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- Quando a família pesa mais do que a vítima
Justiça portuguesa falha vítimas, alerta Conselho da Europa Há relatórios que se leem como um aviso. O documento do GREVIO — Grupo de Peritos Independentes do Conselho da Europa, responsável por avaliar a aplicação da Convenção de Istambul — é um desses textos. Publicado a 27 de maio de 2025, depois de observar a realidade portuguesa, aponta progressos inegáveis, mas não poupa nas palavras quando identifica um erro de fundo: o sistema judicial em Portugal, “privilegia a proteção da unidade familiar em detrimento da segurança das vítimas”. É uma frase curta, mas o seu peso é de chumbo. Não se trata de uma metáfora: refere-se a decisões concretas, tomadas em tribunais portugueses, onde a preservação do núcleo familiar — mesmo em contexto de violência — se sobrepôs ao direito da vítima viver sem medo. Essa inversão de prioridades não é um detalhe técnico; é uma falha de justiça que pode custar vidas. O relatório do GREVIO reconhece que Portugal avançou: a definição legal de violação passou a centrar-se no consentimento, foram criadas equipas especializadas, gabinetes de apoio junto do Ministério Público e recolhas de prova em 72 horas. Mas a mesma avaliação denuncia o que ainda falha. As sanções aplicadas a crimes de violência doméstica e sexual continuam, demasiadas vezes, a ser brandas e desproporcionadas. Persistem atitudes patriarcais entre alguns magistrados. E mantém-se a utilização, em processos judiciais, da chamada “síndrome de alienação parental” — um conceito sem validação científica e que o GREVIO recomenda que seja afastado, sobretudo quando há registo de violência doméstica. Outra crítica grave diz respeito à proteção de emergência: as ordens podem demorar até 48 horas, exigem muitas vezes uma denúncia formal ou a existência de processo-crime, e há abrigos que só aceitam acolher mulheres mediante esse requisito. Isto significa que uma vítima pode ficar exposta ao agressor no período mais perigoso — aquele em que decide romper o ciclo de violência. Não são apenas questões processuais; são falhas judiciais que se traduzem, na prática, em insegurança física e emocional para quem já viveu o suficiente para não ter de provar o óbvio. Entre as recomendações, o GREVIO pede formação obrigatória e contínua para magistrados, uma linha nacional de apoio 24 horas por dia, acesso imediato a abrigos sem barreiras burocráticas e revisão urgente de todos os procedimentos que atrasam a proteção. Este não é um debate teórico. É uma questão de prioridade moral. Colocar a “unidade familiar” acima da integridade da vítima é esquecer que não há família digna desse nome quando o medo é a sua língua principal. A justiça que hesita entre proteger a casa ou proteger quem nela sofre não cumpre a sua função: falha à lei, falha à sociedade e falha à própria ideia de justiça. O relatório do GREVIO não é um manifesto político; é um espelho que nos é colocado à frente. O que fazemos com o reflexo depende de nós. Podemos continuar a discutir percentagens, procedimentos e prazos. Ou podemos decidir que a segurança da vítima é inegociável — e agir em conformidade. No dia em que essa decisão for clara e sistemática, talvez já não precisemos de relatórios para nos lembrar do óbvio. Fonte principal: Relatório GREVIO sobre Portugal, Conselho da Europa, 27/05/2025 Convenção de Istambul: Tratado internacional para a prevenção e combate à violência contra as mulheres e violência doméstica Justiça portuguesa falha vítimas, alerta Conselho da Europa #JustiçaPortuguesa #ConselhodaEuropa #GREVIO #ViolênciaDoméstica #DireitosHumanos #ProteçãoDasVítimas #ConvençãoDeIstambul #Tribunais #Portugal #DireitosDasMulheres
- O peso das palavras no mercado
O peso das palavras no mercado No mercado da cidade, a banca das laranjas tem mais conversa do que fruta. A mulher, de lenço azul preso na nuca, diz que as chuvas tardias estragaram metade da colheita. “Mas isto ninguém vê. Falam de economia na televisão, mas não sabem o que é perder meia caixa antes do meio-dia.” Ao lado, um homem mais velho espreme o pão nas mãos antes de o levar, como quem testa a coragem de uma parede antes de a atravessar. Conta, sem ser perguntado, que a reforma não chega para a renda e que o filho já anda “de malas feitas para a Alemanha”. O pão, diz, vai durar três dias. A voz, essa, parece não durar até à noite. O mercado é isto: política do quotidiano. Não a dos programas partidários, mas a das decisões silenciosas — escolher entre peixe ou carne, entre pagar a conta da luz ou comprar os livros da escola. Aqui não há debates televisivos, há trocas rápidas, moedas contadas, promessas de “amanhã pago”. Quando a manhã avança, a praça enche-se do cheiro das sardinhas grelhadas num canto improvisado. É um perfume de verão e resistência, como quem diz que o país pode mudar de governo, mas o carvão aceso ao meio-dia é lei que não se revoga. Quem quiser saber o que é Portugal, não leia apenas os jornais: passe meia hora numa praça e aprenda o tom exato da nossa paciência. João da Praça - Cronista de Rua João da Praça — Cronista de rua #PraçasDePortugal #VidaLocal #Mercados #CulturaPopular #HistóriasHumanas #ComércioTradicional #Portugal
- O mundo visto a duas vozes
No Caderno das Duas há páginas que começam com uma gargalhada e outras com um ponto de interrogação. São escritas por duas irmãs — 13 e 12 anos — que partilham um mesmo caderno e a liberdade de escrever sem pedir licença. Uma gosta de pensar devagar, de medir as palavras, de procurar sentido no que vê. A outra escreve como quem corre: rápida, direta, às vezes com ironia, outras com espanto. Juntas, constroem um retrato do mundo a partir de uma idade em que tudo ainda é possível mudar. Falam de escola, de amizades, de política, de injustiças e de descobertas. E lembram-nos que há perguntas que só a juventude tem coragem de fazer. Na Comunidade AC, o Caderno das Duas é o lugar onde o futuro já está a escrever-se. Quando crescer é também aprender a perguntar. #ComunidadeAC #CadernoDasDuas #Juventude #OpiniãoJovem #Cidadania
- Na praça com Maria do Rio
Maria do Rio não escreve no gabinete. Escreve na praça, no café, na fila de supermercado. Não há parágrafo que não traga o cheiro a torrada ou o rumor de uma conversa a dois metros de distância. A política, para ela, não é só o que se decide em parlamentos. É também o que se decide à porta de uma escola, numa reunião de condomínio ou no preço do pão. Maria do Rio não tem medo das palavras que queimam — nem das que abraçam. Sabe que, quando um país se esquece de ouvir a rua, perde o compasso. E, por isso, transforma cada texto num passeio guiado pelo que se diz, pelo que se cala e pelo que devia estar escrito nas paredes da cidade. Aqui, na Comunidade AC, Maria do Rio traz o país para dentro de casa. E obriga-nos a pensar que talvez a política não viva só em cima de mesas de reunião, mas também nas mesas de café. AC Quando a rua é o verdadeiro parlamento. #ComunidadeAC #MariaDoRio #Política #CrónicaUrbana #VozDaRua #ParticipaçãoCívica
- O Invisível que Ficou
A herança sefardita vive em gestos e palavras que já esquecemos ter herdado. Há heranças que não cabem nos arquivos nem nos museus. Estão na língua que falamos sem pensar, no modo como temperamos um prato, nas histórias que contamos à lareira. A presença sefardita em Portugal não desapareceu com os éditos de expulsão — dissolveu-se no quotidiano, como sal na água. Certas palavras que julgamos puramente portuguesas têm raízes no ladino ou em hebraico. Expressões culinárias sobrevivem em receitas de peixe salgado, em doces de amêndoa e mel, em combinações de especiarias que atravessaram o Mediterrâneo para se fixarem nas nossas mesas. Até alguns rituais domésticos, como acender velas à sexta-feira sem motivo religioso explícito, ecoam práticas de famílias que, em tempos, tiveram de ocultar a fé para sobreviver. A Inquisição quis apagar sinais, mas acabou por os espalhar. E esse paradoxo moldou um país que, sem saber, continua a repetir gestos sefarditas. O invisível que ficou não é resíduo: é cimento cultural. Ele mostra que a identidade nacional não é uma fortaleza, mas um tecido — e que cada fio, mesmo o que tentaram cortar, contribui para a sua resistência. Reconhecer esta presença silenciosa não é exercício académico: é um ato de justiça para com a verdade e para connosco. Porque só ao aceitar que o nosso “nós” é feito de muitos “outros” é que podemos evitar repetir a velha tentação de expulsar o que nos constrói. AC #HistóriaDePortugal #Sefarditas #HerançaCultural #Gastronomia #LínguaPortuguesa #MemóriaColetiva #IdentidadeNacional
- Está a nascer a Comunidade AC.
Está a nascer a Comunidade AC. Novas vozes. Novas rubricas. Novos olhares sobre o país e o mundo. Do silêncio do Frei Lourenço às praças da Maria do Rio, das análises de Helena Vale aos olhares jovens do Caderno das Duas, este é um espaço aberto a quem quer pensar e escrever com sentido. 📬 Quer fazer parte? Envie-nos a sua proposta. 📅 Em breve, os primeiros textos. Está a nascer a Comunidade AC. #ComunidadeAC #NovasVozes #Rubricas #Política #Cultura #Sociedade
- Porquê uma Comunidade
Um espaço de portas abertas à palavra livre. Começa sempre com um nome. Depois com uma voz. E, quando damos por nós, há outras vozes que se encostam a essa primeira como quem procura abrigo. A Comunidade AC nasceu assim: não de um plano calculado, mas do encontro inesperado de vontades. Não somos iguais. Não escrevemos da mesma forma. E é precisamente por isso que existimos. Neste espaço, cabem as perguntas que não cabem nas agendas oficiais. Caberá o silêncio de Frei Lourenço, que pesa mais do que muitas frases. Caberá a praça de Maria do Rio, onde a política se mistura com o cheiro a café. Caberá a lupa de Helena Vale, que vê histórias nos números. E caberá o Caderno das Duas, onde a juventude escreve sem pedir autorização. O que nos une não é uma doutrina. É uma disposição — a de olhar o país e o mundo sem medo de pensar e de dizer. Aqui, cada texto é uma peça de conversa. E, como em todas as conversas que valem a pena, há momentos de acordo e de desacordo, há pausas, há risos e há coisas que doem. Se o leitor ficar connosco, vai descobrir que esta comunidade é, na verdade, uma casa com muitas portas abertas. Entre por onde quiser. E, se um dia sentir que também tem algo a dizer, bata à porta. Alguém, deste lado, vai ouvir. AC #ComunidadeAC #Editorial #NovasVozes #EscreverComSentido #AlbertoCarvalho #Literatura #Opinião
- A Obra e o Poder
Santidade de Gabinete: O Poder Silencioso da Obra Há formas de poder que se anunciam com trombetas. E há outras que se insinuam com silêncio. O Opus Dei pertence a esta segunda categoria. Não ergue bandeiras, não exige púlpitos, não clama por multidões. Prefere os bastidores, os conselhos discretos, os lugares em que se decide mas não se vê. É uma santidade que caminha de fato e gravata, uma espiritualidade com horários marcados e relatórios mensais, um fervor sem êxtase, mas com disciplina. E essa combinação — fé interior com eficácia exterior — é precisamente a origem da sua força. A influência do Opus Dei no espaço público raramente se mede em números. Mede-se em nomes, em cargos, em redes. Não são muitos, mas são estratégicos. Advogados, magistrados, economistas, editores, reitores, consultores parlamentares. Em muitos países, incluindo Portugal, há quem entre em certos corredores do poder e perceba, sem nunca o ouvirem dizer, que uma parte da sala fala a mesma língua espiritual — discreta, firme, blindada. Não se trata aqui de conspiracionismo. Quem conhece o Opus Dei por dentro sabe que a sua formação espiritual não tem nada de maquiavélico. O que há é uma antropologia prática: o mundo será transformado não pelo protesto, mas pela presença; não pela denúncia, mas pela excelência; não pela ruptura, mas pela infiltração virtuosa. E se for possível estar nas esferas onde se decide — políticas, jurídicas, culturais — melhor ainda. Deus também habita nas actas das comissões. Esta espiritualidade da influência não é nova. Os jesuítas já a viveram, com o brilho dos colégios e o peso das consciências régias. Mas havia nos jesuítas uma pedagogia aberta, um gosto pelo debate, uma entrega à missão universal. No Opus Dei, a missão é mais seletiva: ganhar almas influentes, consolidar estruturas, formar líderes silenciosos. O ideal não é a missão, é a eficácia. A santidade é uma questão de aplicação. É por isso que a integração de sacerdotes diocesanos na Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz não é apenas uma questão eclesial ou teológica — é também um fenómeno de gestão espiritual do território. A diocese tem o seu clero, o seu ritmo, os seus dramas. A Obra introduz, entre esse corpo, uma elite espiritual paralela, mais formada, mais disciplinada, mais obediente — mas a outra autoridade. E quando há nomeações, influências, promoções, quem terá mais apoio invisível? O padre das lutas quotidianas ou aquele que recebe formação num centro da Obra, com acompanhamento semanal e direção espiritual meticulosa? A resposta não está nos números. Está no que nunca se diz. Mais ainda: o Opus Dei representa, para muitos sectores da Igreja, uma última trincheira contra o caos contemporâneo. Diante da crise do relativismo, da desinstitucionalização, da dissolução da moral tradicional, a Obra oferece um modelo que conforta: padres com batina e agenda, leigos piedosos e eficazes, famílias grandes e submissas à doutrina. E isso, para muitos bispos, é mais fácil de acolher do que a inquietação dos pobres, a profecia das periferias ou o drama das vítimas. A Obra não levanta questões — entrega resultados. O problema é que, nesse processo, a espiritualidade transforma-se em ferramenta de gestão. A santidade, em produtividade. A fidelidade, em alavanca de poder. E quem perde com isso? Perde a Igreja. Perde a liberdade espiritual. Perde o povo de Deus, quando os seus pastores passam a responder a estruturas invisíveis. E perde o próprio Evangelho, que nos ensinou a servir sem calcular e a amar sem garantias. Há muito de admirável em muitos membros do Opus Dei. Mas há algo de inquietante quando o amor à Igreja se manifesta como controlo. Porque a Obra nasceu para santificar o mundo — e corre o risco de apenas o administrar. AC Luz fria e discreta #Poder #OpusDei #IgrejaEEstado #Clero #Influência #AlbertoCarvalho
- O mundo acabou. Ainda bem.
Não se assuste com o título. Ele é apenas a forma mais sincera de começar. O mundo acabou, sim. Não ontem, não com uma guerra, não com uma pandemia, mas em silêncio. Acabou aos poucos, enquanto olhávamos para ecrãs e fingíamos que estávamos vivos. Acabou quando as palavras perderam peso, quando as notícias se tornaram ruído, quando a verdade e a mentira se tornaram gémeas siamesas, impossíveis de separar. Mas há uma boa notícia escondida nisto: quando um mundo acaba, outro começa. O fim de um mundo não é uma explosão, é um cansaço. Uma espécie de exaustão coletiva que nos deixa vazios de sentido, como se a vida tivesse perdido a sua gravidade. E, talvez, seja justamente nesse vazio que se pode recomeçar. Porque só quando as coisas deixam de fazer sentido é que nos lembramos de perguntar o que é que, afinal, importa. A pressa em que vivemos, esta corrida para nada, deixou-nos órfãos do silêncio. Acreditámos que estar informados era o mesmo que estar lúcidos. Acreditámos que partilhar frases soltas era o mesmo que pensar. E, no entanto, nunca fomos tão desinformados, nunca pensamos tão pouco. O mundo acabou quando deixámos de olhar verdadeiramente uns para os outros. Quando reduzimos tudo a um “scroll” infinito. Quando desistimos da lentidão. Escrever isto é como soprar poeira de um espelho. O que lhe queremos dizer não é novo, mas talvez seja urgente: é preciso parar. Não por desistência, mas por resistência. Parar para escutar o que o ruído tapa. Parar para ler uma frase inteira sem olhar para o relógio. Parar para sentir o desconforto de não ter nada para dizer. Parar para que algo volte a nascer. Este texto é a nossa primeira carta. Não uma carta qualquer, mas uma carta para os que ainda lêem. Para aqueles que não esperam fórmulas rápidas nem promessas fáceis. Aqui não vamos oferecer respostas prontas, nem textos embalados para consumo imediato. A nossa ambição é outra: oferecer algo que o obrigue a parar. A sentir que a leitura é um ato íntimo, quase secreto, um pacto entre quem escreve e quem lê. E talvez esteja a perguntar: por que razão o mundo acabou? A resposta não cabe num parágrafo, nem num ensaio. Mas podemos dizer-lhe o que vemos: um tempo que se contenta com frases de dez palavras, um espaço público saturado de ódio e sarcasmo, uma política que deixou de imaginar o futuro, uma cultura que já não se recorda do que é transcendente. Vemos adultos exaustos a fingirem alegria, jovens perdidos a fingirem força, e uma solidão que já não é romântica, é apenas mecânica. O mundo acabou porque nos tornámos espectadores do nosso próprio vazio. Mas — e isto é o que importa — há algo de libertador nisto. Quando uma casa cai, vemos o céu. Quando um ruído cessa, ouvimos os pássaros. Quando as palavras gastas morrem, podem nascer novas. A ruína é também um lugar fértil. É por isso que estamos aqui. Não para erguer monumentos, mas para acender pequenas velas. Não para anunciar soluções, mas para lembrar que há perguntas que valem mais do que qualquer resposta. Se ficou até esta linha, então pertence a uma minoria. A minoria dos que ainda acreditam que vale a pena demorar-se numa página, como quem se demora a olhar para um rio. Este é o segundo texto da nossa newsletter, e talvez seja o único. Não prometemos datas, não prometemos regularidade. Só prometemos escrever quando tivermos algo que valha o seu tempo. Se não formos capazes disso, não haverá texto nenhum. Porque o que menos queremos é contribuir para o ruído. Talvez tenha chegado aqui por acaso, talvez porque alguém lhe falou deste espaço, ou porque uma curiosidade antiga o trouxe. Mas, agora que está aqui, pedimos-lhe apenas uma coisa: não leia com pressa. Leia como quem escuta um amigo ao fim da tarde. Como quem abre uma carta que não esperava. O mundo acabou — mas a vida não. Há um outro mundo a começar, e talvez ele não esteja no futuro, mas nas pequenas coisas que decidimos não perder: um abraço demorado, uma ideia que se escreve devagar, uma palavra que não se vende. Esse mundo começa quando deixamos de olhar para o que morreu e começamos a cuidar do que pode nascer. Se ficou até ao fim, então já fez parte do nosso gesto: parou. E, por isso, já valeu a pena escrever. Até breve, quando houver algo que justifique este breve milagre que é partilhar palavras. AC Rosto Esquecido de um Mundo Que Já Não Vê #CartaParaQuemLê #OQueImporta #OValorDoSilêncio #AlbertoCarvalho #LerDevagar #Esperança #ReflexãoProfunda
- A Toga Rasa
O Juiz que Rendeu a Constituição Nos Estados Unidos, a mais alta instância judicial não é apenas um tribunal: é um símbolo fundacional, uma espécie de altar laico onde se decide o sentido último da Constituição. À frente desse Supremo Tribunal está John Roberts, Juiz chefe desde 2005, nomeado por George W. Bush e, durante anos, visto como uma figura moderada, fiel ao equilíbrio institucional. Mas nos últimos tempos, com Donald Trump a regressar como sombra ameaçadora e o sistema democrático norte-americano a tilintar como um copo rachado, Roberts tem-se revelado como um facilitador da erosão do Estado de Direito — não por fanatismo, mas por cobardia disfarçada de neutralidade. E, como tantas vezes acontece, é o medo dos moderados que abre caminho ao excesso dos extremos. Há homens que, ao vestirem a toga, deixam de ser homens — e há outros que, ao trajarem-na, revelam o vazio por dentro do traje. O caso de John Roberts pertence a esta segunda espécie: a daquelas figuras que, em vez de protegerem o edifício da Justiça, parecem usar-lhe os alicerces como púlpito onde se ajoelham, dia após dia, perante o ídolo do poder. Durante anos, venderam-nos a ideia de que Roberts seria o centro ponderado de um tribunal em desequilíbrio, a âncora sensata num oceano ideológico em ebulição. Hoje, esse mito estilhaça-se como vidro diante da história. Porque cada nova decisão do Supremo — cada silêncio cúmplice, cada hesitação cúbica, cada voto que absolve a brutalidade com vestes de legalidade — mostra-nos um homem que já não decide com base no Direito, mas sim na esperança de sobreviver à tempestade que ajudou a convocar. Não se trata apenas de uma inclinação política. Trata-se de um projeto de desmantelamento. Um tribunal que, na sombra dos seus próprios precedentes, se permite rasgar os limites constitucionais para agradar ao poder executivo. Que fecha os olhos ao exílio da razão e ao retorno da arbitrariedade. Que retira às agências independentes o pouco escudo que ainda as separava do capricho presidencial. Que aceita, sem rubor, que o chefe do Estado se torne inimputável mesmo depois de ter incitado à violência contra o próprio Estado. John Roberts, que estudou os Federalist Papers, que conheceu de cor o princípio da separação de poderes, que jurou fidelidade à Constituição — John Roberts tornou-se agora o arquiteto de um novo tipo de rendição. Uma rendição jurisprudencial, solene e deliberada, à ideia de que o presidente pode tudo, desde que o deseje o suficiente. O que antes era abuso, agora é precedência. O que antes era autoritarismo, agora é pragmatismo judicial. Mas o que mais fere — e falo aqui como homem antes de falar como narrador — é o ar de normalidade com que tudo isto é feito. Como se não estivéssemos a assistir à lenta agonia de um ideal republicano americano, mas apenas a mais um capítulo técnico na interpretação de cláusulas. O Direito, esvaziado do seu espírito, tornou-se um ritual burocrático ao serviço de um poder que já não conhece travões. A História saberá distinguir os juízes que foram fiéis ao seu ofício daqueles que fizeram do silêncio uma jurisprudência e da omissão um acórdão. A toga, que deveria pesar nos ombros como memória do dever, tornou-se leve — tão leve que já não se distingue de uma capa de disfarce. E se, um dia, este tribunal for lembrado como o último a guardar a aparência de justiça antes do colapso institucional, saberemos porquê. Porque o seu chefe preferiu conservar o cargo em vez da coragem. Porque, diante do arbítrio, escolheu proteger o posto em vez do povo. Porque, em vez de dizer “não” ao despotismo, disse “talvez”. E nesse “talvez”, perdeu-se a República. AC Chapéu decorado com a bandeira dos Estados Unidos, símbolo do poder político americano em contexto de debate judicial #JustiçaEUA #JohnRoberts #EstadoDeDireito #Trumpismo #SupremoTribunal #AlbertoCarvalho
- Sábado Obrigatório
A quem serve a imposição de trabalho ao fim de semana? Não é só a pressa que desfigura a política. É também a leveza com que se atropela aquilo que deveria ser sagrado: o tempo de um pai com os seus filhos. Na mais recente proposta de alteração ao Código do Trabalho, o Governo pretende que os pais de crianças com menos de 12 anos passem a estar obrigados a trabalhar ao fim de semana, mesmo quando o seu pedido de horário flexível previa a exclusão dessa possibilidade. A medida, travestida de modernidade laboral, não é mais do que uma reedição insidiosa da velha lógica da produção acima das pessoas. O Supremo Tribunal de Justiça tinha fixado um entendimento claro: os horários flexíveis existem para proteger a vida familiar. A decisão judicial reconhecia que um pai ou uma mãe não é apenas uma peça numa engrenagem — é um elo vital na estrutura emocional de uma criança. Contrariar essa jurisprudência, como agora se propõe, não é apenas uma questão técnica. É um recuo civilizacional. Não se trata de negar que há sectores — saúde, transportes, distribuição — que exigem presença humana constante. Trata-se, isso sim, de impedir que se torne regra o que deveria ser exceção. E de reconhecer que mesmo nesses sectores, o direito à vida familiar deve ser protegido, negociado com humanidade, e não diluído em contratos de trabalho inflexíveis e impessoais. É irónico que tudo isto surja num verão em que até o secretário de Estado admite que as negociações já se sobrepõem ao direito às férias. Como se o tempo de descanso fosse um luxo. Como se educar um filho ao domingo fosse uma frivolidade. Como se o trabalho digno pudesse florescer à custa de infâncias amputadas de presença. Querem tornar o trabalho ao fim de semana “habitual”. E quando uma injustiça se torna habitual, passa a parecer natural. Mas não é. Obrigar um pai a virar as costas ao sábado de manhã com o filho, só para cumprir mais um turno num supermercado ou num call center, não é progresso. É uma derrota invisível, repetida em milhares de lares. Vivemos tempos em que as grandes causas parecem sempre adiadas. Mas há pequenas resistências que dizem tudo. Uma delas é esta: o direito ao fim de semana não é um capricho. É uma trincheira onde se defende a infância, a intimidade e até a democracia. Porque quando o Estado começa a legislar contra os afetos, o que se segue é sempre pior. Que não se legisle com pressa nem com cinismo. E que não se esqueça que, por detrás de cada horário imposto, há uma criança à espera. AC Quando o Estado legisla contra o tempo dos pais, é a infância que fica para trás. #DireitoAoTempo #InfânciaNãoEspera #TrabalhoJusto #HorárioFlexível #FamíliaÉPrioridade #CódigoDoTrabalho #Parentalidade #PolíticaComAfeto #FimDeSemanaÉFamília #AlbertoCarvalho
- Quando um padre serve dois altares, um deles deixa de arder com liberdade
Entre Figuras e Figas: A Comunhão à Sombra da Figueira No coração da teologia católica, a palavra “comunhão” não é um ornamento — é uma raiz. E no entanto, quando um discurso propõe reforçá-la através de uma estrutura paralela, organizada, hierárquica e obediente a uma autoridade fora da diocese, é legítimo perguntar: será essa comunhão ou uma duplicação eclesial disfarçada de fidelidade? O texto recentemente publicado pelo Opus Dei sobre a vocação do sacerdote diocesano à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz (4 de agosto de 2025) apresenta-se como uma exposição serena e inspiradora. No entanto, por detrás das imagens bíblicas, dos testemunhos edificantes e da retórica da fidelidade, levanta-se uma questão séria, que a linguagem suavizada não deve esconder: pode um padre diocesano pertencer formalmente a uma entidade eclesial com estatuto jurídico próprio, submetida a uma prelazia pessoal, sem que isso afete a sua plena pertença ao presbitério local? O documento insiste que não há qualquer conflito: o sacerdote “não abandona nem modifica em nada sua vocação diocesana”. Mas será mesmo assim? Ou estaremos perante uma reinterpretação da noção de incardinação, onde a pertença afetiva, espiritual e formativa é gradualmente deslocada para outro eixo de fidelidade? Em teoria, a incardinação permanece. Na prática, a formação espiritual, os retiros, os círculos de meditação, os diretores de consciência, o léxico, os padrões de vida, o tempo e até a linguagem emocional do clero diocesano vinculado ao Opus Dei passam a orbitar em torno de uma estrutura exterior ao bispo. Isto não seria um problema se estivéssemos a falar de um movimento de leigos. Mas quando se trata de sacerdotes — homens cuja obediência ao ordinário é parte intrínseca da sua consagração — qualquer dupla filiação merece discernimento rigoroso. A própria eclesiologia do Concílio Vaticano II, sobretudo na Presbyterorum Ordinis, insiste na unidade orgânica do presbitério em torno do bispo, como expressão visível da comunhão eclesial. Quando um grupo de padres recebe acompanhamento espiritual, orientações e até atribuições de missão por via de uma organização à parte, surge inevitavelmente a sensação de “clero dentro do clero” — uma fraternidade particular dentro da fraternidade comum, ainda que se proclame fidelíssima à diocese. Claro que há muitos modos de viver o sacerdócio. Claro que a Igreja valoriza a diversidade de carismas e os apoios à vida espiritual dos padres. Mas há um limite: quando a pertença a um instituto começa a reconfigurar a identidade pastoral, espiritual e relacional de um padre, esse limite aproxima-se perigosamente. E o mais curioso é que se insiste tanto em que “nada muda”, que quase se denuncia o contrário. Porque o que de facto se procura no texto — e é legítimo reconhecê-lo — é uma maior perfeição sacerdotal. Só que essa perfeição é proposta não na via comum da diocese, mas numa via específica, codificada, regimentada, com estatutos e promessas — ainda que isso se disfarce sob a linguagem da figueira de Natanael. Perguntemos com honestidade: como pode o bispo exercer plenamente o seu pastoreio quando parte dos seus padres são formados espiritualmente fora do seminário, guiados espiritualmente por outros que não ele, integrados numa lógica que não responde nem reporta diretamente ao ordinário, mas ao prelado de uma prelazia pessoal? Ainda que se diga o contrário, a realidade funcional — eclesial, espiritual e pastoral — torna-se inevitavelmente dual. Não se trata de julgar a intenção dos que se associam à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz. Muitos são homens bons, generosos, autênticos servidores de Deus. Mas a boa vontade individual não corrige a fragilidade da estrutura eclesial que se cria. A comunhão não é apenas uma fidelidade jurídica; é também uma linguagem simbólica, um tempo partilhado, um sentido pastoral comum. Quando isso se esvai, o corpo começa a cindir-se, mesmo que os membros continuem a bater no mesmo coração. A pergunta que se impõe, à luz da eclesiologia católica, é simples mas séria: quem forma o clero diocesano? A quem pertence o coração dos padres? E, se a resposta não for unívoca, talvez estejamos menos à sombra de uma figueira bíblica e mais à sombra de um equívoco. AC Entre Figuras e Figas #Igreja #OpusDei #Presbitério #ComunhãoEclesial #Teologia #AlbertoCarvalho











