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  • A Fuga de Cuba

    Há cidades que se esvaziam com estrondo — sirenes, tanques, gritos, bandeiras a arder — e há cidades que se esvaziam como um corpo que perde sangue devagar. Havana, hoje, tem muito desta segunda espécie: uma espécie de hemorragia mansa, insistente, que não faz manchetes todos os dias mas muda tudo, pedra a pedra, rua a rua, olhar a olhar. Quando se fala de Cuba, em Portugal, ainda se fala muitas vezes como quem abre uma gaveta antiga: sai de lá um cheiro de cartaz, um resto de canção, a ideia vaga de um romance político. O problema é que o romance terminou há muito e, no lugar dele, ficou uma vida dura, de sobrevivência prática, feita de faltas sucessivas. Falta luz. Falta gasolina. Falta comida. Falta futuro. E quando o futuro falta, as pessoas não “partem”: fogem. Mesmo quando vão de avião. Mesmo quando levam uma mala pequena. Mesmo quando não correm. Há um símbolo que me ficou preso (e eu desconfio sempre de símbolos, porque são a matéria preferida de quem manda): uma torre. Um hotel alto, brilhante, de vidro e aço, erguido durante anos, como se o país estivesse a construir um milagre. Um edifício com centenas de quartos que a maioria dos cubanos nunca poderá pagar, nem sequer uma noite, nem sequer uma bebida no bar. Um pedaço de modernidade plantado num lugar onde o quotidiano voltou a ter filas e apagões, e onde a elegância, para muita gente, é apenas a arte de disfarçar a fome. O edifício existe para quem chega com moeda estrangeira e para quem manda, claro. Existe também como recado: “aqui manda quem constrói”. E, numa ilha onde o Estado se confundiu durante décadas com a vida inteira, há poucas entidades mais temidas do que as que controlam o dinheiro, os hotéis, os portos, as importações, as saídas e as entradas. A torre, por isso, não é só um hotel. É um modo de dizer: o país pode estar de joelhos, mas o poder mantém-se de pé. Há um problema: uma torre não enche sozinha. E as torres, quando não enchem, tornam-se aquilo que ninguém quer admitir — monumentos ao vazio. Aquilo que deveria ser “futuro” transforma-se em cenário. Há piscinas sem risos, varandas sem conversas, luzes acesas para ninguém. Um luxo sem corpo dentro. Um palco sem atores. E Cuba, neste momento, é muito isto: um palco onde os actores se foram embora. Não porque deixaram de existir turistas. Há turistas, sempre houve, haverá. O turismo, aliás, é uma das últimas torneiras que ainda pinga moeda. O que mudou é outra coisa: a população. A fuga não é um fenómeno lateral; é o centro da história. A ilha não está apenas pobre. Está a perder gente. E quando um país perde gente — jovens, profissionais, famílias inteiras — perde também o músculo que poderia endireitá-lo. Há quem atravesse o mar em embarcações improvisadas, com a coragem de quem já não tem nada para perder. Há quem morra. Há quem desapareça sem sequer deixar uma notícia decente. E há quem faça o caminho “legal” e, por isso mesmo, mais caro: vender a casa, pedir dinheiro emprestado, pagar a intermediários, comprar um bilhete para um país que serve de passagem, e depois subir, devagar, por estradas e redes de contrabando. Uma peregrinação ao contrário, em que o “prometido” não é uma terra santa, é um posto de fronteira. Eu não gosto de escrever isto. Aliás, quem gosta de escrever sobre uma fuga nunca fugiu. A fuga é uma forma de amputação. Parte-se um pedaço de si e espera-se que o resto sobreviva. Conheci, uma vez, um homem que saiu de Cuba com a mulher grávida e um filho pequeno. Chamemos-lhe Aldo, porque às vezes é preciso um nome simples para dizer uma vida complicada. Falou-me como se estivesse a pedir desculpa por existir. E a certa altura disse uma frase que me ficou: “Havia uma febre. Toda a gente estava a ir.” A febre é uma imagem certeira. Não é entusiasmo, não é aventura. É corpo em alarme. É instinto. É a ideia de que ficar é adoecer. O que me impressiona nestas histórias não é a travessia. É o momento em que chegam ao outro lado e descobrem que o outro lado também está doente, só que de outra maneira. Durante décadas, o imaginário cubano construiu os Estados Unidos como um lugar de justiça, um lugar de regras claras, um lugar onde a palavra “direitos” tinha espinha. Para quem viveu com medo de dizer uma frase no sítio errado, a ideia de um Estado de Direito funciona como um oásis. O problema é que, quando chegam, encontram um país onde o discurso político aprendeu a usar o medo como ferramenta de gestão. E isso — para um cubano — tem uma ressonância muito particular. É como sair de uma casa a arder e entrar numa casa onde o fumo ainda não se vê, mas já se sente. Em Miami, então, a história ganha uma ironia que às vezes dói. Há uma “Pequena Havana” com cafés e lojas e memórias. Há parques onde homens jogam dominó com a seriedade de quem está a proteger uma pátria imaginária. Há ruas e avenidas com nomes de figuras cubanas, algumas heroicas, outras controversas, todas usadas para construir um altar de identidade. Miami é, para muitos, a extensão emocional da ilha. Uma ilha com ar condicionado. E, no entanto, há uma parte importante dessa comunidade que se agarrou — com entusiasmo — a uma política americana que promete dureza contra imigrantes. Isto parece absurdo, mas é mais humano do que parece. O exilado, muitas vezes, precisa de um salvador. Precisa de acreditar que alguém, finalmente, fará o que ele sonhou: derrubar o regime de Havana, humilhar os homens do poder, reescrever a história. Se esse alguém fala em “mudança de regime” com voz grossa e frases simples, melhor. O problema é o preço. E o preço, quase sempre, é pago pelos que chegam depois. Há, dentro das comunidades migrantes, uma crueldade que raramente se diz em voz alta: a tentação de fechar a porta depois de entrar. “Eu mereci.” “Eu sofri.” “Eu vim como deve ser.” E, portanto, “estes de agora” são menos dignos, mais suspeitos, mais incómodos. Isto repete-se em todo o lado, em todas as diásporas. E repete-se com uma eficácia triste. Enquanto isso, a máquina do Estado americano — que, em muitos momentos, é uma máquina cega — trata as pessoas como números. Há centros de detenção. Há audiências adiadas por anos. Há filas dentro de filas. Há advogados que pedem provas impossíveis, como se a perseguição, para ser real, precisasse de carimbo. E há uma realidade nova, muito concreta: agentes à porta dos tribunais, pessoas presas no momento em que vão “cumprir a lei”, famílias a viverem com o pânico de uma carta, de uma notificação, de um erro. Um país que aprendeu a celebrar a liberdade, de repente, começa a parecer-se com aquilo de que muitos fugiram. E isto é o ponto que me interessa: a simetria sombria. Cuba, durante anos, foi o exemplo clássico de um sistema que pede obediência e chama-lhe “povo”. Os Estados Unidos, hoje, têm sectores políticos que pedem obediência e chamam-lhe “segurança”. Mudam as palavras. O mecanismo tem semelhanças. E depois há aquilo que me parece mais grave: o gosto pelo espetáculo. Há um tipo de política que não governa — encena. Precisa de imagens. Precisa de fotografias em frente a grades. Precisa de mapas com setas, de slogans, de nomes inventados para lugares inventados. Precisa de um “Alcatraz” numa zona de pântano, por exemplo, porque a crueldade, quando é filmável, dá votos. O pântano, os insetos, o calor, o improviso: tudo serve, desde que comunique a mesma mensagem. “Não venham.” E, sobretudo, “nós mandamos.” Quando a política chega a esse ponto, não está a gerir fronteiras. Está a gerir sentimentos. E o sentimento escolhido é sempre o mesmo: medo. O que acontece, então, a um cubano que fugiu do medo? Acontece que volta a viver com medo — só que agora o medo tem outra bandeira. E o pior medo é sempre este: o medo que nos faz agradecer por migalhas. “Ao menos não me bateram.” “Ao menos não me insultaram.” “Ao menos ainda não fui chamado.” A dignidade, lentamente, vai sendo trocada por alívio. Se eu falar da ilha outra vez, é para dizer uma coisa simples: um país não colapsa apenas por causa de um embargo ou de uma sanção. Isso é uma parte da história, sim. Mas há uma parte que costuma ser ignorada pelos fiéis: o estrago interno. A economia que não alimenta. A burocracia que castiga. A desconfiança como método. O medo como cultura. A insistência em prometer o mesmo quando a vida mostra o contrário. Há uma palavra cubana que eu gosto — resolver. Não no sentido bonito de “resolver um problema” com calma. No sentido de sobrevivência. Resolver comida. Resolver luz. Resolver um remédio. Resolver gasolina. Resolver um lugar na fila. É um verbo que, dito assim, parece prático e até admirável. Mas há uma humilhação escondida nele: quando a vida se torna apenas resolução de urgências, deixa de haver projeto. Deixa de haver horizonte. E sem horizonte, a juventude vai-se embora. Não por ideologia. Por instinto. A fuga de Cuba, por isso, não é um episódio. É uma resposta coletiva ao esgotamento. E depois há as figuras que ficam. As mães velhas. Os avós. Os que já não podem atravessar selvas e rios. Os que não podem vender uma casa porque a casa já vale quase nada. Os que dependem de remessas de filhos que agora vivem em quartos pequenos, em bairros periféricos, a trabalhar em coisas que nunca imaginaram. Esses, os que ficam, são o retrato mais cruel de um país em perda: um país de velhos e de ausências. Há quem diga: “Que colapse.” Há quem acredite que apertar o cerco, cortar remessas, tornar a vida impossível, vai produzir uma revolta e, depois, uma democracia. Isto é uma fantasia perigosa. A história mostra-nos que regimes autoritários, quando caem, nem sempre dão lugar a democracias. Muitas vezes dão lugar a mafias, a milícias, a caos. Um país com fome não se torna automaticamente virtuoso. Um povo exausto não é, por definição, um povo livre. E, mesmo que a queda viesse, há uma pergunta que ninguém parece querer enfrentar com honestidade: quem paga o “tratamento”? Quem sofre o “remédio”? Os que mandam raramente passam fome. Os que mandam têm sempre portas. Os que mandam têm sempre torres. O que me leva, de novo, à imagem inicial. Uma torre de vidro e aço, erguida como se fosse progresso, num país onde o progresso foi substituído pela saída. O poder gosta de construir símbolos porque os símbolos parecem eternos. Mas há uma coisa que nenhum símbolo consegue conter: a vontade de partir. E aqui há uma lição que não é apenas cubana. É universal. Um Estado pode controlar jornais, polícias, tribunais, fronteiras. Pode controlar hotéis. Pode controlar importações. Pode controlar a narrativa. O que não consegue controlar, por muito tempo, é a sensação íntima de que a vida não tem amanhã. Quando essa sensação se instala, o país começa a esvaziar. E nenhum vidro, nenhum aço, nenhum cartaz consegue impedir isso. Também não nos iludamos do lado de lá. Os Estados Unidos, quando usam a detenção como teatro, quando transformam pessoas em “casos”, quando falam de imigração como se fosse praga, estão a fabricar uma doença própria. Uma doença moral. E essa doença, como todas, não fica confinada ao alvo. Espalha-se. Normaliza-se. Um dia, atinge outros. E quando se dá por ela, já não é só o imigrante que tem medo. É a sociedade inteira que vive de sobressalto. É por isso que a história de Cuba, hoje, me parece tão relevante: porque é uma história de fuga, sim, mas também é uma história de espelhos. O exilado que troca um regime por outro tipo de dureza. A cidade que perde gente enquanto ergue edifícios para estrangeiros. A comunidade que, tendo sido salva por políticas de acolhimento no passado, apoia políticas de expulsão no presente. O país que se constrói contra um inimigo e acaba a precisar desse inimigo para existir. E, no meio disto, há pessoas concretas: um homem com um filho pela mão, uma mala, um medo antigo e um medo novo. Há mulheres que esperam cartas. Há idosos que esperam remessas. Há jovens que esperam um visto. Há quem espere o fim do regime. Há quem espere o fim de uma audiência em tribunal. E há, sobretudo, este cansaço, que é a matéria de todas as fugas: a certeza de que ficar é morrer devagar. Eu gostava de terminar com uma frase redonda, mas não tenho. Há histórias que não deixam espaço para grandeza literária. Deixam, quando muito, um apelo simples: que não nos habituemos. Que não nos habituemos a países vazios, a torres vazias, a cidades sem juventude. Que não nos habituemos a prisões feitas para fotografia. Que não nos habituemos a discursos que tratam pessoas como lixo. Porque aquilo que começa por ser “excepção” acaba por ser norma. E a norma, quando se instala, já não pede autorização. Cuba foge, e o mundo observa. Mas talvez o mais inquietante seja isto: enquanto olhamos para a ilha a esvaziar-se, há outras ilhas a formar-se dentro dos países que se dizem livres. Ilhas de medo. Ilhas de silêncio. Ilhas onde a lei não serve para proteger, serve para mostrar força. E isso — isso sim — é o princípio de um colapso. AC Êxodo Cubano #AlbertoCarvalho #AFugaDeCuba #Crónica #Opinião #Cuba #Migração #Poder #ÉticaPública #DireitosHumanos

  • As melhores prendas não custaram dinheiro

    Há prendas que passam depressa. Outras ficam. E, curiosamente, muitas das que ficam quase não custaram dinheiro. Estou a falar da carta escrita sem pressa. Do livro oferecido porque alguém precisava exatamente daquele livro. Do tempo reservado quando era mais fácil dizer “noutro dia”. Do gesto simples que chegou no momento certo. Gostava de saber: qual foi a melhor prenda que alguma vez ofereceu e que foi gratuita ou quase gratuita? Não precisa de ser Natal, nem precisa de ser grandiosa. Basta ter sido verdadeira. Se quiser, conte em poucas linhas: o que foi, quanto custou (ou se não custou nada) e porque ainda hoje a recorda. Sem nomes, sem exposição — apenas a história. Talvez descubramos, juntos, que algumas das melhores prendas não cabem em embrulhos. Conte a sua história. Pode escrever-nos para: info@albertocarvalho.com Meia vermelha de Natal #meia #Natal #Histórias #convite

  • Sobre o fim das amizades e a coragem de ver

    Ninguém nos ensina a terminar amizades. Aprendemos a construí-las, a mantê-las, a salvá-las quando vacilam. Mas sobre o momento preciso em que é necessário reconhecer que algo morreu — sobre isso, reinam o silêncio e a culpa. Quando a lealdade se transforma em mentira, e partir é o único ato honesto. Por Aurelian Draven Há uma forma particular de cansaço que não vem do trabalho nem do corpo. Vem de fingir que uma conversa ainda existe quando já só há monólogo. Vem de anos a sustentar sozinho o peso de uma relação que a outra pessoa abandonou sem sequer o dizer. Esse cansaço não tem nome na nossa língua, mas todos os que o sentiram reconhecem-no instantaneamente: é o cansaço de quem carrega um morto e finge que ainda respira. A amizade verdadeira é pacto silencioso entre duas pessoas que concordaram em aparecer. Não sempre, não sem falhas, mas com consistência suficiente para que o outro saiba: posso contar contigo quando o mundo se fechar. Quando esse pacto se quebra apenas de um lado, quando uma das partes continua a aparecer e a outra simplesmente desapareceu sem nunca admitir que partiu, resta uma violência subtil que não tem testemunhas nem tribunal. A tentação da mártir Existe uma tentação sedutora em continuar. Convencemo-nos de que a nossa persistência é virtude, que a nossa capacidade de aguentar é prova de carácter. Contamos a nós próprios uma história bonita: eu sou a pessoa que não abandona, que fica quando fica difícil, que compreende que o outro está em crise e por isso perdoo tudo. Esta narrativa é confortável porque nos coloca no papel de herói. Mas frequentemente é apenas cobardia disfarçada de nobreza. Porque continuar a fingir que uma amizade existe quando já não existe não é ato de amor — é mentira partilhada entre nós e o fantasma que insistimos em alimentar. Há uma diferença brutal entre apoiar alguém numa fase difícil e tornar-se o contentor emocional permanente de uma pessoa que nunca pergunta como estamos. A primeira situação é temporária e recíproca no essencial: eu apareço agora porque sei que tu aparecerás quando for eu a precisar. A segunda é extração. E nenhuma amizade sobrevive a anos de extração sem reconhecimento. O que resta quando a raiva se cala Curiosamente, muitas pessoas só percebem o tamanho do desgaste quando a relação pára. Há quem descreva o primeiro mês sem a outra pessoa como revelação: de repente, há paz. De repente, já não há aquela sensação constante de estar em dívida, de não fazer o suficiente, de ser má pessoa por não conseguir fazer mais. O silêncio que vem depois de anos de ruído emocional é ensurdecedor. E nesse silêncio, torna-se finalmente possível ver o que estava ali o tempo todo: que a amizade tinha acabado há anos, e nós limitámo-nos a recusar ver. Que a outra pessoa já não investia, já não perguntava, já não aparecia — mas nós convencemo-nos de que era a crise, a depressão, as circunstâncias. E talvez fosse. Mas isso não muda o resultado: uma amizade não pode sobreviver só com o esforço de uma das partes. A armadilha da saúde mental Vivemos num tempo em que a linguagem da saúde mental se tornou moeda corrente. Isso trouxe ganhos enormes: redução de estigma, maior capacidade de pedir ajuda, reconhecimento de que o sofrimento psicológico é real e merece cuidado. Mas trouxe também uma distorção perigosa: a ideia de que ter uma perturbação mental justifica qualquer comportamento, e que apontar esse comportamento é crueldade. Não é. Uma pessoa pode estar genuinamente em sofrimento e, ao mesmo tempo, estar a tratar-nos mal. Estas duas coisas coexistem sem contradição. E a nossa compaixão pelo sofrimento da outra pessoa não nos obriga a aceitar indefinidamente o maltrato. Compaixão não é capitulação. Há pessoas que utilizam a sua condição mental como escudo permanente contra qualquer responsabilidade relacional. Explodem, magoam, desaparecem, exigem — e depois invocam a ansiedade, a depressão, o trauma para bloquear qualquer conversa sobre o impacto do seu comportamento. Este padrão não é doença mental; é manipulação que se serve da doença mental como ferramenta. E aqui reside o ponto mais difícil: podemos reconhecer que alguém está genuinamente em sofrimento e, simultaneamente, reconhecer que não somos obrigados a permanecer como alvo desse sofrimento. A saúde mental da outra pessoa não pode tornar-se a nossa prisão. Sobre culpa e clareza Quando finalmente escolhemos partir, a culpa vem. Talvez devesse ter aguentado mais. Talvez seja egoísmo. Talvez esteja a abandonar alguém que realmente precisa de mim. Estas perguntas são legítimas, mas frequentemente mal colocadas. A pergunta correta não é "será que sou má pessoa por partir?". A pergunta é: "esta relação ainda existe, ou estou apenas a recusar ver que já terminou?". Porque se a outra pessoa já partiu em tudo exceto no nome, se já não há reciprocidade, se já não há esforço do outro lado, então não estamos a terminar nada. Estamos apenas a reconhecer o que já aconteceu. Há uma crueldade específica em manter relações mortas. Crueldade para connosco, obviamente, que desperdiçamos anos em vínculos que nos drenam sem devolver nada. Mas também crueldade para com a outra pessoa, porque lhe permitimos acreditar que o seu comportamento é aceitável, que pode continuar indefinidamente a usar-nos como depósito emocional sem consequências. Partir pode ser o ato mais honesto possível. Não por raiva, não por vingança, mas por simples reconhecimento da realidade: isto terminou, e continuar a fingir que não terminou não serve ninguém. Os que ficam Haverá sempre quem critique. Quem diga que verdadeiros amigos não desistem, que na doença e na saúde, que devíamos ter aguentado mais. Essas vozes vêm frequentemente de pessoas que nunca estiveram na posição de carregar sozinhas o peso de uma relação durante anos. Ou vêm de pessoas que estão nessa posição mas ainda não admitiram a si próprias que já podem parar. Ignore essas vozes. Elas não conhecem o seu cansaço. Não viveram os seus anos de aparecer sem reciprocidade, de dar sem receber, de perdoar sem que houvesse sequer pedido de desculpa. Elas não têm informação suficiente para julgar, e mais importante: não têm direito. A única pessoa que precisa de estar em paz com a sua decisão é você. E essa paz não vem de aprovação externa. Vem de saber, no fundo, que fez o que podia enquanto havia algo para salvar, e que reconheceu o momento em que já não havia. Epílogo prático Terminar uma amizade não requer grande cena nem explicações intermináveis. Aliás, quanto mais explicamos, mais nos prendemos em discussões circulares onde a outra pessoa tentará convencer-nos de que estamos errados. E talvez estejamos. Mas se duvidamos há anos, se o cansaço é real, se a paz que sentimos na ausência é maior que qualquer paz que sentíamos na presença, então provavelmente não estamos errados. Podem bastar três coisas: reconhecer honestamente para si próprio que a relação terminou, comunicar isso de forma breve e clara se achar necessário, e depois simplesmente não estar disponível. Não bloquear em fúria, não elaborar listas de queixas, não tentar provar nada. Apenas reconhecer que este capítulo fechou, e agir em conformidade. Haverá tristeza. Haverá dias em que duvida. Haverá momentos em que se pergunta se não deveria ter tentado mais uma vez. Esses momentos são normais e não significam que errou. Significam apenas que está a processar uma perda real — porque mesmo quando uma amizade já estava morta, o seu fim oficial é luto legítimo. Mas do outro lado desse luto, se for honesto consigo próprio, provavelmente encontrará algo inesperado: espaço. Espaço emocional, espaço mental, espaço para relações que efetivamente funcionam. E nesse espaço, poderá finalmente perceber o tamanho do peso que carregava, e sentir alívio por finalmente ter tido coragem de o pousar. Sobre o próximo que nunca conhecemos #AlbertoCarvalho #LiteraturaPortuguesa #ReflexãoLiterária

  • Oliver Sacks e a tentação de inventar

    OPINIÃO · Mundo · Cultura · Medicina e Narrativa Durante décadas, Oliver Sacks foi o rosto perfeito de uma certa imagem da medicina: o médico que escuta, o escritor que transforma casos clínicos em literatura, o intelectual que devolve dignidade a quem foi reduzido a diagnóstico. Em muitas escolas médicas, “Awakenings” e “The Man Who Mistook His Wife for a Hat” tornaram-se quase evangelhos laicos: ler Sacks era aprender que cada doente é uma história e não apenas um conjunto de exames. A casa onde o tempo se senta. Mas por detrás desta figura luminosa havia um homem que viveu meio século no armário, preso a um consultório de psicanálise, atormentado pela sua própria relação com a verdade. E que, nas páginas dos livros, nem sempre se limitou a testemunhar; por vezes, reinventou. Quando chegou a Nova Iorque, em 1965, Sacks vinha embriagado de felicidade. Tinha trinta e dois anos, uma relação amorosa recente com um homem de quem guardava a carta no bolso e o pressentimento de que, ali, poderia finalmente ser quem era. Em Inglaterra, a mãe – cirurgiã, respeitada, temida – chamara à homossexualidade do filho “abominação” e dissera que preferia que ele nunca tivesse nascido. Não é fácil reconstruir uma vida depois de ouvir isto. A América parecia prometer outra coisa: liberdade sexual, liberdade moral, um mundo mais largo do que o consultório londrino onde a culpa era prescrição quase obrigatória. Mas essa promessa durou pouco. A relação terminou abruptamente, Sacks mergulhou num uso compulsivo de anfetaminas e acabou, ele próprio, deitado no divã. Entra em cena Leonard Shengold, o psicanalista que o acompanharia durante quase cinquenta anos. Três sessões por semana, depois duas, depois uma, numa fidelidade que sobreviveu a mudanças de casa, de emprego, de fama. A ortodoxia psicanalítica americana da época não era especialmente amiga dos homossexuais: a homossexualidade surgia como problema a “tratar”, muitas vezes à custa de celibato e sublimação. Sacks, que sonhava ser romancista e “Galileu do interior humano”, aceitou essa via: renunciou ao sexo, renunciou a relações, e atirou tudo para o trabalho e para a escrita. Há uma imagem que repete em cartas e diários: a mente como corpo que também tem as suas “ereções”. Se não podia amar um homem de carne e osso, talvez pudesse amar o cérebro humano, as suas falhas, as suas excentricidades. Começa a encher cadernos a um ritmo quase industrial – centenas de páginas por mês – e a transformar doentes em personagens. É aqui que o mito do médico-escritor se cruza com algo mais incómodo. Sacks dizia querer “dar voz” a quem não a tinha. Mas, nos bastidores, confessava a irmãos e amigos que os seus livros eram, em parte, contos: “meias observações, meia imaginação, meia ciência, meia fábula”, com uma fidelidade própria, não necessariamente factual. Vemo-lo, por exemplo, na forma como descreve um dos doentes mais famosos de “Awakenings”: um homem batizado de Leonard, apresentado como adolescente solitário, tímido, entregue aos livros, pouco ou nada interessado em sexo. Quando, anos mais tarde, vêm a público textos autobiográficos desse mesmo paciente, a figura é outra: um jovem socialmente ativo, com amigos, mas também autor de agressões sexuais graves que o próprio relata sem pudor. Sacks limpa essa dimensão por completo. Dá-nos um Leonard quase angelical, ideal para representar a consciência desperta à força por um comprimido milagroso. Para a narrativa funcionar, o passado precisava de ser higienizado. Noutro caso, a jovem Rebecca, com deficiência intelectual e luto recente pela avó, é transformada em aspirante a actriz que, graças a uma espécie de florescimento interior, descobre o teatro e ganha voz na vida. Nas transcrições das sessões e nas notas clínicas, essa metamorfose simplesmente não existe. Rebecca continua a sentir-se inútil, a repetir que teria sido melhor não nascer. O que muda é a maneira como o médico a escreve. Talvez o exemplo mais perturbador seja o dos gémeos autistas que, em “The Man Who Mistook His Wife for a Hat”, surgem como génios naturais dos números, capazes de trocar entre si primos com dezenas de dígitos num jogo quase místico. A literatura abraçou a história; a comunidade científica, não tanto. Estudos prévios sobre os mesmos gémeos nunca tinham identificado qualquer talento matemático especial, mas sobretudo a proeza que Sacks lhes atribui desafia aquilo que sabemos sobre cálculo humano. A sensação de milagre é literária; a verificabilidade, frágil. Importa perguntar: isto é apenas “licença poética” ou é outra coisa? É possível falar de ética médica e, ao mesmo tempo, aceitar que factos clínicos sejam moldados como quem corta e cose um romance? Sacks não era um cínico. Nos diários, atormenta-se com o que chama “mentiras”, “falsificações”, “confabulações”. Cita aquela frase, atribuída a Picasso, segundo a qual a arte é a mentira que diz a verdade – e não se convence. Sente que há qualquer coisa de “crime sem castigo” no modo como exagerou certos traços, apagou outros, deslocou vidas alheias para dentro da sua própria gramática. “Escrevo versões simbólicas de mim mesmo”, nota. Talvez seja a frase mais honesta do corpus. Porque, ao mesmo tempo que cuidava dos pacientes, Sacks usava-os como espelhos: os “acordares” que descreve neles são, muitas vezes, os que não consegue viver. O homem enterrado vivo em “Awakenings”, que desperta por uns meses e volta à letargia, é também o jovem Oliver que conheceu o amor, se assustou e regressou ao casulo analítico; a Rebecca que sonha com o palco é o médico que fantasia com uma vida plena e uma sexualidade assumida, mas se contenta com o papel de espectador. Só muito tarde – já octogenário, já famoso, já doente oncológico – Sacks ousa fazer aquilo que durante décadas pedia aos pacientes: contar a verdade sobre si. Assume a homossexualidade num livro de memórias, fala da mãe que o amaldiçoou, descreve anos de celibato como uma espécie de semi-morte. E, de repente, permite-se amar um homem, o escritor Bill Hayes, com quem partilha finalmente não apenas palavras, mas vida quotidiana, insónias, jantaradas e discussões. É com ele ao lado que escreve os últimos textos, serenos, gratos, reconciliados. Há um episódio final, quase discreto, que diz muito. Pouco antes de morrer, liga ao analista de sempre, Leonard Shengold, que passa férias numa casa modesta, rodeado de família. Pela primeira vez em quase cinquenta anos de sessões, tratam-se pelo primeiro nome. “Foi a honra da minha vida trabalhar consigo”, diz o psicanalista. Desligam, ambos a chorar. Há aqui um laço real, não inventado. E talvez seja este, no fim, o tipo de relação que Sacks sempre procurou nas histórias clínicas: alguém que o visse e o nomeasse com ternura. O que fazemos nós, leitores, com este legado ambivalente? Podemos, por um lado, continuar a ver em Sacks o homem que abriu espaço à medicina narrativa, que obrigou médicos a olhar para pessoas e não para organogramas, que inspirou gerações a pensar o doente como sujeito e não como caso. Esse mérito é inegável. Mas temos de aprender também com as suas sombras. Com o facto de que empatia, quando não é vigiada, se transforma em apropriação. Que “dar voz” pode significar falar por cima. Que o desejo de sentido leva muitas vezes a arredondar biografias, apagar zonas escuras, inventar desfechos redentores que só existem no papel. Para o jornalismo, para a literatura factual, para qualquer projeto que queira contar vidas reais – incluindo este em que escrevo – a história de Sacks é aviso e oportunidade. Aviso, porque nos lembra que não há boa intenção que justifique falsificar o que está à frente dos olhos. O doente, o leitor, o cidadão merecem a verdade inteira, mesmo quando ela é desconfortável, mesmo quando não cabe num arco narrativo bonito. Oportunidade, porque nos lembra que não precisamos de escolher entre rigor e humanidade. Podemos escutar com atenção, escrever com beleza, e ainda assim manter a humildade de reconhecer aquilo que não sabemos, aquilo que não é nosso, aquilo que não nos pertence reescrever. Oliver Sacks passou a vida a tentar despertar os outros. Faltou-lhe tempo para se despertar a si próprio mais cedo. Talvez a nossa responsabilidade, agora, seja outra: não repetir o mesmo atraso, nem nas relações, nem na ciência, nem na forma como contamos a história dos outros. por Alberto Carvalho Homem idoso junto a um candeeiro antigo #CadernoDoAC #ComunidadeAC #AlbertoCarvalho #Velhice #Idosos #Solidao #Familia #CuidarDosMaisVelhos #RetratosDoTempo #PortugalInterior #Portugal

  • A Idade em Que a Vida Começa a Falar Mais Alto

    Há dias em que me sinto como se tivesse tropeçado numa idade nova sem ter dado por isso. Não é dramático, nem romanesco: é apenas o momento em que percebemos que já não pertencemos totalmente ao clube dos que ainda acreditam que tudo é recuperável. Um dia acordamos e reparamos que o nosso guarda-roupa já não muda com as estações, que há amizades que ficaram num banco de jardim de há dez anos e que a cidade, tão barulhenta, nos devolve agora um eco mais nítido das nossas próprias inquietações. Tenho pensado muito nisso desde que uma amiga, à mesa de um café da Baixa, me perguntou: “Quando é que foste adulta, afinal?” Fiquei a olhar para as chávenas, como se ali estivesse o oráculo. Ela fez quarenta há pouco tempo e anda a partir as águas do quotidiano para ver se encontra um sentido escondido. E eu, a caminho, percebi que envelhecer não é um colapso: é uma espécie de revelação. Só que ninguém nos prepara para esta revelação ser tão cómica quanto solitária. O mais curioso é que, nos últimos meses, me tenho cruzado com histórias de mulheres que decidiram transformar o caos da meia-idade em coreografia pública. Não conheço nenhuma delas pessoalmente; conheço, sim, aquela coragem improvisada que usamos quando a vida se rompe e precisamos de reinventar o corpo que ficou. Há quem faça disso canções, quem faça disso mudanças de casa, quem faça disso confissões a meio de um jantar. Cada uma encontra a sua forma de voltar a respirar. O que me interessa nessas histórias não é a celebridade nem os dramas que alimentam cliques. O que me interessa é a sinceridade inesperada que emerge quando deixamos cair o verniz. A primeira vez que ouvi uma dessas músicas sobre separações tardias e recomeços imperfeitos, dei por mim a rir no elétrico 28, com a música nos auriculares, e a pensar que talvez toda a gente estivesse a passar pelo mesmo. A verdade é que há uma altura da vida em que os nossos medos já não são discretos: andam connosco como sacos das compras esquecidos, pesados, visíveis, inevitáveis. E depois há aquele detalhe íntimo, quase universal, de perceber que o corpo mudou. Não é tragédia; é geografia. A pele aprende a contar histórias, as rugas fazem sinais de trânsito, e a vontade de arrumar o rosto — de o “melhorar”, seja lá o que isso signifique — aparece sem ser convidada. No outro dia, ouvi alguém dizer que “um pequeno ajuste resolve quase tudo”. Sorri com ternura. Porque sei que nenhum ajuste resolve o tempo, mas alguns ajudam a pôr-nos de pé enquanto pensamos no que é realmente importante. As conversas com as minhas amigas têm sido um concerto de temas novos: pais que envelhecem depressa, filhos que crescem devagar, separações tardias, tentações de fuga, empregos que já não nos dão o nome inteiro, e aquela pergunta teimosa — e agora, o que faço com esta vida? Há sempre um momento em que alguém faz uma piada para aliviar o peso, e é nesse instante que percebo que todas estamos a aprender a rir do que antes nos assustava. Talvez seja isso que me toca nestas figuras públicas que transformam o seu tumulto em espetáculo: não a exposição, mas a oferta involuntária de reconhecimento. A sensação de que alguém vocaliza, com luzes e câmaras, aquilo que nós sussurramos no caminho para casa. O que há de mais humano na meia-idade não é a crise: é a honestidade que ela exige. Ou nos escondemos dela, ou deixamos que ela nos abra uma porta. Eu, que passo a vida a observar a cidade, percebo agora que os lugares onde antes via juventude desvairada — bares pequenos, passeios iluminados, esplanadas improváveis — são ocupados por pessoas que carregam dentro de si a mesma pergunta que eu. Estão a aprender a viver com a verdade inteira, sem filtros, sem aquele entusiasmo performativo dos vinte e poucos anos. E isso, ao contrário do que imaginávamos, tem uma beleza tranquila. No fim de tudo, não sei se existe uma “crise da meia-idade” ou apenas um momento em que percebemos que já vivemos o suficiente para nos conhecermos a sério. A vida deixa de ser uma sucessão de possibilidades e passa a ser um território de escolhas. É mais estreito, sim. Mas é finalmente nosso. E talvez seja por isso que, quando ouço alguém cantar sobre perdas, recomeços e a coragem de se mostrar partida, não sinto pena. Sinto companhia. Sinto que alguém, algures, encontrou uma forma de transformar a confusão dos quarenta em claridade. E penso que, se calhar, é disso que precisávamos: não de glamour ou de escândalo, mas de alguém que nos lembrasse que ainda podemos começar de novo — mesmo que a nova vida avance devagar e, às vezes, nos faça tropeçar. Maria do Rio Retrato de Maturidade #MariaDoRio #CadernodasPraça #Crónica #CrónicaUrbana #LiteraturaContemporânea #Reflexões #MeiaIdade #VidaAdulta #TempoQuePassa #Cotidiano #PalavrasQueFicam #Portugal

  • Quando o Presidente dos USA Pisca os Olhos

    Eu estava no café da Praça, àquela hora indecisa entre a tarde e o princípio da noite, quando na televisão apareceu a imagem do presidente dos Estados Unidos. Não vinha com discursos inflamados nem com aquela energia teatral a que nos habituou. Vinha sentado, pesado, a lutar contra o sono no meio de uma reunião que parecia interminável. Trump, o homem que faz da força um adereço, inclinava-se para a frente, fechava os olhos por segundos e regressava ao mundo com o sobressalto de quem nega o corpo. A sala do café ficou em silêncio por um instante, como se todos tivéssemos assistido a algo proibido. Há qualquer coisa de íntima em ver alguém tão poderoso a piscar os olhos de cansaço. Não é só a idade — embora a idade tenha o hábito de cobrar juros inesperados. É o corpo, que não obedece à narrativa. É a vida, que se infiltra, mesmo onde as câmaras mandam. A televisão repetia o momento em loop, cada vez mais ampliado, como se a América inteira estivesse a perguntar-se se o cansaço é um defeito ou uma ameaça. Mas para mim, sentada ao lado de uma chávena morna, o que sobressaiu foi outra coisa: a humanidade que escapa pelas fissuras do poder. Há anos que Trump encena força, vitalidade, resistência, como se governar fosse um desporto de combate. Estar cansado — ou parecer cansado — não cabe no papel que escreveu para si. E talvez por isso a imagem tenha sido tão desconcertante. O corpo traiu o enredo. Lá ao fundo, um senhor comentou: “É velho, coitado.” E logo outro respondeu: “Velho? Ele é presidente dos Estados Unidos!” Como se uma coisa anulasse a outra. Observei aquela troca e percebi que ainda esperamos que os líderes sejam monumentos, não pessoas. Ainda acreditamos que quem manda não tem direito a fraquezas. E, no entanto, basta um piscar de olhos mais longo para revelar o óbvio: ninguém escapa ao peso dos dias. Nem Trump, que faz questão de repetir que está mais afiado do que nunca. A cidade, vistas as coisas daqui, parece mais sábia. No mesmo café onde um homem adormece com a cabeça sobre o jornal, ninguém se escandaliza. No elétrico, as pessoas fecham os olhos duas ou três paragens, e ninguém lhes exige provas de vigor. Só aos que têm poder é que nos permitimos essa fantasia antiga: a de que o corpo deles não envelhece. Talvez seja isso que me inquieta — não o facto de Trump fechar os olhos, mas a nossa incapacidade de aceitar que até os gigantes têm limites. E que o verdadeiro problema não é o cansaço, mas a encenação permanente de força que não permite reconhecer o que é evidente. Há dias em que o mundo parece avançar depressa demais, e tudo o que esperamos é que alguém esteja plenamente acordado enquanto decide o que acontece connosco. Mas depois vejo aquela imagem — o presidente, o homem que construiu a sua mitologia sobre grandeza e domínio, a ceder por um instante ao corpo — e penso que, se calhar, é justamente nisso que devíamos reparar: no desconforto que sentimos quando percebemos que o poder também é humano. Saí do café com essa ideia a acompanhar-me como sombra. Lá fora, os candeeiros acendiam-se um a um, meio sonolentos, como se também eles precisassem de um esforço para cumprir o seu papel. E eu, a caminhar devagar pela Praça, dei por mim a pensar que talvez não seja mau que o mundo veja, de vez em quando, um presidente a adormecer. É que só quando o poder baixa a guarda é que nos lembramos que somos todos, afinal, feitos do mesmo sono. Maria do Rio Balões Festivos com Estrelas e com as Cores Americanas #MariadoRio #USA #DonaldTrump

  • A Ópera Espanhola Que Nunca Saiu de Casa

    Tenho um vizinho que faz o melhor arroz de polvo da rua. Toda a gente sabe. Mas ele nunca abre restaurante, nunca vai a concursos, nunca aparece na televisão. Diz que "isso é para quem quer dar nas vistas". O arroz continua ali, na panela dele, óptimo, secreto, quase teimoso. A ópera espanhola é um bocado assim. A Descoberta de Quem Não Estava à Procura Fui a Espanha no mês passado. Não fui em turismo cultural organizado, não tinha bilhete comprado com três meses de antecedência, não levava guia de viagem sublinhado. Fui porque me apeteceu e porque há sempre comboios. Acabei numa sala de espetáculos que parece uma nave espacial que desistiu de descolar. O edifício é branco, curvo, enorme, e tem aquele ar de "custei muito dinheiro e dei chatices durante as obras". Vi depois que se chama Palau de les Arts e que em Valência andam há anos a discutir se aquilo é génio ou disparate arquitetónico. Lá dentro havia um cartaz: estreia mundial de uma ópera. Pensei "ora bem, estreia mundial é coisa que não se vê todos os dias". Comprei bilhete. Sentei-me. Apercebi-me rapidamente que estava rodeado de gente que percebia daquilo muito mais do que eu. A coisa chamava-se "Enemigo del Pueblo" e contava uma história simples: um médico descobre que as águas termais da terra dele estão poluídas, tenta avisar toda a gente, e em vez de herói acaba tratado como inimigo público porque ninguém quer más notícias quando há dinheiro envolvido. Parecia-me uma história atual, mas afinal era do século XIX. Ou então é que as palhaçadas humanas não mudam grande coisa. Quando a Música Fala Mais Alto Que as Palavras Não sou especialista. Já estabelecemos isso. Mas duas coisas me ficaram cravadas: primeiro, a música começou com uma espécie de marcha de tourada toda torta, como se o maestro tivesse bebido uns copos antes de escrever o compasso. Depois percebi que era de propósito. A ideia seria mostrar que a tradição popular estava ali mas desarrumada, às cegas. Segundo: havia momentos em que a orquestra tocava tão alto que os cantores desapareciam debaixo do som. Não sei se era falha técnica ou intenção artística. Talvez fosse as duas coisas ao mesmo tempo, como quase tudo na vida. O compositor, um tal Francisco Coll que é de Valência mas estudou em Inglaterra, dirigia ele próprio. No fim levantou-se e a sala veio abaixo em aplausos. Não eram só os amigos dele. Era gente séria, de casaco e ar circunspecto, a bater palmas como se tivesse visto qualquer coisa que valia a pena. Fiquei a pensar: se isto é uma estreia mundial, porque é que não há disto mais vezes? Porque é que quando se fala de ópera se fala sempre da mesma meia dúzia de italianos mortos há duzentos anos? O Mistério da Ópera Que Nunca Saiu de Casa Vim para o hotel e fiz o que qualquer pessoa curiosa faz: pus-me a ler. Descobri coisas estranhas. A ópera chegou a Espanha no século XVII. Na altura, Espanha tinha dramaturgos de primeira categoria — gente que escrevia tão bem que meter música por cima parecia redundante. Depois inventaram a zarzuela, que é uma ópera híbrida onde se canta umas partes e se fala outras. É charmosa mas específica. Não viaja bem. Resultado: a ópera espanhola ficou ali, em casa, como o arroz de polvo do meu vizinho. Bom, mas caseiro. O Teatro Metropolitan de Nova Iorque, que é tipo a Champions League da ópera, apresentou exatamente duas obras espanholas em mais de cem anos. Duas. É como se tivéssemos uma seleção de futebol excepcional mas nunca jogássemos fora. Isto não é por falta de qualidade. É que há coisas que simplesmente não viajam. A língua, o ritmo, a forma de contar histórias. Funciona perfeitamente dentro de portas, mas quando sai fica estranha, deslocada, como um fado cantado em alemão. Madrid, Ou: Quando Menos É Mais Fui depois a Madrid porque já lá estava e porque os comboios espanhóis funcionam. O Teatro Real tinha programado uma noite inteira dedicada a Bartók, que era húngaro e portanto nada tinha a ver com Espanha, mas enfim. Não interessa. O que interessa é que aquilo era minimalista de morrer. Cenário? Um terreno baldio com lixo espalhado e uma cabine telefónica velha. Figurinos? Neutros. Nada de grandes efeitos, nada de cortinas de veludo vermelho ou candelabros dourados. E funcionava. Às vezes menos é realmente mais. Quando não há distrações visuais, a música e a história ficam nuas. Ou funcionam ou não há onde se esconder. A soprano alemã que cantou era daquelas que não precisa de gritar para dominar uma sala. Fazia tudo com o corpo, com as mãos, com a forma como respirava. Vi-a cruzar as mãos no colo — apenas isso — e percebi que a personagem tinha desistido. Não foi preciso dizer nada. Isto é talento ou então é magia. Não sei distinguir. O Que É Que a Gente Faz com Isto? Saí de Madrid com duas certezas e uma dúvida. Certeza número um: a ópera espanhola existe, é boa, e há gente a fazer coisas novas em vez de repetir o que já foi feito mil vezes. Certeza número dois: isto nunca vai ser popular. Não vai competir com a Série A italiana ou os grandes Wagner alemães. Mas também não precisa. Há um público, há teatros, há orquestras jovens que tocam com vontade. A dúvida é esta: porque é que ficamos sempre à espera que as coisas sejam exportadas para as validarmos? Porque é que o arroz de polvo do meu vizinho tem de ganhar um prémio Michelin para eu achar que é bom? Há criações que ficam bem onde nasceram. Não é provincianismo. É identidade. É saber que não é preciso conquistar o mundo para valer a pena. A ópera espanhola não precisa de ser internacional. Já é internacional dentro de Espanha, que tem catalães, bascos, galegos, andaluzes, todos com as suas manias e os seus sotaques. Tentar agradar a Nova Iorque ou Viena seria diluir aquilo que a torna única. Voltando a Casa Regressei a Portugal de comboio, como devia ser. Trouxe na bagagem uma certeza incómoda: passamos a vida a achar que o que é bom tem de ser universal, exportável, reconhecido por toda a gente. Mas às vezes o melhor fica mesmo em casa. Não porque seja inferior. Porque é específico, íntimo, nosso. Tal como o arroz de polvo do meu vizinho. Agora vou mas volto. Estou com vontade de bater à porta dele e pedir uma malga. Zé, Caderno do Zé Interior do Gran Teatre del Liceu de Barcelona - Arquitectura operática catalã #Cultura #Crónica #Espanha #Música #Viagem #Teatro #IdentidadeCultural #Ópera #Valência #Madrid #Arte #Tradição #CadernodoZé #ÓperaEspanhola #CulturaLocal #Artelocal

  • A Ópera Espanhola

    Há coisas que a gente aprende e fica a olhar para o teto a pensar "mas então e agora?". A ópera espanhola é uma dessas. Está ali ao lado, desceu da mesma Itália que inventou a coisa, andou séculos a fazer barulho em teatros cheios de ouro e veludo, e hoje? Hoje é como aquele primo que emigrou, fez a vida lá fora e nunca mais aparece no Natal. Vou explicar. Quando a Ópera Chegou a Espanha e Ninguém Ligou Nenhuma A história começa em 1627. A ópera tinha sido inventada em Florença há menos de trinta anos — ainda cheirava a tinta fresca, por assim dizer. E uns italianos expatriados em Madrid tiveram a brilhante ideia de fazer lá uma récita. Chamaram-lhe "La Selva sin Amor" (A Selva Sem Amor, o que já é um título que promete drama). O libreto foi escrito por Lope de Vega, que na altura era tipo o Cristiano Ronaldo da escrita teatral espanhola. A música ficou a cargo de dois tipos, Piccinini e Monanni, que suponho terem feito o melhor que sabiam. Resultado? Ninguém quis saber. E não era por falta de talento. Era porque em Espanha já havia Lope de Vega, Calderón de la Barca, Cervantes — gente que escrevia tão bem que as palavras sozinhas já faziam o espetáculo todo. Meter música por cima daquilo devia parecer o mesmo que pôr ketchup num bife de Barrosã: desnecessário e ligeiramente ofensivo. A mesma coisa se passou em Inglaterra, aliás. Shakespeare e Marlowe escreviam versos tão potentes que a ideia de os cantar devia soar a desperdício de tempo. A Zarzuela, Ou: A Ópera à Moda da Casa Passaram umas décadas e os espanhóis decidiram fazer à maneira deles. Inventaram a zarzuela, que é uma espécie de ópera em que se canta umas partes mas outras falam-se normalmente. É como aquelas peças de teatro onde de repente alguém começa a cantar e depois volta a falar como se nada fosse. Funcionou bem em Espanha. Fora de Espanha? Nem por isso. A zarzuela ficou ali, caseira, como um bom cozido à portuguesa: toda a gente que prova gosta, mas ninguém pensa em abrir um restaurante de cozido em Paris. Nos séculos seguintes, a ópera espanhola não conseguiu singrar lá fora. O Metropolitan Opera de Nova Iorque, que é a casa da ópera por excelência, só apresentou duas obras espanholas até hoje: "Goyescas" de Granados em 1916, e "La Vida Breve" de Falla em 1926. Duas. Em mais de cem anos. Portanto, se queremos ver ópera espanhola, temos de ir a Espanha. É como ir à Escócia beber whisky decente: convém ir à fonte. Uma Baleia Encalhada Cheia de Música Há quem já tenha visitado o Palau de les Arts Reina Sofía, que é uma espécie de baleia futurista encalhada na praia projetada por Santiago Calatrava. O edifício custou centenas de milhões de euros e deu polémica como deve ser: obras intermináveis, mudanças de última hora, gente a dizer que aquilo parecia uma nave espacial mal estacionada. Mas lá dentro? Lá dentro há uma orquestra jovem, a Orquestra de la Comunitat Valenciana, que toca com mais vontade e precisão que muitas orquestras velhas e cansadas de tanto tocar sempre a mesma coisa. Há quem tenha visto a estreia mundial de "Enemigo del Pueblo", uma ópera de Francisco Coll. O rapaz tem quarenta anos, nasceu em Valência, estudou em Espanha e depois foi para Inglaterra aprender com Thomas Adès, que percebe daquilo. A ópera é baseada numa peça do Ibsen, "Um Inimigo do Povo", que estranhamente nunca ninguém tinha transformado em ópera. A história é simples mas eficaz: um médico descobre que as águas termais da terra dele estão contaminadas, tenta avisar toda a gente, e de herói passa a pária porque ninguém quer ouvir más notícias quando há dinheiro envolvido. Parece-me familiar, não sei porquê. Comprimido Como Café de Cápsula O libreto foi escrito por Àlex Rigola, que também dirigiu a produção. E aqui está o problema: pegou nas cinco actas da peça original e espremeu tudo em duas, com menos de noventa minutos no total. Ficou tudo muito rápido. Tipo resumo de novela brasileira quando queremos pôr alguém a par da intriga mas temos pressa. A cena crucial — a reunião da assembleia onde o médico perde a cabeça e insulta a inteligência do povo — passa a correr. Não vemos o homem a perder a compostura aos poucos. Vemo-lo saltar quase de imediato para o discurso incendiário. O fim então, em que ele decide educar o povo sozinho, é ainda mais apressado. Resumindo: faltava carne no molho. Mas. A música de Coll salva tudo. A ópera abre com um pasodoble frenético — aquela marcha que se ouve nas touradas — mas num compasso torto de sete tempos em vez dos habituais dois. A harmonia está toda torcida, como se o pasodoble tivesse bebido a mais e andasse aos ziguezagues. É brilhante. Ao longo da ópera há momentos folclóricos assim, que surgem de vez em quando para lembrar que a energia popular vai acabar por engolir o médico. Há passagens violentas da orquestra que sugerem a indiferença brutal da natureza. Há momentos quase wagnerianos quando o protagonista se põe em bicos de pés. O elenco esforçou-se mas teve dificuldade em fazer-se ouvir por cima da orquestra potente. José Antonio López, que fazia o médico, tem uma voz bonita mas às vezes perdia-se no ruído. A soprano americana Brenda Rae conseguiu aguentar-se melhor, com agudos brilhantes e uma presença forte. Coll dirigiu a ópera ele próprio. Recebeu a ovação maior da noite. Não foi só porque era de Valência e estava em casa. Foi porque aquilo era bom mesmo. Bartók em Madrid, Porque Nada É Simples Já há quem tenha ido Madrid, ao Teatro Real, que é a casa de ópera oficial desde 1850. Estavam a dar uma noite inteira dedicada a Bartók: o bailado "O Mandarim Maravilhoso" e a ópera "O Castelo de Barba Azul", com um pedaço pesado de música orquestral no meio como intervalo. O Teatro Real tem apoiado bastante a ópera contemporânea. Desde 1997 já fizeram estreias mundiais de vinte obras novas. Ajudaram a produzir o "Enemigo" de Coll e vão apresentá-lo em Fevereiro. A produção de Bartók foi dirigida por Christof Loy, um alemão veterano que agora vive em Madrid e fundou uma companhia para reviver zarzuelas. A encenação era minimalista e urbana: cenários que pareciam um terreno baldio qualquer, com uma cabine telefónica velha de um lado, uma estrutura tipo armazém do outro, e lixo espalhado por todo o lado. Para "O Mandarim Maravilhoso", que é uma história de malandros e uma rapariga que usam para atrair vítimas, aquele cenário funcionava perfeitamente. Para "O Castelo de Barba Azul", que é sobre uma mulher que descobre o destino das esposas anteriores do marido, já era mais forçado. Mas Loy tem um minimalismo sombrio com humor beckettiano que criou uma linha narrativa convincente para toda a noite. Loy fez ele próprio a coreografia do "Mandarim", num estilo atlético e livre que muitas vezes parecia uma luta de boxe erotizada. Carla Pérez Mora fez a rapariga com ferocidade controlada; Gorka Culebras transformou o mandarim num mártir sofredor. Em "Barba Azul", a presença dominante foi Evelyn Herlitzius, soprano alemã que cantou Judith com força cortante e gestos de actriz milimétricos. Não via uma cantora encarnar o destino simplesmente cruzando as mãos no colo desde Anja Silja. Christof Fischesser, como Barba Azul, não conseguiu igualar a intensidade dela, mas o baixo dele era sólido e profundo. Gustavo Gimeno dirigiu na orquestra com instinto natural para os ritmos e cores de Bartók. O Que É Que Fica? Aqueles pioneiros florentinos que inventaram a ópera em 1600 não perceberiam nada disto se cá viessem. Mas ficavam impressionados na mesma. Porque o que eles queriam era precisamente isto: texto, música, imagem e sentimento tudo junto sem costuras à mostra. A ópera espanhola não conquistou o mundo como a italiana ou a alemã. Ficou ali, em casa, como fica a receita da avó que ninguém escreve mas toda a gente faz. Mas quando se vai a Espanha e se entra naquelas salas — seja na baleia encalhada de Valência ou no Teatro Real de Madrid —, percebe-se que há ali qualquer coisa viva e teimosa. Uma língua musical diferente. Uma forma de contar histórias que não copia ninguém. E isso, meus amigos, é coisa rara. Agora vou mas volto. Tenho uma sopa no lume e não quero que pegue. Zé, Caderno do Zé Selos de Espanha #ÓperaEspanhola, #Zarzuela, #Espanha, #MúsicaClássica, #TeatroReal, #Valência, #CadernoDoZé

  • Portugal, perdão presidencial e confiança na justiça

    Há textos que escrevemos a olhar para longe e, sem darmos por isso, estamos apenas a dar uma volta para regressar a casa. As primeiras partes deste ensaio falavam de um “país sem nome”, de um Presidente distante e de um poder de perdão que parecia viver sobretudo noutra latitude. Era mais fácil assim: conversar sobre o perigo sem olhar diretamente para o espelho. O Preço do Perdão – Parte IV | Portugal ao Espelho Mas o espelho está aqui. Chama-se Portugal. Não temos o espetáculo americano, não temos “prime time” para anunciar indultos, nem conferências de imprensa em que se vendem perdões como se fossem promessas de campanha. Temos outra coisa: uma tradição discreta, quase doméstica, feita de gestos pequenos, justificações técnicas e uma convicção antiga de que “somos brandos”. É essa brandura, tantas vezes confundida com bondade, que hoje me inquieta. I — A clemência em voz baixa Entre nós, o perdão raramente faz manchete. Surge em notas de rodapé, no Diário da República, em comunicados secos da Presidência, ou diluído em leis de amnistia votadas na Assembleia como quem vota o calendário escolar. A forma é burocrática, mas o efeito é o mesmo: a mão do Estado entra na esfera dos tribunais e diz “basta assim”. Um Presidente pode indultar, comutar penas, aliviar o castigo de um rosto concreto. O Parlamento pode decidir que, por causa de uma visita do Papa, de um aniversário redondo de Abril ou de um qualquer momento simbólico, milhares de crimes deixam de ser puníveis ou passam a ser castigados com menos. Chamamos a isto tradição humanista. Eu chamo-lhe também outra coisa: poder concentrado, ainda que exercido em voz baixa. O problema não é que a clemência exista; é a facilidade com que o país deixa de se interrogar sobre o seu uso. Em Portugal, a pergunta raramente é “porquê?”; quase sempre é “quanto apanha?”. E, quando muito, “quem entra e quem fica de fora?”. O debate moral evapora-se em detalhes técnicos. II — As prisões que pedem desculpa por existir Durante décadas, justificámos amnistias e perdões com o mesmo argumento: as prisões estão cheias. As celas não chegam, as casas de banho são poucas, os reclusos vivem amontoados, os guardas não dão conta do recado. E, porque a realidade é dura, o país habituou-se à solução suave: perdoa-se um pouco, abre-se espaço, “alivia-se o sistema”. É uma espécie de ventilador jurídico: em vez de consertar o edifício, abrimos janelas de tempos a tempos para o ar não ficar irrespirável. Mas cada amnistia que serve apenas para aliviar sobre-lotação é, no fundo, uma confissão política: não conseguimos ou não queremos reformar estruturalmente o sistema prisional, por isso pedimos desculpa com uma caneta. O perdão passa a ser substituto da reforma, remendo daquilo que não se quis enfrentar. E um país que trata a sua política penal com remendos acaba a viver num casaco que nunca assenta bem a ninguém. III — O país das exceções simpáticas Há um traço muito português que se cola facilmente à clemência: a cultura da exceção simpática. Conhecemos bem essa lógica: “Ele até é boa pessoa”, “foi um momento”, “não vamos arruinar a vida de um rapaz por causa disto”. É uma linguagem cheia de compaixão e, ao mesmo tempo, cheia de risco. Porque a pergunta seguinte raramente é feita: e os outros? Quando uma lei de amnistia é desenhada à medida de determinados delitos — muitas vezes ligados a juventudes, a trânsito, a pequenos ilícitos do quotidiano — o país tende a pensar no filho, no sobrinho, no vizinho que “se calhar até beneficia”. Mas raramente pensa na mensagem que passa a quem nunca teve qualquer indulgência. O motorista que matou alguém numa estrada e recebe a notícia de que a pena encolheu por decreto; o agressor que vê o seu crime ficar abaixo da fasquia da amnistia; o condenado por corrupção que percebe que o país é severo nas palavras e indulgente na prática. Entre a simpatia e a incoerência vai a distância de um artigo de lei. E nós percorremo-la com uma facilidade assustadora. IV — Quem cabe dentro da misericórdia? Gosto de imaginar, às vezes, a lista invisível que acompanha cada decisão de perdão. Há sempre uma lista, mesmo quando não está escrita: crimes incluídos, crimes excluídos; idades limite; datas de prática do facto; tipos de pena. No papel, tudo é neutro. Na realidade, essas fronteiras têm consequências morais. Quando um país decide que determinados delitos são “amistiáveis” e outros não, está a ordenar a sua escala de valores. Um exemplo: a facilidade com que somos capazes de perdoar certos crimes económicos em comparação com a relutância em admitir clemência para delitos ligados à violência sobre crianças ou à violência doméstica. É compreensível que haja diferenças — mas também é revelador que, muitas vezes, a linha não seja traçada em função da gravidade objetiva do dano, mas da sensibilidade momentânea da opinião pública. Há crimes que “pegam mal” num diploma de amnistia, e não porque a ética o exija, mas porque a fotografia política seria devastadora. E, no entanto, quantas vezes discutimos isto seriamente? Quantas vezes perguntamos, em voz alta: quem cabe dentro da misericórdia pública e quem é definitivamente empurrado para fora? V — O silêncio como cumplicidade Em Portugal, quase ninguém perde eleições por causa de um indulto ou de uma amnistia. Não há comícios dedicados ao tema, não há debates televisivos de grande audiência a desmontar cada caso. O assunto vive em comissões discretas, pareceres jurídicos, relatórios densos que poucos leem. A sociedade civil, salvo raras exceções, aceita. A comunicação social acompanha um dia, dois, e passa ao assunto seguinte. Este silêncio não é inocente. Quando uma democracia abdica de discutir os seus mecanismos de perdão, abdica também de vigiar a linha que separa a compaixão da arbitrariedade. Ficamos apenas com a versão administrativa da misericórdia: carimbos, despachos, números de processo. O país olha de longe e diz: “Eles lá sabem.” Mas “eles” não são um corpo metafísico. São pessoas, com preferências, crenças, pressões, simpatias e medos. E, sem escrutínio público, é natural que o perdão se incline devagar na direção do costume: os que têm melhor advogado, melhor acesso, melhor contacto, melhor telefone. VI — O espelho que não perdoa Talvez a pergunta decisiva, quando falamos de Portugal, não seja “quantos perdões concedemos?”, mas “que tipo de país produzimos a partir deles?”. Se a clemência serve para corrigir injustiças flagrantes, para responder a situações humanamente insustentáveis, para diminuir penas desproporcionadas, ela é um sinal de maturidade democrática. Mas se se torna anestesia periódica para um sistema que não queremos reformar — prisões degradadas, penas desenhadas sem estudos sérios de eficácia, leis que acumulam remendos — então o perdão deixa de ser virtude e passa a ser fuga. O espelho não mostra apenas o Presidente que assina ou o Parlamento que aprova; mostra um país inteiro que preferiu aliviar do que transformar. E talvez seja isso que mais me inquieta: a possibilidade de estarmos a usar a clemência não como expressão da nossa humanidade, mas como desculpa para não exercermos, com seriedade, a nossa responsabilidade política. VII — Um convite desconfortável Não escrevo estas linhas contra o perdão, nem contra quem o exerce. Escrevo-as contra o automatismo. Contra a normalidade preguiçosa com que aceitámos que amnistias se tornem rituais de calendário e que indultos surjam descontextualizados, sem uma explicação pública que trate os cidadãos como adultos. Talvez fosse tempo de um compromisso simples: cada ato de clemência deveria vir acompanhado de um relato claro — não apenas jurídico, mas moral — das razões que o justificam e das lições que dele retiramos para o sistema como um todo. Perdoar alguém não pode significar esquecer o que falhou antes. Se um indulto é necessário porque a pena foi excessiva, então precisamos discutir a lei que a permitiu. Se uma amnistia é inevitável porque as prisões colapsam, então é a política prisional que tem de ir a votos, não apenas os diplomas que aliviam o sintoma. Portugal ao espelho não é um exercício de vergonha; é um exercício de lucidez. Olhar para a nossa tradição de indulgência não para a destruir, mas para a tomar a sério. Talvez, um dia, possamos dizer que continuamos a ser um país “brando”, mas no sentido adulto da palavra: brando porque sabe distinguir a dureza necessária da crueldade inútil; brando porque usa o perdão com transparência e parcimónia; brando porque não confunde misericórdia com esquecimento. Até lá, resta-nos esta pergunta, simples e difícil: quando a caneta se aproxima do papel, em nome de quem perdoamos afinal — em nome da justiça ou em nome da nossa própria resistência a mudar? Autor: AC Parlamento português com a bandeira nacional ao alto #Portugal, #Justiça, #Presidencia, #EstadoDeDireito

  • O Preço do Perdão — Parte III: O Rosto e a Máscara

    Há sempre um momento, na história de qualquer poder, em que o país percebe que já não está a discutir a justiça — está a discutir a aparência da justiça. E, nesse instante silencioso, aquilo que era transparente adquire um brilho estranho. O país olha, mas já não vê. Escuta, mas já não distingue. A justiça continua lá, mas está coberta por uma película fina — uma máscara que imita o rosto, mas não é o rosto. A máscara surge primeiro como proteção, depois como hábito, por fim como identidade. E quando a máscara se cola ao rosto, deixa de ser possível separar as duas coisas. É aqui que começa esta terceira parte. I — A Arte de Parecer Justo Nenhuma instituição resiste muito tempo sem teatralidade. O poder aprendeu isso muito antes de existir democracia. Há rituais, símbolos, discursos solenes, assinaturas filmadas, portas que se abrem devagar, fachadas que se iluminam ao entardecer. Tudo isto existe para dizer ao país: “estamos aqui, somos dignos, somos confiáveis”. Mas o que acontece quando o ritual se torna mais importante do que o conteúdo? Quando a pose se sobrepõe ao princípio? Quando o gesto vale mais do que o critério? O perdão presidencial, essa cerimónia sempre envolta em nobreza, corre um risco particular: o de se tornar um espetáculo que convence não pelo que decide, mas pelo que encena. E o espetáculo — como todos os espetáculos — é especialista em esconder aquilo que não convém mostrar. A justiça, quando se preocupa demasiado em parecer justa, começa a esquecer-se de o ser. II — O Olho que Observa e o Olho que Encobre As sociedades vivem divididas entre dois olhares. O olhar público — amplo, certeiro, moralista. E o olhar íntimo — cúmplice, pragmático, por vezes resignado. O problema é quando o poder começa a usar um olhar para a nação e outro para si mesmo. O primeiro fala de princípios, de universalidade, de imparcialidade. O segundo fala de circunstâncias, de conveniências, de exceções que “se compreendem”. É nesta duplicidade que nasce a máscara. A máscara serve para projetar virtude e esconder o cálculo. Serve para anunciar igualdade enquanto distribui privilégios. Serve para mostrar firmeza enquanto ajusta regras para acomodar proximidades. O país escuta a narrativa oficial — o rosto. Mas sente, no rumor subterrâneo — a máscara — que há decisões que não pertencem à justiça, pertencem ao círculo. E, quando essa sensação amadurece, a confiança começa a desfazer-se por dentro, como madeira roída por insetos invisíveis. III — Quando a Clemência se Torna Persona Há quem acredite que o perdão é apenas um ato jurídico. Não é. É também uma expressão simbólica — quase teatral — que molda o imaginário público. Durante muito tempo, o perdão foi visto como gesto raro, excecional, reservado a situações extremas. Mas, quando começa a ser aplicado com fluidez, com uma ligeireza que dispensa explicações robustas, transforma-se num personagem. Entra em palco. Repete falas conhecidas. Age segundo conveniências do momento. E o mais inquietante é isto: a República começa a comportar-se como se estivesse a encenar a ideia de justiça enquanto, nos bastidores, ajusta o enredo para acomodar alguns protagonistas. A máscara não cobre apenas um rosto — cobre uma intenção. IV — A Face Oculta do Perdão Há sempre uma versão oficial — limpa, redonda, quase pedagógica. E há sempre uma versão oficiosa — aquela que não se escreve, mas todos conhecem: quem telefonou, quem pressionou, quem sussurrou, quem “pediu apenas para avaliar”. A justiça não se desvia quando erra. Desvia-se quando aceita conviver com duas versões da mesma realidade. Um país amadurece quando reconhece os seus erros. Adormece quando aceita as suas máscaras. Desmorona quando confunde uma coisa com a outra. E a pergunta que devemos fazer não é: “porque foi perdoado este homem? ”Mas antes: “porque não poderia ele ser perdoado… se estivesse sentado noutra mesa?” A máscara protege quem? E protege do quê? V — O Espelho Quebrado No final, tudo se resume a isto: uma República é um espelho partido em mil pedaços. Cada decisão pública é uma tentativa de juntar fragmentos, alinhar reflexos, montar uma imagem coerente do país. Mas bastam alguns perdões mal explicados — ou demasiado facilmente explicáveis — para que surjam fissuras no espelho. Primeiro parecem riscos. Depois linhas. Depois fraturas. Até que, um dia, o país olha para a sua própria justiça e já não se reconhece. Porque aquilo que vê não é o rosto — é a máscara. E ninguém confia numa máscara. VI — A Conclusão Inquietante A primeira parte perguntou: o que é o poder que absolve? A segunda perguntou: o que acontece quando a justiça se desvia? Esta terceira pergunta algo ainda mais íntimo e mais perigoso: Que país se torna aquele que já não distingue entre o que é justo e o que parece justo? É essa a fronteira final. A mais ténue. A mais enganadora. A que mais facilmente se atravessa sem dar por isso. E, quando a atravessamos, percebemos tarde demais que o rosto da justiça já não está onde estava — ficou para trás, abandonado no chão. E o que segue em frente é apenas a máscara. Autor: Alberto Carvalho (Narrador) Imagem: — Unsplash O Preço do Perdão — Parte III: O Rosto e a Máscara #OPreçoDoPerdão #Justiça #Democracia #AbusoDePoder #Clemência #EstadoDeDireito #DireitosHumanos #PaísSemNome #AlbertoCarvalho #DonaldTrump

  • O Preço do Perdão — Parte I

    Reflexões íntimas e crónicas de um país por dentro — fragmentos de uma pátria que se reconhece no que não diz, no que esconde, no que já não sabe nomear. Um país sem nome, mas com memória. Há poderes que nascem com a intenção de salvar e acabam, lentamente, por aprender a corromper. Nenhum me inquieta tanto como o poder que permite a um só indivíduo — um presidente, um chefe de Estado, um vértice solitário da pirâmide — rasgar sentenças que foram escritas ao longo de meses ou anos, entre provas, testemunhos, hesitações, recursos, angústias e cicatrizes. O poder que absolve e o risco de transformar a clemência num instrumento de influência. Esse gesto, que chamamos “perdão”, é uma das mais antigas invenções humanas: uma luz que atravessa a dureza da lei. Mas também é, se não for vigiado, uma sombra que atravessa a transparência da República. Nunca consegui olhar para o perdão presidencial sem um sobressalto íntimo. Há nele algo de sublime e algo de perigoso. Sublime porque reconhece que a justiça, por mais rigorosa que seja, pode errar; perigoso porque recorda, com a brutalidade dos factos, que o poder absoluto nunca desapareceu — apenas mudou de roupagem, tornou-se mais limpo, mais polido, mais constitucional. Mas continua ali, à distância de uma assinatura. Quando observo esse gesto — a caneta que se inclina, a tinta que cai, a sentença que se dissolve — pergunto sempre: quem vigia o vigilante? Quem decide que este perdão é um sinal de humanidade e aquele outro um ato de conveniência? Quem distingue a misericórdia do cálculo político? Quem separa a compaixão do reflexo instintivo de proteger os seus? É aqui que começa a minha inquietação. I — O Perdão como Ritual de Poder Todos os povos inventaram, à sua maneira, um mecanismo para libertar alguém do peso da culpa. É um traço profundamente humano: não conseguimos viver numa sociedade onde tudo é punido, onde tudo é definitivo. Precisamos de acreditar que existe uma porta, pequena que seja, para aqueles que erraram e merecem recomeçar. Mas, em quase todas as civilizações, essa porta não é larga — é estreita e depende de um guardião. O perdão presidencial, tal como existe nas democracias modernas, é herdeiro direto dessa lógica: um poder extraordinário reservado a uma pessoa ordinária, com virtudes, limites, inclinações e fragilidades como qualquer um de nós. E aqui surge o paradoxo: confiamos num cidadão comum um poder extraordinário porque acreditamos que ele será capaz de agir com uma virtude extraordinária. Mas a História, essa velha professora que nunca perdoa ilusões, mostra-nos que raramente é assim. O perdão presidencial é uma espécie de altar laico: aproxima-se com solenidade, ajoelha-se perante o espírito da justiça, coloca-se a mão sobre a pedra fria da Constituição e decide-se se a clemência é um gesto de grandeza… ou uma arma de bastidores. II — A Economia da Clemência Há uma frase que todos conhecemos, ainda que raramente admitamos: a lei é para todos, mas a exceção não é. E é aqui que começa a economia moral do perdão. A clemência oficial nunca existe no vazio. Existe num ecossistema de relações humanas: amizades políticas, alianças silenciosas, redes de influência, telefonemas discretos, conselheiros que sussurram, advogados que insinuam, emissários que preparam o terreno. A própria ideia de “pedido de perdão” já contém em si uma desigualdade. Quem não tem voz, pede como pode; quem tem poder, pede como quer. E a linha que separa o justo do conveniente começa a desfocar-se. Primeiro quase sem se notar. Depois com a naturalidade de quem bebe água. Um país que começa a ver o perdão como um privilégio negociável — explícita ou implicitamente — aproxima-se perigosamente de uma aristocracia moral. Uma sociedade que aceita que algumas pessoas podem comprar, merecer ou influenciar a própria anulação dos seus erros começa a habituar-se a um novo normal: uma justiça com duas portas, uma largura e outra estreita. Tudo isto me lembra, inevitavelmente, um velho princípio: o que é concedido em nome da graça pode ser reclamado em nome do interesse. E aquilo que deveria ser exceção transforma-se em moeda. III — A Fragilidade das Instituições Quando um Presidente perdoa alguém que nunca deveria ter sido condenado, o país respira de alívio. A clemência aparece como o último reduto da justiça, o ponto de fuga numa arquitetura rígida. Mas quando um Presidente perdoa alguém que deveria responder pelos seus atos, a República perde um pedaço da sua espinha dorsal. Não é apenas a lei que fica abalada; é a perceção de que todos somos medidos pela mesma balança. E, numa democracia, a perceção é tão importante quanto o facto. Não precisamos que um abuso seja frequente para que seja corrosivo. Basta que seja plausível. Basta que uma parte da sociedade comece a suspeitar que a justiça pode ser dobrada como um galho seco. É assim que nasce o descrédito. E o descrédito é um vírus rápido, invisível e resistente. IV — O Perdão como Espetáculo Há outra dimensão que me inquieta: o perdão como performance pública. O perdão como parte de uma coreografia política. O perdão como gesto calculado para produzir efeito, gerar manchetes, fidelizar seguidores, recompensar alianças, sinalizar poder. Quando a clemência se transforma em espetáculo, perde o seu núcleo moral. Deixa de ser uma síntese entre justiça e humanidade para se tornar numa ferramenta de narrativa. O gesto deixa de corrigir a vida e passa a corrigir a agenda. E, quando o perdão é usado como prova de força — “eu posso”, “eu decido”, “eu determino quem se levanta” — não é a bondade que se afirma, é a hierarquia. O perdão deixa de ser bálsamo e converte-se em troféu. Ou pior: em arma. V — A República e o Abismo Ético A democracia não colapsa porque as leis desaparecem — colapsa quando as leis permanecem, mas deixam de significar o mesmo. O código pode manter-se intacto, a Constituição pode continuar suspensa nas paredes dos tribunais, mas, quando a prática se desvia, a letra perde peso. O perdão presidencial é um dos pontos onde essa distorção pode tornar-se mais visível. Sempre que é utilizado para proteger influências, corrigir alianças ou premiar lealdades, cria um desvio. E esse desvio abre outro, e outro, e outro. Até que o país acorda um dia e percebe que já não mede a justiça pelo que ela é, mas pelo que ela concede. Durante anos, habituaram-nos à ideia de que “todos os poderes têm excessos”.Mas não é verdade. Há excessos que não são defeitos tecnológicos — são falhas morais. E o perdão, por ser absoluto e irreversível, amplifica essas falhas com uma força que nenhum outro ato institucional possui. VI — A Pergunta que Fica Escrevo estas linhas sem conhecer todos os bastidores onde a clemência circula, mas conheço, como qualquer cidadão atento, a fragilidade humana que habita os corredores do poder. Conheço o efeito que a proximidade exerce. Conheço a tentação de proteger os amigos — e, pior, de proteger os fiéis. E por isso deixo a pergunta que me parece mais urgente, e que servirá de ponte para a Quando o perdão é absoluto, quem perdoa o abuso do perdão? Quem vigia o vigia? Quem exerce clemência sobre os que concederam clemência demais? Quem devolve à República aquilo que se perdeu no segredo das decisões irreversíveis? Talvez a resposta esteja na sociedade civil, talvez na imprensa, talvez na consciência histórica, talvez no medo — o medo saudável — de ser lembrado como alguém que confundiu o interesse público com a administração privada da justiça. Mas, como descobriremos na segunda parte, há algo ainda mais inquietante: o perdão não é apenas um ato isolado. É um sintoma. Um sintoma de um país, seja ele qual for que pode estar a perder a capacidade de distinguir entre autoridade e arbítrio. E isso, sim, merece uma reflexão mais longa. Autor: AC Imagem: - Tingey Injury Law Firm / Unsplash Atravessai comigo para a Parte II: A Justiça que se Desvia #AlbertoCarvalho #CadernoAberto #Ensaio #ÉticaPública #Justiça #Democracia

  • O Preço do Perdão – Parte II: A Justiça que se Desvia

    País sem Nome Reflexões íntimas e crónicas de um país por dentro — fragmentos de uma pátria que se reconhece no que não diz, no que esconde, no que já não sabe nomear. Um país sem nome, mas com memória. Há momentos na vida pública em que o país parece entrar num corredor estreito. Passamos uma porta, depois outra, e, sem darmos conta, já não estamos onde pensávamos estar. A paisagem muda devagar, quase sem ruído, e é essa lentidão que torna a mudança mais perigosa: ninguém percebe o exato instante em que a justiça deixou de ser um sistema e passou a ser uma interpretação; quando deixou de ser voz e passou a ser eco. Quando a exceção se transforma em hábito e a justiça perde o seu centro moral. Se a primeira parte deste ensaio procurou compreender a tentação do perdão — essa prerrogativa absoluta que habita a caneta de um Presidente — esta segunda parte tenta algo mais difícil: olhar para o modo como um país se adapta quando as exceções começam a parecer regra. Quando a clemência se transforma, pouco a pouco, numa linguagem paralela, entendida apenas por alguns. É aí que começa a justiça que se desvia. I — O país que aprende a tolerar Há um fenómeno curioso nas sociedades democráticas: habituam-se. A tudo.Habituam-se ao excesso, ao escândalo, ao desvio, às incoerências, às notícias que passam num rodapé como quem passa a ferro páginas de um livro. Habituam-se ao que devia ser intolerável. E, quando a habituação se instala, instala-se também uma espécie de anestesia moral. O desvio deixa de ser exceção e começa a ser paisagem. E a paisagem, quando vista todos os dias, torna-se invisível. Um país começa a adormecer quando já não estranha nada. E começa a perder-se quando deixa de distinguir entre o razoável e o abusivo. O perdão presidencial — esse gesto tão poderoso, tão cheio de história e ambiguidade — pode tornar-se o principal sintoma dessa erosão. Quando é usado com parcimónia, ilumina o que resta de humanidade numa máquina fria. Mas quando se torna rotina, deixa de iluminar e começa a cegar. II — O mapa invisível das proximidades A justiça paralela não nasce do dia para a noite. Nasce da acumulação de pequenas decisões que parecem inofensivas. Todas elas justificáveis, todas elas defendidas em nome da exceção. Todas elas embaladas num discurso que apela à misericórdia, à correção dos excessos, ao equilíbrio entre lei e compreensão humana. Mas, por baixo do discurso oficial, existe um território silencioso — uma geografia feita de proximidades, favores, compromissos implícitos. Uma espécie de mapa subterrâneo onde a justiça não depende apenas dos factos, mas também das relações. O que me assusta não é o perdão em si — é o modo como ele pode ser solicitado. E, mais ainda, o modo como começa a circular a ideia de que o perdão é possível para uns e impossível para outros. Uma sociedade que internaliza essa distinção entra numa espécie de adolescência moral: sabe que está errada, mas não encontra força para se corrigir. O que parece justo deixa de ser o que está certo — e passa a ser o que está disponível. III — Quando a justiça deixa de ser cega Fala-se muito na imagem clássica da justiça: a mulher de olhos vendados, segurando uma balança e uma espada. Sempre achei comovente essa tentativa de representar a imparcialidade. A venda é o símbolo que mais me intriga. A justiça não precisa de ser muda — precisa é de ser cega. Mas quando os perdões se distribuem segundo critérios que ninguém conhece, a venda começa a escorregar. Primeiro um pouco. Depois mais. Até que a justiça, já com um olho descoberto, começa a avaliar não apenas o peso dos atos, mas o peso dos nomes. E a partir desse momento, a justiça deixa de ser cega — e passa a ser míope.Vê de perto, mas não vê de longe. Avalia a árvore, mas já não distingue a floresta. E uma República com uma justiça míope não está apenas em risco: está inclinada. Os sistemas não se corrompem com grandes explosões; corrompem-se com pequenos alinhamentos desviados, que repetidos muitas vezes criam um ângulo novo no edifício. O perdão, usado como instrumento de gestão política, altera esse ângulo. IV — A construção silenciosa de um segundo país Há sempre dois países dentro do mesmo país. Um deles é o país visível: o dos tribunais, das eleições, das leis, dos discursos. O outro é o país subterrâneo: o das relações pessoais, dos compromissos implícitos, da influência, dos corredores curtos. Quando o perdão presidencial começa a circular com demasiada flexibilidade, nasce uma ponte que liga os dois países — e não é uma ponte construída pelo povo, pelos tribunais ou pela Constituição. É uma ponte construída pelo poder. E, pela primeira vez, deixa de ser o mérito que conduz alguém ao perdão e passa a ser a proximidade. Deixa de ser a argumentação jurídica e passa a ser a argumentação política. Deixa de ser a justiça e passa a ser a utilidade. S e isto não assusta um país, é porque o país já começou a adormecer. V — A normalização do desvio O que mais me impressiona não é o escândalo. O que me impressiona é a ausência dele. Quando uma sociedade já não reage, não questiona, não debate, não exige explicações — não é porque está madura, é porque está cansada. E um país cansado é sempre fértil para a normalização dos abusos. Os perdões compulsivos, os perdões estratégicos, os perdões que parecem ter uma agenda, os perdões que não explicam o que pretendem — tudo isso começa a parecer “parte do jogo”.E o mais assustador é isto: quando o desvio se normaliza, deixa de ser desvio. Os Estados Unidos vivem com um segundo sistema de justiça: um para o cidadão comum, outro para o círculo próximo do poder. E quando há dois sistemas, não há sistema nenhum. VI — A tentação de absolver o útil Há uma força quase gravitacional na política: o impulso de proteger os seus. É uma força antiga, quase tribal. Uma mistura de lealdade e medo. Mas quando essa força se cruza com o poder absoluto de perdoar, nasce um risco que poucas sociedades estão preparadas para enfrentar. A tentação não é apenas cobrir os erros dos aliados — é querer construir para eles uma inocência artificial. Uma inocência não baseada nos factos, mas na conveniência. Uma inocência que não é conquistada, mas concedida. E quando o perdão deixa de ser um gesto de grandeza e passa a ser um instrumento de limpeza simbólica, a democracia perde uma das suas colunas. Porque, no fim de contas, a justiça não é apenas um conjunto de procedimentos: é uma narrativa comum. A justiça precisa de ser acreditada para existir. E nada destrói essa crença mais rapidamente do que a ideia de que algumas pessoas são absolvidas não por serem justas, mas por serem úteis. VII — A demolição suave da confiança Não há democracia que sobreviva sem confiança. E não há confiança que sobreviva a um sistema onde a exceção se transforma em hábito. O perdão presidencial americano — esse gesto tão solene e tão frágil — pode funcionar como um marcador moral. Quando é bem utilizado, aumenta a confiança. Quando é abusado, destrói-a. E, ao contrário do que muitos pensam, a confiança não cai com estrondo. Cai em silêncio. Cai nos pequenos gestos, nas ironias dos cafés, nos comentários cansados das famílias, nas conversas murmuradas que terminam sempre com a mesma frase: “Isto já não é para nós.” Quando um país chega a esse ponto, já não é apenas a justiça que se desviou — somos nós que começámos a desviar o olhar. VIII — A pergunta final Escrevo estas linhas consciente da sua dureza. Mas não acredito que haja outra forma de olhar para um fenómeno tão delicado. A clemência presidencial não é, por natureza, um mal. Pelo contrário. É uma das poucas janelas pela qual a humanidade consegue entrar num sistema que, tantas vezes, se torna mecânico e insensível. Mas essa mesma janela pode transformar-se numa porta larga para os desvios éticos que, acumulados, abalam a arquitetura moral de um país. E assim regresso à pergunta que abriu esta segunda parte: o que acontece a uma República quando a justiça começa a desviar-se? Acontece o que sempre aconteceu, em todos os tempos e em todos os continentes: o país começa a dividir-se entre os que acreditam e os que desistiram; entre os que confiam e os que já só esperam; entre os que ainda lutam e os que preferem não ver. E, no meio desse ruído, nasce a pior consequência de todas: não a injustiça — mas a indiferença. Porque a injustiça pode ser corrigida. A indiferença, não. Autor: AC Imagem: - Foto: Tingey Injury Law Firm / Unsplash Leia também a primeira parte: O Preço do Perdão — Parte I: O Poder que Absolvia Representação clássica da Justiça. Uma reflexão sobre o poder que absolve e o risco de distorção moral #AlbertoCarvalho #CadernoAberto #Justiça #ÉticaPública #Democracia

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