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Emma Bonino: presa em 1975, funeral de Estado em 2026

há 4 dias
3 min de leitura

Emma Bonino: do aborto clandestino ao funeral de Estado


Em 1975, denunciou à polícia o aborto que fizera ilegalmente. Depois, levou para o Parlamento e para o governo italiano campanhas pelos direitos civis, contra a pena de morte e em defesa dos migrantes.


No dia das eleições de 1975, Emma Bonino apresentou-se numa esquadra e declarou que fizera um aborto ilegal. A polícia acabou por deter a mulher que ali chegara de livre vontade para confessar um crime. Ficou presa durante três semanas e o processo prolongou-se por vários anos.


Imagem editorial em tons suaves de Roma com o rio Tibre, uma ponte e a cúpula de São Pedro ao longe, com o texto centrado “Emma Bonino: denunciou-se em 1975, funeral de Estado em 2026” e “Atlantic Lisbon” abaixo.
Emma Bonino: a política e a ativista italiana foi uma internacionalista convicta ao longo de toda a carreira.

Meio século mais tarde, Bonino morreu aos 78 anos e recebeu um funeral de Estado. A decisão coube ao governo de Giorgia Meloni. A primeira-ministra escreveu que as histórias e as sensibilidades de ambas sempre tinham sido distantes, mas reconheceu o peso de Bonino na vida pública italiana.


Bonino crescera numa quinta nas montanhas do Piemonte, filha de meeiros. Descreveria mais tarde a infância como um «tédio mortal», passado entre vacas, crianças de outras famílias e a tarefa diária de levar os porcos a pastar. O pai dizia que era teimosa como uma mula.


Estudou línguas modernas na Universidade Bocconi, em Milão. Dedicou a tese a Malcolm X.


Pouco depois de terminar os estudos, engravidou sem ser casada. Em Itália, o aborto era crime e a Igreja Católica conservava uma influência considerável na política e na legislação do país. Um ginecologista que anteriormente lhe dissera que era infértil ofereceu-se para interromper a gravidez mediante o pagamento de uma quantia elevada. Bonino recusou.


Apanhou um comboio para Florença, onde um médico ligado a círculos feministas radicais realizou o procedimento por um valor bastante inferior. Décadas depois, numa entrevista à televisão pública italiana RAI, Bonino ainda recordava a saída clandestina de casa, durante a noite, para procurar o médico. Falou da humilhação associada àquele percurso.


Juntou-se depois à campanha do Partido Radical pela legalização do aborto. Acompanhava mulheres até Florença, participava em manifestações e fazia greves de fome. A autodenúncia de 1975 fazia parte dessa campanha de desobediência civil.


Silvana Agatone, cirurgiã e cofundadora da rede Laiga 194, recordou Bonino como uma mulher determinada, clara, sincera e muito corajosa. O nome da organização remete para a Lei n.º 194, aprovada em 1978, que legalizou o aborto durante o primeiro trimestre de gravidez. Agatone descreveu também a mortalidade associada aos abortos clandestinos e a importância que o exemplo de Bonino teve para outras mulheres.


Bonino foi eleita para o Parlamento italiano em 1976. Continuou a dedicar-se à legalização do aborto, mas assumiu outras campanhas, entre elas a abolição da pena de morte e a proibição das minas terrestres.


Nas décadas seguintes, foi deputada, comissária europeia, ministra do Comércio Internacional e dos Assuntos Europeus e ministra dos Negócios Estrangeiros. A associação pública quase permanente ao aborto incomodava-a. Chegou a queixar-se de ter sido reduzida a «especialista do útero».


Entretanto, deslocara-se a zonas de guerra na antiga Jugoslávia, no Ruanda, no Sudão e no Afeganistão. Participou também na campanha pela criação do Tribunal Penal Internacional, destinado a julgar responsáveis por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.


Enrico Letta, o antigo primeiro-ministro que a nomeou ministra dos Negócios Estrangeiros, afirmou ao Financial Times que Bonino procurava ajudar os fracos contra os fortes e levava esses objetivos para o interior das instituições com grande disciplina.


Romano Prodi trabalhou com ela quando Bonino foi ministra do Comércio Internacional e dos Assuntos Europeus, entre 2006 e 2008. Descreveu-a ao mesmo jornal como uma liberal em matéria económica cuja atividade política se concentrava em direitos concretos, num sentido mais amplo de justiça e em causas esquecidas.


Durante a crise migratória europeia, Bonino apoiou a intervenção dos meios navais e aéreos italianos no resgate de pessoas que atravessavam o Mediterrâneo em embarcações sobrelotadas e sem condições de segurança. As operações italianas permitiram salvar e desembarcar em portos do país centenas de milhares de migrantes.


O Papa Francisco reconheceu publicamente esse trabalho e incluiu Bonino entre as grandes figuras de Itália. A apreciação tinha um significado particular devido ao longo confronto entre a ativista e a Igreja Católica em torno do aborto.


Quando Bonino morreu, o funeral de Estado reuniu representantes de um país que discutira durante décadas muitas das causas que ela defendera. Meloni não tentou apagar a distância política entre ambas. Registou-a na própria homenagem e reconheceu, apesar dela, o lugar ocupado por Emma Bonino na história pública de Itália.



Fonte: obituário de Emma Bonino, Financial Times, 19/20 de setembro de 2026, por Amy Kazmin. Citações de Enrico Letta e Romano Prodi; citação a Emma Bonino à RAI, 2023.


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