder. Torna-o mais disponível para o risco moral, porque o custo político pode ser renegociado no minuto seguinte. Aqui, o custo não foi renegociável. E isso é, em si, um sinal. Porque este episódio obrigou a recuar Há um traço recorrente nos sistemas políticos que se habituam a operar por choque: quanto mais se normaliza o extremo, mais se depende do próximo extremo para manter a atenção. A escalada torna-se uma mecânica. Mas qualquer mecânica tem limites. Nem todos os choques produzem o mesmo tipo de dano. Boné com o slogan “Make America Great Again” colocado sobre um livro aberto A representação racista dos Obamas recorre a um engano com longa história de desumanização. Não é “apenas ofensivo” no sentido vago da palavra. É um tipo de imagem que carrega um passado — e, por isso, tem um potencial de estilhaço particular: não atinge só o alvo, atinge a instituição que permite que tal coisa circule. Quando uma estrutura oficial tenta desvalorizar esse tipo de conteúdo como “meme”, a desvalorização não é inocente: é uma declaração sobre o que o poder considera aceitável como entretenimento político. O que torna este episódio politicamente distinto não é apenas a existência do conteúdo; é a combinação de três movimentos no mesmo dia: publicação de um excerto racista num canal presidencial, defesa/normalização inicial por parte da comunicação institucional, remoção posterior após reação — incluindo reação dentro do partido. Este triplo movimento expõe uma fissura: a máquina de comunicação estava preparada para aguentar a crítica externa, mas não estava preparada para uma crítica interna com visibilidade. Quando figuras do próprio campo político do presidente pedem remoção, o problema deixa de ser “uma polémica”. Passa a ser um risco para a disciplina do bloco. E, em política, a disciplina é o cimento. O recuo, aqui, é um ato de gestão de danos. Não é uma confissão. Não é uma mudança moral. É um reconhecimento táctico: a publicação não era sustentável naquele contexto, com aquela reação. Por isso, a remoção não resolve o essencial. Apenas desloca a pergunta: se foi removido por pressão, o que é que teria acontecido se não houvesse pressão interna? A dança entre a Casa Branca e a conta presidencial Num sistema democrático moderno, a comunicação oficial tem uma função: informar, enquadrar, prestar contas. Quando a comunicação oficial entra no regime do meme — quando responde a um caso destes com desdém e acusação de “indignação” — está a fazer outra coisa. Está a proteger a figura do presidente por via de um mecanismo cultural: a ridicularização de quem exige um mínimo. O detalhe mais revelador não é a remoção em si; é a sequência “defesa → remoção”. Porque essa sequência sugere descoordenação ou, pelo menos, conflito de prioridades. Se a comunicação oficial desvaloriza e, poucas horas depois, o conteúdo desaparece, a instituição fica com uma aparência de improviso. E improviso é caro em poder: transmite a ideia de que o sistema reage mais aos resultados do que a regras. Há também um ponto mais sensível: quando uma conta presidencial funciona como canal central e, ao mesmo tempo, como espaço de partilha de conteúdos virais, a questão da autoria deixa de ser apenas curiosidade jornalística. Torna-se uma questão de responsabilidade institucional. A versão de “erro operacional” ou “erro de equipa” é um padrão em crises digitais. Mas, sem clarificação do processo, essa versão tem uma consequência paradoxal: em vez de proteger o centro, pode fragilizá-lo. Porque um sistema que admite que um conteúdo racista pode ser publicado “por engano” num canal presidencial está, involuntariamente, a admitir que não existe um filtro robusto — ou que esse filtro é irrelevante face à vontade de publicar rapidamente. Em ambos os casos, a instituição perde densidade. E, para um Estado, perder densidade é perder previsibilidade. E perder previsibilidade é perder autoridade. O racismo como linguagem e como teste Há duas formas de racismo na comunicação pública. Uma é explícita e assume-se como ideologia. A outra apresenta-se como “humor”, “provocação”, “liberdade de expressão” — e depende, para sobreviver, da capacidade de transformar vítimas em alvos legítimos e críticos em inimigos do riso. O sistema racista usado contra os Obamas não é um acaso estético. É uma linguagem com efeitos. A desumanização não serve apenas para humilhar; serve para rebaixar a legitimidade do outro. Quando se reduz uma figura pública a uma caricatura desumanizante, a mensagem implícita é: esta pessoa não merece ser tratada com as regras normais do conflito democrático. E quando isso é feito contra figuras negras, a mensagem tem uma camada adicional: reabre um arquivo histórico que muitos prefeririam manter fechado, mas que é reativado sempre que uma parte do debate político decide que certos limites são “exageros”. Neste sentido, o episódio funciona como teste em várias direções: Teste ao público: quem acha aceitável? quem acha intolerável? Teste ao partido: quem fala? quem fica calado? Teste à instituição: quem defende? quem recua? Teste ao próprio presidente: há custo para este tipo de conteúdo ou não há? A remoção indica que houve custo. Mas não indica qual é a regra. A regra continua ausente. E a ausência de regra é terreno fértil para repetição. A política como feed e o Estado como algoritmo Há uma mudança silenciosa no modo como o poder opera quando se adapta à lógica das plataformas. A política deixa de ser apenas decisão e passa a ser também performance. O ciclo já não é “ato → debate → consequência”. É “ato → reação → ajuste”. O feed é um espaço em que o tempo é curto e a memória é frágil. Publica-se, mede-se, apaga-se. O que interessa não é a consistência; é o impacto. E isso tem um efeito corrosivo sobre a responsabilidade: se o post desaparece, desaparece também a obrigação de o defender formalmente. A política aproxima-se da lógica do “foi só um post”. Mas um post presidencial não é só um post. É uma extensão do Estado. Quando um conteúdo racista é tratado como “meme”, o Estado está a tratar as pessoas com uma ideia perigosa: a de que a sua comunicação é uma zona de jogo sem consequências. Só que as consequências existem, mesmo quando não há comunicado. Existem na percepção pública, na cultura institucional e no comportamento das equipas. A cultura interna aprende depressa. Aprende qual é o limite real. Aprende que tipo de conteúdo é tolerado. Aprende se a instituição protege quem publica ou se sacrifica alguém abaixo para salvar a figura central. E aprende, sobretudo, que a velocidade é mais importante do que o julgamento. Essa aprendizagem é um mecanismo. E mecanismos repetem-se. A fricção interna como sinal de fragilidade — e de sobrevivência A reação de figuras do partido do presidente americano tem duas leituras possíveis, e ambas são relevantes. A primeira leitura é pragmática: não se trata de moralidade; trata-se de custo eleitoral e reputacional. Uma publicação racista explícita pode ser politicamente tóxico para sectores do partido, pode atrair um tipo de atenção que desorganiza agendas e pode gerar um problema que não se resolve com “indignação” acusatória. Nesse sentido, pedir a remoção é uma forma de proteger o bloco e reduzir o dano. A segunda leitura é institucional: a fricção interna é, por vezes, o último travão quando os travões externos já não funcionam. Num ambiente em que a crítica da oposição é previsível e, por isso, facilmente desqualificada como “política”, a crítica interna tem outra qualidade: não pode ser descartada com a mesma facilidade sem criar fissuras mais graves. O que este episódio sugere é que o sistema ainda responde a certos sinais internos. Isso pode ser lido como fragilidade (o presidente recua quando pressionado) mas também como mecanismo de sobrevivência do partido e do próprio sistema (há limites que, quando ultrapassados, geram reação). A questão, porém, é a seguinte: que limites são esses? São limites morais? Ou são limites de gestão de crise? A diferença importa. Porque um limite moral tende a ser estável; um limite táctico tende a ser móvel. E, se for móvel, o mesmo mecanismo pode produzir, amanhã, outro conteúdo limite — até encontrar de novo uma resistência suficiente. O silêncio como parte do método A remoção foi um ato. A ausência de explicação pública direta, no mesmo ciclo, é outro ato. O silêncio, aqui, não é apenas omissão. É estratégia. Num episódio destes, há três hipóteses de resposta institucional: assumir, pedir desculpa, estabelecer regra (“isto não volta a acontecer”), defender, atacar críticos, transformar em guerra cultural, apagar e seguir. A terceira hipótese é a mais útil quando o objetivo é reduzir a duração do dano sem entrar numa admissão formal. “Apagar e seguir” tenta transformar o caso numa nota de rodapé do feed. Mas o apagamento tem um custo: o silêncio deixa um buraco interpretativo. E buracos interpretativos são preenchidos por narrativas concorrentes — inclusive por narrativas internas (“foi um staffer”, “foi um engano”, “foi exagero”). Quando o centro não fala, as periferias falam. E as periferias tendem a produzir versões que protegem o centro sem proteger a instituição. Isso enfraquece o Estado, porque o Estado passa a depender de versões informais para gerir um ato público. O silêncio, portanto, não é neutro. É um modo de governar crises como se fossem tendências de rede. Inteligência artificial, velocidade e irresponsabilidade O episódio foi descrito como integrado num ecossistema de memes e conteúdos gerados por inteligência artificial usados para ataque político. Mesmo sem entrar em pormenores técnicos, há aqui um ponto que interessa ao Estado: a inteligência artificial aumenta a capacidade de produzir “peças” de propaganda em escala, com custo baixo, e com uma aparência de criatividade que pode mascarar brutalidade. Quando um sistema político adopta este tipo de material como parte da sua dieta comunicacional, três coisas tendem a acontecer: A fronteira entre real e fabricado torna-se menos relevante para a mobilização; A degradação simbólica do adversário torna-se rotina; A responsabilidade dispersa-se: é “da internet”, “do meme”, “da equipa”, “do algoritmo”. A dispersão é o ponto central. Porque a democracia depende de um princípio simples: alguém responde por aquilo que é feito em nome do Estado. Quando a comunicação se organiza para que ninguém responda plenamente — nem o presidente, nem a equipa, nem a instituição — o sistema enfraquece. Pode ganhar velocidade, mas perde legitimidade. E a legitimidade, ao contrário da velocidade, não se recupera com um refresh. O custo real: normalização e erosão O que é que um episódio destes “faz” ao sistema? Faz várias coisas ao mesmo tempo, e nem todas são visíveis no dia seguinte. Normaliza o inaceitável: mesmo quando é removido, o simples facto de ter sido publicado num canal presidencial desloca a janela do aceitável. Testa a resistência: mede-se quanto barulho é preciso para recuar. Desgasta a instituição: a defesa inicial pela comunicação oficial e a remoção posterior criam percepção de improviso. Treina o público: o público aprende que a política é isto — um feed onde se publica, apaga, segue. Treina a máquina: equipas aprendem que o risco pode ser tentado, porque o recuo é possível sem confissão. O custo, portanto, não é apenas reputacional. É estrutural. É a erosão lenta da ideia de que há um mínimo comum de humanidade no conflito democrático. Quando esse mínimo se perde, o conflito torna-se mais barato e mais cruel. E, quando o conflito é barato, há incentivo para o repetir. A pergunta que fica, mesmo depois do post desaparecer O post foi removido. A crise imediata foi, em parte, contida. Mas a pergunta permanece — e é uma pergunta de arquitetura institucional, não de moralidade individual: Que sistema é este em que um conteúdo racista pode surgir num canal presidencial, ser defendido como “meme”, e depois desaparecer por pressão, sem explicação pública direta? Há várias respostas possíveis, e todas são desconfortáveis. Ou o sistema aceita a cultura do meme como forma legítima de comunicação, e só recua quando a fricção interna ameaça a disciplina; Ou o sistema não controla plenamente o que publica, e isso significa fragilidade operacional no centro; Ou o sistema controla, mas escolhe a ambiguidade porque a ambiguidade permite colher benefícios sem assumir custos. Em qualquer destas hipóteses, a conclusão não é moralista. É funcional: o Estado fica mais dependente da lógica de plataforma, e a lógica de plataforma não foi desenhada para responsabilidade democrática. Foi desenhada para atenção. E a atenção, por definição, não se preocupa com o que deixa para trás. Um fecho simples, e por isso mais duro No fim, o que há é isto: um conteúdo racista foi publicado num canal presidencial, foi inicialmente desvalorizado pela estrutura institucional, e foi depois removido sob pressão — incluindo pressão interna. O gesto de apagar não apaga o facto de o conteúdo ter existido, nem apaga o mecanismo que o tornou publicável, nem apaga o reflexo institucional que o tentou normalizar. Um Estado pode sobreviver a um post. O que não pode é habituar-se a governar como se cada post fosse descartável. Porque, quando tudo é descartável, a responsabilidade também é. E a responsabilidade, em democracia, é a última coisa que devia desaparecer do feed. Subscrever a Newsletter

  • O Preço do Perdão – Parte II: A Justiça que se Desvia

    País sem Nome Há momentos na vida pública em que o país parece entrar num corredor estreito. Passamos uma porta, depois outra, e, sem darmos conta, já não estamos onde pensávamos estar. A paisagem muda devagar, quase sem ruído, e é essa lentidão que torna a mudança mais perigosa: ninguém percebe o exato instante em que a justiça deixou de ser um sistema e passou a ser uma interpretação; quando deixou de ser voz e passou a ser eco. Quando a exceção se transforma em hábito e a justiça perde o seu centro moral. Se a primeira parte deste ensaio procurou compreender a tentação do perdão — essa prerrogativa absoluta que habita a caneta de um Presidente — esta segunda parte tenta algo mais difícil: olhar para o modo como um país se adapta quando as exceções começam a parecer regra. Quando a clemência se transforma, pouco a pouco, numa linguagem paralela, entendida apenas por alguns. É aí que começa a justiça que se desvia. I — O país que aprende a tolerar Há um fenómeno curioso nas sociedades democráticas: habituam-se. A tudo.Habituam-se ao excesso, ao escândalo, ao desvio, às incoerências, às notícias que passam num rodapé como quem passa a ferro páginas de um livro. Habituam-se ao que devia ser intolerável. E, quando a habituação se instala, instala-se também uma espécie de anestesia moral. O desvio deixa de ser exceção e começa a ser paisagem. E a paisagem, quando vista todos os dias, torna-se invisível. Um país começa a adormecer quando já não estranha nada. E começa a perder-se quando deixa de distinguir entre o razoável e o abusivo. O perdão presidencial — esse gesto tão poderoso, tão cheio de história e ambiguidade — pode tornar-se o principal sintoma dessa erosão. Quando é usado com parcimónia, ilumina o que resta de humanidade numa máquina fria. Mas quando se torna rotina, deixa de iluminar e começa a cegar. II — O mapa invisível das proximidades A justiça paralela não nasce do dia para a noite. Nasce da acumulação de pequenas decisões que parecem inofensivas. Todas elas justificáveis, todas elas defendidas em nome da exceção. Todas elas embaladas num discurso que apela à misericórdia, à correção dos excessos, ao equilíbrio entre lei e compreensão humana. Mas, por baixo do discurso oficial, existe um território silencioso — uma geografia feita de proximidades, favores, compromissos implícitos. Uma espécie de mapa subterrâneo onde a justiça não depende apenas dos factos, mas também das relações. O que me assusta não é o perdão em si — é o modo como ele pode ser solicitado. E, mais ainda, o modo como começa a circular a ideia de que o perdão é possível para uns e impossível para outros. Uma sociedade que internaliza essa distinção entra numa espécie de adolescência moral: sabe que está errada, mas não encontra força para se corrigir. O que parece justo deixa de ser o que está certo — e passa a ser o que está disponível. III — Quando a justiça deixa de ser cega Fala-se muito na imagem clássica da justiça: a mulher de olhos vendados, segurando uma balança e uma espada. Sempre achei comovente essa tentativa de representar a imparcialidade. A venda é o símbolo que mais me intriga. A justiça não precisa de ser muda — precisa é de ser cega. Mas quando os perdões se distribuem segundo critérios que ninguém conhece, a venda começa a escorregar. Primeiro um pouco. Depois mais. Até que a justiça, já com um olho descoberto, começa a avaliar não apenas o peso dos atos, mas o peso dos nomes. E a partir desse momento, a justiça deixa de ser cega — e passa a ser míope.Vê de perto, mas não vê de longe. Avalia a árvore, mas já não distingue a floresta. E uma República com uma justiça míope não está apenas em risco: está inclinada. Os sistemas não se corrompem com grandes explosões; corrompem-se com pequenos alinhamentos desviados, que repetidos muitas vezes criam um ângulo novo no edifício. O perdão, usado como instrumento de gestão política, altera esse ângulo. IV — A construção silenciosa de um segundo país Há sempre dois países dentro do mesmo país. Um deles é o país visível: o dos tribunais, das eleições, das leis, dos discursos. O outro é o país subterrâneo: o das relações pessoais, dos compromissos implícitos, da influência, dos corredores curtos. Quando o perdão presidencial começa a circular com demasiada flexibilidade, nasce uma ponte que liga os dois países — e não é uma ponte construída pelo povo, pelos tribunais ou pela Constituição. É uma ponte construída pelo poder. E, pela primeira vez, deixa de ser o mérito que conduz alguém ao perdão e passa a ser a proximidade. Deixa de ser a argumentação jurídica e passa a ser a argumentação política. Deixa de ser a justiça e passa a ser a utilidade. S e isto não assusta um país, é porque o país já começou a adormecer. V — A normalização do desvio O que mais me impressiona não é o escândalo. O que me impressiona é a ausência dele. Quando uma sociedade já não reage, não questiona, não debate, não exige explicações — não é porque está madura, é porque está cansada. E um país cansado é sempre fértil para a normalização dos abusos. Os perdões compulsivos, os perdões estratégicos, os perdões que parecem ter uma agenda, os perdões que não explicam o que pretendem — tudo isso começa a parecer “parte do jogo”.E o mais assustador é isto: quando o desvio se normaliza, deixa de ser desvio. Os Estados Unidos vivem com um segundo sistema de justiça: um para o cidadão comum, outro para o círculo próximo do poder. E quando há dois sistemas, não há sistema nenhum. VI — A tentação de absolver o útil Há uma força quase gravitacional na política: o impulso de proteger os seus. É uma força antiga, quase tribal. Uma mistura de lealdade e medo. Mas quando essa força se cruza com o poder absoluto de perdoar, nasce um risco que poucas sociedades estão preparadas para enfrentar. A tentação não é apenas cobrir os erros dos aliados — é querer construir para eles uma inocência artificial. Uma inocência não baseada nos factos, mas na conveniência. Uma inocência que não é conquistada, mas concedida. E quando o perdão deixa de ser um gesto de grandeza e passa a ser um instrumento de limpeza simbólica, a democracia perde uma das suas colunas. Porque, no fim de contas, a justiça não é apenas um conjunto de procedimentos: é uma narrativa comum. A justiça precisa de ser acreditada para existir. E nada destrói essa crença mais rapidamente do que a ideia de que algumas pessoas são absolvidas não por serem justas, mas por serem úteis. VII — A demolição suave da confiança Não há democracia que sobreviva sem confiança. E não há confiança que sobreviva a um sistema onde a exceção se transforma em hábito. O perdão presidencial americano — esse gesto tão solene e tão frágil — pode funcionar como um marcador moral. Quando é bem utilizado, aumenta a confiança. Quando é abusado, destrói-a. E, ao contrário do que muitos pensam, a confiança não cai com estrondo. Cai em silêncio. Cai nos pequenos gestos, nas ironias dos cafés, nos comentários cansados das famílias, nas conversas murmuradas que terminam sempre com a mesma frase: “Isto já não é para nós.” Quando um país chega a esse ponto, já não é apenas a justiça que se desviou — somos nós que começámos a desviar o olhar. VIII — A pergunta final Escrevo estas linhas consciente da sua dureza. Mas não acredito que haja outra forma de olhar para um fenómeno tão delicado. A clemência presidencial não é, por natureza, um mal. Pelo contrário. É uma das poucas janelas pela qual a humanidade consegue entrar num sistema que, tantas vezes, se torna mecânico e insensível. Mas essa mesma janela pode transformar-se numa porta larga para os desvios éticos que, acumulados, abalam a arquitetura moral de um país. E assim regresso à pergunta que abriu esta segunda parte: o que acontece a uma República quando a justiça começa a desviar-se? Acontece o que sempre aconteceu, em todos os tempos e em todos os continentes: o país começa a dividir-se entre os que acreditam e os que desistiram; entre os que confiam e os que já só esperam; entre os que ainda lutam e os que preferem não ver. E, no meio desse ruído, nasce a pior consequência de todas: não a injustiça — mas a indiferença. Porque a injustiça pode ser corrigida. A indiferença, não. Imagem: - Foto: Tingey Injury Law Firm / Unsplash Leia também a primeira parte: O Preço do Perdão — Parte I: O Poder que Absolvia Representação clássica da Justiça. Uma reflexão sobre o poder que absolve e o risco de distorção moral #CadernoAberto #Justiça #ÉticaPública #Democracia

  • Quando as Tragédias Já Não Unem: Bondi Beach e o Fim do Consenso

    CONTEXTO · Mundo · Oceânia · Sociedade e Política A Austrália sempre se orgulhou de responder a crises nacionais com unidade. O massacre em Bondi Beach durou horas. A unidade política durou menos ainda. O que aconteceu revela mais do que uma falha de liderança — revela uma mudança profunda em como as democracias ocidentais lidam com o luto coletivo. Quando as Tragédias Já Não Unem: Bondi Beach e o Fim do Consenso. Houve um tempo — não assim tão distante — em que tragédias nacionais produziam algo parecido com união. Não unanimidade, que é impossível em democracia. Mas pelo menos uma trégua temporária. Um reconhecimento tácito de que havia momentos em que a política partidária devia parar, nem que fosse por respeito aos mortos. Esse tempo, aparentemente, acabou. Em Bondi Beach, Sydney, quinze pessoas foram mortas a tiro durante uma celebração de Hanukkah. Aconteceu à luz do dia, numa das praias mais icónicas da Austrália, num país que se orgulha de ter algumas das leis de controlo de armas mais rigorosas do mundo desde 1996. As primeiras horas após o massacre seguiram o guião esperado. O Primeiro-Ministro Anthony Albanese apelou à unidade. Disse que atacar a comunidade judaica era atacar todos os australianos. Sussan Ley, que lidera a oposição conservadora, prometeu apoio total e incondicional. E depois, quase imediatamente, tudo desmoronou. A Velocidade da Decomposição Mark Kenny, que dirige o Instituto de Estudos Australianos, disse algo revelador: nunca tinha visto "um momento de tragédia nacional transformado tão rapidamente em vantagem política partidária". Rapidamente quanto? Dias. Talvez menos. A oposição começou a culpar Albanese directamente pelo massacre. Não de forma subtil ou implícita. Directamente. Josh Frydenberg, antigo político do Partido Liberal e ele próprio judeu, exigiu num discurso público que Albanese assumisse "responsabilidade pessoal pela morte de 15 pessoas inocentes". Responsabilidade pessoal. Pela morte de 15 pessoas. Mortas a tiro por dois homens que ninguém na oposição conhecia, que ninguém tinha controlado, que ninguém — nem governo nem oposição — tinha previsto. Isto não é crítica política normal. Isto é acusação de cumplicidade moral. E funcionou. Ou pelo menos, teve o efeito desejado: colocou Albanese permanentemente na defensiva, transformou o luto numa arma, e garantiu que qualquer tentativa de resposta política seria vista como insuficiente ou calculista. O Que Albanese Fez (E Porque Não Chegou) Albanese não esteve parado. O seu governo nomeou o primeiro enviado australiano contra o antissemitismo. Aprovou legislação que criminaliza discurso de ódio. Condenou publicamente as motivações antissemitas do ataque. Propôs apertar ainda mais as leis de controlo de armas. Mas nada disto foi suficiente. Não para a comunidade judaica em luto. Não para a oposição, que viu aqui uma oportunidade política rara. E talvez não até para alguns dentro do próprio governo, que reconhecem — em privado — que Albanese não é um comunicador natural. Kenny foi direto: Albanese teve dificuldade em estar à altura do momento. Para os judeus australianos, soou pouco convincente. E havia mais. Meses antes do ataque, o enviado contra o antissemitismo tinha feito recomendações ao governo. Criar uma base de dados nacional de incidentes antissemitas. Dar ao governo poder para reter financiamento a universidades que não combatessem o antissemitismo. Albanese não agiu com a velocidade que esperavam. E agora pagava o preço. Mas há algo perturbador nesta narrativa. A ideia de que se Albanese tivesse implementado essas recomendações alguns meses mais cedo, quinze pessoas não estariam mortas. Como se bases de dados prevenissem massacres. Como se burocracias administrativas impedissem homens armados de abrir fogo numa praia. É uma ilusão reconfortante. Dá a sensação de que há sempre algo que poderia ter sido feito. Que tragédias são evitáveis se apenas os políticos fizerem o seu trabalho. Mas raramente é assim tão simples. A Ironia de John Howard Há um momento de ironia quase brutal nesta história. Quando Albanese propôs apertar as leis de controlo de armas — uma resposta que parecia óbvia, dado que quinze pessoas tinham sido mortas a tiro — uma das primeiras vozes a atacá-lo foi John Howard. Howard é quase uma figura mítica na política australiana. Foi ele, como primeiro-ministro conservador em 1996, que implementou as leis rigorosas de controlo de armas após um massacre que matou 35 pessoas na Tasmânia. Leis que são celebradas até hoje. Leis que tiveram apoio bipartidário. Mas desta vez, Howard disse que o foco nas armas era uma distração. Que o verdadeiro problema era o antissemitismo. Que Albanese estava a desviar atenções. É uma posição estranha vinda de alguém cuja principal realização política foi precisamente apertar o controlo de armas após uma tragédia semelhante. Mas encaixa-se na narrativa mais ampla: Albanese está a fazer as coisas erradas. Está a falhar. E talvez haja nisso uma lição sobre como o consenso se desfaz. Não através de grandes rupturas ideológicas. Mas através da erosão gradual de normas que todos consideravam óbvias. Como a ideia de que apertar leis de armas após um massacre é uma resposta sensata. Ou a ideia de que políticos não devem culpar diretamente adversários por mortes que não causaram. A Comunidade Que Não Pode Ser Consolada A comunidade judaica australiana está furiosa. E tem motivos. Durante dois anos, desde os ataques do Hamas a 7 de Outubro de 2023 e a guerra em Gaza, muitos judeus australianos sentiram-se cada vez mais inseguros. Houve incidentes. Houve retórica. Houve a sensação de que o governo não estava a fazer o suficiente. E agora havia quinze mortos. Julianne Schultz, professora na Universidade Griffith, disse que o trauma, dor e raiva na comunidade judaica "vão fundo". Mas em vez de trabalhar para a cura, partes da oposição amplificaram essa raiva. Isto levanta uma pergunta difícil: o que é que um governo pode fazer quando uma comunidade em luto decide que nada é suficiente? Albanese não foi aos funerais. Alguns disseram que foi cobardia. Mas outros reconheceram que a sua presença poderia ter sido, ela própria, motivo de protesto. Quando apareceu num memorial em Bondi Beach uma semana após o ataque, parte da multidão vaiou-o. Ele não discursou. Que resposta teria sido adequada? Que gesto teria sido suficiente? Talvez nenhum. Talvez, neste momento, não haja nada que Albanese possa fazer que não seja visto como calculista ou insuficiente. Porque a raiva não é apenas sobre políticas. É sobre medo. E o medo não se resolve com nomeações de enviados ou bases de dados. Netanyahu e a Globalização da Raiva Horas após o massacre, Benjamin Netanyahu fez o que faz melhor: transformou tragédia em arma política. Ligou o ataque diretamente à decisão da Austrália, em Setembro, de reconhecer a Palestina como estado. "Deixaram a doença espalhar-se e o resultado são os ataques horríveis aos judeus que vimos hoje", disse. É uma acusação extraordinária. Implica que reconhecer diplomaticamente a Palestina causou — directa ou indirectamente — um massacre em Sydney. Como se houvesse uma linha clara entre uma decisão de política externa e dois homens armados numa praia. Mas a acusação não precisa de fazer sentido lógico para ter impacto político. E teve. Porque deu à oposição australiana uma narrativa pronta: Albanese foi demasiado brando. Priorizou relações com países árabes. Falhou em proteger judeus australianos. E aqui está o padrão mais amplo: tragédias locais são cada vez mais interpretadas através de lentes globais. O que aconteceu em Bondi Beach não é apenas sobre Austrália. É sobre Gaza. É sobre Israel. É sobre tensões que atravessam continentes e que nenhum primeiro-ministro australiano consegue resolver sozinho. Isso não torna a tragédia menos real. Mas torna a resposta política quase impossível. Porque não há consenso sobre o que causou o problema. E sem consenso sobre causas, não pode haver consenso sobre soluções. Ecos Americanos Schultz vê semelhanças com os Estados Unidos. A forma como a oposição amplificou a raiva em vez de trabalhar para a cura. A velocidade com que a tragédia se transformou em arma política. A polarização crescente. "Isto vai além de algo que vimos aqui no passado", disse. A Austrália sempre se orgulhou de ser diferente. De ter um centro político forte. De ter líderes que gravitam para o consenso. De ter uma cultura política menos tóxica do que a americana. Mas essa diferença está a diminuir. E Bondi Beach pode ser o momento em que se percebeu que a excepção australiana era mais frágil do que se pensava. Kos Samaras, antigo estratega trabalhista, disse algo importante: "O público australiano não quer um jogo de futebol político aqui. Querem uma resposta nacional." Mas a questão é: ainda é possível dar uma resposta nacional quando já não há consenso sobre o que a nação é ou deveria ser? O Custo do Pluralismo No fundo, o que está em jogo não é apenas a carreira de Albanese. É a capacidade da Austrália de funcionar como sociedade pluralista. Uma sociedade onde pessoas de diferentes origens, religiões e perspectivas políticas conseguem coexistir. Onde tragédias unem em vez de dividir. Onde o discurso político, mesmo em desacordo, mantém um mínimo de civilidade. "Se a ameaça se torna existencial, o pluralismo desmorona-se, a menos que se trabalhe muito arduamente nele", disse Schultz. "É esse o território em que estamos agora." E talvez seja esse o ponto. Talvez estejamos num momento em que o esforço necessário para manter o pluralismo excede a vontade política disponível. Em que é mais fácil amplificar raiva do que construir pontes. Em que é mais rentável politicamente culpar do que consolar. Conclusão: E Agora? Quinze pessoas morreram em Bondi Beach. Famílias foram destruídas. Uma comunidade está em luto. E a política australiana, por agora, parece incapaz de oferecer outra coisa que não seja mais divisão. Talvez mude. Talvez, com tempo, haja espaço para cura. Talvez a próxima tragédia — porque haverá uma próxima — seja respondida de forma diferente. Mas neste momento, duas semanas após o massacre, esse espaço não existe. E isso, mais do que qualquer política específica ou falha de comunicação, é o verdadeiro legado de Bondi Beach. Não que um governo falhou. Mas que o consenso que permitia responder a falhas colectivamente já não está disponível. As tragédias já não unem. Agora, dividem. E quando isso se torna normal, quando se torna a expectativa em vez da excepção, algo fundamental mudou. A Austrália pode ainda recuperar o que perdeu. Mas primeiro precisa de reconhecer que o perdeu. E essa, talvez, seja a conversa mais difícil de todas. Austrália. O massacre em Bondi Beach testou a capacidade do país de manter o consenso político em momentos de crise nacional. Foto: Unsplash #Austrália #BondiBeach #PolíticaAustraliana #ConsensoPolítico #Democracia #Pluralismo #AnálisePolítica #Polarização #AnthonyAlbanese #CrisePolítica #ArcanaNews #OpiniãoPolítica

  • A Indústria da Boa Consciência

    ENSAIO · Economia · Ajuda Internacional · Caridade Genebra não é um lugar. É um método. Há momentos em que a caridade parece uma sala com ar condicionado. Não é metáfora. É literalmente uma sala. A cena repete-se com pequenas variações, como um ritual secular: hotel impecável, carpetes espessas, um palco com luzes que fazem qualquer frase parecer mais séria do que é, e um ecrã grande o suficiente para transformar um gráfico num ato de fé. No foyer, mesas com café, água e pequenas peças de fruta cortada, como se a pobreza extrema fosse um assunto que se resolvesse com boas escolhas alimentares. A conferência, desta vez, tinha como tema “erradicação da pobreza”. Um título que soa absoluto, redondo, quase bíblico. E foi ali, no intervalo, que um trabalhador humanitário — duas décadas de terreno, África e Ásia, uma vida inteira a negociar com a logística e com a lama — olhou para o buffet e fez um comentário que não era sequer indignação. Era cansaço. Um tipo de lucidez exausta. Disse que, só naquele encontro, com voos, hotel, catering e produção, se queimava dinheiro suficiente para erguer várias salas de aula num distrito rural qualquer. Não tinha a exatidão de um auditor. Tinha a exatidão de quem já montou tendas em lugares onde as crianças escrevem no chão. A frase ficou no ar com um silêncio incómodo. Não porque fosse falsa. Mas porque era indecente, no sentido antigo da palavra: fora de cena. Há verdades que não se dizem em Genebra. Nem em Bruxelas. Nem em Nova Iorque. Nem em qualquer cidade onde a compaixão tem crachá e agenda. O estranho é que ninguém naquela sala precisava de ser convencido. Toda a gente sabia. E, mesmo assim, tudo continuou como se nada fosse. Porque, num certo ponto, a ajuda deixa de ser um gesto e passa a ser uma profissão. E, quando vira profissão, constrói o que qualquer profissão constrói: carreira, reputação, salários, redes, códigos internos, linguagem própria e um instinto de sobrevivência que não tem necessariamente má-fé — mas tem sempre consequência. A indústria da boa consciência não vive de cinismo. Vive de estrutura. O dinheiro e a viagem até ao “terreno” Quando uma pessoa doa cem euros, imagina uma linha direta: eu → alguém. A criança. A família. O poço. A escola. A ideia é tão simples que parece impossível ser mentirosa. Mas não é uma linha direta. É um percurso. Antes de chegar ao “terreno” (palavra repetida até ficar lisa), o dinheiro passa por escritórios, relatórios, revisões, reuniões, procurement, compliance, auditorias, avaliações intermédias e avaliações finais — e, no meio, pelo custo de manter gente capaz de fazer isso. Os defensores do modelo dizem: sem essa estrutura, a ajuda colapsa. E têm razão num ponto essencial. A ajuda, para existir, precisa de logística. Precisa de segurança. Precisa de contratos. Precisa de rastreabilidade. Precisa de evitar corrupção, desvio, captura política. Precisa de regras, porque, quando se mexe com dinheiro e vulnerabilidade, a tentação cresce. O problema começa quando a estrutura deixa de ser um meio e passa a ser o fim. Há um ponto a partir do qual a ajuda já não se organiza para chegar a pessoas — organiza-se para continuar organizada. E, quando isso acontece, a prioridade muda: menos “o que é preciso” e mais “o que é financiável”, “o que é reportável”, “o que é replicável”, “o que se traduz bem em indicadores”. Os números variam de organização para organização, e há instituições que trabalham com overhead baixo e disciplina real. Mas, mesmo nos melhores casos, ninguém sério promete que 100% da sua doação cai no colo de um beneficiário. Se prometesse, estaria a mentir ou a esconder coisas. A questão, portanto, não é existir custo administrativo. A questão é quando o custo administrativo ganha vida própria. E aqui entramos no assunto que irrita sempre alguém: salários. A ajuda como carreira e a moral dos salários No discurso oficial, ninguém é “bem pago”. É “remunerado de forma competitiva” para atrair talento. A linguagem, como sempre, faz a anestesia. Um diretor executivo de grande ONG pode receber valores próximos dos de gestores seniores no sector privado. Coordenadores de país, especialistas de segurança, responsáveis financeiros, gestores de projeto — muitos vivem num patamar salarial muito acima do contexto em que operam, com casa assegurada, motorista (em certos lugares), seguros, voos periódicos. Quem já esteve no terreno sabe que alguns desses benefícios são defensáveis: não é luxo, é sobrevivência operacional. A linha entre “necessário” e “confortável”, porém, é uma linha que se move sempre na direção conveniente. O argumento habitual é simples: “Se queremos competência, temos de pagar.” Certo. Só que o resultado concreto é este: cria-se uma classe profissional internacional que vive da pobreza como tema — sem, na prática, viver na pobreza como condição. Isto não implica falta de ética individual. Implica uma contradição estrutural. O humanitário veterano que fez o comentário do buffet não parecia invejoso. Parecia, isso sim, alguém que percebeu o que custa a justificar a si próprio, todos os anos, a mesma engrenagem. Há um tipo de fadiga moral que não se resolve com boas intenções. Resolve-se com desenho institucional. E, muitas vezes, ninguém quer mexer no desenho. Genebra como mercado — e a conferência como mecanismo de pertença A conferência não é apenas conferência. É mercado. Não um mercado de produtos, mas de pertenças: “Quem está dentro?”, “Quem é credível?”, “Quem pode ser parceiro?”, “Quem tem acesso ao doador?”, “Quem tem ‘capacidade de absorção’?”, “Quem é seguro para financiar?”. Numa área onde o risco reputacional pode destruir uma organização, o capital mais valioso é confiança entre pares — e essa confiança constrói-se, em larga medida, por presença. Genebra, por isso, não é um lugar. É uma forma de funcionar: encontros, painéis, documentos finais, fotografias, declarações, networking. E um detalhe quase cómico: muitas vezes, as pessoas que falam de “dar voz aos locais” são as mesmas que voam para falar sobre isso numa cidade onde o bilhete de comboio para a periferia já é caro para a vida real. As conferências cumprem funções legítimas: coordenam, estabelecem padrões, evitam duplicações, trocam práticas. O problema é quando o custo do ritual cresce até se tornar indecente — e quando a conferência serve mais a rede do que os destinatários do trabalho. E isso não se mede só em dinheiro. Mede-se em tempo. Tempo em que um gestor está em hotel e não está a ouvir uma comunidade. Tempo em que uma organização escreve um documento brilhante e não faz a pergunta óbvia: “Isto vai funcionar quando nós formos embora?” A ajuda, muitas vezes, vive de um paradoxo: o ato de “organizar para ajudar” consome uma parte significativa do que se pretende entregar. O projeto “bem desenhado” que nasce errado Há um tipo de falhanço que não é escândalo. É normalidade. Um projeto chega com nome optimista: “Resiliência alimentar” ou “Capacitação comunitária”. Tem orçamento grande o suficiente para dar confiança. Tem matriz lógica, teoria da mudança, indicadores. Tem tudo o que um doador quer ler. E, ainda assim, nasce errado — porque nasce no lugar errado. O desenho faz-se numa capital, numa sede regional, ou num escritório europeu, com gente competente, sim, mas distante. Visitas curtas, mediadas, uma tradução apressada, uma reunião com líderes locais que já aprenderam o que dizer para garantir continuidade de apoios. As prioridades do documento não são o que a comunidade precisa; são o que a cadeia institucional consegue financiar, justificar e medir. Depois vêm os “inputs”: sementes melhoradas, kits, formações, armazéns, cooperativas. A lista é familiar e, por isso, tranquilizadora. E é exatamente essa familiaridade que é perigosa: repete-se o que já foi aprovado antes, porque já tem prova burocrática de sucesso, mesmo quando o sucesso no papel não coincide com a vida. Dois anos depois, chega uma avaliação externa. A linguagem é prudente, eufemística: “impacto limitado”, “desafios de implementação”, “lições aprendidas”. E a vida continua. A organização não fecha. O doador financia outro ciclo. O responsável é promovido, deslocado, reatribuído. Não há maldade aqui. Há incentivos. O sector aprende depressa o que recompensa: gastar o orçamento dentro do prazo, produzir relatórios consistentes, não causar problemas ao doador, manter reputação, garantir renovação. O impacto real, quando existe, é bem-vindo. Quando não existe, é interpretado como “contexto”. E o contexto é sempre uma explicação disponível. Métricas: contar coisas em vez de mudar coisas A ajuda ama métricas porque precisa delas para existir. Sem números, o dinheiro fecha. Sem números, não há prestação de contas. O problema é que a métrica, quase sempre, mede o que é fácil e não o que é vital. Construíram-se cem poços. Óptimo. Mas quantos funcionam passados seis meses? Quantos funcionam passados três anos? Quem paga as peças? Quem sabe reparar? Quem responde quando o poço avaria no dia em que a ONG já saiu? Construíram-se escolas. Óptimo. E professores? Salários? Manutenção? Água? Manuais? Segurança? A escola é um edifício; a educação é um sistema. O sistema é difícil. O edifício é fotografável. O mesmo com clínicas, formações, “centros de mulheres”, “espaços seguros”, incubadoras de micro-negócios: sai bem numa brochura, sai bem num PowerPoint, sai bem num press release. E, no entanto, a realidade é menos elegante: sem instituições locais fortalecidas, o projeto vira ruína funcional. O sector não é estúpido. O sector é pressionado. E, quando a pressão é por resultados reportáveis, o trabalho adapta-se. O que se chama “accountability” vira, muitas vezes, “contabilidade”. A economia paralela da ajuda: um efeito colateral com cara de progresso Em certas capitais africanas, há dois mundos sobrepostos. O mundo local, com salários locais, preços locais, fragilidade local. E o mundo da ajuda, com viaturas, residências “seguras”, restaurantes que vendem vinho importado, escolas internacionais para filhos de expatriados, ginásios, e uma lógica de consumo que não é crime — mas é distorção. Os preços sobem onde a ajuda se concentra. As rendas disparam. Proprietários preferem alugar a quem paga em moeda forte. A classe média local, que já era estreita, fica encostada à parede. Depois há o mercado de trabalho: motoristas, tradutores, seguranças, assistentes administrativos, técnicos — muitos ganham mais em ONGs do que em serviços públicos. Resultado previsível: a ajuda drena talento do Estado. Enfermeiros saem de hospitais para clínicas financiadas por projectos. Professores deixam escolas para “programas” que pagam melhor. O Estado enfraquece, e a ajuda cresce para “compensar” o enfraquecimento. É um círculo estranho: a ajuda, em certos lugares, não substitui o Estado — mas convive com um Estado frágil e, por vezes, contribui para mantê-lo frágil, porque oferece alternativas que não consolidam o centro. Quando o financiamento muda, quando a “atenção internacional” migra para outra crise, quando o projeto acaba, a economia paralela desaba. E quem dependia dela fica sem chão — e com expectativas salariais que o mercado local não consegue absorver. É assim que se fabrica dependência sem querer. A pergunta indecente: e se dessem dinheiro às pessoas? Há uma pergunta que soa vulgar nas salas certas: por que não transferir dinheiro diretamente? Quando se coloca esta hipótese, há sempre uma reação quase automática, como se se estivesse a propor irresponsabilidade: “E a corrupção?”, “E o álcool?”, “E a má gestão?”, “E se gastarem mal?” O detalhe perturbador é que, em muitos casos, as pessoas pobres gastam melhor do que as organizações imaginam — porque têm o que a estrutura não tem: conhecimento íntimo do que falta. E, sobretudo, porque ninguém precisa de ser educado para querer sobreviver. Há experiências conhecidas de transferências diretas, com resultados geralmente positivos em termos de alimentação, saúde, investimento pequeno, escolaridade. Não é milagre. É, muitas vezes, apenas eficiência: menos intermediários, menos custos, menos teatro. Mas a transferência direta ameaça uma coisa que a ajuda institucional não quer perder: protagonismo. Quando o dinheiro vai direto, a organização perde centralidade. O consultor perde o papel de “desenhar” a solução. A conferência perde argumento. O relatório perde grandiosidade. E, então, constrói-se uma resistência sofisticada: aponta-se o risco (real) e ignora-se o desperdício já normalizado do modelo atual. Isto não significa que transferir dinheiro seja sempre a melhor opção. Em muitos contextos, não é. Há guerra, há colapso de mercado, há captura armada, há lugares onde dinheiro vira alvo. Há infra-estruturas que precisam de ser construídas. Há sistemas de saúde que não nascem só com transferências. O que significa é outra coisa: o sector devia fazer esta pergunta com frequência — e não faz, porque a resposta mexe na sua própria razão de existir. O peso moral: gente boa dentro de um mecanismo errado O trabalhador humanitário cansado não é vilão. E a maioria das pessoas na “indústria” não são vilões. O que existe é uma tensão interior, quase sempre silenciosa: perceber que o sistema é ineficiente, por vezes auto-serviçal, e continuar lá dentro porque abandonar parece pior. É assim que a boa consciência ganha forma de rotina. A rotina tem um preço. Não financeiro: moral. A pessoa repete, durante anos, um tipo de ficção funcional: “Estamos a fazer o melhor possível”, “O contexto é difícil”, “Sem nós seria pior”, “Aprendemos com os erros”. E, ao mesmo tempo, vê repetirem-se os mesmos erros com nomes diferentes. Esse atrito produz um cinismo específico — um cinismo cansado, não agressivo. É o cinismo de quem já viu demasiado para acreditar nos slogans, mas ainda acredita o suficiente para não sair. O sector, por isso, tem uma peculiaridade cruel: atrai idealistas e, com o tempo, especializa-os em sobreviver dentro da máquina. Reforma: sempre prometida, raramente feita De tempos a tempos, a indústria anuncia reforma. Há acordos com nomes que parecem optimistas. Há compromissos de “localização” — financiar mais diretamente atores locais, transferir poder decisório. Há linguagem nova. Há um conjunto de metas que, no papel, mudariam o sistema. O problema é que a reforma real exige abdicação. E abdicar não é um gesto comum em sistemas de carreira. A organização internacional tem receio de perder controlo e ser responsabilizada por falhas de um parceiro local. O doador tem receio de escândalos e prefere “marca conhecida”. O parceiro local, quando recebe o papel de implementador, continua sem receber a chave da decisão. E o ciclo mantém-se. A reforma falha não por conspiração, mas por inércia — e a inércia, quando está vestida de boas intenções, torna-se quase impossível de derrotar, porque qualquer crítica parece crueldade. Criticar a ajuda, no Ocidente, é sempre arriscado: parece que se está a atacar quem tenta fazer o bem. E isso é precisamente o escudo perfeito de qualquer indústria que vive do bem. Voltar ao hotel: o lugar onde se aprende a não dizer certas coisas A conferência acabou como acabam quase todas: uma “declaração final”, frases sobre compromisso, parcerias, urgência, esperança. Fotografias. Sorrisos profissionais. Um último café. O trabalhador humanitário não disse a frase do buffet ao microfone. E fez bem, do ponto de vista da sua sobrevivência. Em certos sistemas, a verdade é permitida apenas em conversa privada, como uma confissão. Publicamente, a verdade vira deslealdade. E é aqui que a indústria da boa consciência se revela por completo: não é apenas o dinheiro; é a disciplina interna. Uma disciplina suave, social. Um conjunto de limites sobre o que se pode dizer sem ser considerado “problemático”. A pergunta final não é “a ajuda é boa ou má?” — essa pergunta é infantil. A pergunta adulta é: a ajuda, tal como está desenhada, serve quem diz servir, ou serve sobretudo a sua própria continuidade? Talvez a resposta seja desconfortável porque pode ser “ambas”. Serve em momentos. Salva vidas em emergências reais. Sustém sistemas quando tudo colapsa. Mas, ao mesmo tempo, perpetua-se como indústria, com os seus rituais, as suas hierarquias, e uma tendência natural para converter sofrimento em carreira. A boa consciência, quando vira indústria, faz o que todas as indústrias fazem: expande-se. E, no fim, Genebra continua a ser o melhor símbolo desta contradição: um lugar onde se fala da pobreza extrema com salmão fumado ao alcance da mão — e onde a frase mais verdadeira é sempre dita ao lado, em voz baixa, como se fosse indecente. A Indústria da Boa Consciência — Capa editorial Subscrever a Newsletter #AjudaInternacional #Caridade #Economia #Desenvolvimento #ONU #ONG #Pobreza #Genebra #PolíticasPúblicas

  • Batina e Kremlin: propaganda ortodoxa em Washington

    Opinião · Mundo · Estados Unidos/Rússia/Ucrânia · Religião & Influência Política. Naqueles dias em que Washington se enche de coroas de Natal, discursos sobre “valores” e fotografias com velas acesas, houve uma visita ao Capitólio que merecia menos incenso e mais atenção. A acusação levada ao Capitólio. Não porque a fé não conte — conta — mas porque, às vezes, a fé é usada como embalagem. E a embalagem, quando vem carimbada por uma máquina de influência, serve precisamente para evitar que se olhe para o conteúdo. Foi o que aconteceu com a delegação de clérigos ortodoxos e intermediários que circulou por gabinetes e corredores (com barbas, cruzes e gravidade bem ensaiada), a repetir uma mensagem simples, eficaz e feita para consumo americano: a Ucrânia persegue cristãos. A acusação tem o apelo certo. Toca no ponto exato onde muitos conservadores e muitos crentes americanos reagem por instinto: liberdade religiosa, igreja, perseguição, mártires. E é por isso que funciona. Porque, quando uma narrativa acerta no nervo moral, raramente se pergunta o que falta. (E o que falta é sempre o essencial.) A frase — dita, insinuada, reenviada, reciclada — é conhecida: a igreja “está praticamente banida”. Kiev fecha templos. Reprime fiéis. Criminaliza a ortodoxia. Quem ouve isto, sem contexto, imagina logo um Estado anticristão a esmagar procissões. Mas a Ucrânia não é um país descrente. Pelo contrário: a religião ali não é decoração; é tecido social. A guerra, aliás, fez o que as guerras fazem a muita gente: empurrou-os para o que é último. Há missas, há velas, há funerais, há capelães, há salmos ditos com a voz presa. E há também uma realidade que o Kremlin (e os seus ecoadores) tenta apagar: a Ucrânia não está a fazer “guerra à fé”. Está a fazer guerra — defensiva — a redes de influência do agressor. O ponto de viragem foi político e jurídico. Em 2024, o Parlamento ucraniano aprovou legislação destinada a impedir que organizações religiosas subordinadas a centros num “Estado agressor” atuem como prolongamento desse Estado. A lei não é um slogan; é um instrumento de segurança em tempo de invasão. É discutível? Pode ser. Há alertas e críticas no plano dos direitos fundamentais? Há. Mas uma coisa é discutir os limites de uma lei num Estado em guerra; outra é vender a lei como se fosse uma cruzada anticristã. Até porque o campo ortodoxo ucraniano não é um bloco único (e isto é sempre omitido quando dá jeito). Desde 2018/2019, existe uma estrutura ortodoxa ucraniana reconhecida por Constantinopla como independente — a Igreja Ortodoxa da Ucrânia. Em paralelo, existe a outra estrutura, historicamente ligada a Moscovo, que se move numa zona cinzenta de jurisdição, legitimidade e lealdades. E é aqui que a história fica menos confortável para quem gosta de frases curtas. Porque, quando se fala de “perseguição”, a pergunta que não querem ouvir é esta: perseguição a quê — à fé, ou a uma arquitetura de dependência que, durante décadas, foi uma ferramenta política russa? Nos Estados Unidos, aprenderam (bem ou mal) a viver com a separação entre igreja e Estado. A Rússia, pelo contrário, fez da fusão um método. No Império, a igreja foi coluna do poder. No comunismo, foi penetrada, controlada, usada. No putinismo, tornou-se uma das faces públicas do regime — a face que benze, legitima e moraliza aquilo que, sem bênção, seria apenas violência nua. O Patriarca Kirill não é um espectador. É ator. E não apenas por linguagem geral de “paz”: o seu discurso tem servido, repetidamente, para enquadrar a invasão como combate espiritual, para dar ao conflito uma aura de destino e de “missão”. Não se trata de uma igreja esmagada por um tirano; trata-se, muitas vezes, de uma hierarquia que escolheu estar ao lado do tirano. E, quando se olha para o que acontece no terreno, percebe-se porque é que a Ucrânia insiste em falar de segurança e espionagem (e não de teologia). As autoridades ucranianas têm acusado membros do clero ligado a Moscovo de colaboracionismo e de apoio operacional ao invasor; há casos, investigações, detenções — e, do outro lado, negações e contestação. O ponto, porém, não é afirmar que “todos são espiões”. O ponto é este: em guerra, basta que alguns sejam (e que a estrutura sirva de cobertura) para que o Estado se veja obrigado a atuar. A comparação útil, aqui, é simples e pouco romântica: quando os Estados Unidos combateram a Al-Qaeda e os talibãs, isso não foi “guerra ao Islão”. Foi guerra a organizações violentas. Do mesmo modo, restringir a actividade de estruturas suspeitas de servir um agressor externo não é “guerra ao Cristianismo”. É guerra a redes de influência num conflito existencial. E há ainda uma ironia que Moscovo detesta ver dita em voz alta. Porque, se alguém quer falar seriamente de perseguição religiosa, não tem de ir a Kiev. Basta olhar para a Rússia. Na Rússia, denominações cristãs não-ortodoxas — protestantes, evangélicos, baptistas — vivem há anos num ambiente de intimidação, multas, processos e limitações legais. A legislação “anti-extremismo” e as regras sobre missionação foram sendo usadas como bastão administrativo. E as Testemunhas de Jeová foram banidas e perseguidas como “extremistas”. Isto não é retórica: é o quotidiano de um Estado que gosta muito de falar de fé (desde que a fé obedeça). É por isso que a acusação russa contra a Ucrânia soa tão familiar: acusa o outro do que faz em casa. E fá-lo com a segurança de quem sabe que, no mundo saturado de informação, a primeira frase circula; a nota de rodapé morre. Depois há a dimensão material, aquela que corta qualquer discurso de “defesa da fé” pela raiz. Desde o início da invasão, a destruição de locais religiosos na Ucrânia tem sido massiva. Há monitorizações que apontam para centenas e centenas de igrejas, templos e edifícios de culto destruídos ou danificados; algumas estimativas apontam para “pelo menos 630”. Seja qual for o número exato, a realidade é incontornável: foi a guerra russa que fez das cúpulas e das naves ruínas fumegantes. E é difícil imaginar gesto mais obsceno do que posar como protetor da Cristandade enquanto se multiplica a devastação de igrejas num país maioritariamente cristão. Nesta história, os amplificadores americanos importam. Não porque tenham inventado a narrativa, mas porque a tornam respeitável. Quando um argumento entra num gabinete do Congresso, ganha gravata e carimbo. E a partir daí já não parece propaganda: parece “preocupação legítima”. É assim que se normaliza uma operação de influência — não com gritos, mas com reuniões. Há, porém, quem diga o óbvio sem medo de desagradar: que a Igreja Ortodoxa Russa, no seu topo e na sua função pública, não é apenas uma instituição religiosa; é um braço simbólico e político de um Estado em guerra. E é precisamente essa clareza — rara, quase antiga — que falta quando se confunde liberdade religiosa com imunidade estratégica. (É aqui que me lembro de um verso conhecido, que não precisa de ser repetido palavra por palavra para ser entendido: a imagem de um padre a esconder, debaixo das vestes, as dragonas de um oficial. A metáfora é brutal porque é simples. E é simples porque descreve um método.) No fim, a regra é esta: o Kremlin chorará sempre “perseguição” quando os seus instrumentos forem escrutinados. Chamará “ataque ao Cristianismo” a qualquer tentativa de bloquear infiltração. Dirá “liberdade religiosa” como quem diz “passe livre”. Mas defender liberdade religiosa não é suspender o juízo. Não é fechar os olhos a uma instituição que se deixa usar — e que, por vezes, se oferece para ser usada — como cobertura moral de uma guerra de agressão. Não é tratar como vítima uma estrutura que, no tabuleiro político, funciona como ferramenta. A delegação que passou por Washington não trouxe uma mensagem de paz. Trouxe uma narrativa. E a diferença entre fé e operação é esta: a fé não precisa de apagar o contexto. A operação vive disso. Apaga o resto da história e pede-nos que acreditemos apenas na primeira frase. E, em política, acreditar só na primeira frase costuma ser o começo do erro. Cruz ortodoxa russa (símbolo) #Rússia #Ucrânia #IgrejaOrtodoxa #Kremlin #Propaganda #Influência #LiberdadeReligiosa #Washington #Geopolítica #Desinformação #GuerraNaUcrânia #PolíticaInternacional

  • A Identidade - A história de Frédéric Bourdin

    HISTÓRIA · Atlantic Lisbon · EUA/França · Identidade. Em maio de 2005, num abrigo para jovens perto dos Pirenéus, em França, chegou um rapaz de quinze anos. Dizia chamar-se Francisco Hernandez Fernandez. Tinha documentos de identificação espanhóis. Os pais e o irmão tinham morrido num acidente de carro, explicou. Ele sobrevivera, mas ficara em coma. Depois fora viver com um tio que o maltratava. Fugiu. A História do Homem Que Passou Cinco Meses Como Filho de Outra Pessoa - A história de Frédéric Bourdin A história era convincente. O rapaz era magro, pálido, trémulo. Usava boné puxado sobre os olhos e cachecol a tapar boa parte da cara. Dizia que tinha cicatrizes do acidente. Não queria que ninguém as visse. Francisco foi matriculado numa escola local. Adaptou-se rapidamente. Tornou-se popular. Dançava como Michael Jackson nos espetáculos de talentos. Ajudava os colegas com os trabalhos. Conhecia gírias americanas. Tinha carisma. Até que uma administradora da escola viu um programa de televisão sobre impostores famosos. E reconheceu Francisco. Não era Francisco. Era Frédéric Bourdin. Tinha trinta anos. E passara a última década e meia a fingir ser criança. O Rei dos Impostores Quando a polícia o deteve, Bourdin admitiu tudo. Nos quinze anos anteriores, tinha inventado dezenas de identidades. Em mais de quinze países. Cinco línguas. Benjamin Kent. Jimmy Morins. Alex Dole. Giovanni Petrullo. Michelangelo Martini. Quase sempre a mesma personagem: uma criança abandonada ou maltratada. Infiltrou-se em abrigos, orfanatos, lares de acolhimento, escolas, hospitais pediátricos. Na Espanha, Alemanha, Bélgica, Inglaterra, Irlanda, Itália, Suíça, Bósnia, Portugal, Áustria, França, Suécia, Dinamarca. E na América. Era extraordinariamente hábil a transformar a aparência. Depilava-se meticulosamente. Mudava o peso. Mudava o andar. Mudava o maneirismos. "Posso tornar-me no que quiser", dizia. Em 2004, fingiu ser um rapaz francês de catorze anos em Grenoble. Um médico examinou-o a pedido das autoridades e concluiu que era, de facto, adolescente. Um capitão da polícia em Pau observou: "Quando falava espanhol, tornava-se espanhol. Quando falava inglês, era inglês." As autoridades nunca encontraram motivação sexual. Nunca encontraram motivação financeira. "Em vinte e dois anos de profissão, nunca vi um caso assim", disse o procurador Eric Maurel. "Normalmente as pessoas enganam por dinheiro. O lucro dele parecia ser puramente emocional." No antebraço direito tinha uma tatuagem: "caméléon nantais" — Camaleão de Nantes. O Caso Americano (Ou: Quando o Impostor Roubou Uma Identidade Real) Em outubro de 1997, Bourdin estava num lar de jovens em Linares, Espanha. Uma juíza de proteção de menores tinha-lhe dado vinte e quatro horas para provar que era adolescente. Caso contrário, recolheria impressões digitais, que estavam registadas na Interpol. Bourdin sabia que, como adulto com cadastro criminal, enfrentaria prisão. E fez algo que ultrapassou todos os limites anteriores. Em vez de inventar uma identidade, roubou uma. Assumiu a pessoa de um rapaz de dezasseis anos desaparecido do Texas. Ligou para o Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas, em Alexandria, Virgínia. Fingiu ser o diretor do abrigo. Disse que tinha lá um rapaz assustado que falava inglês com sotaque americano, mas não revelava a identidade. Descreveu-se a si próprio. A mulher do centro procurou na base de dados. Disse que podia ser Nicholas Barclay. Desaparecido em San Antonio a 13 de junho de 1994, aos treze anos. Bourdin pediu mais informação. A mulher enviou por fax uma fotocópia do cartaz de desaparecido. A imagem era tão fraca que mal se via. Mas Bourdin pensou: "Consigo fazer isto." Ligou de volta, fingindo ser um polícia espanhol. Disse que Nicholas Barclay tinha sido encontrado. No dia seguinte chegou uma cópia limpa do cartaz. Bourdin abriu o envelope. A fotografia mostrava um rapaz pequeno, pele clara, olhos azuis, cabelo castanho tão claro que parecia quase louro. O cartaz listava características identificadoras: uma cruz tatuada entre o indicador e o polegar direitos. Bourdin olhou para a imagem. Disse a si próprio: "Estou morto." Não tinha a tatuagem. Os seus olhos eram castanho-escuros e o cabelo, castanho-escuro. Queimou o cartaz no pátio do abrigo. Descolorou o cabelo na casa de banho. Pediu a um amigo que lhe fizesse uma tatuagem improvisada com agulha e tinta de caneta. Mas havia o problema dos olhos. Inventou uma história: tinha sido raptado por uma rede de tráfico sexual de crianças. Levado para a Europa. Torturado, abusado, experimentado. Os sequestradores tinham-lhe injetado químicos nas pupilas. Por isso os olhos castanhos. Tinha perdido o sotaque texano porque, durante mais de três anos de cativeiro, fora proibido de falar inglês. Era uma história louca. Violava a sua própria máxima: "Mantém simples." Mas teria de servir. A Família Que Quis Acreditar Dias depois, tocou o telefone. Era Carey Gibson, meia-irmã de Nicholas, de trinta e um anos. "Meu Deus, Nicky, és tu?" Bourdin não sabia como responder. Adotou voz abafada. Disse: "Sim, sou eu." A mãe de Nicholas, Beverly, falou depois. Trabalhava num turno noturno numa Dunkin' Donuts em San Antonio sete noites por semana. Era viciada em heroína, agora em metadona. Nunca casara com o pai de Nicholas. Criara Nicholas com os dois filhos mais velhos, Carey e Jason. Quando a voz infantil do outro lado disse que queria voltar para casa, Beverly ficou "aturdida e arrasada". Carey voou para Espanha. Quando chegou ao abrigo, Bourdin estava num quarto, a cara embrulhada num cachecol, boné, óculos de sol. Tinha a certeza de que Carey perceberia imediatamente que não era o irmão. Em vez disso, ela correu para ele e abraçou-o. Carey era, em muitos sentidos, a vítima ideal. Nunca viajara fora dos EUA exceto para festas em Tijuana. Não estava familiarizada com sotaques europeus. Depois do desaparecimento de Nicholas, assistira frequentemente a programas televisivos sobre raptos de crianças. E tinha o fardo de decidir, como representante da família, se este era o irmão há muito desaparecido. Embora Bourdin lhe chamasse "Carey" em vez de "mana" (como Nicholas sempre fizera), embora tivesse um traço de sotaque francês, Carey disse que teve poucas dúvidas. Não quando ele podia atribuir qualquer inconsistência à provação indescritível. Não quando o nariz parecia tanto com o do tio Pat. Não quando tinha a mesma tatuagem que Nicholas e parecia saber tantos detalhes sobre a família. "O coração assume o controlo e queres acreditar", diz Carey. Nem as autoridades americanas nem as espanholas levantaram questões depois de Carey ter confirmado. Nicholas desaparecera há apenas três anos. O FBI não estava preparado para suspeitar de alguém que alegava ser criança desaparecida. Foi-lhe concedido um passaporte americano a Bourdin. No dia seguinte estava num voo para San Antonio. Cinco Meses Como Filho de Outra Pessoa Em 18 de outubro de 1997, membros da família de Nicholas esperavam-no no aeroporto. Beverly, a mãe. Bryan Gibson, marido de Carey. Codey e Chantel, filhos de Carey e Bryan. Apenas Jason, irmão de Nicholas, estava ausente. Todos correram a abraçá-lo. Exceto Beverly. "Ela simplesmente não parecia entusiasmada", lembra Chantel. Bourdin perguntou se Beverly duvidava que fosse Nicholas. Mas, naturalmente, ela também o cumprimentou. Foram todos no Lincoln Town Car de Carey. Pararam num McDonald's. Bourdin ficou a viver com Carey e Bryan numa casa móvel/reboque habitável numa área arborizada desolada em Spring Branch, 55 quilómetros a norte de San Antonio. A casa móvel/reboque era apertada não era exatamente a visão da América que Bourdin imaginara dos filmes. Partilhava o quarto com Codey. Dormia num colchão de espuma no chão. Para se tornar Nicholas, Bourdin tinha de aprender tudo sobre ele. Começou a recolher informação secretamente. Vasculhou gavetas, álbuns de fotografias, viu vídeos caseiros. Quando descobria um detalhe sobre o passado de Nicholas através de um membro da família, repetia-o a outro. Beverly reparou que Bourdin se ajoelhava em frente à televisão. Como Nicholas fazia. Quando Bourdin parecia mais distante do que Nicholas ou falava com sotaque estranho, vários membros da família disseram que assumia ser por causa do tratamento terrível que dissera ter sofrido. À medida que Bourdin habitava a vida de Nicholas, ficou surpreendido com o que considerava serem semelhanças estranhas entre eles. Nicholas desaparecera no aniversário de Bourdin. Ambos vinham de famílias pobres e desfeitas. Nicholas era miúdo doce, solitário, combustível, que ansiava atenção e estava frequentemente em sarilhos na escola. Era fã incondicional de Michael Jackson quando jovem. Segundo Beverly, Bourdin rapidamente "fundiu-se". Foi matriculado no liceu. Jogava Nintendo com Codey. Quando via Beverly, abraçava-a e dizia: "Olá, mãe." "Era mesmo simpático", lembra Chantel. "Muito amigável." O Detetive Que Não Acreditou Charlie Parker, investigador privado em San Antonio, foi contratado por um programa televisivo para investigar o extraordinário regresso de Nicholas Barclay. Parker foi à casa/móvel/reboque habitável com o produtor e a equipa de câmara. Ouviu atentamente enquanto o jovem relatava a história arrepiante. "Estava calmo como pepino", disse-me Parker. "Sem desviar o olhar, sem linguagem corporal. Nada." Mas ficou intrigado com o sotaque curioso. Parker viu uma fotografia numa prateleira de Nicholas Barclay em criança. Continuou a olhar para ela e para a pessoa à sua frente. Pensou que algo estava errado. Tendo lido uma vez que as orelhas são distintas, como impressões digitais, sussurrou ao operador de câmara: "Dá um zoom nas orelhas dele. O mais perto que conseguires." Parker enfiou a fotografia de Nicholas Barclay no bolso. Mais tarde, no escritório, digitalizou-a e comparou com o vídeo da entrevista. "As orelhas eram parecidas, mas não coincidiam", diz. Parker ligou a oftalmologistas. Perguntou se olhos podiam mudar de azul para castanho com injeção de químicos. Os médicos disseram que não. Parker telefonou a Beverly. Disse-lhe o que descobrira. Como recorda a conversa na pesquisa efetuada: "Não é ele, senhora. Não é ele." "Como assim não é ele?" Parker explicou sobre as orelhas, os olhos, o sotaque. Nos seus ficheiros, escreveu: "Família está perturbada mas mantém que acreditam ser o filho deles." Parker começou a seguir Bourdin quando este visitava Beverly. "Instalava-me no apartamento e via-o sair. Caminhava até à paragem de autocarro, usando o Walkman e fazendo os movimentos de Michael Jackson." O Colapso Após dois meses nos Estados Unidos, Bourdin começou a desmoronar-se. Estava taciturno e distante. Parou de assistir às aulas. Em dezembro, levou o carro de Bryan e Carey e conduziu até Oklahoma, com as janelas abertas, a ouvir a canção de Michael Jackson "Scream": "Cansado dos esquemas / As mentiras são repugnantes... / Alguém por favor tenha piedade / Porque simplesmente não aguento." A polícia parou-o por excesso de velocidade. Foi detido. Pouco antes do Natal, Bourdin foi à casa de banho e olhou-se ao espelho. Olhos castanhos. Cabelo descolorado. Agarrou uma navalha e começou a mutilar a cara. Foi internado na ala psiquiátrica de um hospital local durante vários dias de observação. Mais tarde, escreveu num caderno: "Quando combates monstros, tem cuidado para que no processo não te tornes num." A Verdade Nancy Fisher, agente veterana do FBI, tinha entrevistado Bourdin semanas depois de chegar aos Estados Unidos. Imediatamente, disse-me, "cheirou a rato": "O cabelo era escuro mas descolorado em louro e as raízes eram bastante óbvias." Parker partilhava as suas suspeitas com Fisher. Conduziram investigações paralelas. Em fevereiro, quatro meses depois de Bourdin chegar aos Estados Unidos, Fisher obteve mandados para o forçar a cooperar. "Vou a casa dela buscar amostra de sangue, e ela deita-se no chão e diz que não se vai levantar", diz Fisher. "Eu disse: 'Sim, vai.'" "Beverly defendeu-me", diz Bourdin. "Fez o melhor para pará-los." Junto com o sangue, Fisher obteve impressões digitais de Bourdin. Enviou-as ao Departamento de Estado para ver se havia correspondência com a Interpol. A 5 de março de 1998, com as autoridades a concentrarem-se sobre Bourdin, Beverly ligou a Parker e disse que acreditava que Bourdin era um impostor. Na manhã seguinte, Parker levou-o a um restaurante. Pediram panquecas. Depois de quase cinco meses a fingir ser Nicholas Barclay, Bourdin estava psiquicamente esgotado. Segundo Parker, quando lhe disse que tinha perturbado a "mãe", o jovem soltou: "Ela não é minha mãe, e sabe disso." -"Vais dizer-me quem és?" -"Sou Frédéric Bourdin e sou procurado pela Interpol." Parker foi à casa de banho e ligou a Nancy Fisher. Ela acabara de receber a mesma informação da Interpol. "Estamos a tentar obter um mandado agora. Retém-no." Quando Parker o levou de volta ao apartamento de Beverly, Fisher e as autoridades já estavam a chegar. Rendeu-se calmamente. Beverly virou-se e gritou para Fisher: "O que vos demorou tanto?" A Questão Que Ficou Estando sobe custódia, Bourdin contou uma história que parecia tão fantasiosa quanto o conto de ser Nicholas Barclay. Alegou que Beverly e Jason podiam ter sido cúmplices no desaparecimento de Nicholas. Que sabiam desde o início que Bourdin estava a mentir. "Sou bom impostor, mas não sou assim tão bom", disse Bourdin. Claro que as autoridades não podiam confiar na versão de um mentiroso patológico conhecido. Mas tinham as suas próprias suspeitas. Jack Stick, procurador federal na altura, e Fisher questionavam-se por que Beverly resistira a tentativas do FBI de investigar o alegado rapto de Bourdin. E depois de descobrir o engano. Questionavam-se por que Beverly não levara Bourdin de volta para viver consigo. Segundo Fisher, Carey disse-lhe que era porque era "demasiado perturbador" para Beverly. O que, pelo menos para Fisher e Stick, parecia estranho. "Ficarias tão feliz por ter o filho de volta", diz Fisher. Houve perturbações na casa de Beverly depois de Nicholas ter desaparecido. Relatórios policiais mostravam Beverly a gritar com Jason sobre o desaparecimento de Nicholas. Depois havia a alegação de Jason de que testemunhara Nicholas a arrombar a casa. Nenhuma prova podia ser encontrada para apoiar esta história surpreendente. Stick e Fisher começaram a aproximar-se de uma investigação de homicídio. "Queria saber o que acontecera àquela criança", recorda Stick. Mas não havia evidência. Sem testemunhas. Sem ADN. As autoridades nem sequer podiam dizer se Nicholas estava morto. Várias semanas depois de Fisher e Parker questionarem Jason, Parker conduzia pelo centro de San Antonio e viu Beverly no passeio. Ofereceu-lhe boleia. Quando ela entrou, disse-lhe que Jason morrera de overdose de cocaína. Parker, que sabia que Jason estava sem drogas há mais de um ano, perguntou se achava que ele tirara a vida propositadamente. Ela disse: "Não sei." Stick, Fisher e Parker suspeitam que foi suicídio. No Fim Beverly parou de usar drogas e mudou-se para Spring Branch, onde vive numa casa móvel/reboque habitável. A 9 de setembro de 1998, Frédéric Bourdin compareceu num tribunal de San Antonio e declarou-se culpado de perjúrio e de obter e possuir documentos falsos. Desta vez, a alegação de que procurava apenas amor provocou indignação. O juiz comparou o que Bourdin fizera — dar a uma família a esperança de que o filho perdido estava vivo e depois despedaçá-la — a homicídio. A única pessoa que parecia ter alguma simpatia por Bourdin era Beverly. Disse na altura: "Tenho pena dele. Sabe, conhecemo-lo, e este miúdo passou pelo inferno." O juiz condenou Bourdin a seis anos. Mais três vezes que o recomendado pelas diretrizes de condenação. Bourdin disse ao tribunal: "Peço desculpa a todas as pessoas no meu passado, pelo que fiz. Desejo, desejo que acreditem em mim, mas sei que é impossível." Estivesse na prisão ou não, acrescentou, "Sou prisioneiro de mim próprio." Meses depois de ser libertado da prisão nos Estados Unidos e deportado para França, em outubro de 2003, Bourdin retomou o papel de criança. Até roubou a identidade de rapaz francês desaparecido de catorze anos chamado Léo Balley. Desta vez, a polícia fez um teste de ADN que rapidamente revelou que Bourdin estava a mentir. Um psiquiatra que o avaliou concluiu: "O prognóstico parece mais do que preocupante. Somos muito pessimistas sobre modificar estes traços de personalidade." Mas Bourdin casou-se. Teve uma filha. Chamaram-lhe Athena, pela deusa grega. Capa — O Camaleão (Atlantic Lisbon) #AtlanticLisbon #AlbertoCarvalho #OCamaleao #OHomemCamaleao #FredericBourdin #NicholasBarclay #TrueCrime #Identidade #Impostor #Narrativa

  • Tigres e Moscas: Disciplina e Medo

    O gabinete fica intacto. A secretária, limpa. O retrato na parede, no lugar. O carro, devolvido. A família, em silêncio. Numa fotografia oficial, tudo parece ordem. O que muda é o ar: de um dia para o outro, um nome desaparece da lista, uma assinatura deixa de valer, um telefone deixa de tocar. É assim que a anticorrupção se torna visível: não como moral, mas como ausência. Ilustração de disciplina política e combate à corrupção na China / Imagem: Atlantic Lisbon China: a anticorrupção como disciplina interna Há países onde a corrupção se combate com tribunais que resistem ao poder e com imprensa que não pede licença. E há países onde a corrupção se combate como se combate uma dissidência: por dentro, com disciplina, com medo bem distribuído, com a certeza de que o problema nunca é apenas o ato — é o ato fora do controlo. A China, na era de Xi Jinping, transformou a luta contra a corrupção num instrumento total. Não é um gesto simbólico; é uma mecânica de governo. E há uma razão simples para isso: num sistema em que o Partido é o centro, a corrupção não é só um crime. É uma ameaça concorrente. Cria lealdades paralelas, redes próprias, autonomia prática. Um oficial corrupto não é apenas um pecador administrativo; é um potencial senhor feudal. O Ocidente tende a ler a campanha anticorrupção como um paradoxo: como pode um regime autoritário atacar a corrupção, se a corrupção é, tantas vezes, a linguagem informal do autoritarismo? A resposta, talvez, seja menos paradoxal do que parece. Um regime autoritário não combate a corrupção para se tornar liberal. Combate-a para continuar a mandar. A frase pública — repetida até se tornar quase folclore — serve para consumo imediato: caçar os grandes e os pequenos. A realidade, mais densa, é outra: em cada purga há uma reorganização de hierarquias. Em cada “caso exemplar” há uma pedagogia. E a pedagogia é, quase sempre, o coração do poder. O que se ganha com isto? Primeiro, intimidação. Um Estado que exibe a queda de figuras poderosas diz, ao mesmo tempo, duas coisas: “ninguém está acima do Partido” e “o Partido está acima de todos”. Depois, obediência. A administração deixa de ser apenas uma máquina; torna-se uma congregação. Aprende-se a olhar para cima antes de decidir. Aprende-se que a virtude não é um valor autónomo: é uma autorização. Há, claro, um argumento a favor da campanha: a corrupção destrói confiança, distorce o mercado, fere o cidadão comum. Há muito sofrimento concreto por trás de um carimbo vendido, de uma expropriação comprada, de uma inspeção transformada em extorsão. Seria infantil negar que expor e punir corruptos pode aliviar uma parte desse sofrimento. Pode. Mas o essencial não está aí. A pergunta central não é “houve corruptos punidos?”. A pergunta é “quem define corrupção, quem escolhe os alvos, quem controla o processo e quem fiscaliza o fiscal?”. Numa democracia, a resposta é, por definição, desconfortável: ninguém controla tudo, e é esse desconforto que protege. Na China, a resposta é confortável para o centro: o Partido controla o combate à corrupção como controla o resto. E, quando controla o combate à corrupção, controla a própria ideia de virtude pública. Há uma frase que se poderia escrever e que, no entanto, convém evitar por ser demasiado limpa: a campanha anticorrupção serve para eliminar rivais. É uma explicação simples, rápida, quase cinematográfica. A realidade é mais banal e mais eficaz: a campanha anticorrupção serve para tornar impossível a autonomia. Um sistema com poder concentrado vive de três pilares: disciplina, previsibilidade e medo. A corrupção interfere nos três. Cria imprevisibilidade (porque os negócios passam a depender de redes informais), enfraquece a disciplina (porque as redes criam comando lateral) e desloca o medo (porque o medo deixa de ser vertical e passa a ser negociável). Um poder inteligente tenta resolver isto não com moralidade, mas com controlo. O leitor europeu pode perguntar: então não há esperança? Há, mas não na forma de uma campanha. A esperança, se existir, teria de estar na transformação das regras — e o que se vê é a confirmação das regras. A campanha anticorrupção, ao mesmo tempo que pune, protege o núcleo: a ausência de fiscalização independente. Enquanto não há liberdade de imprensa plena, enquanto os tribunais não são um poder separado, enquanto a sociedade civil não tem espaço autónomo, a corrupção será sempre um problema definido pelo poder e resolvido pelo poder — com a solução que mais interessa ao poder. Isto produz um efeito curioso: a corrupção pode diminuir num ponto e aumentar noutro. Pode recuar no gesto mais visível — o suborno direto, a ostentação, o “excesso” — e persistir na forma mais útil: a troca de favores, o acesso reservado, a rede invisível. Em regimes fechados, a corrupção raramente desaparece; muda de forma. Aprende a sobreviver. Há um efeito colateral ainda mais importante: a campanha anticorrupção torna-se uma pedagogia do silêncio. O funcionário que antes falava com exuberância agora fala por frases curtas. O empresário que antes se gabava agora troca de carro e baixa o tom. O cidadão que antes denunciava agora percebe que denunciar é, por vezes, assinar o próprio processo. E aqui aparece uma contradição que não é moral; é funcional. Se o Partido quer reduzir corrupção sistémica, precisa de janelas. Mas janelas deixam entrar vento. E o vento, num sistema político com medo do imprevisível, é inimigo. Por isso, a campanha combate o sintoma sem aceitar o remédio estrutural. O leitor pode dizer: “mas então o que quer que se faça?”. Em termos práticos, aquilo que um regime não quer fazer: permitir que existam instituições com poder real para vigiar, expor e punir, mesmo quando isso atinge o topo. Isto significa imprensa, tribunais independentes, regras transparentes de contratação pública, proteção a denunciantes, patrimónios declarados e escrutináveis, associações capazes de litigar sem medo. Tudo isto, na China, toca no nervo que o Partido não negocia: o monopólio. O monopólio do poder, em política, é sempre um monopólio da narrativa. E a anticorrupção, quando é narrada pelo mesmo poder que precisa dela, torna-se uma forma de catecismo: “o Partido limpa; a sociedade agradece”. O problema é que a sociedade não existe para agradecer. Existe para viver. E viver inclui exigir explicações. Há um segundo ângulo, menos falado, mas crucial: a campanha anticorrupção reforça a capacidade de comando do centro sobre a periferia. Numa estrutura com múltiplos níveis administrativos, a autonomia local pode ser um problema. A autonomia local, muitas vezes, vive de redes. E as redes, muitas vezes, vivem de favores. A anticorrupção corta redes e, ao cortar redes, reforça o centro. Há, portanto, uma racionalidade política, quase matemática, por detrás da virtude exibida. No fim, o regime produz um tipo de cidadania que não é cidadania: um cidadão que sabe que a justiça é possível, mas não é sua; é concedida. Um cidadão que observa a queda de oficiais com uma mistura de satisfação e prudência, porque não sabe onde acaba a justiça e começa a disputa interna. E isto liga-se à história longa do poder chinês contemporâneo: a reforma económica criou riqueza, mobilidade e ambição; mas nunca aceitou plenamente um princípio simples — o de que o Estado também deve ser julgado. A reforma foi económica, não política. E a ausência de reforma política não impede campanhas; apenas as torna cíclicas, instrumentais e perigosas. Há quem veja na anticorrupção de Xi uma resposta inevitável a décadas de compadrio. É um argumento plausível: quando um sistema acumula corrupção, precisa de reagir para não apodrecer. Mas essa reação, se não muda regras, transforma-se em administração do apodrecimento, não em cura. E a administração do apodrecimento tem um estilo: purga, exemplo, silêncio, repetição. Se este texto parece duro, é porque o objeto é duro. A anticorrupção, na China, é uma linguagem de poder total: pune, reorganiza, educa, intimida. Reduz, nalguns pontos, a extorsão vulgar. Mas reforça o princípio que torna a extorsão possível: a ausência de fiscalização autónoma. No fundo, é isto: o Partido quer limpar a casa, mas recusa-se a entregar as chaves. A pergunta decisiva para o futuro chinês não é se haverá mais campanhas. Haverá. A pergunta é se alguma vez haverá mecanismos que sobrevivam às campanhas — regras que não dependam do humor do centro, nem do equilíbrio de facções, nem do ciclo político. Um Estado pode punir corruptos sem ser liberal. Mas não consegue erradicar corrupção sistémica sem aceitar que alguém, fora dele, o vigie. E um Partido que vive de monopólio não aceita vigilância. Aceita disciplina. É por isso que a anticorrupção, na China, é ao mesmo tempo limpeza e aperto. E é por isso que, quando um nome desaparece de um gabinete intacto, o país não vê apenas justiça. Vê, sobretudo, uma mensagem. O poder continua lá. E quer ser o único capaz de dizer quem é puro. Nota editorial (série): Segundo ensaio do Caderno Chinês no Atlantic Lisbon. Seguem-se: terra e finanças locais; clãs e princelings; o mercado como autorização; e 1989 como política do silêncio. Subscrever a Newsletter #AtlanticLisbon #China #PCC #XiJinping #Corrupção #Poder #Política #Estado

  • Porque é que tantas séries americanas falam de desigualdade?

    O country club californiano que serve de palco a Beef não é cenário: é a condensação de uma divisão real. Os membros pertencem às gerações mais velhas; os funcionários, às mais novas — e por mais que trabalhem, nunca serão membros. A classe social deixou de ser tema na televisão americana. Passou a ser a variável que organiza tudo o resto — e há razões concretas para isso. Um ecrã aceso numa sala comum: a televisão americana continua a contar histórias privadas, mas já quase nunca consegue escapar ao pano de fundo da desigualdade. Como chegámos aqui A televisão americana não chegou ao tema da classe por opção programática. Chegou por esgotamento das alternativas. Durante boa parte dos anos 2000 e 2010, a ficção de prestígio organizou-se em torno do indivíduo excecional — o anti-herói, o génio torturado, o outsider que desafia o sistema. A estrutura social estava lá, mas servia a psicologia das personagens. Era fundo, não figura. O que mudou não foi a televisão. A combinação de estagnação salarial para a maioria dos trabalhadores com enriquecimento acelerado de uma minoria, a impossibilidade crescente de acesso à habitação para as gerações mais jovens, e a visibilidade amplificada das fortunas tecnológicas tornaram a fratura de classes um dado ambiental antes de ser uma escolha temática. Qualquer história minimamente credível sobre vida contemporânea passou a ter de a incorporar — independentemente do género, da plataforma ou da intenção do criador. Lee Sung Jin não partiu de uma tese. Partiu de um conflito doméstico observado numa rua do seu bairro californiano, que gerou reações radicalmente opostas consoante a faixa etária de quem estava presente. Os mais velhos reconheceram algo banal; os mais novos consideraram-no intolerável. Não era só uma diferença geracional de sensibilidade — era uma fratura na perceção do que é normal, do que é tolerável, do que conta como limite aceitável entre pessoas. Essa observação tornou-se o ponto de entrada da segunda temporada, muito antes de qualquer decisão sobre country clubs, bilionárias coreanas ou chantagem. Quem está envolvido e porquê A série constrói um espaço com três camadas sobrepostas que raramente aparecem juntas na ficção televisiva, e menos ainda sem que uma delas funcione como alvo moral das outras. Porque é que tantas séries americanas falam de desigualdade? — Atlantic Lisbon No topo, a Chairwoman Park — proprietária coreana do country club, cabeça de um conglomerado familiar. O capital está lá, mas o reconhecimento social ainda está por conquistar num meio que não é o seu. A sua presença introduz uma lógica de acumulação diferente da que domina o ambiente californiano: não é a fortuna do empreendedor tecnológico nem a herança fundiária, é capital industrial sul-coreano com protocolos de representação próprios, com uma relação com o poder que passa por cerimónia, decoro e hierarquia de forma diferente da transação direta que Lee Sung Jin identifica como traço do capitalismo americano. No meio, o casal de gestão — o diretor do clube e a mulher, designer de interiores. Pertencem à classe profissional estabelecida mas não são proprietários. Têm acesso, não pertença. A sua crise é conjugal na superfície — foram filmados em violência doméstica por dois subordinados — mas o que realmente está exposto é a superfície de normalidade que sustenta a sua posição. Sem essa superfície, o que fica? Um salário de gestão num clube que não é deles, numa cidade onde a habitação absorve quase tudo. Na base, Austin e Ashley — funcionários da geração Z, prestes a casar, com o vídeo nas mãos. Não há aqui a ilusão da mobilidade social: ninguém nesta camada da série acredita que trabalhar muito no country club abre portas para se tornar membro. O que há é o reconhecimento de que o percurso normal está fechado, e de que o material de chantagem é um ativo de negociação, não um instrumento de destruição. A lógica é racional dadas as condições. A série não a condena. O que cada ator ganha e perde Para a Chairwoman Park, a exposição pública de violência no seu clube não é apenas um problema de gestão — é uma ameaça à única coisa que o dinheiro ainda não comprou. Capital não é reputação. A série usa essa distinção para explorar o que separa ter recursos de pertencer a um meio, e porque a segunda coisa resiste ao dinheiro de formas que o dinheiro não antecipa. Para o casal de gestão, o risco é a perda do único território em que operam com autoridade reconhecida. A posição que ocupam depende de aparências que eles próprios sabem frágeis — e a câmara dos subordinados tornou essa fragilidade transferível para outras mãos. O que se segue não é só chantagem: é a redistribuição involuntária de um poder que nunca foi realmente deles. Para Austin e Ashley, a equação é diferente. Precisam de capital inicial para construir uma vida que o salário presente nunca vai dar. A janela existe. Usá-la tem custos morais que a série não esconde, mas também não amplifica em julgamento. A geração Z não inventou a lógica da oportunidade — herdou-a de toda a gente acima. O que fica por resolver Os detalhes narrativos completos da temporada não estavam disponíveis no momento em que este texto foi escrito — o que existe é o que Lee Sung Jin descreveu publicamente. O arco da Chairwoman Park termina com ela a chorar junto ao túmulo do seu primeiro amor, com todo o dinheiro do mundo e sem nenhuma das coisas que ele não comprou. É um final que a série construiu como reshoot, substituindo um plano original de formigas a cobrir o rosto da personagem por uma imagem de samsara budista — a roda da vida com o deus da morte a segurá-la. Não é subtil. Mas a escolha de ir para lá da ironia social e tocar em iconografia do ciclo eterno diz algo sobre o que a série acha que o tema exige. Lee Sung Jin disse que todos os projetos no seu quadro de desenvolvimento partilham a variável da classe e do capitalismo. Disse também que gostaria, na sua vida, de um dia poder trabalhar sobre outras coisas. Essa frase não é pessimismo nem declaração de princípios — é o reconhecimento de que o constrangimento é exterior ao criador e anterior à sua intenção. Enquanto a condição persistir, a ficção que a ignora é ficção sobre outro país. Quando a desigualdade deixa de ser tema e passa a ser a variável que organiza tudo, a ficção e a política chegam ao mesmo ponto por caminhos diferentes — como mostra a análise da polarização portuguesa e do mercado político do ódio útil. @ Imagem: - Alin Surdu

  • Assad vive exílio de luxo entre Moscovo e Dubai

    NOTÍCIA · Mundo · Rússia/Síria Poucas semanas depois de a ofensiva rebelde ter derrubado o regime em Damasco, um sírio emigrado em Moscovo entrou num restaurante de topo, no alto de um dos arranha-céus mais emblemáticos da capital russa. O ambiente era o esperado: recepção cuidada, cocktails caros, clientela com “credenciais”. A instrução para não fotografar também não surpreendeu. O que o deixou sem palavras foi outra coisa: numa mesa próxima, estaria Bashar al-Assad, o antigo presidente sírio deposto. O episódio é um detalhe — mas ajuda a compor um quadro maior. Durante décadas, o apelido Assad foi associado, dentro e fora da Síria, a um poder fechado e violento. Hoje, o núcleo do antigo regime vive fora do país, com a Rússia como principal porto de abrigo político e logístico. O que era opaco no exercício do poder permanece opaco no exílio; ainda assim, começaram a surgir fragmentos que permitem perceber o padrão: conforto, protecção, discrição e uma sensação de impunidade. Segundo relatos de pessoas próximas da família e de antigos elementos do aparelho de segurança, a fuga para Moscovo terá sido organizada com rapidez e meios próprios, recorrendo a deslocações privadas e a um circuito controlado. Nos primeiros dias, a família terá sido alojada em apartamentos de luxo geridos por uma unidade hoteleira premium — um tipo de solução temporária que combina privacidade com serviços de alto nível. A partir daí, terão passado para uma residência mais estável num dos complexos residenciais mais exclusivos da cidade, no mesmo edifício que alberga o restaurante onde Assad foi visto. Mais tarde, as referências convergem num novo destino: uma zona residencial seleta nos arredores a oeste de Moscovo, conhecida por concentrar figuras da elite russa e por oferecer condições de segurança e isolamento difíceis de replicar no centro urbano. Em paralelo, surgem descrições de movimentos acompanhados e vigiados, com uma regra central: silêncio. O objetivo, segundo essas fontes, seria evitar declarações públicas e reduzir ao mínimo o “rasto” político e mediático. A mesma lógica aplica-se a Maher al-Assad, irmão do ex-presidente e figura-chave do antigo aparelho militar. Há quem o descreva a circular com discrição, por vezes disfarçado, associado a edifícios de alto padrão no distrito financeiro e a locais de lazer frequentados por círculos endinheirados. Não se trata de prova judicial, mas de um conjunto de observações repetidas, reforçadas por sinais digitais e por relatos cruzados. Também a geração mais nova da família tem deixado marcas — ainda que cuidadosamente controladas. Há referências a celebrações privadas com custos elevados, realizadas fora da Rússia, e a sinais de consumo de luxo detectáveis em publicações de pessoas do círculo social. Vários perfis aparecem protegidos, com nomes pouco óbvios; o que foi possível inferir, segundo quem acompanhou esses sinais, resulta de redes de contactos e de imagens indirectas publicadas por terceiros. A presença da família no Golfo, por seu lado, surge ligada a um entendimento informal que permitiria estadias e circulação com menos exposição. É neste contexto que aparece um dado politicamente sensível: uma das filhas terá retomado estudos numa universidade internacional, com proteção visível. A reação de colegas e um episódio envolvendo um grupo de mensagens — alegadamente encerrado após tensão política — ilustram como o peso do apelido pode atravessar fronteiras, criando fricção mesmo longe do país que o regime deixou para trás. No plano interno da “corte” em exílio, há sinais de uma diferença de estilos. Alguns relatos indicam que Maher terá apoiado financeiramente antigos aliados, ajudando-os a recomeçar. Já sobre Bashar al-Assad, circula uma narrativa inversa: a de um círculo de serviço abandonado, com um caso emblemático de um assistente pessoal que teria ficado sem meios e sem cobertura quando a família consolidou a sua instalação. A história, verdadeira nos seus factos essenciais ou não, é politicamente coerente com um padrão de poder: proximidade enquanto útil; descartabilidade quando o sistema cai. O que estas peças sugerem — sem fechar o quadro — é que o exílio da família Assad não é o retrato de uma fuga desorganizada nem de uma queda acompanhada por privação. Pelo contrário: aponta para uma transição assistida, com proteção estatal russa, condições materiais elevadas e uma disciplina de comunicação destinada a evitar danos adicionais e a limitar responsabilizações futuras. Para os sírios, a imagem é especialmente corrosiva: um país devastado e empobrecido fica para trás; os responsáveis máximos, ao que tudo indica, reconstroem a vida em corredores de luxo, longe de qualquer tribunal e fora do alcance do sofrimento que ajudaram a produzir. Exílio de Bashar al-Assad em Moscovo #TheLibrary #Notícia #Actualidade #Síria #Rússia #Assad

  • O Solo Como Orçamento

    Há uma palavra que, em muitos países, soa a geografia. Na China, soa a contabilidade: terreno. Não é apenas chão. É receita. É margem. É promessa. É a diferença entre um município que paga salários e um município que pede silêncio. Entre um presidente de câmara que sobe e um presidente de câmara que desaparece da fotografia. China com mapa urbano, linhas vermelhas e selo oficial / Imagem: Atlantic Lisbon China: a terra, a dívida e a política da expropriação A cena muda de província para província, mas o gesto repete-se: um mapa com linhas vermelhas, um selo, uma data, um aviso afixado num muro. Não é uma guerra. É uma conversão. Um pedaço de mundo passa a ter outro destino — e, com ele, outro valor. Na Europa, estamos habituados a pensar que o orçamento vem de impostos e transferências, e que o solo é um assunto de urbanismo: onde se constrói, como se constrói, com que regras. Na China contemporânea, o solo é, muitas vezes, o próprio orçamento. E quando o solo é o orçamento, a política transforma-se numa engenharia de extração. Começa por uma realidade simples: a terra não funciona como mercadoria “livre” no sentido liberal. Há propriedade, há uso, há direitos — mas o desenho institucional coloca o Estado e o Partido no centro da decisão. Isso cria uma coisa poderosa: o poder local não controla apenas licenças e fiscalização; controla o acesso ao principal ativo de transformação urbana. Durante décadas, isto alimentou uma dinâmica que parecia imparável. Uma cidade expande-se, abre avenidas, constrói metros, ergue bairros inteiros. De fora, é modernidade. Por dentro, é um ciclo: converter terra, vender direitos de uso, financiar obra, elevar atividade, produzir números, produzir carreira. O crescimento não nasce sozinho; é produzido. E produzir crescimento exige matéria. A matéria mais rápida é a terra. A terra tem uma característica única: quando muda de classificação, muda de valor. E essa diferença de valor — essa passagem, quase alquímica, de “rural” para “urbano”, de “colectivo” para “transaccionável”, de “longe” para “próximo” — é a fonte principal de tentação. É aqui que entra a palavra que raramente aparece com honestidade nas brochuras: expropriação. Em muitos sistemas, expropriar é um ato excepcional, defendido por utilidade pública e acompanhado por garantias e controlo judicial robusto. Noutros, expropriar pode tornar-se uma rotina. Uma rotina administrativa, com linguagem limpa e frases que parecem neutras: “requalificação”, “desenvolvimento”, “melhoria das condições de vida”. A realidade varia; há projetos necessários e há projetos inúteis. Há compensações justas e há compensações miseráveis. Mas a estrutura cria um risco constante: quando o poder local depende do solo, o “interesse público” torna-se elástico. O ciclo é conhecido por qualquer observador atento da China: muitas autarquias financiam uma parte significativa da sua despesa e investimento através da conversão e alienação de direitos sobre terrenos. Isto criou uma relação íntima entre urbanização e finanças locais. A cidade cresce e, ao crescer, paga-se a si própria — ou assim parece. Só que há um detalhe que muda tudo: a cidade não cresce por amor à cidade. Cresce por necessidade de receita e por incentivos políticos. Cresce para mostrar obra. Cresce para competir. Cresce para manter o motor. E aqui surge um dos pontos mais delicados deste caderno: a corrupção, muitas vezes, não precisa de envelopes quando existe assimetria de poder tão grande. Basta controlo sobre o acesso e opacidade na decisão. Quando um actor decide quem tem terreno, quem tem licença, quem tem aprovação e quem tem tempo, cria-se o ambiente perfeito para a renda. Renda não é só suborno; é extração de valor por estar no lugar certo do sistema. Os vencedores desta máquina são óbvios: promotores com acesso, construtores com relações, intermediários com utilidade, bancos dispostos a alimentar o ciclo, e quadros que exibem resultados. Os perdedores são mais silenciosos: camponeses deslocados, bairros demolidos, pequenos negócios varridos por “requalificação”, comunidades empurradas para longe do trabalho e da escola. Perdem também os bens lentos: água, solo, ar. Estes raramente entram na contabilidade política. O leitor pode perguntar: mas não foi isso que construiu a China moderna? Em parte, sim. Seria absurdo negar a dimensão transformadora da urbanização chinesa. Milhões saíram de habitações precárias para apartamentos com infra-estrutura. Estradas e linhas férreas encurtaram distâncias que pareciam continentais. O país ganhou uma capacidade de execução que impressiona até os seus críticos. A questão, porém, não é a existência da obra. É a lógica que a governa. Quando a obra é o meio de financiar o poder local, a obra deixa de ser consequência do planeamento e passa a ser condição de sobrevivência. E, nesse momento, o critério de necessidade pública perde o combate contra o critério de actividade mensurável. Constrói-se porque é preciso construir. Demole-se porque é preciso libertar terreno. Vende-se porque é preciso pagar. E é aqui que a dívida entra como sombra. Nem sempre a receita do solo chega a tempo, nem sempre chega na quantidade esperada, nem sempre chega com o ritmo que a máquina exige. Para manter a máquina em andamento, muitos governos locais recorreram a estruturas de financiamento e veículos que permitiam antecipar dinheiro: construir hoje, pagar amanhã. Isto pode fazer sentido em certos projectos. Torna-se perigoso quando se generaliza como método de governo. Quando o imobiliário está em alta, tudo parece sustentável: há compradores, há crédito, há confiança. O terreno vende, a obra avança, os números sobem. O problema é o outro lado: quando a procura abranda, quando os preços deixam de subir, quando a confiança se quebra, o solo deixa de ser receita segura e passa a ser risco. Nessa altura, o orçamento deixa de ter chão. O poder local, habituado a tratar terreno como caixa, descobre a angústia de uma caixa vazia. E o centro, em Pequim, descobre o que sempre soube mas preferia gerir em silêncio: a estabilidade social tem custo. E esse custo não pode depender eternamente de uma bolha. Há um aspecto desta história que, por vezes, escapa aos debates ocidentais: na China, a terra não é apenas economia. É política social. É identidade. É sobrevivência familiar. Para milhões de pessoas, o terreno é o seguro de vida. Quando esse seguro é removido por uma decisão administrativa, a ferida não é apenas patrimonial. É existencial. Por isso, os conflitos ligados a terra — e às compensações, e às demolições, e às transferências forçadas — são, há anos, uma das fontes mais persistentes de tensão entre cidadãos e poder local. Nem sempre explodem. Muitas vezes, acumulam-se como humidade: uma queixa, uma petição, uma ida à capital da província, uma carta devolvida, um silêncio prolongado. Em regimes que valorizam “harmonia”, não há nada mais corrosivo do que uma injustiça sem resposta. Há uma frase que se ouve, em vários contextos autoritários, e que aqui ganha forma própria: “o sistema funciona”. Funciona, sim — até ao dia em que o mecanismo deixa de produzir crescimento suficiente para justificar o sacrifício. E aqui regressamos ao início: o solo como orçamento. Se o solo é orçamento, a política local tende a orientar-se por duas obsessões: (1) manter o ciclo de conversão e venda; (2) manter a imagem de desenvolvimento para sustentar a carreira. O cidadão, nessa equação, entra como variável de risco: pode atrasar, pode contestar, pode filmar, pode reunir vizinhos. E a contestação, num sistema que mede sucesso por velocidade, é sempre interpretada como ameaça. É por isso que a “economia da expropriação” não é apenas uma questão de dinheiro. É uma questão de poder: quem decide, quem explica, quem compensa, quem fiscaliza, quem recorre. Quando a fiscalização independente é fraca, o ato de expropriar torna-se mais fácil e a tentação de abusar torna-se maior. Não é moralismo; é mecânica. Dito isto, convém evitar um cliché que empobrece: “o Partido rouba”. Há corrupção, há abuso, há violência administrativa, sem dúvida. Mas também há burocratas que tentam equilibrar necessidades reais, projetos úteis e pressões superiores. A diferença é que, num sistema fechado, o erro e o abuso tendem a ser corrigidos por campanhas, não por instituições permanentes. E campanhas não dão confiança duradoura; dão medo. É por isso que uma parte da modernização chinesa tem esta tonalidade paradoxal: uma modernidade brilhante construída sobre decisões opacas. Uma cidade espectacular erguida com ruído de demolição. Uma classe média crescente sustentada por um mercado imobiliário que, em muitos momentos, foi mais promessa de futuro do que valor presente. Quando o ciclo corre bem, ninguém quer ver a violência escondida no cimento. Quando o ciclo corre mal, toda a gente a sente. Há também um aspecto ambiental que torna tudo mais grave. A terra não é infinita. Os solos aráveis, a água subterrânea, os rios, as zonas costeiras, as montanhas: tudo isso entra em tensão com uma lógica de crescimento que precisa de espaço. E, numa máquina de carreira e estatística, o ambiente aparece sempre tarde. O ambiente é o que se paga “depois”. Só que “depois”, muitas vezes, é irreversível. Este é um ponto em que o leitor pode perceber a profundidade do problema: mesmo que se prendam corruptos, mesmo que se punam alguns abusos, o desenho continua a premiar a conversão rápida do solo em receita. E enquanto continuar a premiar, continuará a produzir conflitos e distorções. Em certos momentos, o centro tenta ajustar: limitações ao endividamento local, travões ao imobiliário especulativo, discurso sobre “prosperidade comum”, reforço de controlo. Mas estas correcções têm um limite interno: o Estado quer reduzir risco sem reduzir comando, quer reduzir bolha sem reduzir estabilidade, quer reduzir injustiça sem abrir a porta à fiscalização autónoma. É um exercício de geometria política: manter o edifício de pé enquanto se mudam as vigas por dentro. E há algo que torna esse exercício particularmente difícil: a terra é local. O conflito é local. A dor é local. Pequim pode desenhar linhas gerais, mas a decisão concreta — quem sai, quanto recebe, para onde vai — é tomada por níveis intermédios. E é nesses níveis que a opacidade ganha forma humana. Uma assinatura num gabinete decide a vida de uma família. Uma inspeção decide o destino de um negócio. Uma classificação decide o preço de um futuro. No fim, a pergunta que interessa ao Caderno Chinês não é se a China vai continuar a construir. Vai. A pergunta é se consegue construir sem tratar o solo como caixa permanente e sem tratar o cidadão como obstáculo. Se a legitimidade do regime depende de crescimento, e se o crescimento depende do solo, então o solo é política. E se o solo é política, cada metro quadrado é disputa. O grande risco não é apenas económico. É moral e social: um país pode aceitar desigualdade, durante um tempo, se acreditar em mobilidade. Pode aceitar sacrifício, durante um tempo, se acreditar em justiça. Mas quando o sacrifício se torna rotina e a justiça parece seletiva, a confiança muda de natureza. Deixa de ser confiança. Passa a ser resignação. E resignação não é estabilidade. É apenas silêncio temporário. O solo, quando vira orçamento, faz uma coisa perigosa: transforma a paisagem em instrumento. E um Estado que aprende a ver a paisagem como instrumento tende, com o tempo, a ver também as pessoas como instrumento. Essa é a linha que nenhuma modernização deveria cruzar. A questão é saber se a China, com a sua capacidade rara de executar, terá também capacidade — e vontade — de substituir este método por outro: um financiamento local menos dependente do solo, uma justiça mais previsível, uma transparência que não seja campanha, uma compensação que não seja favor. Sem isso, o cimento continuará a subir. E por baixo, continuará a abrir-se uma fissura: a distância entre o desenvolvimento que se mostra e o custo que se paga. Nota editorial (série): Terceiro ensaio do Caderno Chinês no Atlantic Lisbon. Seguem-se: clãs e princelings; o mercado como autorização; e 1989 como política do silêncio. #AtlanticLisbon #China #Economia #Política #Terra #Urbanização #FinançasLocais #Poder

  • O Lugar Onde Já Não Se Pode Falar

    Durante muito tempo, a China viveu num equilíbrio instável, mas funcional. Não era uma democracia. Nunca foi. Mas também não era um deserto. Nos anos 1990 e 2000, havia zonas cinzentas. Espaços onde se discutia. Onde se escrevia com cuidado, mas sem pânico. Onde uma reportagem podia incomodar alguém sem destruir uma carreira inteira. China vs Japão: - Quando a praça pública desaparece. Universidades abertas. Livrarias cheias. Auditórios improvisados. Nada disto era garantido. Mas existia. A geração que hoje pratica Runxue cresceu nesse intervalo. Não nasceu no silêncio absoluto. Nasceu na expectativa de que o espaço público poderia alargar-se, ainda que lentamente. O choque veio quando percebeu que esse espaço não estava apenas a estagnar. Estava a encolher. E que o encolhimento não era episódico, mas estrutural. Primeiro vieram as palavras novas. “Orientação correta”. “Benefício social”. “Energia positiva”. Depois vieram as grelhas de avaliação. Por fim, vieram as ausências. Livros que deixaram de ser publicados sem explicação clara. Eventos cancelados sem aviso. Convites que deixaram de chegar. A repressão raramente se apresenta como um murro. Apresenta-se como um sistema de incentivos. Quem aprende a evitar certos temas continua. Quem insiste neles, desaparece lentamente. Para muitos, o momento de rutura não foi uma prisão nem um interrogatório. Foi algo mais banal — e mais corrosivo. Foi perceber que já estavam a escrever com medo antes mesmo de alguém os mandar calar. A partir daí, tudo muda. A praça pública não fecha oficialmente. Torna-se inútil. A Universidades reforçam controlos de acesso. Estranhos deixam de poder entrar. Editores passam a cortar passagens inteiras para proteger equipas.Advogados aprendem que certas causas custam licenças. O Estado não precisa de proibir tudo. Precisa apenas de tornar o custo psicológico demasiado alto. É aqui que a fuga começa — muito antes do avião. Começa quando alguém decide não propor um tema. Quando alguém apaga uma frase antes de a guardar. Quando alguém se pergunta, em silêncio, se vale a pena continuar. Runxue nasce nesse ponto. Não como ideologia, mas como constatação. Sair torna-se uma forma de preservar a sanidade. Mas sair não resolve tudo. O medo não é territorial. É aprendido. Muitos dos que partem continuam a falar baixo. Continuam a evitar nomes próprios. Continuam a usar metáforas quando já não são necessárias. Durante os protestos do “papel branco”, em 2022, isso tornou-se evidente. Chineses no estrangeiro manifestaram-se em cidades onde a polícia não os conhecia. Ainda assim, muitos taparam o rosto. Outros pediram para não ser fotografados. Depois vieram as chamadas para casa. Famílias contactadas. Pais avisados. Irmãos “aconselhados”. A mensagem era simples: a distância não protege completamente. Este é talvez o elemento mais perturbador da atual diáspora chinesa: a repressão não termina na fronteira. Estica-se. Acompanha. E mesmo assim, algo resiste. Porque o silêncio absoluto também tem um custo. Alguns decidem falar, apesar de tudo. Outros criam espaços pequenos, quase invisíveis. Reuniões privadas. Leituras em salas emprestadas. Podcasts com nomes neutros. Não é dissidência clássica. É sobrevivência cultural. O objetivo não é derrubar o regime. É não desaparecer por dentro. China vs Japão Há uma diferença fundamental entre exílio político do século XX e este movimento atual. Antes, muitos partiam com a ideia de que estavam fora da história. Hoje, muitos sentem que carregam a história consigo. Não querem substituir a China. Querem preservar uma versão dela que já não tem lugar no território. Isso cria uma tensão constante. Entre falar e calar. Entre agir e acumular. Alguns chamam-lhe covardia. Outros chamam-lhe prudência. Na prática, é uma negociação diária com o medo. E talvez seja isso que distingue esta geração: não acredita em gestos finais. Acredita em adiamentos. Em ganhar tempo. Em manter portas entreabertas. Runxue não é um manifesto. É um sintoma. Quando uma sociedade deixa de conseguir absorver as suas próprias perguntas, essas perguntas deslocam-se. Quando não podem ser feitas em casa, são feitas fora. Quando não podem ser feitas em voz alta, são feitas em salas pequenas. A praça pública não desaparece. Migra. E a pergunta que fica não é se isto enfraquece a China ou a fortalece. É outra, mais simples e mais dura: Que país precisa de perder os seus próprios pensadores para continuar a funcionar? Essa resposta ainda não existe. Mas o silêncio que a rodeia é cada vez mais maior. Autor: Atlantic Lisbon China vs Japão #China #Japao #Runxue #DiasporaChinesa #Exilio #Sociedade #LiberdadeDeExpressao #Censura #Tokio #Cultura

  • A cor do silêncio

    Foi sempre mais do que cabelo. Foi território. Desde o primeiro gesto de uma escova, o corpo de uma mulher negra aprendeu que o mundo exige tradução — que a beleza, para ser aceite, tem de falar uma língua que não é a sua. Michelle Obama compreendeu-o cedo, não como conceito, mas como sobrevivência. Cada vez que o olhar público pousava sobre ela, havia uma contagem invisível de gestos, de tecidos, de cores, de ângulos. Era o peso de uma história inteira pendurado na raiz do cabelo. Durante oito anos na Casa Branca, cada madeixa foi um ato político, cada escolha estética uma tentativa de decifrar o que o país toleraria ver. O mesmo povo que a aplaudia pela educação das filhas e pelo sorriso intacto pedia-lhe, em silêncio, que domesticara o reflexo. As câmaras, mais do que o discurso, registravam a lisura do penteado, o brilho dos fios, a ausência de volume — como se a autoridade de uma mulher dependesse da obediência do seu cabelo. Houve um tempo em que o ferro quente substituiu a liberdade, e o perfume químico do alisador tornou-se parte do ritual do poder. Michelle percebeu que o cabelo crespo não seria apenas um traço biológico, mas uma metáfora viva da diferença. O mesmo país que jurava celebrar a diversidade exigia-lhe a uniformidade. E ela, com a sabedoria dos que conhecem o abismo entre o que são e o que o mundo lhes permite ser, escolheu a estratégia mais antiga: o disfarce calmo. Não o fez por vaidade. Fê-lo porque sabia que o corpo negro, na esfera pública, é uma provocação. E porque, no teatro político americano, a estética é uma forma de gramática. Aprendeu que cada fio rebelde podia ser lido como descuido, como ameaça, como afronta. Então decidiu guardar a sua rebeldia para o invisível — para o gesto secreto de resistir sem mostrar. Mas o tempo, que tudo gasta, devolve-nos o essencial. Há um dia em que a raiz volta a crescer na sua direção natural, como quem reencontra o norte após uma longa travessia. As tranças regressam, não como adorno, mas como reconciliação. Cada fio entrelaçado é uma oração antiga, um mapa de pertença, uma forma de dizer “estou de volta ao meu próprio corpo”. Michelle Obama reaprendeu a habitar-se. E, nesse gesto íntimo — o de deixar o cabelo ser o que sempre foi — há mais política do que em muitos discursos. É o corpo a recuperar o direito à verdade. A elegância deixa de ser sinónimo de adequação e passa a significar fidelidade: à textura, à história, à dor e à beleza que coexistem num mesmo reflexo. O livro The Look parece, à superfície, um ensaio sobre estilo. Mas é, na verdade, um livro de anatomia — o retrato de um corpo que aprendeu a carregar a cor, o género e a memória como símbolos de um país que ainda não se compreendeu. Cada fotografia é um espelho duplo: por fora, a figura serena; por dentro, a tensão invisível de quem precisa de medir cada centímetro de espontaneidade. Michelle escreve, com o cuidado de quem desenha cicatrizes, sobre aquilo que nunca se diz nas biografias oficiais: o preço da aceitação. Há uma cena recorrente no imaginário das mulheres negras — o pente quente, a mãe a alisar os cabelos da filha ao domingo, o som breve do vapor quando o ferro encontra o couro cabeludo. É uma lembrança de ternura e dor, o eco de uma pedagogia antiga: que a ordem do mundo começa na cabeça. “Endireita o cabelo”, dizem as mães, querendo dizer “não lhes dês motivo”. Crescer sob essa disciplina é crescer num país que te mede pela docilidade dos teus fios. Michelle Obama foi a primeira a transformar essa herança em diplomacia. Soube que o poder é, antes de mais, uma questão de aparência. Que o público americano, habituado à brancura do mito presidencial, veria no seu corpo uma nota dissonante. Por isso, enquanto o país aprendia a chamá-la “First Lady”, ela ensinava-o a ver nela mais do que um símbolo: uma mulher complexa, educada, vulnerável, estratégica. Hoje, quando surge com tranças, o gesto é uma libertação silenciosa. Não precisa de explicação, nem de manifesto. Basta o som das câmaras e a naturalidade do movimento. O cabelo, que antes era uma concessão, torna-se agora uma escolha. E escolher, neste caso, é reescrever a história. As tranças são antigas como o tempo. Em cada uma, há genealogias de resistência, mapas de fuga, códigos de pertença. As escravas africanas desenhavam rotas no couro cabeludo umas das outras — linhas que indicavam caminhos para a liberdade. Talvez, sem o saber, Michelle retome esse gesto: cada trança como um traço de regresso, uma bússola que aponta para casa. A estética não é banalidade; é a forma visível de uma ética. E a política, nesse sentido, é uma arte de aparições. Michelle Obama entendeu que podia usar a superfície — o vestido, a postura, o cabelo — como um espelho onde o país se vê refletido e, por instantes, se interroga. Chamam-lhe “soft power”. Eu prefiro chamar-lhe liturgia: o ritual em que o corpo se oferece como tradução do invisível. Há algo de profundamente poético neste percurso: uma mulher que passou anos a endireitar o cabelo para não assustar o mundo, e que agora, liberta do cargo e do peso simbólico, decide aparecer como é. E, no entanto, não há ressentimento. Apenas um sossego novo, uma ternura consigo mesma. O gesto de pentear é, afinal, um gesto de perdão. Entre as fotografias do livro, há uma que a mostra a rir, com as tranças longas e soltas, a cabeça ligeiramente inclinada, como quem ouve um som distante. Talvez o som do tempo a reconciliar-se com ela. Talvez o som de uma liberdade que já não precisa de pedir licença. A cor do silêncio, essa, permanece. Mas já não é a cor do medo — é a cor do regresso. Secção: Caderno das Sombras Claras Michelle Obama — Retrato oficial na Casa Branca #MichelleObama #CasaBranca #PrimeiraDama #RetratoOficial #MulheresNoPoder #FotografiaInstitucional #ChuckKennedy #HistóriaContemporânea #ElegânciaEIdentidade

bottom of page